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<dcvalue element="date" qualifier="issued" language="es_ES">1995</dcvalue>
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<dcvalue element="callnumber" qualifier="null" language="es_ES">382.3 B584L(58739)</dcvalue>
<dcvalue element="contributor" qualifier="author" language="es_ES">Corden, W. Max</dcvalue>
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<dcvalue element="title" qualifier="null" language="es_ES">Una zona de libre comercio en el Hemisferio Occidental: posibles implicancias para América Latina</dcvalue>
<dcvalue element="description" qualifier="null" language="es_ES">Incluye Bibliografía</dcvalue>
<dcvalue element="relation" qualifier="ispartof" language="es_ES">En: La liberalización del comercio en el Hemisferio Occidental - Washington, DC : BID/CEPAL, 1995 - p. 13-40</dcvalue>
<dcvalue element="project" qualifier="null" language="es_ES">Proyecto Apoyo al Proceso de Liberalización Comercial en el Hemisferio Occidental</dcvalue>
<dcvalue element="identifier" qualifier="uri" language="">http://hdl.handle.net/11362/1510</dcvalue>
<dcvalue element="date" qualifier="accessioned" language="">2014-01-02T14:51:16Z</dcvalue>
<dcvalue element="date" qualifier="available" language="">2014-01-02T14:51:16Z</dcvalue>
<dcvalue element="description" qualifier="provenance" language="es_ES">Made available in DSpace on 2014-01-02T14:51:16Z (GMT). No. of bitstreams: 0
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Investimentos transformadores 
para um estilo de  
desenvolvimento sustentável
Estudos de casos de grande impulso  
(Big Push) para a sustentabilidade  
no Brasil
Documentos de Projetos
Camila Gramkow
Organizadora
Publicaciones 
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Documentos de Projetos 
Investimentos transformadores para um estilo  
de desenvolvimento sustentável 
Estudos de casos de grande impulso (Big Push)  
para a sustentabilidade no Brasil 
Camila Gramkow 
Organizadora 
 
 
 
 
  
Este documento foi organizado por Camila Gramkow, Oficial de Assuntos Econômicos do Escritório no Brasil da 
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no âmbito das atividades do projeto CEPAL/Deutsche 
Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ): “Sustainable development paths for middle-income countries 
under the 2030 Agenda for Sustainable Development in Latin America and the Caribbean”. Este documento também 
contou com o apoio da Friedrich-Ebert-Stiftung (FES), da Rede Brasil do Pacto Global e do Instituto de Pesquisa 
Econômica Aplicada (IPEA) para realização e divulgação da Chamada Aberta de Estudos de Casos de Investimentos 
para o Desenvolvimento Sustentável no Brasil a partir da qual os capítulos foram produzidos e selecionados. 
Reconhecemos e agradecemos a colaboração dos membros do Comitê de Avaliação da referida chamada: 
Gustavo Fontenele e Silva (Ministério da Economia do Brasil), Julio César Roma (IPEA), Mauro Oddo Nogueira (IPEA), 
Luiz Fernando Krieger Merico (CEPAL, Divisão de Desenvolvimento Sustentável e Assentamentos Humanos) e 
Maria Luisa Marinho (CEPAL, Divisão de Desenvolvimento Social). Colaboraram com este documento, além dos autores 
e autoras que assinam seus capítulos, os assistentes de pesquisa e os estagiários da CEPAL em Brasília: Camila Leotti, 
Gabriel Belmino Freitas, Pedro Brandão da Silva Simões e Sofia Furtado. Contamos, também, com a contribuição do 
diretor da CEPAL em Brasília, Carlos Henrique Fialho Mussi, e de Maria Pulcheria Graziani do mesmo escritório. 
As opiniões expressas neste documento, que não foi submetido à revisão editorial, são de exclusiva responsabilidade 
dos autores e autoras e podem não coincidir com as visões da CEPAL e das instituições a que os autores e autoras são 
filiados, nem com as das instituições que apoiaram este documento. 
 
 
 
 
 
Publicação das Nações Unidas 
LC/TS.2020/37 
LC/BRS/TS.2020/1 
Distribuição: L 
Copyright © Nações Unidas, 2020 
Todos os direitos reservados 
Impresso nas Nações Unidas, Santiago 
S.20-00209 
 
Esta publicação deve ser citada como: Camila Gramkow (org.), “Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento 
sustentável: estudos de casos de grande impulso (Big Push) para a sustentabilidade no Brasil”, Documentos de Projetos 
(LC/TS.2020/37; LC/BRS/TS.2020/1), Santiago, Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), 2020. 
 
A autorização para reproduzir total ou parcialmente esta obra deve ser solicitada à Comissão Econômica para a América Latina e 
o Caribe (CEPAL), Divisão de Publicações e Serviços Web, publicaciones.cepal@un.org. Os Estados-membros das Nações Unidas 
e suas instituições governamentais podem reproduzir essa obra sem autorização prévia. Solicita-se apenas que mencionem a fonte 
e informem à CEPAL de tal reprodução. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 3 
 
Índice 
Prefácio ......................................................................................................................................................... 11 
Carlo Pereira 
Apresentação ................................................................................................................................................ 13 
Alicia Bárcena 
Introdução ..................................................................................................................................................... 15 
Carlos Mussi, Camila Gramkow 
I. Companhia Siderúrgica do Pecém: o Big Push industrial do Estado do Ceará ................................... 23 
Alex Maia do Nascimento, Claudio Renato Chaves Bastos, Cristiane Peres, 
Emanuela Sousa de França, Italo Barreira Ribeiro, Leonardo Roger Silva Veloso, 
Livia Bizarria Prata, Marcelo Monteiro Baltazar, Ramyro Batista Araujo,  
Ricardo Santana Parente Soares, Rodrigo Santos Almeida, Vanilson da Silva Benica 
Resumo .............................................................................................................................................. 23 
A. Introdução .................................................................................................................................. 24 
B.  O projeto sustentável da Companhia Siderúrgica do Pecém ..................................................... 26 
C.  CSP – A sinergia cultural Brasil-Coréia do Sul ............................................................................. 27 
D.  O Big Push industrial CSP – antes da operação .......................................................................... 28 
E.  Conquistas durante a fase de operação da CSP ......................................................................... 32 
F.  Considerações finais sobre o Big Push CSP ................................................................................ 43 
Bibliografia ......................................................................................................................................... 45 
II.  Aumentando a resiliência climática e combate à pobreza rural por meio de ações  
emergenciais de combate à seca: o caso dos sistemas agroflorestais  
no Procase – FIDA .............................................................................................................................. 47 
Leonardo Bichara Rocha, Thiago César Farias da Silva, Donivaldo Martins 
Resumo .............................................................................................................................................. 47 
A.  Introdução .................................................................................................................................. 48 
B. O FIDA e ações de combate aos efeitos da seca na Paraíba ....................................................... 48 
C.  Sistemas agroflorestais no contexto dos Planos Emergenciais ................................................. 50 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 4 
 
D.  Assessoria técnica contínua e especializada .............................................................................. 54 
E.  Resultados e ODS ...................................................................................................................... 54 
F.  Conclusões e relação com o Big Push para a Sustentabilidade .................................................. 55 
Bibliografia ......................................................................................................................................... 57 
III.  Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: a contribuição dos Tûkûna  
do Médio Rio Juruá (AM) .................................................................................................................... 59 
Cairo Guilherme Milhomem Bastos, Fernando Esteban do Valle,  
Tatiana Ribeiro Souza Brito 
Resumo .............................................................................................................................................. 59 
A.  Introdução .................................................................................................................................. 59 
B.  Inventário etnográfico ................................................................................................................ 60 
C.  A construção de casas de farinha ............................................................................................... 65 
D.  Chamada pública para alimentação escolar ............................................................................... 68 
E.  Relação do caso estudado com o Big Push para a Sustentabilidade .......................................... 69 
F.  Conclusão ................................................................................................................................... 71 
Bibliografia ......................................................................................................................................... 73 
IV.  Polímeros Verdes: tecnologia para promoção do desenvolvimento sustentável ............................... 75 
Adriana Mello, Jorge Soto, José Augusto Viveiro 
Resumo .............................................................................................................................................. 75 
A.  Introdução .................................................................................................................................. 76 
B.  O PE verde da Braskem .............................................................................................................. 77 
C.  Capacidade de mobilização de investimentos ........................................................................... 80 
D.  PE verde e o desenvolvimento sustentável ................................................................................ 81 
E.  PE verde e o Big Push para a Sustentabilidade ........................................................................... 84 
F.  Conclusões ................................................................................................................................. 87 
Bibliografia ......................................................................................................................................... 88 
V. Assentamentos Sustentáveis na Amazônia: o desafio da produção familiar  
em uma economia de baixo carbono ................................................................................................. 89 
Erika de Paula P. Pinto, Maria Lucimar de L. Souza, Alcilene M. Cardoso,  
Edivan S. de Carvalho, Denise R. do Nascimento, Paulo R. de Sousa Moutinho,  
Camila B. Marques, Valderli J. Piontekowski 
Resumo .............................................................................................................................................. 89 
A.  Introdução .................................................................................................................................. 90 
B.  As origens do projeto Assentamentos Sustentáveis da Amazônia ............................................ 91 
C.  Estratégias integradas para a promoção de assentamentos sustentáveis na Amazônia ........... 92 
D.  Incentivos econômicos para conservação e produção rural sustentável .................................... 95 
E.  Sistemas agroflorestais como estratégia de regularização ambiental  
e segurança alimentar ................................................................................................................ 97 
F.  Discussão sobre a iniciativa à luz do Big Push para a Sustentabilidade ...................................... 98 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 101 
VI.  Tecnologia de tratamento de esgoto: uma alternativa de saneamento básico  
rural e produção de água para reúso agrícola no Semiárido Brasileiro ............................................. 103 
Mateus Cunha Mayer, Rodrigo de Andrade Barbosa, George Rodrigues Lambais,  
Salomão de Sousa Medeiros, Adrianus Cornelius Van Haandel, Silvânia Lucas dos Santos 
Resumo ............................................................................................................................................ 103 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 104 
B.  O desenvolvimento de tecnologias de saneamento básico rural de custo  
acessível no Semiário Brasileiro ............................................................................................... 105 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 5 
 
C.  Relação do estudo de caso com o Big Push e a Agenda 2030 .................................................... 111 
D.  Conclusão ................................................................................................................................. 112 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 112 
VII.  Sistema Agroflorestal Cambona 4: um exemplo de impulso à sustentabilidade 
na Região Sul do Brasil ..................................................................................................................... 115 
Airton José Morganti Júnior, José Lourival Magri, Selia Regina Felizari 
Resumo ............................................................................................................................................ 115 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 116 
1.  A cultura da erva-mate no sul do Brasil e os desafios do cultivo em Machadinho ............ 116 
B.  Sistema Agroflorestal Cambona 4 ............................................................................................ 117 
C.  SAF Cambona 4 e o desenvolvimento socioambiental ............................................................ 119 
1.  Benefícios ambientais ...................................................................................................... 120 
2.  SAF Cambona 4 e a neutralização de carbono ................................................................. 121 
D.  SAF Cambona 4 e o Big Push para a Sustentabilidade ............................................................. 122 
E.  Conclusão ................................................................................................................................. 124 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 125 
VIII.  Unidade de Cogeração Lages: um exemplo do potencial transformador  
da economia circular ........................................................................................................................ 127 
José Lourival Magri, Mario Wilson Cusatis 
Resumo ............................................................................................................................................ 127 
A. Introdução ................................................................................................................................ 127 
B.  Descrição do projeto ................................................................................................................ 129 
C.  Destinação das cinzas de biomassa .......................................................................................... 131 
D.  Projeto comunitário ................................................................................................................. 132 
E.  Tecnologia para melhor aproveitamento.................................................................................. 133 
F.  Impactos da iniciativa à luz do Big Push para a Sustentabilidade ............................................. 134 
G.  Conclusão ................................................................................................................................. 135 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 136 
IX.  O modelo de ação do Polo de Inovação Campos dos Goytacazes .................................................... 137 
Rogério Atem de Carvalho 
Resumo ............................................................................................................................................. 137 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 138 
B.  O modelo de ação do PICG ...................................................................................................... 140 
1.  Linha 1: projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) .................................. 141 
2.  Linha 2: projetos com comunidades e governos .............................................................. 141 
3.  Linha 3: projetos de pesquisa aplicada e extensão tecnológica ....................................... 143 
4.  Linha 4: concepção e operação do campus ...................................................................... 144 
5.  Ações integrativas............................................................................................................ 146 
6.  O PICG como parte de um ecossistema ........................................................................... 147 
C.  O ciclo virtuoso dos investimentos em inovação ..................................................................... 148 
D.  Impactos econômicos, sociais e ambientais ............................................................................. 149 
1.  Dimensão econômica ...................................................................................................... 149 
2.  Dimensão ambiental ........................................................................................................ 150 
3. Dimensão social ............................................................................................................... 151 
E.  A atuação do PICG à luz do Big Push para a Sustentabilidade e da Agenda 2030  
para o Desenvolvimento Sustentável ...................................................................................... 151 
F.  Conclusões ............................................................................................................................... 153 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 153 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 6 
 
X.  Tecnologias sociais como impulso para o acesso à água e o desenvolvimento  
sustentável no meio rural brasileiro: a experiência do Programa Cisternas ..................................... 155 
Vitor Leal Santana, Lilian dos Santos Rahal 
Resumo ............................................................................................................................................ 155 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 156 
B.  Programa Cisternas: contexto, resultados e impactos .............................................................. 157 
C.  Relação do caso estudo com o Big Push para a Sustentabilidade ............................................ 165 
D.  Considerações finais ................................................................................................................. 166 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 167 
XI.  Programa de Restauração Ambiental da Suzano: lições aprendidas para  
investimentos em recuperação de pastagens degradadas no Brasil ................................................. 171 
Sarita Severien, Tathiane Sarcinelli, Yugo Matsuda 
Resumo ............................................................................................................................................. 171 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 172 
B.  Estruturação de investimentos no âmbito da estratégia de conservação  
e do Programa de Restauração Ambiental da Suzano .............................................................. 173 
1.  Métodos customizados .................................................................................................... 174 
2.  Gestão eficiente e parcerias .............................................................................................. 177 
3.  Capacidade de replicabilidade ......................................................................................... 179 
4.  Processos inovadores em financiamento, gestão e tecnologia ....................................... 179 
C.  Os impactos do Programa de Restauração Ambiental no contexto do Big Push  
para a Sustentabilidade e da Agenda 2030 .............................................................................. 180 
D.  Conclusão ................................................................................................................................. 183 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 184 
XII.  Política de conteúdo local e incentivos financeiros no mercado de energia eólica no Brasil ............ 185 
Britta Rennkamp, Fernanda Fortes Westin, Carolina Grottera 
Resumo ............................................................................................................................................ 185 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 186 
B.  Fatores, atores e impactos das políticas de incentivo e conteúdo local  
no mercado de energia eólica no Brasil .................................................................................... 187 
1.  Requisitos de Conteúdo Local obrigatórios na tarifa feed-in ............................................ 187 
2.  RCLs opcionais ligados ao financiamento de energia renovável ...................................... 188 
C.  Capacidade tecnológica nacional e criação de emprego nas indústrias  
de energia eólica no Brasil ........................................................................................................ 189 
D.  Perspectivas futuras para o setor de energia eólica no Brasil ................................................... 194 
1.  Expansão dos mercados eólicos na América Latina ........................................................ 194 
2.  A energia eólica e a estratégia de desenvolvimento a longo prazo brasileira .................. 195 
3.  Análise à luz da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade ................................... 196 
E.  Conclusão ................................................................................................................................. 197 
Bibliografia ....................................................................................................................................... 198 
Anexo XII.1........................................................................................................................................ 200 
XIII.  Da subsistência ao desenvolvimento: o processo de construção da Associação  
de Catadores de Materiais Recicláveis de Lavras – MG .................................................................... 201 
Eliane Oliveira Moreira, Jucilaine Neves Sousa Wivaldo 
Resumo ............................................................................................................................................ 201 
A.  Introdução ................................................................................................................................ 202 
B.  O material reciclável e o contexto brasileiro da década de 1990: breve histórico .................... 203 
C.  Uma construção social dialogada: o processo histórico inicial da ACAMAR e a FPDA ............. 204 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 7 
 
D.  Desenvolvimento em perspectiva: desenvolvimento sustentável, a ACAMAR  
e o Big Push para a Sustentabilidade ............................................................................... 207 
E.  Considerações finais ........................................................................................................ 210 
Bibliografia ............................................................................................................................. 211 
XIV.  Projeto Tipitamba: transformando paisagens e compartilhando conhecimento  
na Amazônia ........................................................................................................................... 213 
Osvaldo Ryohei Kato, Anna Christina M. Roffé Borges, Célia Maria B. Calandrini de Azevedo,  
Debora Veiga Aragão, Grimoaldo Bandeira de Matos, Lucilda Maria Sousa de Matos,  
Maurício Kadooka Shimizu, Steel Silva Vasconcelos, Tatiana Deane de Abreu Sá 
Resumo ................................................................................................................................... 213 
A.  Introdução ....................................................................................................................... 214 
B.  O Projeto Tipitamba ........................................................................................................ 214 
C.  O potencial transformador dos investimentos no Sistema Tipitamba ............................. 218 
D.  Os impactos econômicos, sociais e ambientais do Projeto Tipitamba ............................. 219 
E.  Relação do caso estudado com o Big Push para a Sustentabilidade ................................. 223 
F.  Conclusão ....................................................................................................................... 225 
Bibliografia ............................................................................................................................. 226 
XV.  Desenvolvimento sustentável e geração de impacto positivo: caso Natura e Amazônia .......... 227 
Resumo ................................................................................................................................... 227 
A.  Introdução ....................................................................................................................... 227 
B.  Modelo de negócio sustentável ....................................................................................... 228 
1. Estudo de caso Ucuuba ............................................................................................ 229 
C.  Estruturação de investimentos no âmbito do Programa Natura Amazônia ..................... 231 
1.  Ciência, tecnologia e inovação ................................................................................. 232 
2.  Fortalecimento institucional .................................................................................... 233 
3.  Cadeias produtivas .................................................................................................. 234 
D.  Relação entre o estudo de caso e o Big Push para a Sustentabilidade .............................. 235 
E.  Conclusão ....................................................................................................................... 237 
Bibliografia ............................................................................................................................. 238 
Anexo XV.1 ............................................................................................................................. 239 
Tabelas 
Tabela I.1  Compromissos Ambientais CSP ................................................................................. 30 
Tabela II.1  Grupos de famílias atendidos pelo Plano Emergencial e assessoria  
técnica do Procase ..................................................................................................... 54 
Tabela II.2  Procase e ODS nos Planos Emergenciais ................................................................... 55 
Tabela IV.1  Indicadores de Desenvolvimento Sustentável elencados pela CEPAL  
e a aderência do PE Verde da Braskem ...................................................................... 85 
Tabela VI.1  Funções das unidades de tratamento e resultados esperados .................................. 106 
Tabela VIII.1  Histórico das emissões de RCE relativas ao Projeto MDL 0268 ................................ 131 
Tabela X.1  Linhas de ação do Programa Cisternas .................................................................... 158 
Tabela X.2  Comparativo entre médias de indicadores populacionais e socioeconômicos .......... 162 
Tabela X.3  Impactos do Programa Cisternas nas dimensões econômica, social e ambiental ..... 164 
Tabela XII.1  Projeção de geração de energia eólica em 2025 ....................................................... 195 
Tabela XII.2  Lista de entrevistados/representantes das empresas do setor  
de energia eólica ..................................................................................................... 200 
Tabela XV.1  Principais diretrizes e compromissos do PAM .......................................................... 232 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 8 
 
Gráficos 
Gráfico I.1  Produção de placas da CSP ........................................................................................ 33 
Gráfico I.2  Geração de empregos diretos e indiretos ................................................................... 34 
Gráfico I.3  Participação em aços de alto valor agregado no portfólio da CSP .............................. 35 
Gráfico I.4  Empresas em SGA e Caucaia de 2010 a 2017 .............................................................. 38 
Gráfico I.5  Exportações de produtos metalúrgicos em SGA ........................................................ 39 
Gráfico I.6  Exportação do Ceará ................................................................................................. 39 
Gráfico I.7  Número de microempreendores individuais (MEI) instalados em SGA  
e Caucaia em 2010 e 2018 .......................................................................................... 40 
Gráfico I.8  Salário médio mensal em SGA e Fortaleza ................................................................ 41 
Gráfico I.9  Empregos em SGA por gênero de 2010 a 2017 ........................................................... 43 
Gráfico III.1  Impacto no orçamento anual com a compra de sacas de farinha nos  
grupos familiares das aldeias Beija-flor, Flecheira e Morada Nova ............................ 66 
Gráfico III.2  Impacto no orçamento mensal com a venda de uma saca de farinha  
nos grupos familiares das aldeias Beija-Flor, Flecheira e Morada Nova ...................... 67 
Gráfico IV.1  Evolução da porcentagem de Fornecedores de Etanol da Braskem que  
se adequaram aos requisitos de Conformidade (obrigatórios) e  
Excelência (pontos de melhoria contínua) ................................................................. 82 
Gráfico V.1  Representatividade do valor comercializado em relação à renda bruta  
antes (safra 2013-2014) e no final (safra 2015-2016) do período  
de vigência do projeto ............................................................................................... 93 
Gráfico V.2  Renda Bruta no Período de Execução do PAS (2012 a 2017) ....................................... 97 
Gráfico VI.1  Concentrações afluente e efluente de DBO5 ........................................................... 109 
Gráfico VI.2  Concentrações afluente e efluente de nitrogênio amoniacal .................................... 109 
Gráfico VI.3  Concentrações afluente e efluente de fósforo total ................................................. 110 
Gráfico VI.4  Concentrações afluente e efluente de E. coli ............................................................ 110 
Gráfico XII.1  Capacidade instalada, financiamento do BNDES e investimento total  
setor de energia eólica no Brasil, 2005-2014 ............................................................ 191 
Gráfico XII.2  Patentes registradas relacionadas à energia eólica no Brasil de acordo  
com o conteúdo tecnológico, 1991-2016 ................................................................. 193 
Gráfico XII.3  Evolução dos preços dos leilões de energia eólica no Brasil (Proinfa), 2009-2018 ........... 193 
Quadros 
Quadro IX.1  Breve histórico do PICG ........................................................................................... 139 
Quadro XI.1  Técnicas aplicadas à restauração ............................................................................. 173 
Mapas 
Mapa V.1  Área de implementação da iniciativa Assentamentos Sustentáveis na Amazônia ............ 93 
Mapa X.1  Distribuição territorial das tecnologias apoiadas no âmbito do  
Programa Cisternas ................................................................................................. 160 
Mapa XII.1  Distribuição regional das principais montadoras de turbinas eólicas  
e principais fabricantes de turbinas eólicas no Brasil ................................................ 190 
Mapa XV.1  Famílias fornecedoras da sociobiodiversidade ......................................................... 239 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 9 
 
Figuras 
Figura I.1  Posição geográfica estratégica do CIPP em relação a Europa, Estados Unidos  
e África ............................................................................................................................... 24 
Figura I.2  Correia transportadora enclausurada responsável pelo transporte das principais  
matérias-primas do Porto para CSP e placas da CSP no Porto do Pecém ......................... 25 
Figura I.3  ZPE Ceará .................................................................................................................. 26 
Figura I.4  Vista superior CSP ..................................................................................................... 27 
Figura I.5  A CSP encontra-se entre os projetos com melhores indicadores  
de implantação do mundo ......................................................................................... 29 
Figura I.6  Sementes coletadas e mudas de plantas nativas ....................................................... 29 
Figura I.7  Plantio de mudas e livro publicado pela CSP .............................................................. 30 
Figura I.8  Impermeabilização e aspersão de água do pátio de matérias primas ......................... 31 
Figura I.9  Cronologia da primeira estaca à primeira placa ......................................................... 33 
Figura I.10  Do Ceará para o mundo ............................................................................................. 35 
Figura I.11  Laboratórios CSP ....................................................................................................... 36 
Figura I.12  Termoeléctrica CSP ................................................................................................... 37 
Figura II.1  Campo de palma irrigada em sistema emergencial/SAF recém  
implantado na Vila Lafayete, município de Monteiro ................................................. 51 
Figura II.2  Vista parcial do SAF do Assentamento Beira Rio, no município de Camalaú .............. 51 
Figura II.3  Implantação do SAF na comunidade do Riacho de Sangue, município  
de Barra de Santa Rosa .............................................................................................. 52 
Figura II.4  Sistema Agroflorestal na Comunidade Bom Sucesso, município de Sossego ............. 53 
Figura III.1  Mandioca da variedade denominada pelos Tûkûna como “Samaúma”,  
aldeia Morada Nova ................................................................................................... 61 
Figura III.2  Mandioca da variedade identificada como “Cruvilha” pelos Tûkûna,  
aldeia Flecheira.......................................................................................................... 61 
Figura III.3  Mandioca roxa doada por indígenas da aldeia Jarinal e colhida da roça  
de isolados da TI Vale do Javari, aldeia Beija-Flor ....................................................... 62 
Figura III.4  Roçado com algumas variedades da mandioca em consórcio com outras  
espécies e floresta, aldeia Beija-Flor .......................................................................... 62 
Figura III.5  Wadawi Gracinha Kanamari, durante a preparação do cipó Timbó para  
a fabricação de teçumes, aldeia Beija-Flor ................................................................. 63 
Figura III.6  Djana Eraci Kanamari, durante a confecção de teçume feito de cipó timbó,  
aldeia Flecheira.......................................................................................................... 63 
Figura III.7  Novelo de fio de tucum produzido por Tsawi Dilce Kanamari .................................... 64 
Figura IV.1  Esquema ilustrativo da análise de ciclo de vida do PE Verde da Braskem ................... 79 
Figura IV.2  Estimativa do uso de terra agricultável para produção de matérias-primas  
renováveis para produção de produtos não energéticos e bioplásticos  
2018 e 2023 ............................................................................................................... 82 
Figura IV.3  Itens avaliados nos requisitos de Meio Ambiente e de Trabalhadores  
e Comunidade do pilar de Conformidade dentro do programa de  
Compra Responsável de Etanol da Braskem .............................................................. 84 
Figura V.1  Dimensões consideradas na definição dos 20 indicadores de sustentabilidade  
da iniciativa ............................................................................................................... 94 
Figura V.2  Critérios para repasse de PSA ................................................................................... 96 
Figura VI.1  Layout do sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar........................... 106 
Figura VI.2  Reator UASB projetado para o estudo ..................................................................... 107 
Figura VI.3  Lagoas de polimento projetadas para o estudo ....................................................... 107 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 10 
 
Figura IX.1  Vista aérea do PICG ................................................................................................. 140 
Figura IX.2  Alunos em atividade sobre mudas de árvores nativas .............................................. 142 
Figura IX.3  Módulo de controle de geração e consumo de energia fotovoltaica do I2S .............. 145 
Figura IX.4  Ciclo de investimentos ............................................................................................. 149 
Figura X.1  Principais tipos de tecnologias implantadas ............................................................ 159 
Figura XII.1  Produtos da cadeia de suprimento de acordo com o grau de conteúdo tecnológico ...... 192 
Figura XIV.1  Trituração da biomassa, cobertura morta, plantio direto e sistema de  
produção sem uso do fogo e opções de continuidade (sentido horário) ................... 216 
Figura XIV.2  Ações de capacitação e intercâmbio de agricultores ................................................ 218 
Figura XIV.3  Minibibliotecas da Embrapa .................................................................................... 218 
Figura XIV.4  Sistema tradicional de derruba-e-queima e preparo de área sem queima  
do Sistema Tipitamba .............................................................................................. 220 
Figura XIV.5  Implantação de sistemas agroflorestais multiestratos em áreas preparadas  
e cultivo de plantas perenes em áreas preparadas com corte-e-trituração ............... 221 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 11 
 
Prefácio 
Grande impulso para 2030 
Carlo Pereira* 
Em 2015, a ONU propôs aos seus países membros uma nova agenda pelo desenvolvimento sustentável. 
Composta por 17 Objetivos Globais, a Agenda 2030 representa mais do que os desafios do presente, ela 
prevê oportunidades para o futuro. Só podemos atingir a prosperidade econômica se não deixarmos 
ninguém para trás, como pregam os ODS. E quando falamos em avançar sem aceitar retrocessos, 
fazemos referência às dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento, também 
abordadas pela ideia de Big Push para a Sustentabilidade, à qual esta publicação se refere.  
Começando pela dimensão social, entendemos que erradicar a pobreza (ODS 1) e reduzir as 
desigualdades (ODS 10) são objetivos capazes de trazer ganhos econômicos para as empresas através 
da inclusão de quem atualmente se encontra à margem. Como exemplo, a igualdade de gênero (ODS 5) 
tem potencial de injetar US$ 5,8 trilhões na economia global, mas demoraria 257 anos para ser 
efetivada, se continuarmos no ritmo em que estamos. Quem agir primeiro, aproveitará da melhor forma 
as oportunidades da inclusão. 
A dimensão econômica atravessa todos os ODS, mas é tema central de alguns, como o ODS 8  
—Trabalho decente e crescimento econômico (uma declaração de que um não existe sem o outro) e o 
ODS 9, que visa a promoção de uma industrialização inclusiva e sustentável, além do fomento à 
inovação. Já o ODS 12— Consumo e produção responsáveis, abre caminho para a integração sustentável 
entre economia e meio ambiente, de onde tiramos os recursos para a nossa sobrevivência no planeta. 
Alguns pontos de vista ainda defendem ser necessário desconsiderar a dimensão ambiental do 
desenvolvimento, ignorando as oportunidades dela decorrentes. O ODS 15, por exemplo, visa a 
                                                                      
*  Diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 12 
 
preservação da vida na terra, com o combate à desertificação e degradação do solo como metas. 
A preservação da terra permite a viabilidade econômica de empresas produtoras de alimento, que serão 
responsáveis pela subsistência de uma população mundial que chegará a 9.7 bilhões de pessoas em 2050 
(ODS 2 – Fome zero e agricultura sustentável). A sustentabilidade fornece terreno fértil para o 
crescimento econômico. 
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável representam questões atuais com impactos que 
podem ser positivos ou negativos nos próximos anos, a depender da forma como gerimos as soluções. 
A crise climática, por exemplo, não permite hesitações, requer ações ágeis pela prosperidade dos 
negócios, ecossistemas e pela humanidade (ODS 13). Por isso que, em 2020, a reunião do Fórum 
Econômico Mundial colocou as mudanças climáticas como o maior risco da década, à frente de crises 
financeiras. De acordo com o relatório Riscos Globais 2020, lançado pela instituição, o custo da inércia 
será de US$ 1 trilhão para as 200 maiores empresas do mundo. 
A Rede Brasil do Pacto Global é a maior plataforma de promoção dos ODS junto ao setor 
empresarial no país. Em 2019, contamos com o apoio da consultoria Falconi para traçar nosso 
planejamento estratégico para os próximos 10 anos. No processo de pesquisa para construir nossas 
metas, descobrimos que, no ritmo em que o Brasil se encontra, apenas o ODS 7 —Energia limpa e 
acessível, tem indicadores suficientes para ser atingido até 2030. Precisamos fazer mais, e não 
conseguimos evoluir sozinhos. 
Por isso, aplaudimos e apoiamos a iniciativa da Comissão Econômica para a América Latina e o 
Caribe (CEPAL), de reconhecer as iniciativas que estão agindo por um Big Push de Sustentabilidade, que 
corresponde ao tipo de desenvolvimento econômico e socioambiental do qual somos porta-vozes. 
A CEPAL compreende a necessidade de alavancar investimentos nacionais e estrangeiros através da 
coordenação de políticas públicas e privadas para gerar um ciclo de crescimento econômico virtuoso, 
capaz de gerar emprego e renda, reduzir desigualdades e promover a sustentabilidade. Em suma, 
articular diversos atores (ODS 17) em prol do cumprimento da Agenda 2030. 
O Secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou a nossa década de “A Década da Ação”. 
Muitos avanços já foram feitos, mas também alguns retrocessos, em busca de um futuro mais 
sustentável. No entanto, para chegarmos em 2030 com o cumprimento das metas dos ODS, precisamos 
fazer mais, precisamos de um big push. As soluções que necessitamos podem vir do exemplo. Aproveite 
a leitura para inspirar-se na experiência de iniciativas que já estão vivendo o hoje como se fosse 2030. 
 
