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<dcvalue element="date" qualifier="issued" language="es_ES">1995</dcvalue>
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<dcvalue element="contributor" qualifier="author" language="es_ES">Corden, W. Max</dcvalue>
<dcvalue element="doctype" qualifier="null" language="es_ES">Coediciones</dcvalue>
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<dcvalue element="title" qualifier="null" language="es_ES">Una zona de libre comercio en el Hemisferio Occidental: posibles implicancias para América Latina</dcvalue>
<dcvalue element="description" qualifier="null" language="es_ES">Incluye Bibliografía</dcvalue>
<dcvalue element="relation" qualifier="ispartof" language="es_ES">En: La liberalización del comercio en el Hemisferio Occidental - Washington, DC : BID/CEPAL, 1995 - p. 13-40</dcvalue>
<dcvalue element="project" qualifier="null" language="es_ES">Proyecto Apoyo al Proceso de Liberalización Comercial en el Hemisferio Occidental</dcvalue>
<dcvalue element="identifier" qualifier="uri" language="">http://hdl.handle.net/11362/1510</dcvalue>
<dcvalue element="date" qualifier="accessioned" language="">2014-01-02T14:51:16Z</dcvalue>
<dcvalue element="date" qualifier="available" language="">2014-01-02T14:51:16Z</dcvalue>
<dcvalue element="description" qualifier="provenance" language="es_ES">Made available in DSpace on 2014-01-02T14:51:16Z (GMT). No. of bitstreams: 0
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<dcvalue element="topic" qualifier="spanish" language="es_ES">POLÍTICA COMERCIAL Y ACUERDOS COMERCIALES</dcvalue>
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Margarita Olivera
Maria Gabriela Podcameni
Maria Cecília Lustosa
Letícia Graça
A dimensão de gênero 
no Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil
As mulheres no contexto  
da transformação social e ecológica 
da economia brasileira
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Documentos de Projetos 
A dimensão de gênero no Big Push  
para a Sustentabilidade no Brasil 
 As mulheres no contexto da transformação social e ecológica  
da economia brasileira 
Margarita Olivera 
Maria Gabriela Podcameni 
Maria Cecília Lustosa 
Letícia Graça 
Este documento foi elaborado por Margarita Olivera do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (IE/UFRJ) e Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos (NuEFem/IE/UFRJ), Maria Gabriela 
Podcameni do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e Rede de Pesquisa em Sistemas Produtivos e Inovativos 
Locais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Redesist/UFRJ), Maria Cecília Lustosa do Mestrado Profissional em 
Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação da Universidade Federal do Rio de Janeiro 
(Profnit/UFRJ) e Rede de Pesquisa em Sistemas Produtivos e Inovativos Locais do Instituto de Economia 
(Redesist/UFRJ) e Letícia Graça do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos do Instituto de 
Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NuEFem/IE/UFRJ), sob a coordenação de Camila Gramkow, 
Oficial de Assuntos Econômicos do Escritório no Brasil da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe 
(CEPAL), no âmbito das atividades do projeto do Escritório da CEPAL no Brasil/Representação no Brasil da Fundação 
Friedrich Ebert Stiftung (FES): “A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: as mulheres no 
contexto da transformação social e ecológica da economia brasileira”. 
As opiniões expressas neste documento, que não foi submetido à revisão editorial, são de exclusiva responsabilidade 
das autoras e podem não coincidir com as visões da CEPAL, da FES ou das instituições às quais as autoras são filiadas. 
 
Publicação das Nações Unidas 
LC/TS.2021/6 
LC/BRS/TS.2021/1 
Distribuição: L 
Copyright © Nações Unidas, 2021 
Copyright © Fundação Friedrich Ebert Stiftung, 2021 
Todos os direitos reservados 
S.20-00925 
Esta publicação deve ser citada como: M. Olivera, M. G. Podcameni, M. C. Lustosa e L. Graça, “A dimensão de gênero no Big 
Push para a Sustentabilidade no Brasil: as mulheres no contexto da transformação social e ecológica da economia brasileira”, 
Documentos de Projetos (LC/TS.2021/6; LC/BRS/TS.2021/1), Santiago e São Paulo, Comissão Econômica para a América Latina 
e o Caribe e Fundação Friedrich Ebert Stiftung, 2021. 
A autorização para reproduzir total ou parcialmente esta obra deve ser solicitada à Comissão Econômica para a América Latina e 
o Caribe (CEPAL), Divisão de Documentos e Publicações: publicaciones.cepal@un.org. Os Estados-membros das  Nações 
Unidas e suas instituições governamentais podem reproduzir esta obra sem autorização prévia. Solicita-se apenas que 
mencionem a fonte e informem à CEPAL tal reprodução. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 3 
 
Índice 
Sumário executivo ............................................................................................................................... 7 
Introdução .......................................................................................................................................... 13 
I. Os principais impactos da inação sobre a mudança do clima na dimensão de gênero .......... 15 
A. As mudanças climáticas e as desigualdades na dimensão de gênero                                                      
a partir de um olhar interseccional .................................................................................... 16 
B. As mulheres e a reprodução no Brasil ................................................................................ 18 
C. Os efeitos da mudança climática sobre os corpos feminizados .......................................... 24 
II. Principais marcos normativos para a igualdade de gênero no contexto da mitigação da 
mudança do clima no Brasil ..................................................................................................... 27 
A. A emergência da dimensão de gênero nos principais marcos normativos                           
internacionais sobre clima e o papel do Brasil .................................................................... 28 
B. O enfoque de gênero em políticas ambientais selecionadas no Brasil ................................29 
C. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e o enfoque de gênero .................... 31 
D. A Agenda regional de sustentabilidade e gênero na América Latina e no Caribe ............... 32 
Estratégia de Montevidéu ................................................................................................. 32 
Compromisso de Santiago ................................................................................................ 34 
E. Considerações finais .......................................................................................................... 34 
III. A opressão das mulheres a partir do ponto de vista teórico ................................................... 35 
A. Divisão sexual do trabalho como elemento marcante do capitalismo ................................ 36 
B. A agenda neoliberal e a nova divisão internacional do trabalho pioram                                        
as condições para as mulheres .......................................................................................... 38 
C. Sexismo, racismo e a interseccionalidade das opressões ................................................... 38 
D. Racismo ambiental ............................................................................................................ 39 
E. Romper com a colonialidade do gênero ............................................................................ 40 
F. As resistências, os comuns e o Feminismo Comunitário .................................................... 41 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 4 
 
IV.  Impacto dos investimentos para mitigação e adaptação às mudanças climáticas                                  
na dimensão de gênero ........................................................................................................... 43 
A. Investimentos em setores da economia verde: análise dos empregos verdes .................... 44 
Quais são os empregos verdes? ......................................................................................... 45 
Empregos verdes e gênero ................................................................................................46 
B. Água e esgotamento sanitário ...........................................................................................49 
O perfil da exclusão ........................................................................................................... 50 
Os investimentos necessários ............................................................................................ 51 
Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) ........................................................................ 52 
C. Mobilidade urbana ............................................................................................................ 52 
A importância dos investimentos para as mulheres: deslocamento e uso do tempo .......... 54 
D. Segurança alimentar e nutricional e agricultura familiar .................................................... 57 
E. Saúde, mudança climática e investimentos ....................................................................... 61 
Mulheres como cuidadoras não remuneradas: aumentando a carga de trabalho                               
e a exposição ............................................................................................................. 61 
Mulheres como cuidadoras remuneradas: exposição e trabalho precário ..........................62 
Mulheres e exclusão dos sistemas de saúde: por uma visão interseccional ........................62 
COVID-19 como exemplo dos efeitos de eventos extremos ............................................... 63 
Consequências da falta de investimentos e as políticas de ajuste estrutural na saúde ........64 
F. Setor elétrico..................................................................................................................... 65 
O setor elétrico e as possibilidades de mitigação ............................................................... 65 
O acesso e a exclusão no uso da eletricidade .................................................................... 66 
Inclusão produtiva das mulheres no setor .......................................................................... 67 
G. Considerações finais ..........................................................................................................68 
V. Recomendações e diretrizes de políticas públicas para um Big Push para                                                      
a Sustentabilidade com igualdade de gênero e desenvolvimentos futuros ........................... 71 
A. Política integral de cuidados .............................................................................................. 72 
Questões para estruturação de um Sistema Nacional de Cuidados ................................... 72 
B. Infraestrutura e transição digital........................................................................................ 74 
1. Transformação da matriz elétrica com maior participação de renováveis .................. 74 
2. Serviços de água e saneamento básico ...................................................................... 75 
3. Fomento ao Sistema Produtivo e Inovativo de Saúde ................................................ 76 
4. Investimentos em setores geradores de empregos verdes ......................................... 77 
5. Transição digital ........................................................................................................ 78 
C. Agricultura familiar, segurança alimentar e nutricional e soberania alimentar ................... 79 
D. Autonomia e representação das mulheres no Brasil .......................................................... 82 
E. Desenvolvimentos futuros................................................................................................. 84 
Bibliografia ......................................................................................................................................... 87 
Anexo ................................................................................................................................................. 95 
Anexo 1 Lista de participantes na oficina virtual “A dimensão de gênero e os investimentos 
sustentáveis”, realizada em 23 de setembro de 2020 ........................................................ 96 
 
 
  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 5 
 
Gráficos 
Gráfico 1 Proporção de pessoas de 14 anos ou mais de idade que realizaram                                   
afazeres domésticos no próprio domicílio, por sexo, condição no domicílio                             
e tipo de afazer doméstico, 2019 ............................................................................... 19 
Gráfico 2 Participação das mulheres nos setores de atividade das seções da CNAE 2.0,                     
Brasil, 2018 ................................................................................................................ 22 
Gráfico 3 Participação dos salários das mulheres no total de salários por faixas                                         
de remuneração grupados em salários mínimos (SM) ................................................ 23 
Gráfico 4 Participação das mulheres nas faixas salariais de salário mínimo (SM)                                           
na subcategoria atividades de teleatendimento de empregos verdes,                                     
sob a classificação desenvolvida por Muçouçah (2009), Brasil, 2018 .......................... 47 
 
Tabelas 
Tabela 1  Taxa de realização de afazeres domésticos e de cuidados no próprio domicílio                           
e média de horas dedicadas a afazeres domésticos e de cuidados,                                        
por sexo e situação de ocupação na semana de referência, 2019 ............................... 18 
Tabela 2  Rendimento médio real do trabalho principal, taxa de desocupação                                       
e proporção de empregados e trabalhadores sem carteira assinada,                                 
segundo gênero e raça – 2018 .................................................................................... 21 
Tabela 3  Análise do enfoque de gênero em políticas ambientais brasileiras selecionadas ........ 30 
Tabela 4  Participação das mulheres no emprego formal das categorias de empregos                           
dos setores verdes, segundo a classificação desenvolvida por Muçouçah (2009),     
Brasil, 2018 ................................................................................................................46 
Tabela 5  Participação feminina no emprego formal das atividades ligadas à preservação                      
da qualidade ambiental e baixo potencial de carbono, segundo classificação 
desenvolvida por Bakker e Young (2011), Brasil, 2018 ................................................ 48 
Tabela 6  Participação das mulheres no emprego formal nas atividades limpas com potencial 
para “esverdear” outros setores da economia, segundo classificação                         
desenvolvida por Bakker e Young (2011), Brasil, 2018 ................................................ 48 
Tabela 7  Índice de atendimento com água e esgotos dos municípios com prestadores de 
serviços participantes do SNIS em 2018, por macrorregião geográfica e Brasil .......... 51 
 
Mapa 
Mapa 1  Proporção das oportunidades de trabalho e de educação fundamental                         
acessíveis por transporte público em até 60 minutos, São Paulo ............................... 56 
 
 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 7 
 
Sumário executivo 
A atual conjuntura é marcada pelo enfrentamento da crise sanitária provocada pelo COVID-19 e busca 
da recuperação da atividade econômica, dos empregos e da qualidade de vida das pessoas no Brasil e 
no mundo. Aos aspectos conjunturais, somam-se os desafios estruturais tais como: os limites 
planetários, a emergência climática e as iniquidades, notadamente as de gênero. É preciso construir um 
novo estilo de desenvolvimento, em cujo centro estejam a igualdade e a sustentabilidade.  
O objetivo deste relatório é contribuir para o debate crítico acerca das políticas e medidas ligadas 
ao enfrentamento da mudança do clima que possibilitem alcançar a igualdade de gênero no Brasil. O 
estudo aborda a dimensão de gênero e as interseccionalidades no contexto da mitigação e da adaptação 
às mudanças climáticas com base em evidências da literatura, de dados estatísticos, da análise do 
quadro de políticas a nível nacional, regional e internacional, bem como de comentários e sugestões 
resultantes de uma oficina virtual com participação de diferentes segmentos da sociedade, reunindo 
experiências ligadas a gênero, meio ambiente, clima e desenvolvimento. Ao final, são apresentadas 
recomendações de políticas no marco da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade.  
O Capítulo I faz uma breve abordagem dos principais impactos da inação sobre a mudança do 
clima na dimensão de gênero. Os efeitos das mudanças climáticas não são iguais em todos os lugares e 
para todas as pessoas. Os dados apresentados no relatório destacam a situação de vulnerabilidade das 
mulheres, que sofrem mais os efeitos socioeconômicos associados aos impactos das mudanças 
climáticas. Elas são mais pobres, tanto em termos monetários quanto de tempo disponível, são 
sobrecarregadas de trabalho de cuidados não remunerado, têm condições de emprego, salário e 
contratação mais precárias, com menos direitos trabalhistas, são as primeiras a perder o emprego e/ou 
as suas rendas diante de situações de crises e apresentam menor representação nos espaços de tomada 
de decisão. Porém, continuam sendo as principais responsáveis pelos cuidados e tarefas domésticas, 
remuneradas e não remuneradas. Assim, diante dos efeitos das mudanças climáticas, as mulheres estão 
na linha de frente, pelo qual experimentam uma sobrecarga de trabalho física e mental e uma maior 
exposição, sobretudo no caso das mulheres em condições de maior vulnerabilidade, e um menor acesso 
a ferramentas e recursos para enfrentar tais mudanças.  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 8 
 
Por exemplo, o impacto climático na agricultura pode afetar significativamente a vida das 
mulheres, dada a importância delas na produção de alimentos em escala global. O aquecimento do 
planeta aumentará a incidência de doenças e enfermidades e tornará as mulheres mais expostas a 
situações de contágios, pois as mulheres se destacam pela sua participação elevada nos setores 
associados à economia dos cuidados. Nas áreas com menor abundância hídrica e menor 
desenvolvimento, as mulheres são as principais responsáveis pelo abastecimento de água doméstica e 
de energia para cozinhar e aquecimento, bem como para a segurança alimentar, e são intensamente 
afetadas pela seca, chuvas incertas e demais consequências do desmatamento e da mudança do clima. 
O processo migratório potenciado a partir da intensificação da seca, pode gerar fortes pressões sobre a 
utilização e distribuição dos serviços urbanos, como o transporte coletivo e os serviços de saúde. 
Existem importantes perspectivas de gênero e interseccionalidade em todos os aspectos das 
mudanças climáticas que precisam ser estudadas e incluídas. A situação de iniquidade na qual os corpos 
feminizados encontram-se hoje deve ser severamente agravada com as mudanças climáticas. O quadro 
apresentado neste capítulo sublinha a necessidade de ação. 
O Capítulo II evidencia a ausência de olhar de gênero nas políticas brasileiras a partir de uma 
análise dos principais marcos normativos para a igualdade de gênero no contexto da mitigação da 
mudança do clima, utilizando para tanto a implementação do Acordo de Paris e da Agenda 2030 e seus 
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2030). Como resultado, elenca as medidas e ações 
de implementação da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, da sua sigla em inglês) do Brasil 
e instrumentos e processos de planejamento a ela relacionados. Embora o documento oficial da NDC 
apresentada pelo governo brasileiro mencione explicitamente o gênero, uma análise das políticas 
relacionadas demonstra que a maior parte delas não menciona gênero e, portanto, não apresenta 
estratégias de transversalização dessa dimensão. No que diz respeito aos mecanismos de 
implementação da Agenda 2030 no Brasil, os marcos regionais da dimensão de gênero, como a 
Estratégia de Montevidéu e o Compromisso de Santiago, não apresentam mecanismos de 
implementação bem estruturados em acordo com a legislação brasileira, contribuindo para a 
invisibilização das mulheres nesses marcos normativos e seus dispositivos jurídicos, mesmo que na 
prática elas protagonizem muitas medidas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas. A partir 
dessas evidências, conclui-se que as políticas climáticas no Brasil não têm se coordenado e incorporado 
a dimensão de gênero. Desenvolver essa coordenação pode ser uma oportunidade para transformar o 
estilo de desenvolvimento do país rumo à sustentabilidade nos pilares social, econômico e ambiental. 
O Capítulo III apresenta algumas vertentes e epistemologias do feminismo necessárias para 
entender o caráter sistêmico das situações de opressão que vivenciam as mulheres e dissidências e 
causam profundas brechas de gênero, manifestas sob diferentes formas na sociedade, como 
evidenciado no Capítulo I. Com a divisão sexual do trabalho, que se aprofunda e se hierarquiza durante 
o capitalismo, as mulheres passam a ser responsáveis pelo trabalho reprodutivo, realizado no âmbito 
doméstico e altamente desvalorizado e invisibilizado, enquanto os homens se dedicam ao trabalho 
produtivo, remunerado, e que tem por objetivo a produção para o mercado na esfera pública. As 
mulheres são excluídas ou minimizadas no mundo do trabalho. As ocupações associadas às tarefas 
domésticas e de cuidados (remuneradas ou não) são responsabilidade quase exclusiva delas, enquanto 
as relações de exploração são piores quando é incluído um olhar interseccional, de raça e classe. Para 
manter a opressão e subalternidade, o capitalismo precisa de um sistema racializado, estratificado, 
generificado, sexualizado e baseado na família nuclear. As mulheres continuam sendo mais pobres, 
mais dependentes, com menos direitos, com menos acesso à terra e com menos tempo disponível, dada 
a sobrecarga de cuidados.  
Porém, as mulheres foram criando espaços de organização e resistência. Existe uma relação 
indissociável entre essas mulheres e a terra, a sua ancestralidade, os saberes, e, nesse sentido, sempre 
se mostraram mais comprometidas com o cuidado desses bens ‘comuns’ e a sua defesa. As mulheres 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 9 
 
no mundo estão na linha de frente da luta e mostrando formas de produção, consumo e organização 
social com bases colaborativas e comunitárias, em contraposição às relações tradicionais individualistas 
e concorrenciais, como destacam o feminismo comunitário e o ecofeminismo.  
O Capítulo IV destaca as áreas nas quais os investimentos têm maior potencial para contribuir 
com um novo estilo de desenvolvimento que considere a igualdade de gênero e a sustentabilidade, com 
foco no enfrentamento das mudanças climáticas, de acordo com critérios previamente definidos. São 
elas: empregos verdes, saneamento, mobilidade urbana sustentável, segurança alimentar e nutricional, 
saúde e setor elétrico. 
A geração de empregos verdes representa uma das principais oportunidades da realização de 
investimentos no âmbito de uma estratégia do Big Push para a Sustentabilidade. Foi realizada a análise 
dos empregos verdes formais no Brasil por meio de duas classificações que consideram os setores de 
atividade produtiva. Os resultados apontam para uma predominância masculina nos empregos verdes, 
sendo os setores de maior participação feminina ligados aos cuidados (educação, saúde e administração 
pública), sublinhando a necessidade de considerar explicitamente a dimensão de gênero em estratégias 
de investimentos públicos e/ou privados de baixo carbono, resilientes e sustentáveis no Brasil.  
O saneamento é um setor essencial de investimento quando se pensa em adaptação aos eventos 
extremos, produto das mudanças climáticas, e para a melhoria das condições de vida e de saúde, 
especialmente das mulheres e meninas. Os investimentos em saneamento são essenciais para reduzir 
as sobrecargas de trabalho doméstico das mulheres, melhorar as condições de saúde através de uma 
menor exposição a doenças graves e diminuir as inequidades regionais, especialmente no caso da região 
semiárida. A universalização do serviço de água e esgoto está estabelecido no Plano Nacional de 
Saneamento Básico (Lei nº 11.445 de 2007), que estimou investimentos de R$ 508 bilhões em 20 anos 
para atingir a meta de saneamento dentro do prazo estabelecido de 2033. Entre 2010 e 2018, os 
investimentos foram em média 13 bilhões, bastante abaixo da meta, e os mesmos não se concentraram 
nas regiões que registram maiores déficit no fornecimento do serviço. Há, portanto, a urgência em 
reparar essas situações a fim de que a lei seja cumprida. 
O setor de transporte é um setor chave para a economia e pode contribuir tanto para a mitigação, 
a partir de investimentos em modais e tecnologias de transporte menos poluentes e de baixa ou zero 
emissões, quanto para a adaptação, ao desenvolver meios de transporte estruturalmente mais 
resilientes, menos suscetíveis às consequências de eventos extremos e com maior acessibilidade para 
as mulheres. O Brasil conta com uma matriz elétrica abastecida majoritariamente por energias 
renováveis, vastos recursos naturais e competências produtivas e tecnológicas na cadeia automotiva, 
apresentando forte potencial para impulsionar políticas públicas de eletromobilidade urbana 
sustentável, com foco no transporte coletivo, que contribuam para um estilo de desenvolvimento 
sustentável do ponto de vista ambiental, social e econômico, por meio de investimentos direcionados a 
ampliar a competitividade setorial. 
A segurança alimentar e nutricional brasileira torna-se vulnerável diante da inação diante das 
mudanças climáticas, com previsão de gerar perdas para todos os produtores agropecuários. Os 
investimentos a serem realizados para mitigação e adaptação às mudanças climáticas no contexto do 
Big Push para a Sustentabilidade devem ser concentrados em atividades agrícolas menos impactantes 
ou até mesmo restauradoras dos ecossistemas, priorizando a agricultura familiar (AF), grande 
produtora de alimentos para o consumo interno no país -seja para o mercado interno ou autoconsumo- 
de forma que seja possível colocar as mulheres como protagonistas da mitigação ou adaptação às 
mudanças climáticas. As atividades pesqueiras, por exemplo, apresentam enorme potencial para 
garantia da segurança alimentar e nutricional. Os investimentos na aquicultura sustentável são uma 
possibilidade de mitigação das mudanças climáticas, pela parcial substituição da carne bovina pelo 
pescado, e de adaptação, pois também substitui a produção da pesca extrativa. Os investimentos na 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 10 
 
produção agroecológica e orgânica são importantes tanto para garantir alimentos seguros para o 
consumo humano quanto para a proteção do meio ambiente. Os investimentos nos sistemas 
agroflorestais (SAFs) são essenciais para uma agricultura de baixo carbono e para a inclusão social e são 
formas de produção e de consumo que garantem modelos de vida nos quais a relação das mulheres com 
os territórios é preservada, valorizando a recuperação dos saberes dos povos e comunidades 
tradicionais. São igualmente relevantes os investimentos na preservação de sementes crioulas, nos 
reflorestamentos de áreas degradadas com espécies nativas, na recuperação de nascentes, nas hortas 
comunitárias e no uso de bioenergia (PBMC, 2013b), que podem trazer benefícios diretos na vida das 
agricultoras familiares e ajudam a combater a crise climática.  
A saúde humana sofre sérias ameaças diante da inação às adversidades climáticas. As mudanças 
do clima aumentam as situações de risco em determinadas áreas onde podem agravar os casos de 
doenças tropicais, de veiculação hídrica, transmitidas por vetores e por vias respiratórias. A falta de 
investimentos na saúde é uma lacuna histórica no sistema de saúde brasileiro e nesse contexto o 
Sistema Único de Saúde (SUS) revela-se essencial. Há diversos desafios para assegurar uma vida 
saudável e promover o bem-estar, especialmente se considerar a garantia do acesso à saúde das 
mulheres. Destaca-se a necessidade de postos de saúde e hospitais públicos devidamente equipados 
para atender às mulheres e meninas do meio rural, cujas carências são enormes e comprometem a 
qualidade de vida no campo. É essencial a participação de todas as mulheres, independentemente de 
sua cor/raça e da sua sexualidade, nas decisões de investimentos em saúde, garantindo a qualidade da 
saúde pública e gratuita. A construção de um sistema integral de cuidado irá reduzir o tempo de trabalho 
não remunerado das mulheres e garantir acesso a serviços de saúde de qualidade. Ademais, o 
fortalecimento de um Sistema de Produção e Inovação da Saúde deve fazer parte desta construção  
O setor energético é um setor chave para a mitigação, embora as emissões do setor representem 
28% do total no Brasil, elas vêm crescendo rapidamente, tendo praticamente dobrado de 1990 a 2010. 
O cardápio de opções para a composição da matriz elétrica do futuro é extenso e tem se ampliado com 
o rápido desenvolvimento tecnológico. Não existe uma única combinação ideal, já que cada situação é 
particular. No contexto do Big Push para a Sustentabilidade, destaca-se que os investimentos devem 
ser complementares e coordenados rumo à construção de uma matriz mais sustentável, resiliente e 
baixa em carbono e, simultaneamente, mais inclusiva e promotora de desenvolvimento, dada a 
essencialidade da energia para a população brasileira. 
Investir em energias renováveis é um caminho para a universalização do acesso à eletricidade, 
uma vez que para algumas fontes a escala de geração pode ser ajustada conforme a demanda e não 
necessariamente precisam estar conectadas à rede de transmissão. Essas fontes de energia são 
fundamentais para ampliar o acesso de mulheres e meninas indígenas, quilombolas, do campo, das 
águas e das florestas.  
Destarte, os investimentos em energias renováveis podem contribuir substancialmente para um 
estilo de desenvolvimento mais igualitário no acesso a oportunidades e na fruição das eficiências 
econômicas. Por fim, deve ser ressaltado o potencial de geração de oportunidades de inclusão produtiva 
para mulheres. Com o conjunto apropriado de políticas, as mulheres poderiam se tornar beneficiárias 
dos novos postos de trabalho gerados pelos investimentos em energias renováveis. Mas há um desafio 
significativo perante o potencial e a perspectiva de geração de emprego nos setores de energias 
renováveis: não permitir que a transição para uma economia de baixo carbono seja um processo 
desigual do ponto de vista de perspectiva de geração de empregos para homens e mulheres.  
O Capítulo V busca desenvolver recomendações e diretrizes para uma estratégia de Big Push para 
a Sustentabilidade no Brasil, identificando políticas públicas que promovam investimentos 
transformadores rumo à sustentabilidade e à igualdade de gênero no país. Foram identificados quatro 
eixos principais para orientar a formulação de políticas que visem transformar estruturalmente o estilo 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 11 
 
de desenvolvimento rumo à sustentabilidade econômica, social e ambiental, contribuindo para a 
igualdade de gênero, em linha com um Big Push para a Sustentabilidade: (i) política integral de cuidados 
que foque na corresponsabilidade e reduza a pobreza do tempo de mulheres e meninas;                                       
(ii) investimentos em infraestrutura, setores e tecnologias que geram empregos verdes que sejam 
inclusivos para romper com a segmentação do mercado de trabalho e garantir uma transição realmente 
justa; (iii) promoção do associativismo e a recuperação dos saberes nas redes de mulheres, e 
comunidades nas áreas rurais, explorando a proposta de arranjos produtivos locais para garantir a 
inclusão produtiva, com geração de ocupação e emprego, segurança alimentar e organizações da 
produção ambientalmente saudáveis, inclusivas e de baixo carbono; e (iv) promoção da participação 
social e política das mulheres como formas alternativas de organização.  
Uma das principais limitações do presente estudo reside na ausência de dados relevantes, 
incluindo dados sobre a economia do cuidado (remunerada e não remunerada), dados sobre mulheres 
em sua diversidade (indígenas, quilombolas, do campo, das águas e das florestas) e dados que permitam 
cruzar informações sobre a dimensão de gênero com a dimensão econômica, social e ambiental, 
ausentes nas estatísticas oficiais. Essa lacuna de informações torna a análise sobre a dimensão de 
gênero no desenvolvimento sustentável especialmente desafiadora. Por essa razão, uma primeira 
recomendação seria aprimorar e avançar na produção de dados e estatísticas sobre a dimensão de 
gênero no Brasil, nos quais seja possível identificar a situação de acesso e exclusão aos serviços 
mencionados, o nível de educação e a situação de pobreza multidimensional, assim como a 
empregabilidade, níveis de renda e distribuição dos cuidados, com um nível de abertura tal que permita 
realizar uma análise interseccional, identificando as caraterísticas das mulheres em sua total 
diversidade: pretas, pardas, indígenas, quilombolas, periféricas, das águas, das florestas, ribeirinhas, do 
campo e da cidade.  
No intuito de aprofundar o entendimento sobre a relação entre mudança climática e a inclusão 
das mulheres, jovens e meninas a partir de realidades específicas, reconhecendo as limitações e lacunas 
identificadas nesse relatório, foram elencadas sugestões para uma agenda de pesquisas para dar 
continuidade nas recomendações de políticas mais inclusivas, a saber: 
i) Identificação de lacunas de dados e informações no que se refere à interseccionalidade para 
melhor identificação de situações de exclusão. Os estudos de casos com recortes locais e 
regionais e foco nas relações entre as mulheres das comunidades quilombolas e indígenas 
e as mudanças climáticas são essenciais para complementar as análises deste relatório.  
ii) Realização de estudos sobre setores específicos como desmatamento e queimadas, 
grandes contribuintes para as mudanças climáticas no Brasil, e os seus efeitos sobre as 
mulheres; a agropecuária exportadora de larga escala e seus impactos nas mudanças do 
clima e a vida das mulheres em comparação à agricultura familiar e de pequena escala. 
iii) Revisão de experiências internacionais, à nível regional e global, de políticas ambientais 
elaboradas com enfoque de gênero, a fim de realizar uma análise comparativa entre 
diferentes marcos normativos para servir como base de conhecimento teórico e prático na 
construção de políticas ambientais brasileiras que incluam a dimensão de gênero, desde a 
formulação, implementação até o seu monitoramento e avaliação. 
iv) Intensificação dos estudos sobre a reduzida participação feminina em determinadores 
setores de atividade considerados “verdes”, bem como as desigualdades salariais neles 
verificadas. Avançar nas críticas às atuais classificações e discutir outras formas de 
identificar atividades que gerem emprego decente é essencial para promover “empregos 
verdes inclusivos”. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 12 
 
v) Promoção de pesquisas que relacionem as inovações socioambientais com as questões de 
gênero e clima. As inovações socioambientais apresentam potencial de solucionar os 
problemas enfrentados pelas mulheres, contribuir para sua autonomia e geração de renda. 
Há um significativo debate acerca das inovações socioambientais desenvolvidas e aplicadas 
em outros países, principalmente no que tange à eletromobilidade, ao saneamento, ao 
acesso à água potável, à alimentação saudável, à energia e à saúde.  
Estas recomendações não têm o intuito de esgotar a agenda de pesquisa que emerge da 
intercessão dos estudos de gênero e mudanças climáticas, mas ressaltam os tópicos relacionados ao 
presente relatório que merecem uma análise à parte. Por fim, é importante sublinhar a imperiosa 
necessidade de mais trabalhos sobre o tema, para melhor entendimento sobre a situação de iniquidades 
que vivenciam as mulheres e que serão agravadas devido a inação perante às mudanças climáticas. 
 
 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 13 
 
Introdução 
A atualidade é marcada por uma conjuntura de busca pela recuperação da atividade econômica, dos 
empregos e da qualidade de vida no Brasil e no mundo. Tem-se debatido os caminhos para essa 
recuperação, já que, aos aspectos conjunturais, somam-se os desafios estruturais que podem tornar as 
economias mais suscetíveis a crises e menos resilientes aos seus impactos. Esses aspectos estruturais, 
que incluem os limites planetários, a emergência climática e a ineficiência da desigualdade, 
notadamente a desigualdade de gênero, determinam a sustentabilidade de longo prazo do 
desenvolvimento. Está mais claro do que nunca que é preciso construir um novo estilo de 
desenvolvimento, em cujo centro estejam a igualdade e a sustentabilidade. É essa a visão que tem 
orientado a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (CEPAL) no 
desenvolvimento de uma abordagem renovada para apoiar os países da região na construção de novos 
estilos de desenvolvimento: o Big Push (ou Grande Impulso) para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). 
O Big Push para a Sustentabilidade é uma abordagem baseada na coordenação de políticas para 
promover investimentos sustentáveis, que produzam um ciclo virtuoso de crescimento econômico, 
geração de emprego e renda e redução de desigualdades e lacunas estruturais, ao mesmo tempo em 
que mantêm e regeneram a base de recursos naturais da qual o desenvolvimento depende (CEPAL/FES, 
2019). No contexto atual, o Big Push para a Sustentabilidade pode ser um eixo orientador para uma 
recuperação transformadora com igualdade e sustentabilidade no tripé social, econômico e ambiental. 
Em linha com a Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o Big Push para a 
Sustentabilidade não deixará ninguém para trás e deve servir para alcançar a igualdade de gênero e 
empoderar todas as mulheres e meninas. 
No marco de seu Programa de Transição Social-Ecológica, a Fundação Friedrich Ebert e a CEPAL, 
por meio seus escritórios no Brasil, vêm colaborando desde 2018 para apoiar os debates sobre a 
construção de um estilo de desenvolvimento mais sustentável no país. O projeto “A dimensão de gênero 
no Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: as mulheres no contexto da transformação social e 
ecológica da economia brasileira” marca um importante passo dessa colaboração, ao visibilizar e fundir 
a dimensão de gênero com esse debate. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 14 
 
O objetivo do projeto é contribuir para o debate crítico sobre políticas e medidas ligadas ao 
enfrentamento da mudança do clima, do ponto de vista da mitigação e da adaptação, que contribuam 
para alcançar a igualdade de gênero, com foco na divisão sexual do trabalho e na organização social do 
cuidado no Brasil. Adota-se a perspectiva da interseccionalidade, considerando, dada a disponibilidade 
de informações e dados, a relevância da questão racial nessa realidade e a diversidade das mulheres 
(negras, indígenas, quilombolas, periféricas). O estudo aborda a dimensão de gênero no contexto dos 
investimentos transformadores para a sustentabilidade no marco da abordagem do Big Push para a 
Sustentabilidade. Baseado em evidências, são oferecidos subsídios para a formulação de políticas que 
promovam oportunidades de emprego e renda para as mulheres, consideradas na sua diversidade, e de 
melhoria da disponibilidade e da qualidade de serviços de cuidado, liberando o tempo das mulheres e 
contribuindo para sua autonomia econômica. 
Com base na revisão da literatura, no levantamento de dados e informações e na análise do 
quadro de políticas nacional, regional e internacional, foi elaborado um relatório preliminar do projeto. 
O referido relatório preliminar foi objeto de discussão em oficina virtual realizada em 23 de setembro 
de 2020, com a participação de especialistas e lideranças da sociedade civil, da academia, do setor 
privado e do poder público com experiência em temas ligados a gênero, meio ambiente, clima e 
desenvolvimento (ver lista de participantes no anexo). As ricas discussões da oficina, bem como os 
comentários e sugestões ao relatório preliminar recebidos por escrito permitiram revisar e aprimorar o 
relatório. O presente relatório final do projeto é, portanto, fruto de um esforço coletivo e das 
contribuições de diversas pessoas com efetiva atuação nos temas abordados. 
É importante salientar que, dadas as limitações do tempo, algumas análises e fenômenos que 
exigem uma maior profundidade de elaboração, não puderam ser incluídos no presente relatório. As 
recomendações de pesquisas futuras apresentadas no final deste documento indicam essas lacunas que 
são áreas frutíferas para desenvolvimento. Por exemplo, embora tenha sido realizado um exercício de 
identificação e análise de seis áreas-chave no contexto do projeto, o setor de uso do solo, mudança de 
uso do solo e florestas e o setor da agropecuária comercial de larga escala não puderam ser 
contemplados devido ao alto grau de especificidades que estes apresentam em relação às demais áreas 
consideradas. Apesar de sua relevância tanto para a mitigação quanto para a adaptação, a análise 
destes setores deve ser objeto de estudos específicos, uma vez que eles apresentam dinâmicas 
complexas e particulares, que incluem desde questões fundiárias até alternativas para manutenção da 
floresta em pé. 
O presente relatório está estruturado da seguinte forma. No Capítulo I, são discutidos os efeitos 
das mudanças climáticas, buscando estabelecer seu impacto na dimensão de gênero no Brasil. 
Argumenta-se que as profundas brechas de gênero existentes no Brasil tendem a ser acentuadas com o 
aquecimento global. No Capítulo II, é avaliada a situação atual de transversalidade e proteção das 
mulheres a partir da análise do marco normativo vigente no Brasil no que se refere à mudança climática 
e proteção ambiental. No Capítulo III, é realizada uma revisão de algumas teorias e epistemologias 
feministas para melhor compreender as condições de exploração e opressão que sofrem os corpos 
feminizados e as soluções que a teoria decolonial e o ecofeminismo propõem para lidar com o 
extrativismo predatório e a mudança do clima. No Capítulo IV, são avaliados os efeitos sobre mulheres 
e meninas dos investimentos para mitigação e adaptação às mudanças climáticas, entendendo que para 
que uma estratégia de Big Push para a Sustentabilidade seja um caminho para atingir a igualdade de 
gênero, a dimensão de gênero deve ser explicitada. Em especial, são analisados os efeitos das 
intervenções em segurança alimentar e nutricional, mobilidade urbana, setor elétrico, saúde humana, 
água e saneamento e empregos verdes. No Capítulo V, o estudo fornece subsídios e diretrizes para a 
formulação de políticas públicas para fomentar investimentos em mitigação e adaptação às mudanças 
climáticas e incorporar a perspectiva de gênero, em linha com a abordagem do Big Push para a 
Sustentabilidade, além de indicar desenvolvimentos futuros. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 15 
 
I. Os principais impactos da inação sobre a mudança 
do clima na dimensão de gênero 
O ponto de partida do Big Push para a Sustentabilidade é a urgência da mudança de estilos de 
desenvolvimento. Não tem sido possível eliminar brechas estruturais de desenvolvimento nas 
economias latino-americanas, tais como redução definitiva de desigualdades sociais, destacadamente 
as desigualdades de gênero e raciais, a diminuição de assimetrias competitivas e tecnológicas ou a 
convergência com patamares superiores de níveis de renda. 
O Brasil e a região América Latina e Caribe vêm apresentando taxas insuficientes de crescimento 
econômico para recuperação dos empregos e erradicação da pobreza, situação que é agravada pela 
crise provocada pela recente pandemia de COVID-19, o que tem contribuído para que a região se situe 
entre as mais desiguais do mundo. A CEPAL (2020b) estima que, mesmo com políticas de redistribuição 
de renda, a erradicação da pobreza somente será possível se o produto interno bruto (PIB) da região 
crescer pelo menos 4% ao ano. Os custos da desigualdade têm se tornado cada vez mais insustentáveis. 
A desigualdade de gênero se manifesta, conforme se assinala neste capítulo, em maiores níveis de 
pobreza das mulheres (tanto em termos monetários quanto de tempo disponível), na sobrecarga de 
trabalho não remunerado e de cuidados, na inserção precária no mercado laboral, no acesso limitado a 
recursos econômicos e tecnológicos, na menor representação nos espaços de tomada de decisão nas 
esferas políticas, econômicas e sociais, bem como na persistência da discriminação e da violência contra 
elas incluindo sua forma mais extrema, que é o feminicídio.  
Soma-se, a esse cenário, a crise da sustentabilidade, que pode ser entendida como padrões de 
produção e consumo incompatíveis com as capacidades da biosfera de continuar oferecendo condições 
biofísicas mínimas para sustentar o bem-estar humano das presentes e futuras gerações (CEPAL/FES, 
2019). Pode-se ver crise da sustentabilidade como “a adversidade das adversidades”, uma vez que ela 
reforça e aprofunda as brechas estruturais que caracterizam o desenvolvimento socioeconômico dos 
países da região. Nas palavras do grande economista latino-americano Raúl Prebisch, ao refletir sobre 
a crise da sustentabilidade ainda na década de 1980: “Não estamos diante de novos problemas, mas de 
problemas velhos que têm se tornado mais graves” (Prebisch, 1980, p.89). Não agir para enfrentar a crise 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 16 
 
da sustentabilidade hoje implica enfrentar amanhã problemas estruturais muito mais agudos, incluindo 
pobreza, migração, insegurança alimentar, perda de produtividade e de competitividade e 
vulnerabilidade externa, com implicações desproporcionais sobre os corpos feminizados, cujo ponto de 
partida é uma situação extenuante. 
Neste capítulo, são analisadas as possíveis consequências de se manter o estilo de 
desenvolvimento atual, ou seja, impactos da inação diante da emergência climática na dimensão de 
gênero. Os efeitos das mudanças climáticas não são iguais em todos os lugares e para todas as pessoas, 
sendo especialmente destacáveis temas tais como o racismo ambiental e a situação de vulnerabilidade 
na qual os grupos subalternizados e marginalizados são colocados. Daí a necessidade de realizar 
estudos sobre os impactos mudanças climáticas com recortes regionais específicos e abordando as 
dimensões de gênero e raça, que em muitos casos são territórios ainda inexplorados. São tecidas 
considerações sobre os efeitos da mudança climática, especialmente sobre os corpos feminizados, 
partindo de uma análise interseccional e sublinhando as especificidades das mulheres e meninas 
brasileiras.  
A. As mudanças climáticas e as desigualdades na dimensão  
de gênero a partir de um olhar interseccional 
As mudanças climáticas se constituem em um dos maiores desafios que a humanidade tem enfrentado 
nas últimas décadas1. Em 2014, o Relatório de Avaliação do Clima (AR5) (IPCC, 2014) assinalou que o 
aquecimento global é inequívoco. Reforçando os resultados do relatório anterior, de 2007 (AR4; IPCC, 
2007), o AR5 apontou, com grau de certeza superior a 90%, que a principal causa da elevação da 
temperatura do planeta observada nos últimos 50 anos é o aumento das emissões de gases de efeito 
estufa (GEE) na atmosfera decorrentes de ações antrópicas. Atualmente, já são observados impactos 
adversos sobre sistemas humanos e naturais (IPCC, 2014) e os cenários que consideram a elevação da 
temperatura média do planeta acima de 2oC preveem desequilíbrios relevantes nos ecossistemas que 
dão suporte à vida humana. Nas últimas décadas, governos e organizações diversas vêm trabalhando 
na formulação de políticas públicas para mitigar as causas, reduzir as condições de vulnerabilidade2 das 
pessoas e fortalecer políticas públicas e ações de mitigação e adaptação a fim de avançar em direção ao 
desenvolvimento sustentável (Casas, 2017). Não obstante, a relação e os efeitos das mudanças 
climáticas sobre as desigualdades e, em particular, sobre as desigualdades de gênero, ainda são pouco 
compreendidas e exploradas em nível internacional3.  
A América Latina e o Caribe enfrentam uma dupla assimetria, uma vez que, embora a região 
apresente uma contribuição escassa para as emissões de GEE mundiais, ela é proporcionalmente mais 
vulnerável aos efeitos de seu acúmulo na atmosfera (CEPAL, 2020b). Os países em desenvolvimento 
tendem a sofrer mais as suas consequências (Rammê, 2012), dada a menor capacidade de geração de 
mecanismos de adaptação e de provisão de bens públicos. Em particular, os eventos extremos, como 
longos períodos de estiagem, provocando secas, desertificação, ou, ao contrário, fortes chuvas, 
provocando alagamentos, inundações, e o aumento ou redução de temperatura drástica em relação às 
 
1  “A mudança climática, definida pelo IPCC, refere-se a qualquer mudança do clima ao longo do tempo, seja devido à variabilidade 
natural ou como resultado da atividade humana.” (PBMC, 2013a, pág. 9). 
2  A referência à vulnerabilidade de alguma parcela da população é relativa ao processo de vulnerabilização fruto de processos de 
dominação histórica. Este termo não deve ser interpretado como sinônimo de fragilidade per se ou inferioridade do grupo referido.  
3  O relatório de PNUMA, ONU Mulheres, PNUD e DPPA/PBSO (2020) cita como exemplo desta falta de compreensão o fato de que 
“na sessão de debate intitulada Enfrentando os Impactos dos Desastres Climáticos na Paz e Segurança Internacional realizado no 
Conselho de Segurança da ONU em janeiro de 2019, apenas cinco dos 75 estados membros reconheceram que as considerações de 
gênero são importantes para responder aos riscos de segurança relacionados ao clima” (PNUMA, ONU Mulheres, PNUD e 
DPPA/PBSO, 2020, pág. 10, tradução livre). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 17 
 
médias históricas, vão gerar aumento da vulnerabilidade4 das populações. Essa situação será ainda mais 
agravada pela “...pressão demográfica, crescimento urbano desordenado, a pobreza e a migração rural, 
baixo investimento em infraestrutura e serviços, e os problemas relacionados à governança, com a 
coordenação intersetorial.” (PBMC, 2013a, pág. 9). Assim, regiões com condições desfavoráveis serão 
mais afetadas pela inação perante as mudanças climáticas, o que será potencializado pelas brechas de 
gênero, raça e classe. 
Como sinaliza o relatório da CEPAL (2019), América Latina segue a tendência internacional de 
aumento na sobrerrepresentação das mulheres nos lares em situação de pobreza, que se reflete no 
índice de feminilidade de famílias pobres e extremamente pobres. A nível internacional, 70% das 1,3 
bilhões de pessoas em situação de pobreza são mulheres (Parlamento Europeu, 2017), assim, possuem 
menos recursos para se adaptar aos efeitos da mudança climática.  
Consequentemente, a falta de transversalidade da dimensão de gênero nas políticas e 
estratégias públicas de mitigação e adaptação, assim como a inação diante dos eventos extremos 
provocados pelas alterações climáticas irão potencializar as iniquidades de gênero existentes, cujas 
causas, ligadas às opressões sofridas pelas mulheres, são abordadas sob uma perspectiva teórica no 
Capítulo III. Os corpos feminizados sofrem especialmente pela perda de biodiversidade e destruição de 
ecossistemas, pelas mudanças climáticas e pelos eventos extremos (ver seção I.C), mas as mulheres não 
são uniformemente afetadas. Para estudar as relações entre clima e gênero, é importante adotar uma 
lente interseccional capaz de abarcar as especificidades que tornam as vivências das mulheres 
diferenciadas entre si.  
As opressões se interseccionam, criando condições de maior vulnerabilidade para mulheres 
negras, indígenas, quilombolas, periféricas, pobres e corpos feminizados que saem da norma, toda vez 
que enfrentam camadas de discriminações multidimensionais – por exemplo, por serem mulheres, 
negras e pobres, ou por serem mulheres indígenas, lésbicas, ou por serem mulheres periféricas 
transexuais, e assim há múltiplas combinações possíveis. Desse modo, considerar as mulheres como um 
grupo homogêneo pode reforçar estereótipos que perpetuam desigualdades econômicas, sociais ou 
políticas, e invisibilizam os desafios dos diferentes grupos mais oprimidos. Nesse sentido, é importante 
considerar o conceito de Racismo Ambiental5 (Silva, 2012), que reconhece as desigualdades sociais, 
raciais e de gênero como determinantes para o grau de exposição dos grupos sociais aos riscos 
ambientais. Segundo Acselrad (2004), as sociedades possuem mecanismos sociopolíticos que 
determinam que a maior parte dos danos ambientais das atividades econômicas recai sobre grupos 
sociais de trabalhadores, populações de baixa renda, segmentos raciais discriminados e parcelas 
marginalizadas.  
Para avaliar essas relações e melhor entender os potenciais efeitos das mudanças climáticas 
sobre os corpos feminizados é necessário partir de uma avaliação sobre a situação efetiva de 
desigualdade e exclusão que vivenciam mulheres e meninas no Brasil, a partir de um olhar 
interseccional, com base na divisão de tarefas no sistema sexo-gênero.  
 
 
 
4  “Vulnerabilidade é o grau em que um sistema é suscetível e incapaz de lidar com os efeitos adversos da mudança do clima, inclusive 
variabilidade climática e os extremos. A vulnerabilidade é uma função do caráter, magnitude e taxa de mudança do clima e da 
variação que um sistema está exposto, sua sensibilidade e sua capacidade de adaptação.” (PBMC, 2013a, pág. 9). 
5  O termo Racismo Ambiental surgiu nos EUA na década de 1980, quando foi constatado que a variável que mais explicava a existência 
de depósito de resíduos perigosos em uma localidade era a composição racial da comunidade lá situada. Constatou-se, portanto, 
que as comunidades de cor sofriam uma exposição maior aos rejeitos perigosos, fosse intencionalmente ou não. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 18 
 
B. As mulheres e a reprodução no Brasil 
As brechas de gênero no Brasil estão fortemente marcadas pelo sexismo e pelo racismo estrutural e são 
multidimensionais: na distribuição das tarefas de cuidados, nas condições laborais, na desocupação, nos 
salários, no acesso aos serviços públicos, nas condições de segurança, entre outros. Mulheres e meninas 
partem de uma condição de maior exposição, sendo colocadas em situação de vulnerabilidade e com 
menos mecanismos de adaptação aos eventos extremos. Tal situação de opressão piora se é 
incorporado um olhar interseccional, uma vez que mulheres e meninas negras estão na base da pirâmide 
das injustiças.  
Para começar, é fundamental evidenciar que as mulheres e meninas são as principais 
responsáveis por realizar a maior parte dos trabalhos domésticos e de cuidados não remunerados. No 
Capítulo III são apresentados, do ponto de vista teórico, a conformação da divisão sexual do trabalho e 
os determinantes sistêmicos dessas relações de subalternidade que colocam os corpos feminizados em 
uma situação de maior exposição e vulnerabilidade. 
No caso do Brasil, quando homens e mulheres são consultados sobre a realização das tarefas 
domésticas, segundo os dados registrados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 
Anual (PNADCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - Outras Formas de Trabalho 
(IBGE, 2020), em 2019 (Tabela 1), 92% das mulheres declaram ter realizado trabalhos domésticos não 
remunerados no próprio domicílio, enquanto só 78% dos homens declararam realizar essas tarefas. A 
respeito dos cuidados (que foram incorporados recentemente na pesquisa), a pergunta está endereçada 
essencialmente ao cuidado das crianças6, e a taxa de realização de tarefas ligadas ao cuidado para 
mulheres é 36,8%, enquanto para os homens é 25,9%. Também no tempo destinado às tarefas 
domésticas e/ou de cuidado se evidenciam claras desigualdades de gênero. As mulheres declaram 
dedicar praticamente o dobro (em média 21,4 horas de trabalho por semana) em relação aos homens 
(que dedicam 11 horas semanais). Esta diferença, é mantida inclusive quando os entrevistados não estão 
ocupados (as mulheres empenham 24 horas semanais enquanto os homens gastam 12,1 horas por 
semana; IBGE, 2020).  
 
Tabela 1 
Taxa de realização de afazeres domésticos e de cuidados no próprio domicílio e média de horas dedicadas                  
a afazeres domésticos e de cuidados, por sexo e situação de ocupação na semana de referência, 2019  
Situação de 
ocupação na 
semana de 
referência 
Taxa de realização de afazeres 
domésticos 
(Em porcentagem) 
Taxa de realização de cuidados 
(Em porcentagem) 
Tempo dedicado a cuidados e 
afazeres domésticos 
(Em horas) 
Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres 
Total 78,5 92,0 25,9 36,8 11,0 21,4 
Ocupadas 82,7 95,0 30,2 38,2 10,4 18,5 
Não ocupadas 71,3 89,5 18,5 35,6 12,1 24,0 
Fonte: Elaboração própria a partir de PNADCA/IBGE (IBGE, 2020). 
Nota: A categoria Não ocupadas para Situação de ocupação na semana de referência inclui as pessoas desocupadas e as pessoas fora da 
força de trabalho. 
 
 
6  No questionário identificam-se seis categorias: 1) auxiliar nos cuidados pessoais (alimentar, vestir, pentear, dar remédio, dar banho, 
colocar para dormir); 2) auxiliar nas atividades educacionais; 3) ler, jogar ou brincar; 4) monitorar ou fazer companhia dentro do 
domicílio; 5) transportar ou acompanhar para escola, médico, exames, parque, praça, atividades sociais, culturais, esportivas ou 
religiosas; e 6) outras tarefas de cuidados. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 19 
 
Ao incorporar um olhar interseccional, observa-se que as mulheres negras estão ainda mais 
sobrecarregadas. A taxa de realização de tarefas domésticas por raça (IBGE, 2020) evidencia que as 
diferenças entre gêneros se mantém, porém, uma parcela maior de mulheres negras (pretas, 94%, e 
pardas, 92,2%) declarou se dedicar a tais tarefas quando comparado às mulheres brancas (91,4%). 
Também no caso dos cuidados a taxa de realização para mulheres negras supera 33%, enquanto no caso 
de mulheres brancas não chega a 30%. A partir de uma ótica regional, destaca-se que nas regiões Norte 
e Nordeste uma menor parcela de mulheres e homens brancos declararam realizar tarefas domésticas 
no próprio domicílio comparada à média nacional7.  
Aprofundando na análise da distribuição das tarefas domésticas por gênero, ao distinguir por tipo 
de tarefa realizada, três fenômenos evidenciam a situação estrutural e estruturante da mencionada 
iniquidade de gênero. Primeiro, ao considerar a participação de homens e mulheres que moram 
sozinhos para cada tipo de tarefa, não se percebem diferenças muito destacáveis8. Porém, a distribuição 
muda substancialmente quando se consideram os casais. As mulheres que têm cônjuge ou companheiro 
mantêm ou até aumentam a sua dedicação às tarefas domésticas enquanto os homens que têm cônjuge 
ou companheira, a reduzem significativamente o tempo dispendido em preparo de alimentos, limpeza 
de roupas e limpeza de domicílio. Somente em pequenos reparos é que a carga das mulheres que vivem 
com homens é aliviada em apenas 0,9% (Gráfico 1). Assim, fica evidente como, a partir da conformação 
da família nuclear, aparecem os mencionados papéis de gênero e a desigualdades na distribuição de 
tarefas, gerando uma sobrecarga para as mulheres. 
Gráfico 1 
Proporção de pessoas de 14 anos ou mais de idade que realizaram afazeres domésticos no próprio domicílio,        
por sexo, condição no domicílio e tipo de afazer doméstico, 2019 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Elaboração própria a partir de PNADCA/IBGE (IBGE, 2020). 
 
7  Isto pode ter a ver com o racismo estrutural e a herança escravagista presente no Brasil, que faz com que nessas regiões mais pobres 
e com maior desigualdade na distribuição da renda, as condições de contratação também sejam piores do que no resto do país. De 
fato, segundo os dados PNADCA/IBGE 2018 (IBGE, 2019a), na região Norte a taxa de trabalhadores sem carteira assinada é 61,3% 
e na região Nordeste é 59,5%, enquanto a taxa nacional é 47,7% e a renda média dos trabalhadores domésticos sem carteira 
assinada é também muito menor do que a média nacional (para a região Norte é R$573 e Nordeste é R$474, enquanto a Nacional é 
R$738). Assim, pode ser mais comum as famílias brancas recorrem a trabalhadoras domésticas para realizar esses trabalhos.  
8  Em números absolutos, como mencionado, mais mulheres do que homens declaram realizar tarefas domésticas e também por 
períodos de tempo mais extensos durante a semana. 
93
89
61
87
97
93
33
85
58
50
66
68
98
94
31
86
59
53
46
67
89
82
26
76
0
10
20
30
40
50
60
70
80
90
100
Preparo de alimentos Limpeza de roupas e
sapatos
Pequenos reparos Limpeza do domicílio
Responsável sozinho Responsável sozinha Cônjuge ou companheiro
Cônjuge ou companheira Filho ou enteado Filha ou enteada
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 20 
 
Em segundo lugar, quando se faz distinção entre tarefas específicas, nota-se que as mulheres que 
têm cônjuge ou companheiro se dedicam essencialmente às tarefas que requerem maior esforço físico, 
como o preparo da comida, a limpeza da roupas e sapatos, a limpeza do lar, as compras, assim como as 
de esforço organizativo, como a administração financeira do lar. Enquanto os homens que têm cônjuge 
ou companheira, se destacam na realização de trabalhos de pequenos reparos, cuidado dos animais de 
estimação e organização das finanças. Essas evidências sublinham a desigual distribuição dos trabalhos 
domésticos na dimensão de gênero.  
Em terceiro lugar, quando a pergunta sobre tarefas domésticas é endereçada aos filhos e filhas a 
partir de 14 anos, também se evidenciam fortes inequidades de gênero, ilustrando a estruturação dos 
papéis sociais de gênero desde tenra idade. 
É importante salientar que essa divisão desigual na distribuição das tarefas domésticas não 
remuneradas gera uma maior pobreza do tempo para as mulheres e meninas, que muitas vezes têm que 
renunciar à busca de empregos remunerados9, ou não podem acessar trabalhos de tempo integral, ou 
têm que abandonar os estudos e a sua formação, assim como verem reduzido o tempo disponível para 
realizar atividades de lazer ou cuidados pessoais. Ainda mais, como abordado na próxima seção, as 
mudanças climáticas essencialmente devem aumentar o tempo de trabalho de cuidados, que são 
trabalhos essenciais, afetando mais a vida das mulheres e meninas.  
No entanto, o problema da discriminação e as iniquidades que sofrem as mulheres não se 
restringem exclusivamente aos trabalhos domésticos não remunerados. A partir do momento em que 
esses trabalhos começam a ser terceirizados e mercantilizados, observa-se que, mais uma vez, esses 
empregos são altamente feminizados (e, na maior parte das vezes, racializados) e com condições 
salariais e de contratação piores que o restante dos setores econômicos. Assim como na esfera privada, 
esses trabalhos são desvalorizados e invisíveis quando passam à esfera pública. As mulheres encontram 
maior dificuldade para se inserir no mercado de trabalho, especialmente as mulheres negras (Tabela 2). 
A partir da análise interseccional, as mulheres negras são as que registram as maiores taxas de 
desocupação (16%, contra 12% da média brasileira, em 2018), e as que evidenciam uma maior 
proporção de empregadas e trabalhadoras sem vínculo empregatício (52%).  
Por outro lado, os salários e rendimentos recebidos pelas mulheres são mais baixos que os dos 
seus colegas homens. Essa diferença se aprofunda quando é realizada uma leitura interseccional. 
Enquanto as mulheres recebem em média um salário que é 21,3% inferior ao salário dos homens (e 
24,4% inferior no caso de trabalhadoras e trabalhadores sem vínculo empregatício), as mulheres negras 
recebem um salário 55,6% inferior ao dos homens brancos. As mulheres negras vivenciam múltiplas 
camadas de opressões, colocando-as na base da pirâmide.  
Assim, com o ingresso massivo das mulheres no mercado de trabalho10, aparece muito claro o 
fenômeno da feminização das ocupações historicamente associadas com os cuidados: educação, 
serviços de saúde, serviços domésticos, serviços de cuidados, serviços de alojamento e alimentação, a 
produção têxtil e de calçado (Melo e Thomé, 2018). As mulheres se inserem principalmente nesses 
setores de ocupação, evidenciando uma maior participação com respeito à média dos setores 
econômicos, que por sua vez apresenta condições de contratação e rendimentos piores.  
 
9  De fato, como destacam Melo e Thomé (2018), enquanto a taxa de participação dos homens, com entre 16 e 59 anos, é 86,3%, a 
taxa de participação das mulheres da mesma idade é 63,7%, “isso significa que ainda há um forte contingente feminino dedicado 
apenas às atividades reprodutivas e fora do mundo do trabalho, vivendo uma realidade de dependência do poder masculino” (Melo 
e Thomé, 2018, pág.112). 
10  As mulheres no Brasil sempre participaram do mercado de trabalho, mas a partir dos anos 1970 é possível apreciar um aumento 
substancial na taxa de participação feminina na força de trabalho (porcentagem da população economicamente ativa na população 
total de mais de 16 anos de idade) que chegou, segundo o censo 2010, a 45% (ver Melo e Thomé, 2018). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 21 
 
Tabela 2 
Rendimento médio real do trabalho principal, taxa de desocupação e proporção de empregados                                                     
e trabalhadores sem carteira assinada, segundo gênero e raça – 2018 
Características 
selecionadas 
Rendimento médio real do trabalho principal habitualmente recebido por mês 
pelas pessoas de 14 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de 
referência (R$) 
Taxa de 
desocu-
pação 
(%) 
Proporção de 
empregados 
e trabalha-
dores sem 
vínculo 
Total 
Trabalha-
dores com 
vínculo 
formal e 
emprega-
dores 
Emprega
-dos e 
trabalha-
dores 
sem 
vínculo 
Posição na ocupação 
Empre-
gado 
sem 
carteira 
Trabalha-
dor 
doméstico 
sem 
carteira 
Trabalha-
dor por 
conta 
própria 
Total 2 163 2 766 1 467 1 396 738 1 648 12 48 
Homens 2 382 3 058 1 635 1 396 986 1 782 11 48 
Homens brancos 3 138 3 847 2 202 1 914 1 104 2 352 8 47 
Homens negros 1 762 2 308 1 236 1 091 928 1 337 12 44 
Mulheres 1 874 2 400 1 235 1 395 722 1 396 14 52 
Mulheres brancas 2 379 2 872 1 633 1 758 826 1 859 11 42 
Mulheres negras 1 394 1 848 940 1 125 672 985 16 52 
Fonte: Elaboração própria a partir de PNADCA/IBGE (IBGE, 2019a). 
Nota: Rendimentos deflacionados para reais médios de 2018. Salário mínimo de referência: R$ 954. Empregados e trabalhadores sem 
vínculo inclui os empregados e os trabalhadores domésticos sem carteira de trabalho, os trabalhadores por conta própria, e os trabalhadores 
familiares auxiliares. 
 
O caso das trabalhadoras domésticas no Brasil requer particular atenção. As fortes e múltiplas 
desigualdades que caracterizam o país se expressam especialmente nesse setor. Enquanto algumas 
mulheres lutam por acessar estruturas de poder e os espaços de decisão e conseguem se inserir em 
empregos aos que tradicionalmente não pertenciam, a grande maioria encontra no trabalho doméstico 
a sua única opção de renda, especialmente no caso dos corpos feminizados e racializados. O trabalho 
doméstico ocupa 14,6% das trabalhadoras, sendo uma fonte essencial de trabalho feminino. Em 2018 
empregou 6,2 milhões de trabalhadores no Brasil, do qual 92% foram mulheres (IBGE, 2019a). Dessas, 
65,8% eram negras, ou seja 4,1 milhões. Os rendimentos médios da população ocupada no emprego 
doméstico estão entre os mais baixos da economia, sendo menores que o salário mínimo, e se destacam 
na base da pirâmide as trabalhadoras domésticas negras, que receberam em média R$ 672 (Tabela 2). 
O setor se caracteriza também pelo altíssimo nível de informalidade, 72,2% das trabalhadoras não têm 
carteira assinada, enquanto só 39,8% contribui para a previdência. Assim, é muito baixo o número de 
trabalhadoras domésticas que se beneficiam dos direitos da Emenda Constitucional 72/2013 (a chamada 
PEC das domésticas), enquanto a grande maioria não tem acesso à seguridade social e não têm 
garantida a continuidade laboral. De fato, entre o primeiro e segundo trimestre de 2020, fruto dos 
efeitos da pandemia de COVID-19, observou-se uma queda significativa no trabalho doméstico (IBGE, 
2020b): se perderam 1,25 milhão de ocupações, o equivalente a uma contração de 21% em relação a 
201911. A redução mais expressiva entre o trabalho doméstico sem carteira assinada (reduzido em 1,02 
milhão de pessoas ou em 23,7%) aponta que o grupo de diaristas pode estar sofrendo impacto maior 
decorrente do contexto da pandemia. 
Quando as mulheres trabalham em casas de terceiros como cuidadoras ou domésticas, se veem 
forçadas a confiar os próprios filhos ao cuidado de outras mulheres da família ou de outras trabalhadoras 
ainda mais pobres, sobretudo diante da falta de políticas públicas e de cuidados.  
As mulheres no Brasil, sobretudo as mulheres negras, têm menos oportunidades de emprego, 
estão mais desocupadas, têm rendas muito menores, piores condições de segurança no trabalho e 
pouca continuidade e permanência. Isso expõe as mulheres negras a mais situações de marginalidade, 
 
11  Diante deste contexto, o trabalho doméstico, após alcançar o maior contingente de pessoas ocupadas (6,36 milhões) no trimestre 
móvel de outubro a dezembro de 2019, contava no trimestre móvel de abril a junho de 2020 com 4,7 milhões de trabalhadoras/es – 
o menor contingente da série histórica iniciada no ano de 2012. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 22 
 
insegurança e pobreza. A situação é particularmente preocupante ao considerar o peso crescente das 
mulheres como principal fonte de renda dos lares brasileiros. Em 2019, o número de lares chefiados por 
mulheres chegou a 48% (IBGE, 2019a). Assim, a perda da fonte de renda principal e/ou os salários 
menores, gera a pauperização dos lares.  
A mesma divisão entre trabalhos feminizados e masculinizados se verifica no caso dos trabalhos 
formais. Em 2018, a participação das mulheres no mercado de trabalho formal foi em média de 44,1%, 
segundo estimações realizadas na base de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS; 
Brasil/ME, 2020). Das 21 seções da Classificação Nacional de Atividades Econômicas na versão 2.0 
(CNAE 2.0), a participação das mulheres foi maior do que a média em nove delas, todas do setor de 
serviços (Gráfico 2). Ressalta-se que Educação, Saúde Humana e Serviço Social, que são setores ligados 
aos cuidados, possuem uma expressiva participação feminina. É importante destacar que o fato de 
Serviços Domésticos não registrar uma elevada participação feminina nessa base de dados, o que pode 
ser evidencia de maior precarização da situação das mulheres nessa ocupação, dado que, como 
mencionado, 72,2% das trabalhadoras domésticas não têm carteira assinada e não aparecem no 
registro de trabalhadores formais relatados na RAIS. 
 
Gráfico 2 
Participação das mulheres nos setores de atividade das seções da CNAE 2.0, Brasil, 2018 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020). 
 
Por outro lado, é possível afirmar que se verifica também nos empregos formais a tendência de 
as mulheres receberem salários inferiores inclusive nos setores de empregos com maior presença 
feminina. Ao verificar os salários das mulheres nos setores com participação feminina acima de 44,1%12 
dos vínculos empregatícios, é possível observar que elas se concentram nas menores faixas de 
 
12  Se excluíram do gráfico os setores Organismos Internacionais e Atividades financeiras, por serem pouco representativos em número 
de trabalhadores, com menos de 1% do total de mulheres empregadas. 
44%
16%
12%
30%
19%
19%
10%
44%
17%
56%
36%
54%
50%
51%
42%
59%
63%
76%
43%
56%
40%
51%
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%
Média
Agricultura, pecuária, prod. florestal, pesca e aqüicultura
Indústrias extrativas
Indústrias de transformação
Eletricidade e gás
Água, esgoto, ativ. gestão de resíduos e…
Construção
Comércio, reparação de veíc. automotores e motocicletas
Transporte, armazenagem e correio
Alojamento e alimentação
Informação e comunicação
Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados
Atividades imobiliárias
Atividades profissionais, científicas e técnicas
Atividades administrativas e serviços complementares
Administração pública, defesa e seguridade social
Educação
Saúde humana e serviços sociais
Artes, cultura, esporte e recreação
Outras atividades de serviços
Serviços domésticos
Organismos internacionais e outras inst. extraterritoriais
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 23 
 
remuneração – até 5 salários mínimos (SM; Gráfico 3; Brasil/ME, 2020). De fato, entre os trabalhadores 
que nestes setores recebem até 1 SM e até 2 SM, entre 60% e 70% e entre 70% e 80%, respetivamente, 
são mulheres, enquanto entre 60% e 70% dos trabalhadores que recebem mais de 20 SM são homens 
(sendo, portanto, entre 30% e 40% mulheres).  
 
Gráfico 3 
Participação dos salários das mulheres no total de salários por faixas de remuneração                                         
agrupados em salários mínimos (SM) 
Setores representativos com participação das mulheres superior a 44,1% nas seções da CNAE 2.0, Brasil, 2018 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020). 
 
As mulheres se destacam pela sua participação nos trabalhos associados aos cuidados, que são 
trabalhos considerados como essenciais diante situações de eventos extremos, como ficou 
demonstrado durante a pandemia de COVID-19, e recebem remunerações piores. Isso torna as 
mulheres mais expostas e vulneráveis. Por exemplo, dos trabalhadores de saúde e de serviços sociais 
que tomam conta dos doentes, as mulheres ocupam 76,1% dos empregos formais do setor (Gráfico 2). 
Também, como mencionado, a grande maioria das trabalhadoras domésticas foi fortemente afetada 
pelo aumento da carga de trabalho e a exposição ou pela perda dos seus empregos e/ou a renda.  
Esses dados evidenciam que existem desigualdades de gênero profundas e estruturais no Brasil, 
que estão relacionadas de forma intrincada com outras desigualdades, tais como as raciais e de classe. 
Ademais, os indicadores apresentados sublinham a situação extenuante em que os corpos feminizados 
se encontram, especialmente as mulheres negras. Em conjunto, essas informações apontam que, de 
partida, as mulheres estão em situação de grande vulnerabilidade diante dos efeitos da mudança do 
clima. A seguir serão identificados alguns dos canais pelos quais aumentam essas iniquidades.  
 
 
 
 
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
a
té
 1
 S
M
a
té
 2
 S
M
d
e
 2
 a
 5
 S
M
d
e
 5
 a
 1
0
 S
M
d
e
 1
0
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 1
5
 S
M
d
e
 1
5
 a
 2
0
 S
M
m
a
is
 d
e
 2
0
 S
M
Alojamento e alimentação
Atividades financeiras, de seguros
e serv. relacionados
Atividades profissionais, científicas
e técnicas
Administração pública, defesa e
seguridade social
Educação
Saúde humana e serviços sociais
Outras atividades de serviços
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 24 
 
C. Os efeitos da mudança climática sobre os corpos feminizados 
É possível apontar potenciais relações entre as mudanças climáticas e seus efeitos desiguais sobre a vida 
das mulheres e meninas no Brasil, ampliando as assimetrias de gênero e as opressões sofridas pelas 
mulheres. As mudanças climáticas provocam maior incidência de desastres, ondas de calor, extremos 
de frio, elevação do nível do mar, maiores períodos de seca, enchentes, acidificação dos oceanos, 
derretimento de calotas e do permafrost, deslocamento de populações inteiras de animais, plantas e 
pessoas, entre outros. Estes eventos implicam, entre outras coisas, aumento do número de pessoas 
doentes, feridas, amputadas e enlutadas que requerem cuidados, assim como do aumento na 
quantidade média de tempo necessária para deslocamentos, coleta de água, sanitização dos alimentos 
e dos lares, produção e elaboração de alimentos consumo familiar, etc. Como foi evidenciado na seção 
I.B, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelos cuidados e tarefas domésticas, 
remuneradas e não remuneradas. Assim, diante dos efeitos das mudanças climáticas, gera-se uma 
carga de trabalho adicional (física e mental) sobre os corpos feminizados, impactando especialmente as 
mulheres em condições de maior exposição e vulnerabilidade que contam com menos ferramentas e 
rendas para enfrentar tais mudanças, dadas as brechas de salário, empregos, acesso a bens e serviços 
públicos, representação e direitos. Por exemplo, as mulheres em situação de pobreza, muitas vezes 
mulheres negras, chefes de família, costumam viver em zonas mais remotas ou periféricas e com menos 
infraestrutura, tendendo a ser mais impactadas por enchentes ou tempestades. Por outro lado, a 
sobrecarga sobre as mulheres implica também uma redução de tempo disponível para educação, 
capacitação, autocuidado, acesso a empregos remunerados e consequentemente impactam de forma 
negativa a possibilidade de geração de renda e mobilidade social. Assim, as mudanças do clima 
reforçam ainda mais a pobreza do tempo das mulheres, vide argumentação desenvolvida na seção IV.E. 
O impacto climático na agricultura pode afetar significativamente a vida das mulheres, dada a 
importância delas na produção de alimentos em escala global. Segundo a FAO e outros (2017), as 
mulheres rurais são responsáveis por mais da metade da produção de alimentos e também 
desempenham um importante papel na preservação da biodiversidade, além de garantir a soberania e 
a segurança alimentar a partir da produção de alimentos saudáveis. Segundo o Painel Brasileiro de 
Mudanças Climáticas13 (PBMC, 2013a), se prevê uma redução da área cultivável no Brasil, com perdas 
estimadas em torno de 11 milhões de hectares até 2030, influenciando negativamente a produtividade. 
Isso pode afetar a soberania e a segurança alimentar e nutricional do Brasil. Essa ameaça é ainda mais 
acentuada pelas perdas que poderão ocorrer na agricultura familiar e de subsistência, responsáveis por 
boa parte dos alimentos consumidos pelas pessoas no país, o que pode gerar desde a falta de 
suprimento até a elevação significativa dos preços de alimentos, com impactos proporcionalmente 
muito maiores para as populações mais pobres, que são majoritariamente femininas.  
As agricultoras familiares estão em condições mais desfavoráveis que os agricultores familiares 
em termos de acesso a máquinas, veículos e assistência técnica14. Além disso, o fato de que 28% das 
agricultoras familiares dirigentes de estabelecimentos não sabe ler ou escrever, sendo que dessas, 
aproximadamente 59% são pardas e cerca de 16% são pretas (IBGE, 2019b), muitas vezes pode 
significar sua exclusão no acesso a programas de financiamento, assistência técnica e utilização de 
meios digitais, reforçando o ciclo vicioso de pobreza dessas mulheres e de suas famílias. O menor acesso 
a recursos tecnológicos, de financiamento e de assistência implica que as mulheres, que já se encontram 
em posição mais vulnerável que os homens, também tendem a ter piores condições de adaptação. 
 