 
 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 13 
Apresentação 
Alicia Bárcena* 
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas recentemente 
completou 70 anos de existência, marcada por trabalhos seminais, abordagens inovadoras e 
direcionamentos de políticas orientados para o desenvolvimento com sustentabilidade e igualdade. 
Ao longo desse período, o pensamento cepalino renovou-se e atualizou-se à medida que as economias 
da região se transformaram. Ao mesmo tempo, a CEPAL reafirmou a sua abordagem teórica conforme 
as características estruturais do desenvolvimento da região, que foram reproduzidas nessas últimas 
décadas e em muitos casos aprofundadas. 
A CEPAL identifica e analisa, desde o seu nascimento, as profundas brechas estruturais que 
persistem nas economias latino-americanas, tais como assimetrias competitivas e tecnológicas, os 
desafios para convergência com níveis de renda superiores, as ineficiências da desigualdade e as 
implicações da sobre-exploração dos recursos naturais. No campo propositivo, a CEPAL tem apontado 
direções para uma mudança estrutural progressiva, orientada pela visão de que um desenvolvimento 
econômico sustentável depende criticamente de um meio ambiente saudável e de uma sociedade 
construída sobre a base da igualdade. Nos últimos anos, temos nos empenhado para articular uma 
proposta renovada que reflita essa visão, articulada em torno de um grande impulso (big push) para a 
sustentabilidade, para promover a construção de um estilo de desenvolvimento sustentável. 
O Big Push para a Sustentabilidade é uma abordagem que a CEPAL vem desenvolvendo para 
apoiar os países da região na construção de estilos de desenvolvimento mais sustentáveis, baseada na 
coordenação de políticas para promover investimentos sustentáveis, que produzam um ciclo virtuoso 
de crescimento econômico, geração de emprego e renda e redução de desigualdades e lacunas 
estruturais, ao mesmo tempo que mantêm e regeneram a base de recursos naturais da qual o 
desenvolvimento depende. Viemos trabalhando nessa abordagem em um momento oportuno, no qual 
                                                                      
* Secretária-Executiva da CEPAL. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 14 
 
a preocupação com a sustentabilidade ambiental, a igualdade e a retomada da atividade econômica se 
instalou na agenda internacional. Assim, em 2015, 193 países aprovaram a Agenda 2030 e seus 
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que norteiam uma transformação estrutural dos estilos 
de desenvolvimento em suas dimensões social, econômica e ambiental. Em conformidade com a 
Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o Big Push para a Sustentabilidade não deixará 
ninguém para trás e deve servir para a erradicação da fome e da pobreza em todas as suas formas. 
Nesse contexto, tenho o prazer de apresentar esta publicação, intitulada Investimentos 
transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável: Estudos de casos de grande impulso 
(Big Push) para a sustentabilidade no Brasil, que traz estudos de casos concretos que não apenas ilustram 
a viabilidade, mas também nos apresentam as lições aprendidas, as oportunidades e os desafios para 
um Big Push para a Sustentabilidade no Brasil. A publicação é fruto do esforço voluntário dos autores 
dos capítulos, de divers0s setores e áreas de formação, em registrar e dar visibilidade a experiências que 
podem se tornar exemplos a serem replicados, unindo teoria e prática. 
O leitor interessado em exemplos de ações reais que têm sido bem-sucedidas em promover 
investimentos com impactos positivos nas três dimensões do desenvolvimento sustentável (social, 
econômica e ambiental) encontrará na seleção de capítulos reunidos na presente publicação um 
material de grande utilidade. Esta publicação apresenta um panorama das amplas possibilidades para 
a realização de investimentos sustentáveis em diversas escalas (em nível de empresas, de comunidades, 
de municípios, de regiões e nacional), em várias práticas e tecnologias sustentáveis (desde sistemas 
agroflorestais e de produtos da química verde até sistemas de saneamento básico rural e 
desenvolvimento da indústria eólica) e por meio de uma rica pluralidade de medidas, políticas, arranjos 
de governança e fontes de financiamento. Os estudos de casos retratados nesta publicação são luzes 
que podem nos orientar rumo a um futuro sustentável e igualitário. 
O Brasil é o maior país e economia da América do Sul e tem sido objeto de análise da CEPAL 
quanto a suas experiências e políticas sustentáveis que possam contribuir para o desenvolvimento 
regional. Esta publicação vem demonstrar essa atenção da CEPAL para o Brasil, consolidando uma 
relação de cooperação e de estudos conjuntos de várias décadas. 
Sem mais preâmbulos, convido cordialmente o leitor a mergulhar nestas páginas com o fim de 
ampliar sua compreensão sobre as complexidades, os desafios e, fundamentalmente, as possibilidades 
para um Big Push para a Sustentabilidade no Brasil nos contextos atuais da sociedade, da economia e 
do meio ambiente, que claramente exigem um novo estilo de desenvolvimento com igualdade e 
sustentabilidade ambiental.  
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 15 
Introdução 
Carlos Mussi* 
Camila Gramkow** 
Os dias atuais são marcados por uma conjuntura de busca pela recuperação do vigor econômico no 
Brasil e no mundo. Essa recuperação toma contornos complexos, uma vez que, aos aspectos 
conjunturais, se somam os desafios estruturais dos quais depende a própria sustentabilidade da 
atividade econômica no longo prazo, incluindo os limites planetários, a emergência climática e a 
ineficiência da desigualdade. O mundo no qual nos encontramos requer um novo estilo de 
desenvolvimento, em cujo centro estejam a igualdade e a sustentabilidade. É essa a visão desenvolvida 
pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas que define a 
abordagem para apoiar os países da região na construção de estilos de desenvolvimento mais 
sustentáveis, chamada Big Push para a Sustentabilidade. A Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015) orienta e promove essa visão da CEPAL. Essa abordagem 
representa uma coordenação de políticas (públicas e privadas, nacionais e subnacionais, setoriais, 
fiscais, regulatórias, financeiras, de planejamento, etc.) que alavanquem investimentos nacionais e 
estrangeiros para produzir um ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de emprego e renda, 
redução de desigualdades e brechas estruturais e promoção da sustentabilidade ambiental. Assim, os 
volumosos investimentos necessários para a transição para um modelo econômico resiliente, de baixo 
carbono e sustentável são colocados como uma oportunidade de gerar um grande impulso (big push) 
para um novo ciclo de crescimento econômico e de promoção da igualdade, contribuindo para a 
construção de um desenvolvimento mais sustentável, no seu tripé econômico, social e ambiental. 
Os delineamentos conceituais básicos do Big Push para a Sustentabilidade foram desenvolvidos 
pela CEPAL (CEPAL, 2016 e 2018). O elemento chave dessa abordagem são os investimentos, que são 
                                                                      
*  Diretor do Escritório da CEPAL no Brasil. 
**  Oficial de Assuntos Econômicos, Escritório da CEPAL no Brasil. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 16 
 
o principal elo entre o curto e o longo prazo. Os investimentos de hoje explicam a estrutura produtiva 
de amanhã, que por sua vez determina a competitividade, a produtividade e o tipo de inserção no 
comércio internacional. Além disso, ela também determina a capacidade de geração de empregos de 
qualidade com inclusão produtiva e se a atividade econômica será contaminante ou ecológica. 
Atualmente, é mais verdadeiro do que nunca afirmar que as economias que investem pouco tendem a 
se posicionar na periferia do sistema econômico global. Os investimentos são fundamentais para que 
as mudanças profundas e estruturais que já estão em curso, desde a revolução tecnológica 
(transformação digital da economia, bioeconomia, nanotecnologia, etc.) até a transição demográfica, 
tornem-se oportunidade para o desenvolvimento sustentável —e não novos desafios para a 
sobrevivência de nossas economias e sistemas sociopolíticos. Em suma, a qualidade de nosso futuro 
depende crucialmente do tipo de investimento que é realizado hoje. 
Na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, os investimentos devem ser orientados por 
uma tripla eficiência, para que sejam compatíveis com a construção de estilos de desenvolvimento 
sustentáveis. A primeira, é a eficiência schumpeteriana, segundo a qual uma matriz produtiva mais 
integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera externalidades positivas de aprendizagem e 
inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. Estruturas produtivas que permitem acelerar o 
fluxo de informações e de conhecimentos tendem a ser economias mais eficientes, mais inovadoras e 
mais preparadas para se inserir competitivamente em mercados que remuneram melhor os bens e 
serviços produzidos. Essa é uma eficiência muito associada ao lado da oferta, ou seja, das capacidades 
produtivas e tecnológicas instaladas. A segunda eficiência é a keynesiana, que destaca que há ganhos 
de eficiência da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando 
efeitos multiplicadores e impactos positivos na economia e nos empregos. Economias que conseguem 
acessar mercados em expansão podem aumentar sua produção em uma velocidade maior do que 
aumentam seus custos (economias de escala) e, quando opera negócios diversos simultaneamente, 
pode aumentar a eficiência conjunta da produção, com consequente redução de custos e aumento da 
qualidade (economia de escopo). Essa segunda eficiência destaca elementos do lado da demanda que 
se reforçam, criando um círculo virtuoso de competitividade, inovação e produtividade. A eficiência 
keynesiana está muito relacionada com a eficiência schumpeteriana, uma vez que os mercados que 
mais crescem tendem a ser aqueles com maior dinamismo tecnológico e de inovação. Somadas, as 
eficiências schumpeteriana e keynesiana criam as condições para uma inserção competitiva favorável. 
Contudo, é necessária a terceira eficiência para garantir a sustentabilidade de longo prazo, que é a 
eficiência da sustentabilidade, a qual se relaciona com a clássica eficiência no tripé econômico, social e 
ambiental. Essa eficiência destaca que os investimentos devem ser economicamente viáveis, o que 
requer pensar sobre fontes de financiamento e origem dos recursos. No âmbito social, além de justiça 
social e promoção da igualdade, na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, também é 
necessário um sistema seguro e justo de arbitragem de conflitos, que não deixe ninguém para trás. O 
eixo ambiental da eficiência da sustentabilidade reforça que os investimentos sustentáveis devem 
diminuir a pegada ambiental e os impactos ambientais, ao mesmo tempo em que recupera a capacidade 
produtiva do capital natural. Juntas, as eficiência schumpeteriana, keynesiana e da sustentabilidade 
tornam-se pilares para a construção de estilos de desenvolvimento sustentáveis. 
Na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, a coordenação de políticas em torno da tripla 
eficiência é chave para destravar investimentos nacionais e estrangeiros, não apenas em práticas, 
tecnologias, cadeias de valor e infraestrutura sustentáveis, mas também em capacidades tecnológicas 
e educação para equipar a força de trabalho com as habilidades necessárias para o futuro. 
A coordenação é simultaneamente o desafio crítico e a principal oportunidade do Big Push para a 
Sustentabilidade. Se uma ampla gama de políticas (públicas e corporativas, nacionais e subnacionais, 
setoriais, tributárias, regulatórias, fiscais, financeiras, de planejamento, etc.) estiver alinhada e coesa 
com os pilares de um novo estilo de desenvolvimento, um ambiente favorável para mobilizar os 
investimentos necessários será estabelecido, ancorado em incertezas reduzidas, sinais de preços 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 17 
 
corrigidos e um mix de políticas adequado. O consequente aumento dos investimentos sustentáveis 
leva, então, a um ciclo virtuoso de crescimento econômico, criação de empregos, desenvolvimento de 
cadeias produtivas, redução da pegada ambiental e impactos ambientais, ao mesmo tempo em que 
recupera a capacidade produtiva do capital natural. 
A CEPAL iniciou uma discussão sobre as oportunidades e os desafios para um Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil (CEPAL/FES, 2019). Dentre as oportunidades, destaca-se o grande potencial 
para os investimentos de baixo carbono no país, na ordem de US$ 1,3 trilhões até 2030 em setores tais 
como infraestrutura urbana (mobilidade, edificações, resíduos etc.), energias renováveis e indústria 
(IFC, 2016). Foram ressaltados também, os ganhos competitivos das firmas no Brasil que já investem 
em tecnologias sustentáveis (em termos de redução de custos, aumento de qualidade, aumento de 
market share, acesso a novos mercados etc.), a maior facilidade de acesso a financiamento para 
empresas que possuem uma governança ambiental e social e a existência de uma ampla base de 
capacidades produtivas e tecnológicas voltadas à sustentabilidade. Outro ponto identificado foi o 
oportuno momento atual, no qual se está discutindo caminhos para a recuperação da economia 
brasileira. Esse contexto pode ser uma oportunidade para o país direcionar esforços para acelerar os 
investimentos sustentáveis. A questão da coordenação é fundamental nessa discussão, já que foi 
identificado um potencial muito grande de destravar investimentos sustentáveis no país por meio de 
um esforço robusto e detalhado de coordenação de políticas, que remova sinais contraditórios e 
barreiras. Contudo, há também desafios para o Brasil, que incluem custos relativos ao carbon lock-in 
(relacionados à transição de paradigma tecnológico, especialmente nos setores mais poluentes), 
reduzido espaço fiscal para formulação de novas políticas —particularmente no contexto da Emenda 
Constitucional 95/2016— e o contexto federativo do país, que impõe necessidade de ampla 
coordenação entre os entes federativos. 
Buscando aterrissar os delineamentos conceituais da abordagem do Big Push para a 
Sustentabilidade no mundo real, a CEPAL realizou uma Chamada Aberta de Estudos de Casos de 
Investimentos para o Desenvolvimento Sustentável no Brasil, que contou com a parceria institucional 
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas, 
bem como com o apoio da Agência de Cooperação Alemã (Gesellschaft für Internationale 
Zusammenarbeit – GIZ) e da Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES). A chamada, lançada em 8 de abril 
de 2019 na ocasião do lançamento do Relatório sobre Oportunidades e Desafios para o Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil (CEPAL/FES, 2019) no Insper em São Paulo, convidou pesquisadores, 
profissionais do setor privado, empresários, representantes da sociedade civil, formuladores de políticas 
públicas e servidores públicos a enviar estudos de casos sobre investimentos com impacto para o 
desenvolvimento sustentável no Brasil, em linha com o Big Push para a Sustentabilidade. Encerrada em 
16 de agosto de 2019, foram recebidos um total de 131 estudos de casos. Houve uma grande diversidade 
de setores, pluralidade de atores, heterogeneidade de regiões e variedade de iniciativas entre os 
estudos enviados. Quanto aos setores, a maior parte dos casos é relacionada à Infraestrutura (30% do 
total de estudos), seguida por Agropecuária e Uso do Solo (28%), Indústria (13%), Reciclagem e 
Resíduos (11%) e outros. Sobre os tipos de iniciativas analisadas nos casos, nota-se que as principais 
foram relacionadas a políticas públicas (26% do total de estudos) e políticas corporativas (19%), 
seguidas por políticas de cooperação internacional (5%), medidas implementadas pelo Sistema S (2%) 
e combinações. Em termos de cobertura geográfica, a maior parte dos casos concentrou-se no nível 
nacional (28%), sendo que também houve estudos focados em áreas das regiões Sudeste (20%), 
Nordeste (17%), Sul (13%), Norte (12%), Centro-Oeste (8%) e combinações dessas. 
A partir dos 131 estudos de casos recebidos, um Comitê de Avaliação, formado por especialistas 
em desenvolvimento sustentável do IPEA, do Governo Federal Brasileiro e da CEPAL, analisou os casos 
enviados. Desses, 66 estudos foram considerados elegíveis como casos de Big Push para a 
Sustentabilidade, sendo que o principal critério de elegibilidade foi que os estudos de caso 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 18 
 
conseguissem reportar pelo menos um indicador de cada dimensão do desenvolvimento sustentável 
(econômico, social e ambiental), conforme estabelecido nas Regras da Chamada (CEPAL, 2019). Todos 
os 66 casos elegíveis estão disponíveis no “Repositório de casos sobre o Big Push para a Sustentabilidade 
no Brasil”, hospedado pela CEPAL (CEPAL, 2020). O repositório tem como objetivo dar visibilidade e 
oportunidade de showcase às experiências e iniciativas que geraram resultados concretos em direção à 
sustentabilidade do desenvolvimento. A partir delas, ficarão mais claros as oportunidades e os desafios 
para um Big Push para a Sustentabilidade no país.  
O Comitê de Avaliação também selecionou os estudos de casos mais transformadores rumo ao 
Big Push para a Sustentabilidade no Brasil e são esses estudos selecionados que compõem os 
15 capítulos da presente publicação. Os critérios para a seleção dos casos mais transformadores foram 
a quantidade dos indicadores reportados nas três dimensões (social, econômica e ambiental) e a análise 
dos vínculos do caso estudado com o Big Push para a Sustentabilidade e a Agenda 2030 para o 
Desenvolvimento Sustentável, além de buscar representar a heterogeneidade e pluralidade de desafios 
e soluções para o Big Push para a Sustentabilidade no Brasil. 
No primeiro capítulo, Alex Maia do Nascimento e coautores, todos funcionários da Companhia 
Siderúrgica do Pecém (CSP) relatam o caso do maior projeto de investimento privado realizado na 
história do Estado do Ceará, com valor superior a US$ 5 bilhões, que foi o estabelecimento da CSP. 
O caso da CSP ilustra como investimentos em uma siderúrgica moderna e integrada vem contribuindo 
para a construção de um estilo de desenvolvimento sustentável localmente, por meio de adoção de 
tecnologias sustentáveis de ponta, recuperação florestal, capacitação de pessoas, geração de 
empregos, agregação de valor às exportações do país, etc. O segundo capítulo, de autoria de Leonardo 
Bichara Rocha (Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura – FIDA), Thiago César Farias 
da Silva (Procase, Paraíba) e Donivaldo Martins (FIDA), apresenta o caso do Projeto de Desenvolvimento 
Sustentável do Cariri, Seridó e Curimataú (Procase), apoiado pelo FIDA e pelo Estado da Paraíba. 
O estudo do Procase evidencia como investimentos no combate à desertificação do sistema Caatinga, 
por exemplo, em poços, barragens, dessalinizadores e sistemas agroflorestais (SAFs), podem contribuir 
para redução da pobreza, segurança hídrica e alimentar, redução de custos, geração de renda, 
diversificação produtiva etc. 
No Capítulo III, assinado por Cairo Guilherme Milhomem Bastos, Fernando Esteban do Valle e 
Tatiana Ribeiro Souza Brito, da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), relatam o caso de iniciativas 
realizadas na Terra Indígena Kanamari do Rio Juruá, Sudoeste Amazônico. O estudo exemplifica que 
investimentos de baixo montante, por exemplo, da ordem de R$ 9 mil para construção de casas de 
farinha, podem estimular a reprodução do sistema agrícola indígena e reafirmar os saberes desses 
povos como uma capacidade tecnológica que agrega valor à farinha produzida nas aldeias e a diferencia 
das demais. O caso ressalta a importância dos saberes e tradições indígenas, da valorização do papel da 
mulher e da atuação de forma colaborativa para se pensar em soluções de desenvolvimento sustentável 
adaptadas ao contexto amazônico. O Capítulo IV, de autoria de Adriana Mello, Jorge Soto e José 
Augusto Viveiro, todos da Braskem, ilustra o potencial da química verde do futuro, a partir do estudo de 
caso do desenvolvimento do Polietileno Verde (PE Verde) pela Braskem. Esse caso exemplifica como a 
indústria química pode se tornar uma indústria sustentável, inclusiva e competitiva a partir do potencial 
transformativo da produção de polímeros de fontes renováveis, que são abundantes no país. O estudo 
evidencia a importância de uma trajetória consistente de investimentos em tecnologia e inovação, do 
processo de aprendizado e do compromisso de longo prazo da empresa com a sustentabilidade. 
No Capítulo V, Erika de Paula P. Pinto e coautores, todos do Instituto de Pesquisa Ambiental da 
Amazônia (IPAM), apresentam o estudo de caso do projeto Assentamentos Sustentáveis da Amazônia, 
apoiado pelo Fundo Amazônia, que traz um exemplo de como podem ser realizados investimentos para 
a promoção de territórios rurais sustentáveis na região. O caso ilustra a importância de uma estratégia 
coordenada de ações (de assistência técnica e extensão rural a incentivos econômicos) a partir de uma 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 19 
 
abordagem integrada de conservação e produção em territórios rurais ocupados pela agricultura 
familiar para a construção de estilos de desenvolvimento sustentáveis, sem promover a derrubada de 
novas áreas de floresta. O Capítulo VI, assinado por Mateus Cunha Mayer (Instituto Nacional do 
Semiárido – INSA), Rodrigo de Andrade Barbosa (INSA), George Rodrigues Lambais (INSA), Salomão 
de Sousa Medeiros (INSA), Adrianus Cornelius Van Haandel (Universidade Federal de Campina Grande) 
e Silvânia Lucas dos Santos (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), traz o estudo de caso do 
desenvolvimento de uma tecnologia de saneamento básico rural familiar, originalmente desenhada 
para o Seminário brasileiro. O caso trata de um sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar 
de fácil instalação e custo acessível que poderia alavancar a universalização do saneamento rural no 
Brasil, com benefícios diretos sobre a produção agrícola e indiretos sobre geração de renda, redução de 
pobreza e segurança alimentar. 
O Capítulo VII, de autoria de Airton José Morganti Júnior (Consórcio Machadinho), José Lourival 
Magri (ENGIE Brasil Energia) e Selia Regina Felizari (Associação de Produtores de Erva-Mate de 
Machadinho – Apromate), apresenta o desenvolvimento e os resultados de um novo sistema produtivo 
da erva-mate no Estado do Rio Grande do Sul, que culminou na Cambona 4, uma variedade obtida a 
partir de melhoramento genético. Combinado com sistemas agroflorestais (SAFs), esse novo sistema 
produtivo restaurou e protegeu dezenas de nascentes, implantou sumidouros de carbono com 
reflorestamento e gerou aumento de renda para as famílias envolvidas no SAF, enquanto promoveu a 
industrialização na cadeia de valor e a maior rentabilidade da erva-mate. No Capítulo VIII, José Lourival 
Magri e Mario Wilson Cusatis, ambos da ENGIE Brasil Energia, estudam o caso da Unidade de Cogeração 
Lages (UCLA) em Santa Catarina a partir da ótica da economia circular. Esse caso ilustra como resíduos 
do setor madeireiro podem ser aproveitados para fins energéticos na UCLA e como as cinzas da 
biomassa da madeira geradas na UCLA podem ser aproveitadas para aumentar a produtividade e 
reduzir custos na agricultura, gerando redução de emissões de gases do efeito estufa que podem ser 
compensadas sob o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Trata-se de um exemplo de como a 
economia circular pode gerar oportunidades para o desenvolvimento social, econômico e ambiental. 
No Capítulo IX, Rogério Atem de Carvalho (Polo de Inovação Campos dos Goytacazes) estuda o 
caso do modelo de ação do Polo de Inovação Campos dos Goytacazes (PICG), do Instituto Federal 
Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro. O caso ilustra um modelo capaz de coordenar e articular 
diversos atores (comunidade, pesquisadores de diferentes áreas de especialidade, setor produtivo, 
governos em vários níveis etc.) e tipos de financiamento (público e privado) para realização de 
investimentos em uma variedade de ações (projetos de PDI, parcerias, educação e capacitação, ações 
para gestão e operação do campus, dentre outras), que têm contribuído para um estilo de 
desenvolvimento sustentável. O Capítulo X, assinado por Vitor Leal Santana e Lilian dos Santos Rahal, 
ambos do Ministério da Cidadania, apresenta o caso do Programa Cisternas, que foca na construção de 
cisternas para captação e abastecimento de água para consumo humano e animal sob uma ótica de 
convivência com o Semiárido e respeito aos saberes e à cultura locais. O estudo exemplifica como 
investimentos, que somam mais de R$ 3,6 bilhões e beneficiaram mais de um milhão de famílias, em 
tecnologias sociais podem garantir o acesso à água no meio rural em regiões sujeitas à escassez hídrica, 
contribuindo para o enfrentamento da pobreza, a melhoria da saúde e da segurança alimentar e a 
estruturação de cadeias produtivas ambiental e socioeconomicamente sustentáveis. 
O Capítulo XI, assinado por Sarita Severien, Tathiane Sarcinelli e Yugo Matsuda, todos da 
Suzano, descreve como uma empresa que é líder mundial na produção de celulose de eucalipto vem 
estruturando uma estratégia de conservação da biodiversidade e de restauração ambiental, com foco 
em seu Programa de Restauração Ambiental. O estudo discorre sobre o desenvolvimento e o 
aprimoramento das ações da empresa em restauração ambiental e sobre como investir nessas ações 
faz sentido economicamente, já que seu core business depende criticamente de um capital natural 
saudável para alcançar seus altos índices de produtividade e mantê-los no longo prazo. O Capítulo XII, 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 20 
 
de autoria de Britta Rennkamp (African Climate and Development Initiative, University of Cape Town), 
Fernanda Fortes Westin (Programa de Planejamento Energético, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-
Graduação e Pesquisa de Engenharia, Universidade Federal do Rio de Janeiro – PPE/COPPE/UFRJ) e 
Carolina Grottera (PPE/COPPE/UFRJ), apresenta o caso do vigoroso desenvolvimento da indústria de 
energia eólica no Brasil, com foco especial em Requisitos de Conteúdo Local (RCL). O estudo ilustra 
como a coordenação de diferentes políticas (tarifas feed-in, leilões, financiamento condicionado aos 
RCL através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, dentre outras) 
contribuiu para mobilizar investimentos para a construção de capacidades tecnológicas nacionais e para 
a expansão da energia eólica no país. 
No Capítulo XIII, Eliane Oliveira Moreira e Jucilaine Neves Sousa Wivaldo discorrem sobre como 
demandas sociais locais e construídas por diferentes atores, como organizações sociais, setor público e 
universidades, podem gerar um grande impulso ao desenvolvimento local, a partir do estudo de caso da 
Associação de Catadores e Materiais Recicláveis (ACAMAR), no município de Lavras, Estado de Minas 
Gerais. O caso exemplifica a contribuição da dinâmica diferenciada da economia solidária, somada a 
investimentos de pequeno porte, para um melhor gerenciamento de resíduos sólicos e para a economia 
circular com geração de renda e empregos, melhoria das condições de trabalho, redução das brechas 
de gênero, dentre outros. O Capítulo XIV, assinado por Osvaldo Ryohei Kato e coautores, todos da 
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), trata do estudo de caso do Sistema Tipitamba, 
que é uma tecnologia de corte-e-trituração desenvolvida pela Embrapa Amazônia Oriental que pode 
substituir o sistema de derruba-e-queima tradicionalmente praticado na agricultura familiar na 
Amazônia. O estudo de caso do Sistema Tipitamba, baseado no manejo sustentável da capoeira como 
uma alternativa para recuperar áreas alteradas e antropizadas, evitar queimadas, expansão da fronteira 
agrícola e aumentar a fonte de renda do agricultor, ilustra como investimentos em pesquisa e 
desenvolvimento podem contribuir para soluções sustentáveis para a agricultura familiar na região. 
Por último, e não menos importante, o Capítulo XV, desenvolvido pela Natura, discute a evolução 
da relação da empresa de cosméticos Natura S.A. com o desenvolvimento sustentável da região 
amazônica, tendo como base a sociobiodiversidade para composição dos produtos da companhia e 
estruturação de programas que contribuem para o manejo sustentável da floresta em pé. Esse estudo 
de caso ilustra como uma empresa pode fazer da sustentabilidade seu modelo de negócios, agregando 
valor ao vasto capital natural do país de forma competitiva domesticamente e nos mercados globais. 
Os investimentos retratados nos diferentes capítulos da presente publicação são exemplos de 
transformações na economia em direção a um novo estilo de desenvolvimento sustentável. Essa 
publicação tem o objetivo de promover o debate de estilos de desenvolvimento, a partir das demandas 
e capacidades de todos, nos adequando às possibilidades do planeta e nos desafiando na construção de 
uma sociedade mais justa e próspera. 
 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 21 
 
Bibliografia 
CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) (2020), “Repositório de casos sobre o Big 
Push para a Sustentabilidade no Brasil” [repositório online], Santiago, abril https://biblioguias.cepal. 
org/bigpushparaasustentabilidade [data de consulta: 28 de fevereiro de 2020]. 
 (2019), “Regras da Chamada Aberta de Estudos de Casos sobre o ‘Big Push para a Sustentabilidade no 
Brasil’” [online], Brasília, abril https://www.cepal.org/sites/default/files/events/files/regras.pdf [data 
de consulta: 8 de abril de 2019]. 
 (2018), La ineficiencia de la desigualdad (LC/SES.37/4), Santiago, Chile, Publicação das Nações Unidas, 
Nº de venda: S.18-00303. 
 (2016), Horizontes 2030: A igualdade no centro do desenvolvimento sustentável (LC/G.2660/SES.36/3), 
Santiago, Chile, Publicação das Nações Unidas, Nº de venda: S.16-00753. 
CEPAL/FES (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe)/(Fundação Friedrich Ebert Stiftung) 
(2019), “Big Push Ambiental: Investimentos coordenados para um estilo de desenvolvimento 
sustentável”, Perspectivas, Nº 20, (LC/BRS/TS.2019/1 e LC/TS.2019/14), São Paulo. 
IFC (International Financial Corporation) (2016), Climate investment opportunities in emerging markets: an IFC 
analysis, Washington, DC. 
ONU (Organização das Nações Unidas) (2015), Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o 
Desenvolvimento Sustentável (A/ RES/70/1), Nova Iorque, Publicação das Nações Unidas. 
 
 

CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 23 
I. Companhia Siderúrgica do Pecém: o Big Push  
industrial do Estado do Ceará 
Alex Maia do Nascimento*  
Claudio Renato Chaves Bastos*  
Cristiane Peres*  
Emanuela Sousa de França*  
Italo Barreira Ribeiro*  
Leonardo Roger Silva Veloso*  
Livia Bizarria Prata*  
Marcelo Monteiro Baltazar*  
Ramyro Batista Araujo*  
Ricardo Santana Parente Soares*  
Rodrigo Santos Almeida*  
Vanilson da Silva Benica* 
Resumo 
O trabalho apresenta o case da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), maior investimento privado 
realizado em toda história do Estado do Ceará, com valor superior a 5 bilhões de dólares. Trata-se de um 
verdadeiro Big Push que vem transformando os indicadores do Ceará. Em 3 anos de operação já representa 
mais de 60% do volume de cargas do Porto do Pecém, com a exportação de placas de aço de alta qualidade, 
promovendo incremento superior a um bilhão de dólares por ano. A CSP conta em seu quadro com cerca de 
70% de profissionais naturais do Ceará e tem conduzido seus processos sob rigorosos controles ambientais, 
executando o seu papel social através da promoção de um desenvolvimento sustentável para a região. Com 
essa responsabilidade no seu DNA, a CSP se firma como um Big Push Sustentável em sentido lato, sendo 
economicamente viável, ecologicamente correta e socialmente justa. 
                                                                      
*  Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 24 
 
A. Introdução 
A Companhia Siderúrgica do Pecém consiste em um grande sonho cearense de muitas décadas, e 
caracterizou-se como o maior investimento da história do Estado, um verdadeiro empreendimento com 
potencial de promover grandes mudanças ao futuro do Ceará. Trata-se de um projeto com a viabilidade 
através da participação conjunta dos atores públicos e privados em favor de um novo estilo de 
desenvolvimento construído por meio de uma plataforma política que vai além de ciclos eleitorais. 
Maior projeto estruturante do Ceará, a CSP foi constituída no dia 16 de abril de 2008. A data 
sinaliza o início de uma jornada e um marco no desenvolvimento socioeconômico regional. Uma história 
que começara há 30 anos, quando os governos federal, estadual e municipal, passaram a investir na 
infraestrutura necessária para atrair a São Gonçalo do Amarante (SGA) um empreendimento de grande 
porte como a siderúrgica. 
Foi no dia 22 de dezembro de 1995 que o decreto da Assembleia Legislativa do Ceará, sancionado 
pela Lei n.º 12.536 /95, criou o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP SA) responsável pela 
administração do Terminal Portuário e por impulsionar o desenvolvimento econômico do Ceará, além 
de implantar de forma pioneira uma cultura industrial nessa região cuja economia até então restringia-
se às atividades de pesca e agricultura (GOVCE, 2015).  
O CIPP iniciou as operações comerciais em novembro de 2001 e foi inaugurado em março de 
2002. Possui uma área de 13.337 hectares, situada nos municípios de Caucaia (53,25%) e SGA (46,75%), 
distante 60 km da capital Fortaleza. Ocupa posição geográfica estratégica em relação aos principais 
mercados mundiais, como os da Europa e dos Estados Unidos, e aos que se apresentam em boas 
perspectivas de crescimento, como o da África (figura I.1).  
 
Figura I.1 
Posição geográfica estratégica do CIPP em relação a Europa, Estados Unidos e África 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 25 
 
O Porto do Pecém funciona 365 dias do ano e movimenta aproximadamente 18 milhões de 
toneladas de matérias-primas siderúrgicas, produtos industrializados acabados, placas de aço, 
fertilizantes, cereais, além de sua grande especialidade na exportação de frutas (Ceará Portos, 2020). É 
pelo Porto que a CSP recebe seus principais insumos, por meio das correias transportadoras, e destina 
suas placas de aço para todo o mundo (figuras I.2 e I.3). 
 
Figura I.2 
Correia transportadora enclausurada responsável pelo transporte das principais matérias-primas  
do Porto para CSP e placas da CSP no Porto do Pecém 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
O CSP é uma verdadeira âncora para desensenvolvimento do Estado do Ceará, a partir da ideia 
de P. Rosenstein-Rodan de que é necessário um conjunto substancial de investimentos 
complementares —que dê um grande impulso (Big Push)— para permitir um salto definitivo de 
desenvolvimento (Rosenstein-Rodan, 1961). O investimento na CSP criou novas demandas por 
investimento em outros setores que são complementares ao setor de aço e o exportador. A iniciativa 
também cria novos padrões de desenvolvimento, em que há investimentos em educação e a inovação, 
junto com iniciativas inovadoras de mitigação de impacto ambiental. A CSP é uma iniciativa, onde pode-
se obeservar as eficiências keynesiana, schumpeteriana e da sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). 
Juntos, CIPP e CSP impulsionaram a instalação de grandes e estratégicos empreendimentos, 
incrementando a economia da região. Atualmente, o Complexo congrega 63 empresas, totalizando 
investimentos na ordem de R$ 28,5 bilhões, gerando aproximadamente 50,8 mil empregos diretos 
e indiretos. 
A CSP impulsionou também a instalação e operação, de forma pioneira no Brasil, de uma Zona 
de Processamento de Exportação (ZPE), uma área de livre comércio, cujas empresas nelas instaladas se 
comprometem a exportar, no mínimo, 80% de seu faturamento, conforme legislação atual vigente. A 
ZPE Ceará (Figura I.3), também situada no CIPP, foi criada no dia 16 de junho de 2010, compreendendo 
6.182 hectares, onde estão instaladas atualmente outras três empresas: Vale Pecém, Praxair White 
Martins e Phoenix Pecém, todas responsáveis por prestações de serviços à siderúrgica. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 26 
 
Figura I.3 
ZPE Ceará 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
B. O projeto sustentável da Companhia Siderúrgica do Pecém 
Desde a concepção do projeto CSP, buscou-se o que há de mais avançado no mundo no que diz respeito 
à sustentabilidade de uma siderúrgica, priorizando o equilíbrio entre a produção e os aspectos sociais e 
ambientais. Parte desse resultado é fruto da sinergia dos seus acionistas com elementos essenciais que 
somam, agregam e se completam.  
A CSP é uma joint-venture formada pela brasileira Vale (50%) e pelas sul-coreanas Dongkuk (30%) 
e Posco (20%). A Vale é uma das maiores mineradoras do mundo, garantindo o fornecimento de minério 
de ferro de alta qualidade, cuja origem são as minas de Carajás no Pará e do Sudeste do Brasil. 
A Dongkuk é um dos maiores grupos siderúrgicos sul-coreanos e o principal comprador de placas de aço 
no mundo, com capacidade de produzir laminados avançados e um dos maiores fornecedores dos 
estaleiros da Coréia do Sul. A Posco é a quarta maior siderúrgica do mundo e a número um da Coréia. 
Produz mais de 42 milhões de toneladas de aço por ano, sendo referência mundial em tecnologia na 
produção de aço e detentora dos melhores indicadores de desempenho siderúrgico.  
Com investimento superior a 5 bilhões de dólares, a CSP é a primeira usina integrada no Nordeste 
e a trigésima instalada no Brasil. Tem capacidade nominal para produção de 3 milhões de toneladas de 
placas de aço por ano, em um layout já preparado para dobrar essa produção (figura I.4). Seu produto 
de alta qualidade é voltado para a indústria naval, óleo e gás, automotiva e construção civil.  
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 27 
 
Figura I.4 
Vista superior CSP 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
A CSP vem construindo uma trajetória de mudança estrutural progressiva ao seu redor, por meio 
de um processo de transformação produtiva caracterizado por irradiar uma mudança no perfil social, 
econômico e ambiental do Ceará. Dessa forma, permite uma expansão doméstica e internacional no 
mercado siderúrgico, somando-se à obtenção de ganhos de escala e escopo que aceleram a economia 
e multiplicam empregos na região com uma eficiência ambiental referência em termos mundiais. Essas 
características estão fortemente associadas ao conceito de Big Push para Sustentabilidade, traduzido 
para a região da América Latina e do Caribe por meio da Comissão Econômica para a América Latina e 
o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas (CEPAL/FES, 2019). 
C. CSP – A sinergia cultural Brasil-Coréia do Sul 
A CSP foi erguida com equipamentos, tecnologia e experiência trazidas da Coreia do Sul. A junção entre 
a brasileira Vale e as sul-coreanas Dongkuk e Posco tem gerado ao Brasil e, principalmente ao Ceará, 
mais do que ganhos econômicos. É uma nova cultura que se somou a tantas outras já existentes no País. 
São diferentes idiomas, hábitos e jeitos de fazer negócio que se uniram para a implantação da CSP. 
Hoje, conforme dados do Governo Federal, a Coreia do Sul é o segundo maior parceiro comercial do 
Brasil na Ásia, enquanto os brasileiros são os maiores parceiros comerciais dos sul-coreanos na América 
Latina (MRE, 2019). 
“Por sua dimensão e importância, a CSP tornou-se um símbolo na relação de cooperação 
entre os governos da Coreia e do Brasil. Trata-se de um projeto que se traduz na criação 
de milhares de empregos, desenvolvimento regional e crescimento econômico estadual 
em níveis não imaginados antes de seu estabelecimento. Em outras palavras, a CSP se 
tornará uma fonte inesgotável de prosperidade e crescimento econômico sustentável para 
o Estado do Ceará. O projeto CSP tem um significado muito especial. Acredito que se 
tornará um modelo de sucesso na cooperação entre a Coréia do Sul e o Brasil. Da mesma 
forma que a construção da Posco, transformou uma pequena cidade de pescadores em um 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 28 
 
polo siderúrgico mundial, também a construção da CSP será a base para a contínua 
prosperidade econômica da região do Pecém e do estado do Ceará”, segundo Bon-woo 
Koo, embaixador da Coréia do Sul no Brasil de setembro de 2012 a abril de 2014. 
Além dos hábitos e costumes que são trocados no dia a dia entre brasileiros e coreanos, 
empregados da CSP têm tido, ao longo desses anos, a oportunidade de ir até ao país oriental para 
conhecer usinas similares e aprender mais sobre a tecnologia, assim como coreanos estão vindo ao 
Ceará compartilhar conhecimentos. Um intercâmbio cultural e tecnológico que vem promovendo no 
Estado um jeito realmente sustentável de produzir aço. 
O advento da siderurgia na Coreia é uma história de convicção do General Park Chung Hee, que 
governou o país entre 1961 e 1979 e que via a autonomia na produção do aço como o melhor caminho 
para o desenvolvimento nacional. “Aço é poder nacional”, afirmou, quando da celebração do décimo 
aniversário da siderúrgica estatal Posco (Kim e Vogel, 2011). A produção de aço foi considerada central, 
já que sem uma fonte estável de aço de qualidade, a Coreia do Sul não poderia diversificar para outras 
indústrias essenciais (Hong, Lee e Yang, 2016).  
Há 50 anos, a Coreia do Sul era um país arrasado pela pobreza. No ranking global de 
desenvolvimento, o Brasil aparecia na frente: a renda anual dos brasileiros era duas vezes maior que a 
dos coreanos. O crescimento econômico coreano ocorreu, em parte, por uma série de investimentos 
coordenados com uma cooperação da inciativa privada e Estado. A Coreia atualmente tem indicadores 
econômicos e sociais similares àqueles de países desenvolvidos. Além disso, a Coréia do Sul tornou-se 
o primeiro e único país do mundo a desenhar e operacionalizar o “crescimento verde” como uma 
estratégia de desenvolvimento de longo prazo em nível nacional (isto é, a Estratégia Nacional de 
Crescimento Verde 2009-2050), apoiada por leis explícitas, instituições e metas abrangentes de curto e 
longo prazo (GGGI, 2015). 
É com essa visão de desenvolvimento sustentável, defasados 40 anos, devido à similaridade 
histórica entre a CSP (2008) e a Posco (1968) que o Ceará sonha através do Big Push CSP tornar-se uma 
“mini-Coréia” por meio da construção da primeira planta integrada de aço do Nordeste brasileiro, região 
conhecida historicamente pelo seu baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), característica 
extremamente similar ao papel desempenhado pela pioneira Posco em relação ao desenvolvimento da 
Coréia do Sul.  
D. O Big Push industrial CSP – antes da operação 
A CSP consiste em um Big Push industrial de sucesso do Ceará desde a sua construção, realizada em 
48 meses. Erguida em sua maioria por cearenses, o empreendimento é um orgulho para todos os 
envolvidos, desde a cravação da primeira estaca —em 2012— até a produção da primeira placa de aço 
—em 2016. A empresa está entre os projetos com melhores indicadores de sucesso de implantação do 
mundo (figura I.5). Em projetos dessa magnitude a média de aumento de custo é da ordem de 80% 
superior ao valor original (CSP não excedeu o CAPEX) e a média de desvio de cronograma é de 20 meses 
(CSP apresentou atraso de 6 meses). 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 29 
 
Figura I.5 
A CSP encontra-se entre os projetos com melhores indicadores de implantação do mundo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Companha Siderúrgica do Pecém com base em McKinseyCompany, “Imagining construction’s digital future” [online], Capital 
projects and infrastructure, McKinsey Productivity Sciences Center, junho https://www.mckinsey.com/industries/capital-projects-and-
infrastructure/our-insights/imagining-constructions-digital-future [data de consulta: janeiro de 2020], 2016.; e IHS Herold Global Projects 
Database [base de dados], herold.com, 19 de novembro, 2013. 
 
A área onde hoje está erguida a CSP é parte da Caatinga, bioma encontrado apenas no Brasil, 
especialmente no Nordeste (Souza, Artigas e Lima, 2015). Para preservar este bioma, foram criadas 
duas grandes linhas de ação: o Plano de Resgate e Salvamento da Fauna, em parceria com a empresa 
local Verde Vida, e o Programa de Resgate e Monitoramento da Flora Nativa, com o Parque Botânico 
do Ceará. Detalhes deste trabalho foram publicados no livro “Fazendo o certo, certo, da maneira certa”. 
O processo de recuperação florestal foi tão marcante, que a CSP se tornou a 1ª empresa do Ceará a 
receber do órgão ambiental o certificado de reposição florestal, atestando o pleno atendimento aos 
requisitos legais e sustentáveis neste processo (figuras I.6 e I.7). 
 