13  Organização que reúne cientistas para estudar e informar sobre os aspectos relevantes das mudanças climáticas no país, apoiado 
em bases científicas. 
14  Uma breve descrição das condições das mulheres dirigentes de estabelecimentos na agricultura familiar brasileira e encontra-se no 
Capítulo IV. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 25 
 
Por outro lado, o aquecimento global aumentará a incidência de doenças e enfermidades e 
tornará as mulheres cuidadoras mais expostas a situações de contágios. O aquecimento global em si 
está tornando viáveis para os vetores (mosquitos e outros) transmissores de doenças (dengue, malária, 
etc.) conviverem mais perto dos humanos. Como evidenciado na seção I.B, as mulheres têm uma 
participação elevada nos setores associados à economia dos cuidados, destacadamente no setor da 
saúde, que diante de situações críticas (tal como o caso da pandemia de COVID-19 e de outras zoonoses 
que podem ocorrer com o desmatamento e comércio da vida silvestre) são considerados como 
essenciais, entrando em contato direto com os infectados. Também pelos cuidados domésticos não 
remunerados, elas poderão ver sua pobreza de tempo aumentada ao encarregar-se de cuidar dos 
doentes e ficam mais expostas a contágios por vetores ou pelo contato com águas contaminadas. Como 
destacado pelo estudo realizado por CEPAL (2019), a insegurança alimentar e a desnutrição aumentam 
a presença de doenças e outras deficiências, gerando riscos à saúde e maior demanda por tempo de 
trabalho não remunerado. 
Nas áreas com menor abundância hídrica e menor desenvolvimento do Brasil, as mulheres são as 
principais responsáveis pelo abastecimento de água doméstica e energia para cozinha e aquecimento, 
bem como para a segurança alimentar, e são intensamente afetadas pela seca, chuvas incertas e demais 
consequências do desmatamento e da mudança do clima. Como sinaliza Nogueira (2017), a partir de um 
estudo de caso realizado no interior do Nordeste do Brasil com algumas famílias beneficiárias do 
Programa Um Milhão de Cisternas, 86,7% dos entrevistados responderam que a pessoa responsável por 
buscar água para o uso doméstico no lar era alguém do sexo feminino (donas de casa, filhas e netas), e 
que em média destinavam duas horas por dia para realizar o percurso de ir até a fonte mais próxima e 
voltar para casa. Nessas regiões, portanto, as desigualdades de gênero assumem traços ainda mais 
claros, uma vez que a pesada carga diária para a obtenção de água recai sobre mulheres e meninas. 
Diante desta situação, a menor disponibilidade hídrica provocada pelo aquecimento global pode 
significar uma distância maior a ser percorrida por milhares de mulheres, mais tempo e maior exposição 
a possíveis violências no percurso (ONU, 2012). 
No semiárido brasileiro, as mulheres enfrentam o problema do grande número de maridos que 
migram e elas permanecem no campo assumindo a responsabilidade pela sobrevivência da família, 
ficando conhecidas como as “viúvas da seca” (Branco, 2000, pág.28). Segundo o IPCC (2014), o 
problema da seca deve se intensificar a partir dos efeitos da mudança climática, consequentemente 
piorando também a situação de exposição e vulnerabilidade que essas mulheres e crianças são 
colocadas se não existirem programas e ações específicas que incluam políticas de adaptação com 
olhares de gênero. Trata-se de questão essencial, sobretudo quando se considera que as mulheres têm 
um papel na provisão e proteção dos recursos hídricos, mas tem pouquíssima representação política e 
participação nos espaços de decisão (Façanha, 2019). 
Além disso, o processo migratório potenciado a partir da intensificação da seca, pode gerar fortes 
pressões sobre a utilização e distribuição dos serviços urbanos, afetando também, por exemplo, as 
mulheres que usam o transporte coletivo ou os serviços de saúde. A mobilidade urbana é um setor que 
afeta amplamente as vivências das mulheres e meninas nos grandes centros urbanos, dado que são as 
principais usuárias dos serviços de transporte público no Brasil. Segundo dados do Instituto Pólis (2020), 
a utilização de transporte coletivo somado ao andar a pé é mais praticado pelas mulheres como forma 
de deslocamento, sobretudo no caso das mulheres mais pobres. Outro fator importante que precisa ser 
considerado são os diferentes padrões de mobilidade entre homens e mulheres, padrões esse que são 
estabelecidos pelos papéis sociais de gênero. Uma vez que as mulheres são socialmente responsáveis 
pelo trabalho doméstico (remunerado ou não) e pelas atividades de cuidado, suas rotas de 
deslocamento são marcadas por rotas mais longas e segmentadas, sendo que dividem seu tempo entre 
deslocamentos para cumprir carga horária de trabalhos remunerados e aqueles que são para 
necessidades da casa e de familiares ou terceiros. Por outro lado, os homens apresentam padrões de 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 26 
 
“deslocamento pendular” (Casas, Lara e Espinosa, 2019) delimitados por viagens casa-trabalho. Dessa 
forma, as mudanças climáticas e a maior incidência de eventos extremos, tais como enchentes, 
alagamentos e danificação de estruturas de mobilidade públicas assim como transportes públicos com 
baixa eficiência energética, podem acarretar uma piora na sobrecarga do uso do tempo feminino, 
resultando em uma maior pobreza do tempo das mulheres. Somada a essas questões, a ausência de um 
planejamento urbano adequado faz com que as mulheres no Brasil experienciem cotidianamente 
situações de violência e assédio nos espaços de transporte público brasileiros. A pesquisa “Segurança 
das mulheres no transporte”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva (Agencia 
Patrícia Galvão, 2019), mostra que 97% das entrevistadas afirmam ter sido vítimas de assédio em meios 
de transporte; para 72% das mulheres, o tempo para chegar ao trabalho influência na decisão de aceitar 
um emprego ou de permanecer nele.  
Por fim, como evidenciado na seção I.B, as mulheres são mais pobres, têm salários menores, têm 
condições de emprego e contratação mais precárias, com menos direitos trabalhistas e escassa 
continuidade do vínculo empregatício. Esses dados destacam a situação de vulnerabilidade das 
mulheres, que então sofrem mais os efeitos socioeconômicos associados aos impactos das mudanças 
climáticas. As mulheres são as primeiras a perder o emprego ou ver as suas rendas reduzidas diante de 
situações de crises tais como econômicas, sanitárias, política ambientais ou climáticas. Assim, as 
responsabilidades das mulheres nos lares e nas comunidades como usuárias dos recursos naturais as 
posicionam na centralidade das estratégias de subsistência adaptadas às mudanças de realidades 
ambientais. Existem importantes perspectivas de gênero e interseccionalidade em todos os aspectos 
das mudanças climáticas que precisam ser estudadas e incluídas. No presente capítulo, dados e 
evidências apontam para brechas estruturais e profundas na dimensão de gênero, raça e classe, que 
serão seguramente acentuadas com as mudanças climáticas. O quadro apresentado neste capítulo 
sublinha a necessidade de ação. A situação de iniquidade na qual os corpos feminizados encontram-se 
hoje deve ser severamente agravada com as mudanças climáticas. Entretanto, a crescente deterioração 
dos recursos naturais e o aquecimento global evidenciam que não é possível continuar com as políticas 
e estratégias utilizadas no passado, dado que exacerbariam a crise da sustentabilidade. Para combater 
as insustentabilidades estruturais dos atuais estilos de desenvolvimento, notadamente nas dimensões 
ambiental e de gênero, e enfrentar os impactos causados por eventos climáticos futuros, faz-se 
necessária uma nova geração de políticas para o desenvolvimento sustentável. O Big Push para a 
Sustentabilidade, ao fundir temas estruturais do desenvolvimento latino-americano, com as 
interseccionalidades colocadas pela dimensão de gênero e raça, marca a crescente importância da 
inseparabilidade desses temas e aponta caminhos para sua integração. 
 
 
 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 27 
 
II. Principais marcos normativos para a igualdade          
de gênero no contexto da mitigação da mudança             
do clima no Brasil 
Conforme visto no capítulo anterior, é urgente transformar o estilo de desenvolvimento. Como uma 
abordagem que se propõe a orientar a construção de novos estilos de desenvolvimento, em cujo centro 
estejam a igualdade e a sustentabilidade, o Big Push para a Sustentabilidade tem nos investimentos seu 
elemento-chave (CEPAL/FES, 2019). Os investimentos de hoje explicam a estrutura produtiva de 
amanhã, que por sua vez determina a competitividade, a produtividade e o tipo de inserção no comércio 
internacional. Além disso, eles também determinam a capacidade de geração de empregos de 
qualidade e em pé de igualdade entre mulheres e homens e se a atividade econômica será contaminante 
ou ecológica. Em suma, o estilo de desenvolvimento que se prevalecerá no futuro depende crucialmente 
do tipo de investimento que é realizado hoje. No complexo contexto atual em que pandemia de COVID-
19 tornou visíveis as brechas estruturais de desenvolvimento nos países latino-americanos, os 
investimentos também desempenham um papel central para uma recuperação transformadora com 
igualdade e sustentabilidade (CEPAL, 2020b), seja por seu papel dinamizador dos empregos e da renda 
no curto prazo, seja por sua capacidade transformadora do estilo de desenvolvimento no longo prazo.  
Na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, a articulação e a coordenação de políticas, 
em linha com o novo estilo de desenvolvimento ao qual se aspira, são chave para se mobilizarem os 
investimentos necessários para essa transformação, que envolvem não apenas práticas, tecnologias, 
setores e infraestruturas sustentáveis, mas também educação e capacitação para equipar mulheres e 
homens com as habilidades necessárias para uma inserção produtiva em pé de igualdade nos empregos 
do futuro, além de construção de capacidades científicas, tecnológicas e inovativas para retenção dos 
benefícios socioeconômicos dessa transformação. A coordenação é simultaneamente o desafio crítico 
e a principal oportunidade do Big Push para a Sustentabilidade. Se uma ampla gama de políticas 
(públicas e corporativas, nacionais e subnacionais, setoriais, tributárias, regulatórias, fiscais, financeiras, 
de planejamento, etc.) estiver alinhada e coesa com os pilares de um novo estilo de desenvolvimento, 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 28 
 
um ambiente favorável para destravar investimentos transformadores será estabelecido, ancorado em 
um novo pacto social estabelecido, em incertezas reduzidas e na combinação adequada de políticas. 
No presente capítulo, faz-se uma análise crítica do grau em que as políticas climáticas e 
ambientais, principalmente, e as políticas de desenvolvimento sustentável, tem se coordenado e 
buscado incorporar a dimensão de gênero. 
A. A emergência da dimensão de gênero nos principais marcos 
normativos internacionais sobre clima e o papel do Brasil 
Como sinalizado no Capítulo I, a partir do vertiginoso aumento dos impactos climáticos produzidos pelo 
acúmulo de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, a agenda de discussão internacional começou a 
incluir políticas que focassem na mitigação da emissão desses gases e adaptação às mudanças 
climáticas, com ênfase na transversalização das políticas de desenvolvimento sustentável. 
Desde o início dos debates sobre o clima, o Brasil mostrou preocupação com o tema e teve um 
papel fundamental na elaboração de uma agenda regional e global de desenvolvimento sustentável. 
Em 1992, foi o país-sede da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento 
(Eco-92) que teve como fruto uma governança sobre o tema e um plano de ações com metas para a 
melhoria das condições ambientais do planeta, a Agenda 21. Também em 2012, o país foi sede do 
Rio+20, encontro que: 
“[M]arcou o início da mobilização por uma nova agenda de desenvolvimento. Foram 
criados mecanismos institucionais de intercâmbio de experiências e ideias entre distintos 
segmentos da sociedade civil nacional e internacional sobre temas relacionados ao 
desenvolvimento sustentável que priorizassem os interesses coletivos. Nascia o que se 
convencionou chamar de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).” (CNODS, 
2018, pág.10). 
A urgência da mobilização global para o enfrentamento do aquecimento global e das mudanças 
climáticas resultou então na consolidação de um consenso internacional sobre a implementação de 
soluções no contexto do desenvolvimento sustentável, a partir da inter-relação entre suas três 
dimensões: social, ambiental e econômica15. Assim, emergiu nas últimas duas décadas a preocupação 
coletiva com a elaboração de diretrizes e programas no âmbito do diálogo supranacional que 
impulsionassem marcos regulatórios para a implementação de políticas nacionais de mitigação e 
adaptação. Inclusive, na América Latina e no Caribe, pode-se ver um maior engajamento na construção 
de marcos normativos do desenvolvimento sustentável que regulassem a implementação coordenada 
dessas três dimensões, tanto a nível de países como da região.  
Essa preocupação sobre o desenvolvimento sustentável incorporou um recorte de gênero 
quando, em 1995, ocorreu a Conferência de Beijing (ou IV Conferência Mundial sobre a Mulher) com o 
tema “Igualdade, Desenvolvimento e Paz”, resultando em duas áreas indissociáveis. Não se deve pensar 
em uma estratégia de desenvolvimento sustentável que não vise à redução das inequidades de gênero 
e tampouco desconsiderar as injustiças sociais. De fato, embora o Plano de Ação Regional para a 
Integração da Mulher no Desenvolvimento Econômico e Social tenha sido elaborado no ano de 197716, 
é no interior do alarme climático que a Agenda Regional de Gênero encontra espaço para se fortalecer, 
 
15  Consenso internacional resultante das discussões no âmbito da Eco-92 e expressos no Documento Agenda 21 da Conferência das 
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. 
16  Plano elaborado durante a Primeira Conferência Regional sobre a Integração da Mulher no Desenvolvimento Econômico e Social 
da América Latina em Havana em 1977 (CEPAL, 2017a). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 29 
 
uma vez que se compreende a necessidade da transversalização do enfoque de gênero para se pensar o 
papel da mulher nas políticas ambientais como um todo. 
O Acordo de Paris é o mais importante acordo climático vigente na atualidade, especialmente no 
que tange à transversalização da dimensão de gênero no Acordo Global sobre Mudanças Climáticas. O 
Acordo foi aprovado durante a vigésima primeira Conferência das Partes (COP 21) da Convenção-
Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, e tem como principal diretriz manter o aumento 
da temperatura média global em bem abaixo17 de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de enveredar 
esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (CQNUMC, 
2015). O país faz parte dos 195 países signatários membros da Convenção Quadro das Nações Unidas 
sobre Mudança do Clima (CQNUMC) e ratificou no Congresso Nacional sua participação no Acordo de 
Paris em 2016, tornando o acordo legalmente vinculante no país. 
O Acordo de Paris sobre o Clima apresenta forte influência na consolidação do enfoque de gênero 
nas políticas climáticas, pois reconhece em seus dispositivos iniciais a mudança climática como uma 
preocupação comum da humanidade e a necessidade de as Partes combaterem as mudanças climáticas 
considerando as obrigações relacionadas ao cumprimento da igualdade de gênero18. Além disso, o 
Acordo considera o equilíbrio de gênero como essencial para a sua implementação e garantia de 
cumprimento e em seu Artigo 7, parágrafo 519, o tratado afirma que as Partes devem, em suas ações de 
adaptação, ter uma implementação sensível a gênero. 
É reconhecendo a importância do enfoque de gênero nas políticas climáticas que o Acordo de 
Paris impulsiona as Partes a adotarem-no em ações de adaptação e mitigação às mudanças climáticas. 
B. O enfoque de gênero em políticas ambientais selecionadas               
no Brasil 
Analisando o dispositivo normativo da Contribuição Nacionalmente Determinada (Nationally 
Determined Contribution - NDC)20 apresentada pelo Governo Brasileiro ao Secretariado da CQNUMC, é 
possível observar que há um escopo amplo que inclui mitigação, adaptação e meios de implementação 
e há também uma citação direta à necessidade de atender o chamado à transversalização do gênero e 
adesão de políticas climáticas sensíveis à gênero por meio do seguinte trecho:  
“O Governo brasileiro está comprometido com a implementação da iNDC com pleno 
respeito aos direitos humanos, em particular os direitos das comunidades vulneráveis, das 
populações indígenas, das comunidades tradicionais e dos trabalhadores nos setores 
afetados por políticas e planos correspondentes, e promovendo medidas sensíveis a 
gênero.” (Brasil, 2015a, pág. 1). 
 
17  “Well below” do original em inglês. 
18  “(...) as Partes deverão, ao tomar medidas para combater as mudanças climáticas, respeitar, promover e considerar suas respectivas 
obrigações em matéria de direitos humanos, o direito à saúde, os direitos dos povos indígenas, comunidades locais, migrantes, 
crianças, pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade, o direito ao desenvolvimento, bem como a igualdade 
de gênero, empoderamento das mulheres e a igualdade intergeracional” (CQNUMC, 2015, pág. 1, tradução livre). 
19  Artigo 7, Parágrafo 5: “As Partes reconhecem que ações de adaptação devem seguir uma abordagem orientada em nível nacional, 
sensível a gênero, participativa e plenamente transparente, levando em consideração os grupos vulneráveis, comunidades e 
ecossistemas, e deve basear-se e ser guiada pela melhor ciência disponível e, conforme apropriado, pelo conhecimento tradicional, 
pelo conhecimento dos povos indígenas e pelos sistemas de conhecimento local, tendo em vista a integração da adaptação nas 
políticas e ações socioeconômicas e ambientais relevantes, conforme apropriado” (CQNUMC, 2015, p. 5, tradução livre). 
20 “Nesta pretendida contribuição pressupõe-se a adoção de um instrumento universal, juridicamente vinculante, que respeite 
plenamente os princípios e dispositivos da CQNUMC, em particular o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas 
e respectivas capacidades. É pretendida no sentido de que pode ser ajustada, se necessário, antes da ratificação, aceitação ou 
aprovação do acordo de Paris à luz de disposições ainda a serem acordadas no âmbito do mandato da Plataforma de Durban (Brasil, 
2015a, pág. 1). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 30 
 
Com o intuito de analisar se os principais marcos normativos relacionados à política climática no 
Brasil de fato promovem medidas sensíveis à gênero, a Tabela 3 elenca as medidas e ações de 
implementação da NDC do Brasil, conduzidas no âmbito da Política Nacional sobre Mudança do Clima 
(Lei 12.187/2009; Brasil, 2009), da Lei de Proteção das Florestas Nativas (Lei 12.651/2012, o chamado 
Código Florestal; Brasil, 2012), da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei 9.985/2000; 
Brasil, 2020) e da legislação, instrumentos e processos de planejamento a elas relacionados. 
 
Tabela 3 
Análise do enfoque de gênero em políticas ambientais brasileiras selecionadas 
Política  Marco legal Enfoque de gênero 
Menção 
explícita 
Menção 
implícita 
Sem referência Menção 
Política Nacional da 
Mudança do Clima 
(PNMC) 
Lei nº 
12.187/2009 
X X 
 
Redução da vulnerabilidade dos 
sistemas naturais e humanos frente aos 
efeitos atuais e esperados da mudança 
do clima. 
Contribuição 
Nacionalmente 
Determinada (NDC) 
Decreto 
9.073/2017 
X 
  
Menciona-se a promoção de medidas 
sensíveis ao gênero no contexto do 
respeito pelos direitos humanos. 
Plano Nacional de 
Segurança Hídrica 
Decreto nº 
10.000/2019    
e Lei nº 
9.433/1997 
  
X Não há. 
Lei do Sistema 
Nacional de 
Unidades de 
Conservação 
Lei nº 
9.985/2000 
  
X Não há. 
Plano Estratégico 
Nacional de Áreas 
Protegidas (PNAP) 
Decreto nº 
5.758/2006     
e Lei nº 
10.683/2003 
X 
  
Dentre os Princípios e Diretrizes, o Plano 
possui “consideração do equilíbrio de 
gênero, geração, cultura e etnia na 
gestão das áreas protegidas”. 
Plano Nacional 
sobre Mudança    
do Clima 
Decreto nº 
6.263/2007 
 
X 
 
Possui um objetivo voltado ao fomento 
do desenvolvimento de pesquisas 
científicas para minimização dos custos 
socioeconômicos de adaptação do país. 
Fundo Amazônia Decreto nº 
6.527/2008 
  
X Não há. 
Ações de Mitigação 
Nacionalmente 
Apropriadas 
(NAMAS) 
Lei nº 
12.187/2009 
  
X Não há. 
Fundo Nacional 
sobre Mudança    
do Clima 
Lei nº 
12.114/2009 
X 
  
Estratégia de adaptação e mitigação 
com projetos voltados para populações 
vulneráveis (comunidades pesqueiras, 
ribeirinhas, quilombolas e indígenas). 
Plano Nacional de 
Adaptação (PNA) 
Portaria nº 
150/2016 e Lei 
nº 12.187/2009 
X 
  
Estratégia para Populações Vulneráveis. 
Ela propõe, como fatores que contribuem 
para a vulnerabilidade, questões de raça 
e gênero. 
Código Florestal 
Brasileiro 
Lei 
12.651/2012 
  
X Não há. 
Fonte: Elaboração própria. 
 
As políticas elencadas no quadro acima atualmente se inserem no âmbito da Contribuição 
Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, construída para se tornar parte de um marco para o 
desenvolvimento do país e para responder, através da implementação, àquilo que o país considera que 
pode fazer para alcançar os objetivos Acordo de Paris. A análise do documento oficial da NDC 
apresentada pelo Governo Brasileiro aponta que há uma menção explícita ao gênero como visto 
anteriormente, com foco na promoção de medidas sensíveis a gênero no contexto do respeito aos 
direitos humanos. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 31 
 
 No entanto, para uma análise das políticas relacionadas à NDC brasileira, estruturadas nos 
marcos da Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), a menção a gênero se dá de forma 
implícita, sendo presente apenas na abordagem de redução da vulnerabilidade dos sistemas naturais e 
humanos como um todo. Dentro da PNMC, estão situados os Planos de Mitigação e Adaptação, 
compostos por políticas setoriais. Observa-se que, dentre nove planos setoriais elaborados, quatro 
deles não apresentam qualquer menção à dimensão de gênero.  
O Plano Nacional de Adaptação (PNA) é, dentre os mecanismos de implementação elencados, o 
que aborda de forma mais direta o olhar de gênero. A política apresenta uma estratégia exclusiva para 
populações vulneráveis, que inclui a categoria explícita de gênero e de raça como fatores contribuintes. 
Ainda, cabe destacar o Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP) que traz em seus 
princípios e diretrizes a necessidade de considerar o equilíbrio de gênero. 
C. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável                                     
e o enfoque de gênero 
Atualmente, no Brasil, diversos marcos regulatórios para a implementação do enfoque de gênero nas 
políticas climáticas e nas demais políticas em geral são orientados pela Agenda 2030 e seus 17 Objetivos 
do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Aprovado em 2015, o documento é composto por 169 metas 
distribuídas em 17 objetivos que visam direcionar decisões para determinar “o curso global de ação para 
acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar para todos, proteger o meio ambiente 
e enfrentar as mudanças climáticas” (ONU, 2015). 
Em 2016, imbuído do desejo de implementar a Agenda 2030 no Brasil, o Governo Federal propôs 
uma estrutura que fosse a instância máxima do modelo de governança dos ODS e da Agenda 2030. É 
neste contexto que surge a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 
(CNODS)21, composta por representantes da sociedade civil brasileira e de diversos órgãos de governo 
nacional, estadual e municipal. Em 2019, a CNODS foi extinta por decreto22 em 2019, juntamente com 
demais conselhos, comitês, comissões etc.; e a governança dos ODS 2030 no Brasil passou à esfera da 
Secretaria do Governo da Presidência da República (SEGOV-PR).  
Outros dois agentes relevantes para a implementação dos ODS 2030 no Brasil e 
consequentemente para a implementação da Agenda de Gênero regional, são a Frente Parlamentar 
Mista de Apoio aos Objetivos de Desenvolvimentos Sustentável da Organização das Nações Unidas 
(ONU) e o Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 (GTSC A2030, 2020)23. É 
importante destacar que a partir da extinção da CNODS, o GT 2030 da Sociedade Civil perdeu a sua 
participação institucional na instância de tomada de decisões, porém mantém o seu funcionamento de 
forma independente. Esse Grupo se articula por meio de uma coalizão formada por mais de 40 
organizações não governamentais, movimentos sociais, fóruns e fundações brasileiras e tem ganhado 
crescente reconhecimento no acompanhamento, análise e monitoramento dos ODS no Brasil. 
Inclusive, em 2019, o GT Agenda 2030 realizou a apresentação de seu Relatório Anual (“Relatório Luz”; 
 
21  A Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (CNODS) foi criada pelo Decreto Presidencial n. 8.892/16 
e tem a finalidade de internalizar, difundir e dar transparência ao processo de implementação da Agenda 2030 para o 
Desenvolvimento Sustentável no Brasil. 
22  O Decreto nº 9.759, de 11 de abril de 2019 extinguiu a CNODS e outros colegiados e através do Decreto nº 9.980, de 20 de agosto 
de 2019, estabeleceu-se como competência da Secretaria Especial de Articulação Social (SEAS) da SEGOV-PR a implementação da 
Agenda 2030 no Brasil. 
23  O GT Agenda 2030 foi formalizado em 9 de setembro de 2014 e é resultado do constante encontro entre organizações não 
governamentais, movimentos sociais, fóruns e fundações brasileiras durante o seguimento das negociações da Agenda Pós-2015 e 
seus desdobramentos. Desde então, atua na difusão, promoção e monitoramento da Agenda 2030 e busca divulgar os ODS, 
mobilizar a sociedade civil e incidir politicamente junto ao governo brasileiro e sistema das Nações Unidas para a sua implementação 
(GTSC A2030, 2020).  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 32 
 
GTSC A2030, 2020) na ocasião do Fórum Político de Alto Nível das Nações Unidas para o 
Desenvolvimento Sustentável (HFPL – da sigla em inglês).  
D. A Agenda regional de sustentabilidade e gênero                                     
na América Latina e no Caribe 
A Agenda 2030 (ONU, 2015) estabelece que os Estados têm a responsabilidade de respeitar, proteger e 
promover os direitos humanos e reconhece que a consecução da igualdade entre os gêneros e o 
empoderamento das mulheres e meninas contribuirá decisivamente para o progresso em todos os 
objetivos e metas, sendo que para isso é crucial a incorporação sistemática de uma perspectiva de 
gênero na implementação. Também afirma que cada país dispõe de diferentes enfoques, visões de 
futuro, modelos e instrumentos para alcançar o desenvolvimento sustentável e cada governo decidirá a 
forma de incorporar as metas mundiais nos processos de planejamento, políticas e estratégias 
nacionais. Deste modo, para abordar os desafios estruturais e as prioridades da América Latina e do 
Caribe, os compromissos já existentes na Agenda Regional de Gênero e na Agenda 2030 devem ser 
entendidos como complementares e as ações empreendidas para seu cumprimento devem estar 
articuladas com os compromissos assumidos em ambas as agendas.  
A implementação dos ODS sem o apropriado olhar não garante, por si só, a igualdade entre 
homens e mulheres ou o fim da existência das lacunas de gênero. “No entanto, essa análise é relevante 
uma vez que um marco legal robusto pode ser uma base sólida, um apoio ou um nexo entre diferentes 
setores para transversalizar o enfoque de gênero, a ser considerada pelos tomadores de decisão ao 
projetar ações climáticas sensíveis ao gênero.” (CEPAL, 2020, pág. 183). 
Estratégia de Montevidéu 
A Estratégia de Montevidéu para a Implementação da Agenda Regional de Gênero no Âmbito do 
Desenvolvimento Sustentável até 2030, ratificada pelo Brasil no ano de 2017, permanece até os dias de 
hoje como essencial a esse propósito. A Estratégia de Montevidéu24 é um acordo regional entre os 
Estados-membros da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, 2017b). O acordo 
procura superar nós estruturais constitutivos das atuais relações desiguais de poder na América Latina 
e no Caribe através da incorporação de políticas específicas de promoção da igualdade entre homens e 
mulheres dentro dos planos concretos destinados ao alcance dos ODS em cada país, dispondo, para 
isso, de recursos suficientes e sustentáveis, assim como dispositivos jurídicos apropriados. 
Nesse sentido, a inclusão dos ODS como dispositivo normativo vinculante de políticas públicas, 
a partir da persecução desses objetivos no Plano Plurianual 2016-201925 (MMFDH, 2019) se mostrou 
como um importante mecanismo de implementação da Estratégia de Montevidéu pelo governo 
brasileiro. Isso significa que, em acordo com a lei, todo o processo de formulação, implementação, 
monitoramento e revisão das políticas públicas brasileiras deve perseguir e se orientar pelos ODS. Como 
resultado, estiveram presentes no PPA 2016-2019 (MMFDH, 2019) 165 das 169 metas correspondentes 
aos 17 ODS. O ano de 2019, no entanto, foi marcado pelo veto à persecução dos ODS 2030 como 
dispositivo com validade normativa e vinculante do Plano Plurianual 2020-2023, reduzindo o papel dos 
 
24  Consiste em 10 eixos com 74 pontos para desatar os nós estruturais da desigualdade de gênero na ALC. Entre os nós estruturais está 
a desigualdade socioeconômica e a persistência da pobreza; os padrões culturais patriarcais discriminatórios e violentos e o 
predomínio da cultura do privilégio; a divisão sexual do trabalho e a injusta organização social do cuidado; e a concentração do 
poder e das relações de hierarquia no âmbito público. 
25  O Plano Plurianual, no Brasil, previsto no artigo 165 da Constituição Federal e regulamentado pelo Decreto 2.829, de 29 de outubro 
de 1998 é um plano de médio prazo, que estabelece as diretrizes, objetivos e metas a serem seguidos pelo Governo Federal, Estadual 
ou Municipal ao longo de um período de quatro anos.  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 33 
 
ODS 2030 no PPA a um mecanismo de orientação temática presente nos Programas Integrantes da Lei 
Orçamentária de 2020 (Ministério da Economia - Módulo Qualitativo).  
Os demais marcos regulatórios que orientam os mecanismos de implementação da Estratégia de 
Montevidéu no Brasil podem ser entendidos em três quesitos diretamente relacionados à promoção da 
igualdade de gênero, segundo o Relatório do Estado Brasileiro sobre a Implementação da Estratégia 
Nacional de Montevidéu do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH, 2019). 
Esses quesitos seguem aqueles definidos pelo documento base da Estratégia de Montevidéu e são: 
Autonomia Física, Autonomia Econômica e Autonomia na Tomada de Decisão das Mulheres. 
Ainda conforme com o Relatório citado, as principais políticas e programas relacionadas ao 
quesito de autonomia física das mulheres são Programa “Mulher Viver sem Violência”; Programa 2016 
de Políticas para as Mulheres: Promoção da Igualdade e Enfrentamento à Violência; Atualização da Lei 
Maria da Penha 2018 (obriga o agressor a ressarcir o Sistema Único de Saúde - SUS - por custos com 
vítimas de violência doméstica e também o financiamento dos dispositivos de segurança usados no 
monitoramento da vítima); A reestruturação da Casa da Mulher Brasileira; Oficinas de Capacitação no 
Instrumento de Monitoramento e Acompanhamento da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde 
da Mulher (PNAISM); Reestruturação do Serviço 180 e fortalecimento de outros canais de denúncia. 
Para pensar no quesito de autonomia econômica, o Relatório cita como principais marcos 
regulatórios a promulgação da Lei nº 13.509/2017, de fortalecimento de licenças familiares que 
contribuem para a autonomia e igualdade das mulheres, assim como a Lei nº 13.257/2016, de ampliação 
da licença paternidade de cinco para vinte dias; Há também destaque para a ratificação da Convenção 
189 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no ano de 2018, que tornou o Brasil o 25º país 
signatário e estabelece que as trabalhadoras e os trabalhadores domésticos possuam os mesmos 
direitos dos demais trabalhadores26. 
Por fim, entre as medidas implementadas em relação ao quesito de Autonomia na Tomada de 
Decisão, o Relatório ressalta o incentivo à participação das mulheres na política e destaca a aplicação 
mínima de 30% do total recebido pelos partidos para o custeio de campanha eleitoral de candidaturas 
femininas, medida regulamentada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que destinou mais de 500 
milhões de reais à candidaturas de mulheres; o incentivo à participação feminina na política através da 
criação da Procuradoria da Mulher no Senado Federal e da criação da Secretaria da Mulher na Câmara 
dos Deputados; o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça; A Divulgação da cartilha “Mais Mulheres 
no Poder” como parte de uma campanha promovida pela Secretaria Nacional de Políticas para as 
Mulheres (SNPM), em parceria com o Fórum Nacional de Instâncias de Mulheres de Partidos Políticos, 
com as bancadas femininas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e com apoio da ONU 
Mulheres; “Rede Brasil Mulher”; a manutenção do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres 
(PNMP)27. 
 
 
 
26  A medida reforçou a Emenda Constitucional 72/2013, anteriormente a PEC 66/2012, conhecida como PEC das domésticas, 
mecanismo de regulamentação da equiparação entre o emprego doméstico e as demais ocupações no Brasil em termos de acesso 
à direitos trabalhistas. A emenda constitucional de abril de 2013, estabeleceu uma semana de trabalho de no máximo 44 horas e a 
adoção da Lei Complementar nº 150 de 1º de junho de 2015 proibiu o trabalho doméstico para menores de 18 anos e instituiu a 
jornada de trabalho de no máximo oito horas por dia, o direito a férias remuneradas, a multa por demissão injustificada e o acesso 
à proteção social, entre outras coisas. 
27  É importante entender que como sinaliza Biroli (2018): “A baixa presença e mesmo a ausência, em muitos casos, das mulheres em 
cargos eletivos e de primeiro escalão, no âmbito estatal, não significa que não atuem politicamente, mas, sim, que essa atuação é 
dificultada e, quando existente, ocorre em ambiente político historicamente masculino, em que predominam brancos e 
proprietários” (Biroli, 2018, pág. 175). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 34 
 
Compromisso de Santiago 
Além da Estratégia de Montevidéu, outro acordo regional com forte potencial de implementação do 
enfoque de gênero no contexto do desenvolvimento sustentável renovou o planejamento da região: o 
Compromisso de Santiago (CEPAL, 2020a). Assumido durante a Conferência Regional sobre a Mulher 
da América Latina e do Caribe, em 2020, tem como tema de debate central a autonomia das mulheres 
em cenários econômicos cambiantes.  
O documento recomenda que é fundamental o fortalecimento da “institucionalidade e a 
arquitetura de gênero através da hierarquização dos mecanismos para o avanço das mulheres e da 
transversalização da perspectiva de gênero nos diferentes níveis do Estado”. O acordo defende que isso 
será possível: 
“[A]umentando, de acordo com as realidades, capacidades e legislações nacionais, a 
dotação de recursos financeiros, técnicos e humanos, o orçamento com perspectiva de 
gênero e o acompanhamento e a prestação de contas, visando a reforçar a aplicação de 
políticas de igualdade no âmbito da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”. 
(CEPAL, 2020, pág. 3).  
Embora o Compromisso de Santiago cumpra papel essencial na adoção de estratégias 
interseccionais que respondam às necessidades específicas das mulheres e meninas que lancem luz à 
problemática do empobrecimento das mulheres na região, tema caro ao cenário brasileiro, o país ainda 
não se tornou signatário. 
E. Considerações finais 
À luz do exposto, é evidente o alto grau de tecnicismo nas políticas climáticas e marcos regulatórios 
brasileiros, sem que acompanhe instrumentos de mudança profunda. Como foi sinalizado neste 
capítulo, as políticas não apresentam mecanismos de implementação bem estruturados em acordo com 
a legislação brasileira. Há, também, a invisibilização das mulheres nesses marcos normativos e seus 
dispositivos jurídicos, mesmo que na prática elas protagonizem muitas medidas de adaptação e 
mitigação às mudanças climáticas.  
Esse resultado é convergente com estudo de PNUD, ONU Mujeres e PNUMA (2020) sobre a 
inclusão e considerações do gênero nas políticas especificas (que diferenciam entre políticas gênero 
cega, neutra, sensível, responsiva e transformadora), a grande parte das políticas climáticas no Brasil 
são Gênero Cega (porque não considera o gênero como um componente relevante de seus resultados) 
ou Gênero Neutra (não menciona o tema de gênero nem aborda as considerações de gênero), porém, se 
considerados os acordos e tratados ratificados pelo país (Agenda 2030, Acordo de Paris e Estratégia de 
Montevidéu), o Brasil deveria estar classificado em políticas ambientais Gênero Responsiva ou Gênero 
Transformadora. 
Pode-se concluir que, a partir dessas evidências, as políticas climáticas no Brasil não têm se 
coordenado e incorporado a dimensão de gênero, em linha com um Big Push para a Sustentabilidade. 
Desenvolver essa coordenação pode ser uma oportunidade para transformar o estilo de 
desenvolvimento do país rumo à sustentabilidade nos pilares social, econômico e ambiental. 
 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 35 
 
III. A opressão das mulheres a partir                                       
do ponto de vista teórico 
Neste capítulo, são abordadas as principais correntes teóricas sobre a dimensão de gênero e sobre a 
iniquidade de gênero em particular, que é uma das principais brechas do desenvolvimento                     
latino-americano, vide Capítulo I. As mulheres são colocadas em espaços de subalternidade, com menos 
lugares de fala, escassa representação política, sindical e nos espaços de poder, falta de direitos, menor 
independência econômica, e sendo vítimas de inúmeros tipos de inequidades e violências. A desigual 
distribuição dos trabalhos domésticos e de cuidados, os papéis sociais que perpetuam certas hierarquias 
sociais, a segmentação do mercado de trabalho que relega como opções exclusivas de trabalho 
feminino os setores produtivos associados com a reprodução, criando uma separação artificial entre 
trabalhos femininos e trabalhos masculinos onde os primeiros são pior remunerados e com menores 
direitos trabalhistas que os segundos, são só alguns exemplos dessas iniquidades na atualidade.  
Desde os séculos XIX e XX, as mulheres começam a se organizar tanto política como 
teoricamente para lutar contra as desigualdades que as oprimem. Desde os primeiros debates e lutas 
políticas que exigiam a igualdade de direitos entre homens e mulheres nos tempos das sufragistas 
(pensamento que foi delineado e sintetizado pelas teóricas do feminismo liberal), até o feminismo 
radical,28 o feminismo marxista29 e o feminismo negro30, que deram um sustento teórico e político às 
lutas dos anos 1960 e 1970, na chamada segunda onda feminista da liberação sexual e econômica das 
mulheres, várias ideias e escritos feministas se sucederam. De fato, assim como não é possível falar da 
categoria mulheres como uma entidade única e homogênea, tampouco é possível considerar que existe 
um único feminismo que representa a diversidade de mulheres. As diferentes vertentes do feminismo, 
 
28  As feministas radicais encontravam no patriarcado a raiz de tal subalternidade e o principal mecanismo de emancipação seria a 
independência econômica e a liberação sexual, como defendiam Kate Millet (1970) e Sulamith Firestone (1976).  
29  As feministas marxistas italianas, por exemplo, lutavam pelos salários para o trabalho doméstico (Federici, 2019). 
30  As panteras negras destacavam que existem diferentes tipos de mulheres, que a luta dos feminismos tradicionais europeístas e 
norteamericanos era a luta pelas reivindicações das mulheres brancas de classe média ou alta, e que não representavam a realidade 
das mulheres negras, que tinha um peso substancial na opressão a herança escravista, como relata a Angela Davis (2016[1981]).  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 36 
 
que surgiram e serviram de sustento teórico para as lutas que tiveram a mulher como principal 
protagonista, conformaram corpos teóricos específicos para entender a partir de olhares diferenciados 
a situação de opressão ou inequidade que sofreram e sofrem essas diferentes mulheres.  
Para entender a discriminação e desigualdade nas condições de vida e de acesso que afetam 
especialmente as mulheres e meninas, e também as dissidências, deve-se entender o caráter sistêmico 
da opressão a partir de uma perspectiva interseccional e com um olhar a partir da decolonialidade.  
A. Divisão sexual do trabalho como elemento                                           
marcante do capitalismo 
Desde o início do capitalismo, embora o trabalho de cuidado tenha sido essencial para a sustentação da 
vida e da própria economia, as tarefas que esse trabalho acarreta acabam sendo desvalorizadas, 
altamente feminizadas e, em muitos casos, não remuneradas. Assim, uma parcela importante do 
trabalho feminino se tornou invisível, enquanto a outra parte é mal remunerada. A partir da 
monetização ou mercantilização das relações sociais de produção, durante a transição do feudalismo 
para o capitalismo, as famílias camponesas tiveram que começar a produzir excedente para vender no 
mercado, criando uma nova divisão sexual do trabalho. Enquanto as mulheres passaram a se dedicar 
quase exclusivamente ao trabalho reprodutivo para garantir o sustento da vida da família nuclear, os 
homens se dedicaram à produção de mercadorias que tinham como destino o mercado, onde elas eram 
vendidas em troca ao dinheiro. Dessa forma, as mulheres foram excluídas da possibilidade de garantir 
o próprio sustento material no contexto de um modo de organização da produção e da vida que estava 
cada vez mais mercantilizado e mediado pelo dinheiro. Isso gerou condições de absoluta desigualdade 
e colocou as mulheres em situações de subalternidade e pobreza. Como ressalta a Silvia Federici:  
“[A] separação entre produção e reprodução criou uma classe de mulheres proletárias que 
estavam tão despossuídas como os homens, mas que, diferentemente deles, quase não 
tinham acesso aos salários. Em uma sociedade que estava cada vez mais monetizada, 
acabaram sendo forcadas a condição de pobreza crônica, a dependência econômica e a 
invisibilidade como trabalhadoras.” (Federici, 2017[2004], pág. 146). 
O trabalho reprodutivo, que inclui tanto a gestação das novas vidas quanto os cuidados, as tarefas 
domésticas de alimentação, limpeza, administração do lar e também a contenção psicológica, sexual e 
afetiva dos homens, é um trabalho realizado portas adentro, para o consumo próprio das famílias. Esse 
trabalho, como não passa pelo mercado, é considerado como improdutivo e carente de valor mercantil. 
Assim, o trabalho de reprodução ao qual as mulheres ficaram confinadas a partir da monetização, 
passou a ser um trabalho desvalorizado e invisibilizado. De fato, o único trabalho31 realmente 
considerado como tal no mundo acadêmico e no mundo político é aquele realizado na esfera pública, 
que tem como objetivo a produção de bens e serviços destinados ao mercado e, portanto, é o único que 
recebe uma remuneração (Biroli, 2018). Então, o esforço físico, mental e emocional do trabalho 
reprodutivo pode ser igual ou até maior do que o trabalho produtivo, porém, por tal esforço nenhuma 
contraprestação monetária é recebida. E, como sinaliza Federici:  
“A condição não remunerada do trabalho doméstico tem sido a arma mais poderosa no 
fortalecimento do senso comum de que o trabalho doméstico não é trabalho, impedindo 
assim que as mulheres lutem contra ele, exceto na querela privada do quarto-cozinha, que 
toda sociedade concorda em ridicularizar, reduzindo ainda mais o protagonismo da luta.” 
(Federici, 2019, pág.43). 
 
31  Trabalho entendido como processo no qual se gasta a força e energia vital para transformar direta ou indiretamente a natureza, 
utilizando os meios de produção, para produzir outros bens. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 37 
 
Isso contribui não só com a percepção de que o trabalho realizado em casa não é trabalho, mas 
também com a ideia que o custo de reprodução da vida é simplesmente a soma dos preços de compra 
dos bens materiais necessários para a subsistência. Como analisa a Teoria da Reprodução Social 
(Bhattacharya, 2017), em aparência, na troca de mercadorias não existiria espaço para o trabalho 
doméstico e de cuidados. Porém, o salário pago aos trabalhadores corresponde, segundo a teoria do 
valor-trabalho clássica, ao tempo de trabalho necessário para a reprodução da vida. Esse custo de 
reprodução estaria representado pelo consumo de mercadorias (alimentos, educação, saúde, roupas, 
casa, carro, viagens, atividades de lazer, etc.) necessárias para garantir a subsistência do trabalhador e 
da sua família. Mas essas mercadorias precisam de elaboração para serem consumidas.32 Nesse sentido, 
existe um trabalho que não apareceria nesse raciocínio, que fica escondido, um trabalho que não é pago, 
mas que é um trabalho essencial e, portanto, responsável pela reprodução da força de trabalho 
(presente, passada e futura) e, então, fundamental para o processo de acumulação capitalista. 
A história recente das mulheres é uma história de superexploração e dominação, que as 
transformou em fábricas para a reprodução da força de trabalho. As mulheres são exploradas e 
colocadas nesse lugar de reprodutoras ao mesmo passo que são as responsáveis da reprodução 
biológica dos novos trabalhadores. O processo de realização e a ampliação do capital precisa tanto da 
reprodução da vida dos trabalhadores como de um fluxo constante de novos trabalhadores. Essa 
reprodução é apropriada e controlada pelo sistema. Nesse sentido, a família nuclear é a alavanca do 
modo de produção capitalista e, assim como para as teóricas radicais, as teóricas da reprodução social 
vão considerar que o sistema patriarcal, anterior ao período do capitalismo mas que vai ser 
potencializado durante ele, cria os papéis sexuais e as atribuições sociais como formas de 
doutrinamento.  
Esse confinamento das mulheres às tarefas de reprodução social, que não são reconhecidas nem 
valorizadas, assim como a imposição social do lugar de mulher submissa, frágil e recatada foram desde 
sempre contestados pelas mulheres. Porém, houve desde o início uma campanha cultural muito forte 
para impor tais atribuições sociais e submeter as mulheres, que incluiu desde uma construção social no 
imaginário coletivo de descrédito das mulheres pobres, das mulheres independentes e das mulheres 
livres até a ruptura nos acordos de classe que existiam entre trabalhadores homens e mulheres, nos 
quais a violência física e sexual passaram a ser socialmente aceitas. Como destaca Federici (2017[2004]), 
qualquer tentativa de reação das mulheres que se rebelavam a esse destino era rapidamente apagada 
mediante um processo estruturado de forte perseguição e violência exercida pelo Estado e a Igreja, na 
chamada caça às bruxas. 
Assim, é possível entender como desde o início do capitalismo a mulher foi colocada num lugar 
de subalternidade, e isso não se relaciona exclusivamente com posições morais ou ideológicas e/ou 
disputa de poderes e sim como resposta uma necessidade sistêmica de exploração do trabalho 
reprodutivo para garantir o lucro dos detentores dos meios de produção. Enquanto a violência 
patriarcal, termo utilizado por bell hooks33 para definir a violência sexista, foi historicamente utilizada 
como veículo da dominação masculina. 
 
 
 
32  Não se consome o frango e as verduras como são compradas no mercado, tem que ser cozinhadas e preparadas por alguém, a casa 
tem que estar limpa, a educação das crianças precisa de acompanhamento. Quase todos os bens necessários para a subsistência, 
precisam de alguma elaboração ulterior para o seu consumo. 
33  bell hooks (2019), capítulo 11. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 38 
 
B. A agenda neoliberal e a nova divisão internacional                                          
do trabalho pioram as condições para as mulheres 
Com o desenvolvimento do sistema social e produtivo, sobretudo a partir da expansão que trouxe a 
globalização da produção, o capitalismo neoliberal acirrou os processos de exploração e 
mercantilização também sobre o trabalho reprodutivo, que começou a ser terceirizado, embora o seu 
reconhecimento social e monetário tenha herdado as características de quando era realizado de forma 
privada. Como sinalizado no Capítulo I, a experiência do mercado de trabalho brasileiro não é alheia a 
tais circunstâncias, os trabalhos associados com os cuidados estão altamente feminizados, as 
remunerações das mulheres são inferiores, sobretudo se é incluído um recorte de raça, e muitas vezes 
as trabalhadoras não tem vínculo empregatício (como no caso das trabalhadoras domésticas), 
colocando-as em condições de maior precariedade. Parte das mulheres “compra” o seu ingresso ao 
mercado de trabalho por meio da contratação de outras mulheres, que estão ainda mais marginalizadas 
e desprotegidas, contratadas como trabalhadoras informais e/ou com baixa remuneração. Isso cria 
fortes segmentações no mercado de trabalho. Esses trabalhos em piores condições são essencialmente 
realizados por mulheres negras, indígenas, pobres, migrantes, periféricas, trans. De fato, para manter 
essa opressão, assim como a exploração e subalternidade, o capitalismo precisa que o sistema seja 
racializado, estratificado, generificado e sexualizado (Arruza, Bhattacharya e Fraser 2019). 
Com o surgimento do neoliberalismo, então, a mulher acabou sendo, mais uma vez, 
superexplorada. Ela tem que enfrentar duplas ou até triplas jornadas de trabalho enquanto recebe 
piores remunerações. A mulher permanece responsável pela maior parte do trabalho doméstico não 
remunerado, mas também deve sair para conseguir um emprego e garantir a subsistência própria e das 
suas famílias (Melo e Castilho, 2009). Como ressalta Federici “longe de ser um meio de emancipação 
para as mulheres, a nova divisão internacional do trabalho é o veículo de um projeto político que 
intensifica a exploração das mulheres e faz ressurgir formas de trabalho forçado que pensávamos ter se 
extinguido com o declínio dos impérios coloniais.” (Federici, 2019, pág. 157).34 
A agenda política neoliberal afeta particularmente as mulheres que, ao invés de socializar os 
cuidados, acabam sobrecarregando-as ainda mais, dado que essa agenda está fundada nos “cortes 
massivos no gasto público em serviços sociais, desvalorizações cambiais contínuas e congelamento de 
salários [que] constituem o núcleo dos programas de ajuste estrutural” (Federici, 2019, págs. 146-147). 
Com o avanço das políticas neoliberais, as mulheres, sobretudo as pobres e racializadas, acabaram 
sendo as mais afetadas, passando por um processo de forte empobrecimento (Esquivel, Espino e 
Rodriguez Enriquez, 2012). 
C. Sexismo, racismo e a interseccionalidade das opressões 
Para analisar a situação das mulheres, não é possível considerar que todas as mulheres padecem 
igualmente às opressões (Carneiro, 2019). Como mencionado, para entender as condições de opressão 
das mulheres não basta com estudar a opressão de gênero. Como destaca Angela Davis (2016[1981]), a 
opressão é de gênero, de classe e de raça. Por enquanto, observou-se como as mulheres são exploradas 
enquanto mulheres e trabalhadoras, mas é necessário entender também como o racismo estrutural tem 
um efeito específico sobre as mulheres trabalhadoras negras e indígenas. O passado escravista marcou 
 
34  E ainda sobre esse argumento: “[A] globalização da economia provocou uma grande crise na reprodução social da população da 
África, da Ásia e da América Latina, e que essa crise se manifesta por meio de uma nova divisão internacional do trabalho, que se 
aproveita da mão de obra feminina dessas regiões a fim de assegurar a reprodução da força de trabalho nas “metrópoles”. Isso 
significa que todas as mulheres estão sendo “integradas” à economia mundial e exercem uma dupla função produtiva, produzindo 
trabalhadores para as economias locais e os países industrializados, além de mercadorias baratas destinadas à exportação” 
(Federici, 2019, págs. 139-140). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 39 
 
um caminho completamente diferente para as mulheres negras.35 Nenhuma mulher negra escrava era 
considerada frágil ou delicada, como as mulheres brancas. Como analisa Angela Davis (2016[1981]) ao 
estudar a história da escravidão nos Estados Unidos, as mulheres negras escravas foram sempre 
exigidas tanto quanto os escravos homens e padeceram punições até piores (que não só incluíam 
chicotes quando os objetivos de produtividade imposto pelo amo não eram alcançados ou quando se 
rebelavam ante alguma ordem, como também a punição implicava essencialmente estupros): “as 
mulheres negras eram iguais a seus companheiros na opressão que sofriam; eram socialmente iguais a 
eles no interior da comunidade escrava; e resistiam à escravidão com o mesmo ardor que eles.” (Davis, 
2016[1981], pág. 35).  
As mulheres negras escravas foram exploradas como os homens, os seus corpos foram 
estuprados, os seus filhos arrancados e vendidos como escravos e suas famílias desfeitas. Mas essa 
situação de opressão e submissão não acabou com a “abolição”. O racismo estrutural foi o mecanismo 
que o sistema de acumulação utiliza para explorar à uma parte enorme da população que se converteu 
na mão de obra superabundante, barata e marginalizada da sociedade. As mulheres negras sempre 
continuaram a trabalhar, elas não tiveram que lutar pela sua inserção no mercado de trabalho, a sua luta 
é por condições dignas e direitos.  
Nesse sentido, uma análise da situação da mulher brasileira precisa incluir um recorte racial e de 
classe, identificando as especificidades das mulheres pretas e pardas que são especialmente exploradas 
e marginalizadas enquanto conseguem a sua inserção laboral, sobretudo no setor de cuidados e tarefas 
domésticas. As mulheres, meninas e dissidências são subalternizadas através dessas diferentes 
opressões que se interseccionam (Crenshaw, 1989), ou seja, existem diferentes marcadores sociais da 
opressão que não podem ser considerados isoladamente: o gênero, a raça, a etnia, a classe social, a 
posição econômica, a escolha religiosa (que muitas vezes tem origem na ancestralidade e não são 
cristãs), a sexualidade, a identidade de gênero, o lugar onde moram (não é o mesmo viver no âmbito 
rural e no urbano), a condição periférica ou de migrante, entre muitas outras. Essas mulheres e meninas 
são vítimas de discriminação sexista, racista e classista, é necessário um olhar interseccional. Um 
racismo que, como visto, é histórico e estrutural. Um racismo que não só interfere nas relações sociais 
mas que também aparece nas relações econômicas, políticas e produtivas. Esse racismo é também 
ambiental toda vez que as mais afetadas pelas mudanças climáticas são as mulheres e meninas negras, 
indígenas, quilombolas, pescadoras, ribeirinhas e periféricas.  
D. Racismo ambiental 
É preciso reconhecer o racismo ambiental como um debate no qual o meio ambiente é interpretado à 
luz do racismo estrutural, uma vez que esse tema não pode ser discutido desde uma visão individual que 
ignore a questão ambiental como parte da vida social e, portanto, entrelaçada às estruturas de 
desigualdade fundadas pelo racismo. Ao lançar olhar para a construção do território brasileiro, nota-se 
que os ciclos econômicos coloniais se basearam na apropriação privada da terra e do território, afetando 
os povos originários por meio da forte exploração que esse processo requer e destinando-os a um lugar 
de vulnerabilidade. As mudanças climáticas e os conflitos ambientais atuais evidenciam tais 
desvantagens estruturais, herdadas do período civilizatório e que culminam no impedimento da 
participação dessas populações nas dimensões decisórias de planejamento, de gestão e também dentro 
da construção dos marcos regulatórios ambientais. Como consequência da demanda por seus 
territórios sobre a contaminação, o despejo, a militarização e a perseguição dos conhecimentos e 
modos de vida praticados neles. 
 
35  Mas também das mulheres de outras raças, etnias, orientações sexuais, de outras identidades de gênero, religiões, regiões 
periféricas, etc. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 40 
 
Dessa forma, o racismo ambiental aponta a necessidade de se considerar quais são os corpos 
mais atingidos pelo resultado de um modelo social produtor de desigualdades, e entendendo que esse 
modelo vem da colonização patriarcal, as mulheres, principalmente as mulheres negras, carregam o 
alvo da vulnerabilidade, como afirma Cris Faustino (2020): 
“No que se refere ao tema ambiental abordado desde uma perspectiva de injustiças e 
racismos ambientais, significa reconhecer que poder e riqueza, privilégios e desprivilégios 
são fatores racializados e influenciados pelo gênero, vivenciados nos corpos e na vida 
desde normatividades racistas, elitistas, misóginas, masculinistas e hetero-obrigatórias.” 
(Faustino, 2020, pág. 77). 
E. Romper com a colonialidade do gênero 
Por isso, é preciso ter um olhar que se afaste e desconstrua a colonialidade histórica que caracterizou os 
estudos de desenvolvimento das relações sociais, econômicas e políticas. O feminismo tem que ser 
interseccional, decolonial e antirracista, para se consolidar como pensamento epistêmico que procure 
romper a Colonialidade do Poder, do Ser e do Saber que estrutura o sistema moderno colonial de 
gênero. Segundo Lugones (2019), a colonialidade do gênero é essa imposição dicotômica, hierárquica 
e binária do pensamento moderno, colonial e capitalista sobre raça, gênero e sexualidade que, como 
mencionado, utiliza o conceito de família nuclear como alavanca do sistema. Hierarquia e dicotomia 
aparecem, no mesmo nível de importância, como elementos estruturantes do sistema heteropatriarcal 
capitalista extrativista. A dicotomia refletiria essa relação binária de subalternidade entre o feminino e 
o masculino a partir das construções sociais coloniais dos papéis de gênero, que são essenciais para 
explorar o corpo das mulheres e garantir assim a reprodução do sistema. A hierarquia refletiria essa 
relação de subalternidade criada a partir dos conceitos impostos pela modernidade que diferenciam 
entre humanos (os colonizadores) e não humanos (os colonizados), que eram julgados como bestiais, 
carentes de gênero, grotescamente sexuais e pecadores (Lugones, 2019). 
Assim, as pessoas racializadas, foram submetidas, desumanizadas, separadas entre machos e 
fêmeas, enquanto os seus corpos eram explorados física e sexualmente e os seus saberes apagados. 
Assim, o sistema heteropatriarcal capitalista extrativista se impõe, também, sobre as culturas não 
ocidentais. Como caracteriza María Lugones: 
“O projeto de transformação civilizatória justificou a colonização da memória, e, junto 
dela, a do entendimento das pessoas sobre si mesmas, sobre suas relações intersubjetivas, 
suas relações com o mundo espiritual, com a terra, com a matéria de sua concepção sobre 
a realidade, a identidade, e a organização social, ecológica e cosmológica. ” (Lugones, 
2019, pág. 361) 
Essas relações hierárquicas e dicotômicas não mudaram essencialmente no tempo. Até hoje em 
dia, o extrativismo e a financeirização como formas de exploração capitalista dos países periféricos, 
baseadas na divisão internacional do trabalho que determina um esquema de desenvolvimento 
centrado na produção e exportação de matérias-primas, precisam avançar sobre os territórios. O 
capitalismo neoliberal é um sistema de produção e consumo predatório, no qual trabalhadoras e 
trabalhadores, territórios, natureza e animais são explorados. Como desenvolve Achille Mbembe no 
conceito de necropolítica, o poder do sistema radica na possibilidade e capacidade de decidir quem 
pode viver e quem deve morrer (Mbembe, 2018). Da mesma forma que aconteceu durante a 
colonização, o avanço se dá em territórios onde os corpos racializados e femininos são mais descartáveis 
e vulneráveis. Mas também é desde esses corpos que surgem as resistências. 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 41 
 
F. As resistências, os comuns e o Feminismo Comunitário  
Como destaca Federici (2019), a divisão sexual do trabalho que confina as mulheres ao trabalho 
reprodutivo, fez com que elas dependessem mais do acesso aos recursos comuns, tornando-se as suas 
guardiãs. Existe uma relação indissociável entre essas mulheres e a terra, a sua ancestralidade, os 
saberes comuns, e nesse sentido sempre se mostraram mais comprometidas com o seu cuidado e a sua 
defesa. As mulheres no mundo são as principais defensoras da terra e dos recursos naturais, estando na 
linha de frente da luta contra as expropriações e privatizações, defendendo a agricultura de subsistência 
e mostrando formas de produção, consumo e organização social com bases colaborativas e não 
individualistas e concorrenciais. A autora também identifica dois desenvolvimentos importantes das 
mulheres em relação aos comuns:  
“Primeiro, tem ocorrido a formação de sistemas regionais autossuficientes com o objetivo 
de garantir a “segurança alimentar” e manter uma economia baseada na solidariedade e 
na recusa da concorrência [e], em segundo lugar, em todo o mundo as mulheres lideraram 
a luta para evitar a extração comercial de madeira e salvar ou reconstruir florestas, que são 
a base das economias de subsistência, proporcionando nutrição, combustível e remédio, e 
fortalecendo relações comunitárias. ” (Federici, 2019, págs. 296-297) 
No mesmo sentido dos comuns, se desenvolvem o Feminismo Comunitário, caraterístico da 
recuperação dos saberes dos povos originários latino-americanos, e o Ecofeminismo. Para todas essas 
perspectivas, existe uma necessidade imanente de que qualquer estratégia de desenvolvimento 
econômico inclua o equilíbrio entre produção, consumo, meio ambiente, ecologia e natureza.36 O 
Feminismo Comunitário busca entender a realidade das mulheres mais exploradas e as suas 
possibilidades de emancipação para que seja possível apresentar alternativas que descolonizem e 
desneoliberalizem o gênero através da produção e visibilização da resistência protagonizada por elas. 
O Feminismo Comunitário procura o desenvolvimento dos saberes, considerando que a produção de 
conhecimento está atrelada à produção de realidade a partir do conceito próprio de Teoria Social. Como 
destaca Paredes, desenvolver uma teoria social é “buscar a causa dos problemas sociais que nos 
interessa resolver, desenhar um caminho de como solucioná-los e fazer uma proposta de sociedade 
onde esses problemas não voltem a se repetir” (Paredes, 2013, pág. 64). Existe, então, o 
comprometimento social de realizar ações que mudem o mundo em que nascemos e no qual queremos 
viver. O Feminismo Comunitário convoca os indivíduos a se organizarem em movimentos sociais 
(Comunidades) e a ideia de comunidade é ampla, abarcando tanto comunidades de mulheres rurais 
quanto urbanas. Essas comunidades estão conectadas pela possibilidade de uma recuperação da forma 
circular de pensar e produzir conhecimento diferentemente da norma fragmentada que caracteriza o 
capitalismo: androcêntrica, linear, racional, desconexa da natureza e a partir do olhar do homem 
branco-cisgênero-heterossexual-cristão. Para o Feminismo Comunitário, a solução das múltiplas 
opressões e da subalternidade é a despatriarcalização, a descolonização e a desneoliberalização através 
do resgate da comunidade (resgate de espaço, tempo e movimento dos povos originários). A sociedade 
proposta é a do Bem-Viver, na qual caibam todas as mulheres, homens, pessoas intersexuais e a 
natureza, tratadas no respeito das diferenças, porém de forma igual (Paredes e Guzmán, 2013). 
As correntes teóricas destacadas neste capítulo enfatizam que as brechas de gênero são 
profundas e apresentam diversas causas, formas de manifestação e maneiras de se enraizar na 
sociedade. Romper com as iniquidades de gênero é um desafio premente, que reforça a urgência 
recuperação transformadora com igualdade e sustentabilidade, baseada em um Big Push para a 
Sustentabilidade (CEPAL, 2020b).   
 
36  Como referências importantes do ecofeminismo, incluem-se: Vandana Shiva (2003), Yayo Herrero (2016) e Julieta Paredes (2013). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 43 
 
IV. Impacto dos investimentos para mitigação                                
e adaptação às mudanças climáticas                                           
na dimensão de gênero 
O Big Push para a Sustentabilidade é inspirado na ideia de Paul Rosenstein-Rodan (1957) de que é 
necessário um conjunto substancial de investimentos complementares – que dê um grande impulso (Big 
Push) – para permitir uma transformação definitiva de estilo de desenvolvimento. São necessários dois 
aspectos principais para essa transformação: escala mínima e coordenação de investimentos. O estilo 
de desenvolvimento somente poderá ser alterado se um conjunto expressivo de investimentos for 
mobilizado. Além de uma escala mínima, a coordenação sublinha que só são viáveis individualmente os 
investimentos que forem articulados de modo simultâneo com outros investimentos. Por exemplo, os 
investimentos em fontes renováveis de energia elétrica, tais como geração fotovoltaica distribuída, 
somente serão viáveis se forem realizados, simultaneamente, investimentos em redes elétricas 
inteligentes e vice-versa. 
A complementaridade de investimentos se aplica também a investimentos em educação, 
capacitação e construção de competências científicas, tecnológicas e inovativas, que permitam não 
apenas criar oportunidades equitativas de geração de renda inserção produtiva nas ocupações do futuro 
para mulheres e homens, as também gerar as soluções técnicas para a sustentabilidade e criar fontes 
mais sustentáveis de competitividade, baseadas na inovação e na agregação de valor (CEPAL, 2016). 
Ademais, devem ser considerados como parte dessa combinação os investimentos sociais, 
notadamente nos setores da economia do cuidado. 
No presente capítulo, são destacadas as áreas para investimentos com maior potencial para 
contribuir para um novo estilo de desenvolvimento que considere a igualdade de gênero e a 
sustentabilidade com foco no enfrentamento das mudanças climáticas. Os principais critérios para a 
seleção dessas áreas foram as interligações da sustentabilidade climática com as questões de gênero, 
em particular: 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 44 
 
i) Relevância dos investimentos em áreas que permitam melhorar a qualidade de vida das 
mulheres e meninas, reduzir a pobreza do tempo e o peso da sobrecarga de trabalho, 
especialmente para as mulheres negras, indígenas, periféricas e pobres; 
ii) Importância para a inclusão produtiva das mulheres, como mecanismo de emancipação e 
empoderamento; 
iii) Diálogo com a literatura sobre o tema, especificamente na América Latina e no Brasil. Os 
seis setores escolhidos são estudados por tais pesquisas; 
iv) Relevância desses investimentos para a mitigação da mudança do clima;  
v) Relevância desses investimentos para a adaptação aos efeitos causados pelas mudanças 
climáticas; 
Considerando estes critérios, as áreas selecionadas foram: empregos verdes, saneamento e 
água, mobilidade urbana sustentável, segurança alimentar e nutricional, saúde e setor elétrico. 
A. Investimentos em setores da economia verde:                                
análise dos empregos verdes 
A geração de empregos verdes representa uma das principais oportunidades da realização de 
investimentos no âmbito de uma estratégia do Big Push para a Sustentabilidade, especialmente no 
contexto de recuperação pós-crise da pandemia de COVID-19. De fato, a economia verde surge como 
proposta de retomada econômica, logo após os impactos da Grande Recessão de 2008/2009, mas 
incluindo uma perspectiva sustentável, dada a crescente conscientização a respeito da crise climática. 
Assim, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2011, lançou o relatório 
“Towards a green economy: pathways to sustainable development and poverty eradication”. Em sua 
expressão mais simples, uma economia verde pode ser vista como aquela que é de baixo carbono, 
eficiente no uso dos recursos e socialmente inclusiva (PNUMA, 2011). A justificativa para essa transição 
recai na crítica ao atual modelo econômico prevalecente, que acentua as desigualdades, provoca a 
escassez de recursos e gera diversas ameaças ao meio ambiente e à saúde humana, como sinalizado no 
Capítulo I. Além do mais, a economia verde está alinhada com diversos ODS. 
No intuito de avaliar o impacto de investimentos na economia verde sobre o emprego, o 
Programa de Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) juntamente com outras organizações37 
lançaram o Relatório Empregos Verdes (Green Jobs Report ;PNUD, 2008). Os empregos verdes são 
definidos como aqueles que contribuem para conservar ou reestabelecer a qualidade do meio ambiente, 
reduzindo a níveis sustentáveis o impacto ambiental provocado pelas atividades produtivas de 
empresas e setores econômicos. Eles são apontados como essenciais para enfrentar dois desafios 
simultaneamente: a degradação ambiental e os desafios sociais, sendo o emprego decente e 
remunerado fundamental para a estabilidade e coesão social (PNUD, 2008).  
O emprego decente é entendido como a “...soma das aspirações das pessoas no plano 
profissional – suas aspirações por oportunidade e renda; direitos, voz e reconhecimento; estabilidade 
familiar e desenvolvimento pessoal; e para justiça e igualdade de gênero” (PNUD, 2008, pág. 1, tradução 
livre). A redução das iniquidades de gênero deve estar na base da definição de emprego decente. Segue 
uma análise sobre o caso brasileiro sobre os desafios e oportunidades para geração de empregos verdes 
e decentes. 
 
37  Organização Internacional do Trabalho (OIT), IOE (International Organisation of Employers, em português:Organização 
Internacional dos Empregadores) e ITUC (International Trade Union Confederation, em português: Confederação Sindical 
Internacional). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 45 
 
Quais são os empregos verdes? 
A análise do emprego verde foi realizada por setor de atividade produtiva e não pela ótica ocupacional38. 
Não há um consenso na literatura sobre os setores que podem gerar empregos verdes, uma vez que há 
diferenças intersetoriais em relação ao tamanho das empresas, às tecnologias adotadas e às gestões 
implementadas – organizacional e ambiental – que afetam a qualidade do meio ambiente. 
Adicionalmente, essas diferenças também ocorrem entre os países, não sendo possível adotar uma 
classificação única e geral de empregos verdes, apontando a necessidade de estudos específicos39.  
A primeira identificação de empregos verdes no Brasil sob a ótica setorial foi realizada por 
Muçouçah (2009) elaborada para a OIT, com o intuito de selecionar os setores com “ ... empregos 
criados e/ou mantidos pela mudança para uma economia de baixas emissões de carbono, tendo em 
vista que são eles que podem vir a compensar (...) a eventual eliminação de outros postos de trabalho 
incompatíveis com os novos padrões de produção e consumo” (Muçouçah, 2009, pág. 14). Nessa 
concepção, foram identificados dois tipos de atividades econômicas: (i) aquelas que contribuem para a 
redução de emissões e/ou para a melhoria/preservação da qualidade ambiental; (ii) aquelas baseadas na 
exploração de recursos naturais e/ou que dependem da qualidade ambiental. Essa última categoria 
inclui os setores com potencial de geração de empregos verdes, porém, dependem de “esverdeamento” 
de suas atividades – produção e distribuição – para reduzir seus impactos ambientais (Muçouçah, 2009). 
Visando aprimorar a classificação de empregos verdes, o Grupo de Pesquisa de Economia do 
Meio Ambiente (GEMA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) propôs uma classificação 
alternativa (Bakker e Young, 2011). Essa proposta ordena os setores verdes em três tipos: Atividades 
relacionadas com a preservação da qualidade ambiental e baixo potencial de carbono; Atividades limpas 
com potencial para “esverdear” outros setores da economia; Atividades cujos impactos ambientais 
podem ser significativos e dependem de capacidade de gestão ambiental na produção. 
Mesmo sendo essas duas classificações de empregos verdes adaptadas à realidade brasileira, é 
difícil chegar a um consenso sobre quais setores devem ser considerados verdes e, portanto, quantificar 
os empregos por eles gerados. Deve-se considerar, além das diferenças de tecnologias setoriais, os 
diferentes níveis de gestão ambiental das empresas. Nesse sentido, as inovações ambientais para 
reduzir os impactos no meio ambiente dos processos produtivos fazem com que a geração de empregos 
em setores verdes seja dinâmica e relativa (Young e outros, 2018). Assim, não são as atividades 
econômicas que definem o caráter da sustentabilidade, mas a maneira como essas atividades são 
executadas em relação à gestão ambiental e ao uso de tecnologias mais limpas, que é um aspecto muito 
complexo ou impossível de se capturar com os dados atualmente disponíveis. 
A seguir são analisados, pela primeira vez, os empregos verdes sob a ótica de gênero nas duas 
classificações acima descritas. Porém, dado que ambas apresentam um conjunto de setores que são 
 
38  A ótica ocupacional foi realizada por Caruso (2010), que identificou “...67 famílias ocupacionais verdes, entre as 596 famílias da 
Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) – 11% –, com pelo menos uma ocupação relacionada ao meio ambiente ou à reciclagem, 
ou que contivesse em sua descrição ao menos uma tarefa que se relacionasse ao meio ambiente ou à reciclagem” (Nonato e 
Maciente, 2012, pág. 59). Os empregos verdes segundo os setores de atividade considera “... o impacto ambiental das atividades 
econômicas que lhes dão origem, independente das funções exercidas ou do perfil profissional dos trabalhadores que os ocupam” 
(Nonato e Maciente (2012, pág. 57).  
39  Bakker (2011) analisa três classificações de empregos verdes: da CEPA/ Eurostat para a União Europeia, da OIT direcionada para o 
Brasil e da NAICS para os Estados Unidos, que são as principais referências para identificação de empregos verdes. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 46 
 
potenciais geradores de empregos verdes40 a depender da gestão ambiental empresarial para 
reduzirem o impacto ambiental, ele foi retirado das duas análises41. 
Os dados de emprego utilizados foram da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS; 
Brasil/ME, 2020) para 2018. Essa base de dados é concernente aos empregos formais e distingue o sexo 
das pessoas empregadas, sendo que as informações de cor/raça estão disponibilizadas nos microdados.  
A sua utilização se justifica por não contabilizar os empregos informais, nos quais os direitos 
trabalhistas são negligenciados. Porém, nas múltiplas definições de empregos verdes pode-se observar 
que o foco é colocado na degradação ambiental, sendo a geração de empregos formais o aspecto social 
considerado, desprezando a questão de gênero e as interseccionalidades. 
Foi utilizada a CNAE 2.0 para a classificação das atividades econômicas, tal qual nos estudos 
acima citados. No primeiro, dentre a 675 classes de atividades dessa classificação, foram identificadas 
76 que contribuem com a redução das emissões de carbono e com a preservação ambiental. As classes 
selecionadas foram agrupadas em seis categorias (Muçouçah, 2009), que estão apresentadas na     
Tabela 4. Na classificação de Bakker e Young (2011) são duas categorias analisadas, sendo que a 
primeira reúne 19 classes da CNAE 2.0 e a segunda, dez classes, respectivamente: 1. Atividades 
relacionadas com a preservação da qualidade ambiental e baixo potencial de carbono; 2. Atividades 
limpas com potencial para “esverdear” outros setores da economia. 
Empregos verdes e gênero 
Ao analisar os dados de acordo com a primeira metodologia descrita na seção anterior (ótica setorial 
segundo classificação desenvolvida por Muçouçah, 2009), verifica-se que nas seis categorias de 
empregos verdes, somente uma apresentava mais mulheres do que homens com vínculo empregatício 
em 2018 (Tabela 4): Telecomunicações e teleatendimentos. Vale ressaltar que há diferenças na 
participação feminina das classes de cada categoria42.  
 
Tabela 4 
Participação das mulheres no emprego formal das categorias de empregos dos setores verdes,                                     
segundo a classificação desenvolvida por Muçouçah (2009), Brasil, 2018 
Categoria  Participação (%) 
Produção e manejo florestal  14,9 
Geração e distribuição de energias renováveis  11,7 
Saneamento, gestão de resíduos e de riscos ambientais 17,5 
Manutenção, reparação e recuperação de produtos e materiais  18,0 
Transportes coletivos e alternativos ao rodoviário e aeroviário  15,1 
Telecomunicações e teleatendimentos  58,5 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020) e Muçoucah (2009). 
 
40  Os setores que têm potencial de geração de empregos verdes, mas que dependem de adotarem gestões ambientais eficientes para 
seu “esverdeamento” estão “...nas áreas de poluição de degradação gerada pelas atividades econômicas” (Young, 2018, pág.7). 
Nesse sentido, parece haver uma contradição, pois, poluir e degradar o meio ambiente pode gerar empregos verdes no futuro, caso 
haja melhoria dos processos produtivos. Nesse particular, entra em cena a política ambiental, que busca modificar o 
comportamento dos agentes poluidores, que no Brasil ainda é baseada nos instrumentos de comando-e-controle. 
41  São eles: o segundo bloco da classificação de Muçouçah (2009), como realizado em Branchi e Slompo (2017), e o terceiro da 
classificação de Bakker e Young (2011). 
42  Cada categoria possui um certo número de classes da classificação CNAE 2.0. As seguintes classes apresentam maior participação 
de mulheres em suas categorias: na Produção e manejo florestal, a classe Produção de mudas e outras formas de propagação 
vegetal, certificadas tem aproximadamente 42%; na de Geração e distribuição de energia renováveis, a classe Comércio atacadista 
de energia elétrica tem cerca de 38%; na Saneamento, gestão de resíduos e de riscos ambientais é a classe Tratamento e disposição 
de resíduos não-perigosos com quase 25%; na Manutenção, reparação e recuperação de produtos e materiais, a classe Comércio 
varejista de artigos usados se destaca com 38%; nos Transportes coletivos e alternativos ao rodoviário e aeroviário, a classe 
Terminais rodoviários e ferroviários tem participação de 43%; e Telecomunicações e teleatendimentos tem a classe Atividades de 
teleatendimento com participação de cerca de 69%. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 47 
 
A participação feminina nos empregos verdes formais dentro das categorias estabelecidas é 
bastante reduzida, mesmo considerando as diferenças nas categorias. Logo, o investimento nos setores 
classificados como verdes, de acordo com esta primeira metodologia, gera empregos pouco inclusivos 
sob a perspectiva de gênero, dado que a presença de mulheres é muito pequena (mesmo na categoria 
de Telecomunicações e teleatendimentos, cuja média de participação feminina é elevada pela classe de 
Atividades de teleatendimento43). 
 Ao analisar a distribuição das mulheres por faixas salariais, nas categorias de empregos verdes 
que mais as empregam, verifica-se que a participação feminina decresce conforme aumenta a renda 
média, medida em salários mínimos. Na classe que mais emprega mulheres, Atividades de 
teleatendimento, a distribuição é a favor dos homens conforme aumenta a remuneração média   
(Gráfico 4). Percebe-se que esses empregos verdes seguem a mesma tendência de outros setores nos 
quais a mulheres apresentam maiores participações nas faixas salariais mais baixas, não conseguindo 
acessar posições de maior remuneração e hierarquia (ver discussão nos Capítulos I e III). 
 
Gráfico 4 
Participação das mulheres nas faixas salariais de salário mínimo (SM) na subcategoria atividades de 
teleatendimento de empregos verdes, sob a classificação desenvolvida por Muçouçah (2009), Brasil, 2018 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020) e Muçouçah (2009). 
 