Figura I.6 
 Sementes coletadas e mudas de plantas nativas 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 30 
 
Figura I.7 
Plantio de mudas e livro publicado pela CSP 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
As tecnologias adotadas pela CSP são consideradas o “estado da arte” no mundo, tanto para a 
produção do aço quanto para a preservação ambiental. Cerca de R$ 1 bilhão foi destinado à aquisição e 
instalação de equipamentos com a mais alta tecnologia na prevenção de impactos ambientais e diversas 
ações foram realizadas desde a concepção do projeto (tabela I.1). 
 
Tabela I.1 
Compromissos Ambientais CSP 
Investimento na aquisição de equipamentos e processos voltados à 
preservação do meio ambiente 
R$ 1 bilhão 
Compromisso de emissões atmosféricas abaixo das estabelecidas na 
legislação ambiental brasileira 
50% menores 
Reaproveitamento de resíduos sólidos - Reciclagem 99% 
Geração de energia elétrica 100% própria 
Resquícios arqueológicos catalogados durante a fase de supressão vegetal 26 
Espécie de flora preservadas 90 
Recuperação de 412 hectares com mudas de espécies nativas, produzidas a 
partir de sementes coletadas na CSP 
320 mil mudas 
Sementes coletadas  640 mil (43 espécies) 
Preservação da Biodiversidade Financiamento do 1º Banco de Sementes 
Florestais Nativas do Estado do Ceará 
Espécie de fauna preservadas 89 
Animais resgatados 6.424 
Reaproveitamento da água usada pela CSP 98% 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
Durante a fase de construção foi desenvolvido Sistema de Gestão Integrado, tendo como 
premissa os requisitos da ISO 14001 para a gestão ambiental e referências da NBR 16001 para gestão da 
responsabilidade social. Com ele foi possível identificar, avaliar, monitorar e gerenciar os aspectos e 
impactos ambientais, formatando e propagando os controles operacionais necessários para garantir o 
desempenho ambiental da obra em níveis de excelência. Importante dizer que toda a construção da CSP 
transcorreu sem qualquer embargo ambiental ou social. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 31 
 
Os recursos hídricos foram tratados com muita sensibilidade, por se tratar de um recurso vital, 
tanto para as pessoas da região quanto para a CSP. Foram criadas várias ações estratégicas, incluindo 
programas de controle e monitoramento permanentes, com metas além das requeridas pela legislação. 
O processo de produção foi concebido e construído para obter uso eficiente da água, que é tratada, 
permitindo sua recirculação (circuito fechado), de forma a gerar o consumo mais racional possível, além 
da construção de modernas estações de tratamento de efluentes e canaletas para captação de água 
durante quadra chuvosa do estadual (fevereiro a maio). 
Outra ação relevante para redução do consumo de água, no pátio de matérias-primas, foi a 
impermeabilização do solo para evitar infiltração (figura I.8). E o sistema de dispersão mantém os estoques 
umedecidos, reduzindo possíveis emissões atmosféricas. A água utilizada nesse processo é obtida 
principalmente por uma bacia de drenagem, tratada e recirculada no processo de circuito fechado. 
 
Figura I.8 
Impermeabilização e aspersão de água do pátio de matérias primas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
Todas essas tecnologias de última geração adotadas permitiram à CSP conquistar diversas 
certificações desde o start-up: Qualidade (ISO 9001), Meio Ambiente (ISO 14001, RoHS —Restrictions of the 
use of Certain Hazardous Substances— European Union), produtos de Alta Tecnologia (Maxion Wheels, 
Siemens Gamesa, Caterpillar, Scania) e de certificadoras globais (DetNorskeVeritas-Germanischer Lloyd, 
Registro Italiano Navale, Indian Register of Shipping, BureauVeritas, Lloyd’s Register, Korean Register, 
American Bureau of Shipping, Russian Maritime Register of Shipping). As certificações reconhecem a 
sustentabilidade, garantindo o fornecimento de placas da CSP para todo o mundo. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 32 
 
Já no quesito pessoas, antes da operação, foram investidos R$ 182 milhões em seleção e 
treinamento, incluindo transferência de tecnologia, treinamentos no exterior, programa de formação 
de operadores no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) do CE, treinamentos em 
simuladores de última geração, cursos de idiomas (inglês e coreano) e ambientação em siderúrgicas 
localizadas no sudeste do Brasil. Foram mais de 3.000 participações de profissionais nessas atividades 
de treinamento.  
Como marco, vale destacar que a CSP contribuiu na implementação dos Cursos Técnicos de 
Metalurgia nos Institutos Federais do Ceará e a criação do primeiro curso de Engenharia Metalúrgica da 
região Nordeste existente na Universidade Federal do Ceará (UFC). 
Apenas com o SENAI-CE, foi realizado contrato de R$ 5 milhões, aplicados em 22 cursos 
customizados para atender às necessidades da CSP. A iniciativa abriu oportunidades para jovens de 18 a 
28 anos, a maior parte em busca do primeiro emprego.  
Ao mesmo tempo em que se preparava e contratava pessoal para a fase de operação, buscaram-
se alternativas para os trabalhadores que atuavam na construção da CSP. Para ampliar as oportunidades 
de recolocação desses trabalhadores e gerar opções para os moradores da região, foi criado o Programa 
Janela de Oportunidades, em parceria com a Secretaria Estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social.  
Somente na fase de construção, foram investidos R$ 30 milhões em responsabilidade social. Em 
outubro de 2009 foi criado o Programa de Diálogo Social – CSP, série de iniciativas desenvolvidas de 
forma permanente para manter fluida, fácil e constante a comunicação com as comunidades da área de 
influência direta do empreendimento (destaque para os programas Ideia da Gente e o Território 
Empreendedor). 
Para a CSP, a vida é mais importante e por isso foi e é preciso garantir que todos os empregados 
estejam capacitados e conscientes dos riscos ao executarem suas funções. A empresa tem um Centro 
de Treinamento com 18 salas e capacidade para 376 pessoas, além de dois laboratórios para prática de 
trabalho em altura e espaço confinado e uma biblioteca. 
E. Conquistas durante a fase de operação da CSP 
A planta CSP foi projetada e construída para estar entre as mais competitivas do mundo. Da primeira 
estaca à primeira placa foram 48 meses e o ramp-up foi feito em um período recorde no mundo. Foram 
três meses do acendimento do alto-forno a exportação das primeiras placas de aço. Um tempo que, na 
média da indústria siderúrgica, costuma ser de 8 a 14 meses, segundo CSP (figura I.9). 
A siderúrgica recebeu, em junho de 2017, a Licença de Operação (LO) nº 102/107, emitida pela 
Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (SEMACE). A licença atesta que, nos últimos 
oito anos, a empresa cumpriu todos os compromissos assumidos desde a fase de construção e testes 
até o comissionamento. 
Em novembro de 2017, a CSP conquistou nova chancela ambiental: a certificação ISO 14001:2015, 
que comprova gestão ambiental adequada com base em parâmetros internacionais. Entre os principais 
processos auditados para certificação destacam-se: execução de controles ambientais, definição de 
políticas/objetivos claros e análise de risco. Com a ISO 14.001, a CSP passou a integrar um grupo seleto 
de empresas que atendem a essas exigências ambientais: são 16 no Ceará; 194 no Nordeste e 1.718 em 
todo o Brasil. A CSP também conta com a certificação ISO 9001, que atesta a qualidade de seus produtos 
em linha com os padrões internacionais do mercado do aço. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 33 
 
Figura I.9 
Cronologia da primeira estaca à primeira placa 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
A usina é uma das mais modernas do Brasil e do mundo, iniciou a produção de placas de aço em 
junho de 2016 e tem apresentado uma eficiência operacional destacada pela evolução produtiva desde 
o start-up (gráfico I.1). 
 
Gráfico I.1 
Produção de placas da CSP 
(Em toneladas) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
Nota: Para o ano de 2019, incluem-se dados até junho. 
 
1 020 092 
2 417 442 
2 935 614 
1 440 662 
 -
 500 000
 1 000 000
 1 500 000
 2 000 000
 2 500 000
 3 000 000
 3 500 000
2016 2017 2018 2019*
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 34 
 
Registrou em janeiro de 2019 seu melhor mês de produção, com 270.622 toneladas (t) de placas 
de aço produzidas. O resultado significa um crescimento de 5,5%, comparado com o mesmo período de 
2018 (256.502 t de placas produzidas). Em 2019, com a produção de 1.440.662 t no 1º semestre, superou 
a produção de 2018 em aproximadamente 20.000 t de placas produzidas. 
Com três anos de operação, a CSP gera 2.500 empregos diretos e 3.500 terceirizados, além de 
18 mil empregos indiretos (gráfico I.2), considerando o fator multiplicador de 3x (BNDES/MDIC), além 
de 30 novas funções de trabalho criadas, ampliando as oportunidades de trabalho e carreira profissional 
para os cearenses. 
 
Gráfico I.2 
Geração de empregos diretos e indiretos 
(Em número de empregados) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
As placas de aço produzidas e exportadas pela CSP são destinadas a diversas aplicações. Até o 
momento, a CSP já produziu mais de 350 tipos de aços que atendem às mais rigorosas especificações 
do mercado mundial e o portfólio tem sido direcionado cada vez mais para aços de maior valor agregado 
(gráfico I.3).  
  
6 000
18 000
24 000
0
5 000
10 000
15 000
20 000
25 000
30 000
Empregos diretos Empregos indiretos Total
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 35 
 
Gráfico I.3 
Participação em aços de alto valor agregado no portfólio da CSP 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
Os aços produzidos na CSP já foram destinados a 23 países, sendo as maiores exportações para 
Estados Unidos e México (América do Norte), Turquia e Itália (Europa) e Coréia do Sul (Ásia; figura I.10). 
 
Figura I.10 
Do Ceará para o mundo 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
  
0% 5%
13% 18%
19% 21%
23%
21%
81% 74%
64% 61%
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
2016 2017 2018 2019
Alta tecnologia Média tecnologia Baixa tecnologia
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 36 
 
São inúmeros os diferenciais tecnológicos existentes dentro da CSP. O laboratório de matérias-
primas, por exemplo, conta com uma planta de amostragem com oito andares, distribuídos em 
36 metros de altura e integrada às correias responsáveis pelo transporte de minério de ferro, carvão e 
fundentes do Porto até a CSP. Sem precedentes na siderurgia nacional, esse sistema é 100% 
automatizado e viabiliza o controle dos insumos desde o descarregamento dos navios (figura I.11). As 
amostras são analisadas por um robô, que verifica características como granulometria e umidade.  
Já o laboratório de gusa e aço controla a qualidade do ferro-gusa e das placas de aço, do início ao 
fim do processo produtivo. A tecnologia é a mais avançada disponível no mercado internacional, com 
sistemas de transporte pneumático. As amostras chegam para análise em um tempo máximo de 
1 minuto na linha mais extensa, que atende ao alto-forno da CSP e tem 759 metros de extensão. 
O laboratório de meio ambiente, por sua vez, tem uma atuação estratégica nas questões de 
sustentabilidade. Controla os efluentes, as águas de processos fabris e a água nas estações de 
tratamento. Os equipamentos são de alta performance e checam aspectos decisivos e sujeitos à 
legislação ambiental do país, para detectar riscos como a presença de metais pesados e micro-
organismos, por exemplo. É uma contribuição fundamental para que a CSP possa manter um nível de 
reuso de água da ordem de 98% e descartar efluentes sem que haja qualquer contaminação dos 
ecossistemas na região. 
 
Figura I.11 
Laboratórios CSP 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
A CSP é uma usina integrada de grande porte (produção diária superior a 8.000 toneladas) que 
possui um Alto-Forno de 3.800 m³ com mais de 100 metros de altura, o que torna essencial o uso de 
coque (oriundo de carvão mineral) devido à sua elevada resistência mecânica, característica essa 
extremamente baixa no carvão vegetal, tornando-o inviável para uso em Altos-Fornos (INFOMET, 
2019). Contudo, para combater a emissão de gases de efeito estufa (GEE), a CSP adota uma série de 
medidas e tecnologias de ponta para aproveitamento de 100% dos gases gerados nos processos de 
produção (Turbinas, Gasômetro, Termoelétrica, Gasodutos Interligados e uma Planta de Tratamento 
de Gases - GTP). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 37 
 
No topo do Alto-forno, a CSP possui instalada uma turbina de última geração (Top Pressure 
Recovery Turbine) para produção de energia (16 MW/h) e grande parcela dos gases de Coqueria, Alto-
Forno e Aciaria são destinados à geração de eletricidade na própria termelétrica. A CSP tem um 
consumo de 168 MW/h e é autossuficiente em energia elétrica gerada em uma central termelétrica 
própria que tem uma capacidade de 218 MW/h, portanto superior à demanda da planta e capaz de 
vender ao Sistema Integrado Nacional por mês 50 MW/h (figura I.12). Com isso, a CSP é considerada 
uma empresa de utilidade pública e contribui fortemente para a redução na emissão dos gases 
responsáveis pelo efeito estufa. 
 
Figura I.12 
Termoeléctrica CSP 
 
Fonte: Companhia Siderúrgica do Pecém. 
 
O uso de novas tecnologias e equipamentos de última geração é um dos grandes diferenciais da 
CSP, incluindo a adoção do Baosteel Slag Short Flow (BSSF), processo inédito no Brasil. A Baosteel, 
maior empresa siderúrgica da China, em 1995 desenvolveu um novo tratamento para escórias de 
aciaria, minimizando o desperdício da fábrica e eliminando a necessidade de aterramento dos resíduos. 
Através do BSSF é possível agregar valor ao material e destiná-lo —assim como as escórias de Alto-
forno— às indústrias cimenteiras.  
A usina segue, também, potencializando e alavancando negócios locais, onde de 2012 a 2018, 
mais de R$ 7,7 bilhões foram comprados pela CSP em equipamentos, materiais e serviços no Ceará. 
O número de empresas instaladas em SGA e Caucaia (municípios ao redor da CSP) cresceram 100% e 
60%, respectivamente conforme exposto no Gráfico I.4. Só em 2018, foram R$ 600 milhões de compras 
locais, o que corresponde a aproximadamente 44% das compras da CSP, excluindo carvão mineral e 
minério de ferro.  
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 38 
 
Gráfico I.4 
Empresas em SGA e Caucaia de 2010 a 2017 
(Em número de empresas) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Junta Comercial do Estado do Ceará (JUCEC), “Estatísticas” [online], 
https://www.jucec.ce.gov.br/links-uteis/ [data de consulta: 21 de julho de 2019], s/d. 
 
A operação da CSP já modificou o perfil da balança comercial do Ceará, conhecida até então por 
ser um estado exportador de calçados. Atualmente, são as placas de aço que respondem por mais da 
metade das exportações. As exportações do Ceará, em 2018, foram representadas por 87% de produtos 
industrializados e apenas 12% de produtos básicos, mantendo o comportamento semelhante ao 
verificado em 2017.  
As exportações cearenses cresceram 62,4% em 2017 ante o ano anterior, e 10,7% em 2018 com 
relação a 2017, e atingiram o patamar de US$ 2,3 bilhões em 2018, o maior valor da história do Estado 
(IPECE, 2019b).  
O principal destino das exportações do Ceará continua sendo os Estados Unidos, com valor de 
US$ 858,6 milhões e participação de 36,9%. Para o país americano foi enviado principalmente as placas 
de aços oriundas da CSP, e SGA foi o município cearense que mais exportou em 2018 respondendo por 
59,2% do total exportado pelo Estado. 
Com esses resultados conquistados, graças ao que é produzido na CSP, o Ceará posicionou-se na  
14º colocação no ranking dos estados exportadores brasileiros (IPECE, 2019a). Quanto aos municípios, SGA, 
cidade que sedia a usina, atingiu US$ 1 bilhão em exportações de produtos metalúrgicos (gráfico I.5). 
Os resultados da CSP têm sido destaque no cenário nacional, uma vez que a companhia foi 
responsável por retirar o Ceará de uma posição até então pouco significativa no mercado siderúrgico do 
Brasil. Mais do que isso, as exportações da CSP passaram a responder por mais de 50% das vendas totais 
do Estado para o mercado internacional, saindo de aproximadamente US$ 1 bilhão para US$ 2 bilhões 
em exportações (MDIC, s/d) (gráfico I.6). O Ceará deixou de ser apenas exportador de frutas, calçados, 
castanhas de caju e camarão para entrar no rol dos chamados “players” da siderurgia, tornando-se um 
competidor mundial em placas de aço e contribuindo para agregação de valor nas exportações do país, 
superando o paradigma de apenas exportador de minério de ferro.   
1 816 1 987
2 171
2 473
2 818 2 996 2 998 2 928
248 295
323 356 385 459
539 515
0
500
1 000
1 500
2 000
2 500
3 000
3 500
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
Caucaia SGA
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 39 
 
Gráfico I.5 
Exportações de produtos metalúrgicos em SGA  
(Em dólares) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), “Comex Stat” [base de 
dados online], Brasília http://comexstat.mdic.gov.br/pt/home/ [data de consulta: 21 de julho de 2019], s/d. 
 
Gráfico I.6 
Exportação do Ceará  
(Em bilhões de dólares FOB) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), “Comex Stat” [base de 
dados online], Brasília http://comexstat.mdic.gov.br/pt/home/ [data de consulta: 21 de julho de 2019], s/d. 
 
Conforme MME (2019), o Brasil ultrapassou a marca de 15,3 milhões de toneladas de produtos 
siderúrgicos exportados em 2017, com as placas de aço representando 9,2 milhões de tonelada se a CSP 
contribuindo com 2,6 milhões de toneladas desse montante (28% do volume de placas de aços 
exportadas pelo Brasil). 
0
200 000 000
400 000 000
600 000 000
800 000 000
1 000 000 000
1 200 000 000
2012 2013 2014 2015 2016 2017
1,264
1,420
1,470
1,044
1,294
2,102
1,0
1,2
1,4
1,6
1,8
2,0
2,2
2012 2013 2014 2015 2016 2017
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 40 
 
Em sintonia com seus direcionadores estratégicos, a CSP tem um sólido compromisso com o 
desenvolvimento socioeconômico sustentável da região onde está instalada. Para que o compromisso 
gere resultados e para que possa cumprir plenamente o seu papel de importante indutora neste processo, 
a empresa tem uma atuação robusta, desde a sua fase de implantação, na área de responsabilidade social. 
Os investimentos totais já ultrapassam R$ 40 milhões no período de 2012 a 2018. 
Um dos programas de destaque é o Território Empreendedor, realizado em parceria com o 
Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Ceará (Sebrae-CE), de incentivo ao 
empreendedorismo nos municípios de SGA e Caucaia. O investimento total da parceria é de 
aproximadamente R$ 1,2 milhão/ano —montante voltado para incentivo, formação e orientação de 
empreendedores (gráfico I.7). 
 
Gráfico I.7 
Número de microempreendores individuais (MEI) instalados em SGA e Caucaia em 2010 e 2018 
(Em número de microeempreendedores) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Brasil, “Portal do Empreendedor – MEI” [base de dados online], Brasília 
http://www.portaldoempreendedor.gov.br/ [data de consulta: 21 de julho de 2019], s/d. 
 
A CSP também implementou o Programa Ideia da Gente, que completou três ciclos de 
investimento totalizando o aporte de R$ 3,4 milhões nas comunidades vizinhas. Os recursos foram 
destinados a apoio financeiro e capacitação continuada de moradores que inscreveram seus próprios 
projetos. Foram beneficiados cerca de dois mil moradores. 
Já o Programa de Diálogo Social, implantado antes da construção, é uma plataforma que 
contribui para estreitar a relação da CSP com as comunidades. Por meio dele, a empresa busca reforçar 
seu papel social para a construção de relações fortes e duradouras, pautadas na confiança, no respeito 
e na transparência com os moradores da região. Em 2017, um dos resultados do programa foi a criação 
do conselho comunitário da região do CIPP, e encerrou 2018 com 1.536 interações com moradores 
das comunidades.  
Em parceria com a Prefeitura de SGA, a CSP entregou para a comunidade do Pecém, em maio de 
2018, a Praça da Juventude —uma área de 3 mil metros quadrados que contribui para o esporte, lazer e 
segurança dos moradores. O equipamento conta com investimento de R$ 2,2 milhões, beneficiando 
62
1 192975
10 046
0
2 000
4 000
6 000
8 000
10 000
12 000
2010 2018
São Gonçalo do Amarante Caucaia
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 41 
 
5 mil moradores. A obra é uma das três que fazem parte do Programa de Melhoria de Infraestrutura 
Social, com investimento da CSP de R$ 9 milhões, para impactar positivamente cerca de nove mil 
pessoas nas comunidades do Pecém, Parada e Acende Candeia. O Programa entregou também uma 
creche-escola na comunidade de Acende Candeia e uma praça na comunidade Parada.  
Ser uma empresa que valoriza e prioriza a mão de obra local é um orgulho para a CSP, pois reforça 
a parceria com o Estado e com o povo que a acolheu, desde quando a companhia era um projeto. 
Atualmente, cerca de 70% do quadro da CSP é de profissionais do Ceará. Gente da terra, da região de 
SGA o que propiciou ao município ocupar o posto de maior salário médio do Ceará, um avanço de 
6 posições e um aumento da renda média de 100% em 10 anos (gráfico I.8). 
 
Gráfico I.8 
Salário médio mensal em SGA e Fortaleza 
(Em número de salários mínimos) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “Cidades@” [base de dados online], 
Rio de Janeiro https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/sao-goncalo-do-amarante/panorama [data de consulta: 3 de agosto de 2019], 2016. 
 
Até chegar ao nível atual de produção e exportação, a CSP percorreu um longo caminho, que 
incluiu investir fortemente em capacitação para que os cearenses pudessem se beneficiar plenamente 
do empreendimento. Com essa visão estratégica, a CSP destinou recursos em treinamento local, em 
outros Estados e fora do país. O plano de capacitação dos empregados para a operação incluiu 
transferência de tecnologia da Coreia do Sul, treinamentos de supervisores na Indonésia, em usinas no 
Sudeste do país e em parceria com o SENAI-CE. 
Cerca de 1.450 jovens cearenses foram treinados em 22 modalidades profissionalizantes na 
parceria com o SENAI-CE, perfazendo 53 turmas. Como resultado, 700 cearenses que ingressaram na 
siderúrgica foram formados pelo Programa de Formação de Operadores da empresa. Qualificação 
contínua, aliás, é uma palavra-chave para o sucesso da CSP. Com isso, a empresa contabiliza cerca de 
1.000 empregados que passaram por treinamentos em outras usinas no Brasil e no exterior. 
A CSP também implementou em 2017, em parceria com o SENAI-CE, o Programa Jovem 
Aprendiz, alinhado à Lei de Aprendizagem 10.097/2000. Este programa tem o objetivo de desenvolver 
jovens profissionais para oportunidades que surjam na siderúrgica ou em outras empresas do CIPP. 
0,0
0,5
1,0
1,5
2,0
2,5
3,0
3,5
4,0
2007 2008 2014 2015 2016 2017
São Gonçalo do Amarante Fortaleza
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 42 
 
Até o presente, 277 jovens cearenses foram formados pelo programa ou ainda estão sendo capacitados, 
sendo que destes 130 já ingressaram na CSP. 
Após três anos de operação diversas melhorias de processos foram realizadas pelos próprios 
funcionários da CSP fruto da capacitação e de programas internos como “Atitude Eficiente” e projetos de 
“Melhoria Contínua”, inclusive com conquistas ocorridas no 72º Congresso Anual da Associação Brasileira de 
Metalurgia, prêmio de reconhecimento técnico através do artigo Sistema de Barra Segura para Distribuição 
de Energia na Companhia Siderúrgica do Pecém” e o prêmio técnico de Qualidade e Produtividade em 
parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) que apresentou a pesquisa relacionada à análise de 
inclusões não-metálicas em aço ultrabaixo carbono utilizado pela indústria automotiva. 
A CSP também valoriza a diversidade, as questões de gênero e a inclusão social. As mulheres 
representam quase 12% do total de empregados e metade delas trabalham nas áreas de produção (a 
média nacional nesse ramo industrial é de 8%). A competência, experiência e desenvolvimento 
profissional levou muitas delas a ocuparem funções de supervisão e gerência. 
A CSP implantou em 2016 em parceria com o SENAI-CE o Programa Aprendiz PcD. É uma 
iniciativa da empresa para capacitar, formar e dar oportunidade às pessoas com deficiência tanto para 
ingressarem na CSP quanto para atender ao mercado de trabalho cearense. Cerca de 115 pessoas com 
deficiência já passaram pelo programa ou ainda estão sendo capacitados. 
Antes da operação da CSP, na região Nordeste, a indústria siderúrgica era responsável por apenas 
0,6% dos empregos formais da indústria de transformação. Somente o município de SGA aumentou em 
termos médios 4.500 postos de trabalho, que foi o terceiro melhor índice registrado no País, conforme 
informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, com incremento superior a 45% para 
ambos os gêneros (gráfico I.9). 
Importante pontuar que a CSP e seus parceiros adotam os Princípios do Equador como diretrizes 
essenciais para gerenciar e melhorar seu desempenho social e ambiental com base em resultados, em 
acordo com a Corporação Financeira Internacional (Internacional Finance Corporation – IFC). Ainda na 
fase inicial da construção da planta, auditores independentes fizeram uma análise do projeto, 
resultando em um plano de ação socioambiental, aprovado e implementado pela CSP. Além das 
Diretrizes da IFC, as diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico 
(OCDE) também foram incorporadas. 
A CSP reitera a aplicação da “Lei Anticorrupção” (nº 12.846/2013), e seu conteúdo integra o 
Código de Conduta Ética, disponível no Portal da Companhia e parte integrante do contrato de trabalho 
de cada empregado. A ética é um dos princípios básicos da CSP que garante a transparência na sua 
atuação. Por isso, foram criados Canais de Ouvidoria disponíveis para os públicos interno e externo. A 
Ouvidoria é orientada pelo Código de Conduta Ética, garantindo imparcialidade total em sua atuação.  
Como bem destaca o ODS 16 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015), 
para que se tenha sustentabilidade dos negócios, é preciso que todos os atores trabalhem pela 
construção de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas. A CSP dentro da sua política realiza 
checagens referentes à “Due Diligence” de potenciais parceiros comerciais e não contrata nenhum 
parceiro comercial sem a necessária avaliação do seu risco (pautados nos valores e código de conduta 
ética da empresa). 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 43 
 
Gráfico I.9 
Empregos em SGA por gênero de 2010 a 2017 
(Em número de trabalhadores) 
 
Fonte: Companhia Siderúrgia do Pecém com base em Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), “Relação Anual de Informações Sociais 
(RAIS)/ Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED)” [base de dados online], Brasília http://bi.mte.gov.br/bgcaged/ [data de 
consulta: 21 de julho de 2019], s/d. 
 
F. Considerações finais sobre o Big Push CSP 
Todo o projeto CSP, desde sua concepção, vem demonstrando um forte compromisso com a 
sustentabilidade ambiental, econômica e social. A CSP tem como objetivo impulsionar o crescimento 
econômico do Ceará para um novo patamar de desenvolvimento, permitindo maior competitividade do 
Estado no Brasil e no exterior. A instalação da siderúrgica vem promovendo aumento da arrecadação 
de impostos e tributos que geram ampliação e melhoria nas ofertas de serviço público, como educação, 
transporte, saúde, saneamento básico, cultura e lazer. A empresa se preocupa em desenvolver seu 
negócio promovendo, simultaneamente, a inclusão social, a otimização do uso de recursos naturais e a 
redução do impacto sobre o meio ambiente. A CSP tem entre os seus principais objetivos ser 
reconhecida como protagonista e agente de mudanças da região. 
O projeto CSP traz inovações e um novo padrão de investimento, que se relaciona diretamente 
com a tripla eficiência norteadora do Big Push para a Sustentabailidade: keynesiana, schumpeteriana e 
da sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). A eficiência keynesiana diz respeito aos ganhos crescentes de 
escala e de escopo da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, 
gerando efeitos multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. Essa eficiência 
está presente no caso estudado por transformar e diversificar a pauta exportadora do Estado do Ceara, 
o que demonstra que o projeto foi exitoso em atingir mercados internacionais em grande expansão. A 
eficiência schumpeteriana enfatiza que uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em 
conhecimento gera externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a 
cadeia de valor. No caso estudado, observa-se que houve significativos investimentos produtivos que 
desenvolveram toda uma cadeia de valor relacionada à siderurgia não só no Estado do Ceará, como em 
outras regiões do Brasil (se considerados os fornecedores de ferro, por exemplo). Além disso, os diversos 
investimentos paralelos ao projeto principal, que modificam a forma de fazer negócios e incentivam o 
empreendedorismo e a inovação em diversas areas além da siderurgia, também são simbólicos da 
5 735
6 697
4 569
5 868
8 873
10 285
7 933
9 302
2 086
2 761 2 263 2 806
3 400 4 057
3 161
3 941
0
2 000
4 000
6 000
8 000
10 000
12 000
14 000
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
Masculino Feminino Média 2010-2013 Média 2014-2017
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 44 
 
eficiência schumpeteriana. A eficiência da sustentabilidade, etendida como a clássica eficiência da 
sustentabilidade nos três pilares (econômico, social e ambiental) está presente no caso estudado, o que 
é referenciado nas certificações e reconhecimentos nacionais e internacionai descritos ao longo 
deste trabalho. 
Segundo a CEPAL (CEPAL/FES, 2019), um Big Push trata-se de uma articulação e coordenação 
de políticas (públicas e privadas, nacionais e subnacionais, setoriais, tributárias, regulatórias, fiscais, de 
financiamento, de planejamento etc.) que alavanquem investimentos nacionais e estrangeiros para 
produzir um ciclo virtuoso de crescimento econômico, gerador de emprego e renda, redutor de 
desigualdades e brechas estruturais e promotor de sustentabilidade. Os impactos relatados no presente 
estudo ilustram como a CSP de fato contribuiu para que houvesse um Big Push para a Sustentabilidade 
no Estado no Ceará. 
Através dos resultados obtidos nessa última década, é notório pelos indicadores econômicos, 
sociais e ambientais que a CSP é um case de sucesso em total sinergia com diversos Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável contidos na Agenda 2030 (ONU, 2015) com destaques para: 
• ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico através dos profissionais diretos e 
indiretos beneficiados com a CSP e as conquistas econômicas do Ceará; 
• ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis através da eficiência operacional e as 
tecnológicas que permitem a recirculação de água, beneficiamento de resíduos, geração de 
co-produtos e energia elétrica; 
• ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura através da cadeia de Fornecedores, pesquisas 
com Universidades, e melhorias na infraestrutura da região (rodovias, escolas, praças); 
• ODS 10 – Redução das Desigualdades por ser a primeira usina siderúrgica integrada na 
região Nordeste e pelo aumento salarial dos profissionais da região de São Gonçalo 
do Amarante; 
• ODS 5 – Igualdade de Gênero através do % de mulheres atuando na empresa, 50% superior 
à média nacional e ocupando cargos de liderança; 
• ODS 4 – Educação de Qualidade via parceria com os Institutos Federais, Universidades, 
SENAI e capacitação interna contínua; 
• ODS 1 – Erradicação da Pobreza através dos programas sociais de empreendedorismo, 
programas de capacitação de jovens e empregos gerados; 
• ODS 6 – Água potável e Saneamento via estações de tratamento de efluentes, circuito 
fechado, canaletas para captação de água da chuva; 
• ODS 7 e 8 – Energia Limpa e Acessível  Ação pelo Clima pela eficiência energética 
(transformando gases em energiaelétrica), autossuficiência e por disponibilizar o excedido 
gerado ao Sistema Integrado Nacional; 
• ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis via os programas ambientais e sociais, e 
melhorias físicas realizadas nas comunidades localizadas ao redor da CSP. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 45 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 47 
II. Aumentando a resiliência climática e combate à 
pobreza rural por meio de ações emergenciais  
de combate à seca: o caso dos sistemas  
agroflorestais no Procase – FIDA 
Leonardo Bichara Rocha* 
Thiago César Farias da Silva** 
Donivaldo Martins*** 
Resumo 
O Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Cariri, Seridó e Curimataú, Fundo Internacional para o 
Desenvolvimento da Agricultura (FIDA)/Estado da Paraíba —Procase— é um dos projetos referência 
apoiados por agências da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil no combate à desertificação 
do sistema Caatinga. Destaca-se por um forte componente de ação hídrica junto a milhares de 
agricultores familiares, conjugado a ações de geração de renda e preservação ambiental. O Projeto 
viabilizou a segurança hídrica e alimentar de mais de 22.000 famílias no semiárido paraibano, por meio 
de sistemas de produção inovadores —os sistemas agroflorestais, além de poços, barragens, 
dessalinizadores, irrigação com fontes de energia renováveis, entre outras. Os recursos do projeto 
foram financiados por meio de um contrato de empréstimo de 25 milhões de dólares entre o FIDA e o 
Governo da Paraíba, e contribuíram de forma destacada para o Big Push para a Sustentabilidade em 
uma das áreas de maior índice de pobreza rural do país. 
                                                                      