Na segunda classificação apresentada na seção anterior (sob a ótica setorial utilizando a 
classificação desenvolvida por Bakker e Young, 2011), as Atividades relacionadas com a preservação da 
qualidade ambiental e baixo potencial de carbono apresentam grandes disparidades na participação 
feminina nas classes de atividade. Aquelas que elevam a média desse grupo são atividades ligadas aos 
 
43  Apesar de as Atividades de teleatendimento empregarem mais mulheres, Lucca e Campos (2010) apontam que as “... pressões 
exigidas pela clientela e pelos regulamentos internos como fonte geradora de desgaste mental acrescido das queixas físicas 
decorrentes do esforço para executar as atividades” (pág. 9). A “... elevada carga cognitiva a que estão submetidos repercute nos 
afastamentos por transtornos mentais e de comportamento, como depressão, síndrome do pânico e casos de DORT, com dores em 
ombros, punhos e coluna, evidenciadas nas causas de absenteísmo” (pág. 10). 
71%
57%
44%
36%
32%
27%
29%
43%
56%
64%
68%
73%
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
até 2 SM
de 2 a 5 SM
de 5 a 10 SM
de 10 a 15 SM
de 15 a 20 SM
mais de 20 SM
Trabalhadoras mulheres Trabalhadores homens
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 48 
 
cuidados44, identificadas no Capítulo I como altamente feminizadas. Ressalta-se que a participação de 
mulheres nas Atividades de jardins botânicos, zoológicos, parques nacionais, reservas ecológicas e 
áreas de proteção ambiental, ligadas à conservação do meio ambiente, é de 35%, sendo estas atividades 
com potencial de investimentos para geração de empregos verdes com maior igualdade de gênero. 
 
Tabela 5 
Participação feminina no emprego formal das atividades ligadas à preservação da qualidade ambiental e baixo 
potencial de carbono, segundo classificação desenvolvida por Bakker e Young (2011), Brasil, 2018 
(Em porcentagem) 
Classe CNAE 2.0 Participação (%) 
Captação, tratamento e distribuição de água 19,3 
Gestão de redes de esgoto 17,5 
Atividades relacionadas a esgoto, exceto a gestão de redes 15,9 
Coleta de resíduos não-perigosos 16,6 
Coleta de resíduos perigosos 16,2 
Tratamento e disposição de resíduos não-perigosos 24,6 
Tratamento e disposição de resíduos perigosos 14,8 
Recuperação de materiais metálicos 13,9 
Recuperação de materiais plásticos 26,6 
Recuperação de materiais não especificados anteriormente 24,8 
Descontaminação e outros serviços de gestão de resíduos 24,0 
Construção de redes de abastecimento de água, coleta de esgoto e construções correlatas 8,3 
Limpeza em prédios e em domicílios 59,5 
Imunização e controle de pragas urbanas 33,8 
Atividades de limpeza não especificadas anteriormente 46,6 
Atividades paisagísticas 17,4 
Atividades de jardins botânicos, zoológicos, parques nacionais, reservas ecológicas, etc. 34,9 
Atividades de associações de defesa de direitos sociais 63,0 
Atividades associativas não especificadas anteriormente 54,3 
Total 48,5 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020) e Bakker e Young (2011). 
 
Tabela 6 
Participação das mulheres no emprego formal nas atividades limpas com potencial para “esverdear” outros 
setores da economia, segundo classificação desenvolvida por Bakker e Young (2011), Brasil, 2018 
(Em porcentagem) 
Classe CNAE 2.0 Participação (%) 
Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais 37,1 
Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências sociais e humanas 59,3 
Administração pública em geral 63,1 
Regulação das atividades de saúde, educação, serviços culturais e outros serviços sociais 65,9 
Regulação das atividades econômicas 25,4 
Defesa 10,9 
Defesa Civil 16,7 
Educação profissional de nível técnico 52,8 
Educação profissional de nível tecnológico 43,9 
Atividades de apoio à educação 64,1 
Total 60,8 
Fonte: Elaboração própria a partir de Brasil/ME (2020) e Bakker e Young (2011). 
 
Nas Atividades limpas com potencial para “esverdear” outros setores da economia, a média da 
participação das mulheres é de 61%. Aqui também há disparidades, sendo as atividades mais 
empregadoras de mulheres ligadas aos cuidados: educação, saúde e administração pública45.  
 
44  Limpeza em prédios e em domicílios: 60% de participação feminina; Atividades de associações de defesa de direitos sociais: 63%; e 
Atividades associativas não especificadas anteriormente: 54% (dados de elaboração própria a partir de Brasil/ME, 2020).  
45  Administração pública em geral com 63% de participação feminina, Regulação das atividades de saúde, educação, serviços culturais 
e outros serviços sociais com 66%, Educação profissional de nível técnico com 53%, Atividades de apoio à educação com 64% e 
Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências sociais e humanas com 59%. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 49 
 
Há um consenso entre os especialistas estudiosos das mudanças climáticas de que a economia 
verde precisa ser induzida por políticas públicas, seja por meio de investimentos públicos e/ou 
incentivando o setor privado a também realizar tais investimentos. Não obstante, a igualdade de 
gênero, que está na definição de emprego decente, não se verifica nos empregos verdes no Brasil, seja 
em termos do número de vínculos empregatícios ou na remuneração das categorias e classes de 
atividades acima descritas. Ou seja, os resultados apontam para uma predominância masculina nos 
empregos verdes, o que sublinha a necessidade de se considerar explicitamente a dimensão de gênero 
em estratégias de investimentos de baixo carbono, resilientes e sustentáveis no Brasil. Dessa forma, 
recomenda-se que sejam realizados mais estudos sobre a participação das mulheres nos empregos 
verdes, utilizando diferentes classificações, inclusive criticando e revendo as classificações existentes 
para o Brasil. 
B. Água e esgotamento sanitário 
O saneamento é um setor essencial de investimento quando se pensa em adaptação aos eventos 
extremos, produto das mudanças climáticas, e para a melhoria das condições de vida e de saúde, 
especialmente das mulheres e meninas. A ONU reconheceu o acesso à água e ao saneamento básico 
como um direito universal, sendo o ODS 6: “Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e 
saneamento para todos” (ONU, 2015). A ausência de saneamento e, essencialmente, de água potável 
de qualidade e de tratamento ao esgoto sanitário, gera inúmeros problemas, sobretudo para as 
populações em situação de maior vulnerabilidade, especialmente mulheres e meninas. Existe uma 
relação intrínseca e indissociável entre as mulheres e a água, uma vez que elas têm um papel central na 
provisão, gestão e proteção dos recursos hídricos (Façanha, 2019). A falta de acesso à água aumenta a 
exposição a doenças, aumentando o risco de morte (associados à falta higiene), reduz a qualidade de 
vida, afeta diretamente a soberania alimentar e aumenta a pobreza do tempo. Assim, é necessário 
garantir acesso sustentável aos recursos hídricos, mas também que esses recursos naturais sejam 
protegidos da contaminação por substâncias nocivas e patógenos.  
Como foi mencionado no Capítulo I, as mulheres e meninas são as principais responsáveis pelo 
fornecimento da água, sobretudo nas periferias, comunidades e zonas rurais, onde o acesso à água apta 
para o consumo e de qualidade tende a ser mais limitado46.  
No meio rural, especificamente, na medida que avança a seca, ou que as fontes de água começam 
a ficar cada vez mais poluídas, aumenta muito tanto a distância a ser percorrida para realizar o 
abastecimento como as horas destinadas a essa tarefa, o que sobrecarrega ainda mais as mulheres, 
reduzindo o seu tempo de trabalho, de lazer e/ou de estudo, e as expõe a maiores riscos e violências 
(Casas, 2017). 
Caso não houver políticas apropriadas de mitigação e adaptação para a gestão dos recursos 
hídricos, a falta de acesso e os problemas associados com a qualidade da água podem se agravar. As 
mudanças climáticas, que causam a elevação média da temperatura global, tendem a perturbar regimes 
hídricos, o que pode levar, conjuntamente com o desmatamento, à perda das florestas que bombeiam 
a água necessária para a produção agrícola, seja em larga escala comercial ou na pequena escala 
familiar. Por exemplo, os “rios voadores” que, por meio da evapotranspiração na Amazônia, 
transportam água para diversas regiões do Brasil e da América do Sul podem ser severamente 
debilitados, provocando efeitos devastadores, que vão desde a insegurança alimentar até migrações. 
 
46  “Preparar refeições, por exemplo, pode exigir caminhar longas distâncias carregando pesados baldes de água na cabeça (...) Em 
2014, as jornadas de trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres rurais, especificamente das mulheres ocupadas em atividades 
agrícolas, combinando o que se considera trabalho produtivo e afazeres domésticos, totalizavam 52 horas, sendo 29 em trabalho 
reprodutivo e 23 horas em trabalho produtivo” (ONU Mulheres, 2016, pág.84). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 50 
 
Muitas vezes, tais deslocamentos não são do núcleo familiar completo, são os homens os que migram, 
gerando o fenômeno das “viúvas da seca” (ver Capítulo I), que além das responsabilidades de cuidados 
das filhas e filhos, idosas e idosos e doentes da família, têm que passar a se ocupar do trabalho no campo 
e da comercialização dos produtos para garantir o sustento familiar. Por outro lado, o aumento da 
poluição nos recursos hídricos expõe as populações a maiores vulnerabilidades. Em particular, 
agricultoras e agricultores familiares pobres, com menos ferramentas de adaptação às mudanças 
climáticas, padecem mais com a seca, tornando difícil o cultivo e a alimentação dos animais e colocando 
em risco a segurança alimentar. Por fim, as mulheres em seu papel de responsáveis pela reprodução 
social da vida e do cuidado das próprias filhas e filhos e/ou das filhas e filhos de outras mulheres, são 
mais afetadas por estarem em contato físico direto com a água contaminada e com dejetos humanos 
quando a infraestrutura de saneamento é inadequada. Uma situação similar de exposição acontece com 
o cuidado dos idosos e doentes da família.  
A falta de saneamento e sistemas de esgotamento sanitário apresenta efeitos diretos sobre a 
comorbidade e a qualidade de vida das mulheres, meninas e populações vulneráveis. A falta de água 
tratada aumenta a incidência de infecções gastrointestinais. A falta de saneamento adequado, devido 
à carência de serviços de coleta e de tratamento de esgoto, mesmo quando há o acesso à água tratada, 
podem contribuir para o enfraquecimento das condições de saúde, causando outra parte das infecções 
gastrointestinais e das doenças transmitidas por vetores (mosquitos e animais). Segundo os dados do 
Sistema Único de Saúde (SUS), em 2018 foram registradas mais de 230 mil internações e 2.180 óbitos 
por doença de veiculação hídrica (DATASUS, 2018). 
O perfil da exclusão 
Segundo o relatório da Consultora BRK (2019) sobre saneamento e água, 15 milhões de brasileiras não 
recebem água tratada, o que representa uma em cada sete mulheres. Contudo, a sua distribuição no 
território não é uniforme. Segundo dados publicados no relatório BRK (2019), elaborados a partir da 
PNADCA/IBGE 2016, 85,7% das mulheres no Brasil possuem acesso à rede pública de abastecimento, 
sendo que a condição de moradia em áreas rurais ou urbanas é um diferencial substancial para a 
determinação das possibilidades de acesso à água tratada. Ao considerar áreas urbanas, 93,7% das 
mulheres tem acesso à água tratada, enquanto nas áreas rurais, apenas 37,4% estão ligadas à rede geral 
de distribuição. Este déficit de serviços se verifica essencialmente nas regiões Norte (39,3% da 
população não recebe água tratada) e Nordeste (20,0% da população) e em áreas mais vulneráveis 
dentro dos centros metropolitanos (IBGE, 2017). No caso das comunidades e periferias, o saneamento 
básico não é atendido e a qualidade da água, assim como o fornecimento, são muito baixos e 
irregulares. Também são afetadas especialmente pela contaminação dos rios. Como registrado pelo 
estudo SOSMA (2020), 78,8% dos rios da região Mata Atlântica apresentam índice de qualidade de água 
regular, 15,8% tem qualidade ruim e somente 5% apresentam qualidade boa.  
A falta de acesso à água e saneamento adequados afeta sobretudo as mulheres com rendas 
inferiores, autodeclaradas como negras e indígenas, jovens e com menor nível de instrução (BRK, 2019). 
Segundo os dados da PNADCA (IBGE, 2016), 38,8% das mulheres sem acesso ao sistema de distribuição 
de água tratada pertencem ao primeiro quintil e 24,0% ao segundo quintil da distribuição da renda 
domiciliar per capita no Brasil. Ao considerar o nível de renda da unidade familiar, nota-se que dos 
domicílios que recebem até um salário mínimo, apenas 73% tem acesso à rede geral de abastecimento, 
enquanto no meio rural, apenas 20% da população com até um salário mínimo têm cobertura (ibid.). 
Com respeito ao sistema de esgoto sanitário, segundo o levantamento realizado pelo Sistema 
Nacional de Informação em Saneamento (SNIS, 2019), em 2018 apenas 46,3% dos esgotos gerados no 
Brasil foram conduzidos ao tratamento (ver Tabela 7), sendo mais uma vez as regiões Norte e Nordeste 
as que apresentaram os índices menos favoráveis. Assim, o baixo nível de investimentos incentiva a 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 51 
 
utilização de fossas, sumidouros, valas a céu aberto e/ou lançamento direto nos corpos hídricos expondo 
a população a diversas doenças infecciosas e parasitárias (Medeiros e outros, 2014): 
 
Tabela 7 
Índice de atendimento com água e esgotos dos municípios com prestadores de serviços participantes do SNIS em 
2018, por macrorregião geográfica e Brasil 
Região Índice de atendimento com rede 
(Em porcentagem) 
Índice de tratamento dos esgotos  
(Em porcentagem) 
Água Coleta de esgotos Esgotos 
gerados 
Esgotos 
coletados 
Total Urbano Total Urbano Total Total 
Norte 57,1 69,6 10,5 13,3 21,7 83,4 
Nordeste 74,2 88,7 28,0 36,3 36,2 83,6 
Sudeste 91,0 95,9 79,2 83,7 50,1 67,5 
Sul 90,2 98,6 45,2 51,9 45,4 95,0 
Centro-Oeste 89,0 96,0 52,9 58,2 53,9 93,8 
Brasil 83,6 92,8 53,2 60,9 46,3 74,5 
Fonte: Elaboração própria com base em Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento - SNIS (2019). 
 
Ao analisar a situação específica por gênero do acesso ao serviço de esgoto, segundo o relatório 
de BRK (2019), apenas 79,1 milhões de mulheres (ou seja 74,6% das 105,9 milhões de brasileiras) 
residem em habitações cujo sistema de escoamento sanitário é considerado adequado. Isso indica que 
uma em cada quatro brasileiras não dispõe de sistema que seja apropriado. Neste caso, as áreas urbanas 
e do interior do país são as mais prejudicadas, sobretudo nos centros metropolitanos, enquanto as 
regiões mais afetadas continuam sendo o Norte e o Nordeste.  
Outro indicador importante para analisar o grau de exclusão e exposição é a inexistência de 
banheiro na moradia, sendo o mais primário dos problemas associados ao esgoto. A falta de banheiro 
traz problemas essenciais para a higiene feminina, aumentando a possibilidade de infeções e expondo 
as mulheres e meninas a maiores doenças ginecológicas e a situações de risco e violência. Esse problema 
afligia 1,585 milhão de mulheres brasileiras em 2016, enquanto 71,7% delas que não têm banheiro em 
casa residem na região Nordeste e 18,8% na região Norte (IBGE, 2017).  
Os investimentos necessários 
A partir dos dados expostos, entendendo perfil da exclusão das mulheres, é possível perceber quanto a 
universalização do saneamento e o tratamento da água são essenciais para melhorar as condições de 
vida e de mobilidade social de mulheres e meninas e reduzir o racismo ambiental. A universalização do 
saneamento, melhoraria as condições de inclusão, dado que poderia ajudar as mulheres e meninas 
(sobretudo as mulheres negras) a sair da pobreza e melhorar o seu desempenho escolar (BRK, 2019).  
Os investimentos em saneamento são essenciais para reduzir as sobrecargas de trabalho para as 
mulheres e meninas, melhorar as condições de saúde por uma menor exposição a doenças graves (cada 
real investido em saneamento tem um retorno na redução dos custos do sistema de saúde), e diminuir 
as inequidades regionais (especialmente no caso da região semiárida). 
A universalização do serviço de água e esgoto está estabelecido no Plano Nacional de 
Saneamento Básico (Lei 11.445 de 2007). Segundo o plano, para atingir a meta de saneamento dentro 
do prazo estabelecido de 2033, os investimentos deveriam ser de R$ 508 bilhões em 20 anos. O 
problema é que, segundo os dados do SNIS (2019) entre 2010 e 2018, os investimentos foram em média 
13 bilhões, bastante abaixo da meta, e eles não se concentraram nas regiões que registram maiores 
déficit no fornecimento do serviço (SNIS, 2019). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 52 
 
Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) 
Dentre os investimentos existentes, um caso que é importante analisar é o P1MC, que é o programa de 
fornecimento de cisternas na região semiárida para facilitar a captação e acumulação de água de chuva 
para o consumo humano. O programa recebeu entre 2003 e 2018, mais de 3,6 bilhões de reais, 
beneficiando a 1,2 milhões de famílias e 6,8 escolas rurais (Santana e Rahal, 2020). 
Uma caraterística interessante do programa de investimento é que incorpora a visão de gênero 
na sua implementação. Não é uma política específica para mulheres, mas existe um critério de 
prioridades para a sua distribuição que favorece a presença de mulheres chefes de família, de crianças 
em idade escolar e de idosos. Pelo fato de as mulheres ocuparem um lugar central na gestão doméstica 
da água, elas tendem a valorizar mais a cisterna (Branco, 2000, p.28). Segundo uma avaliação dos 
resultados apresentados por Nogueira,  
“A presença da cisterna ao redor da casa possibilitou uma maior autonomia das mulheres 
sobre o seu próprio tempo uma vez que estas não precisam mais andar longas distâncias. 
Um outro fator é a melhoria da condição de saúde da família e, particularmente, das 
crianças em função do acesso à água de mais qualidade.” (Nogueira, 2017, pág.32) 
A partir da incorporação das cisternas, verificou-se uma redução nos casos de diarreia e 
mortalidade infantil na região e, inclusive, o programa tem potencial na redução da frequência das 
migrações internas. De fato, a partir da participação no programa, as famílias melhoraram a sua 
qualidade de vida e também a sua renda. Da análise econômica realizada pelo Instituto Nacional do 
Semiárido resulta que as famílias com cisternas ampliaram as suas rendas em 82% quando comparadas 
com aquelas que não haviam sido atendidas (INSA, 2016). 
O P1MC é um exemplo de investimentos transformadores rumo à sustentabilidade e que, caso 
ganhar ainda mais escala, pode contribuir significativamente para construção de estilos de 
desenvolvimento com igualdade e sustentabilidade, conforme preconizado na abordagem Big Push 
para a Sustentabilidade. Contudo, ainda permanecem alguns problemas. Se destaca a importância do 
plano de investimento pelo aumento de disponibilidade de água para consumo, que muitas vezes não é 
suficiente durante a seca, e por ser uma fonte criadora de empregos e rendas complementares (Santana 
e Rahal, 2020), porém, são ocupações geralmente destinadas aos homens. Essas problemáticas serão 
retomadas no Capítulo V. 
C. Mobilidade urbana 
O setor de transporte historicamente é um setor chave para a economia e, com o desenvolvimento dos 
grandes centros urbanos, ganhou ainda mais relevância. Pode ser entendido como um setor que 
contribui tanto para a mitigação, a partir de investimentos em modais e tecnologias de transporte 
menos poluentes e de baixa ou zero emissões de GEE, quanto para a adaptação, ao desenvolver meios 
de transporte mais resilientes, menos suscetíveis e mais acessíveis para as mulheres. Pode-se dizer que 
esse setor opera como um dos pilares da economia nacional, uma vez que ele movimenta todos os 
outros setores “... possibilitando o funcionamento dos serviços e cadeias produtivas, bem como a 
mobilidade da população, além de influenciar o preço final dos produtos no mercado interno e para 
exportação ” (Batista e outros, 2020, pág. 4). 
O Brasil, sendo um país que conta com uma matriz elétrica abastecida majoritariamente por 
energias renováveis, vastos recursos naturais (ver seção IV.F) e competências produtivas e tecnológicas 
na cadeia automotiva, apresenta forte potencial para impulsionar políticas públicas de eletromobilidade 
urbana sustentável, com foco no transporte coletivo, que contribuam para um estilo de 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 53 
 
desenvolvimento sustentável, por meio de investimentos direcionados a ampliar a competitividade 
setorial, assim como em alternativas de mitigação e adaptação frente às mudanças climáticas.  
Contudo, o perfil do transporte brasileiro, assim como de grande parte da América Latina, é 
caracterizado por falhas na infraestrutura, tecnologias defasadas, alta taxa de motorização privada 
(Casas, Lara e Espinosa, 2019), frágil planejamento urbano e uso predominante de combustíveis 
fósseis47, o que o torna um dos principais setores responsáveis emissores de GEE. Reporta-se que 60% 
da movimentação de cargas e 90% do deslocamento de passageiros são realizados pelo modal 
rodoviário, ao invés de alternativas mais limpas, como ferroviário e aquaviário (Batista e outros, 2020). 
Quando se pensa em emissão de GEE, a parcela do setor de transporte que realiza o 
deslocamento de pessoas ocupa um lugar de destaque. Os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar 
(POF) do IBGE mostram que 44,3% das pessoas utilizam o transporte público como principal forma de 
deslocamento, o que significa que grande parte da população brasileira faz uso da motorização privada 
como sua forma de deslocamento48. Dessa forma, é importante pensar que as cidades são espaços com 
grande responsabilidade na emissão de GEE e, portanto, são também espaços essenciais para o 
desenvolvimento de soluções descarbonizadas. 
Assim, pensar o trânsito de pessoas pela cidade se apresenta como estratégia para a construção 
de uma agenda de desenvolvimento sustentável que integre as três dimensões – econômica, social e 
ambiental. Atualmente, no âmbito dos ODS, o ODS 11, conhecido como o “ODS Urbano”, busca “tornar 
as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”. (ONU, 2015). 
Em paralelo, a Nova Agenda Urbana (2016) defende em seu artigo 13 que:  
“promovam o planejamento e investimentos sensíveis à idade e ao gênero para uma 
mobilidade urbana sustentável, segura e acessível a todos e todas e sistemas de transporte 
de passageiros e de cargas que façam uso eficiente de recursos e que efetivamente 
conectem pessoas, lugares, bens, serviços e oportunidades econômicas; (g) aprovem e 
implementem políticas de redução e gestão de risco de desastres, reduzam a 
vulnerabilidade, desenvolvam resiliência e capacidade de resposta a perigos naturais e de 
origem humana, promovam a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas.” (ONU 
Habitat, 2016 pág. 7, tradução livre). 
As mulheres e meninas são as maiores usuárias de transporte público no Brasil. Segundo Instituto 
Pólis (2020), 74% das mulheres se deslocam por meio de transporte coletivo ou a pé, enquanto 62% dos 
homens utilizam esses dois modais como principais formas de deslocamento (ver Capítulo I). Assim, 
investimentos em mobilidade urbana, além de possibilitar soluções múltiplas para a sustentabilidade, 
mitigação e adaptação às mudanças climáticas, também pode possibilitar maior igualdade de gênero:  
[S]e requer a articulação simultânea de muitos fatores e de ações coordenadas em 
múltiplos setores, prestando a devida atenção às necessidades dos distintos grupos de 
usuários, incluindo as variáveis de gênero, etárias, étnicas e das pessoas com mobilidade 
reduzida, ao mesmo tempo que se produzem transformações produtivas e sociais em 
favor de uma mobilidade mais sustentável e igualitária para todos. (Casas, Lara e Espinosa, 
2019, pág. 3, tradução livre). 
 
47  “Em 2018, [o setor de transporte] foi a atividade que mais utilizou energia no Brasil, respondendo por 32,7% do consumo total (EPE, 
2019). O modal rodoviário demandou 93,3% da energia destinada ao transporte (ibid.). Mais de 76% do consumo energético do 
setor transportador foi composto por combustíveis fósseis, não renováveis e altamente poluentes (ibid.). Estima-se que o transporte 
responde por 14,4% das emissões líquidas de GEE do Brasil (MRE; MCTIC, 2019). Em 2012, no modal rodoviário, os ônibus e 
caminhões tiveram participação de 50% nas emissões de dióxido de carbono, 31% nas emissões de óxido nitroso e 24% nas emissões 
de metano, todos conhecidos como GEE (MMA, 2014; Batista e outros, 2020, pág. 4). 
48  A ausência de dados nacionais sobre mobilidade ativa impede que se tenha uma noção exata da quantidade de pessoas que se 
movimentam a pé ou de bicicletas nas cidades brasileiras. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 54 
 
Com o intuito de compreender as dimensões da mobilidade urbana no Brasil e pensar os 
investimentos necessários para transformações sustentáveis e inclusivas no setor, a seguir são 
apresentadas as vulnerabilidades que a mobilidade urbana brasileira impõe a mulheres e meninas, 
desafios esses que são intensificados no contexto das mudanças climáticas.  
A importância dos investimentos para as mulheres: deslocamento e uso do tempo 
Considerando que as políticas de mobilidade urbana têm como objetivo primário “facilitar o acesso das 
pessoas a atividades e destinos, o que torna a acessibilidade uma métrica central nos processos de 
planejamento e avaliação de políticas de transporte” (ONU Habitat, 2013; van Wee e Geurs, 2011 apud 
Pereira, 2020 pág. 10), a mobilidade consta como um dos principais fatores que contribuem para a 
desigualdade de gênero. Além das problemáticas gerais presentes no setor de transporte brasileiro, as 
mulheres são intensamente atingidas devido, substancialmente, à diferenciação de seu padrão de 
mobilidade em relação ao padrão masculino, que é consequência dos papéis de gênero e da estrutura 
social do país.  
Enquanto os homens têm “um descolamento do tipo “pendular” (da casa ao trabalho), as 
mulheres apresentam deslocamentos “poligonais”, ou seja, múltiplas viagens, com diferentes focos 
entre trajetos (Casas, Lara e Espinosa 2019, pág. 4, tradução livre). A partir da sua responsabilidade com 
os cuidados, as mulheres gastam mais tempo e esforço nos deslocamentos associados com o trabalho 
domésticos não remunerado (Instituto Polis, 2020). O resultado da ausência de políticas de mobilidade 
que sejam sensíveis ao gênero e ao padrão diferenciado de deslocamento das mulheres é a pobreza do 
tempo das mesmas, que precisam dispender de mais horas do seu dia no intuito de suprir a ausência de 
percursos pensados para padrões de deslocamento que não sejam pendulares. 
É importante destacar que os dados de tempo de deslocamento49 registrados pela Pesquisa 
Nacional de Amostra Doméstica (PNAD; IBGE, 2015), não estão pensados sob a lógica de padrões 
alternativos de mobilidade que incluam o papel social dos trabalhos não remunerados das mulheres. 
Assim, só registram o percurso casa-trabalho, que não evidencia essas grandes diferenças de gênero 
nem de raça nos deslocamentos. Essa lacuna de dados oficiais prejudica também o planejamento de 
políticas específicas de mobilidade que lidem com a dicotomia entre centro e periferia dentro das 
cidades podendo expulsar e marginalizar ainda mais as mulheres negras e periféricas. Também, devido 
a essa inconsistência entre o real uso do tempo para deslocamento pelas mulheres e os dados oficiais é 
difícil captar a “demanda reprimida de viagens – aquelas viagens que pessoas gostariam de ter feito, 
mas não o fizeram por alguma restrição de custo, baixa disponibilidade ou conectividade do serviço” 
(Nordbakke e Schwanen, 2015 apud Pereira e outros 2020, pág. 12) e “mascaram níveis de acessibilidade 
de determinados grupos sociais mais vulneráveis” (ibid.). Segundo o IBGE, cerca de 20% do orçamento 
doméstico das famílias que sobrevivem com até dois salários é comprometido com transporte (IBGE, 
2020)50. Esse dado, combinado com os desafios de planejamento e de implementação da Política 
Nacional de Mobilidade Urbana51, resulta em periferias com “desertos de oportunidades” (Pereira e 
outros, 2020), com baixos níveis de desenvolvimento e baixa acessibilidade urbana - precária 
disponibilidade de infraestrutura e de transporte público -, diminuindo o acesso da população a 
oportunidades de trabalho, transporte, saúde e educação nos maiores centros urbanos do país.  
 A pesquisa Desigualdades Socioespaciais de Acesso a Oportunidades nas Cidades Brasileiras (IPEA, 
2019), compara a relação entre a acessibilidade a oportunidades de emprego e renda em três grandes 
 
49  Tempo de deslocamento se refere ao “O tempo despendido pelo empregado desde a sua residência até a efetiva ocupação do posto 
de trabalho e para o seu retorno, caminhando ou por qualquer meio de transporte” (Parágrafo 2°, do artigo 58, da CLT).  
50  Famílias com até 2 salários gastam 61% do orçamento com alimentos e habitação em 2019. 
51  Transporte no Brasil é considerado um Direito Social desde 2015 a partir da Emenda Constitucional. A Lei 12.587/2012 instituiu as 
diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. No entanto, a obrigatoriedade dos Planos Municipais de Mobilidade Urbana 
teve seus prazos de cumprimento pelos municípios prorrogados para 2023. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 55 
 
centros urbanos – Porto Alegre, Goiânia e Campinas - mostrando a distribuição de empregos acessíveis 
a pé em até 30 minutos segundo decil de renda (em porcentagem). O resultado é que quanto maior a 
renda da população, menor o tempo de deslocamento até as oportunidades de trabalho mais próximas. 
O Mapa 1 A e B ilustra esse padrão prevalecente nos grandes centros urbanos a partir da visão 
sobre São Paulo, a maior cidade da América Latina, onde o maior nível de acessibilidade se restringe às 
áreas centrais ao passo que as periferias apresentam acessibilidade consideravelmente diminuída. 
Abaixo é possível identificar uma comparação da proporção de empregos acessíveis e de educação 
fundamental para deslocamentos até 60 minutos, evidenciando que as oportunidades de trabalho se 
concentram no centro e exigem um tempo elevado de deslocamento para acessar. 
Analisando os dados apresentados no Mapa 1, fica claro que à medida que se aumenta o tempo 
de deslocamento de 30 minutos para 60 minutos, aumenta-se também o acesso à empregabilidade 
devido à possibilidade de mobilidade das periferias em direção ao centro. Na cidade de São Paulo existe 
um dos sistemas de transporte público com maior capilaridade do país, o que à reflexão sobre a 
gravidade no contexto de cidades que contam com sistemas ainda mais deficitários. 
Entendendo que a localização da moradia em relação ao acesso a oportunidades é um 
componente central na mobilidade urbana, é essencial destacar que as desigualdades territoriais têm 
um peso maior no aumento da vulnerabilidade das mulheres, que define as suas condições de vida e uso 
do tempo, principalmente para aquelas que são mães. “Há uma correlação perversa entre território, 
renda das famílias e a oferta de vagas em creches públicas – e consequentemente no número de mães 
empregadas.” (Instituto Polis, 2020). Segundo os dados da PNADCA (IBGE, 2019), no Brasil, em 2018, 
existiam 38 milhões de pessoas em situação de pobreza, dentre as quais 72,2% eram negras e, entre 
essa porcentagem, 27 milhões eram mulheres. Logo, vê-se que essas questões são intrínsecas à relação 
entre renda e deslocamento, uma vez que mulheres mais pobres são as que mais utilizam transportes 
coletivos e se deslocam a pé52, assim como são as que possuem maior variação na motivação das suas 
viagens, como educação, saúde e assuntos pessoais (43% das motivações são relacionadas à educação, 
14% à assuntos pessoais e 7% à saúde; IBGE, 2019).  
Todos esses fatores, em conjunto com o quesito autonomia física, colocam a mobilidade urbana 
como um setor repleto de barreiras à autonomia das mulheres como um todo. A segurança das 
mulheres dentro e em espaços associados ao transporte público – caminho entre a estação de 
transporte e a moradia – é frequentemente ameaçada por situações de violência, física e sexual 
vivenciadas nesse ambiente. A pesquisa do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto 
Locomotiva53 demonstra que o assédio sexual é uma realidade para a grande maioria das mulheres que 
utilizam modais públicos para deslocamento, conforme apontado no Capítulo I. Outro dado relevante é 
a relação entre deslocamento e empregabilidade: 72% das mulheres apontam o tempo de 
deslocamento como o fator principal para acesso e permanência no emprego. É interessante também 
o quesito “percepção de segurança” abordado pela pesquisa, que aponta que 75% das mulheres se 
sentem seguras em transporte por aplicativo enquanto apenas 26% delas declararam sentir o mesmo 
em transportes públicos. 
 
 
 
52  Em uma família com ganhos mensais menores que R$ 1.244, 50% das viagens são realizadas caminhando e 28% de ônibus (Instituto 
Pólis, 2020). 
53  Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão / Instituto Locomotiva (Agência Patrícia Galvão, 2019) ouviu 1.081 brasileiras que utilizaram 
transporte público e por aplicativo nos três meses anteriores à data do início do estudo. 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 56 
 
Mapa 1 
Proporção das oportunidades de trabalho e de educação fundamental acessíveis                                                                             
por transporte público em até 60 minutos, São Paulo 
(Em porcentagem) 
A. Trabalho                                                                                   B. Educação fundamental 
 
Crédito: Plataforma de Pesquisa Acesso a Oportunidades, IPEA (2019). 
 
Como foi sublinhado no Capítulo III, é necessário repensar as relações econômicas de produção, 
emprego e consumo a partir dos papéis sociais de gênero e, consequentemente, considerar os 
diferenciados padrões de deslocamento para que haja inclusão do olhar das mulheres nas políticas e 
ações públicas que visem aumentar a eficiência econômica dos projetos, ao mesmo tempo que a 
pobreza e a injustiça climática seja combatida: 
“A literatura também tem encontrado que áreas urbanas com maiores níveis de 
acessibilidade e onde há maior integração entre transporte e uso do solo tendem a ter 
menores impactos ambientais e emissão de CO2 (Liu e Shen, 2011; Stokes e Seto, 2018).” 
(Pereira e outros, 2020, pág.11). 
Assim, as políticas perseguidas serão coerentes com um modelo de desenvolvimento sustentável 
e inclusivo, que vise à transformação da estrutura econômica e produtiva e que considerem tanto a 
geração de emprego como a provisão de bens públicos com perspectiva de gênero, étnica e racial. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 57 
 
D. Segurança alimentar e nutricional e agricultura familiar 
A inação diante das mudanças climáticas torna vulnerável o sistema de segurança alimentar e 
nutricional brasileiro, que está diretamente ligado à utilização de recursos ambientais na produção de 
alimentos e é um mecanismo essencial tanto de adaptação como de mitigação. Nas áreas rurais, as 
consequências das mudanças do clima devem recair sobre as regiões mais pobres, o Nordeste e o Norte, 
e as de grande produção agrícola – Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A previsão é de perda de áreas 
agriculturáveis, com reflexos negativos na produtividade agrícola (PBMC, 2013a). 
Evidentemente, as mudanças no clima e a multiplicação de eventos extremos, vão gerar perdas 
para todos os produtores agropecuários, grandes e pequenos, exportadores e fornecedores do mercado 
doméstico. Contudo, os grandes exportadores contam com mecanismos de proteção de suas receitas, 
como maior acesso a financiamento e subsídios. Dentre essas atividades exportadoras, a pecuária é um 
dos principais emissores de GEE e o agronegócio de monocultura praticado de forma insustentável 
reduz a biodiversidade, provoca desmatamento e utiliza agrotóxicos em excesso de forma prejudicial 
ao meio ambiente e às pessoas54 (Butto Zarzar e outros, 2020). Assim, os investimentos a serem 
realizados para mitigação e adaptação às mudanças climáticas no contexto do Big Push para a 
Sustentabilidade devem ser concentrados em atividades agrícolas menos impactantes ou até mesmo 
restauradoras dos ecossistemas, priorizando a agricultura familiar que é a grande produtora de 
alimentos para o consumo interno no país.  
Por outro lado, os efeitos negativos da perda de terras agriculturáveis e alterações climáticas que 
provocam mudanças nas temperaturas, extensão dos períodos de seca, aumento de chuvas e enchentes 
serão especialmente sentidos na cesta de alimentos básicos dos brasileiros, como arroz, feijão, 
mandioca e milho. Isto pode gerar consequências sociais negativas tanto para os consumidores, dada a 
queda na oferta de alimentos, especialmente para as populações mais pobres – uma clara ameaça à 
segurança alimentar e nutricional, quanto para a agricultura familiar55 (AF) e os pequenos agricultores56, 
que produzem para o mercado doméstico e para autoconsumo. De fato, a AF representa 77% dos 
estabelecimentos no setor agropecuário do país57 e sua produção é fundamental para fornecer: 48% do 
valor da produção de café e banana; 80% do valor de produção da mandioca, 69% do abacaxi e 42% da 
produção do feijão em 2017 (IBGE, 2019b).  
A AF é central no momento de discutir segurança alimentar e nutricional e, sobretudo, para 
avançar na soberania alimentar. Segundo Machado (2017), a segurança alimentar e nutricional consiste 
em garantir o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em 
quantidade suficiente. Complementarmente, o conceito de soberania alimentar considera outras 
dimensões que vão aquém do fornecimento e acesso aos alimentos e a redução da dependência 
 
54  De acordo com Pignati e outros (2017, p. 3284), em 2015, “A soja foi a cultura que mais utilizou agrotóxicos no Brasil, representando 
63% do total, seguido do milho (13%) e cana-de-açúcar (5%)”, sendo as duas primeiras culturas de exportação e a cana o insumo 
para produção de açúcar, que também é exportado. Ou seja, o agronegócio é o maior consumidor de agrotóxicos, prejudicando o 
meio ambiente e a saúde humana. 
55  No Brasil, a agricultura familiar é definida na Lei 11.326/2006, artigo 3º, que considera: [...] agricultor familiar e empreendedor 
familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: I - não detenha, a 
qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas 
atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III - tenha percentual mínimo da renda familiar originada de 
atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo; (Redação dada pela 
Lei nº 12.512, de 2011) IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família (Brasil, 2006).  
56  O art. 4º da Lei nº 8.629/1993 define pequena propriedade como o imóvel rural de área até quatro módulos fiscais e média 
propriedade, de área superior a quatro e até 15 módulos fiscais (Brasil, 1993). Assim, nem todo pequeno agricultor é um agricultor 
familiar, mas todo agricultor familiar é um pequeno agricultor.  
57  A AF inclui tanto as atividades agrícola, pecuária, extrativista, pesqueira e florestal como outros empreendimentos familiares. 
Dentre estes, está a pequena agroindústria, como a produção de farinha, beneficiamento de alimentos, fabricação de bolos, doces, 
polpas de frutas, entre outros, que em geral são atividades realizadas pelas mulheres e meninas. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 58 
 
econômica. Garantir a soberania alimentar implica garantir a autonomia, autodeterminação, resgate 
dos saberes ancestrais, identidade, relação com a natureza, respeito à cultura e as formas de 
organização social e produtiva das agricultoras e agricultores, extrativistas, pescadoras e pescadores, 
ribeirinhas, quilombolas, organizações comunitárias, indígenas, entre outros. Como foi ratificado pela 
Conferência dos Povos sobre Mudanças Climáticas, na cidade de Cochabamba em 2010, a Soberania 
Alimentar é o direito dos povos  
“a controlar suas próprias sementes, terras e água, garantindo, por meio de uma produção 
local e culturalmente apropriada, o acesso dos povos a alimentos suficientes, variados e 
nutritivos em complementação com a Mãe Terra e aprofundando a produção autônoma, 
participativa, comunitária e compartilhada de cada nação e povo” (Stedile e Martins de 
Carvalho, 2011, online).  
Este resgate dos saberes ancestrais, da cultura, das formas de organização comunitárias da 
produção e da reprodução, do direito sobre o território e sobre os recursos naturais e a relação com a 
natureza e o meio ambiente por acima do lucro e das lógicas produtivistas e mercantilistas, se 
enquadram no conceito do “Bem Viver” desenvolvido na seção III.F.  
Embora as agricultoras rurais ocupem lugar de centralidade dentro desse processo, elas seguem 
sendo parte das populações mais vulneráveis da sociedade brasileira e, no entanto, não têm o mesmo 
acesso a recursos produtivos que os homens, incluindo: terra, pecuária, mão-de-obra, serviços 
financeiros e de extensão, e a tecnologia (FAO, 2011, apud Casas, 2017).  
Os desafios enfrentados pelas agricultoras na garantia e na preservação da soberania alimentar 
das suas famílias e comunidades são essencialmente ligados à estrutura do poder tanto em suas 
propriedades quanto nos espaços públicos, afetando diretamente as “...tomadas de decisão relativas ao 
uso dos espaços de produção, à escolha do tipo de sementes, ao uso dos agrotóxicos, à divisão do 
trabalho nos espaços domésticos e produtivos, entre outros” (Butto Zarzar e outros, 2020, pág. 1). 
Desenvolver políticas para a soberania alimentar sem discutir as relações de gênero existentes em seu 
cerne resulta na manutenção da divisão sexual do trabalho no meio rural, na invisibilização dos modelos 
alternativos protagonizado pelas mulheres e das suas particularidades. 
A divisão sexual do trabalho no meio agrário, assim como no meio urbano, possui raiz na 
estrutura patriarcal, que coloca o chefe de família – pai e provedor – como a figura responsável por todas 
as atividades produtivas da unidade econômica familiar. O homem é responsável pelo trabalho 
produtivo (a agricultura, a pecuária, enfim tudo o que se associa ao mercado) e as mulheres pelo 
trabalho reprodutivo (o trabalho doméstico, o cuidado da horta e dos pequenos animais, tudo o que é 
feito para uso e consumo próprio, sem contar a reprodução da própria família pelo nascimento e cuidado 
dos herdeiros). Assim, cria-se a oposição entre casa e roçado, na qual as mulheres ficam com o não-
trabalho e, consequentemente, com a oposição subalterna nas tomadas de decisão mesmo que elas 
trabalhem mais horas que os homens e que, por muitas vezes, compartilhem dos trabalhos ditos 
masculinos e que possuem alto nível de esforço físico, sendo vistas sempre como ajudantes (Nobre, 
1998). Na comercialização, do mesmo modo, as mulheres se encarregam de produtos secundários, 
como verduras e frutas, e o valor monetário gerado é revertido em bens domésticos de forma que a 
renda gerada pelo trabalho feminino é invisibilizada dentro do orçamento familiar.  
As mulheres dirigem cerca de 21% dos estabelecimentos da agricultura familiar e no total das 
agriculturas, as atividades em que elas mais trabalham são na Produção de lavouras temporárias (36%), 
Pecuária e criação de outros animais (46%) e Produção de lavouras permanentes (10%; IBGE, 2019b). 
Dentro desses estabelecimentos 80% eram proprietárias e 7% tinham a concessão da terra, sendo que 
metade delas obtiveram a terra por herança ou doação, 39% compraram de particular, 3% receberam 
da reforma agrária, 0,7% por concessão de terra indígena e 0,3% por titulação de comunidade 
quilombola. Assim, as agricultoras familiares exercem suas atividades como uma tradição familiar e as 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 59 
 
mais vulneráveis – sem terras, indígenas e quilombolas – são as que possuem mais dificuldades em obter 
terras, mesmo com as políticas públicas existentes. No total da AF, mais da metade dos 
estabelecimentos são dirigidos por negros – 9% por pretos e 46% por pardos –, sendo a participação dos 
brancos de 43% e de indígenas e amarelos de 1% para cada (IBGE, 2019b). 
A assistência técnica é precária, pois, apenas 11% das agricultoras familiares receberam esse tipo 
de assistência em 2017. O tipo de recurso hídrico mais utilizado por elas foi o poço e/ou a cisterna e 11% 
dos estabelecimentos dirigidos pelas mulheres não possuíam eletricidade (IBGE, 2019b). Este é um 
percentual alto, considerando a capacidade de geração e distribuição de energia elétrica no país. 
Possivelmente, essas produtoras se situam em áreas remotas, onde não há eletrificação rural, ficando 
elas dependentes de sistemas isolados58. 
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)59 tem um papel muito 
importante para as mulheres da AF, pois, 99,8% delas tiveram acesso a esse recurso financeiro (IBGE, 
2019b). Não obstante, pequenas agricultoras não familiares não participam desse programa, pois, não 
cumprem os requisitos do enquadramento da lei, sendo que não possuem documentos de 
comprovação. Essas trabalhadoras rurais, portanto, tornam-se “invisíveis” nas estatísticas oficiais, 
necessitando de políticas públicas especificas.  
Diante do exposto, estão abaixo identificados alguns investimentos necessários nas atividades 
da AF e de atividades agrícolas menos impactantes e restauradoras dos ecossistemas, visando a 
segurança alimentar e nutricional, de forma que seja possível colocar as mulheres como protagonistas 
da mitigação ou adaptação às mudanças climáticas. Esses investimentos, sejam públicos ou privados, 
devem ser estimulados por meio de políticas públicas, que estão explicitadas no Capítulo V.  
As atividades pesqueiras, por exemplo, apresentam enorme potencial para garantia da segurança 
alimentar e nutricional. O Censo Agropecuário de 2017 (IBGE, 2019b) evidencia as baixíssimas 
participações da pesca e da aquicultura no número total de estabelecimentos agropecuários – menores 
que 0,5% para ambas as atividades. Não obstante, destaca-se a participação da agricultura familiar na 
pesca, com participação maior que 80% dos estabelecimentos pesqueiros em todas as regiões 
geográficas brasileiras, sendo a da aquicultura na AF cerca de 25%. A participação feminina em cada 
uma dessas atividades é de 22% para a pesca e 15% para aquicultura (IBGE, 2019b). Deve-se levar em 
conta a invisibilidade do Censo Agropecuário para as atividades da pesca extrativa (Lustosa e 
Podcameni, 2020; Timóteo, 2019), o que esconde a participação das mulheres, que são, em geral, 
marisqueiras e beneficiadoras de pescados. 
 Esses dados evidenciam a necessidade de um olhar específico para essas atividades, dado que o 
aumento de temperatura resultando das mudanças climáticas devem impactar negativamente os 
ecossistemas marinhos, elevar o nível do mar, provocar a acidificação dos oceanos etc., levando a 
perdas de biodiversidade da biota marinha e, consequentemente, pesca extrativista marinha. A 
estimativa é que o Potencial Máximo de Captura (PMC) do Brasil seja reduzido em 6% até 2055 (PBMC, 
2013b). Adiciona-se a este cenário, a sobrepesca, o que compromete a segurança alimentar e 
nutricional. Nesse contexto, os investimentos na aquicultura sustentável são uma possibilidade de 
mitigação das mudanças climáticas, pela parcial substituição da carne bovina pelo pescado, e de 
adaptação, pois também substitui a produção da pesca extrativa. As mulheres podem ser inseridas na 
aquicultura, sendo uma via de desenvolvimento tanto pela segurança alimentar como pela geração de 
ocupação, emprego e renda. Não obstante, são necessárias políticas públicas para superar os obstáculos 
que essas atividades enfrentam.  
 
58  Os sistemas isolados de geração de energia estão comentados neste Capítulo na seção IV.F. 
59  O Pronaf foi criado pela Lei nº 9.138, de 29 de novembro de 1995, que dispõe sobre o crédito rural, e dá outras providências. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 60 
 
Destaca-se, também, a importância do fomento à produção de máquinas específicas para AF, 
visando o acesso das produtoras a tecnologias mais adaptadas e de maior apropriabilidade, dado que 
as máquinas que estão à venda no mercado em geral têm preços elevados e não são condizentes com a 
escala de produção60 e as necessidades das agricultoras familiares. Em 2017, nos estabelecimentos por 
elas dirigidos, somente 7% possuíam tratores e 5% contavam com colheitadeiras, adubadeiras e 
semeadeiras – sendo que nas propriedades dirigidas por homens, mais de 90% têm essas máquinas. O 
mesmo acontece com veículos, pois, dos estabelecimentos das agricultoras familiares, somente 6% 
possuem caminhão, 9%, utilitários e automóveis e 12%, motos (IBGE, 2019b). As dificuldades de 
locomoção e do escoamento da produção são, portanto, maiores para as produtoras.  
Os investimentos na produção agroecológica e orgânica são importantes tanto para garantir 
alimentos seguros para o consumo humano quanto para a proteção do meio ambiente. A agroecologia 
é um campo do conhecimento de natureza multidisciplinar, que apresenta elementos para a construção 
de modelos de agriculturas mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e humano, apoiada em bases 
científicas e nas tradições locais, na qual as mulheres são protagonistas devido à sua estreita relação 
com os recursos comuns e o papel desenvolvido por elas na produção e distribuição. Assim, não deve 
ser confundida com a agricultura orgânica, que é uma prática agrícola e precisa, necessariamente, ser 
certificada. Apesar dos benefícios da agricultura orgânica, também em termos ambientais e humanos, 
sua prática no Brasil ainda é muito restrita, visto que somente 1,3% dos estabelecimentos 
agropecuários, familiares ou não, tinham agricultura ou pecuária orgânica em 2017, sendo que 20,6% 
deles eram dirigidos por mulheres. A participação dos estabelecimentos das agricultoras familiares com 
práticas orgânicas foi de 21,4% no total da AF orgânica nesse mesmo ano (IBGE, 2019b). 
Os investimentos nos sistemas agroflorestais61 (SAF) são essenciais para uma agricultura de 
baixo carbono e para a inclusão social, uma vez que 61% dos SAF são dirigidos por negros (IBGE, 2019b). 
Ademais, esses sistemas apresentam preocupação social com os territórios, o que é relevante na 
medida em que as mulheres são os corpos mais vulneráveis diante do racismo ambiental. Ao mesmo 
tempo, os SAF são formas de produção e de consumo que dão lugar à relação das mulheres com os 
territórios, valorizando a recuperação dos saberes de povos tradicionais. As modelagens econômicas 
confirmaram os retornos positivos dos investimentos em SAF e nos reflorestamentos das áreas 
degradadas com espécies nativas (WRI Brasil, 2020). São igualmente relevantes os investimentos na 
preservação de sementes crioulas, nos reflorestamentos de áreas degradadas com espécies nativas, na 
recuperação de nascentes, nas hortas comunitárias e no uso de bioenergia (PBMC, 2013b), que podem 
trazer benefícios diretos na vida das agricultoras familiares e ajudam a mitigar as mudanças do clima.  
Assim, além do tempo que as mulheres dedicam aos cuidados, elas são responsáveis pela 
alimentação de suas famílias e muitas ainda têm que prover o aporte monetário para todos. Assim, os 
investimentos em mitigação e adaptação às mudanças climáticas devem ter políticas públicas 
específicas para as mulheres, no sentido de gerar mais oportunidades de ocupação, emprego e renda, 
garantir um acesso mais igualitário à propriedade e às tecnologias, aliviar a carga de esforço nos 
trabalhos no lar e fora dele, além de dar autonomia às mesmas, garantindo a segurança alimentar e 
nutricional para o país. 
 
60  O cooperativismo pode resolver o problema da escala de produção parcialmente, porque as características das cooperativas de 
agricultores variam muito conforme a região do Brasil. Na região Sul, as cooperativas são bem articuladas e funcionam como 
grandes empresas, mas, no Nordeste, elas já não têm desempenho tão bom, com exceções. 
61  “SAFs para recuperação ambiental são sistemas produtivos que podem se basear na sucessão ecológica, análogos aos ecossistemas 
naturais, em que árvores exóticas ou nativas são consorciadas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustivas, de acordo 
com um arranjo espacial e temporal pré-estabelecido, com alta diversidade de espécies e interações entre elas. Em geral, nos SAFs 
são realizados plantios de sementes e/ou de mudas. Os recursos e o retorno da produção são gerados permanentemente e em 
diversos estratos. SAFs otimizam o uso da terra, conciliando a preservação ambiental com a produção de alimentos, conservando 
o solo e diminuindo a pressão pelo uso da terra para a produção agrícola. Podem ser utilizados para restaurar florestas e recuperar 
áreas degradadas. ” (Embrapa, s.d.). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 61 
 
E. Saúde, mudança climática e investimentos 
A saúde humana sofre sérias ameaças diante da inação às adversidades climáticas. As mudanças do 
clima aumentam as situações de risco em determinadas áreas onde podem agravar os casos doenças 
tropicais, de veiculação hídrica, transmitidas por vetores e respiratórias (PBMC, 2014). Além disso, a 
elevação da temperatura média em diversas localidades pode também aumentar a intensidade e 
frequência das secas com efeitos na saúde humana associados à indisponibilidade de água tratada, com 
doenças como gastroenterite e hepatite A, como mencionado na seção IV.B. Para este cenário no Brasil, 
os municípios das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul apresentaram condições térmicas mais 
favoráveis à propagação do mosquito Aedes aegypti, aumentando o potencial de disseminação de 
doenças transmitidas por esse vetor, como dengue, chikungunya e zika. Assim, as temperaturas e 
eventos extremos têm potencial impacto na saúde da população, especialmente daqueles mais 
vulneráveis social e economicamente, que têm menos acesso à água tratada e a melhores locais de 
moradia. Além do aumento da temperatura média, há um aumento de ocorrência de eventos extremos 
climáticos e de pandemias. Estas últimas podem acontecer em função de relações ambientais 
desequilibradas, processo de desmatamento que ocasionam fuga de animais silvestres para o meio 
urbano (Hacon e outros, 2019).  
Uma vez que os eventos climáticos adversos podem ocasionar mortes e doenças, certamente 
também devem causar uma maior pressão sobre o sistema de saúde brasileiro, já sobrecarregado. Este 
cenário descrito pelas mudanças do clima pressionam a vida das mulheres em três distintas dimensões 
que se interligam, apresentadas a seguir. 
Mulheres como cuidadoras não remuneradas:                                                                      
aumentando a carga de trabalho e a exposição 
Como mencionado nos Capítulos I e III, são as mulheres as principais responsáveis por realizar as tarefas 
domésticas e cuidar de crianças, idosos e doentes da família. Segundo relatório da Oxfam (2020), 
mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de 
cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global 
– mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo. No Brasil, essa realidade se traduz nas 
mais de 11 milhões de famílias compostas por mães solo, que não têm com quem compartilhar o 
trabalho dentro de casa. Por esses motivos, mulheres sofrem diretamente com a sobrecarga. 
Nesse sentido, diante dos efeitos da mudança do clima, haverá mais pessoas doentes que 
precisam de cuidados, agudizando a desigualdade na distribuição dos trabalhos no remunerados. 
Segundo o relatório “Sem a mulher negra a economia para”, publicado por Think OLGA (2020): durante 
a pandemia de COVID-19, 50% das mulheres passaram a cuidar alguém, e em muitos casos é pessoal de 
risco ou doentes, sendo que o peso dos cuidados recai mais sobre as mulheres negras. Por sua vez, o 
aumento da carga física e mental não só requer maior tempo para cuidar, mas também gera maior 
exposição a doenças, tanto pelo estresse causado quanto pela exposição a contágios.  
De acordo com a Política Nacional de Atenção Integral a Mulher (PNAIM, 2004), além dos fatores 
biológicos, há outros determinantes da saúde como as condições ambientais e sanitárias da residência 
e do trabalho, além dos aspectos nutricionais, do acesso ao lazer e da pobreza. A sobrecarga dos 
cuidados domésticos, aliado à discriminação nas relações de trabalho faz as mulheres adoecerem mais.  
Assim, expectativa de aumento de doenças em função do incremento de eventos extremos a 
mudança do clima, esta carga de trabalho tende a se ampliar, prejudicando a mulheres e meninas que 
veem reduzida a sua disponibilidade de tempo para trabalhar, estudar, ou se dispersar. Ademais, 
espera-se que em 2050, o Brasil tenha cerca de 77 milhões de pessoas dependentes de cuidado (pouco 
mais de um terço da população estimada) entre idosos e crianças (Oxfam, 2020). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 62 
 
Mulheres como cuidadoras remuneradas: exposição e trabalho precário 
Como foi sinalizado no Capítulo I, os trabalhos de cuidados remunerados evidenciam uma presença de 
mulheres trabalhadoras muito acima da média. No caso da área de saúde e serviço social, 76% dos 
vínculos formais de trabalho são ocupados por mulheres (Brasil/ME, 2020), sem contar as trabalhadoras 
de cuidados de saúde remunerados informais (sem carteira assinada). Segundo Fiocruz, a equipe de 
enfermagem é predominante feminina (85%) e preta ou parda (53%). Quando separados os enfermeiros 
dos técnicos e auxiliares de enfermagem, é possível verificar que os primeiros somam um pouco mais 
de 37% de pretos e pardos e os últimos concentram 57%, sendo que estes últimos representam 77% da 
força de trabalho na equipe de enfermagem (Fiocruz, 2017). Além disso, como evidenciado no Capítulo 
I, as trabalhadoras do setor tendem a receber salários mais baixos. Nas atividades relacionadas à saúde 
verifica-se uma maior frequência de trabalhadoras mulheres nos níveis mais baixos de remuneração, 
medidos em salários mínimos. Essas trabalhadoras, que realizam trabalhos que são considerados 
essenciais, estão muito mais expostas, com piores condições financeiras garantir a subsistência, e, 
quando não têm uma relação de trabalho formal, não têm sequer a proteção social e os direitos 
trabalhistas que as protegeriam minimamente em condições de contágios ou doenças. Assim, a 
desvalorização da profissão de enfermagem é mais uma dimensão em que o machismo e o racismo 
institucional manifestam-se no país.  
Mulheres e exclusão dos sistemas de saúde:                                                                                       
por uma visão interseccional 
Conforme já debatido em outros capítulos, as mulheres em situação de pobreza apresentam menos 
acesso aos serviços sociais, inclusive aos serviços de saúde. Existem atualmente no país lacunas 
estruturais no atendimento à mulher no sistema de saúde. As pressões advindas da mudança do clima 
irão impactar a vidas das mulheres enquanto usuárias do sistema de saúde, no sentido precarizar o 
atendimento à saúde das mulheres. É preciso apontar como o processo de mudança climática 
sobrecarrega o já assimétrico sistema de saúde, amplificando as injustiças estruturais de gênero. 
Mas os desafios em direção à democratização da saúde permanecem, especialmente se são 
analisadas as dimensões de gênero e cor. Segundo Pesquisa Nacional de Saúde, apenas 28,5% da 
população do país tinham algum plano de saúde, médico ou odontológico em 2019 (IBGE, 2020c). 
Estatísticamente, a cobertura de plano de saúde foi bem similar entre homens e mulheres (27,4% e 
29,5%, respectivamente). Considerando a cor ou raça, observa-se que essa cobertura (ibid.) era assim 
distribuída: 20,1%, 21,4% e 38,8% das pessoas pardas, pretas e brancas, respectivamente, possuíam 
algum plano de saúde, médico ou odontológico. Na população com rendimento mensal de até um 
quarto de salário mínimo, somente 2,2% tinham plano de saúde médico, indicando a forte dependência 
do sistema de saúde pública. Já na faixa de mais de cinco salários mínimos, 86,8% tinham plano. 
Outro dado que aponta a precariedade do sistema é o fato de que 23,8% dos domicílios 
cadastrados há um ano ou mais em Unidade de Saúde da Família nunca receberam visita de Agente 
Comunitário de Saúde ou membro da Equipe de Saúde da Família (IBGE, 2020c). Ou seja, com menos 
assistência à saúde no domicílio, a probabilidade de alguém da família ficar doente se eleva, o que vai 
aumentar ainda mais o tempo das mulheres dedicado aos cuidados em seus lares. 
A proporção de mulheres que deixaram de realizar suas atividades habituais por motivos de 
saúde foi maior que a dos homens (9,6% ante 6,3%). Na mesma linha, a proporção de mulheres (82,3%) 
que consultou um médico foi superior à dos homens (69,4%). Mas, observa-se que essa proporção 
cresce à medida em que a faixa de rendimento domiciliar per capita se torna mais elevada, indo de 
67,6%, para a classe de até ¼ de salário mínimo, a 89,6%, para mais de cinco salários mínimos (IBGE, 
2020c). A pesquisa também mostrou que as mulheres sofrem mais de excesso de peso (62,6%) e 
obesidade e (29,5%) do que os homens (57,5% e 21,8%). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 63 
 
Há, porém, ainda bastante dificuldade no acesso das mulheres ao atendimento médico. Segundo 
os dados de IPEA (2016), 45% das mulheres nunca tinham feito uma mamografia em 2008, sendo que 
esta porcentagem sobre para 53% para as mulheres negras. No mesmo ano, 15% das mulheres acima 
de 25 anos nunca tinham feito um exame de colo de útero. A porcentagem para as mulheres negras 
sobre para 18%.  
Além do menor acesso da mulher negra ao sistema de saúde, é preciso reconhecer e denunciar a 
desigualdade no atendimento dados à mulher negra. Lima (2016) aponta que as mulheres negras 
constituem a maioria das que relatam ter sofrido violência obstétrica.  
Perante este cenário, é urgente lembrar que um dos princípios básicos do SUS é a equidade, que 
busca reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde da população e oferecer tratamentos 
diferenciados e específicos para os desiguais, a fim de reduzir as vulnerabilidades. Apenas através deste 
reconhecimento será possível garantir a saúde como direito inalienável de toda e qualquer pessoa.  
COVID-19 como exemplo dos efeitos de eventos extremos 
A partir da crise sanitária provocada pela pandemia de COVID-19 em 2020, é possível analisar algumas 
evidências das desigualdades no acesso à saúde no Brasil e como estas podem repercutir em futuros 
cenários de pandemia ou de eventos extremos com impacto na saúde, por exemplo. Muito se falou 
sobre o caráter democrático da doença, que infecta a todos por igual, porém é uma falácia, já que nem 
todas e todos têm as mesmas condições para enfrentá-la. Segundo os dados Núcleo de Operações e 
Inteligência em Saúde (NOIS), as chances de morte de um paciente preto ou pardo analfabeto são 3,8 
vezes maiores que um paciente branco com nível superior (NOIS, 2020). Em relação à dimensão de 
gênero, Takemoto e outros (2020) apontam que o país foi líder global de mortes maternas (grávidas e 
puérperas) com COVID-19, sendo que as mulheres grávidas e puérperas pretas (têm quase o dobro de 
chance de morrer por COVID-19 do que as grávidas brancas.  
Assim, as iniquidades de gênero e sobretudo de raça pioram as condições das mulheres negras, 
colocando-as em situação de maior vulnerabilidade, e são uma séria ameaça a suas vidas, evidenciando 
o racismo estrutural e a necessidade de uma política de saúde que tenha um olhar interseccional. Ainda 
segundo Takemoto e outros (2020), do 22,6% das mulheres que morreram não foram admitidas na UTI 
e apenas 64% possuíam ventilação invasiva. Além disso, não foi oferecido nenhum suporte ventilatório 
a 14,6% de todos os casos fatais. Esses dados apontam as barreiras no acesso de pacientes obstétricos 
aos ventiladores e terapia intensiva, que também ressalta a escassez de profissionais de saúde e falta 
de recursos de terapia intensiva nos serviços de maternidade brasileiros. Este estudo alerta para um 
atendimento pré-natal de baixa qualidade, falta de recursos para cuidados críticos e de emergência, 
disparidades raciais no acesso aos serviços de maternidade.  
Em junho de 2020, o Conselho Federal de Enfermagem divulgou que o país concentrava 30% das 
mortes de profissionais de enfermagem por Covid-19 no mundo, e alcançava a liderança em mortes 
profissionais de enfermagem no planeta (COFEN, 2020a). A falta de equipamentos de proteção 
adequados, a falta de investimento em EPIs e a desvalorização do trabalho de enfermagem estão entre 
os motivos dos elevados número de mortes.  
Soares e outros (2020) atrela as mortes e o descaso com a vida destes profissionais às 
desigualdades sociais, de gênero e de raça existentes nas condições de trabalho e nas características da 
força de trabalho de enfermagem no Brasil.  
A pandemia de COVID-19 ilustra como uma crise sanitária, de saúde e socioeconômica, de 
proporções comparáveis às crises que as mudanças climáticas deverão provocar, tende a afetar 
desproporcionalmente os corpos feminizados, consideradas suas interseccionalidades.  
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 64 
 
Consequências da falta de investimentos e as políticas de ajuste estrutural na saúde 
Esta falta de investimentos não ocorreu apenas no contexto da pandemia de COVID-19, mas trata-se 
de uma lacuna histórica no sistema de saúde brasileiro: a garantia de acesso à saúde das mulheres. Os 
dados apresentados indicam que as desigualdades de gênero, raça e classe se interpõem e se reforçam, 
revelando a natureza estrutural das brechas do atual estilo de desenvolvimento do país. A mortalidade 
materna no Brasil historicamente se manteve em patamares considerados elevados. No período de 
1996 a 2018, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) registrou aproximadamente 39 mil 
óbitos maternos62. Em 2018, a Razão de Mortalidade Materna (RMM) foi de 59,1 óbitos para cada 100 
mil nascidos vivos. RMM elevadas são indicativas de precárias condições socioeconômicas, baixo grau 
de informação e escolaridade, dinâmicos familiares em que a violência está presente e, sobretudo, 
dificuldades de acesso a serviços de saúde de boa qualidade (PNAIM, 2004). Segundo dados da 
Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS), em 2018, as mulheres de cor preta e parda totalizaram 65% dos 
óbitos maternos. As regiões com maiores RMM são o Norte e Nordeste, as mais pobres do país.  
A adequação do acesso ao pré-natal tem relação positiva com a idade e a escolaridade das 
mulheres, e foi maior para as raças branca/amarela, revelando possíveis vulnerabilidades dos grupos 
populacionais mais jovens, com menos escolaridade e preta/parda. No que concerne à raça/cor preta ou 
parda, verifica-se que os percentuais acumulados de “Adequado” e “Mais que adequado” foram 64,8%, 
em 2015, inferiores em aproximadamente 15% aos observados para a raça/cor branca ou amarela, que 
apresentaram o valor de 79,5%, em 2015. 
O SUS revela-se essencial nesse contexto, mas há diversos desafios para assegurar uma vida 
saudável e promover o bem-estar, especialmente se considerar a dimensão de gênero. Neste sentido, 
o estabelecimento da Emenda Constitucional 95/2016 que limita por 20 anos os gastos públicos traz 
desafios adicionais. Moretti e outros (2020) estimam que a perda do financiamento do SUS foi de              
R$ 22,5 bilhões entre 2018 e 2020. É essencial reverter esta tendência de queda a fim de endereçar os 
desafios identificados neste relatório. Ademais, os investimentos nas atividades ligadas à economia da 
saúde, seja nos serviços ou nos setores industriais que fornecem insumos, máquinas e equipamentos a 
esses serviços são essenciais não somente para melhorar a qualidade da saúde pública, como também 
para gerar mais empregos femininos. Atenção igual deve ser dada aos recursos a serem aportados para 
as ações de educação e prevenção, possibilitando diagnósticos mais precisos e com menos tempo de 
espera, reduzindo a mortalidade e a morbidade de mulheres acometidas por doenças como câncer, as 
sexualmente transmissíveis e tantas outras identificadas como o perfil epidemiológico regional. 
Destaca-se a necessidade de postos de saúde e hospitais públicos devidamente equipados para atender 
às mulheres e meninas do meio rural, cujas carências são enormes e comprometem a qualidade de vida 
no campo. É essencial a participação das mulheres, independentemente de sua cor/raça, nas decisões 
de investimentos em saúde, garantindo a qualidade da saúde pública e gratuita. 
A construção de um sistema integral de cuidado irá reduzir o tempo de trabalho não remunerado 
das mulheres e garantir acesso a serviços de saúde de qualidade. As melhorias na infraestrutura de 
serviços públicos de saúde terão a potencialidade de reconstruir a economia, gerar emprego feminino 
remunerado e digno e promover a equidade de gênero. É importante romper com o ciclo de pobreza e 
exclusão feminina, baseada em trabalho não remunerado e exclusão dos serviços sociais. Ademais, deve 
fazer parte de desta construção o fortalecimento de um Sistema de Produção e Inovação da Saúde. 
Estas ideias são debatidas no Capítulo V. 
 
62  Porém, nem todo óbito materno que ocorre no Brasil está registrado corretamente no SIM como óbito materno. Muitas vezes, as 
causas declaradas registram a causa terminal das afecções ou lesões que sobrevieram por último na sucessão dos eventos que 
culminaram com a morte, o que mascara a causa básica e dificulta a identificação do óbito materno. Por esse motivo, a Razão de 
Mortalidade Materna (RMM) é calculada pelo Ministério da Saúde utilizando fatores de correção para a subnotificação de óbitos 
maternos no SIM. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 65 
 
F. Setor elétrico 
O setor energético é um setor chave para a mitigação, dado que é o principal responsável por emissões 
de GEE, que representaram mais de dois terços das emissões totais globais em 2016 (WRI, 2016). No 
Brasil, embora as emissões do setor representem 28% do total no país, elas vêm crescendo 
rapidamente, tendo praticamente dobrado de 1990 a 2010 (Brasil, 2015b). Ressalta-se que o setor de 
transportes, foco da Seção IV.C, é o maior consumidor de energia no país (EPE, 2019), contribuindo para 
emissões tanto de GEE quanto de contaminantes atmosféricos locais, considerados os responsáveis 
pela maior incidência de doenças respiratórias, cardiovasculares, câncer e disfunções reprodutivas 
(OMS, 2011). O setor é, portanto, um dos principais alvos de investimentos para a mitigação ou 
adaptação às mudanças climáticas, conforme reconhecido na literatura (IPCC, 2014; PBMC, 2013b). 
Ademais, do ponto de vista de gênero, tais investimentos podem trazer oportunidades de inclusão 
produtiva das mulheres e aliviar a sobrecarga e exposição a trabalhos domésticos não remunerados, 
sendo que o acesso à eletricidade exerce um papel central na qualidade de vida dos corpos feminizados. 
O setor elétrico e as possibilidades de mitigação  
Esta seção irá focar sua análise no setor elétrico. As fontes renováveis responderam por 83% da oferta 
total interna do setor elétrico brasileiro em 2019, sendo 65% de fonte hidráulica, 9% eólica, 8% 
biomassa e 1% solar (EPE, 2020a). Ainda que haja uma tendência de redução na produção de 
eletricidade a partir dessas fontes nas últimas duas décadas (em 1993 e 1994 essa proporção chegou a 
mais de 95%), a participação de energias renováveis no Brasil continua muito acima de média mundial, 
de 23% em 2015 (Banco Mundial, 2018). Contudo, há incertezas sobre a manutenção do grau de 
renovabilidade da matriz elétrica brasileira no futuro. Segundo o Plano Nacional de Energia 2050 (EPE, 
2020b), o consumo potencial de energia elétrica poderá chegar, em 2050, a até 3,3 vezes o patamar 
observado em 2015. A necessidade de atender à crescente demanda elétrica do país traz desafios 
adicionais para a sustentabilidade da matriz elétrica, relacionados especialmente à capacidade de 
manutenção ou até expansão do relativo alto peso das fontes renováveis na sua matriz elétrica futura. 
Daí a importância dos investimentos em fontes renováveis não convencionais de energia atrelada às 
estratégias de mitigação das mudanças do clima no Brasil.  
Porém, o setor elétrico está sujeito aos efeitos adversos das mudanças climáticas. Todas as 
fontes estão sujeitas a adversidades, sendo que as fontes renováveis de energia deverão sofrer com as 
alterações nos padrões de precipitação, regimes de ventos e quantidade de radiação disponível 
impactam diretamente na potencialidade das fontes hidráulicas, eólicas e solares de energia, 
respectivamente (Schaeffer e outros, 2019). Em relação à principal fonte de elétrica do país, por 
exemplo, as mudanças climáticas tendem a reduzir a energia firme das hidrelétricas, exigindo ampliação 
da capacidade do sistema elétrico brasileiro63. No entanto, devido às crescentes restrições 
socioambientais em relação à construção de centrais com grandes reservatórios, torna-se cada vez mais 
insustentável a expansão de grandes centrais hidrelétricas. Estas pressões concentram-se 
especialmente nas terras indígenas64. Esse ponto sublinha a relevância de uma estratégia de 
investimentos em energias renováveis não convencionais (ERNC), tais como fontes fotovoltaica, solar-
térmica, eólica offshore e onshore, biomassa, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), geotermal, das 
marés, dos oceanos etc. Uma combinação apropriada de fontes, ou seja, investir na diversificação na 
 
63  A energia firme de uma usina hidrelétrica corresponde à máxima produção contínua de energia que pode ser obtida, supondo a 
ocorrência da sequência mais seca registrada no histórico de vazões do rio onde ela está instalada. 
64  A capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN) por meio da utilização de reservatórios, reduz a 
vulnerabilidade do sistema hidroelétrico em relação às mudanças climáticas. Quanto maior a capacidade de armazenamento de 
água, mais adequado é o sistema para lidar com a variabilidade climática. A restrição de construção com hidrelétricas com grandes 
reservatórios reduz a capacidade do sistema para compensar as variações climáticas por meio das centrais hidrelétricas 
provavelmente irá diminuir, tornando-o mais vulnerável às alterações climáticas (Schaeffer e outros, 2019). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 66 
 
matriz elétrica a partir de ERNC é fundamental para se ter um sistema elétrico com baixas emissões de 
GEE e resiliente às mudanças climáticas. 
A rápida expansão da energia eólica e o desenvolvimento de sua cadeia produtiva no Brasil 
podem ser entendidos como um exemplo de investimento transformador em linha com ode Big Push 
para a Sustentabilidade (Rennkamp, Westin e Grottera, 2020). A coordenação de políticas de oferta 
(e.g. financiamento combinado com políticas de conteúdo local) e de demanda (e.g. leilões), entre 
outras, mobilizou grandes investimentos em geração eólica – mais de US$ 8,2 milhões em 2014 –, 
capacitação da mão de obra, expansão da indústria nacional e das competências tecnológicas e 
produtivas nacionais –131 fabricantes nacionais produzem 77 itens na cadeia de energia eólica –, além 
de ter gerado mais 150 mil empregos diretos e indiretos. O estudo sublinha os efeitos na redução de 
desigualdades regionais, uma vez que o Nordeste é responsável por 80% da produção de energia eólica 
no país65. Podcameni (2014) também comparou o mapa eólico brasileiro com as regiões maior nível de 
pobreza e indicou o investimento em energia eólica como estratégia de desenvolvimento regional.  
O cardápio de opções para a composição da matriz elétrica do futuro é extenso e tem se ampliado 
com o rápido desenvolvimento tecnológico. Não existe uma única combinação ideal, já que cada 
situação é particular. No contexto do Big Push para a Sustentabilidade, destaca-se que os investimentos 
devem ser complementares e coordenados rumo à construção de uma matriz mais sustentável, 
resiliente e baixa em carbono e, simultaneamente, mais inclusiva e promotora de desenvolvimento, 
dada a essencialidade da energia para a população brasileira. 
O acesso e a exclusão no uso da eletricidade 
O acesso e o uso da eletricidade são de suma importância para a qualidade de vida dos corpos 
feminizados. Investir em energias renováveis é um caminho para a universalização do acesso à 
eletricidade, já que para algumas fontes de energias renováveis – painéis fotovoltaicos e energia eólica, 
por exemplo – a escala de geração pode ser ajustada conforme a demanda e não necessariamente 
precisam estar conectadas à rede de transmissão, permitindo o acesso a regiões isoladas do Sistema 
Interligado Nacional (SIN). Essas fontes de energia são fundamentais para levar acesso a mulheres e 
meninas indígenas, quilombolas, do campo, das águas e das florestas.  
Apesar de o SIN fornecer quase a totalidade da energia consumida elétrica no país (99%), 
existiam 235 sistemas isolados no país em 2019, localizados principalmente na região Amazônica, além 
da ilha de Fernando de Noronha. Esses sistemas isolados fornecem energia para cerca de 3 milhões de 
pessoas, essencialmente gerada mediante a utilização de motores a diesel (99% dos casos), que são não 
renováveis (ONS, 2019). O motivo desta opção se deve ao fato de ser considerada uma solução de fácil 
instalação, manutenção e operação (Pontes, 2019). É possível apontar os elevados impactos ambientais 
e a complexa e onerosa logística de fornecimento de combustível, geralmente por via fluvial, aos 
sistemas isolados. Adicionalmente, os custos de operação dessas plantas são bastante elevados, 
sobretudo em função do preço do diesel nas localidades mais afastadas66.  
Ademais, o país tem realizado significativos investimentos na expansão ao acesso à luz elétrica. 
Desde 2003 até 2019, foram realizadas 3,5 milhões de novas conexões à rede pelo Programa Luz para 
Todos (LpT) do Ministério de Minas e Energia – atualmente, Programa de Universalização de Energia 
(EPE, 2020). Porém, segundo as estimativas do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA, 2019), o 
número de pessoas ainda sem acesso à energia no Brasil chegou em 2019 a quase um milhão. Ao ser 
 