*  Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA). 
**  Procase, Paraíba. 
***  Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA). 
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A. Introdução 
O Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) é uma agência especializada do Sistema das 
Nações Unidas que, desde 1980, investe no desenvolvimento do semiárido do Brasil por meio de 
projetos em parceria com os governos federais e estaduais, concentrando na população rural de baixa 
renda e obtendo resultados expressivos com intervenções de acesso a água e infraestrutura hídrica e 
projetos de fomento à produção agropecuária, além capacitação de agricultores em produção agrícola 
e não agrícola para aumento de renda e ativos, comercialização e acesso a mercados. 
Desde o início de suas operações no Brasil, os projetos apoiados pelo Fundo Internacional de 
Desenvolvimento Agrícola (FIDA) financiaram no País 12 projetos de empréstimo da ordem de 
860 milhões de dólares (incluindo contrapartida) e 26 doações na ordem de 40 milhões de dólares, 
perfazendo um total de 900 milhões de dólares. Entre 2012 e 2014, seis Projetos FIDA se tornaram 
efetivos no Brasil, fazendo com que a carteira FIDA no país se tornasse a maior da América Latina e 
Caribe. Em 2017 e 2018, o FIDA teve a maior carteira de projetos de uma agência da ONU no Brasil, 
totalizando cerca de 460 milhões de dólares, à frente da Organização Mundial da Saúde, com 
340 milhões de dólares, beneficiando cerca de 350 mil famílias pobres rurais. Entre os seis Projetos de 
empréstimo em execução, cinco projetos estão sendo implementados por governos estaduais, que são 
os mutuários, e um é implementado pelo Governo Federal por meio do Ministério da Agricultura.  
Os projetos estaduais se concentram na região Nordeste, em particular na zona semiárida, 
cobrindo os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e 
Sergipe. O projeto federal cobre, além dos demais estados do Nordeste, a região semiárida de Minas 
Gerais e Espírito Santo. As avaliações independentes dos resultados dos projetos do FIDA realizadas até 
hoje destacam a importância da infraestrutura hídrica para o aumento da qualidade de vida dos 
agricultores familiares na região semiárida. Além disso, reconhecem a relevância do recebimento de 
Assessoria Técnica (AT) contínua e especializada para as famílias desenvolverem suas capacidades, 
informação e conhecimento sobre produção agropecuária, tecnologias, serviços financeiros e 
comercialização, além de permitir que acessassem políticas públicas. Juntas, a infraestrutura hídrica e a 
AT contribuem para o aumento da produtividade e redução significativa da mortalidade animal. No 
contexto das metas da ONU para o desenvolvimento sustentável (ONU, 2015), os projetos apoiados 
pelo FIDA contribuem significativamente para erradicação da pobreza (Objetivos de Desenvolvimento 
Sustentável – ODS 1), fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), acesso à água (ODS 6), consumo e 
produção sustentáveis (ODS 12) e ação contra a mudança global do clima (ODS 13). 
B. O FIDA e ações de combate aos efeitos da seca na Paraíba 
O último período de estiagem (2012 a 2017) no semiárido nordestino foi um dos mais severos já 
registrados pelos órgãos de monitoramento climático. O Projeto de Desenvolvimento Sustentável do 
Cariri, Seridó e Curimataú (Procase), se destaca entre os demais apoiados pelo FIDA no Brasil por contar, 
em seu organograma, com um componente criado para trabalhar exclusivamente com acesso à água 
ligado à adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Através dele, várias ações foram 
sendo implementadas no desenvolvimento sustentável, segurança hídrica e alimentar das famílias 
rurais pobres da região semiárida. No total, as ações de acesso e usos sustentável da água atenderam 
todos os 56 municípios inserido no território do Procase, garantindo água de qualidade e produção para 
8.560 famílias. O projeto tem co-financiamento do FIDA e o Estado da Paraíba. 
O bioma predominante na área do Procase é a Caatinga, possuindo remanescentes de Mata 
Atlântica em áreas mais altas, caracterizados assim por Andrade-Lima (1982) e Coimbra-Filho e Câmara 
(1996). Rodal, Barbosa e Thomas (2008) contestam a caracterização desta formação vegetacional, 
considerando-as como florestas secas serranas. Este bioma é considerado um dos mais vulneráveis em 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 49 
 
relação às mudanças climáticas no Brasil, sendo que a área, já carente em recursos hídricos, tende para 
uma diminuição do regime de chuvas, acarretando um aumento no número de dias consecutivos secos 
e na possibilidade de ocorrência de secas mais intensas e prolongadas. A degradação dos solos da 
Caatinga, decorrente tanto da variabilidade natural como das atividades antrópicas, tem como vetor 
principal a perda da cobertura vegetal nativa. 
As ações de infraestrutura hídrica do Procase foram efetivadas por meio de planos emergenciais de 
instalação de poços e barragens subterrâneas conjugadas com o fomento à produção agropecuária e 
diversificação no cultivo de espécies vegetais, fortalecidas pela construção de barragens de médio porte. 
O Programa objetivou a implantação de uma fonte de recurso hídrico no maior número de comunidades 
inseridas no território de sua atuação, associada a um campo de palma resistente a cochonilha (Opuntia 
ficus-indica L.P. Mill e Nopalea cochinilifera Salm Dyck) garantindo assim a permanência da população em 
suas comunidades de origem, evitando o êxodo rural. A adoção generalizada de práticas de produção e 
armazenamento de forragem entre os beneficiários contribuiu para a retenção de água no solo, 
diversificação da produção animal e implementação de sistemas agroflorestais. 
As ações de combate aos efeitos da seca do Procase receberam respaldo legislativo por meio de 
um Decreto Estadual emergencial para amenizar os efeitos da estiagem no Cariri, Seridó, Curimataú e 
Médio Sertão) (Plano Emergencial, de junho de 2015, atualizado em janeiro de 2017), com 
complementações no final de 2017 de novas ações acordadas entre o FIDA e o Estado da Paraíba.  
Dentre as principais ações relacionadas ao Plano Emergencial de resiliência climática apoiado 
pelo FIDA e pelo Procase na Paraíba, cabe mencionar: 
• Implementação de 539 poços perfurados e 222 barragens subterrâneas construídas, todos 
para irrigação com fontes renováveis de energia: solar (painéis) e eólica (cata-ventos);  
• Construção de 4 barragens convencionais; 
• Implementação de 31 Sistemas Agroflorestais (SAFs); 
• Instalação de 61 dessalinazadores;  
• Instalação de paines de energia solar em unidade de beneficiamento de alimentos de 
cooperativas da agricultura familiar.  
Atuando em uma das regiões consideradas mais vulneráveis em relação às mudanças climáticas 
do Nordeste, o desenvolvimento das atividades do Procase tem mostrado resultados positivos com a 
implantação de infraestruturas que propiciam impactos ambientais positivos, ajudando a retardar na 
área do projeto principalmente a degradação dos solos. As barragens subterrâneas permitem a captura 
de água de escoamento e, juntamente com os poços tubulares para captação de água subterrânea 
viabilizam a implantação de campos de forragem, que, utilizando a palma forrageira (resistentes a 
cochonilha-do-carmim, dizimada em tempos recentes) consorciada com plantas adaptadas à região, 
aumentam a cobertura dos solos, além de reduzir a pressão do pastejo sobre a vegetação a partir da 
oferta maior de alimento para os animais. As bacias hidrográficas das barragens convencionais detêm 
planos para recuperação do entorno e mitigam a variabilidade na segurança da água, compensando as 
secas e inundações. A instalação dos poços segue a legislação estadual, sendo a perfuração precedida 
por requerimento de implantação à Agência Executiva de Gestão das Águas (AESA) e ao final, a outorga. 
Para o bombeamento da água dos poços, são utilizadas fontes renováveis de energia: solar (painéis) e 
eólica (cata-ventos). 
O Plano Emergencial reduziu o abate de cactos nativos com técnicas de coleta rudimentares e 
diminuiu o risco de danos ambientais (queima de plantas para a redução de espinhos). O sistema de 
bombeamento é impulsionado pela energia eólica, o que garante a sustentabilidade através do uso de 
energia limpa. Foram plantadas 5.800.000 mudas de palma forrageira (2015-2018) nos campos, 
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produzindo uma biomassa estimada 64.680 toneladas, considerando que cada hectare de palma rende 
220 toneladas a cada dois anos. 
No último ano de 2018 complementou-se esta importante ação de acesso a água com a 
instalação de 60 dessalinizadores com o objetivo de fornecer acesso a água potável para comunidades 
fora do sistema público de distribuição de água nas áreas rurais do estado da Paraíba. O resíduo 
resultante do processo de purificação é armazenado em uma bacia de decantação impermeável, 
evitando a contaminação do solo pelos resíduos do processo de produção. 
C. Sistemas agroflorestais no contexto dos Planos Emergenciais 
Como parte do eixo do Plano Emergencial, o Procase implantou no semiárido paraibano diversas 
unidades de Sistemas Agroflorestais (SAFs), um modelo de produção agropecuária que combina 
espécies frutíferas e/ou madeireiras, com cultivos agrícolas e/ou criação de animais, de forma 
simultânea ou em sequência temporal. 
Os benefícios deste modelo de produção estão diretamente ligados à conservação dos recursos 
naturais e a convivência com o semiárido. Um dos pilares deste trabalho é a proteção do solo com 
matéria orgânica, o que garante a fertilidade e disponibilidade dos nutrientes e a umidade do solo. 
Dessa forma, obtém -se a conservação do solo, fixação de dióxido de carbono (CO2), redução do 
extrativismo não sustentável sobre a Caatinga (risco evitado), além dos ganhos no aspecto produtivo: 
segurança alimentar para as famílias agricultoras, aumento de produção de biomassa ofertada para os 
rebanhos, disponibilidade de recursos madeireiros e de subprodutos florestais não madeireiros (folhas, 
cascas, sementes, óleos essenciais, raízes, etc.). 
Os campos de palma forrageira consorciados com plantas nativas aumentam a cobertura dos 
solos, além de reduzir a pressão do pastejo sobre a vegetação a partir da oferta maior de alimento para 
os animais. Por sua vez, os sistemas agroflorestais SAFs, implantados com recursos das atividades 
previstas para a recuperação das áreas de proteção das barragens convencionais, permitem a 
recuperação da vegetação nativa e servem de espaço de capacitação para os produtores, tornando-se 
referência para a região. 
Os SAFs foram implantados no contexto do Plano Emergencial do Estado da Paraíba, em 
implementação desde 2015, que, com o apoio do Exército Brasileiro, perfurou centenas de poços em 
todos os 56 municípios do semiárido paraibano de atuação do projeto. Paralelo a estas perfurações, os 
moradores receberam milhares de raquetes de palma e sistemas de irrigação por gotejamento para o 
aproveitamento da água disponibilizada a partir do bombeamento utilizando energia solar ou eólica. 
Em vários destes Planos Emergenciais com plantio de palma, beneficiários incorporaram 
voluntariamente a plantação de frutíferas (figura II.1). 
Com a intenção de associar aos campos de palma coletivos instalados pelo Plano Emergencial, 
utilizando do mesmo sistema de irrigação instalado e otimizando seu desenvolvimento e garantindo a 
produção agrícola, o Procase identificou algumas áreas e comunidades que pudessem receber as 
primeiras experiências em SAFs que surgissem, chamando este trabalho inicial de Unidades de 
Aprendizagem. Estas áreas normalmente estavam associadas a uma das 4 barragens convencionais que 
fazem parte do Plano Emergencial do projeto. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 51 
 
Figura II.1 
Campo de palma irrigada em sistema emergencial/SAF recém implantado na Vila Lafayete, município de Monteiro 
 
Fonte: Procase/Florest. 
Nota: Neste campo também foram plantadas diversas mudas de espécies arbóreas, principalmente forrageiras e frutíferas. 
 
Figura II.2 
Vista parcial do SAF do Assentamento Beira Rio, no município de Camalaú 
 
Fonte: Procase/Florest. 
Nota: Observa-se a diversidade de espécies plantadas (incluindo algumas arbóreas), assim como o sistema de irrigação de gotejamento e o 
cata-vento. 
  
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As Unidades foram instaladas com o auxílio dos consultores do projeto em áreas demarcadas 
dentro das comunidades beneficiárias. Os agricultores e agricultoras começaram a passar por 
capacitações sobre o assunto e iniciaram o trabalho em campo. 
Na primeira etapa, foram implementados 31 SAFs com uma área média de 0,5 hectare, 
totalizando o plantio de 20.000 mudas, beneficiando diretamente 345 famílias. As famílias que 
receberam os sistemas e impulsionaram os cultivos começaram a ter diversos tipos de culturas que 
resultaram numa maior diversidade de alimentos agroecológicos dentro de casa, e excedente sendo 
vendido em feiras livres da região, impactando diretamente na renda de todas elas. O cultivo dos SAFs 
é efetuado aproveitando a infraestrutura hídrica realizada pelo Plano Emergencial (poços, barragens) e 
sua irrigação é realizada por gotejamento a partir do bombeamento que utiliza energias, painéis solares 
ou cata-ventos (figura II.2). 
A implantação de sistemas agroflorestais permitiu o aumento de produtividade animal por bem-
estar, e qualidade nutricional das pastagens, favorecendo a biodiversidade de forma geral. Dentro da 
perspectiva socioeconômica, o Sistema permitiu uma redução drástica de insumos e defensivos 
agrícolas —principais custos de produção— pois as relações ecológicas harmônicas que se geram 
reduzem o surgimento de pragas e carências nutricionais.  
Cada um dos 31 SAFs foi implantado associado a um poço tubular ou por uma barragem 
subterrânea, tendo a sua manutenção realizada de forma coletiva pelos beneficiários do projeto, sem 
prejudicar seus demais afazeres. 
Foram elaborados três modelos de SAF: forrageiro, frutífero e restauração. A definição do 
modelo foi baseada em um diagnóstico prévio que definiu o perfil produtivo de cada uma das 
comunidades a ser beneficiada. Em média, se implantaram cerca de 400 mudas por SAF, o que totalizou 
12.000 mudas plantadas (figura II.3). 
 
Figura II.3 
Implantação do SAF na comunidade do Riacho de Sangue, município de Barra de Santa Rosa 
 
Fonte: Procase/Florest. 
Nota: Beneficiários e técnicos do projeto SAF/Procase realizando a montagem do Sistema dentro dos princípios da agricultura sintrópica. 
  
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Figura II.4 
Sistema Agroflorestal na Comunidade Bom Sucesso, município de Sossego 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Procase. 
Nota: Acima: Área do SAF, com produção de plantas forrageiras. Abaixo: Produção de silagem a partir da biomassa cultivada no SAF 
(8 toneladas produzidas em 0,5 hectare). 
 
Completado um ano desde a implementação dos SAFs, há vários resultados positivos. Em duas 
comunidades —Vila Lafaiete (município de Monteiro/PB) e Bom Sucesso (município de Sossego/PB)— 
houve a produção de 8 toneladas de biomassa pelas plantas forrageira (gramíneas e leguminosas) 
implantadas no SAF. Essa matéria verde incorporada a outras fontes de alimento garantiu a produção 
de silagem e a conservação de alimento aos rebanhos para a próxima estação seca (figura II.4). 
Outro resultado do projeto SAF/Procase é a mudança de paradigma estabelecido nas comunidades 
quanto à forma de se relacionar com a paisagem natural, por meio da incorporação do modelo de 
agricultura sintrópica, definido como aquele onde atividade agrícola mimetiza os processos naturais de 
restauração. Por esta metodologia, os beneficiários e beneficiárias replicam em seus quintais produtivos 
e outras áreas de plantio com as mesmas técnicas aprendidas. Além disso, incorporam no dia-a-dia o 
enriquecimento da Caatinga, como por exemplo, em fundos de pasto utilizados pelos rebanhos de 
pequenos ruminantes, com espécies forrageiras adaptadas à floresta de sequeiro. 
No total, já houve a transformação de 50 hectares para sistemas de intervenções agroflorestais, 
com um acréscimo de mais de 14.000 mudas, permitindo um estoque de carbono de aproximadamente 
480 toneladas por ano. Esta iniciativa atendeu 345 beneficiários, onde 32,46% são do sexo feminino. 
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D. Assessoria técnica contínua e especializada 
Como em todos os projetos financiados pelo FIDA, a provisão de Assessoria Técnica Contínua (ATC) e 
especializada é imprescindível para a capacitação e apropriação das novas ferramentas de produção por 
parte dos agricultores familiares. Como ação do Plano Emergencial, o Procase contratou em 2015 o 
Instituto de Desenvolvimento Sustentável (IDS) como ATC para o apoio às 450 comunidades de 
agricultores beneficiados pelos investimentos e manejo do plantio de palma de variedades resistentes 
à cochonilha-do-carmim. Dentro do universo dos Planos Emergenciais, coube à outra empresa 
contratada (Florest) o desenvolvimento, treinamento e implantação dos SAFs, como parte da 
Assessoria Técnica Especializada (ATE) do Projeto. 
Em agosto de 2017, o número de comunidades atendidas pelos Planos Emergenciais subiu para 
782. Duas novas entidades de ATC selecionadas —o PATAC, para o Cariri Oriental e Ocidental e a 
EMPAER-PB, para o Curimataú, Seridó e Médio Sertão— começaram a atual a partir de abril de 2018. 
Ao todo, são 5.564 famílias atendidas nesta modalidade (tabela II.1). 
 
Tabela II.1 
Grupos de famílias atendidos pelo Plano Emergencial e assessoria técnica do Procase 
Território 
Plano Emergencial 2 + Novas Ações (2018-2019) 
Com./grupos Famílias Provedor 
Cariri Oriental 184 1 309 
PATAC 
Cariri Ocidental 219 1 558 
Curimataú 92 1 416 
EMPAER 
Seridó 88 655 
Total 782 5 564  
Fonte: Procase. 
 
E. Resultados e ODS 
O FIDA, como agência do sistema de Desenvolvimento da ONU (UNDS), promove ativamente a Agenda 
2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015) em todos os seus projetos no País. Ao longo dos 
últimos dois anos, tem intensificado o seu trabalho interagencial no Brasil para harmonização dos 
processos das agências da ONU para a aceleração do alcance das metas e objetivos ODS. Um dos eixos 
de ação comum destas agências tem sido a abordagem “MAPS” (sigla em inglês para Mainstreaming, 
Acceleration and Policy Support, que significa em português “Internalização, Aceleração e Apoio a 
Políticas”, adotada pelo Grupo das Nações Unidas para o Desenvolvimento - UNDG). A missão MAPS 
no Brasil de 2018 teve como membros o PNUD, FIDA, UNESCO, UNICEF e ONU Mulheres. 
Por meio do sistema de Monitoramento e Avaliação País, os projetos do FIDA monitoram a 
relação entre os resultados dos projetos, resultados econômicos e atingimento às metas ODS. 
Resultados preliminares apontam que uma amostra de planos emergenciais do Procase contribuiu para 
aumentar em 60% o número de famílias com produção de forragem para a produção de ovinos e 
caprinos. Além disso, gerou um aumento de 156% na produção e armazenamento de forragem para 
consumo animal. Finalmente, a tabela II.2 relaciona alguns indicadores das ações emergenciais do 
Procase aos ODS, como, por exemplo, à erradicação da pobreza (Objetivos de Desenvolvimento 
Sustentável – ODS 1), fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), acesso a água (ODS 6), consumo e 
produção sustentáveis (ODS 12) e ação contra a mudança global do clima (ODS 13). 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 55 
 
Tabela II.2 
Procase e ODS nos Planos Emergenciais 
  
 
8.560 famílias  
  
10% diminuição da desnutrição  
  
55% lares chefiados  
por mulheres 
 
 
 
8.560 famílias treinadas em 
tecnologias novas de acesso  
a água para produção 
1.200 jovens treinandos para 
empreendedorismo 
 
 
 
 
10% aumento na produção  
 
 
 450 famílias treinadas em técnicas de sistemas 
agroflorestais 
 
  
761 instalações de aumento  
na segurança hídrica 
 
  
50 representantes de 
cooperativas e associaçoes 
treinados e capacitados  
em gestão 
120 funcionários públicos treinados  
em desenvolvimento sustentável 
Fonte: Procase com base em Organização das Nações Unidas (ONU), UNCT Brazil SDG Action Plan, MAPS Brazil 
Engagement Report, Nova Iorque, 2018. 
 
F. Conclusões e relação com o Big Push para a Sustentabilidade 
O Procase (Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Cariri, Seridó e Curimataú, FIDA/Estado da 
Paraíba) é um dos projetos referência apoiados por agências da ONU no Brasil no combate à 
desertificação do sistema Caatinga. O projeto se destaca por um forte componente de ação hídrica, 
conjugado a ações de geração de renda e preservação ambiental. Os Planos Emergenciais de combate 
à seca das ações do Procase incluíram a implementação de 53 hectares de sistemas agroflorestais, 
beneficiando 345 famílias; a instalação de 761 sistemas subterrâneos de extração de água associados ao 
plantio de palma forrageira resistente à cochonilha-do-carmim, como parte do Plano de Emergência da 
Água, totalizando cerca de 294 hectares e beneficiando 8.560 famílias; e a instalação de 61 
dessalinizadores, que beneficiaram 1.800 famílias (ONU Brasil, 2019). 
Os planos emergenciais e as obras de infraestrutura hídrica do Projeto potencializaram a 
segurança hídrica e alimentar dos beneficiários, pelo plantio de palma forrageira para a alimentação 
animal e expansão do acesso a água a milhares de famílias pobres rurais. Neste contexto, e em uma 
amostra representativa deste universo, os beneficiários do Procase estão sendo treinados em técnicas 
de plantio de sistemas agroflorestais, aumentando a retenção de água e CO2 no solo, melhorando a 
qualidade nutricional das pastagens, e favorecendo a biodiversidade de forma geral. Além de SAFs 
naturais que surgiram dos campos de palma implantados com as obras hídricas, foram instaladas 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 56 
 
31 unidades demonstrativas de SAFs forrageiro e frutífero nas comunidades beneficiárias. Dentro da 
perspectiva socioeconômica, o modelo planejado permitiu uma redução drástica de adubos sintéticos 
e defensivos agrícolas, se utilizando de insumos locais (Miccolis e outros, 2016). Neste caso prático se 
aplicou 500 kg de esterco ovino/caprino por 0,5 hectare. Ao mesmo tempo, permite a recuperação da 
vegetação nativa e serve de espaço de capacitação para os produtores, tornando-se referência para a 
atividade produtiva agropecuária do Nordeste brasileiro, levando ao enriquecimento da Caatinga e ao 
desenvolvimento dos fundos de pasto utilizados pelos rebanhos de pequenos ruminantes com espécies 
forrageiras adaptadas à floresta de sequeiro.  
Todas as ações descritas neste documento se alinham com a proposta do Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil (CEPAL/FES, 2019). Em primeiro lugar, contribuem para a eliminação das 
brechas estruturais para o desenvolvimento sustentável por meio da promoção da segurança alimentar 
e hídrica em territórios de desenvolvimento nas zonas rurais do país, através de redução de assimetrias 
competitivas e tecnológicas dos agricultores familiares. Em segundo lugar, melhora o nível de 
governança local no uso de recursos públicos, por meio de treinamento e assessoria técnica contínua 
em gestão de recursos financeiros por associações de agricultores familiares. Em terceiro lugar, 
promovem crescimento econômico e geração de empregos, necessários para elevar o padrão de vida e 
reduzir desigualdades, complementando os investimentos públicos e privados em educação e infra-
estrutura. Em quarto lugar, promovem o uso de energias de fontes renováveis, eficiência energética e o 
uso sustentável de recursos naturais, diminuindo a emissão de gases do efeito estufa. 
A iniciativa também se alinha com as eficiências keynesiana, schumpeteriana e da 
sustentabilidade, no marco da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). Em 
relação à eficiência keynesiana, que se refere à capacidade provocar efeitos multiplicadores na 
economia, verifica-se que a iniciativa constrói uma infraestrutura energética e hídrica, que alavanca e 
viabiliza novos investimentos complementares. A eficiência schumpeteriana, relacionada às 
externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor a partir 
de uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento, está presente por 
desenvolver uma nova tecnologia e demonstrar sua viabilidade em outras regiões similares, além de 
promover o desenvolvimento da agricultura para além da subsistencia. A eficiência da sustentabilidade, 
caracterizada pela clássica eficiência da sustentabilidade nos três pilares (econômico, social e 
ambiental) apresenta-se claramente ao longo do caso estudo. 
Nesse sentido, aumentam a resiliência climática das famílias que vivem na parte do semiárido 
brasileiro com o menor índice de pluviometria do Brasil, através do sequestro de carbono promovido pelas 
plantas inseridas nos sistemas agroflorestais e campos de palmas, como também, pelo uso de fontes de 
energia elétrica oriundas de fontes limpas e renováveis (eólica e fotovoltaica) nas atividades produtivas 
apoiadas. Finalmente, garantem o uso racional da água através dos poços, barragens subterrâneas e 
dessalinizadores. Toda esta concertação promove o manejo sustentável dos recursos naturais acoplado à 
geração de renda e diversificação produtiva de famílias pobres rurais brasileias, diminuindo o incentivo para 
a imigração rural-urbana e contribuindo para o desenvolvimento sustentável das comunidades beneficiadas 
e cumprimento direto de pelo menos 9 dos ODS da ONU, em especial a erradicação da pobreza (ODS 1), 
fome zero e agricultura sustentável (ODS 2), acesso a água (ODS 6), consumo e produção sustentáveis  
(ODS 12) e ação contra a mudança global do clima (ODS 13). 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 57 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 59 
III. Big Push para a Sustentabilidade no Brasil: a 
contribuição dos Tûkûna do Médio Rio Juruá (AM) 
Cairo Guilherme Milhomem Bastos* 
Fernando Esteban do Valle*  
Tatiana Ribeiro Souza Brito*  
Resumo 
O presente estudo consiste em análise sobre um conjunto de três esforços que objetivaram criar 
condições para o desenvolvimento social em três comunidades indígenas, a saber, as aldeias Flecheira, 
Beija-Flor e Morada Nova, situadas na Terra Indígena Kanamari do Rio Juruá, Sudoeste Amazônico. 
O estudo foi realizado tendo como marco a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade 
desenvolvida pela CEPAL. Existe neste exemplo a comunhão de iniciativas do poder público federal, 
estadual e municipal, do terceiro setor e a ação endógena da comunidade Flecheira de atrair 
investimentos e buscar uma via de autodesenvolvimento. Os saberes e tradições indígenas, a 
valorização do papel da mulher e o foco no indivíduo são levantados como pontos essenciais para se 
pensar em soluções de desenvolvimento sustentável adaptadas ao contexto amazônico. 
A. Introdução 
As aldeias Flecheira, Beija-Flor e Morada Nova pertencem à etnia Kanamari e habitam na circunscrição 
do município de Eirunepé-AM, na Terra Indígena Kanamari do Rio Juruá, Sudoeste do Estado do 
Amazonas. Os Kanamari autodenominam-se Tûkûna que quer dizer “gente” e são conhecidos por sua 
forma alegre de viver e por manterem-se fiéis aos seus ritos e tradições a despeito de toda influência e 
contato com a sociedade envolvente. 
                                                                      
*  Fundação Nacional do Índio (FUNAI). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 60 
 
Os primeiros contatos com não-indígenas remontam a meados do século XIX, sobretudo no 
contexto do início do ciclo da borracha no Norte do Brasil (Carvalho, 1998). Os relatos históricos dos 
povos Tûkûna (Kanamari) narram inúmeras perseguições, maus tratos e trabalho em condição análoga 
à escravidão. Em especial, aqueles que habitam próximos à cidade de Eirunepé relatam que onde se 
ergueu o município era, na verdade, aldeia de seus ancestrais. 
Embora as comunidades indígenas vivam em território de relativa abundância de recursos 
naturais, a sua situação social inspira atenção e cuidado. Existem inúmeras deficiências no que diz 
respeito ao acesso a educação, saúde, saneamento básico, alimentação escolar, proteção social, que 
apontam para uma situação de grave vulnerabilidade social. Para ilustrar uma dessas deficiências, nas 
aldeias citadas neste capítulo, o ano letivo de 2019 começou na segunda quinzena de julho, conforme 
apurado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Os aldeados ainda encontram dificuldades em 
acessar benefícios sociais, sofrem com roubos e retenção dos cartões de crédito, débito e benefícios 
sociais, cobrança de preços exorbitantes por alguns comerciantes, agiotagem, serviços públicos 
despreparados para lidar com as especificidades da população indígena, dentre outros desafios. 
O trabalho ora apresentado tem por objetivo destacar o papel ativo dos povos indígenas na 
construção de alternativas aos atuais estilos de desenvolvimento, por meio da articulação e 
coordenação das políticas —públicas e privadas— para a elaboração de iniciativas indutoras de 
crescimento econômico, de geração de renda, de igualdade econômica e de gênero, e de 
sustentabilidade (Cunha, 2012; Alves, 2001; Freitas, 2004; G7, 2019). A metodologia consiste na 
descrição das três ações realizadas, revisão bibliográfica e consulta a documentos e informações da 
FUNAI, à luz da abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). 
A especificidade da situação enfrentada exigiu a elaboração de um método de trabalho próprio, 
calcado: a) no levantamento dos desafios, limites e potencialidades das aldeias do povo Kanamari do Médio 
Rio Juruá; b) no mapeamento das oportunidades apresentadas por políticas, planos e projetos disponíveis 
para a região, sobretudo aqueles voltados para a promoção de igualdade, da geração de renda, da segurança 
alimentar e da valorização cultural; c) na articulação institucional com órgãos públicos e instituições privadas 
—indígenas e indigenistas— para a captação de financiamento e; d) na elaboração de projetos escolhidos 
pelos indígenas a partir do debate in loco dos anseios das populações das aldeias. 
B. Inventário etnográfico 
Ao longo do segundo semestre de 2018 e do primeiro trimestre de 2019, a equipe da Coordenação 
Técnica Local da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em Eirunepé realizou o Inventário Etnográfico da 
Cultura Material Kanamari como parte dos projetos culturais do Museu do Índio. O estudo contém uma 
descrição parcial da cultura material dos Tûkûna do Médio Rio Juruá, com ênfase no conjunto de 
utensílios decorrentes do “complexo do cultivo e do processamento” (Cunha, 2012) da mandioca, 
notadamente na fabricação dos trançados, compostos de raízes, cipós e fibras. A coleta de dados foi 
realizada em três aldeias: Beija-Flor, Flecheira e Morada Nova. 
O projeto contribuiu para o aumento do interesse dos mais jovens na produção dos teçumes e 
tomada de consciência da importância destes para o cultivo e processamento da mandioca, saber este 
que está se perdendo pela falta de transmissão às novas gerações e, ainda, pela substituição dos bens 
materiais tradicionais por objetos industrializados, principalmente de plástico. 
Foi conversado com os mais velhos, mais de uma vez, sobre a necessidade de transmitir os 
saberes tradicionais aos mais jovens na aldeia e como aproveitar o interesse despertado pelo registro 
efetuado para o projeto. Na segunda estada na aldeia Flecheira, esta conversa foi realizada com os 
professores de todas as aldeias Tûkûna ali reunidos, durante a realização de uma capacitação de 
professores indígenas pelo Programa Saberes Indígenas, parceria da Universidade Federal do 
Amazonas e do Instituto Federal do Amazonas. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 61 
 
Figura III.1 
Mandioca da variedade denominada pelos Tûkûna como “Samaúma”, aldeia Morada Nova 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
 
Figura III.2 
Mandioca da variedade identificada como “Cruvilha” pelos Tûkûna, aldeia Flecheira 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 62 
 
Figura III.3 
Mandioca roxa doada por indígenas da aldeia Jarinal e colhida da roça de isolados  
da TI Vale do Javari, aldeia Beija-Flor 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
 
Figura III.4 
Roçado com algumas variedades da mandioca em consórcio com outras espécies e floresta, aldeia Beija-Flor 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 63 
 
Por outro lado, o projeto contribuiu para a valorização dos trançados fabricados nas aldeias, cuja 
produção está diminuindo na maioria delas. Ao demonstrar interesse pelos teçumes através de entrevistas e 
registro fotográfico (classificados como cultura material), pelo seu processo de produção (classificado como 
cultura imaterial) e pelo insubstituível valor cultural de sua confecção, a equipe do projeto renovou o 
interesse de jovens na fabricação destes bens. As comunidades das aldeias sentiram uma valorização ainda 
maior da sua cultura quando souberam que o trabalho tinha como objetivo o registro para o Museu do Índio. 
 
Figura III.5 
Wadawi Gracinha Kanamari, durante a preparação do cipó Timbó para a fabricação de teçumes, aldeia Beija-Flor 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
 
Figura III.6 
Djana Eraci Kanamari, durante a confecção de teçume feito de cipó timbó, aldeia Flecheira 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 64 
 
Como consequência, houve um incremento na produção de trançados e um aumento das vendas 
na cidade de Eirunepé. Antes do primeiro trabalho de campo (julho de 2018), apenas três cestos haviam 
sido vendidos por meio da Coordenação Técnica Local (CTL) da FUNAI de Eirunepé, todos da mesma 
artesã e encomendados por um servidor da CTL. Após a realização dos trabalhos de campo nas aldeias, 
este número elevou-se consideravelmente. Ao todo, foram deixadas na CTL para venda, entre agosto 
de 2018 e outubro de 2019, quatrocentas e noventa e sete peças. Destas, foram vendidas duzentas e 
trinta e cinco, perfazendo o total de R$ 4.616,00. Do total de peças à venda, duzentas e vinte cinco são 
teçumes de diferentes tipos e matérias-primas: cestos, abanos, tipitis, vassouras e tapetes, elaborados 
com talas de patauá (Oenocarpus bataua), de bacaba (Oenocarpus bacaba), de pupunha (Bactris 
gasipaes), raízes como o “cipó”-titica (Heteropsis flexuosa) e cipós como o arumã (Ischnosiphon ovatus) 
e o timbó (Derris elliptica guianensis). No período relatado, foram comercializados cento e trinta e quatro 
trançados que renderam o valor de R$ 2.780,00. 
O incentivo à retomada da produção dos teçumes que começou em três aldeias Tûkûna logo se 
espalhou por outras quinze, inclusive da etnia Madija (Kulina) que havia perdido o hábito da confecção 
de trançados para venda que não fossem vassouras, num evidente caso de spillover. Logo, o contingente 
de artistas se ampliou para setenta e quatro, em sua grande maioria mulheres. Apenas dez homens 
produziram peças, nenhuma delas trançados: esculturas com motivos zoomórficos e remos. 
 
Figura III.7 
Novelo de fio de tucum produzido por Tsawi Dilce Kanamari 
 
Fonte: Fernando Esteban do Valle. 
 
A percepção pelas comunidades visitadas da importância dos teçumes como representação da 
cultura material Tûkûna refletiu na valorização do próprio sistema agrícola deste povo, na medida em 
que estes são interdependentes. Vale notar a enorme importância dos sistemas agrícolas indígenas para 
a manutenção da agrobiodiversidade e para a segurança alimentar, ao impedir a erosão genética e 
favorecer a conservação in situ (Cunha, 2012). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 65 
 
Em decorrência desta retomada na produção de trançados e biojóias, três artistas da etnia 
Kanamari participaram de uma rodada de negócios promovida pelo Serviço Brasileiro de Apoio às 
Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) com lojistas das regiões Sul e Sudeste, em março de 2019 na 
cidade de Benjamin Constant (AM), oportunidade em que foram vendidos cestos e biojóias, além de 
credenciar as indígenas participantes no sistema Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas 
Empresas (SEBRAE). A participação neste evento mostrou às participantes o alcance que a 
comercialização de seus produtos pode alcançar e as fez incrementar a produção de peças, com vistas 
a novos eventos do mesmo tipo. 
Outro efeito do projeto foi despertar o interesse pelo retorno às matérias-primas tradicionais 
como, por exemplo, o fio de tucum (Astrocaryum aculeatum), substituído pelo fio de nylon e que poucas 
pessoas hoje querem e sabem fazer. 
C. A construção de casas de farinha 
A segunda ação descrita neste estudo de caso é a construção de casas de farinha nas três aldeias que 
foram contempladas pelo Projeto de Inventário Etnográfico. O Inventário permitiu que as aldeias 
significassem a relação entre sua tradição e o cultivo da mandioca, valorizassem seu próprio modo de 
cultivo e pensassem em alternativas para melhor aproveitar seus potenciais econômicos. O projeto de 
construção de casas de farinha foi então pensado pelos indígenas como opção que permitiria maior 
segurança alimentar para as aldeias e incremento de renda com a venda da farinha excedente. O projeto 
foi financiado pela Coordenadoria Ecumênica de Serviços (CESE), obteve apoio contábil do Conselho 
Indigenista Missionário (CIMI) e contou ainda com auxílio técnico da FUNAI para a elaboração de 
pesquisa de preços, comunicação entre as partes interessadas e a logística da entrega dos maquinários. 
A construção de uma casa de farinha era demanda antiga da comunidade Flecheira, que há alguns 
anos já havia percebido a importância da farinha para a segurança alimentar da aldeia e o potencial 
desse produto para a venda. A transformação da mandioca em farinha possibilita à comunidade o 
estoque de quantidade segura de alimento em tempos de estiagem ou de possível escassez, 
prolongando a vida do alimento e reduzindo as perdas do cultivo da mandioca. Ademais, existe um 
movimento crescente de (re)valorização dos produtos agrícolas das terras indígenas, por serem 
majoritariamente advindos de sementes e mudas de plantas que não passaram por processos de 
melhoramento em laboratório (transgenia), tampouco pelo uso de agrotóxicos. Neste aspecto, 
vislumbra-se a entrada da farinha produzida nos novos nichos de mercado em expansão como os 
sustentáveis e veganos. 
A primeira fase do projeto consistiu no esboço pelos indígenas de desenhos de roçados e de como 
e onde gostariam de construir as casas de farinha. Ainda na primeira fase, a comunidade Flecheira expôs 
a intenção de contribuir para a construção de outras casas de farinha nas aldeias do seu entorno, as quais 
haviam sido igualmente beneficiadas pelas atividades do inventário etnográfico. O projeto de 
construção de casas de farinha foi, então, redigido e enviado para a CESE. O projeto foi aprovado no 
mês de março de 2019, com investimento de R$ 9.000,00. Os produtos necessários (como motor, chapa 
para o forno, telhas de alumínio, combustível etc.) foram adquiridos no mês de maio e a construção 
iniciada ainda no mês de junho. No fim do mês de julho, a aldeia Flecheira concluiu a obra na 
comunidade e passou a acompanhar a conclusão das construções nas demais aldeias. 
A construção foi coordenada pela cacique da aldeia Flecheira: Marohen Luzia Kanamari. 
A cacique delegou funções, agiu dirimindo conflitos internos e externos e convidou os jovens para ajudá-
la tanto nas compras dos materiais quanto na execução e filmagem da construção. As filmagens e fotos 
serviram de apoio para comprovar à CESE (fonte de financiamento) a seriedade e a consecução dos 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 66 
 
objetivos do projeto. O CIMI igualmente fiscalizou a execução das atividades e coletou as notas fiscais 
das compras do projeto, sendo também o órgão que administrou os recursos e efetuou os pagamentos. 
Em números, as casas de farinha beneficiam trezentos e trinta e seis indígenas nas três aldeias. 
A construção e o funcionamento das três Casas de Farinha contam com a participação de setenta e cinco 
mulheres e quarenta e cinco jovens. Aproximadamente quarenta famílias se beneficiarão com o 
acréscimo de renda. Considerando que a saca de farinha (50 kg) é comercializada na região por preços 
que variam de R$ 70,00 a R$ 150,00 reais, estimamos que a economia média gerada para os indígenas 
será de R$ 350,00 anuais por família de cinco pessoas (dois adultos e três crianças). Os núcleos familiares 
dessas três aldeias possuem, em sua maioria, o benefício social Bolsa Família como uma das principais 
fontes de renda (SIBEC, s/d). Com o projeto Casa de Farinha, estimamos em média 11,17% ao ano o 
acréscimo de renda anual com a economia da compra da farinha; desoneração entre 11,21% e 55,56% 
da renda familiar no mês em que se faria necessária a compra de uma saca de farinha e; eventual venda 
de excedente destinado a complementar a renda (gráficos III.1 e III.2). O Projeto demonstrou ter um 
custo de implementação relativamente baixo quando comparado ao incremento de renda e 
desoneração esperados em um ano. Com base nas estimativas acima, nas três aldeias seriam 
consumidas duzentas e quarenta e seis sacas de farinha por ano, o que custaria R$ 24.600,00, 
demonstrando que o projeto cobriria seus custos em menos de cinco meses. 
 
Gráfico III.1 
Impacto no orçamento anual com a compra de sacas de farinha nos grupos familiares  
das aldeias Beija-flor, Flecheira e Morada Nova 
(Em porcentagem) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Elaboração própria com base em dados apurados pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). 
 
Considerando a produção anual1 de 313.000 pés de mandioca nas três comunidades deste estudo, 
estima-se uma produção potencial de 105.000 quilos de farinha, equivalentes a 2.100 sacas de farinha. 
Considerando que o SEBRAE (2012) estimou o consumo de farinha na região Norte do Brasil em 
23,54 quilos per capita ao ano e que a realidade indígena supera em muito esta estimativa, calculamos 
                                                                      
1  Dados de produção obtidos a partir dos relatórios da FUNAI e IDAM sobre o levantamento de produção agrícola na cidade de 
Eirunepé-AM. 
30
%
6% 5% 8% 7% 6% 1
1%
8%
15
%
8%
25
%
12
%
46
%
6% 7% 7% 7% 6
% 9% 8% 8% 6% 7
% 13
%
6% 9% 1
2%
7% 8% 6% 6
%
36
%
12
%
7%
0%
5%
10%
15%
20%
25%
30%
35%
40%
45%
50%
Be
ija
-F
lo
r 1
Be
ija
-F
lo
r 2
Be
ija
-F
lo
r 3
Be
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-F
lo
r 4
Be
ija
-F
lo
r 5
Be
ija
-F
lo
r 6
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ija
-F
lo
r 7
Be
ija
-F
lo
r 8
Be
ija
-F
lo
r 9
Be
ija
-F
lo
r 1
0
Fl
ec
he
ira
 1
Fl
ec
he
ira
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Impacto no orçamento anual por grupo familiar em cada aldeia Média: 11,2%
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 67 
 
que um adulto indígena (maior de 16 anos) comeria em média uma saca de farinha por ano e uma criança 
ou adolescente meia saca, o que representa o consumo de 35 quilos de farinha por membro ao ano, 
considerando uma família com dois adultos e três crianças. Com tais dados, estimamos o consumo nas 
três aldeias em 246 sacas de farinha ao ano, com o potencial para venda de 1.854 sacas de farinha, o que 
representaria R$ 185.400,00 a serem revertidos para as comunidades. 
Deve ser ressaltado que nem todos os membros das comunidades indígenas possuem renda (salário, 
aposentadoria, benefícios sociais ou Bolsa Família), dependendo exclusivamente da produção de 
subsistência e da ajuda de familiares e da comunidade. A implantação das Casas de Farinha possibilita, dessa 
forma, a geração de renda para esses núcleos familiares ainda mais vulneráveis socialmente. 
 
Gráfico III.2 
Impacto no orçamento mensal com a venda de uma saca de farinha nos grupos familiares  
das aldeias Beija-Flor, Flecheira e Morada Nova 
(Em porcentagem) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Elaboração própria com base em dados apurados pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). 
 
A produção de farinha, por sua vez, estimula a reprodução do sistema agrícola indígena ao 
reafirmar os saberes desses povos como uma capacidade tecnológica que agrega valor à farinha 
produzida nas aldeias e a diferencia das demais. Como consequência, há o incentivo para a produção e 
comercialização de um melhor produto, consolidando um processo produtivo mais sustentável, que se 
distingue dos outros por basear-se em sistemas agroflorestais de baixo impacto. Ademais, o maquinário 
de produção da farinha de mandioca pode ser utilizado para a produção da farinha de buriti e de 
andiroba, por exemplo, que são as bases para se extrair óleos muito valorizados, principalmente pela 
indústria cosmética e farmacêutica, possibilitando ganhos de escopo consideráveis. Sob a perspectiva 
ambiental, a produção de farinha também reduz a queima de combustíveis, uma vez que as 
comunidades não necessitam mais comprar e transportar a farinha da cidade para a aldeia ou adquiri-la 
por meio de vendedores que se deslocavam até as aldeias, bem como a redução de embalagens não 
biodegradáveis nas comunidades. Nota-se que na experiência de plantio da mandioca e produção de 
farinha obedecendo aos moldes indígenas, as dimensões econômica, social e ambiental são 
indissociáveis. O plantio sustentável agrega valor à farinha produzida, reduz as disparidades sociais, 
estimula a produção de teçumes, valoriza o papel de mulheres e meninas, traz ganhos de escopo ao ser 
utilizado para beneficiar outras matérias primas e revigora os laços comunitários de cooperação. 
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Impacto no orçamento mensal por grupo familiar em cada aldeia Média: 23,3%
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 68 
 
D. Chamada pública para alimentação escolar 
Entre agosto de 2018 e maio de 2019, foram realizadas diversas atividades para a inclusão dos indígenas do 
município de Eirunepé na primeira Chamada Pública para Aquisição de Gêneros Alimentícios da Agricultura 
Familiar lançada pela Prefeitura Municipal em conformidade à política nacional de regionalização da 
alimentação escolar e às recomendações do Ministério Público Federal do Estado do Amazonas. 
A primeira ação realizada neste sentido foi o levantamento das condições de produção das 
famílias de cada uma das trinta e quatro aldeias existentes no município de Eirunepé. O levantamento 
confirmou e atualizou as informações prévias em posse da Coordenação Técnica Local de Eirunepé 
sobre as aldeias com maior quantidade e variedade de produção de alimentos. Também contribuiu para 
estabelecer prioridades na emissão das Declarações de Aptidão ao Programa Nacional de Agricultura 
Familiar (DAP), já que o representante do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal 
Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) estabeleceu um teto de quatro DAPs por aldeia na primeira 
fase de emissão. Desta forma, escolhemos as aldeias e famílias com produção mais significativa e com 
maior proximidade das escolas destinadas a receber os gêneros alimentícios. 
A participação dos indígenas na Chamada Pública representou significativo avanço das parcerias 
institucionais da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) com o Ministério Público Federal (MPF), o Fundo 
Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e 
Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) e a Prefeitura Municipal de Eirunepé (PME). Tais 
parcerias resultaram na articulação e coordenação de políticas públicas e privadas para o incremento do 
financiamento de projetos geradores de renda, com diminuição das desigualdades econômicas e de 
gênero, e com a indução do desenvolvimento sustentável. 
As expedições às aldeias permitiram o mapeamento e georreferenciamento da produção de 
alimentos das aldeias do município, trabalho pioneiro no âmbito da FUNAI e das próprias 
administrações de municípios com população indígena. 
O simples trabalho de levantamento da produção com vistas à participação na Chamada Pública 
de Aquisição de Gêneros para Alimentação Escolar gerou um estímulo à ampliação da produção agrícola 
indígena, abriu uma janela de oportunidade para a inserção no mercado local e, sobretudo, para o 
suprimento de um órgão oficial. Nos meses seguintes, verificou-se o aumento de volume e de variedade 
na produção agrícola nas aldeias com o objetivo de atender à demanda do mercado local. 
A iniciativa também gerou um aumento da visibilidade da produção agrícola indígena e 
consequente diminuição do preconceito em relação a eles. Este ponto é muito importante, pois o 
preconceito dos moradores da cidade é muito grande. Já os ribeirinhos que conhecem as aldeias se 
referem aos indígenas como trabalhadores e honestos, como pudemos constatar entre os moradores 
das comunidades nas visitas às aldeias. 
O saldo foi extremamente positivo: o trabalho estimulou o incremento e diversificação da 
produção de alimentos nas aldeias; incrementou o interesse na emissão de DAPs e consequentemente, 
na retirada de documentos, permitindo acesso a uma série de benefícios e programas governamentais; 
aumentou o conhecimento das políticas públicas de estímulo à produção agrícola; gerou o 
reconhecimento ao trabalho da Coordenação Técnica Local e seus parceiros após um período de 
descrença. Com tudo isso, foram emitidas 26 DAPs entre os 61 indígenas que entregaram 
documentação, ainda que incompleta. 
Em decorrência do trabalho de divulgação da chamada pública, levantamento da produção das 
aldeias, emissão de DAPs e elaboração das propostas, os indígenas apresentaram 26 projetos de venda, 
em 13 aldeias, sendo 12 delas Tûkûna. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 69 
 
E. Relação do caso estudado com o Big Push para a Sustentabilidade 
Consoante à ideia do Big Push para a Sustentabilidade, caberia aos países em desenvolvimento pensar 
na construção de capacidades endógenas para alterar a estrutura produtiva e preservar o meio 
ambiente (CEPAL, 2016; CEPAL, 2018; CEPAL/FES, 2019). Com efeito, os saberes e tradições indígenas, 
a relação com a natureza e mesmo a cosmologia indígena configuram uma base fértil para a concepção 
dessas capacidades e para a produção intelectual e proposição de soluções adaptadas e sustentáveis, 
tanto para o contexto amazônico, quanto para outras regiões do mundo. 
Os resultados dos três esforços descritos neste estudo sugerem que iniciativas que visem trazer 
soluções de desenvolvimento para o Amazonas serão eficazes à medida que contemplem as raízes 
indígenas, reconheçam a força das mulheres nas aldeias, sejam sustentáveis e colaborativos. Isto se deve ao 
fato de que a cultura indígena é como um mapa das adversidades e potenciais da floresta e, por isso, deve 
ser estudada e observada antes de se propor qualquer projeto para a região. Da mesma forma, as mulheres 
são a base para a disseminação da cultura e para a perpetuação de qualquer ideia. A participação das 
mulheres é essencial em qualquer projeto que almeje propor soluções reais de desenvolvimento. 
O levantamento etnográfico de cultura material relaciona-se com a proposta do Big Push para 
Sustentabilidade ao propor uma articulação entre a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e os povos 
Tûkûna da região no sentido de catalogar e valorizar a agricultura indígena. O trabalho apontou a 
importância dos cultivos múltiplos, da rotação de culturas e dos sistemas agroflorestais de baixo 
impacto, que servem como modelo de práticas sustentáveis, principalmente quando comparadas com 
a monocultura extensiva. Segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária 
(EMBRAPA) Raimundo Nonato Brabo Alves (Alves, 2001), os sistemas de plantio dos povos tradicionais 
do Amazonas são dotados de sofisticação, na medida em que criam barreiras biológicas que reduzem a 
propagação de pragas e doenças, devido à alta variabilidade genética das espécies cultivadas. Segundo 
este autor: “Os indígenas da Amazônia desenvolveram sistemas de manejo de agroecossistemas que 
podem e devem servir de referência para novos sistemas de uso da terra, dentro do conceito de 
sustentabilidade que a sociedade atualmente exige” (ibid.). 
Outra evidência da sofisticação e da complexidade dos conhecimentos associados aos sistemas 
agrícolas indígenas é o uso controlado do fogo para a limpeza e adubação da terra. Elemento básico no 
plantio, ele envolve conhecimentos climáticos, astronômicos e sobre ecologia comportamental. 
Diferente do que acontece na agricultura de coivara praticada por não índios, ele raramente sai do 
controle e, quando isso acontece, existem diferentes formas de controlá-lo (Leonel, 2000). 
O levantamento de espécies e de tipos de cultivo nas três aldeias em estudo constatou a importância 
dos sistemas agrícolas tradicionais, entre eles os indígenas da agricultura tradicional para a conservação 
in situ e, mais especificadamente, on farm, ou seja, aquela que os agricultores tradicionais desenvolvem 
quando mantêm a diversidade de cultivares em seus roçados. A agricultura indígena, ao manejar a floresta 
de uma forma menos impactante, garante a permanência e renovação das espécies, fato que contribui para 
minimizar os efeitos das mudanças climáticas e é estratégica para manutenção da segurança alimentar dos 
povos. Neste quadro, a biodiversidade e os conhecimentos indígenas associados constituem elementos cada 
vez mais importantes em países megadiversos como o Brasil (Cunha, 1999 e 2012). 
Ponto central da discussão do Big Push para a Sustentabilidade é a geração de capacidades 
tecnológicas com fins para o desacoplamento entre crescimento econômico e emissões de gases efeito 
estufa (GEE). O pensamento cepalino é que tecnologias sociais, como as práticas sustentáveis 
desenvolvidas pelos povos tradicionais, inserem-se no contexto do fortalecimento do sistema nacional 
de inovação (CEPAL/FES, 2019). O caso estudado neste capítulo se relaciona diretamente com as três 
eficiências norteadoras do Big Push para a Sustentabilidade (ibid.). Neste sentido, espera-se que os 
produtos indígenas, por demonstrarem ser intensivos em conhecimento acumulado, amparado em 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 70 
 
saberes tradicionais, e mais sustentáveis, apresentem maior valor agregado e maior produtividade, em 
alinha com a eficiência schumpeteriana, que preconiza que uma matriz produtiva mais integrada, 
complexa e intensiva em conhecimento gera externalidades positivas de aprendizagem e inovação que 
se irradiam para toda a cadeia de valor. Ademais, os produtos indígenas atendem igualmente às 
demandas crescentes de mercados compostos por consumidores mais conscientes e que balizam suas 
decisões levando em consideração o impacto ambiental do seu consumo, o que se relaciona com a 
eficiência keynesiana. Esta eficiência destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo da 
especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. A entrada da farinha produzida 
em novos nichos de mercado e o atendimento à chamada pública para alimentação escolar como são 
simbólicos de como o caso estudado se alinha com a eficiência keynesiana. Finalmente, a terceira 
eficiência norteadora do Big Push para a Sustentabilidade diz respeito à clássica eficiência do 
desenvolvimento sustentável no seu tripé econômico, social e ambiental. Os indicadores reportados ao 
longo deste estudo demonstram que o caso estudado também apresenta relação com essa eficiência. 
Produtos como a farinha, os óleos e outros quando produzidos nos moldes tradicionais serão 
potencialmente incluídos em outras fatias de mercado como os mercados sustentáveis, veganos, dentre 
outros, que estão em franca expansão (CGS, 2019). Destarte, a produção pelas comunidades 
tradicionais configuraria exemplo de como a economia nacional poderia ganhar com a disseminação de 
tecnologias sociais como aquelas aplicadas no processo de plantio tradicional. Os ganhos provenientes 
dessas tecnologias sociais e a destinação desses produtos aos mercados sustentáveis configurariam 
exemplos de eficiências do tipo keynesiana, uma vez que esse tipo de eficiência pressupõe o 
direcionamento da produção para mercados em crescimento e com demandas mais inelásticas em 
relação a uma variação no preço do produto. 
O projeto de construção de casa de farinha, por sua vez, reuniu esforços endógenos e 
institucionais, em que participam instituições não governamentais e órgãos públicos. Os resultados 
obtidos localmente convergem para a consecução das metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento 
e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS; ONU, 2015). O primeiro aspecto digno de 
análise é o reforço à igualdade em nível local (ODS 10). A economia e renda geradas com a produção da 
farinha reverberam em maior segurança alimentar e redução da desigualdade social. Apesar de as 
comunidades em estudo viverem em porções de floresta que lhes permitem certa abundância de 
recursos naturais, a necessidade de compra de bens como combustível, remédios, roupas, produtos de 
limpeza e higiene pessoal e outros utensílios industrializados compõem quase a totalidade dos gastos 
dos indígenas aldeados. Dessa forma, o acréscimo de renda gerado pela produção de farinha permitirá 
acesso a uma cesta de consumo mais variada e uma maior segurança alimentar e social. 
O segundo aspecto é a construção de capacidades (ODS 9). As aldeias contempladas neste 
projeto protagonizaram uma intensa troca de saberes tradicionais e científicos. No que diz respeito aos 
conhecimentos tradicionalmente indígenas, houve a ressignificação e a reprodução de valores 
compartilhados como a cooperação e o senso de coletividade. A distribuição de tarefas reconheceu as 
potencialidades e as limitações de todos os colaboradores. Os mais afeitos à tecnologia se dispuseram 
a elaborar vídeos e fotos das etapas do projeto. Algumas mulheres contribuíram na construção, 
enquanto outras carpiram ou levaram comida para quem trabalhava. Nota-se que entre os Tûkûna não 
se impõe às mulheres nenhuma limitação de gênero para a realização de quaisquer tarefas. Os homens 
mais experientes se dispuseram a ensinar os mais jovens, alguns cortaram madeira para a estrutura da 
casa e outros também trouxeram comida para os colaboradores. Nos vídeos, percebem-se também 
crianças auxiliando de alguma forma nos trabalhos e aprendendo na prática os saberes ancestrais. 
Quanto ao compartilhamento de conhecimentos modernos e tecnológicos, alguns indígenas que 
haviam recebido treinamento do IDAM sobre melhoramento das práticas de produção de farinha, 
tiveram a oportunidade de transmitir técnicas de como produzir uma farinha de melhor qualidade e de 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 71 
 
menor acidez. Ademais, disseminou-se conhecimento sobre uso de aparelhos como motores e prensas 
mecânicas, bem como sobre funcionamento de peças do maquinário da casa de farinha, por exemplo. 
O projeto de construção de Casas de Farinha também demonstrou considerável efeito 
multiplicador. A Coordenação-Geral de Promoção ao Etnodesenvolvimento (CGETNO) da FUNAI, com 
sede em Brasília, teve ciência do projeto piloto e estimulou que a Coordenação Técnica Local elaborasse 
um projeto idêntico para outras dez aldeias da região. O projeto foi aprovado, os insumos já foram 
adquiridos e esperam pela cheia do Rio Juruá para que sejam transportados às aldeias. Outro efeito 
multiplicador foi que a Coordenação Técnica Local da FUNAI realizou visita técnica à Associação dos 
Trabalhadores Agroextrativistas de Eirunepé (ATAE) com o intuito de coordenar futura parceria para 
elaboração de um plano de trabalho de produção indígena de óleos de buriti e de andiroba. A ATAE não 
apenas se mostrou aberta para comprar os óleos produzidos pelos indígenas, mas também se dispôs a 
realizar treinamento para garantir a qualidade na extração dos óleos, gerando a expansão para mercado 
novos, promovendo a eficiência keynesiana. 
Por último, o terceiro esforço descrito neste trabalho também se insere no contexto do Big Push para 
a Sustentabilidade e do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). De fato, a Chamada 
Pública para Aquisição de Gêneros Alimentícios da Agricultura Familiar representa uma articulação entre 
atores estatais para cumprir normativa do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A 
alimentação escolar nas aldeias, quando fornecida pelos próprios povos tradicionais, oferece melhores 
condições de saúde, aprendizado e segurança alimentar e nutricional para os alunos, alcançando o ODS 2: 
“Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura 
sustentável”. Adicionalmente, os esforços para a Chamada Pública geraram spillovers como, por exemplo, o 
estímulo para que outras famílias, aldeias e, inclusive, etnias se interessassem para participar dos próximos 
editais de aquisição de alimentos, buscando o serviço de emissão de DAPs por parte da parceria FUNAI e 
IDAM. Outra externalidade positiva é a evidente redução das emissões de carbono e do acúmulo dos resíduos 
sólidos, gerando eficiência ambiental, uma vez que o transporte da alimentação escolar da cidade para as 
aldeias é caro e prejudicial ao meio ambiente, pois utiliza combustíveis fósseis e deixa nas aldeias materiais 
de difícil destinação, como plástico, isopor e latas. 
A chamada pública foi realizada com a colaboração de pelo menos cinco instituições, a saber, o 
Ministério Público Federal (MPF), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o 
Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas (IDAM), a Fundação Nacional do 
Índio (FUNAI), e a Prefeitura Municipal de Eirunepé. Os atores em questão ao se depararem com o 
problema coletivo de fornecer alimentação escolar de qualidade e de forma sustentável passaram a 
interagir de forma a combinar esforços e assumir compromissos, primeiro separando tarefas e depois 
atuando como fiscais mútuos. A separação de tarefas não excluiu nenhum agente de participar de uma 
das etapas do processo, mas sim garantiu que os órgãos estabelecessem parcerias na realização de 
tarefas e dependessem um do outro para a consecução dos compromissos assumidos. O trabalho em 
conjunto permitiu, dessa forma, que a gestão (governance) fosse mais sofisticada, bem como que o 
cumprimento de diretrizes (compliance) se desse de forma eficaz. Este é mais um ponto que dialoga com 
a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, que ressalta o papel central da articulação e da 
coordenação para que os investimentos sustentáveis sejam efetivos. Ademais, o processo como um 
todo se tornou mais transparente e menos oneroso. 
F. Conclusão 
O estilo de desenvolvimento predominante vem se mostrando insustentável, tanto no que diz respeito 
à capacidade de gerar renda de forma equânime, quanto aos impactos negativos ao meio ambiente. No 
Brasil, a Amazônia ainda é um espaço em que se pode propor algo suficientemente eficaz e inovador 
que combine crescimento econômico, igualdade e sustentabilidade. O grande impulso (Big Push) 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 72 
 
proposto pela CEPAL como eixo ordenador para uma trajetória de desenvolvimento sustentável é, de 
fato, importante marco para se pensar soluções sustentáveis para o crescimento econômico. Com 
efeito, neste estudo, não se pretendeu sugerir um novo estilo de desenvolvimento para a Amazônia ou 
para o Brasil, pois não parece razoável a formulação de um projeto acabado e passível de reprodução 
em larga escala quando direcionado para uma região tão diversa e plural. Entretanto, não parece haver 
solução suficientemente eficaz para o contexto amazônico sem levar em consideração alguns pontos 
levantados neste estudo de caso como, por exemplo, os saberes indígenas, a valorização do papel das 
mulheres, o foco no indivíduo e a importância do trabalho em comunidade. 
O Big Push para a Sustentabilidade discute a inserção do Brasil em cadeias de produção com 
maior produtividade, remuneração e formalidade. Quando se analisam soluções adaptadas para o 
contexto amazônico, uma visão antropológica precisa ser levada em consideração. Os indígenas, em 
sua grande maioria, não compartilham dos mesmos valores e aspirações da sociedade não-indígena. 
O aumento da produtividade almejado consensualmente, não pode ser incorporado em proposições 
que representem uma negação à cultura indígena ou que imponham um ritmo de trabalho incompatível 
com os modos de vida dos povos tradicionais, tampouco que venha a dirimir o senso de cooperação e 
coletivismo que lhes são tão caros e característicos. 
O Big Push para Sustentabilidade, enquanto conceito ainda em construção, pode configurar um 
salto para a compreensão da própria geração de riqueza. A ciência econômica é concebida, em grande 
medida, como o estudo da alocação de recursos escassos. Em grande parte da literatura, eficiência e 
igualdade se contrapõem, nos termos de Okun (1975), trata-se da “grande concessão” (the big tradeoff). 
A consequência imediata dessa interpretação é pensar as relações econômicas como jogos de soma zero, 
em que sempre um agente ganha e outro perde. Quando partimos da lógica da eficiência sustentável, do 
trabalho comunitário e da valorização do indivíduo, percebemos economias de ganhos múltiplos, sem a 
necessidade da figura de um “patrão” ou outro agente que se aproprie do valor do trabalho. 
Sugere-se um novo olhar sobre a questão do desenvolvimento em que a prosperidade econômica 
não fosse o centro da questão, mas que convergisse e se colocasse a serviço das satisfações e anseios 
mais complexos do ser humano, como por exemplo, a necessidade de estar em grupo, de estar em 
comunhão com a natureza, de celebrar e de se conectar com seu trabalho e produzir algo com 
significado genuíno. Neste ponto dá-se a valorização do indivíduo. 
Poderia também se constituir um think tank que trabalhasse levando em consideração as 
sinergias apontadas acima. Quando ampliamos o escopo da análise para o plano internacional e 
pensamos na América Latina e no Caribe, percebemos que as raízes indígenas são traço comum de 
todos os países da região. Destarte, a abordagem seguida neste caso em estudo poderia configurar 
importante direcionamento para iniciativas em conjunto ou mesmo de integração regional que 
pensassem uma solução endógena para o desenvolvimento da América Latina e Caribe. 
Por último, nota-se a preocupação da CEPAL para que o Big Push para a Sustentabilidade seja 
uma abordagem prática, buscando incorporar lições aprendidas para aperfeiçoar a própria teoria. Neste 
sentido, o presente estudo de caso não somente apresenta uma aplicação desta abordagem, mas 
também é beneficiado por ela. O esforço de pensar a aplicação da teoria à prática resultou em um 
processo de significação das ações realizadas pela Coordenação Técnica Local da FUNAI em Eirunepé, 
permitindo que os servidores e autores do artigo enxergassem pontos de confluência das diversas 
atividades realizadas, bem como dos spillovers, feedbacks e externalidades positivas dessas. O recorte 
teórico cepalino permitiu, no caso concreto, a visualização dos benefícios da coordenação de ações e 
parcerias, oportunizando a elaboração de um quadro de futuras oportunidades, que sinalizam para uma 
mudança estrutural sustentável, que representa o grande salto que os Tûkûna podem protagonizar. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 73 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 75 
 
IV. Polímeros Verdes: tecnologia para promoção  
do desenvolvimento sustentável 
Adriana Mello*  
Jorge Soto* 
José Augusto Viveiro** 
Resumo 
O objetivo desse estudo é analisar o Polietileno Verde (PE Verde) desenvolvido pela Braskem sob a ótica 
do Big Push para a Sustentabilidade da CEPAL. A produção de polímeros a partir de fontes renováveis 
está em estágio embrionário e a Braskem faz sua parte com a introdução no mercado de uma tecnologia 
de produção de resina usando cana-de-açúcar como matéria-prima. Conforme demonstrado no estudo, 
o PE Verde é um exemplo de investimento que promove o desenvolvimento sustentável, e seus 
benefícios estão alinhados com a Agenda 2030. Para seu sucesso foram necessários investimentos 
tecnológicos, parcerias com fornecedores, clientes e com o governo, sempre considerando os impactos 
econômicos e socioambientais. Entendemos que a produção de produtos com base em insumos 
renováveis é o caminho da química do futuro. Além do PE Verde, outros produtos foram desenvolvidos 
ou estão em desenvolvimento pela Braskem. Essa abordagem pode ter escala ampliada em toda na 
América Latina se políticas públicas que incentivem a economia de baixo carbono forem fortalecidas.  
  
                                                                      
*  Gestão em Desenvolvimento Sustentável, Braskem. 
**  Negócios de Químicos Renováveis, Braskem. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 76 
 
A. Introdução 
A Braskem é a sexta maior produtora de resinas plásticas do mundo1 (Braskem, 2019), com 41 unidades 
industriais em quatro países (Brasil, Estados Unidos, México e Alemanha) e capacidade anual de 
produção de 8,9 milhões de toneladas de resinas termoplásticas (Polietileno, EVA, Polipropileno e 
Policloreto de Vinila) e 10,7 milhões de toneladas de químicos básicos (como Eteno, Propeno, 
Butadieno, Bezeno, entre outros). A empresa atende clientes em mais de 100 países que pertencem aos 
mais diversos segmentos produtivos, tais como embalagens alimentícias, construção civil, industrial, 
varejo, automotivo, agronegócio, saúde e higiene, dentre outros. 
O propósito da Braskem é melhorar a vida das pessoas através da criação de soluções sustentáveis da 
química e do plástico, de modo que o desenvolvimento sustentável está intrinsecamente vinculado à forma 
de conduzir e desenvolver os negócios da Braskem. A Política Global de Desenvolvimento Sustentável 
(PGDS) da Braskem é pautada em três pilares: operações e serviços cada vez mais sustentáveis, portfólio de 
produtos cada vez mais sustentável e soluções para uma vida cada vez mais sustentável. 
Além de nosso compromisso público com a sustentabilidade, a Braskem entende que há uma 
forte pressão externa do mercado, sociedade e governos para uma economia de baixo carbono e que, 
por destacar-se como um relevante ator do setor químico mundial, deve conduzir seu negócio pensando 
em estratégias que vão muito além do simples cumprimento de requisitos legais socioambientais.  
Os compromissos assumidos por 185 nações no Acordo de Paris (CQNUMC, 2015) para manter o 
aumento da temperatura média global abaixo de 2°C2 até o final deste século, reforçam ainda mais a 
necessidade de uma rápida mudança de padrão nos meios de produção e consumo atuais. Em diversos 
canais de comunicação, especialistas vêm concentrando suas atenções ao que chamam de uma Nova 
Revolução Industrial, na qual a inovação tecnológica será protagonista e a eficiência do uso de recursos 
e a transição energética de fósseis para renováveis um importante meio. 
De maneira a alcançar as metas do Acordo de Paris, durante a Conferência das Partes (COP, da 
sigla em inglês) 22 em Marrakesh em 2016, líderes de 20 países lançaram a Plataforma Bi future (do 
inglês, Bi future Platform), com o objetivo geral de aumentar o uso de fontes de baixo carbono (foco em 
biomassa) como matéria-prima para a produção de energia (setor de transportes), produtos químicos, 
plásticos e outros setores. Quatro países da América Latina fazem parte dessa Plataforma —Brasil, 
Argentina, Uruguai e Paraguai— sendo o governo brasileiro secretário interino desde sua concepção.  
Haverá necessidade de investimentos consideráveis para se adequar à essa nova Revolução 
Industrial e a Braskem faz sua parte com a introdução no mercado de uma tecnologia para produção de 
Polietileno (PE) com eteno da cana-de-açúcar —denominado PE Verde, que faz parte da marca Em 
rentem da Braskem. A inauguração de uma única nova fábrica demonstrou um grande impacto no 
mundo dos plásticos verdes e a Braskem logo se tornou a empresa líder mundial no fornecimento de 
biopolímeros. A iniciativa gerou, e ainda gera, empregos e renda, promove o desenvolvimento rural e 
contribui diretamente para a melhoria da balança comercial brasileira, já que agrega valor ao produto 
nacional, ao invés de o Brasil exportar a matéria-prima. Esse caso pode ser visto como um exemplo de 
como o país pode agregar valor à cana-de-açúcar, um produto que é fruto de seu amplo capital natural, 
por meio de inovação, geração de competências tecnológicas e boas práticas sustentáveis. Esses 
processos permitem uma maior sustentabilidade do crescimento econômico de longo prazo, ao 
promover um maior encadeamento produtivo, subir na cadeira de valor (move up the value chain) e 
permitir um aumento da produtividade, além de contribuir com uma maior sustentabilidade ambiental. 
                                                                      
1  Considerando Polietileno (PE), Polipropileno (PP) e Policloreto de vinila (PVC). 
2  Em relação aos níveis pré-industriais. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 77 
 
Assim, o objetivo desse estudo é analisar o caso do PE Verde, produzido pela Braskem desde 
2010, sob a ótica dos delineamentos teóricos do Big Push para a Sustentabilidade desenvolvidos pela 
CEPAL (CEPAL/FES, 2019). Ainda, busca-se identificar relações entre esse produto e a Agenda 2030 e 
seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável3 (ODS; ONU, 2015). O método utilizado nesse 
estudo consiste na utilização de dados internos oficiais da Braskem, relatórios públicos e/ou entrevistas 
com especialistas nos temas em questão, e em revisão de bibliografia pertinente, principalmente 
aquelas relacionadas ao setor químico global e ao desenvolvimento sustentável.  
O próximo item desse estudo de caso (Seção B) apresenta uma descrição das principais 
características do PE Verde e o histórico de sua produção pela Braskem. Já na Seção C é realizada uma 
análise da capacidade de mobilização de investimentosa partir do PE Verde. Na Seção D, são expostos 
os principais impactos ambientais, sociais e econômicos do PE Verde. A Seção E traz as convergências 
entre o caso do PE Verde da Braskem e a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade desenvolvida 
pela CEPAL, incluindo uma avaliação da capacidade de mobilização de investimentos sustentáveis 
dessa tecnologia no Brasil. Por fim, a Seção F apresenta as conclusões do estudo de caso, com foco nos 
desafios e oportunidades para o Big Push. 
B. O PE verde da Braskem 
A produção de polímeros é um ramo importante da indústria petroquímica global e inclui os produtores 
de primeira, segunda e terceira geração, de acordo com a fase de transformação dos diversos insumos. 
A produção mundial de polímeros em 2017 foi de 348 milhões de toneladas (Plastic Europe, 2019), dos 
quais cerca de 99% são produzidos a partir de fontes de matérias primas fósseis. Estima-se que, no 
Brasil, o setor de transformação plástica emprega mais de 300 mil pessoas4. 
A primeira geração (unidades de Crackers) é responsável por fracionar nafta, gás natural ou 
etanol, transformando-os em petroquímicos básicos, isto é, olefinas (ex.: eteno, propeno, butadieno) e 
aromáticos (por exemplo, benzeno, xilenos). O eteno e o propeno são transportados por meio de 
gasodutos para os produtores da segunda geração, que processam os petroquímicos básicos e geram 
produtos químicos intermediários na forma líquida ou em pó, que incluem os polímeros (tais como 
polietileno, EVA, polipropileno, entre outros). Os produtos químicos intermediários são então utilizados 
como insumo pelos produtores de terceira geração que, basicamente, produzem objetos plásticos 
(incluindo embalagens, peças veiculares, materiais de saúde etc.). 
A tecnologia empregada pela Braskem utiliza o etanol proveniente da cana-de-açúcar em suas 
unidades de Crackers, ao invés da nafta ou gás natural, para produção de eteno, que é posteriormente 
utilizado em suas plantas de segunda geração para produção de polietileno, denominado I’m green™ 
PE que, por ser produzido a partir de fontes renováveis, captura gás carbônico, colaborando para a 
redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa. 
O uso de etanol para produção de eteno é uma técnica relativamente antiga. Na década de 1970, 
quando o Brasil implantou o Programa Nacional do Álcool (o Pró Álcool), a Petrobras desenvolveu uma 
tecnologia5 que foi utilizada para projetar uma fábrica no Brasil (ex-Salgema, que agora pertence à 
Braskem). Esta foi considerada a maior usina de etanol para eteno na época, porém foi desativada na 
                                                                      
3  Compromisso público no âmbito da ONU com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), contendo um total de 
169 metas associadas. 
4  De acordo com a Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade (Investe SP, 2019), em 2018 a indústria 
brasileira de termoplásticos e encerrou o ano com 312,8 mil postos de trabalho. 
5  Uso de catalisadores com ampla faixa de temperatura de operação para que os reatores pudessem operar adiabaticamente, isto é, 
sem troca de calor com o meio ambiente, usando um composto inerte para limitar variações indesejadas de temperatura. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 78 
 
década de 1990, como consequência da baixa competitividade em comparação com o eteno à base de 
matéria prima fóssil. 
A mudança de posicionamento começou em 2007, quando a indústria petroquímica mundial 
passou a buscar alternativas à nafta face ao alto custo do barril do petróleo que, atingiu patamar recorde 
de US$ 147/barril em 2008 (BBC Brasil, 2008). A Braskem não foi a única a anunciar investimentos no 
etanol e nos seus derivados, porém foi a única a permanecer, já que, em 2008 (ano em que irrompeu a 
crise financeira nos Estados Unidos da América), o preço do barril despencou para aproximadamente 
US$ 37/barril. 
A Braskem começou a explorar novas possibilidades de uso de biopolímeros em 2001 e, desde 
então, fez avanços significativos para obtenção de um produto competitivo para o mercado. De um 
lado, havia uma grande preocupação da terceira geração (nossos clientes) de ter que adequar seus 
equipamentos e processos para processar o PE Verde e/ou obter a qualidade final desejada de seus 
produtos. Do nosso lado, havia alguns desafios técnicos claros, dentre eles:  
• Qual seria a melhor tecnologia de desidratação de etanol para melhorar a economia de todo 
o processo de fabricação considerando redução do investimento total, desempenho em 
Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA), maximização do sequestro de carbono e 
otimização do consumo de energia e água? 
• O polietileno à base de cana-de-açúcar seria competitivo em relação a seu equivalente à 
base de fósseis? Qual seria a melhor maneira de desenvolver esse novo nicho de mercado? 
Seis anos depois, em 2007, o PE Verde passou sua fase de teste de qualidade e o produto foi 
distribuído como amostras não comerciais para semear o mercado e avaliar o interesse dos clientes em 
nosso polímero de fonte renovável. Após esse período dedicado a pesquisa e desenvolvimento (PD), 
a planta de eteno verde da Braskem, localizada em Triunfo (Rio Grande do Sul, Brasil), foi inaugurada 
em setembro de 2010, e marcou o início da produção do PE Verde em escala industrial, sendo que o 
primeiro lote de PE Verde foi comercializado em janeiro de 2011. A unidade industrial recebeu 
investimentos na ordem de US$ 290 milhões para se adaptar à nova matéria prima renovável e tem 
capacidade para produzir anualmente 200 mil toneladas de Eteno Verde.  
Como consequência do constante investimento em busca de um processo produtivo mais 
sustentável —em 2018 investimos mais de R$ 14 milhões em nosso Centro de Inovação e Tecnologia de 
Triunfo e outros tantos no laboratório de biotecnologia localizado em Campinas - hoje somos a principal 
fabricante mundial de polímeros de origem 100% renovável (produzido a partir da cana-de-açúcar). 
Além do PE Verde, também produzimos e comercializamos o EVA Verde (sigla do inglês: Ethylene Vinyl 
Acetate) e o solvente (o HE-70S, recém lançado no mercado) com insumos de origem 100% renovável. 
A produção de polímeros a partir de fontes renováveis é um segmento ainda em estágio 
embrionário de desenvolvimento —conforme dito anteriormente, representa hoje menos de 1% da 
produção global de polímeros (Plastic Europe, 2019). Um avanço mais pronunciado, com produção em 
alta escala global, depende de fatores como obtenção da matéria-prima, desempenho, rendimento e 
incentivos financeiros adicionais, já que são economicamente menos atraentes quando comparados aos 
polímeros fósseis convencionais. 
A produção do PE Verde é mais custosa do que a produção convencional de polímeros com 
matérias primas fósseis, pois enquanto que na produção do polímero de fonte fóssil entra a nafta e saem 
vários derivados (eteno, propeno, butadieno, aromáticos entre outros), na produção do polímero de 
fonte renovável entra etanol e sai eteno e água na proporção de 1:1. Ou seja, para cada quilo de eteno 
verde, utilizamos aproximadamente dois de etanol. Dois outros fatores que oneram o custo do polímero 
vegetal são o alto nível de correlação entre os preços da gasolina e do etanol no mercado brasileiro e a 
significativa variação de preço entre a safra (de abril a outubro) e a entressafra (de novembro a março). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 79 
 
Porém, como a cadeia de transformação plástica é longa, o impacto da variação de preço entre a 
solução petroquímica e a solução de fonte renovável é diluído, possibilitando, assim, a sua adoção pelos 
mais diferentes segmentos da indústria, dentre os quais podemos citar: embalagem para arroz, sacos 
para lixo, sacolas promocionais, embalagem para ração animal, embalagens de produtos para cuidados 
pessoais, itens de higiene e limpeza entre outras. Apesar disso, ainda percebemos certa resistência na 
América do Sul e uma maior aceitação na Ásia e Europa, principalmente nos países do hemisfério Norte. 
Conforme será descrito na próxima seção deste estudo de caso, o PE Verde possui vantagens 
socioambientais indiscutíveis em relação aos polietilenos produzidos a partir de fontes fósseis. Uma 
delas está relacionada à questão climática e urgência preconizada pela comunidade científica de se 
manterem as emissões de gases de efeito estufa (GEE) limitadas a um nível seguro para conter o 
aquecimento global —por não ser biodegradável6. O PE Verde é um excelente sequestrador de dióxido 
de carbono (CO2), sendo que cada tonelada produzida ao longo do seu ciclo de vida captura emissões 
na ordem de 3,09 toneladas de CO2 equivalente (tCO2e)— nessa mesma abordagem, o PE convencional 
de fonte fóssil emite cerca de 1,8 tCO2e (Braskem, 2020; figura IV.1). 
 
Figura IV.1  
Esquema ilustrativo da análise de ciclo de vida do PE Verde da Braskem 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Braskem, “ACV - Avaliação De Ciclo De Vida” [online], São Paulo http://plasticoverde.braskem.com.br/site.aspx/acv-avaliacao-de-
ciclo-de-vida [data de consulta: janeiro de 2020], 2020. 
 