65  O município Gentio do Ouro (BA), com 11,2 mil habitantes, observou um aumento em seu PIB de R$ 57,6 milhões para R$ 197,6 
milhões de 2015 a 2016; em João Câmara (RN), o PIB aumentou 90% entre 2008 e 2012 após o surgimento da atividade eólica, com 
305 turbinas eólicas instaladas. Uma forma pelas quais houve um aumento de renda das famílias rurais foi o arrendamento de terras, 
já que um parque eólico gera, em média, R$ 1,3 mil mensais (Rennkamp, Westin e Grottera, 2020).  
66  Segundo Pontes (2019), enquanto nos leilões do SIN, é possível comprar energia elétrica a valores da ordem de R$ 200/MWh, nos 
Sistemas Isolados esse valor pode chegar a R$ 1.600/MWh. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 67 
 
comparado à população total de brasileiros, estimada em 212 milhões de habitantes, este número 
parece pouco significativo. Entretanto, as vidas de aproximadamente um milhão de brasileiras e 
brasileiros ainda carece do acesso à eletricidade e dos seus serviços derivados, que são essenciais para 
a inserção produtiva e para a qualidade de vida, permitindo-lhes iluminação noturna, acesso à 
comunicação, à educação (WWF, 2018).  
Segundo IEMA (2019), a região Norte concentra 86% das pessoas que permanecem sem acesso 
à energia elétrica67. Ainda segundo o mesmo estudo, 21,5% das pessoas que não tem acesso à energia 
elétrica estão em assentamentos rurais, 6% estão em áreas de unidades de conservação (UCs), 7,9% são 
populações indígenas e 0,3% estão oficialmente classificados como quilombolas. Os demais 64,4% não 
apresentam classificação específicas, o que revela uma lacuna de dados significativa, reforçando ainda 
mais a necessidade de investimentos em ERNC para essa população sem acesso à energia.  
Infelizmente também não há dados específicos de falta de acesso de energia por gênero no Brasil. 
Contudo, sabe-se que as mulheres são particularmente afetadas pela falta de eletricidade, 
especialmente em função da carga de trabalho feminino associada às tarefas domésticas como 
cozinhar, limpar, fazer compras diárias por falta de geladeira e coletar madeira como combustível 
(Casas, 2017).  
O acesso confiável, sustentável, e a preços acessíveis à energia para todas e todos (ODS 7) é 
essencial para reduzir a sobrecarga de trabalho doméstico, melhorar da segurança (e.g. iluminação 
noturna), ampliar o acesso a serviços de saúde (e.g. operar equipamentos e realizar exames que exigem 
instalação elétrica) e de educação (e.g. permitir o estudo noturno), reforçar a segurança alimentar (e.g. 
refrigeração de alimentos) e acessar a bens e serviços (e.g. internet) que permitam uma inserção 
socioeconômica ampliada, diversificação produtiva e agregação de valor, aliviando a pobreza de tempo 
das mulheres. Destarte, os investimentos em energias renováveis podem contribuir substancialmente 
para um estilo de desenvolvimento mais igualitário no acesso a oportunidades e na fruição das 
eficiências econômicas.  
Inclusão produtiva das mulheres no setor 
Por fim, deve ser ressaltado o potencial de geração de oportunidades de inclusão produtiva para 
mulheres. Com o conjunto apropriado de políticas, as mulheres poderiam se tornar beneficiárias dos 
novos postos de trabalho gerados pelos investimentos em energias renováveis. O elevado potencial de 
geração de emprego a partir dos investimentos em fontes renováveis de energia é confirmado por 
IRENA (2019), que aponta uma maior intensidade em mão de obra nas cadeias produtivas das energias 
renováveis em comparação das fontes de energia fóssil.68 Especificamente para o Brasil, o Plano 
Decenal de Energia 2027 prevê investimentos em torno de R$ 400 bilhões para o setor energético até 
202769, sendo R$ 226 bilhões destinados para a geração centralizada renovável, R$ 70 bilhões para 
novos empreendimentos eólicos, R$ 33 bilhões de projetos de energia solar, R$ 14 bilhões das pequenas 
centrais hidrelétricas e das centrais geradoras hidrelétricas e R$ 13 bilhões da biomassa (MME,2019).  
Em relação à estimativa de emprego em energias renováveis no país, estudo da ABDI (2018) 
estima que de 2018 até 2026, a cadeia da energia eólica será capaz de gerar 200 mil novos empregos 
 
67  Há uma dificuldade em estimar com precisão o número exato de pessoas sem acesso à energia no Brasil. O IEMA (2019) realizou um 
estudo a partir do Censo de 2010, do número de pessoas atendidas pelo Programa LpT entre 2011 e 2018 e incorporou o aumento 
populacional. Segundo este documento em 2019 havia aproximadamente 1 milhão de pessoas ainda sem acesso à energia elétrica 
no Brasil. Para ver a metodologia adotada ver IEMA (2019).  
68  A estimativa é que o número de empregos globais no setor de energia renovável poderá aumentar de 10,3 milhões em 2017 para 
quase 29 milhões em 2050. 
69  A hipótese é de crescimento médio do PIB em 2,8% anuais, sem levar em consideração o período de pandemia de COVID-19. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 68 
 
diretos e indiretos no país70. Mostrando o potencial de geração de emprego em energias renováveis, 
ABSOLAR (2020) contabilizou que o setor de energia fotovoltaica gerou mais de 160 mil novos postos 
de trabalho desde 2012. A demanda pela profissionalização teve um aumento de 50% no primeiro 
semestre de 2020 apenas, gerando 40 mil novos postos de trabalho nesse período (ABSOLAR, 2020).  
Mas, há um desafio significativo perante o potencial e a perspectiva de geração de emprego nos 
setores de energias renováveis: não permitir que a transformação para uma economia de baixo carbono 
seja um processo desigual sob a perspectiva de geração de empregos para homens e mulheres.  
IRENA (2019) realizou um estudo global sobre a perspectiva de gênero e confirmou a forte 
exclusão das mulheres em relação às energias renováveis, pois elas representam apenas 32% dos 
empregos globais das energias renováveis, embora seja maior do que a representação feminina nos 
setores de energias de fontes fósseis, de 22%. O padrão se mantém com a reduzida participação das 
mulheres nas funções relacionadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática nos setores 
analisados, de 28%. Este valor é bem inferior aos empregos administrativos, de 45%. Ademais, foi 
verificado que 75% das mulheres percebem a existência de barreiras à entrada e ao avanço das mulheres 
no setor. A pesquisa mostra uma lacuna semelhante sobre equidade salarial segundo as linhas de 
gênero: apenas 29% das mulheres afirmam ter equidade salarial com relação aos homens. Em suma, os 
dados apontam que há uma sub-representação das mulheres nesse setor e que, quando elas estão 
empregadas, tendem a se concentrar em cargos administrativos de menor remuneração e prestígio, 
sujeitas a iniquidades salariais com homens posições similares. No Brasil, comparativamente, apenas 
13% dos vínculos de trabalho formal nos setores de geração e distribuição energias renováveis são 
femininos, conforme visto na seção IV.A. 
Com políticas apropriadas, discutidas no Capítulo V, as mulheres podem ser beneficiárias em pé 
de igualdade das oportunidades de inclusão produtiva e de incremento de renda que esses novos postos 
de trabalho trazem consigo. A menor perspectiva de empregos femininos no mercado de trabalho é um 
desafio histórico, presente em diversas áreas, inclusive no setor de eletricidade. Assim, poderia se tornar 
uma oportunidade de investimento de baixo carbono, por meio das ERNC, com igualdade de gênero, 
redução da pobreza e menor dependência de combustíveis fósseis, dentre outros muitos benefícios, em 
linha com o Big Push para a Sustentabilidade. 
G. Considerações finais 
Um grande impulso para um novo estilo de desenvolvimento sustentável somente poderá ser alcançado 
se forem mobilizados investimentos transformadores em escala e que sejam complementares entre si. 
Buscar a igualde de gênero e a sustentabilidade ambiental, no âmbito do Big Push para a 
Sustentabilidade, requer considerar investimentos complementares no sentido de que contribuam para 
a redução da pobreza de tempo e da sobrecarga de trabalho das mulheres e meninas, para a geração de 
oportunidades de empregos para os corpos feminizados, para a mitigação e a adaptação às mudanças 
climáticas e para a proteção ambiental. 
Nesse sentido, o presente capítulo identificou que as principais áreas para esses investimentos 
complementares são: (i) água e esgotamento sanitário, contribuindo diretamente para a melhoria da 
qualidade de vida das mulheres e meninas, que são especialmente afetadas pela deficiência de acesso 
a esses serviços (ii) mobilidade urbana que atenda às necessidades de cuidados de forma sustentável; 
(iii) segurança alimentar e nutricional e agricultura familiar, essencial para fortalecer as mulheres do 
campo e para a construção de sistemas agroalimentares resilientes que garantam a provisão de 
 
70  O estudo ainda mapeou 52 profissões/ocupações que compõem a cadeia, vamos a elas: construção e montagem (10 diferentes 
profissões); desenvolvimento de projetos (11 profissões); ensino e pesquisa (seis profissões); manufatura (15 profissões); operação 
e manutenção do parque eólico (nove profissões). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 69 
 
alimentos para todas e todos; (iv) saúde e fortalecimento dos serviços ligados aos cuidados, que é crucial 
para adaptação e atenuação dos efeitos da mudança climática sobre as mulheres e (v) energias 
renováveis para universalização do acesso à eletricidade limpa, sustentável, segura e acessível. 
De forma transversal, estão os investimentos em setores que sejam capazes de gerar novos 
empregos verdes. Eles representam uma grande oportunidade para a inclusão produtiva das mulheres, 
contribuindo para sua autonomia econômica, emancipação e empoderamento. No entanto, conforme 
ficou evidenciado neste capítulo, atualmente, os setores considerados “verdes” têm gerado empregos 
majoritariamente masculinos no Brasil. Por essa razão, é mister que sejam realizados investimentos não 
apenas nos setores verdes em si, mas também em programas de educação, capacitação e outras ações 
para que as mulheres possam ter acesso a essas oportunidades de empregos e ascensão social em pé 
de igualdade com os homens, conforme se detalha no Capítulo V. 
Os achados deste capítulo sublinham que, em linha com a abordagem do Big Push para a 
Sustentabilidade, uma transformação de estilo de desenvolvimento requer investimentos massivos e 
paralelos em áreas complementares. Alcançar a igualdade de gênero e a sustentabilidade no tripé 
econômico, social e ambiental não será possível por meio de pequenas mudanças marginais aqui e 
acolá, mas sim de um grande impulso que coloque em movimento a transformação estrutural aspirada. 
Este grande impulso, não entanto, não é espontâneo e requer, sobretudo, coordenação, como se 
argumentou no Capítulo II. 
 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 71 
 
V. Recomendações e diretrizes de políticas públicas 
para um Big Push para a Sustentabilidade                        
com igualdade de gênero e desenvolvimentos futuros 
O presente capítulo busca, baseado nas evidências dos capítulos anteriores e nas contribuições 
recebidas por especialistas e lideranças em desenvolvimento sustentável, gênero e clima na oficina do 
projeto bem como por escrito, desenvolver recomendações e diretrizes para uma estratégia de Big Push 
para a Sustentabilidade no Brasil, identificando políticas públicas que promovam investimentos 
transformadores rumo à sustentabilidade e à igualdade de gênero no Brasil, com ênfase no combate à 
divisão sexual do trabalho e na valorização da economia do cuidado. 
Nesse sentido, foram identificados quatro eixos principais para orientar a formulação de políticas 
que visem transformar estruturalmente o estilo de desenvolvimento rumo à sustentabilidade 
econômica, social e ambiental, contribuindo para a igualdade de gênero, em linha com um Big Push para 
a Sustentabilidade: (i) política integral de cuidados que foque na corresponsabilidade e reduza a pobreza 
de tempo de mulheres e meninas; (ii) investimentos em infraestrutura, setores e tecnologias que geram 
empregos verdes que sejam inclusivos para romper com a segmentação do mercado de trabalho e 
garantir maior equidade; (iii) promover o associativismo e a recuperação dos saberes nas redes de 
mulheres, e comunidades nas áreas rurais, explorando a proposta de arranjos produtivos locais (APLs) 
para garantir a inclusão produtiva, com geração de ocupação e emprego, segurança alimentar e 
organizações da produção ambientalmente saudáveis, inclusivas e de baixo carbono; e (iv) promover a 
participação social e política das mulheres como formas alternativas de organização.  
Uma das principais limitações do presente estudo reside na ausência de dados relevantes, 
incluindo dados sobre a economia do cuidado (remunerada e não remunerada), dados sobre mulheres 
em sua diversidade (indígenas, quilombolas, do campo, das águas e das florestas) e dados que permitam 
cruzar informações sobre a dimensão de gênero com a dimensão econômica, social e ambiental, que 
estão ausentes das estatísticas oficiais. Essa lacuna de informações torna a análise sobre a dimensão de 
gênero do desenvolvimento sustentável especialmente desafiadora. Por essa razão, uma primeira 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 72 
 
recomendação seria aprimorar e avançar na produção de dados e estatísticas sobre a dimensão de 
gênero, nos quais seja possível identificar a situação de acesso e exclusão aos serviços mencionados, o 
nível de educação e a situação de pobreza multidimensional, assim como a empregabilidade, níveis de 
renda e distribuição dos cuidados, com um nível de abertura tal que permita realizar uma análise 
interseccional, identificando as caraterísticas das mulheres em sua diversidade: pretas, pardas, 
indígenas, quilombolas, periféricas, das águas, das florestas, ribeirinhas, do campo e da cidade.  
A. Política integral de cuidados  
Uma recuperação transformadora com igualdade e sustentabilidade, baseada em um Big Push para a 
Sustentabilidade, requer incluir explicitamente ações integrais nos cuidados. A economia dos cuidados 
tem lugar central na construção de um estilo de desenvolvimento mais sustentável, especialmente 
diante de um histórico caracterizado por profundas desigualdades e de um futuro marcado pelas graves 
consequências da emergência climática. Os cuidados representam uma parte essencial do sistema 
econômico e, como foi evidenciado no Capítulo IV, deverão ser significativamente impactados com a 
mudança do clima, com efeitos desproporcionais sobre as mulheres. Nos últimos anos, os cuidados 
entraram na agenda pública latino-americana. De fato, a Conferência Regional sobre a Mulher da 
América Latina e do Caribe considera os cuidados como um direito humano e a Estratégia de 
Montevidéu, da qual Brasil é signatário (ver Capítulo II), recomenda aos governos implementar planos 
de política pública que visem à redução das desigualdades na distribuição dos cuidados entre homens e 
mulheres. Os cuidados devem ser integrados como um dos quatro pilares dos sistemas de bem-estar, 
junto com a educação, saúde e seguridade social (ONU Mulheres e CEPAL, 2020).  
Um Sistema Nacional de Cuidados (SNC) é necessário para melhorar a distribuição de trabalhos 
reprodutivos não remunerados na sociedade, reduzir a sobrecarga doméstica que vivenciam as 
mulheres e criar condições para garantir a sua autonomia. O SNC é multidimensional e inclui tanto 
mudanças culturais quanto estruturais, de modo que as políticas que compreendem o SNC devem ser 
criadas seguindo os princípios da universalidade, solidariedade, autonomia e corresponsabilidade social 
entre homens e mulheres, Estado, setor privado, e a sociedade como um todo. Os SNC são, ademais, 
ferramentas chave para uma recuperação transformadora rumo a estilos de desenvolvimento mais 
sustentáveis, a partir da geração de empregos decentes diretos e indiretos, além de um mecanismo 
fundamental de redução das iniquidades e empoderamento das mulheres.  
Questões para estruturação de um Sistema Nacional de Cuidados 
O SNC deve incluir ações concretas de mudança cultural relacionadas à responsabilidade sobre as 
obrigações domésticas, os papéis de gênero e a divisão sexual do trabalho. Para tal objetivo, é 
importante começar dando maior visibilidade e realizando uma ampla discussão sobre o trabalho 
doméstico não remunerado. Para liderar essa discussão e criar políticas específicas, é essencial que o 
Estado tenha um melhor entendimento sobre a distribuição dessas tarefas domésticas incluindo 
indicadores de gênero, raça, nível de renda, educação, entre outros. É preciso, para isso, produzir 
estatísticas que facilitem essas análises, por exemplo, através da criação de pesquisas de usos do tempo 
e estudos oficiais sobre mensuração e valorização das tarefas domésticas não remuneradas.  
Por outro lado, a mudança cultural pode ser incentivada mediante políticas educativas e 
trabalhistas concretas: através de ações de educação à cidadania com a criação de programas de 
conscientização e corresponsabilidade, tanto dentro do sistema formal educativo (em todos os níveis) 
quanto por meio de amplas campanhas publicitárias, e também, criando condições que estimulem a 
corresponsabilidade dos cuidados intrafamiliares, por exemplo, através da ampliação das licenças de 
paternidade e extensão de licenças sem viés de gênero.  
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 73 
 
O SNC precisa do comprometimento da sociedade como um todo, sendo que o setor privado 
desempenha um papel essencial no que se refere à redução das desigualdades entre trabalhadoras e 
trabalhadores. Esse papel inclui, especialmente, acompanhar a criação de licenças e afastamentos sem 
distinção de gênero, disponibilizar espaços de cuidado dentro dos estabelecimentos (como creches), 
garantir a igualdade de gênero tanto nos salários como nas possibilidades de carreira dentro da 
empresa, entre outros.  
Além das ações de conscientização para a mudança cultural, é interessante que o Estado atue na 
transformação estrutural dos cuidados, por exemplo, partilhando as responsabilidades das tarefas 
reprodutivas por meio da criação de uma economia de serviços de cuidados públicos resiliente. Isto pode 
ser feito mediante uma política de auxílio profissional nos cuidados tanto na primeira infância quanto 
para idosos e doentes, mediante o fornecimento de serviços de limpeza, de enfermagem, educativos, 
de recriação, etc. Tais serviços podem ser recebidos no próprio domicílio ou em instituições específicas 
e o Estado pode participar mediante subsídios e/ou desonerações para a sua contratação, privilegiando 
os casos de necessidade, ou criando acesso a instituições públicas que contem com profissionais que 
forneçam esses serviços. Assim, o Estado promoverá a profissionalização e certificação das 
trabalhadoras e trabalhadores de cuidados, melhorando as condições de emprego do setor e garantindo 
salários melhores e direitos trabalhistas. A regulamentação e formalização das atividades de cuidados 
contribuiria para reduzir a segmentação do mercado de trabalho sinalizada na seção I.B.  
O SNC também deve focar na transformação da infraestrutura, por meio de investimentos 
públicos em infraestrutura dos cuidados, por exemplo: creches diurnas e noturnas, para permitir às 
responsáveis pelas crianças na primeira infância tanto trabalhar como se formar; espaços de lazer, 
clubes e atividades sociais e esportivas para crianças e jovens; instituições públicas educativas, 
garantindo ensino público de qualidade em todos os níveis, dado que a educação é a principal 
ferramenta de mobilidade social e desenvolvimento econômico; centros de dia para idosos; centros de 
atendimento médico, para garantir acesso universal à saúde pública, reduzir a exclusão e combater o 
racismo estrutural; centros de atendimento a vítimas de violência de gênero (Lei Maria da Penha, Nº 
11.340/2006) etc. Tais investimentos contribuiriam para aliviar a sobrecarga de trabalho das mulheres, 
e também para a sustentabilidaide e o desenvolvimento econômico, em linha com o Big Push. 
Outro tipo de investimento público que é importante para a consolidação de um SNC e que ajuda 
a melhorar as condições de vida das mulheres é o investimento em tecnologia e sistemas de transporte 
sustentáveis que desenhem as cidades segundo as necessidades da mobilidade do cuidado. Como visto 
no Capítulo IV, o setor de mobilidade urbana apresenta uma janela de oportunidade para ações que 
contemplem planos de igualdade de gênero, inclusão social através do direito à cidade, geração de 
empregos de qualidade e diminuição da emissão de GEE. Assim, repensar os sistemas de transporte 
urbano considerando a igualdade e a sustentabilidade é essencial na busca de uma transformação nos 
atuais papéis de gênero. Sendo as mulheres as principais usuárias do transporte público coletivo e de 
mobilidade ativa - principalmente caminhadas, esse plano de mobilidade urbana deve reconhecer que 
os deslocamentos realizados por elas às instituições de cuidado (como escolas, hospitais, mercados, 
creches, centros de dia para idosos, lazer, etc.) geram viagens mais frequentes, mais segmentadas e 
mais heterogêneas. Assim, tais investimentos devem promover a menor poluição do ar e sonora, maior 
sustentabilidade e resiliência de longo prazo, maior conectividade e conforto e devem criar maior 
capilaridade da rede de transporte público para reduzir a pobreza do tempo das mulheres, e aumentar 
o investimento no combate à violência e assédio, para garantir a sua segurança.  
Como é possível apreciar, existem diversos tipos de intervenções públicas e privadas que podem 
ser incluídas no âmbito de um SNC como parte de uma estratégia de Big Push para a Sustentabilidade, 
contribuindo para a redução das iniquidades sociais e de gênero, promovendo uma divisão sexual do 
trabalho em pé de igualdade e incentivando uma maior participação e autonomia das mulheres em 
termos econômicos, sociais e políticos. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 74 
 
B. Infraestrutura e transição digital 
Dentre os investimentos prioritários no âmbito de um Big Push para a Sustentabilidade no Brasil, estão 
os investimentos em infraestrutura (de mobilidade, de energia, de água e saneamento e de saúde) e na 
transição digital. Essas são áreas-chave para investimentos tanto de mitigação das mudanças 
climáticas, ou seja, que tem potencial de reduzir emissões de GEE, quanto de adaptação às suas 
consequências, ou seja, para atenuar construir resiliência aos efeitos adversos do clima. É fundamental 
que as desigualdades de gênero e as interseccionalidades com raça e classe sejam contempladas. 
Diretrizes e possíveis ações para fomentar as seguintes áreas específicas são apresentadas 
subsequentemente: a transformação das modalidades e tecnologias de transporte para incluir a 
mobilidade do cuidado, construindo uma infraestrutura de mobilidade urbana menos poluente, mais 
integrada e mais sustentável, priorizando a mobilidade ativa (a pé, de bicicleta, de patinete etc.) e a 
eletrificação do transporte coletivo (ônibus, metrô, trem etc.) em combinação com investimentos em 
energias limpas; a transformação da matriz elétrica com maior participação de energias renováveis; a 
universalização do acesso aos serviços de água e saneamento básico; o desenvolvimento de um Sistema 
Produtivo e Inovativo de Saúde; os investimentos em setores geradores de empregos verdes e a 
transição digital. 
1. Transformação da matriz elétrica com maior                                                            
participação de renováveis 
Investimentos na expansão, integração e diversificação das energias renováveis não convencionais 
(ERNC) na matriz elétrica representam uma das grandes oportunidades para o Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil devido a seus impactos positivos em diversas áreas, contribuindo para maior 
eficiência, resiliência e integração do sistema energético, que confere menores custos sistêmicos ao país 
por meio de maior produtividade e competitividade a diversos setores. Uma política de aumento da 
provisão de energia segura e de fontes renováveis para atender às necessidades energéticas presentes 
e futuras representa um caminho para a construção de estilos de desenvolvimento mais sustentáveis 
com contribuições para mitigação às mudanças climáticas, porém, atenção especial deve ser dada à 
questão de gênero, como será visto nos setores geradores de empregos verdes. Adicionalmente, como 
foi debatido no Capítulo IV, a universalização da energia aumenta a autonomia feminina, preserva a 
saúde das mulheres ao reduzir o uso de lenha e representa uma economia de tempo, que pode ser 
alocada em estudos ou até mesmo em trabalhos remunerados. Nesse sentido, as políticas aqui 
recomendadas atuam no sentido de mitigar as mudanças climáticas e melhorar a vida das mulheres em 
diversas dimensões. 
Investimentos que garantam a universalização do acesso à eletricidade são fundamentais para 
promover a inclusão produtiva e garantir melhor qualidade de vida e redução da sobrecarga de trabalho 
doméstico, especialmente para as mulheres. Uma política pública de universalização do acesso à 
energia segura, confiável, sustentável e acessível é essencial para preservar a vida das mulheres e 
meninas, garantir a dignidade e reduzir o tempo dedicado aos cuidados não remunerados.  
Para universalização, a recomendação de ampliação e fortalecimento dos diversos programas 
em andamento, como o “Luz para Todos”, mencionado na seção IV.F, ou o programa “Mais Luz para a 
Amazônia (MLA)”, lançado no início de 2020 (MME, 2020), para a instalação de painéis solares 
fotovoltaicos nas áreas remotas da Amazônia Legal, levando luz elétrica a 70 mil pessoas. Também na 
região Amazônia e Pantanal vários projetos foram implementados, beneficiando a 9.000 novos usuários 
de eletricidade, enquanto cerca de 34 mil foram beneficiados indiretamente (WWF, 2020). Em todos 
esses projetos, uma das lições aprendidas foi a importância do envolvimento social da comunidade, que 
foi engajada não unicamente com a instalação, mas também com processos de capacitação e 
orientações sobre gestão de energia. Outro aspecto importante salientado pelo estudo foi a relevância 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 75 
 
de incluir “a presença das mulheres nos processos decisórios no âmbito dos projetos, visto que são as 
maiores beneficiadas, pois seu trabalho diário fica muito mais leve e produtivo depois da chegada da 
energia limpa” (WWF, 2020, pág. 23). Esse último resultado também aparece no relatório de IRENA 
(2019), que analisou diversos projetos internacionais e afirmou que o envolvimento ativo das mulheres 
na implantação de soluções de energia renovável fora da rede requer um foco especial em: treinamento 
e desenvolvimento de capacitações específicos para as mulheres e acesso ao financiamento específico 
para as mulheres. Os benefícios socioeconômicos da integração da dimensão de gênero são imensos e 
as experiências sugerem melhorias no empoderamento das mulheres dentro da comunidade.  
A implementação de um sistema de energia renovável descentralizada no Brasil requer políticas 
sistêmicas que incluem a dimensão produtiva, de capacitação e treinamentos, de gênero, tributárias, 
etc. Para enfrentar o desafio de levar energia para quase um milhão de brasileiros, além de instalar 
painéis solares fotovoltaicos, é preciso articular com uma política produtiva local que permita à 
população o acesso direto aos equipamentos e peças de manutenção nos pequenos municípios. 
Ademais, seria necessário também que estas fossem acompanhadas de um esforço de difusão do 
conhecimento técnico para a realização de instalações e manutenções preventivas e corretivas dos 
equipamentos de instalação. Na implementação dos sistemas de energia renovável descentralizada, a 
falta de políticas de capacitação e treinamento tem sido apontada como uma das principais barreiras 
para sua consolidação (WWF, 2020). Assim, as políticas energéticas devem ser acompanhadas de uma 
dimensão produtiva e de capacitação e treinamento, incluindo cursos sobre manutenção dos 
equipamentos e sobre melhor gestão da energia voltados à geração de oportunidades para inclusão 
produtiva das mulheres. 
2. Serviços de água e saneamento básico 
Outra área para investimentos que representa uma grande oportunidade de gerar ganhos em 
múltiplos aspectos, em linha com um Big Push para a Sustentabilidade, é água e saneamento básico. 
Como foi sinalizado no Capítulo IV, existem diversas localidades que ainda não têm garantido o acesso 
permanente à água potável e de qualidade, enquanto grande parte da população brasileira está exposta 
a lixões a céu aberto71 e mais da metade do esgoto produzido não é tratado. Nesse sentido, os 
investimentos públicos para garantir acesso a saneamento básico são fundamentais para reduzir as 
desigualdades sociais, sendo essencial entender as diferenças regionais e identificar as populações que 
são mais afetadas pela falta de acesso. Cada real investido em saneamento produz um retorno social 
exponencial, tanto pelo efeito direto sobre a saúde (dada a menor exposição à contaminação e 
diminuição das doenças), quanto pela redução no tempo dedicado aos cuidados (do lar, familiares, 
próprios e de doentes e feridos). Existem várias experiências regionais e/ou comunitárias de coleta do 
lixo, de reutilização da água, etc., que podem ser estudadas e replicadas. O reconhecimento e aval 
estatal dessas experiências pode ser essencial para a sua continuidade e escalabilidade, o que tem que 
ocorrer junto com um processo de conscientização e educação da população respeito ao tratamento do 
lixo e aos problemas associados com a contaminação dos rios.  
Em particular, respeito às melhorias do P1MC que foi apresentado na seção IV.B, seria 
interessante desenvolver ações que incluam às mulheres nesse novo mercado de trabalho criado a partir 
da demanda das cisternas, assim como incentivar uma maior participação das mulheres como gestoras 
no desenho e avaliação da política, dado que são as principais beneficiárias do serviço. Por outro lado, é 
importante considerar que, apesar de melhorar a autonomia das famílias, a água contida na cisterna 
não é suficiente, sobretudo durante a seca. Nesse sentido, seria interessante conformar uma 
 
71  Segundo a Lei nº 12.305 de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), todos os rejeitos 
deveriam ser tratados, porém a realidade ainda não se condiz com o estabelecido na norma. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 76 
 
cooperativa ou representação institucional com as mulheres como gestoras que organizem 
fornecimento de água de qualidade durante a seca. 
3. Fomento ao Sistema Produtivo e Inovativo de Saúde 
Conforme exposto no Capítulo II, na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, são 
necessários investimentos coordenados em diversas áreas, inclusive em construção de capacidades 
científicas, tecnológicas e inovativas para retenção no país dos benefícios socioeconômicos dos 
investimentos sustentáveis realizados. Ou seja, ao desenvolver capacidades endógenas no país, será 
possível reter no país a geração de empregos, renda e dos seus multiplicadores ao longo da cadeia de 
valor – o que não seria o caso se os investimentos fossem realizados com tecnologia obtida do exterior. 
Uma política voltada para o Sistema Produtivo e Inovativo da Saúde (SPIS) justifica-se pelo fato de que 
os setores industriais e de serviços relacionados à saúde são vetores estratégicos do desenvolvimento 
produtivo e tecnológico, entendendo que tal atividade é capaz de gerar mudanças virtuosas de 
estruturas socioeconômicas com potencialidade de gerar inovação, emprego e renda e inclusão, 
elevando o bem-estar e a qualidade de vida para a população em geral (Matos e outros, 2020). Assim, 
por meio do estímulo ao sistema de ciência, tecnologia e inovação (C,TI) do país, as inovações nesse 
setor atendem às necessidades crescentes por diagnósticos rápidos e conclusivos, sendo possível gerar 
um duplo dividendo: impacto positivo na saúde da população e a redução de custos de saúde quando 
referenciamos à tratamentos tardios e internações, com oportunidades de geração de empregos 
decentes com maior remuneração para as mulheres. Assim, como a saúde da população será 
sobremaneira afetada pela inação frente às mudanças climáticas, a política de fomento ao SPIS torna-
se urgente. 
Com um dos maiores sistemas públicos universais e gratuito do mundo, o Sistema Único de 
Saúde (SUS) apresenta uma circunstância singular para promover o desenvolvimento da cadeia 
produtiva da saúde no Brasil por meio das compras públicas. A área de serviços de saúde mobiliza 
diversos setores da economia tais como têxtil, alimentos, serviços de limpeza e desinfecção hospitalar, 
serviços de manutenção de equipamentos médico-hospitalares, manutenção de ambulâncias, manejo 
e disposição de resíduos hospitalares.  
O SPIS se sustenta, principalmente, sobre dois pilares. O primeiro é a utilização do poder de 
compras públicas, que deve estar estreitamente articulado com uma política da produção/oferta 
articulada com a estrutura produtiva de futuro que se quer construir. Para tal, poderiam ser criados 
mecanismos para fomentar a construção de capacidades produtivas e inovativas das empresas e 
empreendedores locais, por meio de instrumentos tais como margem de preferência, requisitos de 
conteúdo local ou algum outro dispositivo, sendo que os critérios das compras públicas poderiam incluir 
o efeito de geração de emprego e renda, o desenvolvimento de inovações, a potencial arrecadação de 
tributos dos entes federados, o grau de participação feminina nos diferentes níveis de ocupação, o 
acesso das trabalhadoras aos espaços gerenciais e de tomada de decisões, as políticas internas de 
afastamentos/licenças na empresa e as políticas antidiscriminatórias, entre outros.  
O segundo pilar é a conexão com instituições de ciência e tecnologia (ICTs) nas áreas relacionadas 
aos cuidados.72 É essencial ampliar e qualificar os centros, universidades e entidades envolvidas em 
formação de profissionais de saúde com elevada qualificação para os novos serviços e ações, para gerar 
 