O polietileno de fonte renovável da Braskem é 100% reciclável na cadeia atualmente 
desenvolvida. A Braskem, valendo-se de seu know-how na ciência de polímeros e sua estrutura de 
pesquisa e desenvolvimento, estruturou ações para fomentar um modelo de economia circular e 
estabeleceu direcionadores que orientam ações sistemáticas, que suportam nossa atuação de forma 
abrangente. Alguns exemplos são: Produtos com conteúdo reciclado (Wecycle), design de Produtos 
com maior reciclabilidade, desenvolvimento da cadeia de reciclagem e engajamento do consumidor.  
Incentivar a economia circular colabora também para uma menor emissão de GEE. Com a 
reciclagem, CO2 capturado durante o processo de crescimento da cana-de-açúcar se mantém 
sequestrado durante toda a vida útil do plástico, já que o resíduo passa a ser matéria-prima.  
                                                                      
6  O PE Verde é reciclável, porém não é biodegradável. Entende-se por ‘biodegradável’ todos os materiais que podem ser 
decompostos de maneira aeróbica e/ou anaeróbica por bactérias ou outros microrganismos. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 80 
 
Assim, o grande desafio reside no pilar econômico. Para que os preços sejam competitivos em 
relação ao material produzido a partir de fontes fósseis, torna-se premente investir no desenvolvimento 
de novas tecnologias que permitam melhorar o rendimento matéria-prima/produto. 
C. Capacidade de mobilização de investimentos 
A capacidade de mobilização de investimentos a partir do PE Verde é considerável, principalmente 
devido a sua capacidade de escalabilidade. A molécula do eteno, obtida a partir de fontes renováveis no 
caso analisado, é o que podemos chamar de building block para produção de outras resinas 
termoplásticas e solventes além do PE. A partir do eteno é possível produzir Polipropileno (PP), 
Monoetilenoglicol (MEG)7, EVA, diversos tipos de solventes, dentre outros produtos. Sendo assim, com 
a tecnologia já desenvolvida em escala industrial, é possível replicar seu conteúdo tecnológico, já que o 
investimento em PD feito pela Braskem durante quase 10 anos segue sendo aprimorado. 
Em 2018, a Braskem anunciou a produção em escala industrial do EVA Verde, resina destinada a 
aplicações em setores como calçadista, automotivo, transporte, entre outros. Desenvolvida em parceria 
com a empresa norteamericana Allbirds, o EVA de fonte renovável será utilizado em toda a linha de 
produtos da empresa. Na ocasião do lançamento e face à inventividade da solução, a empresa 
norteamericana batizou a sua nova solução de SweetFoam, introduzindo, assim, um novo conceito ao 
setor. Pelo o seu pioneirismo e suportada pela solução oferecida pela Braskem, a Allbirds recebeu 
prêmios importantes como, por exemplo, o da revista Time e da Fast Company. 
Após o grande sucesso, um movimento foi iniciado no setor calçadista e a procura por soluções 
sustentáveis para serem aplicadas tanto no solado quanto na palmilha aumentou de maneira 
considerável. Empresas brasileiras usaram o caso de sucesso da Braskem como fonte de inspiração e 
em breve serão lançados também no Brasil. 
Acreditamos que a grande vantagem dos polímeros de fonte renovável oferecidos pela Braskem 
esteja na possibilidade de serem processados sem a necessidade de investimento adicional por parte do 
nosso Cliente-Transformador. Com isso, a adoção da solução sustentável é agilizada e menos onerosa. 
No início desse ano (2019), a Braskem e a Haldor Topsoe, líder mundial em catalisadores e tecnologia 
para as indústrias química e de refino, anunciaram o comissionamento da unidade de demonstração pioneira 
no desenvolvimento de MEG a partir do açúcar. Localizada em Lyngby, na Dinamarca, a operação da planta 
piloto é etapa decisiva para a confirmação da viabilidade técnica e econômica desse processo de produção 
de MEG renovável em escala industrial, que ficou 8 anos em processo de PD. 
Anunciado em 2017, o acordo de cooperação entre as empresas tem como foco o desenvolvimento 
de tecnologia capaz de converter o açúcar em MEG dentro de uma única unidade industrial. Isso permitirá a 
redução do investimento inicial na produção, o que impulsionará a competitividade do processo. 
Recentemente, a Braskem também anunciou o lançamento do seu primeiro solvente 
parcialmente renovável, também desenvolvido a partir da cana-de-açúcar. O produto, chamado de  
HE-70S, faz parte do grupo de oxigenados, que possui alta taxa de evaporação, um diferencial que 
proporciona maiores vantagens na aplicação e menos impactos ambientais. 
Os investimentos no desenvolvimento desses novos produtos de base renovável são simbólicos de 
como uma grande empresa do setor químico pode aproveitar oportunidades comerciais da sustentabilidade 
ambiental, em linha com o Big Push para a Sustentabilidade, como é discutido na Seção E. 
  
                                                                      
7  Matéria-prima para produção do PET. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 81 
 
D. PE verde e o desenvolvimento sustentável 
O último relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC, 2018), sobre 
os impactos de um aquecimento global de até 1,5°C, também previsto nos esforços globais no contexto 
do Acordo de Paris (CQNUMC, 2015), apresenta uma relação direta entre as mudanças do clima e o 
desenvolvimento sustentável. De acordo com o IPCC, os impactos e as respostas às mudanças do clima 
estão intimamente ligados ao desenvolvimento sustentável, que equilibra o bem-estar social, a 
prosperidade econômica e a proteção ambiental.  
Para limitar o aumento da temperatura global média em até 2°C, serão necessários 
investimentos em tecnologias voltadas para mitigação das emissões de GEE e o setor industrial está 
sendo cada vez mais demandado para ser protagonista nessa corrida, já que os governos sozinhos 
possivelmente não conseguirão atingir esse objetivo apenas cumprindo com os compromissos 
assumidos em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas8 (NDC, da sigla em inglês).  
A tecnologia do PE Verde desenvolvida pela Braskem pode ter um impacto relevante para 
mitigação das emissões de GEE no Brasil e no mundo. Hoje, a Braskem tem capacidade de produzir 
aproximadamente 3 milhões de toneladas de PE e EVA ao ano, sendo que 200 mil toneladas são de 
resinas de fonte renovável. Considerando que esse produto sequestra 3,09 tCO2e por tonelada 
produzida, em um cenário possível do ponto de vista de tecnologia e disponibilidade de matéria-prima, 
no qual pelo menos 50% do PE produzido pela Braskem no Brasil fosse de origem renovável, a mitigação 
de GEE potencial seria na ordem de 4,7 milhões de toneladas de CO2e por ano, o equivalente a 
aproximadamente 5% das emissões de GEE do Setor de Processos Industriais do Brasil em 20159.  
Como o PE Verde exige o uso da terra para gerar a biomassa necessária para sua produção, a 
preocupação sobre o efeito na produção de alimentos e o impacto sobre as áreas protegidas também 
foi levantada. O impacto sobre a disponibilidade de terras agricultáveis que poderiam competir com a 
produção de alimentos foi objeto de estudo da organização não governamental (ONG) European 
Bioplastics, que mostrou que a área estimada para produção de matérias-primas para produção de 
plásticos verdes em escala global em 2030 seria de 0,02% em relação ao total de terras agricultáveis no 
mundo (38%; figura IV.2). 
Para a produção de 200 mil toneladas anuais de Eteno Verde, volume correspondente à 
capacidade atual de produção da Braskem, são necessários aproximadamente 65.000 hectares de cana-
de-açúcar, o que também representa aproximadamente 0,02% do total de terras aráveis do Brasil. Este 
cálculo é feito considerando a produtividade média das plantações de cana-de-açúcar e usinas de 
produção de etanol brasileiras. Em um hectare são produzidas aproximadamente 82,5 toneladas de 
cana-de-açúcar, com o que é possível produzir 7.200 litros de etanol. Com este volume, a Braskem 
produz 3 toneladas de eteno verde que geram aproximadamente 3 toneladas de PE Verde. 
Para garantir a procedência do produto utilizado, a Braskem atua com a cadeia de fornecimento 
da cana-de-açúcar, incentivando para que atividades agrícolas cumpram requisitos legais e de respeito 
aos direitos humanos, meio ambiente e padrões éticos da sociedade. Em 2016, lançamos o Programa 
de Compra Responsável de Etanol, que também busca a melhoria de questões como queimadas, 
biodiversidade, boas práticas ambientais, de direitos humanos e trabalhistas. 
  
                                                                      
8  As NDCs são documentos de compromisos voluntários dos países signatários do Acordo de Paris, submetidos à CQNUMC 
(Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), contendo suas propostas para reduzir suas emissões nacionais e 
adaptar-se aos impactos das mudanças climáticas. 
9  Emissões oriundas dos processos industriais no Brasil foram na ordem de 95,3383 milhões de toneladas de CO2e no ano de 2015 
(SIRENE, 2019). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 82 
 
Nossa gestão para essa categoria de Fornecedores, que é uma das mais rigorosas na Braskem, 
está baseada em questões de Conformidade (requisitos obrigatórios) e Excelência (pontos de melhoria 
contínua). Em 2018, mais de 95% do Etanol adquirido pela Braskem foi produzido por Fornecedores que 
se adequaram a esses dois pilares (gráfico IV.1). 
 
Figura IV.2  
Estimativa do uso de terra agricultável para produção de matérias-primas renováveis para produção de produtos 
não energéticos e bioplásticos 2018 e 2023 
 
Fonte: Adaptado pela Braskem com base em European Bioplastics, “Renewable Feedstock” [online], Berlim, Alemanha www.european-
bioplastics.org [data de consulta: agosto de 2019], 2018. 
 
Gráfico IV.1  
Evolução da porcentagem de Fornecedores de Etanol da Braskem que se adequaram aos requisitos  
de Conformidade (obrigatórios) e Excelência (pontos de melhoria contínua) 
(Em porcentagem) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Braskem, “Relatório Anual 2018” [online], São Paulo https://www.braskem.com.br/relatorioanual2018 [data de consulta:  
outubro de 2019], 2019. 
  
97,0%
98,4% 98,7%
70%
75%
80%
85%
90%
95%
100%
2016/2017 2017/2018 2018/2019
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 83 
 
Todas as usinas fornecedoras são comprometidas e uma amostra dos seus fornecedores de cana-
de-açúcar é auditada por terceira parte independente a cada dois anos. Em 2018, a amostra auditada 
pela Peterson and Control Union foi cerca de 20% do total de fornecedores. Além desse resultado, 
também garantimos o comprometimento de 50% das usinas fornecedoras SPOT10. Os outros 50% 
assinaram, no mínimo, o nosso Código de Conduta de Terceiros. 
Para comunicar suas exigências, a Braskem concebeu um manual de Compra Responsável de 
Etanol11. O pilar de Conformidade, que é composto pelo Código de Conduta de Fornecedores da 
Braskem, estabelece os padrões de atuação esperados para a gestão dos recursos humanos, 
ambientais, comunidades, qualidade e eficiência. Alguns dos requisitos obrigatórios são: 
• Integridade dos Negócios: cumprimento de leis; Honestidade e integridade; Sigilo e 
confidencialidade; Combate à corrupção; Pactos e acordos internacionais; Direitos de uso 
da terra e água;  
• Meio Ambiente: Legislação ambiental; Zoneamento ecológico e Áreas protegidas; 
Armazenamento e uso de defensivos agrícolas; Queima de cana-de-açúcar; Impacto 
ambiental; Gestão, procedimentos e identificação de riscos; 
• Trabalhadores e Comunidade: Relacionamento com fornecedores; Assédio, Discriminação; 
Igualdade de gênero; O não-emprego de mão de obra forçada e/ou infantil, exploração sexual 
de crianças e adolescentes e tráfico de pessoas; Contrato e Condições de trabalho; Salários e 
benefícios; Atividades políticas e livre associação; Saúde e segurança; Gestão de fornecedores; 
• Comunicação, Monitoramento e Violações: Comunicação do código; Facilitar a implementação 
e cumprimento do código.  
A figura IV.3 traz alguns exemplos de itens que são avaliados pelos requisitos de Meio Ambiente 
e de Trabalhadores e Comunidade do pilar de Conformidade. 
Para o pilar de Excelência, que é composto por um Programa de Melhoria Contínua focado nos 
temas relevantes à cadeia de etanol, os itens avaliados não obrigatórios são: 
• Meio Ambiente: Gestão proativa de Áreas Naturais e Áreas de Alto Valor de Conservação, 
considerando toda biodiversidade; 
• Trabalhadores e Comunidade: Política e programa de igualdade de gênero; Gestão de 
recursos humanos e análise de impacto de alteração de força de trabalho; Treinamentos e 
canais de diálogo; Desenvolvimento local; 
• Gestão de Fornecedores: Apoio a fornecedores; Adequação ambiental de fornecedores; 
• Qualidade e Eficiência: Pesquisa, desenvolvimento e eficiência; Gestão financeira. 
No âmbito do desenvolvimento econômico-social, o PE Verde permitiu o desenvolvimento direto 
e indireto de novos postos de trabalho, atrelados ao desenvolvimento de parceiros e aumento de 
investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (PD). Além disso, também aumentamos nosso market 
share global. Um exemplo claro disso foi a conquista de clientes no Japão para nosso produto, país que 
responde hoje por uma parcela relevante das nossas vendas. Tal movimento foi possível, porque o 
produto oferecido pela Braskem não só atende aos requisitos técnicos, mas, principalmente, traz 
consigo um benefício sócio ambiental claro e mensurável.  
                                                                      
10  Fornecedor cadastrado no sistema da Braskem, porém sem contrato de fornecimento. 
11  O Manual de Compra Responsável de Etanol está disponível no seguinte endereço: http://plasticoverde.braskem.com.br/Portal/ 
Principal/Arquivos/Download/Upload/CompraResponsaveldeEtanol-2019_238.pdf 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 84 
 
Figura IV.3 
Itens avaliados nos requisitos de Meio Ambiente e de Trabalhadores e Comunidade do pilar de Conformidade 
dentro do programa de Compra Responsável de Etanol da Braskem 
 
Fonte: Braskem. 
 
Além de apoiar na melhoria da balança comercial brasileira, o uso da cana-de-açúcar como 
matéria-prima permite à Braskem uma menor dependência da nafta, protegendo-se, assim, das 
variações do custo internacional desta importante matéria-prima. Um efeito colateral provocado foi a 
corrida para que outros produtos químicos ou termoplásticos sejam também desenvolvidos a partir da 
cana e dos seus derivados, fazendo com que o Brasil atraia as atenções do mundo. Exemplo disso está 
na recente joint-venture anunciada por BP e Bunge, cujo foco será o desenvolvimento dos setores de 
açúcar e bioenergia. A próxima seção apresenta a correlação do exposto acima com a abordagem do 
Big Push para a Sustentabilidade da CEPAL. 
E. PE verde e o Big Push para a Sustentabilidade 
Segundo a abordagem da CEPAL/FES (2019), o Big Push é definido como “um conjunto de 
investimentos que produzam um ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de empregos, 
desenvolvimento de cadeias produtivas, diminuição da pegada ambiental e dos impactos ambientais, 
ao mesmo tempo em que recupera a capacidade produtiva do capital natural, tudo isso junto e ao 
mesmo tempo”.  
Com base no que foi exposto nas seções anteriores, pode-se afirmar que o PE Verde é um 
exemplo claro de investimento que promove: geração de empregos, a partir do investimento em novas 
tecnologias industriais; desenvolvimento de cadeias produtivas, especialmente a de produção da cana-
de-açúcar; e diminuição da pegada ambiental, com a característica de ser um poderoso instrumento de 
mitigação de emissões de GEE, que pode resolver a problemática de Carbon Lock-in de alguns países da 
América Latina e Caribe. 
  
M E I O  A M B I E N T E  
 Cumprir a legislação ambiental pertinente aos seus produtos e 
serviços; 
 Não cultivar cana-de-açúcar nos biomas da Amazônia, Pantanal 
e na Bacia do Alto Paraguai e obedecer ao Zoneamento 
Agroecológico da cana-de-açúcar; 
 Não plantar cana-de-açúcar em áreas protegidas; 
 Obedecer aos prazos para adesão ao CAR das áreas próprias ou 
sob gestão da usina e, se necessário, ao Programa de 
Regularização Ambiental (PRA); 
 Somente utilizar defensivos agrícolas aprovados pelo MAPA 
(Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento); 
 Defensivos agrícolas e outros produtos com potencial de 
contaminação, bem como suas embalagens vazias, devem ser 
armazenados de forma segura e destinados a locais adequados; 
 Não realizar a queima da cana-de-açúcar para fins de colheita, 
do bagaço ou de qualquer outro subproduto da cana-de-açúcar 
a céu aberto. Formar brigadas de incêndio e adotar medidas 
preventivas para atuar contra queimadas; 
 Identificar perigos, avaliar riscos e, para quaisquer casos 
envolvendo indicadores ambientais do Programa de Compra 
Responsável de Etanol da Braskem, comunicar à Braskem antes 
de iniciar ações corretivas e preventivas, assim como informar 
imediatamente quaisquer acidentes e/ou incidentes relativos ao 
meio ambiente. 
T R A B A L H A D O R E S  E  C O M U N I D A D E  
 Tratar todos seus colaboradores com respeito e dignidade; 
 Não praticar atos de discriminação por raça, cor, sexo, 
nacionalidade, religião, deficiência, estado civil, orientação 
sexual, participação sindical ou filiação partidária durante 
seus processos de contratação, remuneração, acesso a 
treinamento, promoção, demissão ou aposentadoria;  
 Promover a igualdade de gênero em suas atividades e em sua 
base de fornecimento de cana-de-açúcar; 
 Não tolerar, permitir ou compactuar com o emprego de mão 
de obra forçada e/ou infantil, a exploração sexual de crianças 
e adolescentes e o tráfico de seres humanos em nenhum 
processo relacionado com as atividades da Companhia; 
 Todos os trabalhadores da usina e atividades de campo, 
incluindo trabalhadores terceirizados, devem possuir 
contrato de trabalho e/ou registro em carteira; 
 A jornada de trabalho deve ser monitorada e não exceder aos 
padrões estabelecidos pela legislação. Horas extras devem 
ser pagas ou compensadas; 
 Remunerar seus colaboradores e prover todos os benefícios 
legalmente determinados; 
 Proporcionar aos seus colaboradores um ambiente de 
trabalho com condições físicas e psicológicas adequadas ao 
desenvolvimento de suas atividades. Fornecer água potável 
em quantidade suficiente a todos os trabalhadores. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 85 
 
A abordagem do Big Push se orienta por três eficiências. A primeira é a eficiência schumpeteriana, 
segunda a qual uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera 
externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. Nota-
se que no presente estudo de caso os investimentos realizados em PD, construção de capacidades 
inovativas e tecnológicas e maior integração ao longo da cadeia da cana-de-açúcar, resultaram no 
desenvolvimento de um novo produto de maior valor agregado, o que representa uma clara relação com 
a eficiência schumpeteriana. Ou seja, o polietileno de fonte renovável da Braskem representou uma 
transformação produtiva rumo a processos mais intensivos em conhecimento e aprendizado, a partir de 
um processo cumulativo de anos de estudo, pesquisa e aprendizado, que foi capaz de irradiar a mudança 
tecnológica para toda a cadeia de valor. A segunda é a eficiência keynesiana, que destaca que há ganhos 
crescentes de escala e de escopo da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce 
relativamente mais, gerando efeitos multiplicadores e impactos significativos na economia e nos 
empregos. A relação com a eficiência keynesiana é observada quando se pensa no mercado de produtos 
químicos verdes em plena expansão no mercado nacional e internacional, de forma que os ganhos nos 
níveis econômicos e de multiplicação de empregos são fortes potenciais multiplicadores. A conquista 
de um novo nicho de mercado internacional, no Japão, é simbólica da expansão da demanda pelo PE 
Verde. Por fim, a eficiência da sustentabilidade diz respeito à viabilidade econômica, justiça social e 
sustentabilidade ambiental. Com respeito a esta eficiência, nota-se que o caso do PE Verde produzido 
pela Braskem demonstra o potencial econômico desse tipo de produto, além de apresentar diretrizes a 
serem observadas para a manutenção de boas condições de trabalho e na relação com a comunidade e 
potencial significativo de mitigar emissões de GEE do Setor de Processos Industriais no Brasil.  
Para uma avaliação específica do enquadramento do PE Verde com os indicadores econômicos, 
sociais e ambientais do Big Push para a Sustentabilidade, fez-se uma análise da relação do presente 
estudo de caso com os 15 indicadores elencados pela CEPAL, conforme apresentado na tabela IV.1. 
 
Tabela IV.1 
Indicadores de Desenvolvimento Sustentável elencados pela CEPAL e a aderência do PE Verde da Braskem 
Dimensão Indicador PE Verde é aderente? Justificativa 
Econômica Aumento do PIB, valor adicionado  
e/ou faturamento bruto 
SIM O PE Verde, que representa cerca de 5% da 
produção total da Braskem, foi e continua sendo um 
produto fundamental para alavancar a imagem dos 
biopolímeros, adicionando valor aos negócios da 
Braskem e, consequentemente, trazendo benefícios 
que vão além de seu valor tangível de mercado. 
Criação de novos postos de trabalho: 
ampliação de empregos existentes e/ou 
criação de novas carreiras profissionais 
SIM Em 2018, a Braskem possuía aproximadamente 
36 cientistas contratados exclusivamente para 
buscar novos produtos sustentáveis. Todos 
alocados no laboratório de biotecnologia 
localizado em Campinas.  
Aumento de competitividade, entendida 
como redução de custos, aumento de 
produtividade, melhoria da qualidade de 
produtos e/ou serviços, aumento de 
market share (nacional ou global)  
e/ou conquista de novos mercados 
SIM A Braskem hoje é a maior produtora de polímeros 
verdes do mundo, graças ao investimento 
realizado no PE Verde. Impacto direto e 
positivo na balança comercial brasileira. 
Construção de capacidades 
tecnológicas e inovadoras: aumento  
de PD, contratação de especialistas 
em desenvolvimento tecnológico, 
realização de parcerias de institutos  
de ciência, tecnologia e inovação  
com empresas, novos e/ou melhores 
produtos ou processos produtivos 
implementados ou aumento do  
número de patentes registradas 
SIM Além de importantes parcerias conquistadas pelo 
PE Verde, houve aumento considerável em PD 
para desenvolvimento de outros polímeros a 
partir de fontes renováveis. Entre 2014 e 2018 
foram investidos cerca de R$ 10 milhões em 
pesquisa (CAPEX) de alternativas renováveis. 
A Braskem e o Brasil têm grande chance de  
se tornarem exportadores de tecnologia em 
soluções sustentáveis. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 86 
 
Dimensão Indicador PE Verde é aderente? Justificativa 
Maior integração e complexidade 
econômica: maior capacidade  
de gerar spillovers tecnológicos, 
encadeamentos econômicos à 
montante e/ou à jusante da cadeia 
e/ou efeitos multiplicadores 
SIM  O PE Verde provou seu efeito multiplicador com o 
desenvolvimento do EVA Verde pela Braskem. 
Esperamos lançar em breve o PP Verde, também 
oriundo desta mesma tecnologia. E o desenvolvimento 
do MEG Verde está em estágio avançado.  
Social Aumento dos salários e/ou da renda NÃO 
 
Acesso maior a mercado de trabalho 
formal, educação, saúde e/ou 
proteção social 
SIM Com o Programa de Compra Responsável de Etanol, 
a Braskem exige que os seus fornecedores ofereçam 
condições adequadas de trabalho para os seus 
colaboradores. Por exemplo, todos os trabalhadores 
do fornecedor, incluindo trabalhadores terceirizados, 
devem possuir contrato de trabalho e/ou registro 
em carteira, independentemente de seu regime 
de contratação. 
Redução de desigualdades de renda, 
gênero, raça, etnia, geração, origem 
e/ou outras brechas estruturais 
SIM Com o Programa de Compra Responsável de 
Etanol, a Braskem exige que os seus fornecedores 
não pratiquem atos de discriminação por raça, cor, 
sexo, nacionalidade, religião, deficiência, estado 
civil, orientação sexual, participação sindical ou 
filiação partidária durante seus processos de 
contratação, remuneração, acesso a treinamento, 
promoção, demissão ou aposentadoria. 
Melhoria das condições de trabalho, 
saúde e/ou relacionamento com 
os consumidores 
SIM O Programa de Compra Responsável de Etanol 
promove acesso a mercado de trabalho formal 
para o trabalhador rural, exigindo práticas para 
melhoria das condições de trabalho, como por 
exemplo, monitoramento da jornada de trabalho 
com pagamento de horas extras e proporcionar 
aos seus colaboradores um ambiente de trabalho 
com condições físicas e psicológicas adequadas. 
Redução da pobreza e/ou da  
pobreza extrema 
INDIRETA-MENTE  Indiretamente com o Programa de Compra 
Responsável de Etanol, que exige dos 
Fornecedores o registro de toda força de trabalho, 
com remuneração e benefícios legalmente 
determinados, e de não tolerar, permitir ou 
compactuar com o emprego de mão de obra 
forçada e/ou infantil, a exploração sexual de 
crianças e adolescentes e o tráfico de seres 
humanos em nenhum processo relacionado  
com as atividades da Companhia. 
Ambiental Redução das emissões de gases  
de efeito de estufa e/ou outros 
poluentes atmosféricos 
SIM Cada tonelada de PE Verde tem o potencial de 
sequestrar 3,09 tCO2e. Em contrapartida, o PE 
de fonte fóssil emite mais de 1,8 tCO2e. 
Melhoria da disponibilidade e/ou 
qualidade da água 
SIM Um dos fatores para viabilização em escala 
industrial do PE Verde é a redução da pegada 
hídrica no processo produtivo, que reduziu cerca 
de 23% em relação ao protótipo do PE Verde. 
Redução da geração ou melhor 
gerenciamento de resíduos sólidos; 
economia circular 
SIM O PE Verde é 100% reciclável e identificado com 
a marca I’m greenTM para facilitar o processo de 
economia circular. 
Recuperação e/ou melhor gestão 
de solos, pastagens e florestas 
SIM Com o Programa de Compra Responsável de 
Etanol, a Braskem não permite a queima da 
plantação como preparação para a colheita da 
cana-de-açúcar. 
Melhoria da eficiência no uso de 
recursos naturais (energia, silvicultura, 
minerais, materiais, etc) 
SIM O PE Verde é produzido a partir de matéria-prima 
renovável que substitui os derivados de petróleo, 
de origem mineral. Além disso, por ser 100% 
reciclável, indiretamente reduz o consumo de 
outras matérias-primas não derivadas do petróleo. 
Fonte: Braskem. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 87 
 
Entendemos que os benefícios do PE Verde também se alinham com a Agenda 2030 (ONU, 2015), 
a partir do momento que nos comprometemos com uma série de preocupações ainda não exigidas 
legalmente para o setor químico brasileiro. Nossa tecnologia renovável contribui diretamente para os 
seguintes ODS: 
• Objetivo 8: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, 
emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos —o PE Verde gerou e 
ainda gera empregos em toda sua cadeia, do campo à reciclagem; 
• Objetivo 9: Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e 
sustentável e fomentar a inovação —o PE Verde é um caso de inovação e industrialização 
sustentável; 
• Objetivo 12: Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis —o PE Verde, além 
de ser 100% reciclável, é feito a partir de matéria-prima renovável; 
• Objetivo 13: Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos —o 
PE Verde, além de ser 100% reciclável, é feito a partir de matéria-prima renovável, contribuindo 
para a mitigação das emissões de GEE, com potencial de sequestrar 3,09 tCO2e; e 
• Objetivo 17: Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o 
desenvolvimento sustentável —para o desenvolvimento de tecnologias os investimentos 
necessários foram realizados através de diversas parcerias.  
Indiretamente, acreditamos que o PE Verde contribui para: 
• Objetivo 1: Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares —através 
do nosso Programa de Compra Responsável de Etanol; 
• Objetivo 6: Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para 
todas e todos —um dos grandes desafios para que a tecnologia do PE Verde se sustentasse 
em escala industrial, foi a redução da pegada hídrica envolvida no processo; e 
• Objetivo 15: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, 
gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a 
degradação da terra e deter a perda de biodiversidade —através do nosso Programa de 
Compra Responsável de Etanol. 
F. Conclusões 
Ser pioneiro no investimento em tecnologias que promovam um padrão de desenvolvimento mais 
sustentável pode trazer ônus e bônus. Como apresentado acima, os benefícios gerados pelo PE Verde 
são relevantes considerando os pilares econômico, social e ambiental. Além de promover o sequestro 
de CO2 e contribuir diretamente para uma das maiores problemáticas globais da atualidade —a 
mudança do clima— que envolve questões não apenas ambientais, mas muitas questões sociais 
também, o PE Verde promove benefícios em toda sua cadeia, desde a produção da cana-de-açúcar, 
incentivando práticas sócio ambientais justas com base nas diretrizes de seu Código de Conduta de 
fornecedores, até sua venda, contribuindo para a melhoria da balança comercial, visibilidade do Brasil 
e disponibilidade no mercado de um produto da linha I’m greenTM. 
A Braskem tem sido reconhecida12 por seus esforços relacionados a promoção de um mercado 
mais sustentável no setor petroquímico. Porém, há desafios. O PE Verde é mais caro do que o PE 
                                                                      
12  Alguns reconhecimentos importantes que tivemos são: Prêmio FINEP 2012 – Agência Brasileira da Inovação, na categoria Inovação 
Sustentável; Guia Exame Sustentabilidade 2013; Most Innovative Companies’ - FAST COMPANY 2014; Anuário Inovação Brasil 2015 
- 4º empresa mais inovadora do país (jornal Valor Econômico e pela consultoria Strategy). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 88 
 
convencional e alguns segmentos do mercado ainda não perceberam a necessidade de se investir em 
uma solução deste tipo “apenas” pelos benefícios socioambientais que o produto oferece. 
Os consumidores estão atentos e certamente privilegiarão aquelas empresas que se anteciparem. 
Para que iniciativas como essas ganhem a escala mínima para causarem o impacto necessário, é 
preciso que haja incentivos externos, conforme proposta do Big Push. Políticas governamentais que 
diminuam o risco de investimentos em projetos para mitigação e adaptação às mudanças do clima 
podem facilitar a mobilização de fundos privados e aumentar a eficácia de outras políticas públicas. Um 
bom exemplo seria a introdução de mecanismos de precificação de carbono amplos. Outro seria o 
desenvolvimento de sistemas de rotulagem que permitisse ao fornecedor de identificar produtos com 
baixa intensidade de emissões de carbono. Com tal incentivo, o consumo de soluções sustentáveis 
tenderia a aumentar, beneficiando, diretamente, na questão climática global. 
O Big Push aparece como um possível catalisador para que haja maior disponibilidade de 
investimentos em tecnologias verdes, orientados pelas três eficiências (schumpeteriana, keynesiana e 
da sustentabilidade), possibilitando gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico, capaz de iniciar 
um processo de mudança estrutural progressiva rumo a um estilo de desenvolvimento mais sustentável.  
Bibliografia 
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de consulta: dezembro de 2019]. 
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2018 [data de consulta: outubro de 2019]. 
Braskem (2020), “ACV - Avaliação De Ciclo De Vida” [online], São Paulo http://plasticoverde.braskem.com.br 
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CEPAL/FES (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) / (Fundação Friedrich Ebert Stiftung) 
(2019), “Big Push Ambiental: Investimentos coordenados para um estilo de desenvolvimento 
sustentável”, Perspectivas, Nº 20, (LC/BRS/TS.2019/1 e LC/TS.2019/14), São Paulo. 
CQNUMC (Convenção-Quadro nas Nações Unidas sobre Mudança do Clima) (2015), Acordo de Paris, Paris. 
Investe SP (Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade) (2019), “Produção de 
plástico no Brasil deverá subir 2,5% em 2019” [online], São Paulo https://www.investe.sp.gov.br/noti 
cia/producao-de-plastico-no-brasil-devera-subir-2-5-em-2019/ [data de consulta: outubro de 2019]. 
IPCC (Intergovernmental Pannel on Climate Change) (2018), “Summary for Policymakers”, Global Warming 
of 1.5°C. An IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels 
and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global 
response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty, 
Valérie Masson-Delmotte y otros (eds.), Geneva, Switzerland, World Meteorological Organization. 
ONU (Organização das Nações Unidas) (2015), Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o 
Desenvolvimento Sustentável (A/ RES/70/1), Nova Iorque, Publicação das Nações Unidas. 
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org/bioplastics/Feedstock/ [data de consulta: outubro de 2019]. 
SIRENE (Sistema de Registro Nacional de Emissões) (2019), “Emissões em dióxido de carbono equivalente 
por setor” [online], Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Brasília 
http://sirene.mctic.gov.br/portal/opencms/paineis/2018/08/24/Emissoes_em_dioxido_de_carbono_e
quivalente_por_setor.html [data de consulta: outubro de 2019]. 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 89 
V. Assentamentos Sustentáveis na Amazônia:  
o desafio da produção familiar em uma  
economia de baixo carbono 
Erika de Paula P. Pinto* 
 Maria Lucimar de L. Souza*  
Alcilene M. Cardoso*  
 Edivan S. de Carvalho*  
 Denise R. do Nascimento*  
Paulo R. de Sousa Moutinho*  
Camila B. Marques*  
Valderli J. Piontekowski*  
Resumo 
A iniciativa Assentamentos Sustentáveis traz um arcabouço de referências visando contribuir para a 
promoção de territórios rurais sustentáveis na Amazônia. Por meio de investimentos e parcerias 
coordenadas, a iniciativa permitiu o alcance de resultados nas dimensões ambiental, social e 
econômica. Neste sentido, a iniciativa pode ser considerada um caso de Big Push para a 
Sustentabilidade da agricultura familiar da Amazônia. Ao conciliar conservação florestal e geração de 
renda, a iniciativa sinaliza estratégias concretas capazes de contribuir para a redução das emissões de 
gases de efeito estufa pelo setor e para o cumprimento dos compromissos assumidos pelo país. 
A iniciativa também contribui para a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ao 
promover: (i) a melhoria produtiva em áreas já abertas; (ii) a valoração de serviços ambientais;  
(iii) a recuperação de áreas degradadas; (iv) a garantia de acesso à água potável; (v) o fortalecimento de 
                                                                      
*  Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 90 
 
cadeias produtivas; (vi) a inovação tecnológica e; (vii) a redução da vulnerabilidade de agricultores 
familiares aos efeitos das alterações climáticas. 
A. Introdução 
A Amazônia Brasileira ocupa 4,2 milhões de km2, ou seja, 49% de todo o território nacional (SFB, 2009). 
Ela abriga grandes estoques de madeira e carbono, além da maior rede hidrográfica do mundo que 
concentra 15% das águas doces superficiais não congeladas do planeta (SFB, 2009). Ainda, a região 
hidrográfica amazônica possui mais de 60% de toda a disponibilidade hídrica do Brasil (MMA, 2006). 
Apesar desta riqueza, 69,9 milhões de hectares (INPE/PRODES, 2019)1, área equivalente a dois 
territórios da Alemanha, já foram desmatados. Entre 2003 e 2012, houve uma redução significativa do 
desmatamento ocorrido na Amazônia de 25.396 para 4.571 km2 (INPE/PRODES, 2019). Neste período, 
o Estado do Pará contribuiu com 38% do total de área desmatada, e Mato Grosso com 32%. Porém, a 
partir de 2013 o desmatamento voltou a crescer. Este cenário representa uma ameaça aos 
compromissos assumidos pelo país nas negociações internacionais visando contribuir para a mitigação 
das mudanças climáticas no âmbito do Acordo de Paris e da Contribuição Nacionalmente Determinada 
brasileira, entre outros. Também representa uma ameaça à produção agropecuária da região. De 
acordo com Marengo e Souza Jr. (2018), o desmatamento e a degradação florestal na Amazônia são 
responsáveis pela perda de 40% a 50% da sua capacidade de bombear e reciclar água. O estresse hídrico 
na região resultará em uma queda drástica na produtividade agrícola e de pastagens. 
Neste contexto, os 2.269 assentamentos rurais do bioma Amazônia que ocupam 33,1 milhões de 
hectares e abrigam 460.312 famílias de pequenos produtores (INCRA, 2018), já perderam 40% de sua 
vegetação original até 2018 (INPE/PRODES, 2018). Ainda, sua participação no desmatamento total do 
bioma dentro do território brasileiro foi de 18% até 2018. Apesar disso, esses assentamentos ainda 
detêm 2,4 bilhões de toneladas de carbono estocadas nas florestas remanescentes2. Este estoque 
equivale a dez vezes as emissões causadas pelo setor de mudanças de uso da terra e florestas em 2017 
(Azevedo e outros, 2018). 
Historicamente, a carência de assistência técnica, serviços básicos, dificuldades de acesso a 
tecnologias, políticas públicas, transferência de conhecimento e melhores condições logísticas 
colocaram o agricultor familiar da Amazônia à margem do processo de desenvolvimento da região. De 
acordo com Castro e Pereira (2017) os agricultores familiares foram negligenciados pelas diferentes 
esferas governamentais ao longo do processo de modernização da agricultura brasileira. Isso levou à 
necessidade de derrubada constante de áreas florestadas para o estabelecimento de atividades 
produtivas como a agricultura de corte e queima e a pecuária extensiva de baixa produtividade (Stella e 
outros, 2009). Este ciclo de empobrecimento das áreas não gerou melhores condições de vida para a 
população. Além disso, tem tornado a agricultura familiar cada vez mais vulnerável aos efeitos das 
alterações climáticas colocando em risco a segurança alimentar das famílias. 
Assim, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), uma organização não 
governamental brasileira, tem concentrado seus esforços nas últimas duas décadas na implementação 
de estratégias coordenadas visando demonstrar que é possível promover territórios rurais sustentáveis, 
conciliando melhoria da produtividade e aumento na geração de renda sem promover a derrubada de 
novas áreas de floresta. Porém, um desafio como esse exigiu investimentos e esforços coordenados 
capazes de promover uma transição dos padrões convencionais de uso do solo para práticas mais 
                                                                      
1  O PRODES foi criado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e realiza o monitoramento por satélites do 
desmatamento por corte raso na Amazônia Legal e produz, desde 1988, as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas 
pelo governo brasileiro para o estabelecimento de políticas públicas. 
2  Considerando a média de 132 toneladas de carbono por hectare, reconhecida pelo Decreto nº 7390 de 9 de dezembro de 2010. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 91 
 
sustentáveis. Foi assim que surgiu o Projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia, executado pelo 
IPAM na região oeste do Pará em parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária 
(INCRA) e a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP). O projeto teve apoio da cooperação 
internacional por meio do Fundo Amazônia e beneficiou diretamente cerca de 2.700 famílias de 
pequenos produtores(as) no processo de regularização ambiental. Destas, 638 foram também 
beneficiadas com serviços de assistência técnica e extensão rural (ATER) visando melhoria produtiva 
em áreas abertas, agregação de valor em cadeias produtivas, valoração da floresta em pé, entre outros. 
Este estudo visa avaliar as experiências e os resultados do Projeto Assentamentos Sustentáveis 
na Amazônia, que foi implementada no período de 2012 a 2017, à luz das diretrizes definidas pelo 
Big Push para a Sustentabilidade desenvolvidos pela CEPAL (Comissão Econômica para a América 
Latina e o Caribe das Nações Unidas; CEPAL/FES, 2019) e sua relação com a Agenda 2030 e os 
17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2015). 
Para as análises aqui apresentadas, foram utilizados levantamentos de dados socioeconômicos 
das famílias envolvidas na iniciativa, atendidas com assistência técnica e extensão rural, através da 
utilização de questionários estruturados que permitiram a construção de linha base e o monitoramento 
anual dos indicadores de sustentabilidade definidos pelo projeto. Para isso, foi selecionada uma 
amostra aleatória de 351 famílias distribuídas proporcionalmente nos três territórios de atuação do 
projeto para haver representatividade em relação ao número total de famílias beneficiárias (638). Em 
relação à análise da cobertura florestal, foram utilizadas imagens de satélite Landsat 8 (INPE, 2019) que 
detectaram a média histórica do desmatamento em um período de 10 anos para servir como linha de 
base. Ao longo da execução do projeto, os dados socioeconômicos e ambientais, bem como os dados 
de desmatamento, foram novamente coletados e analisados, o que permitiu a avaliação do 
desempenho do público beneficiário da iniciativa. 
B. As origens do projeto Assentamentos Sustentáveis da Amazônia 
A Rodovia Transamazônica (BR230), com aproximadamente cinco mil quilômetros de extensão, foi 
planejada e construída na década de 70 com o objetivo principal de integrar a Amazônia brasileira ao 
restante do país (Souza, 2006). Porém, o projeto de colonização da região foi abandonado pelo governo 
federal e as famílias migrantes enfrentaram diversas dificuldades como a falta de acesso a serviços de 
saúde, educação, péssimas condições das estradas, entre outros. A partir de 1987, houve uma reação da 
sociedade civil organizada conhecida como Movimento pela Sobrevivência na Transamazônica (MPST), 
apoiado por vários outros grupos para pressionar uma atitude do governo frente a esta situação de 
abandono (FVPP, 2006). Em 1992, surgiu a Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), visando 
intensificar a interlocução do movimento social com o governo federal na busca por políticas e 
programas de fortalecimento da agenda social e ambiental na região (Souza, 2006). Neste período vai 
se tornando cada vez mais evidente para os movimentos sociais a relação entre degradação ambiental 
e problemas socioeconômicos enfrentados no meio rural. Isso se tornou um fator fundamental no 
debate sobre o desenvolvimento sustentável dos territórios rurais.  
Em 2000, no Grito da Amazônia, os movimentos sociais rurais da Amazônia Legal e as 
organizações não-governamentais apresentaram uma proposta para o desenvolvimento 
socioambiental da produção familiar que foi discutida nos anos subsequentes e adotada, em 2004, 
como política pública do governo federal brasileiro. Essa proposta, conhecida como ProAmbiente, 
buscava promover de forma integrada a transição agroecológica, a conservação ambiental e a valoração 
de serviços ambientais para o fortalecimento da agricultura familiar na Amazônia (Mattos e outros, 
2011). Porém, o ProAmbiente como política pública nunca foi consolidado.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 92 
 
Em 2009, na região da Transamazônica, onde houve uma grande mobilização para o 
envolvimento das famílias no programa, o acúmulo de experiências foi redirecionado para a concepção 
de uma proposta para o então recém-criado Fundo Amazônia, com apoio técnico do IPAM. No período 
de 2009 a 2012, a proposta amadureceu abrangendo mais dois territórios, BR163 e Baixo Amazonas, 
ambos na região oeste do Pará. Em 2012, o Fundo Amazônia então aprovou o projeto “Assentamentos 
Sustentáveis na Amazônia: o desafio da produção familiar de baixo carbono” visando criar referências a 
partir da articulação de diferentes estratégias que demonstrassem a viabilidade de transformação no 
meio rural para um novo modelo de desenvolvimento sob bases sustentáveis. 
C. Estratégias integradas para a promoção de assentamentos 
sustentáveis na Amazônia 
O Projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia, executado de 2012 a 2017, teve por objetivo a 
implementação de estratégias coordenadas visando demonstrar que é possível melhorar a 
produtividade e a geração de renda em territórios rurais ocupados pela agricultura familiar sem 
promover a derrubada de novas áreas de floresta. Ainda, o projeto contribuiu para a redução das 
vulnerabilidades da pequena produção familiar aos impactos das mudanças climáticas. De acordo com 
Machado Filho e outros (2016), os pequenos produtores das regiões Norte e Nordeste terão que se 
adaptar a uma tendência de agravamento da alteração climática que impacta muitos dos seus cultivos. 
Segundo o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima do Brasil (Brasil, 2016), o aumento da 
deficiência hídrica causado pelas alterações climáticas levará à redução dos níveis de produtividade e, 
consequentemente, a impactos econômicos preocupantes. Esse cenário representa uma ameaça aos 
modos de vida e economias locais, à segurança alimentar, entre outros. 
As atividades do Projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia foram realizadas entre os 
anos de 2012 a 2017, com investimentos do Fundo Amazônia nos territórios do Baixo Amazonas 
(assentamento Moju I e II), BR 163 (assentamento Cristalino II) e Transamazônica (as famílias estavam 
localizadas em 11 diferentes assentamentos e na área do Projeto Integrado de Colonização da BR230), 
região oeste do Pará (mapa V.1). Nesta região, as principais atividades produtivas praticadas pelas 
famílias de pequenos produtores tem sido: i. lavoura branca (culturas anuais como milho, feijão, 
mandioca etc.); ii. lavoura perene (sendo principalmente composta por espécies frutíferas); iii. pecuária 
de corte e leite, e; iv. criação de pequenos e médios animais. O extrativismo florestal de produtos não-
madeireiros e madeireiros não tem sido expressivo e, quando presente, está focado no manejo de 
açaizais, extração de óleos vegetais, cipó e madeira para a construção de infraestrutura. 
Para a promoção de territórios rurais sustentáveis, foram estabelecidas parcerias com mais de 60 
organizações governamentais e não governamentais e promovidos esforços visando lidar com os 
principais desafios enfrentados pela agricultura familiar da região, sendo eles: i. Regularização 
ambiental dos lotes; ii. Capacitação dos(as) produtores(as) em práticas produtivas de baixo impacto; iii. 
Apoio à melhoria da produtividade das áreas já abertas; iv. Apoio ao manejo florestal comunitário; v. 
Fortalecimento das cadeias produtivas e aumento da capacidade na gestão dos empreendimentos 
rurais; vi. Valoração de serviços ambientais, e; vii. Inovação para o monitoramento do desempenho 
socioeconômico e ambiental das famílias beneficiárias.  
As estratégias implementadas permitiram o aumento médio na renda bruta das famílias 
beneficiadas com assistência técnica em 121%, comparando a última safra (2015-2016) com o período 
da linha de base (safra 2013-2014; IPAM, 2019). Isso significa um aumento de R$ 8.605 para R$ 18.987 
por família/ano. O valor comercializado dos produtos da agricultura familiar subiu, em média, 237% e, 
consequentemente, a sua representatividade em relação à renda bruta também aumentou, como pode 
ser observado no gráfico V.1. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 93 
 
Mapa V.1 
Área de implementação da iniciativa Assentamentos Sustentáveis na Amazônia 
 
Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), “Projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia: O desafio da produção 
familiar em uma economia de baixo carbono” [online], Brasília https://ipam.org.br/wp-content/uploads/2013/08/infopas_-_nº_1_.pdf (data 
de consulta: 5 de agosto de 2019), 2013. 
 
Gráfico V.1 
Representatividade do valor comercializado em relação à renda bruta antes (safra 2013-2014)  
e no final (safra 2015-2016) do período de vigência do projeto 
(Em porcentagem) 
 
Fonte: Elaboração própria com base no banco de dados (N=351) do Projeto Assentamentos Sustentáveis da Amazônia, contido em Instituto 
de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Relatório de Avaliação de Resultados Projeto Assentamentos Sustentáveis, Brasília, 
BNDES/Fundo Amazônia, 2019. 
 
69%
23%
64%
49%
55%
82%
57%
87% 84% 83%
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
Bom Jardim Cristalino II Moju I e II Núcleo PSA Total
Linha de Base (2013-2014) Safra 2015-2016
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 94 
 
Para mensurar a redução do desmatamento a partir da implementação do projeto, foi definida 
uma linha de base, utilizando os dados do INPE/PRODES, para um período de referência de 10 anos 
(entre 1998 a 2008). Este período foi definido em 2009, ano em que o projeto foi submetido ao Fundo 
Amazônia. Dentre os territórios que fazem parte do projeto, as famílias beneficiárias da região da 
Transamazônica que tiveram o melhor desempenho foram aquelas que fizeram parte de um Programa 
de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) no âmbito da mesma iniciativa (descrito mais 
detidamente na Seção D). No último ano do projeto, essas famílias haviam reduzido em 75% a taxa 
anual de desmatamento em comparação com a linha de base. Em seguida, as famílias do território da 
BR 163 (assentamento Cristalino II) apresentam uma redução de 79% da taxa anual de desmatamento 
em relação à linha de base. As famílias do assentamento Bom Jardim também localizado no território 
da Transamazônica alcançaram uma redução de 73% da taxa anual de desmatamento em relação ao 
período de referência. Por fim, as famílias do Baixo Amazonas (assentamento Moju I e II) alcançaram 
redução média de 49% da taxa anual de desmatamento. Apesar de ficarem em último lugar no ranking, 
as famílias do Moju I e II são aquelas que detêm maior proporção de cobertura florestal em seus lotes. 
 
Figura V.1 
Dimensões consideradas na definição dos 20 indicadores de sustentabilidade da iniciativa 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Elaboração própria com base em Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Relatório de Avaliação de Resultados Projeto 
Assentamentos Sustentáveis, Brasília, BNDES/Fundo Amazônia, 2019. 
 
Atingir a redução das taxas de desmatamento ao mesmo tempo em que se promove o 
desenvolvimento socioeconômico das famílias beneficiárias é um resultado notável do projeto. Um dos 
aspectos fundamentais que garantiu o alcance desse resultado foi a qualificação de uma equipe 
assistência técnica e extensão rural (ATER) focada no manejo integrado das unidades de produção 
familiar, na melhoria de renda das famílias a partir da produção de baixo impacto e, consequentemente, 
na redução da pressão sobre os remanescentes florestais. Este investimento do projeto em um modelo 
de serviço de ATER voltado a sistemas produtivos sustentáveis foi feito visando inverter a lógica da 
perda de recursos naturais e aprimorar a qualidade ambiental do lote, freando a degradação 
historicamente observada na região e a perda da capacidade produtiva das áreas abertas (InfoPAS, 
2017a e 2017b). O modelo de ATER pode ser considerado um diferencial e foi subsidiado por três 
ferramentas: i. um estudo de mercado para orientar as decisões dos produtores em relação à demanda 
local e regional; ii. um Plano de Uso das Unidades de Produção Familiar (PU) contendo a caracterização 
dos lotes e da mão-de-obra disponível na família e o planejamento das atividades produtivas a serem 
apoiadas pelo projeto pactuado entre as famílias dos produtores e a equipe técnica de ATER; e iii. uma 
plataforma de monitoramento do projeto (Sistema de Monitoramento do Projeto Assentamentos 
Sustentáveis da Amazônia – SIMPAS), na qual os esforços dos serviços de ATER podiam ser registrados 
Gestão territorial 
compartilhada 
(03 indicadores)
Socioeconômica/ 
produtiva
(10 indicadores)
Ambiental 
(07 indicadores)
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 95 
 
e monitorados a partir da análise do desempenho das propriedades rurais com base em 20 indicadores 
de sustentabilidade definidos na iniciativa e distribuídos em três dimensões (figura V.1). 
Ainda, vale ressaltar que a iniciativa Assentamentos Sustentáveis na Amazônia foi também 
fundamental para atrair outros investimentos para a região como, por exemplo, o Projeto Nossa Água, 
apoiado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. O projeto Nossa Água viabilizou 
o acesso à água própria para o consumo a 493 famílias da região, garantindo a sua segurança nutricional 
com soluções tecnológicas compatíveis a sua realidade. O desenvolvimento de estratégias territoriais 
que atraem investimentos complementares de forma coordenada é fundamental para que seja dado 
um grande impulso (Big Push) para o desenvolvimento sustentável. A coordenação é elemento central 
para que investimentos alcancem as três eficiências do Big Push para a Sustentabilidade (Seção F). 
D. Incentivos econômicos para conservação  
e produção rural sustentável 
A agricultura familiar pode ser vista como elemento chave nos esforços de promoção de um novo 
modelo de desenvolvimento para a Amazônia. Para isso, é necessário inverter o padrão histórico de 
expansão desordenada das fronteiras agropecuárias brasileiras, o qual tem sido o principal responsável 
pela degradação ambiental das paisagens naturais, com a exploração dos recursos naturais de forma 
economicamente ineficiente, ecologicamente insustentável e socialmente injusta (IPAM, 2013). Neste 
contexto, a redução da perda de serviços ambientais associada ao desmatamento deve ser promovida 
de forma integrada a um modelo produtivo mais eficiente e de baixo impacto. Por isso, a iniciativa 
Assentamentos Sustentáveis, além de promover investimentos voltados para a melhoria produtiva das 
áreas já abertas, também implementou um sistema de valoração dos serviços ambientais providos 
pelos(as) pequenos(as) produtores(as) familiares. 
O Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) foi, assim, implementado pelo projeto 
Assentamentos Sustentáveis da Amazônia no território da Transamazônica visando compensar os 
esforços dos pequenos produtores na adoção de práticas sustentáveis de uso do solo e a não derrubada 
da floresta, juntamente com uma “cesta” de outros benefícios (ATER qualificada, capacitação, fomento 
às atividades produtivas previstas no PU, regularização ambiental, fortalecimento de cadeias 
produtivas, etc). Assim, o PSA freou o desmatamento, estimulou a transição do modelo produtivo e o 
debate sobre a relação floresta, disponibilidade hídrica e produção agropecuária.  
Segundo Pinto (2017), as famílias beneficiárias do Programa de PSA (inicialmente 350 famílias), 
recebiam um valor que correspondia à renda bruta das áreas abertas anualmente (supondo-se uma taxa 
de perda de cobertura florestal de 2,39%/ano) para o estabelecimento de lavoura branca (agricultura de 
corte-e-queima) e da pecuária (praticada de forma extensiva na região), principais vetores do 
desmatamento. Assim, os mesmos eram compensados pela renúncia de abrir novas áreas para o 
estabelecimento destas atividades, ao mesmo tempo em que recebiam apoio técnico para melhorar a 
sua produtividade. Na prática, isso representava, em média, uma compensação no valor de 
aproximadamente R$ 1.980,06/ano3 por família repassada em quatro parcelas (IPAM, 2019). 
Para participar do Programa de PSA, as famílias deveriam ter, no mínimo, 30% da cobertura florestal 
do seu lote conservada, além de manter 15 metros de Áreas de Preservação Permanente (APP) ao longo dos 
cursos d´água (conservada e/ou em fase de recuperação). Outro critério para recebimento do PSA era a 
adoção de melhorias produtivas de acordo com o Plano de Uso (PU) de sua propriedade rural. Vale ressaltar 
que os lotes com menos de 30% de cobertura florestal não foram considerados elegíveis.  
                                                                      
3 Valor corrigido em R$ de 2017. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 96 
 
O recurso foi repassado trimestralmente, usando estes critérios da seguinte forma: I) 30% do 
valor total pela conservação das Áreas de Preservação Permanente (APPs); II) 30% do valor total pela 
conservação da cobertura florestal total remanescente no lote; III) 40% do valor total pela adoção de 
melhores práticas de uso do solo (figura V.2). 
 
Figura V.2 
Critérios para repasse de PSA 
(Em porcentagens) 
 
Fonte: Elaboração própria com base em Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Relatório de Avaliação de Resultados Projeto 
Assentamentos Sustentáveis, Brasília, BNDES/Fundo Amazônia, 2019. 
 
O monitoramento da cobertura florestal foi realizado anualmente, baseado em análise de 
imagens de satélite INPE/PRODES, como descrito anteriormente. O desempenho das atividades 
produtivas era avaliado pela equipe de assistência técnica do projeto. O cumprimento das regras 
estabelecidas no contrato com as famílias era discutido em grupos formados pelas lideranças de cada 
comunidade, conhecidas como “agentes ambientais” (que também eram produtores beneficiários do 
projeto), pelos coordenadores regionais do IPAM e por representantes das organizações de base. 
O papel destes grupos era o de discutir e validar as decisões garantindo a governança e o controle social 
do processo. A governança participativa desse processo, envolvendo múltiplos atores, é mais um 
elemento que indica a importância da coordenação para o êxito de uma iniciativa alinhada com o 
Big Push para a Sustentabilidade. 
É importante ressaltar que o grupo de famílias que apresentou melhor performance, tanto no 
aumento da geração de renda, quanto redução do desmatamento, foi aquele formado pelas 
beneficiárias do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais. Em relação ao aumento de renda 
bruta, o grupo do Programa de PSA atingiu um aumento médio de 177%, ou seja, 56% a mais do que a 
média geral (gráfico V.2). O aumento do valor médio comercializado também foi maior para o grupo de 
famílias do Programa de PSA (374%) no mesmo período. 
Os resultados demonstram a importância de tratar incentivos econômicos dentro de uma 
abordagem integrada entre conservação e produção sustentável, com critérios e regras claramente 
estabelecidos e com um sistema participativo de acompanhamento do desempenho das unidades de 
produção familiar. Isso cria um ambiente favorável para o alcance dos resultados esperados e sua 
sustentabilidade no longo prazo. De acordo com Pinto (2017), a estratégia de PSA do projeto PAS, 
Cobertura 
florestal (30%)
Melhores práticas 
produtivas (40%)
APP 
(30%)
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 97 
 
apesar de ser apenas uma dentro de um “pacote” de incentivos que demandam maiores investimentos 
para gerar mudanças duradouras nos padrões de uso do solo, tem o potencial de reduzir o risco 
relacionado ao abandono de atividades de conservação e/ou redução de degradação quando os 
pagamentos por serviços ambientais forem interrompidos. 
 
Gráfico V.2 
Renda Bruta no Período de Execução do PAS (2012 a 2017) 
(Em R$/ano por família) 
 
Fonte: Elaboração própria com base em Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Relatório de Avaliação de Resultados Projeto 
Assentamentos Sustentáveis, Brasília, BNDES/Fundo Amazônia, 2019. 
 
E. Sistemas agroflorestais como estratégia de regularização  
ambiental e segurança alimentar 
No Brasil, de acordo com o Código Florestal Brasileiro (Lei No 12.727 de 17 de outubro de 2012), um 
pequeno produtor que tenha desmatado as matas ciliares, às margens dos cursos d’água antes de julho 
de 2008, deverá recuperar de 5 a 15 metros a vegetação em ambos os lados dos cursos d’água. Porém, 
mesmo com a legislação existente, os pequenos produtores ainda resistem a promover a recuperação 
das APPs devido, muitas vezes, aos altos custos relacionados a essa atividade. Uma forma de diminuir 
os custos seria a regeneração natural, método através do qual o produtor abandona a área e deixa a 
vegetação se recompor naturalmente. No entanto, se estas áreas já estiverem ocupadas com atividades 
produtivas esta opção não é vista de forma atrativa pelas famílias. Assim, seja pelo custo, seja porque o 
produtor não quer abrir mão da produção das áreas, o restauro das APPs é um desafio. Diante deste 
cenário, o IPAM, por meio do PAS, apoiou os produtores familiares na recuperação destas áreas com a 
implantação combinada de sistemas agroflorestais (SAFs) e o enriquecimento de capoeiras em 
aproximadamente 30 metros de cada lado dos cursos d’água. Esta metodologia tem estimulado o 
envolvimento dos pequenos produtores no processo de regularização ambiental. Além disso, os SAFs 
representam uma oportunidade de diversificação de renda com o uso de espécies de valor econômico 
no restauro e de fortalecimento da segurança alimentar.  
0
5 000
10 000
15 000
20 000
25 000
Linha de Base (2013-2014) Safra 2014-2015 Safra 2015-2016
Bom Jardim Cristalino II Moju I e II Núcleo PSA Total
+134%
+121%
+53%
-10%
+177%
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 98 
 
Ao todo, 119 hectares foram reflorestados com sistemas agroflorestais (SAFs) gerando mais uma 
fonte de renda para as famílias, ao mesmo tempo recuperando serviços ecossistêmicos e 
desenvolvendo um modelo de produção agropecuária com base agroecológica mais adequado à 
realidade local. Neste contexto, uma parceria fundamental foi estabelecida com as Casas Familiares 
Rurais4. Nestas escolas foram construídos viveiros de produção de mudas que eram disponibilizadas 
para as comunidades rurais contempladas na iniciativa. Estes viveiros contribuíram também para o 
processo de aprendizagem dos estudantes das Casas Familiares Rurais.  
No final do período de vigência do projeto Assentamentos Sustentáveis (início de 2017), o IPAM 
estabeleceu uma parceria com a Iniciativa Verde (organização não-governamental) através do projeto 
Carbon Free Amazônia para a ampliação da iniciativa de restauro às margens de cursos d’água através 
da implantação de sistemas agroflorestais e de enriquecimento de capoeiras. Esta experiência está em 
andamento nos municípios de Anapu, Pacajá e Senador José Porfírio, na região Transamazônica. 
F. Discussão sobre a iniciativa à luz do Big Push para a Sustentabilidade 
A integração de estratégias que conciliam redução de emissões de gases de efeito estufa, redução das 
desigualdades sociais, melhores oportunidades de geração de renda, conservação do capital natural, 
construção de capacidades tecnológicas e redução da vulnerabilidade socioeconômica e ambiental de 
comunidades rurais de baixa renda, tem sido o caminho escolhido pelo IPAM para promover territórios 
rurais sustentáveis na Amazônia. O projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia e o 
estabelecimento de parcerias capazes de maximizar os investimentos e os resultados alcançados estão 
alinhados diretamente a Agenda 2030 e os seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS; ONU, 
2015). Neste sentido, o presente estudo de caso demonstra a contribuição das iniciativas 
implementadas no que diz respeito a: 
• Redução da vulnerabilidade de comunidades rurais de baixa renda aos impactos das 
alterações climáticas (ODS 1 e 13); 
• Promoção da agricultura sustentável, aumento na geração de renda de pequenos 
produtores e garantia da segurança alimentar (ODS 2); 
• Garantia de acesso à água própria para consumo, além de proteção e restauração de 
ecossistemas relacionados à água (ODS 6);  
• Inclusão econômica de comunidades rurais de baixa renda (ODS 10) e gestão sustentável e 
uso eficiente dos recursos naturais (ODS 12); 
• Gestão sustentável dos recursos florestais, redução do desmatamento e restauração de 
áreas degradadas (ODS 15). 
Além disso, a iniciativa aqui apresentada foi apoiada pelo Fundo Amazônia que contribui, entre 
outros, para o ODS 17, ao fortalecer a mobilização de recursos internos dos países em desenvolvimento 
e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável (BNDES, 2019). O Fundo Amazônia é 
um mecanismo de financiamento climático baseado no conceito de pagamento por resultados obtidos 
na redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento (Redução de 
Emissões oriundas do Desmatamento e da Degradação Florestal – REDD+). Ele é gerido pelo BNDES 
com recursos provenientes principalmente da cooperação com os governos da Noruega e da Alemanha. 
Segundo Marcovitch e Pinsky (2019), o Fundo Amazônia foi reconhecido como um dos principais fundos 
                                                                      
4  As Casas Familiares Rurais têm como referencial a pedagogia da alternância, de modo que teoria e prática caminham juntas e o 
ambiente em que vivem as famílias dos alunos (propriedades rurais) é o principal laboratório da produção do conhecimento (Souza 
e Silva, 2012). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 99 
 
do clima no mundo e um benchmark em cooperação internacional no tema das mudanças climáticas. 
Assim, a iniciativa aqui relatada foi pautada nos objetivos do Fundo priorizando adoção de metodologia 
confiável para quantificar redução do desmatamento e contabilizar suas emissões associadas. Ao 
mesmo tempo, foram quantificados ganhos quanto ao aumento de renda das famílias atendidas. Este 
comprometimento com quantificação e registro dos resultados exigiu toda uma expertise e capacidade 
na construção de plataformas de cálculo. Assim, o norte construído pela cooperação internacional e o 
governo brasileiro através do Fundo Amazônia estimulou a mensuração do desempenho da iniciativa 
de forma confiável ao longo dos anos, permitindo alcançar resultados esperados. 
No nível nacional, a iniciativa implementada na região Oeste do Pará sinaliza caminhos para a 
contribuição do setor da agricultura familiar nas metas estabelecidas no âmbito do Acordo de Paris, na 
Política Nacional de Mudanças do Clima, na Estratégia Nacional de REDD+, nas discussões sobre a 
instituição de uma política e um programa federal de Pagamento por Serviços Ambientais, no Código 
Florestal, entre outros. Segundo a CEPAL (2016), a mudança para um estilo de desenvolvimento inclusivo 
e sustentável requer alianças políticas e coalizões que o sustentem. Assim, a visão estratégica dessa 
iniciativa demonstra também a importância de esforços coordenados para maximizar os investimentos 
disponíveis e alcançar resultados robustos e que tenham sustentabilidade e escalabilidade. 
O envolvimento de governos locais, academia, sociedade civil, sindicatos rurais, agências de 
desenvolvimento e representantes de organizações de base tem sido, portanto, fundamental. 
A presente iniciativa permite também a análise de alguns aspectos à luz da abordagem que a 
CEPAL vem desenvolvendo, denominada Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019), 
especificamente no que diz respeito à transformação que deve ser promovida para compatibilizar a 
igualdade e a proteção ambiental a partir do desacoplamento entre crescimento econômico e emissões 
de carbono. Um dos principais conceitos propostos no arcabouço do Big Push para a Sustentabilidade é 
a tripla eficiência (CEPAL/FES, 2019). A primeira é a eficiência schumpeteriana, segunda a qual uma 
matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera externalidades positivas 
de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. Observa-se que, nesse estudo 
de caso, a adoção das chamadas “cestas” de benefícios citados são exemplos de como vincular um 
incentivo (o PSA, nesse caso) a processos de conhecimento e de aprendizado que permitem não apenas 
reduzir o desmatamento, mas também construir as bases para a transição para um modelo econômico-
produtivo capaz de gerar renda e reduzir desigualdades a partir da valoração da floresta em pé. 
A segunda eficiência é a keynesiana, que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo 
da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. No caso estudado, nota-se que 
o apoio empreendido resultou em um aumento efetivo do acesso do mercado consumidor aos produtos 
da agricultura familiar de bases sustentáveis, que é um mercado em expansão nacional e 
internacionalmente. 
Por fim, a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade indica a terceria eficiência, que é a 
“clássica” eficiência da sustentabilidade, referente à viabilidade econômica, justiça social e 
sustentabilidade ambiental. O PAS nitidamente busca atender aos três pilares da sustentabilidade, ao 
contribuir para desenvolver um modelo econômico rentável e inclusivo, adequado às especificidades 
locais e sustentável ambientalmente no contexto da Amazônia. 
Outro ponto importante, que ficou claro no caso estudo, é a centralidade da coordenação, tanto 
de investimentos em áreas complementares, como de atores envolvidos por meio de uma governança 
participativa. O apoio do Fundo Amazonia na iniciativa, bem como a participação e esforço realizados 
pelos governos locais através de coalizões, a cooperação da sociedade civil, sindicatos e academia 
demonstram a importância de ações coordenadas, sobretudo quando se fala do rompimento de 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 100 
 
paradigmas técnico-econômico locais insustentáveis, para o êxito dos investimentos sustentáveis. 
Outros aspectos relacionados ao Big Push para a Sustentabilidade são: 
• Aprendizagem e inovação: nos territórios rurais da Amazônia, investimentos no capital humano 
por meio da qualificação a partir de serviços de assistência técnica e extensão rural, envolvendo 
jovens estudantes filhos de produtores rurais, são fundamentais. Da mesma forma, a 
sensibilização de produtores e produtoras sobre a importância de transição para melhores 
práticas de uso do solo, a disseminação de conhecimento sobre os impactos das mudanças 
climáticas na capacidade produtiva regional e a valoração de serviços ambientais providos pela 
população local devem ser parte de qualquer estratégia de desenvolvimento territorial. Ainda, 
as inovações tecnológicas devem ser sempre discutidas junto às comunidades visando o melhor 
custo-benefício e sua compatibilidade com a realidade em questão; 
• Acesso a mercados: ao fortalecer as cadeias produtivas e facilitar o acesso dos produtores 
aos mercados institucionais, feiras e redes de comercialização, a iniciativa contribuiu para o 
aumento da renda e valor agregado na produção familiar. Porém, este é um aspecto que 
ainda exige muito apoio e parcerias no sentido de promover a autonomia econômica das 
famílias e a menor dependência de programas governamentais de transferência de renda. 
A dificuldade de acesso aos mercados, as péssimas condições das estradas, a baixa 
capacidade de negociação, o baixo nível de empreendedorismo, entre outros, ainda 
restringem oportunidades potenciais;  
• Valoração de serviços ambientais condicionada a mudanças nos padrões de uso do solo: na 
realidade da agricultura familiar da Amazônia, demonstrar que é possível produzir mais, 
sem gerar novos desmatamentos requer: i. apoio à melhoria da produtividade em áreas 
abertas, já que o produtor não tem capital de investimento, e ii. a valoração da floresta em 
pé até que uma nova lógica econômica associada a melhores práticas de uso do solo esteja 
consolidada. No projeto Assentamentos Sustentáveis a integração destas duas estratégias 
resultou nos melhores resultados alcançados em relação ao aumento de renda e na redução 
do desmatamento. Dentre todos os territórios, naquele aonde foi também instituído o 
programa de PSA, as famílias apresentaram melhor desempenho. Isso é fundamental para 
demonstrar que há caminhos capazes de promover prosperidade econômica em harmonia 
com a conservação dos recursos naturais.  
A necessidade de transição nos padrões de uso do solo e de acesso a novas oportunidades de 
geração de renda, sob bases sustentáveis, é cada vez mais clara entre os pequenos produtores rurais 
que já sentem nas alterações climáticas a ameaça em relação à capacidade produtiva de suas terras. A 
manutenção do capital natural e dos serviços ambientais associados é fundamental para a sobrevivência 
do homem e da mulher no campo. Porém, este processo não pode estar desacoplado de uma estratégia 
que também garanta o acesso destas populações a serviços básicos (saúde, educação, estradas etc.) e, 
assim, a dignidade de seus modos de vida nos territórios onde estão inseridos. 
Por fim, as referências construídas no projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia podem, se 
ampliadas, contribuir para um grande impulso ambiental e de combate à desigualdade social, criando um 
ambiente favorável de desenvolvimento econômico de baixas emissões de carbono com foco em 
comunidades rurais cujos modos de vida são altamente vulneráveis aos impactos das alterações climáticas. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 101 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 103 
VI. Tecnologia de tratamento de esgoto: uma alternativa 
de saneamento básico rural e produção de água para 
reúso agrícola no Semiárido Brasileiro 
Mateus Cunha Mayer* 
Rodrigo de Andrade Barbosa*  
George Rodrigues Lambais*  
Salomão de Sousa Medeiros*  
Adrianus Cornelius Van Haandel** 
Silvânia Lucas dos Santos*** 
Resumo 
No Semiárido Brasileiro, 38% das famílias residem na zona rural e geralmente não tem acesso às 
tecnologias de tratamento de esgoto e à água de qualidade, criando obstáculos para o desenvolvimento 
sustentável da região. Nesse contexto, o tratamento de esgoto para reúso agrícola se torna uma 
alternativa para fortalecer a convivência do homem e da mulher do campo com o Semiárido. Esse 
estudo tem como objetivo analisar o desenvolvimento de uma tecnologia de saneamento básico rural 
familiar, como alternativa para produção de água de reúso para fins agrícolas no Semiárido Brasileiro. 
Os resultados comprovaram que esta tecnologia promove uma satisfatória redução dos níveis de 
matéria orgânica, preserva os nutrientes necessários para o crescimento vegetal e diminui a 
concentração de microrganismos patogênicos. Com isso, temos um efluente com qualidade satisfatória 
                                                                      
*  Instituto Nacional do Semiárido (INSA). 
**  Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). 
***  Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 104 
 
para ser utilizado na irrigação de culturas forrageiras, madeireiras, cerealíferas e frutíferas. Analisam-se 
os investimentos nessa tecnologia à luz da abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade. 
A. Introdução 
O crescente aumento populacional, a poluição e a falta de gestão dos recursos hídricos estão 
impactando diretamente a disponibilidade de água no Brasil e no mundo. Em regiões áridas e 
semiáridas, a escassez tornou-se um fator limitante para o desenvolvimento econômico. Todavia, esse 
fenômeno não é exclusivo de tais áreas, mesmo em regiões chuvosas, mas com recursos hídricos 
insuficientes para atender as demandas excessivamente elevadas, têm ocorrido conflitos de usos e 
restrições de consumo. Segundo dados da Agência Nacional de Águas —ANA, 38 milhões de pessoas 
foram afetadas por secas e estiagens no Brasil em 2018 (ANA, 2018). 
A disponibilidade hídrica vem sendo afetada, tanto sob o ponto de vista qualitativo quanto 
quantitativo, principalmente devido aos elevados índices de evaporação, distribuição irregular das 
chuvas, disposição inadequada de resíduos sólidos e lançamento de esgotos sem tratamento nos corpos 
hídricos. Mesmo assim, o consumo de água nas últimas duas décadas aumentou em cerca de 80%, 
devendo aumentar em 24% até 2030 (ANA, 2018). Os principais usos de água no país são a irrigação 
(52%), o abastecimento humano (23,8%) e a indústria (9,1%). 
O Brasil é um país em desenvolvimento, que necessita de investimentos em saneamento básico, 
principalmente no que se refere ao esgotamento sanitário, que é uma das ferramentas mais importantes 
para promoção da saúde pública preventiva. De acordo com o Instituto Trata Brasil (2017) e o Ministério do 
Desenvolvimento Regional (MDR/SNS, 2017), 60,2% da população brasileira tem acesso à coleta de esgoto, 
sendo que quase 100 milhões de pessoas não tem acesso a este serviço. Na região Nordeste, 26,9% das 
pessoas são atendidas apenas com a coleta de esgotos. Com relação ao tratamento, no Brasil 45,1% dos 
esgotos são tratados, sendo este índice correspondente a 34,7% na região Nordeste (ANA, 2018). Na zona 
rural do Semiárido Brasileiro, que abrange principalmente o Nordeste, estes índices se tornam ainda mais 
desfavoráveis, aumentando os desafios para universalizar o saneamento básico na região. 
No Semiárido Brasileiro, a oferta de água para usos múltiplos está aquém da sua demanda. Em 
período de estiagem prolongada, a situação se agrava, impactando negativamente o abastecimento de 
seus 1.262 municípios, com reflexo nas atividades econômicas, em especial a agrícola. Por outro lado, 
existe uma fonte de água não convencional, permanente, atualmente não explorada —o esgoto 
doméstico, que se coletado e tratado adequadamente, poderia minimizar os conflitos pelo uso da água 
tão frequentes na região. Estudos realizados por Medeiros e outros (2014) apontam que em 2011 a 
produção de esgoto na região semiárida alcançou 13,42 metros cúbidos por segundo (m3/s). 
De acordo com Medeiros e outros (2014), apenas 243 municípios da região Semiárida possuem 
sistema de coleta de esgoto, e cerca de 10,9 milhões de habitantes não dispõem deste serviço, sendo 
utilizadas fontes alternativas para transporte e destinação final, a exemplo das fossas sépticas, sumidouros, 
valas a céu aberto e/ou lançamento direto nos corpos hídricos. Desta forma, a saúde da população é colocada 
em risco, além de contaminar o meio ambiente e degradar a qualidade dos recursos hídricos. Contudo, o 
tratamento adequado do esgoto pode solucionar esses problemas e ainda gerar uma fonte alternativa de 
água para reúso agrícola, contribuindo para a melhoria de vida das pessoas da região. 
Segundo informações do IBGE (2015), o Semiárido Brasileiro possui aproximadamente 
1,83 milhões de estabelecimentos agropecuários com uma área média de aproximadamente 
29 hectares (Medeiros, 2018). Nesses estabelecimentos, a infraestrutura de coleta e tratamento de 
esgoto é precária e/ou inexistente, expondo a sua população a doenças de veiculação hídrica. Isto 
evidencia a importância da universalização do saneamento básico, proposta pela Política Nacional de 
Saneamento Básico (Lei Nº 11.445/2007). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 105 
 
Boas práticas de saneamento são fundamentais não apenas para evitar doenças, mas também 
para promover a saúde, proteger o meio ambiente e aumentar a qualidade de vida da população. No 
entanto, a utilização do saneamento como instrumento de promoção dessa qualidade de vida 
pressupõe a superação de entraves tecnológicos, políticos e gerenciais que dificultam, por exemplo, o 
atendimento às populações que habitam em áreas rurais e às comunidades isoladas. Neste contexto, 
um dos desafios posto a área de ciência, tecnologia e inovação do Semiárido Brasileiro é o 
desenvolvimento de tecnologias apropriadas para o tratamento de esgoto, objetivando a produção de 
água de reúso para fins agrícolas. 
O Instituto Nacional do Semiárido (INSA), Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e 
Comunicações (MCTIC), vem contribuindo para a ampliação da capacidade de resposta do Semiárido 
Brasileiro à vulnerabilidade hídrica, por meio da pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de 
saneamento básico rural de custo acessível, que priorizam o tratamento de esgoto para produção de 
água de reúso para fins agrícolas em escalas familiar, comunitária e municipal. Em parceria com a 
Universidade Federal de Campina Grande e o Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas 
(PATAC), o INSA vem estudando uma alternativa de saneamento básico rural familiar, composto por 
reator UASB e lagoa de polimento, visando produzir efluente com elevada concentração de nutrientes, 
baixo risco de obstrução do sistema de irrigação e elevada segurança do ponto de vista sanitário. 
Este projeto dialoga com a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, por produzir um ciclo 
virtuoso de desenvolvimento sustentável, baseado nos aspectos econômico, social e ambiental. O texto 
abordará, em um primeiro momento, a implementação do sistema de coleta, tratamento e reúso 
agrícola familiar e seus resultados, seguido da análise do projeto no contexto do Big Push para a 
Sustentabilidade e de uma conclusão com as principais lições extraídas sobre a implementação da nova 
tecnologia e seus impactos. 
B. O desenvolvimento de tecnologias de saneamento básico  
rural de custo acessível no Semiário Brasileiro 
O saneamento básico rural é o conjunto de medidas que visam preservar ou modificar as condições do 
meio ambiente, com a finalidade de prevenir doenças, promover a saúde e melhorar a qualidade de vida 
da população residente na zona rural (Brasil, 2007). 
Devido à falta de saneamento, são comuns casos de contaminação e proliferação de doenças de 
veiculação hídrica, causadas pelo despejo de esgoto doméstico sem tratamento no ambiente. Desta 
forma, o tratamento de esgoto associado ao reúso agrícola apresenta-se como solução de saneamento 
básico rural, além de produzir uma água de qualidade, rica em nutrientes e segura do ponto de vista 
sanitário, que poderá estar disponível para a produção agrícola. 
O sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar, descrito neste capítulo, foi 
desenvolvido para atender famílias da zona rural do Semiárido Brasileiro, tendo os seguintes critérios: 
facilidades de instalação, operação e manutenção; estabilidade e eficiência operacional; dimensões 
compactas; e custo acessível e produção de água com a qualidade para atender ao reúso agrícola. 
O sistema é capaz de tratar água cinza, proveniente da pia de cozinha, lavanderia, lavatório e chuveiro 
da residência, assim como águas escuras (esgoto total). A tabela VI.1 apresenta as funções das unidades 
de tratamento e os resultados esperados. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 106 
 
A tecnologia foi implantada no ano de 2018, na zona rural do município de Cubati no estado da 
Paraíba – PB (Assentamento São Domingos), sendo composta por um sistema de coleta, tratamento e 
reúso agrícola, conforme layout apresentado na figura VI.1. O sistema de coleta se conecta ao sistema 
de tratamento, que possui as seguintes unidades: uma caixa de gordura, um tanque de equalização, um 
reator UASB, duas lagoas de polimento em paralelo. Já a unidade de reúso é composta por um 
reservatório, uma unidade de bombeamento e medição da vazão e um sistema de irrigação localizada 
(xique-xique). 
Tabela VI.1 
Funções das unidades de tratamento e resultados esperados 
Unidades Funções Resultados esperados 
Caixa de gordura Retenção de óleos e graxas Efluente com baixa concentração de óleos 
e graxas 
Tanque de equalização Amortização da carga hidráulica ao reator 
UASB e remoção de sólidos suspensos 
Efluente com menor concentração de sólidos 
e turbidez 
Reator UASB Remoção de matéria orgânica Efluente com menor concentração de 
matéria orgânica 
Lagoa de polimento Desinfecção Efluente com baixa concentração de patógenos 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Programa em Saneamento Básico (PROSAB), Pós-tratamento de efluentes de Reatores 
Anaeróbios, Belo Horizonte, Projeto PROSAB, 2001. 
 