72  Segundo Matos e outros (2020), o fortalecimento da base produtiva e inovativa da saúde é essencial para reverter o quadro de 
vulnerabilidade a que hoje está exposto o SUS, especialmente quando se consideram as características sociais, demográficas e 
epidemiológicas atuais da população brasileira e as tendências futuras, os custos crescentes pautados por novas e complexas 
tecnologias incorporadas pela saúde e a dependência externa dos produtos do Sistema Produtivo da Saúde. Por conseguinte, é 
também fundamental para viabilizar um desenvolvimento competitivo internacionalmente e inclusivo socialmente. Dessa forma, 
este referencial metodológico visa descortinar a dimensão territorial do sistema produtivo e inovativo de saúde, buscando 
identificar as especificidades, entraves e potencialidades referentes à prestação de serviços de saúde e as interações desses serviços 
com os subsistemas de base química e biotecnológica e de base mecânica, eletrônica e de materiais. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 77 
 
as capacidades humanas necessárias para uma economia de cuidados robusta, o que também 
contribuiria para melhorar a profissionalização e as condições de emprego das trabalhadoras, assim 
como a sua produtividade e renda. Também é fundamental fortalecer os vínculos entre os ICTs e o setor 
privado, por exemplo, estimulando projetos colaborativos e ações conjuntas para o desenvolvimento 
tecnológico, de forma que o conhecimento gerado efetivamente flua para a cadeia de valor. 
Desta forma, a partir do sistema nacional de inovação em saúde se reconhecem e mobilizam as 
diversas potencialidades produtivas e também científicas e tecnológicas nos diferentes estados, 
microrregiões e municípios do país, melhorando o acesso, a qualidade e a utilização do serviço de saúde 
do qual as mulheres são as principais usuárias e também se geram mecanismos e incentivos de 
crescimento econômico e inclusão social. Ademais, o fortalecimento do sistema produtivo e inovativo 
relacionado a saúde gera empregos ao longo da cadeia de fornecimento, ampliando a oferta de 
empregos e aumento a possibilidade das mulheres se inserirem no mercado de trabalho. Lembrando 
que de maneira geral os empregos nas áreas de saúde tendem a ser predominantemente femininos. 
4. Investimentos em setores geradores de empregos verdes 
Especialmente no atual contexto complexo em que as brechas estruturais do desenvolvimento se 
tornaram visíveis com a pandemia de COVID-19, é preciso que uma estratégia de Big Push para a 
Sustentabilidade seja catalizadora da geração e multiplicação de empregos decentes e em pé de 
igualdade entre homens e mulheres, a partir da mobilização de investimentos em escala e coordenados 
em diversas áreas do desenvolvimento sustentável. No Capítulo IV, foi evidenciado que, de acordo com 
a primeira classificação de empregos verdes adaptada para o Brasil (Muçouçah, 2009), as mulheres não 
apresentam uma grande participação na ocupação desses setores. Esse resultado implica que políticas 
para acelerar investimentos em setores e tecnologias verdes que desconsideram a dimensão de gênero 
tenderão a perpetuar ou até agravar essa segmentação do mercado de trabalho, reproduzindo padrões 
discriminatórios de gênero e contribuindo para a persistência de iniquidades. A inclusão não pode ser 
olhada unicamente sob o ponto de vista das mulheres como usuárias dos investimentos, mas deve ser 
plenamente incorporada também necessidade de paridade nos empregos de qualidade criados.  
Saget, Vogt-Schilb e Luu (2020) dividem a percepção que grande parte dos empregos verdes 
focam nas atividades e setores que estão dominados por homens e destaca a necessidade de reduzir tal 
segmentação e promover a igualdade de gênero no mercado laboral. Para isso, o estudo recomenda 
igualdade de oportunidade para mulheres e homens, proteção à discriminação e acesso às licenças de 
maternidade e paternidade. Além do mais, a políticas de atenção à infância, o aprendizado permanente, 
um ambiente empresarial propício às mulheres e sua maior participação no diálogo social são 
fundamentais para ampliar a participação feminina na sociedade. 
Por outro lado, se é considerada a definição alternativa de empregos verdes, apresentada por 
Bakker e Young (2011), as mulheres têm uma maior representação, mas isso responde essencialmente 
ao fato que de essa definição inclui vários setores relacionados aos cuidados, que, como foi visto, se 
caracterizam por condições de contratação e salariais piores do que as dos homens, não acessando 
inclusive os espaços de decisão e os níveis superiores, com melhores remunerações.  
Nesse contexto, é mister realizar uma nova classificação dos setores que geram empregos verdes 
incluindo a perspectiva de gênero e de qualidade trabalho (remuneração, formalização, condições de 
trabalho, sindicalização etc.) de acordo com a realidade do mercado de trabalho brasileiro.  
A partir dessas informações seguem, então, duas recomendações principais de políticas: a 
primeira é estabelecer uma política industrial “verde”, com fomento ao investimento nos setores a partir 
de uma classificação que considere o gênero, com condicionalidades ou incentivos ao ajustamento de 
conduta das empresas para maior treinamento das trabalhadoras e equiparação com a remuneração 
masculina nas mesmas funções. Também poderiam ser considerados prêmios, incentivos fiscais ou 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 78 
 
alguma forma de reconhecimento para as empresas que tenham responsabilidade social e ambiental 
corporativa incluindo a igualdade de gênero. A segunda recomendação é uma política de capacitação 
das mulheres em trabalhos “masculinos” que elas podem exercer, seja por meio das escolas técnicas e 
profissionalizantes ou do sistema S73. Por meio dessa política industrial “verde”, aumentaria a proporção 
de trabalhadoras devidamente capacitadas. Este seria o caso, por exemplo, dos empregos na área de 
energia, particularmente as renováveis, que hoje são predominantemente masculinizados. Conforme 
foi pontuado ao longo do relatório, os vultosos investimentos previstos para esta área requerem a 
adoção de uma perspectiva de gênero para que os corpos feminizados sejam beneficiários, em pé de 
igualdade, dos empregos e das rendas geradas. Assim, investimentos em capacitação e treinamento 
para mulheres nas áreas de energia, além de ações afirmativas e outras medidas, é essencial para que a 
economia verde não perpetue e reforce as desigualdades de gênero. Como afirmado no Capítulo II, na 
abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, na composição dos investimentos devem estar 
incluídos investimentos educação e capacitação para equipar mulheres e homens com as habilidades 
necessárias para uma inserção produtiva igualitária nos empregos do futuro. 
5. Transição digital 
Se há uma tendência que foi acelerada com a pandemia de COVID-19 foi a transformação digital. Os 
investimentos nas tecnologias digitais, que já eram apontados como uma transformação paradigmática 
do futuro, hoje encontram-se em plena ascensão. As tecnologias digitais podem ser uma área prioritária 
para o Big Push para a Sustentabilidade, devido a seu potencial transformador do estilo de 
desenvolvimento, que, se corretamente direcionado, pode ser um catalizador de igualdade e de 
sustentabilidade. Considerada o início da 4ª Revolução Industrial, o surgimento de tecnologias digitais, 
tal como a microeletrônica e a internet, possibilitou a digitalização de vários setores da economia e da 
sociedade. Profundas transformações nas indústrias – a chamada indústria 4.0 ou manufatura avançada 
– ocorreram com a robotização e a inteligência artificial; a agricultura vem se transformando com as 
máquinas de comando remoto e o monitoramento por satélite; os serviços foram totalmente 
reconfigurados, como as telecomunicações com uso da internet e o comércio com as vendas virtuais. 
Tal qual as mudanças climáticas, a transição digital não chegou a todas as pessoas igualmente, pois 
essas transformações e avanços tecnológicos impactaram diferentemente as estruturas sociais, 
aprofundando as enormes desigualdades existentes a partir, também, da brecha digital.  
Como mostra CEPAL (2020c), as lacunas em acesso, conectividade e velocidade de rede 
aprofundam as desigualdades e vulnerabilidades da população, dado que condiciona o direito à saúde, 
à educação e ao trabalho, e pode aumentar as desigualdades socioeconômicas. Essas situações pioram 
em cenários adversos provocados pelas mudanças climáticas, como ficou evidente a partir da crise 
sanitária do COVID-19. O documento ressalta a necessidade de construir uma sociedade digital 
inclusiva, impulsionar una transformação digital produtiva, investir na segurança digital do país, 
fortalecer a cooperação digital regional e construir um modelo de governança digital no âmbito de um 
estado de bem-estar digital  
Nesse contexto, políticas para a transição digital são imperativas, pois o Brasil se encontra muito 
aquém de diversos países no que se refere à inclusão digital. Podem ser identificadas três políticas 
diferentes para enfrentar esse desafio: a primeira refere-se à infraestrutura de transmissão da internet, 
sobretudo nas localidades remostas; a segunda, à indústria de equipamentos de uso digital, como os 
 
73  O sistema S é o “Termo que define o conjunto de organizações das entidades corporativas voltadas para o treinamento profissional, 
assistência social, consultoria, pesquisa e assistência técnica, que além de terem seu nome iniciado com a letra S, têm raízes comuns 
e características organizacionais similares. Fazem parte do sistema S: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai); Serviço 
Social do Comércio (Sesc); Serviço Social da Indústria (Sesi); e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac). Existem 
ainda os seguintes: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar); Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo 
(Sescoop); e Serviço Social de Transporte (Sest). As empresas pagam contribuições às instituições do Sistema S ...” (Senado 
Notícias, 2020). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 79 
 
smartphones, tablets e computadores, que precisam ter preços mais baixos, além de aplicativos de fácil 
manejo; a terceira, à capacitação para o uso de equipamentos com internet para uso produtivo – como 
vendas online, informações sobre preços e comercialização de produtos, entre outros –, para acesso ao 
ensino e capacitação de forma remota e para acesso aos serviços de cidadania – marcação de consultas 
e exames pelo SUS, solicitação da carteira de identidade, do título de eleitor e de certidões, com acesso 
universal a esses serviços. 
Políticas públicas elaboradas com ampla participação da sociedade, especialmente das mulheres, 
nessas áreas de infraestrutura acima apresentados são estratégicos, pois ajudariam a combater a 
precariedade e até mesmo a ausência desses serviços em muitas regiões do país, principalmente nas 
mais pobres, que impacta proporcionalmente mais as mulheres e meninas. Ademais, transformar 
estruturalmente esses setores no longo prazo requer vultosos investimentos, que, com as políticas 
apropriadas, podem e devem gerar empregos diretos e indiretos para as mulheres, sendo essenciais 
para mitigação e adaptação às mudanças do clima. 
C. Agricultura familiar, segurança alimentar e nutricional                           
e soberania alimentar  
Para gerar formas de produção e de consumo que sejam sustentáveis e respeitosas das pessoas, das 
suas organizações, das suas origens, dos seus saberes e da natureza e que sejam inclusivas e incentivem 
as relações de autonomia, é importante pensar políticas que fomentem, fortaleçam e consolidem as AF, 
assim como as organizações comunitárias, lideradas por mulheres, dado que além de gerar empregos e 
renda para a população rural, a AF pode ser pensada como “a base de um modelo alternativo de 
desenvolvimento para o meio rural capaz de reduzir a pobreza, as disparidades de renda e o uso 
irracional dos recursos naturais” (Nobre, 1998, p.1). Tal modelo abrange mais do que um ramo 
alternativo do mercado, dado que produz resistência através de suas práticas agrícolas e da 
possibilidade de produzir relações sociais calcadas na igualdade.  
Além disso, as proposições de políticas voltadas para a promoção do fortalecimento da AF devem 
ser sistêmicas, incluindo desde garantir de acesso à terra, às sementes, à água para consumo e produção 
de alimentos até a garantia de acesso a serviços públicos adequados. Estas devem conter ações 
específicas para povos indígenas, populações negras, quilombolas e povos e comunidades tradicionais 
e que contemplem uma abordagem de gênero.  
Como sugestão de política pública sistêmica, uma opção é identificar e fomentar os 
investimentos em Arranjos Produtivos Locais74 (APLs) que foquem nos estabelecimentos da agricultura 
familiar (AF), nos pequenos estabelecimentos rurais e nas associações e cooperativas rurais, que sejam 
dirigidos por mulheres. Fomentar APLs com liderança feminina no meio rural poder ser uma forma 
efetiva e duradoura de gerar renda e maior competitividade para os produtos agropecuários, fortalecer 
os vínculos comunitários entre mulheres, estimular a permanência na terra, preservar os saberes 
tradicionais, e garantir a soberania alimentar. A importância da abordagem de APLs está na ênfase 
colocada no processo de interação, aprendizagem e cooperação que ocorre entre as pessoas de um 
determinado território, que podem ser informais e baseados em conhecimentos tácitos (associados 
com os saberes tradicionais). Daí a possibilidade da abordagem de APL superar as invisibilidades de 
abordagens tradicionais, que excluem tais processos. É justamente a presença de conhecimentos 
 
74  “... um APL é formado por uma ampla gama de agentes como empresas, usuários, fornecedores, prestadores de serviços, 
instituições científico-tecnológicas, universidades e órgãos de políticas, e quaisquer outros atores que atuem e interajam de forma 
a gerar, difundir e aplicar conhecimentos de forma útil. A dinâmica de um arranjo é amplamente determinada pela capacidade dos 
elementos do arranjo de criar, absorver, usar e articular conhecimentos localmente de forma a gerar inovações. Quanto mais um 
arranjo é dotado dessa capacidade, mais intensa sua dinâmica e, portanto, melhores suas condições de competir e gerar 
desenvolvimento local (Lustosa e Podcameni, 2020, pág. 40). 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 80 
 
tácitos e específicos de natureza local que conduz a processos de aprendizado coletivo e capacitação 
inovativa. A importância da abordagem de APLs está na visão sistêmica e articulada de seus 
subsistemas. De acordo com Castro e outros (2017), por ser uma abordagem com visão sistêmica e 
contextualizada, a análise dos APLs considera a convergência das dimensões econômica, social, 
cultural, ambiental e político-institucional no território, que são inseparáveis. Uma política que não 
considera essa visão espacial leva a exclusões, distorções e reforça as desigualdades.  
As políticas para APLs focam na necessidade de observar as especificidades de cada arranjo para 
potenciar as relações sociais e produtivas, assim como para difundir o conhecimento. Mas também são 
multidimensionais, dado que incluem vínculos com instituições de ensino, pesquisa e treinamento, mas 
também com o setor financeiro público e privado, dado que precisam de linhas de crédito específicas, e 
com o setor público para gerar condições fiscais e tributarias que potencializem os arranjos (Lustosa e 
Podcameni, 2020) e tem como eixo norteador, a consideração das especificidades de cada território e 
cada experiência concreta. Nesse sentido, para avaliar os resultados das políticas é importante 
considerar a estruturação da governança e a preservação da cultura, identidade, regionalidade e saberes 
locais que se apresentam em toda a sua diversidade no amplo território brasileiro, sublinhando a 
necessidade de olhares próprios para superar os desafios impostos pelas iniquidades estruturais e pelas 
mudanças climáticas. 
Não obstante, para a AF, além de APLs, são necessárias políticas de caráter mais geral para 
remover os obstáculos já identificados e que tendem a ser mais graves no caso de mulheres dirigentes 
de estabelecimentos agropecuários. Entre estas, a política de estímulo ao acesso a mercados 
institucionais, por meio das compras públicas, é um grande incentivo para a agricultura familiar por 
meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)75, também conhecida como lei da merenda 
escolar. Porém, muitos agricultores familiares, incluindo as mulheres, não se beneficiam dessa política, 
pois, não conseguem obter a Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da 
Agricultura Familiar (DAP), que é o instrumento pelo qual esses trabalhadores e trabalhadoras acessam 
políticas públicas de financiamento, como o Pronaf, e o PNAE. Diante dessa realidade, é necessária uma 
política de apoio à AF e aos pequenos produtores à obtenção de certificações e documentos para que 
possam se valer das políticas governamentais existentes. Tal política, passa, certamente, pela 
capacitação dos atores produtivos dos APLs. 
Uma política de capacitação para os arranjos de agricultoras é importante, visto que elas 
possuem baixa escolaridade, o que limita o acesso a programas públicos de financiamento, entre outros: 
28% das agricultoras familiares dirigentes de estabelecimentos não sabe ler nem escrever, sendo que 
destas, aproximadamente 75% são negras (IBGE, 2019b). Mesmo reconhecendo que os saberes que 
mulheres das áreas rurais sobre o conhecimento no manejo da natureza, especialmente das 
comunidades tradicionais, estão em sintonia com a conservação dos ecossistemas, sendo resilientes às 
mudanças climáticas, a alfabetização é um direito de cidadania, sendo pré-requisito para a codificação 
desse conhecimento tácito, bem como para outros aspectos da produção e comercialização da 
produção, além da inclusão digital, como colocado no Eixo 2 desse capítulo. O acesso à Assistência 
Técnica e Extensão Rural (ATER)76, o acesso ao crédito, a mercados institucionais e outros recursos, 
além de facilitar e aliviar o trabalho, proporcionam mais autonomia a essas trabalhadoras.  
 
75  A Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é instituída por meio da Lei federal nº 11.947/2009, que estabelece que, no 
mínimo, 30% dos recursos repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) destinados à compra de 
alimentos para a merenda escolar devem para aquisição de produtos da agricultura familiar. 
76  A assistência técnica e extensão rural (ATER), da qual apenas 11% das agricultoras familiares que dirigem os estabelecimentos foram 
beneficiárias em 2017. As atividades de ATER para as produtoras, seja na agricultura, nas atividades pesqueiras e nas pequenas 
agroindústrias, devem trazer melhorias tecnológicas – incluindo as máquinas e equipamentos voltados para a AF –; organizacionais, 
auxiliando na organização e de escoamento da produção bem como educação financeira e contabilidade básica de custos, 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 81 
 
São igualmente relevantes políticas que incentivem a preservação de sementes crioulas, os 
reflorestamentos de áreas degradas com espécies nativas, a recuperação de nascentes, as hortas 
comunitárias e o uso de bioenergia, com a respectiva capacitação das mulheres e meninas em cada uma 
dessa atividades. A preservação dos saberes tradicionais locais, que estão na base da agroecologia e dos 
sistemas agroflorestais (SAF), deve ter uma política específica. A agroecologia carrega em si princípios 
ecológicos que devem ser considerados na agricultura e nas relações sociais de gênero através da 
“desnaturalização” da divisão sexual do trabalho. Portanto, a construção desses sistemas valoriza as 
relações tradicionais e os saberes comunitários dos povos e comunidades tradicionais com seus 
territórios e dessa forma possui enorme espaço para que as hierarquias tradicionais de gênero sejam 
questionadas e desconstruídas a partir da crítica à ideologia da inesgotabilidade dos recursos naturais e 
dos territórios, uma vez que junto dela deve se criticar a noção que considera que as mulheres tem 
capacidade e disponibilidade quase infinita para a realização de trabalhos não remunerados. Construir 
políticas agroecológicas sem desenvolver a autonomia, a emancipação e a auto-organização das 
mulheres seria propor medidas equivocadas e não resolutivas que desconsideram enorme potencial de 
recuperação ecológica. Sem feminismo não há agroecologia.  
Também, uma política para educação na área rural para mulheres e meninas, como um misto do 
Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e o Programa Nacional de Acesso ao 
Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), com cursos de curta duração em artesanato – móveis, objetos de 
decoração, cerâmica, trabalhos com fibras e tecidos, beneficiamento e processamento de alimentos, 
entre outros – pode ser um caminho interessante para que elas possam ter mais autonomia e 
capacitação para o trabalho nas áreas rurais, seja na agropecuária ou na pequena produção industrial.  
Os Institutos Federais são muito importantes na formação técnica, podendo direcionar o 
treinamento para algumas profissões que são escassas no meio rural e que as mulheres jovens poderiam 
se especializar – instalação e manutenção de placas solares e de fibra ótica, conserto de celulares, 
computadores, motores, bombas e outras instalações na área rural, além de conhecimentos para 
construção sustentável, utilizando materiais locais, como o bambu e adobe. Além dos Institutos, uma 
política de aproximação das instituições de ciência e tecnologia (ICT) com o meio rural é urgente, no 
sentido de buscarem, conjuntamente, soluções para os desafios das trabalhadoras do campo, a 
exemplo das máquinas para a agricultura familiar, como colocado no Capítulo IV. Assim, propõem-se 
políticas voltadas para incentivar essas instituições, por meio de suas incubadoras ou parques 
tecnológicos, a trazerem soluções para facilitar a produção e comercialização dos produtos vindo do 
campo, reduzindo a pobreza de tempo das trabalhadoras rurais. 
Transversal aos conteúdos específicos de capacitação, uma política de inclusão cidadã para a AF 
deve conter: 
“ações articuladas com vistas à educação e à capacitação, ambas em senso amplo, dessas 
famílias de produtores rurais e pescadores, com currículos adequados à realidade do 
território: a) conscientização ambiental; b) conscientização política; c) valorização da 
produção local; d) valorização da cultura das comunidades de agricultores ou pescadores; 
e) sensibilização com relação à perspectiva da economia solidária; f) sensibilização com 
relação ao paradigma da agroecologia. ” (Lustosa e Podcameni, 2020). 
Dessa forma, a organização e fortalecimento da AF deve se dar junto com o incentivo a interação 
entre os atores e os outros subsistemas focados especificamente na transmissão de saberes, nas formas 
de organização comunitária, na capacitação, nas formas de governança, nas políticas de apoio, 
 
compatíveis com a capacidade de absorção de conhecimento dos atores menos escolarizados. Além do mais, o conhecimento para 
a transformação na direção de uma agricultura de baixo carbono, como a orgânica e agroecológica, deve ser alvo de uma política 
específica. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 82 
 
distribuição e comercialização, no acesso ao financiamento, entre outas. Ao considerar a situação de 
organização das mulheres em AF, somente 9% delas pertencem a cooperativas e 21% participam de 
associação/movimento de produtores (IBGE, 2019b). Nesse sentido, o fortalecimento da luta 
desenvolvida pelas mulheres rurais, que carregam os seus saberes ancestrais tanto na organização da 
produção quanto nas suas relações sociais e comunitárias, possibilitam a organização das mulheres 
enquanto coletivo, resultando na sua autonomia política, económica e financeira. Além de contribuir 
para o desenvolvimento comunitário, para a proteção dos saberes tradicionais, para a construção de 
soluções resilientes às mudanças climáticas e suas consequências para o meio rural. 
D. Autonomia e representação das mulheres no Brasil 
De forma transversal, uma estratégia de Big Push para a Sustentabilidade deve abordar explicitamente 
as profundas e estruturais brechas na dimensão de gênero. Como foi estudado no Capítulo II, a 
Estratégia de Montevidéu enfatiza, dentre outros quesitos, a necessidade de autonomia na tomada de 
decisão das mulheres. Nessa direção vemos que, embora tenha recebido um importante impulso com 
as novas regras eleitorais que obriga a destinação de pelo menos 30% do Fundo Eleitoral de Recursos 
Públicos para candidatas do sexo feminino, criado pela Câmara dos Deputados, assim como 30% do 
tempo de propaganda eleitoral gratuita para elas, a participação das mulheres na política em cargos 
parlamentares ainda é muito baixa quando comparada com o seu eleitorado. Como destaca Biroli: 
“A presença reduzida das mulheres em cargos eletivos pode ser constatada na maioria dos 
países do mundo, mas no Brasil essa realidade é acentuada. Por aqui, a média de mulheres 
eleitas nos legislativos tem oscilado em torno de 10%, embora as mulheres sejam mais da 
metade do eleitorado e o país tenha, desde 1997, legislação que prevê a reserva de 30% de 
candidaturas femininas nas listas partidárias. Em 2017, o Brasil ocupava a 154ª posição no 
ranking global feito pela Inter-Parliamentary Union (IPU), com 10,7% de mulheres na 
Câmara dos Deputados e 14,8% no Senado Federal. No contexto das Américas, a média 
das duas casas no mesmo ano foi de 28,3% e 27,5%, respectivamente. ” (Biroli, 2018, 
pág.176) 
De fato, ao considerar a configuração após a última eleição, enquanto a participação feminina 
nos votos é de 52,6%, as mulheres ocupam apenas 14,6% da Câmara dos Deputados e 13,6% do Senado. 
Ao incluir um olhar através de um recorte de raça, cor e etnia, a porcentagem das candidaturas de 
mulheres brancas é de 51,2%, de mulheres pardas 34,3% enquanto as mulheres pretas representam 
13,4%. As mulheres indígenas ocupam apenas 0,53% das candidaturas (GTSC A2030, 2020). 
O Instituto Alziras em recente pesquisa sobre o Perfil das Prefeitas no Brasil no período de 2017-
2019 (Instituto Alziras, 2018) mostra que o número de prefeitas também é reduzido e que essas 
mulheres estão presentes essencialmente nos municípios mais pobres e menores. Segundo tais dados, 
as mulheres são 51% da população, mas governam apenas 12% das prefeituras brasileiras. O foco em 
mulheres negras demonstra que elas são 27% da população, mas que governam apenas 3% das 
prefeituras brasileiras. O estudo ainda reforça que as mulheres pesquisadas possuem maior experiência 
em gestão pública assim como mais anos de estudos que os homens da mesma posição. 
Esses dados sobre a participação política, de acordo com gênero, no parlamento, possibilitam 
analisar que a capacidade de tomada de decisões das mulheres no Brasil precisa ser fortalecida para 
combater injustiças e iniquidades, a fim de que os marcos regulatórios pertinentes ao desenvolvimento 
sustentável sejam capazes de refletir as especificidades e necessidades desse grupo em seus 
mecanismos de implementação. Ademais, a formulação das políticas públicas, assim como em fóruns 
decisórios de questões ambientais são marcados pela falta da perspectiva de gênero e participação das 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 83 
 
mulheres, mesmo que já sejam presentes variados esforços da sociedade civil a nível nacional, regional 
e internacional para transversalização do gênero, a exemplo do recente Acordo de Escazú.  
Como foi estudado no presente relatório, as mulheres e meninas são as mais afetadas pelos 
eventos extremos provocados pelas das mudanças climáticas. Mas também elas são agentes efetivos 
de transformação em relação tanto à mitigação quanto à adaptação. Elas têm uma ampla gama de 
conhecimentos e experiências que pode ser usada na mitigação da mudança climática, redução de 
desastres e estratégias de adaptação.  
As estratégias de transversalização do gênero com vistas a aumentar a governança das mulheres 
e meninas nas políticas ambientais deve conter em sua estratégia a preocupação com o fortalecimento 
das capacidades institucionais, com a participação e representação das mulheres na vida política, com 
a criação e financiamento efetivo dos programas de políticas públicas de inclusão, adaptação e 
mitigação, com a educação ambiental, com a comunicação e a participação cidadã, com o diálogo 
intergeracional e com a inclusão digital, gestão de conhecimento e capacitação nos usos da tecnologia. 
Para isso as mulheres têm que ser incluídas como sujeitas ativas do processo integral de formulação de 
políticas públicas, tanto como representantes políticas e institucionais quanto com a participação nas 
representações da sociedade civil dos coletivos e organizações de mulheres. 
Com a inclusão das mulheres nos ambientes decisórios, pode-se promover oportunidades de 
redução de iniquidades de gênero em processos produtivos e econômicos de baixas emissões de GEE, 
identificando capacidades de adaptação e promovendo a resiliência das mulheres às mudanças do 
clima, nas cidades e no âmbito rural, considerando a intersecção da pobreza com outras 
vulnerabilidades. 
Dentre as ações de governança para a igualdade de gênero, um dos instrumentos que deve 
ocupar papel central na implementação e no monitoramento da presença do enfoque de gênero nas 
políticas climáticas são as contribuições determinadas a nível nacional (NDCs, da sigla em inglês), pois 
os países devem apresentar periodicamente uma atualização de sua NDC, que deve buscar a inclusão 
do olhar de gênero. Sendo um dos principais acordos que versa sobre a mitigação das mudanças 
climáticas, a atualização das NDCs traz uma oportunidade para aumento do espaço político para as 
mulheres na política climática e, portanto, podem ser uma importante ferramenta de ampliação da 
implementação nos planos e políticas nacionais também. Assim, a atualização dos compromissos sobre 
as CDN possibilitaria: “desenhar e incorporar de forma integral e explicita o vínculo entre mudanças 
climáticas, direitos humanos e igualdade de gênero. ” (CEPAL, 2019, pág. 188). 
No tocante ao vínculo entre o social e o ambiental, outro mecanismo que pode ser de extrema 
relevância para a discussão da participação das mulheres é a adoção do Plano de Ação de Gênero, que 
tem como objetivo propor que as instituições sejam sensíveis ao gênero, transformadoras e, portanto, 
mais eficazes, eficientes e bem-sucedidas (CQNUMC, 2018, tradução livre). Com a implementação das 
diretrizes do Plano, espera-se que haja a correção das desigualdades de gênero existentes através da 
redefinição dos papéis sociais entre homens e mulheres por meio da transversalização do enfoque de 
gênero. As principais ideias do plano são que as intervenções políticas diminuem a carga das mulheres 
e que as mulheres não apenas contribuem, mas também se beneficiam com isso. Assim, resulta em um 
documento base com diretrizes claras para a identificação de lacunas de gênero e elementos para um 
processo participativo capaz de formular uma política responsiva ou transformadora de gênero, que 
conta com definições, objetivos, metas, mecanismos e resultados esperados nos curto e longo prazos.  
Quanto à participação política, a nível local estão sendo desenvolvidas novas formas de 
participação, que valorizam sobretudo a organização coletiva como maneira de superar os desafios 
estruturais e construir redes de fortalecimento social dentro das instituições governamentais. As 
candidaturas coletivas se desenham como uma estratégia de reunir atores sociais que tradicionalmente 
têm suas vozes e saberes silenciados ao mesmo tempo que rompe com a estrutura tradicional de 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 84 
 
representação (ou falta de representação) da política brasileira. Essa alternativa gera a possibilidade de 
expandir a participação de mulheres na política, principalmente mulheres periféricas, negras, LGBTQI+, 
indígenas e, consequentemente, potencializar a presença de suas demandas, discussões, 
conhecimento. A partir da inclusão das pautas identitárias no processo de elaboração e implementação 
de políticas públicas, se torna possível um país com governança mais representativa, diversa e popular. 
Para garantir a participação e inclusão social, política e econômica das mulheres, é essencial 
também iniciar um processo de alfabetização digital, garantindo o acesso às novas formas de 
comunicação. Como mencionado no segundo eixo do presente capítulo, as políticas de distribuição de 
meios de comunicação digital (smartphones, computadores e tablets) e de capacitação no seu uso são 
essenciais para melhorar as condições de mobilidade social, de acesso a bens e serviços, de acesso às 
informações e para a participação política. A inclusão digital melhora as condições de conexão, 
democratiza o acesso e facilita a realização de diversos encargos. Nesse sentido, para pensar propostas 
de inclusão digital é interessante explorar os mencionados programas de inclusão digital promovidos 
no resto da região.  
Junto com a inclusão digital, outro aspecto essencial para garantir o empoderamento das 
mulheres, jovens e meninas, assim como a sua participação política e nos espaços de decisões é a 
promoção do diálogo intergeracional. A conexão com a juventude é fundamental para que se discuta a 
importância de construir movimentos contínuos e de se visibilizar experiências de soluções criadas 
desde uma geração que tem outra relação com a tecnologia e outra visão de mundo sobre o problema 
das mudanças climáticas, além do papel importante na valorização e passagem dos saberes.  
A partir dessa inclusão social, política, econômica, produtiva, digital, geracional e de tomada de 
decisão das mulheres, jovens e meninas, uma sociedade mais equitativa e com justiça social será 
possível. Incluir a questão ambiental em todos os níveis de decisão como meio de transversalização do 
gênero na elaboração, execução e avaliação das políticas e programas de desenvolvimento sustentável, 
é essencial. Com o acesso às informações ambientais e instrumentos de capacitação, mulheres e 
meninas serão fortalecidas como agentes de mudança. Tal fortalecimento é essencial para que as 
lideranças locais sejam conectadas às políticas ambientais nacionais, regionais e internacionais, tirando 
da invisibilidade todas aquelas que produzem, cotidianamente, soluções de adaptação para a crise 
climática desde seus territórios e comunidades, mas que são excluídas da institucionalidade devido aos 
marcadores sociais de gênero, raça e etnia. Com esse aumento de espaço cívico, transforma-se a 
exclusão estrutural ao mesmo tempo que se abrange soluções e alternativas preciosas de adaptação às 
mudanças climáticas produzidas por aquelas que mais são afetadas e por quem mais produz resistência. 
E. Desenvolvimentos futuros 
Estudos sobre a relação entre mudança climática e a inclusão das mulheres, jovens e meninas foram 
ganhando espaço na literatura e nos debates internacionais na última década, porém ainda se trata de 
um âmbito pouco explorado no Brasil. O presente relatório é um esforço por avançar em uma linha de 
pesquisa focada na perspectiva das mulheres, nas interseccionalidades sociais, nas mudanças 
climáticas, e no desenvolvimento sustentável e inclusivo no Brasil, em sintonia com o conjunto de 
estudos e pesquisas que estão sendo produzidos internacional e regionalmente e que levam em 
consideração tais aspectos. No intuito de aprofundar o entendimento sobre as relações entre tais 
fenômenos a partir de realidades específicas, reconhecendo as limitações e lacunas identificadas nesse 
relatório, são indicadas algumas agendas futuras de pesquisa que possibilitem prover mais subsídios 
para recomendações de políticas mais inclusivas, em linha com o Big Push para a Sustentabilidade. 
Em primeiro lugar, a dificuldade para acessar dados referentes à interseccionalidade gera alguns 
problemas em relação à identificação de situações de exclusão, pelo qual se recomendam mais estudos 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 85 
 
que, através de um olhar interseccional, incluam a realidade das mulheres que vivem em situação de 
maior vulnerabilidade. Nesta linha, os estudos de casos são essenciais para complementar a análise 
apresentada no presente relatório e permitem analisar as especificidades locais. Os estudos com 
recortes locais e regionais também permitem uma melhor compreensão do território nacional. Neste 
sentido, recomenda-se realizar estudos de caso que foquem nas relações entre as mulheres das 
comunidades quilombolas e indígenas com as mudanças climáticas, revelando a centralidade dos 
saberes locais e destas mulheres para efetivação de uma agenda do clima no Brasil.  
É igualmente importante realizar estudos sobre setores específicos como desmatamento e 
queimadas, grandes contribuintes do Brasil para as mudanças climáticas, e os seus efeitos sobre as 
mulheres; a agropecuária exportadora de larga escala e seus impactos nas mudanças do clima e a vida 
das mulheres em comparação com a agricultura familiar e de pequena escala.  
Sugere-se a revisão de experiências internacionais, à nível regional e global, de políticas 
ambientais elaboradas com enfoque de gênero, para realizar uma análise comparativa entre diferentes 
marcos normativos que seja capaz de promover compartilhamento e intercâmbio de informações, no 
intuito de servir como base de conhecimento conceitual e prático para a construção de políticas 
ambientais no Brasil que incluam a dimensão de gênero em seu todo, desde a formulação, 
implementação até o seu monitoramento. Essa revisão é essencial para todos os setores abordados 
nesse estudo – empregos verdes, água e saneamento, mobilidade urbana, agricultura familiar, saúde e 
energia – uma vez que existem diferentes níveis de compreensão da pauta ambiental, climática e de 
igualdade de gênero no mundo e, por consequência, diferentes respostas a essas preocupações.  
Destaca-se ainda a centralidade de promover uma agenda de pesquisa que relacione as 
inovações socioambientais com as questões de gênero e clima. As inovações socioambientais possuem 
potencial de solucionar os problemas enfrentados pelas mulheres, contribuir para o empoderamento 
feminino e a geração de renda. Desta forma, trata-se de uma dimensão que merece ser analisada em 
maior profundidade para subsidiar o desenvolvimento de políticas específicas.  
Há um debate importante sobre as inovações socioambientais desenvolvidas e aplicadas em 
outros países, principalmente no que tange a eletromobilidade, saneamento, filtros de água, acesso à 
água potável, alimentação saudável entre outros.  
 Em relação ao emprego formal, é importante promover estudos para explicar a reduzida 
participação feminina em determinadores setores de atividade considerados “verdes”, bem como as 
desigualdades salariais neles verificadas. A chave dessa questão está em como gerar empregos 
decentes, que incluem a igualdade de gênero, e ajudem a mitigação ou adaptação às mudanças 
climáticas simultaneamente. Nesse sentido, os empregos verdes ganham destaque, porém as atuais 
classificações dos setores que são consideradas “verdes” não contemplam a questão de gênero, mas 
somente os impactos que provocam no meio ambiente. Mesmo que as mulheres apresentem maior 
participação em algumas atividades que geram empregos verdes, esses são empregos ligados aos 
cuidados. Assim, avançar nas críticas às atuais classificações e discutir outras formas de identificar 
atividades que gerem emprego decente é essencial para promover “empregos verdes inclusivos”. 
Por fim, é importante sublinhar a imperiosa necessidade de mais trabalhos sobre o tema, para se 
obter um melhor entendimento sobre a situação de iniquidades que vivenciam as mulheres e que serão 
agravadas devido a inação perante às mudanças climáticas, refletindo a ausência de políticas específicas 
de mitigação e adaptação que apresentem um olhar interseccional de gênero.  
As indicações de desenvolvimentos futuros apresentadas nesta seção não têm o intuito de 
esgotar a agenda de pesquisa que emerge da intercessão dos estudos de gênero e mudanças climáticas, 
ou do Big Push para a Sustentabilidade, mas ressaltam os tópicos relacionados ao presente relatório que 
merecem uma análise a parte. 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 87 
 
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CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 95 
 
Anexo 
 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 96 
 
Anexo 1 
Lista de participantes na oficina virtual “A dimensão de gênero e os 
investimentos sustentáveis”, realizada em 23 de setembro de 2020 
Ana Cristina Nobre da Silva, Ambiente Social Consultoria 
Caio Magri, Instituto Ethos 
Cairo Bastos, Fundação Nacional do Índio (Funai) 
Camila Gramkow, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 
Carlos Mussi, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 
Carmen Foro, Central Única dos Trabalhadores (CUT) 
Christoph Heuser, Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES) 
Elisa Badziack, Rede Brasil do Pacto Global 
Francisca Maria da Silva Xica, GT da Socidade Civil para Agenda 2030 
Gabriela Couto, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) 
Givania Maria da Silva, Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais 
Quilombolas (CONAQ) 
Gonzalo Berrón, Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES) 
Hildete Pereira de Melo, Universidade Federal Fluminense (UFF) 
Isabel Garcia Drigo, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) 
Izabella Teixeira, Ex-Ministra do Ministério de Meio Ambiente 
Joana Amaral, GT de Gênero e Clima do Observatório do Clima 
Joana Portugal Pereira, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 
José Ribeiro, Organização Internacional do Trabalho (OIT) 
Kena Chaves, Centro de Estudos e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVCes) 
Leticia Graça, Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos do Instituto de Economia da 
Universidade Federal do Rio de Janeiro (NuEFem/IE/UFRJ) 
Lígia Amoroso Galbiati, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) 
Lilia Caiado Couto, University College London (UCL) 
Margarita Olivera, Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ) e Núcleo 
de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos (NuEFem/IE/UFRJ) 
Maria Cecília Lustosa, Mestrado Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia 
para a Inovação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Profnit/UFRJ) e Rede de Pesquisa em 
Sistemas Produtivos e Inovativos Locais do Instituto de Economia (Redesist/UFRJ)  
Maria Gabriela Podcameni, Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e Rede de Pesquisa em Sistemas 
Produtivos e Inovativos Locais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Redesist/UFRJ) 
CEPAL A dimensão de gênero no Big Push para a Sustentabilidade... 97 
 
Maria Lúcia Falcon, Universidade de Santiago de Compostela, Universidade Federal de Sergipe e Rede 
de Pesquisa em Sistemas Produtivos e Inovativos Locais da Universidade Federal do Rio de Janeiro 
(Redesist/UFRJ) 
Maria Lucía Scuro, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 
Marina Casas, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 
Maureen dos Santos, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) 
Mayra Juruá, Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) 
Michelle Ferreti, Instituto Alziras 
Miriam Nobre, Sempreviva Organização Feminista (SOF) 
Miriam Prochnow, Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) 
Nara Perobelli de Moraes, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) 
Natalie Unterstell, Green Climate Fund, Política Por Inteiro e Homeward Bound de mulheres na ciência 
Paloma Costa, Engajamundo 
Patricia Pelatieri, Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) 
Paula Silveira, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) 
Rodolfo Gomes, International Energy Initiative (IEI Brasil) 
Shreya Kumra, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) 
Simone Tenório, Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) 
Tatiane Matheus, Climainfo 
Veronica Ferreira, SOS Corpo Recife – Instituto Feminista para a Democracia 
Waldeli Melleiro, Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES) 
 
A atual conjuntura do Brasil e dos países no mundo todo é marcada 
pelo enfrentamento da crise provocada pela pandemia de COVID-19 e 
pela busca da recuperação da atividade econômica, dos empregos e da 
qualidade de vida das pessoas. Nesse contexto, a Comissão Econômica 
para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas vem 
desenvolvendo o Big Push (ou Grande Impulso) para a Sustentabilidade, 
uma abordagem renovada para apoiar os países da região na construção 
de estilos de desenvolvimento mais sustentáveis, baseada em uma 
recuperação transformadora com igualdade e sustentabilidade.
O Escritório da CEPAL no Brasil e a Representação no Brasil da Fundação 
Friedrich Ebert Stiftung, com a participação de diversos especialistas 
e colaboradores, desenvolveram o projeto “A dimensão de gênero no 
Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: as mulheres no contexto 
da transformação social e ecológica da economia brasileira”, buscando 
contribuir para o debate crítico sobre as políticas e medidas ligadas 
ao enfrentamento da mudança do clima que possibilitem alcançar 
a igualdade de gênero no país. A leitura desta publicação permitirá 
ter uma compreensão ampliada sobre a dimensão de gênero e suas 
interseccionalidades raciais, étnicas e econômicas no contexto da 
mitigação e da adaptação às mudanças climáticas.
LC/TS.2021/6

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