Figura VI.1 
Layout do sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
O dimensionamento do sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar levou em 
consideração a vazão correspondente a uma família da zona rural de Cubati/PB (120 litros/dia), onde a 
pesquisa foi implantada inicialmente, assim como a concentração de demanda biológica de oxigênio 
(DBO) caracterizada no esgoto gerado pela família rural (1.300 miligrama por litro – mg/L). 
Sendo assim, a caixa de gordura foi dimensionada com base na Norma Brasileira (NBR) 8.160/99, 
com diâmetro interno de 40 centímetros (cm), profundidade de 26 cm e volume de 31 litros. O tanque 
de equalização foi baseado na NBR 13.969/97, cilíndrico de câmara tripla, com volume de 1.208 litros, 
diâmetro interno de 1,00 metro e profundidade de 1,50 metros. O reator UASB foi dimensionado com 
volume de 250 litros, altura total de 1,30 metros e capacidade de tratamento de 1,0 metros cúbidos ao 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 107 
 
dia (m3/dia). A lagoa de polimento foi dimensionada com volume de 1.050 litros, profundidade de 
1,0 metro, diâmetro interno de 1,20 metros e tempo de detenção hidráulica (TDH) de 5 a 7 dias. 
A configuração do reator UASB foi baseada em Santos e outros (2018) e van Haandel e Lettinga 
(1994), conforme a figura VI.2. Já as lagoas de polimento foram dimensionadas com base em Cavalcanti 
(2009), considerando o decaimento de coliformes termotolerantes (CTT) e a altura da lagoa, visando 
diminuir a concentração dos patógenos, a perda de água por evaporação e a manutenção dos nutrientes 
no efluente (figura VI.3). 
 
Figura VI.2 
Reator UASB projetado para o estudo 
 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
Figura VI.3 
Lagoas de polimento projetadas para o estudo 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 108 
 
Para implantação do sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar, foi realizado um 
processo de mapeamento das famílias interessadas, tendo sido selecionada uma propriedade pertencente à 
zona rural do município de Cubati/PB, que faz parte do Assentamento São Domingos. Posteriormente, 
foram levantados dados de campo para avaliação técnica da área onde seria instalado o sistema. 
A construção do sistema foi finalizada em outubro de 2017, tendo sido composta pelas etapas de 
escavação das valas, construção do tanque séptico, lagoas de polimento e reservatório da água de reúso 
em alvenaria de concreto armado, assentamento do reator UASB em fibra de vidro e, por fim, as 
instalações hidráulicas e elétricas, além da implantação do sistema de irrigação. 
O monitoramento do sistema foi realizado entre os anos de 2018 e 2019, através de amostragens 
mensais, obtendo-se a caracterização química e microbiológica do afluente e efluente produzidos. Os 
parâmetros químicos monitorados foram a demanda bioquímica de oxigênio (DBO5), o fósforo total e 
o nitrogênio amoniacal; já o parâmetro microbiológico analisado foi a Escherichia coli (bactéria 
indicadora de contaminação fecal). As análises foram realizadas de acordo com metodologias previstas 
em APHA, AWWA e WEF (2012). 
Os resultados de DBO5 comprovaram uma remoção média de matéria orgânica de 78% no 
sistema de tratamento de esgoto familiar (gráfico VI.1), sendo maior do que a eficiência de remoção 
mínima preconizada pela Resolução CONAMA 430/2011, de 60% (Brasil, 2011). Com relação aos 
nutrientes, observou-se uma baixa remoção de fósforo e nitrogênio ao longo do período de 
monitoramento, indicando a eficácia do sistema de tratamento para produzir um efluente rico em 
nutrientes para o reúso agrícola. Os gráficos VI.2 e VI.3 comprovam a relativa preservação dos 
nutrientes, através dos parâmetros de nitrogênio amoniacal e fósforo total. O gráfico VI.4 apresenta os 
resultados microbiológicos do sistema de tratamento de esgoto familiar. As concentrações efluentes 
de E. coli apresentadas se encaixam na faixa recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) 
para reúso agrícola restrito (103 a 105 Número Mais Provável por 100 mililitros – NMP/100 mL), na maior 
parte do período de monitoramento, comprovando a segurança sanitária do efluente tratado para 
irrigação restrita, onde pode ser utilizado para produção de culturas forrageiras, madeireiras, 
cerealíferas e frutíferas (OMS, 2006). 
A família contemplada com o projeto produziu uma média de esgoto tratado de 3,48 m3/mês, 
entre janeiro de 2018 e maio de 2019, o que significa uma oferta diária de 116 litros de água de reúso. 
Essa quantidade de água é suficiente para que uma família agricultora possa realizar a irrigação de 
subsistência em épocas de estiagem, além de não necessitar da aquisição de fertilizantes químicos, pois 
a tecnologia de saneamento básico rural está ofertando água com nutrientes a custo acessível. 
O custo de implantação do sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar é de 
R$ 13.432,00, com base nos Índices da Construção Civil (SINAPI, 2019), possuindo vida útil mínima de 
20 anos. Devido à economia na aquisição de fertilizantes químicos e água que o mesmo proporciona, os 
gastos na implantação tendem a ser recuperados nos primeiros anos de operação do sistema. 
O sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar requer mínimas ações de manutenção 
e cuidados higiênicos no seu manejo, para que o mesmo opere corretamente. Como se trata de 
processos de tratamento, predominantemente físico e biológico, o sistema apresenta operação e 
manutenção simplificadas, podendo ser realizadas pelos próprios integrantes da família contemplada. 
Portanto, sua operação e manutenção não acarretam custos financeiros ou mão de obra especializada. 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 109 
 
Gráfico VI.1 
Concentrações afluente e efluente de DBO5 
(Em miligrama por litro) 
 
 
 
 
 
 
` 
 
 
 
 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
Gráfico VI.2 
Concentrações afluente e efluente de nitrogênio amoniacal  
(Em miligrama por litro) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
  
0
500
1 000
1 500
2 000
2 500
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2018 2019
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Gráfico VI.3 
Concentrações afluente e efluente de fósforo total  
(Em miligrama por litro) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
Gráfico VI.4 
Concentrações afluente e efluente de E. coli 
(Em Número Mais Provável – NMP – por 100 mililitros) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 
 
  
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 111 
 
C. Relação do estudo de caso com o Big Push e a Agenda 2030 
A abordagem do Big Push para a Sustentabilidade é definida pela Comissão Econômica para a 
América Latina e o Caribe (CEPAL), das Nações Unidas, da seguinte forma: 
O Big Push representa uma articulação e coordenação de políticas (públicas e privadas, 
nacionais e subnacionais, setoriais, tributárias, regulatórias, fiscais, de financiamento, de 
planejamento etc.) que alavanquem investimentos nacionais e estrangeiros para produzir 
um ciclo virtuoso de crescimento econômico, gerador de emprego e renda, redutor de 
desigualdades e brechas estruturais e promotor da sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). 
A busca pelo desenvolvimento de novas capacidades tecnológicas, através da pesquisa, inovação 
e geração de conhecimento, é parte da primeira eficiência norteadora da abordagem do Big Push para 
a Sustentabilidade, a eficiência schumpeteriana. Essa eficiência reconhece as externalidades positivas 
do aprendizado e do conhecimento a partir de uma matriz produtiva mais integrada, capaz de irradiar 
mudança tecnológica e inovação para toda a cadeia de valor. O desenvolvimento de uma tecnologia de 
saneamento básico rural de custo acessível, para implementação em escalas familiar e comunitária, 
pode ser entendido como uma forma de eficiência schumpeteriana, ao se basear na construção de 
capacidades tecnológicas e inovativas para gerar soluções sustentáveis. 
A segunda eficiência norteadora do Big Push para a Sustentabilidade é a eficiência keynesiana, 
que destaca os ganhos crescentes de escala e de escopo da especialização produtiva em bens, cuja 
demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos multiplicadores e impactos significativos na 
economia e nos empregos. Dados os reduzidos índices de cobertura de saneamento básico no Brasil, 
especialmente no meio rural, registra-se o enorme mercado potencial que a tecnologia descrita no 
presente estudo de caso pode apresentar, caso sejam introduzidas políticas para apoiar essa demanda. 
A terceira e última eficiência orientadora do Big Push é a clássica eficiência da sustentabilidade, 
no seu tripé econômico, social e ambiental. A criação de novas tecnologias, que garantem o reúso da 
água em áreas sem acesso aos recursos básicos de saneamento, corrobora com a possibilidade de haver 
crescimento econômico com uso mais eficiente dos recursos naturais e garantia de preservação do meio 
ambiente, enquanto se promove a inclusão social e a redução de brechas históricas de desigualdade. 
O caso estudado neste capítulo gerou impactos positivos que apresentam elevada sinergia com 
a Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (ONU, 2015), principalmente 
com o ODS 1, que visa acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares, o ODS 2, 
que almeja acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a 
agricultura sustentável; o ODS 3, que busca assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para 
todos, em todas as idades; o ODS 6, que pretende assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da 
água e saneamento para todos; e o ODS 11, que objetiva tornar as cidades e os assentamentos humanos 
inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. 
Por fim, essa forte relação com o Big Push para a Sustentabilidade e a Agenda 2030 enfatiza a 
importância de replicar o uso dessa tecnologia, possibilitando atender mais famílias que estejam 
inseridas na região Semiárida do Brasil. Os investimentos necessários para essa expansão podem ser 
subsidiados por instituições públicas ou privadas. No Brasil, o Ministério do Desenvolvimento Regional 
(MDR) está criando polos de economia circular, que preveem, entre outras atuações, o desenvolvimento 
de estratégia comercial e de novos modelos de negócios sustentáveis, ações consorciadas, 
associativismo, cooperativismo e economia colaborativa, desenvolvimento da cadeia de fornecedores, 
desenvolvimento e acesso facilitado a laboratórios de pesquisa, cooperação, consórcios entre 
instituições para aquisição ou desenvolvimento de novas soluções tecnológicas, e instituições 
financiadoras de projetos inovadores que estejam alinhados com a economia circular e a Agenda 2030. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 112 
 
Outra forma de conferir escalabilidade à tecnologia apresentada é através da concessão de 
recursos por bancos de fomento, a exemplo da linha de crédito ambiental do Banco Nacional do 
Desenvolvimento (BNDES), que apoia empreendimentos que contribuam para o desenvolvimento 
sustentável, incluindo ações voltadas ao saneamento e recursos hídricos, ao manejo e destinação de 
resíduos sólidos e à eficiência energética. Esse apoio pode ocorrer na forma de financiamento 
reembolsável e não reembolsável, bem como via fundos de investimento (BNDES, 2020). Em escala 
regional, existe a linha de crédito verde do Banco do Nordeste, que apresenta recursos para financiar 
ações de sustentabilidade e inovação (Banco do Nordeste, 2020). 
D. Conclusão 
O sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar, apresentado neste capítulo, é uma tecnologia 
que pode ser utilizada para alavancar a universalização do saneamento rural no Brasil. Além disso, 
devido à inserção de uma nova fonte de água e nutrientes para a produção agrícola, pode contribuir 
para o aumento da renda das famílias, redução da fome e da pobreza na região Semiárida. A água de 
reúso contribui para redução do emprego de fertilizantes químicos na agricultura, diminuindo, portanto, 
a extração de recursos naturais. A tecnologia em questão possui em sua essência o conceito da 
economia circular dentro do contexto da agricultura familiar. Sendo assim, pode-se afirmar que o 
estudo de caso se alinha ao Big Push para a Sustentabilidade nas dimensões econômica, social e 
ambiental, além de contribuir diretamente com cinco Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 
O sistema de coleta, tratamento e reúso agrícola familiar também se destaca pela sua 
simplicidade de operação, fácil manutenção, implantação e custos acessíveis à agricultura familiar. 
Todavia, o acesso ao saneamento básico rural através desta tecnologia necessita de investimentos, que 
podem ter origem pública ou privada. A alternativa mais abrangente e factível seria a utilização de 
recursos da União destinados ao Programa Saneamento Brasil Rural do Governo Federal, que está sob 
a responsabilidade do Ministério da Saúde, através da Fundação Nacional da Saúde (FUNASA), 
conferindo escalabilidade à tecnologia desenvolvida. 
Sendo assim, o Instituto Nacional do Semiárido tem promovido o diálogo, a pesquisa e a inovação 
entre os vários atores da sociedade, na busca de soluções orientadas aos principais desafios da região 
Semiárida, numa perspectiva de provocar mudanças estruturais e sustentáveis. 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 113 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 115 
VII. Sistema Agroflorestal Cambona 4: um exemplo de 
impulso à sustentabilidade na Região Sul do Brasil 
Airton José Morganti Júnior* 
José Lourival Magri** 
Selia Regina Felizari*** 
Resumo 
A erva-mate é uma das principais culturas do Nordeste do Rio Grande do Sul e, até o início dos anos 
2000, sua produção seguia a mesma dinâmica adotada no período colonial brasileiro. À época, o sistema 
produtivo era marcado por baixa produtividade e má qualidade do produto destinado à 
comercialização. Mesclava-se a erva nativa com uma variedade plantada e o resultado dessa mistura 
tinha sabor mais amargo, que não era a preferência dos consumidores. Nessas condições, a atividade 
gerava baixa renda para os agricultores que dependiam dela para o seu sustento. A partir de 2006, na 
região de Machadinho (RS), a adoção de um novo sistema produtivo mudou esse panorama. Por meio 
de um projeto que envolveu instituições de pesquisa, a associação de produtores locais e empresas 
privadas, a erva nativa foi substituída na combinação por uma variedade obtida por meio de 
melhoramento genético, a Cambona 4. Como resultado, a produtividade e qualidade do produto foram 
elevadas, sanando as principais limitações até então enfrentadas pelos agricultores. O projeto tornou-
se, assim, um importante vetor de geração de renda, valorizando a agricultura familiar e fixando o 
homem no campo. O Sistema Agroflorestal (SAF) representa, ainda, uma alternativa de reposição 
florestal, com grande potencial de proporcionar serviços ambientais, como, por exemplo, a conservação 
                                                                      
*  Consórcio Machadinho. 
**  ENGIE Brasil Energia. 
***  Associação de Produtores de Erva-Mate de Machadinho (Apromate). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 116 
 
da biodiversidade e o sequestro de carbono. Em complemento, permitiu a proteção de cerca de 
70 nascentes de água localizadas nas propriedades participantes. 
A. Introdução 
A erva-mate é uma das principais culturas do Nordeste do Rio Grande do Sul e o Oeste de Santa Catarina 
(Correa e outros, 2011). Até o início dos anos 2000, sua produção obedecia aos mesmos modos adotados 
no período colonial brasileiro, extrativista de ervais nativos formados naturalmente em remanescentes 
de mata com araucária, parte da Mata Atlântica do Sul do Brasil. A erva produzida tinha pouca qualidade 
e baixa produtividade por área trabalhada. Um estudo da Universidade Regional de Erechim, baseado 
na aplicação de questionários junto a produtores, indicou produtividade média de 375 arrobas por 
hectare nas 305 propriedades pesquisadas em 1994 (Mosele, Rodigheri e Penteado Jr, 1998). Não havia 
previsibilidade na produção e tampouco na comercialização, já que os produtores não conseguiam obter 
uma colheita suficiente para oferecer ao mercado. Acabavam sendo procurados pelos compradores 
somente quando havia escassez do produto em outras regiões fornecedoras. A baixa qualidade da erva 
que produziam, somada à falta de organização na cadeia produtiva, resultava em baixa renda para os 
agricultores que dependiam economicamente da atividade para o seu sustento. 
A partir de 2006, uma parceria entre a cooperativa de produtores do município de Machadinho 
(RS), a empresa Maesa, responsável pela implantação da Usina Hidrelétrica Machadinho na região, e 
outras entidades locais possibilitou uma nova forma de produção: o Sistema Agroflorestal (SAF) 
Cambona 4. A erva nativa que era misturada à erva plantada para a combinação do produto que se 
destinava à comercialização foi substituída pela variedade Cambona 4, obtida por meio de 
melhoramento genético. A erva-mate resultante da nova combinação tinha qualidade superior, um 
sabor mais suave e oferecia maior produtividade no cultivo, sanando as principais limitações até então 
enfrentadas pelos produtores (Correa e outros, 2011). Com isso, agradou o mercado e tornou-se 
importante elemento de geração de renda e emprego para as comunidades locais. 
O SAF Cambona 4 continua representando, até os dias de hoje, uma relevante iniciativa, do ponto 
de vista social e ambiental. Além de valorizar a agricultura familiar e fixar as famílias no campo, o projeto 
é uma alternativa de reposição florestal, com grande potencial de proporcionar serviços ambientais, 
como o sequestro de carbono. Como benefícios adicionais, gerou também a proteção de cerca de 70 
nascentes nas propriedades participantes. 
1. A cultura da erva-mate no sul do Brasil e os desafios do cultivo em Machadinho 
A erva-mate ocorre nos países da Argentina, Paraguai e Brasil. Mais de 80% de sua área de ocorrência, 
contudo, fica em território brasileiro, no bioma da Mata Atlântica. No Brasil, é explorada 
economicamente em mais de 500 municípios distribuídos nos Estados do Paraná, Santa Catarina, Rio 
Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. De acordo com a Embrapa Florestas, essa atividade envolve cerca 
de 180 mil propriedades rurais, quase a totalidade caracterizada pela agricultura familiar, gerando mais 
de 700 mil empregos diretos. 
Depois que tem suas folhas processadas, a erva-mate é consumida principalmente como infusão, 
no chá mate e no chimarrão, bebida de grande valor cultural na Região Sul do país. Já foi o principal 
produto de exportação regional no passado, mas uma grande parte de sua área de exploração acabou 
sendo substituída pela expansão e modernização da produção de grãos, em especial da soja e do milho. 
Isso fica claro quando se comparam os dados da produção em períodos recentes. Em 1988, por exemplo, 
a produção média brasileira era de aproximadamente 670 mil toneladas. Já em 2004, estava em 403 mil 
toneladas (Alegre, Vilcahuamán e Corrêa, 2007). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 117 
 
O município de Machadinho, localizado no Nordeste do Rio Grande do Sul, sempre teve a erva-
mate como importante fonte de renda. Foi lá que o SAF Cambona 4 teve início. Com uma população 
estimada em cerca de cinco mil habitantes, de acordo com dados do Censo Demográfico (IBGE, 2016), 
sendo 50% rural, a cidade tem mais de 70% de sua arrecadação proveniente da principal cooperativa do 
município, a Cooperativa Agrícola Mista Ourense (Camol), conforme a própria cooperativa. São cerca 
de cinco mil agricultores da região associados e 15% da produção corresponde à erva-mate. 
Um levantamento realizado em 1994 pela própria Camol apontou que, entre todas as 
propriedades rurais da região, apenas uma não cultivava a erva. À época, o sistema de produção era 
semelhante ao adotado no período colonial brasileiro, extrativista de ervais nativos formados 
naturalmente em remanescentes da mata com araucária. Os ganhos obtidos com a atividade eram 
limitados. Primeiro pela baixa qualidade do produto, que mesclava a erva-mate nativa com a erva-mate 
plantada, resultando em uma combinação mais amarga —que buscava atender o mercado consumidor 
de erva para chimarrão.  
O segundo ponto que limitava maiores ganhos com a cultura era a baixa produtividade do 
sistema utilizado, gerando uma colheita insuficiente para oferecer ao mercado. Os compradores 
recorriam aos produtores de Machadinho apenas quando havia escassez de erva em outras regiões. Não 
havia previsibilidade no negócio, seja em relação à quantidade que venderiam ou à renda que obteriam 
com a comercialização. 
Com o objetivo de organizar e fortalecer a cadeia produtiva de erva-mate na região de 
Machadinho, os produtores criaram a Associação dos Produtores de Erva-Mate (Apromate). Por meio 
da Apromate, conseguiram a construção de uma indústria ervateira no município, além de desenvolver 
parcerias com a Universidade Regional Integrada (URI) de Erechim e a Embrapa Florestas para a 
execução de estudos técnicos e agronômicos sobre a erva-mate. Entre os resultados desses estudos, 
estava o Sistema Agroflorestal Cambona 4, cuja implantação só se tornou viável após a parceria com a 
Machadinho Energética S/A (Maesa) a empresa responsável pela implantação da Usina Hidrelétrica 
Machadinho (UHE Machadinho), localizada no Rio Pelotas, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande 
do Sul.  
Com potência instalada de 1.140 MW, a Usina está em operação comercial desde fevereiro de 
2002 e tem como principal objetivo suprir o mercado de energia elétrica do Sistema Interligado 
Nacional. A Maesa foi constituída especificamente para a construção da Usina pelas empresas 
detentoras da concessão, agrupadas no Consórcio Machadinho. A operação e manutenção da UHE 
Machadinho é de responsabilidade da ENGIE Brasil Energia, uma das maiores geradoras privadas de 
energia elétrica do Brasil, que também participava da Maesa e do Consórcio Machadinho, organização 
responsável pela gestão do empreendimento. 
B. Sistema Agroflorestal Cambona 4 
O princípio do Sistema Agroflorestal (SAF) Cambona 4 é simples: plantar erva-mate consorciada com 
árvores nativas, procurando reconstituir o habitat natural da planta. Vale destacar que em toda a região 
Oeste de Santa Catarina e Noroeste do Rio Grande do Sul existem grandes plantações de erva-mate, 
mas todos em sistema de monocultura (Alegre, Vilcahuamán e Corrêa, 2007). Com o Sistema 
Agroflorestal, além de recriar o habitat natural, o sombreamento provocado pelas outras árvores 
melhora a qualidade da erva-mate, aumentando seu valor de mercado e, consequentemente, a renda 
dos produtores. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 118 
 
Alcançar essa condição exigiu um intenso processo de desenvolvimento tecnológico da erva-
mate Cambona 41, que demonstrou o potencial da combinação entre pesquisa científica, extensão rural 
e valorização dos saberes tradicionais da comunidade. Em meados dos anos 1990, cientes das 
dificuldades de mercado enfrentadas pelos produtores de erva-mate da região, pesquisadores e 
lideranças locais iniciaram a busca por materiais genéticos nativos que apresentassem sabor mais suave 
que o encontrado na maioria dos ervais de Machadinho. Ao todo, 26 árvores de erva-mate foram 
selecionadas para aprofundamento das pesquisas. Entre elas, destacou-se uma, cultivada na 
propriedade de um produtor local, que reunia alta produtividade, coloração homogênea nas folhas e o 
mais importante: sabor suave após o processo de industrialização, compatível com a preferência dos 
consumidores.Confirmados esses potenciais, conhecidos há anos pelo produtor, se fazia necessário um 
rigoroso trabalho de pesquisa e extensão rural para garantir a multiplicação do material genético e, 
assim, disseminar o plantio da variedade na região. Diante da produtividade e da qualidade da progênie 
Cambona 4 e a eficácia do sistema de plantio, os produtores locais passaram a se interessar pelo cultivo. 
Mas faltava o capital necessário para aderir ao projeto, já que, para a primeira colheita, seria necessário 
esperar, no mínimo, três anos. Além disso, o mercado de erva-mate enfrentava uma crise à época, o que 
gerou insegurança entre os produtores para investir na atividade.  
Foi nesse momento que a Maesa entrou no projeto, identificando na iniciativa uma oportunidade 
de ampliar o impacto socioeconômico da conformidade ambiental. Isso porque a Usina Hidrelétrica 
Machadinho deveria, a título de compensação ambiental, repor cerca de 1,1 milhão de mudas na área 
de influência da Usina. Ao considerar o potencial de plantio da Cambona 4 —uma espécie nativa— nas 
propriedades rurais da região, a empresa compreendeu que parte dessa reposição poderia se dar por 
meio do Sistema Agroflorestal, visando o desenvolvimento de uma atividade agroindustrial sustentável 
ao associar revegetação do solo à geração de emprego e renda no meio rural e estímulo à agroindústria. 
Confiante nesses benefícios, a empresa responsabilizou-se pela doação das mudas de erva-mate 
(foram 315.983, ao todo) e outras espécies nativas, viabilizando na prática a implantação do Sistema 
Agroflorestal Cambona 4. Para tanto, financiou também, de forma voluntária, o mapeamento genético 
da matriz, trabalho que incluiu a identificação, por meio de teste de DNA, das árvores progenitoras das 
mudas já cultivadas na propriedade dos Fonseca. Identificado o progenitor masculino, outras plantas do 
mesmo sexo próximas à área foram eliminadas, a fim de garantir o cruzamento único e controlado com 
o progenitor feminino (já conhecido) que geravam plantas de sabor suave. A partir desse controle na 
polinização, os pesquisadores realizaram a clonagem (utilizando método de estaquia), buscando 
ampliar o número de matrizes fornecedoras de sementes a futuros plantios (Correa e outros, 2011). 
Como resultado da clonagem, existem hoje 14 árvores femininas e duas masculinas envolvidas na 
polinização e produção de sementes, garantindo mudas para os futuros ervais com maior estabilidade 
genética e padrão qualitativo de folhas para a indústria, conforme registros da Apromate. Essas 16 
árvores —cultivadas próximas entre si— constituem um campo de produção de sementes, as quais são 
fornecidas aos produtores de mudas da região.  
Cabe destacar que todo o processo de desenvolvimento tecnológico envolveu atividades de 
pesquisa, assistência técnica e extensão rural, resultantes da cooperação entre a Apromate e diversas 
universidades, instituições públicas e empresas privadas —além da Maesa, ENGIE Brasil Energia e 
Consórcio Machadinho participaram do projeto. A mobilização da comunidade em prol da implantação 
do SAF exigiu fortalecer capacidades dos produtores locais, por meio de viagens técnicas, dias de 
campo, treinamentos, cursos, palestras e eventos direcionados à aprendizagem tecnológica, à 
industrialização, à comercialização e ao convívio associativo. 
                                                                      
1  A cultivar de erva-mate Cambona 4 foi registrada no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, sob o nº 33.418, em 
12/12/2014. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 119 
 
C. SAF Cambona 4 e o desenvolvimento socioambiental 
Como resultado do esforço coletivo, a variedade de sabor mais suave substituiu, gradativamente, a 
espécie nativa na mescla que se destinava ao mercado. O sistema de plantio combinado mostrou-se 
também mais produtivo quando comparado ao tradicional, baseado na monocultura. À época, 
registrou-se uma valorização de 65% da Cambona 4 em relação à erva-mate nativa, com custos de 
implantação e manutenção inferiores e retorno financeiro quatro vezes superior ao de culturas 
convencionais, como a soja, segundo a Apromate. 
De posse das mudas, os agricultores passaram a aplicar a metodologia desenvolvida em suas 
propriedades, dando início ao projeto que diminuiria a exploração dos remanescentes florestais de 
araucária, ao mesmo tempo em que alcançaria um sistema mais produtivo e rentável. Após o estágio 
inicial de plantio nas primeiras propriedades que aderiram ao sistema, Maesa e Apromate promoveram 
a capacitação de outros agricultores para ingressarem no SAF. Com o apoio de diversas entidades, os 
produtores tiveram acesso a tecnologias e assistência técnica, permitindo que o programa fosse 
estendido a outros municípios da região. Nessa etapa, a Maesa fez um novo aporte para garantir a 
expansão das atividades. Entidades como a Embrapa Florestas, a Emater e a própria Camol foram muito 
importantes na prestação da assistência técnica para as famílias que se adaptavam ao novo sistema. 
Entre 2009 e 2012, unidades de demonstração foram implantadas, com até três hectares cada. 
Elas serviram como instrumento de transferência de conhecimento aos produtores do entorno, 
iniciando a atividade em outros municípios (o modelo é possível também de ser aplicado em outras 
regiões do país, respeitadas as especificidades ambientais, culturais e econômicas de cada localidade). 
Com o tempo e o sucesso do SAF, a atividade se tornou autossustentável. A Apromate conseguiu 
se capitalizar e pôde financiar a continuidade do projeto, já independente dos aportes da Maesa. Um 
passo fundamental nesse sentido foi o fortalecimento da atividade de beneficiamento em Machadinho, 
com a implantação, pela Apromate, da indústria de erva-mate Cambona. Até então, os produtores 
tinham grande dificuldade de comercializar a produção, visto que a indústria mais próxima ficava a cerca 
de 80 quilômetros do município. Com o beneficiamento local, a demanda passou a superar a oferta, 
abrindo espaços para novos plantios e o ingresso de novos produtores no SAF. A proximidade também 
permite que as próprias famílias produtoras se responsabilizem pela colheita, reduzindo os custos de 
produção e transporte.  
Por ser proprietária da indústria de beneficiamento da Cambona 4, a Associação consegue ainda 
garantir a compra da colheita e os preços comercializados. Foi construída na cidade de Machadinho 
também uma indústria voltada exclusivamente à exportação do produto e cerca de 70% da produção 
passou a ser vendida para o Uruguai, conforme dados da Apromate. Isso tudo demonstra a capacidade 
de liderança e empreendedorismo dos agricultores e sua organização como cadeia produtiva, 
mantendo o projeto estável e em contínuo crescimento. O SAF Cambona 4 trouxe impactos positivos 
para toda a rede de produtores envolvidos e para as comunidades das quais eles fazem parte. Os 
benefícios vão muito além do ganho financeiro, pois o projeto concilia o desenvolvimento 
socioeconômico da região com proteção ambiental. Propiciou um sistema mais produtivo e a geração 
de emprego e renda, por meio de uma atividade autossustentável e que fortalece a agricultura familiar. 
O Sistema melhora o uso e a distribuição dos recursos produtivos e gera renda nas fases agrícola 
e industrial. Também integra e constitui um sub-bosque que conserva espécies de flora e fauna, faz a 
ciclagem de nutrientes e o controle de erosão do solo, contribuindo de forma significativa para a 
estabilidade econômica, social e ambiental da exploração da terra na região. 
A área plantada pelo projeto tem hoje 190 hectares, envolvendo 85 famílias e 255 pessoas. 
A produção registrada em 2018 foi de cerca de duas mil toneladas, uma média de 780 arrobas por 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 120 
 
hectare. Segundo as estimativas da Apromate, a renda bruta foi de aproximadamente R$ 1,7 milhão, 
correspondendo a R$ 800,00 por tonelada. Os cálculos da Associação indicam que houve um acréscimo 
médio de R$ 14 mil à renda anual de cada família participante. 
E as áreas de plantio vêm aumentando continuamente, por interesse dos próprios agricultores. 
Com isso, aumenta também a produção. De 2015 a 2018, o aumento foi de quase 20%, passando de 
1.869 toneladas/ano para 2.202 toneladas/ano. A comparação de dados referentes a períodos mais 
iniciais do projeto é ainda mais surpreendente. A produção da Cambona 4 na região, que era de apenas 
30 arrobas em 2003, se aproximou das 150 mil arrobas nos últimos dois anos. 
No aspecto socioeconômico, outro importante reflexo do SAF Cambona 4 foi a fixação dos jovens 
no campo. Muitas famílias puderam ver seus filhos permanecerem no meio rural. Outras, viram o 
retorno de jovens que haviam saído de suas comunidades em busca de emprego e puderam voltar para 
suas cidades, graças ao envolvimento na produção da Cambona 4. A garantia de renda contínua, com 
baixo risco, tornou-se fator atrativo para a fixação das famílias no campo. A Apromate estima que a 
agregação de mão de obra nas propriedades corresponda a uma indústria de 154 salários mínimos. 
O retorno da mão de obra familiar perpetua a vida ativa da propriedade e acaba por promover 
também uma maior agregação e convívio da comunidade, que deixa de perder seus membros e tem sua 
autoestima fortalecida. 
1. Benefícios ambientais 
Desde os primeiros anos do SAF Cambona 4, buscou-se aliar o desenvolvimento socioeconômico da 
região a ações voltadas à sustentabilidade ambiental na produção da erva-mate. Uma dessas vertentes 
foi a iniciativa de promover a conservação de nascentes nas propriedades rurais que participam do SAF, 
uma ação integrada da Apromate e do Consórcio Machadinho —hoje responsável pelo 
empreendimento— desenvolvida a partir de 2011. Cerca de 70 nascentes foram protegidas, trazendo 
com isso também a proteção do solo e da flora e fauna local, demonstrando que produção em escala e 
proteção ambiental podem estar ligados. Essa vertente do programa se desenvolveu em três fases, 
conforme a Apromate:  
• Fase I: de 2011 a 2013, com 27 nascentes protegidas e restauradas. 
• Fase II: de 2014 a 2015, com 29 nascentes protegidas e restauradas. 
• Fase III: de 2016 a 2017, com 10 nascentes protegidas e restauradas. 
As nascentes foram cercadas e receberam o plantio de espécies nativas. Nessas etapas, 
promovia-se ainda a difusão de tecnologias ambientais, por meio de palestras em eventos técnicos, 
reuniões, seminários e congressos, para divulgar o trabalho e as boas práticas. 
Outro aspecto ambiental relevante é a diminuição da pressão sobre os ervais nativos. A Cambona 
4, ao evitar a extração da erva nativa das matas de araucárias, diminuiu a exploração desses 
remanescentes florestais, contribuindo com sua preservação.  
A reprodução de um habitat natural nas novas áreas de plantio criou ainda um ambiente propício 
para a fauna nativa da região. Todos esses aspectos são constantemente reforçados nas ações de 
divulgação do programa nas comunidades do entorno. A Apromate oferece também palestras em 
escolas e visitas de campo para multiplicar as informações sobre o SAF e promover conscientização 
ambiental e social. O trabalho alcança outros municípios, fazendo com que o projeto Cambona 4 torne-
se modelo para o desenvolvimento de programas similares em outras cidades e mesmo fora do estado 
do Rio Grande do Sul. As ações foram também objeto de estudo de dezenas de pesquisas científicas, 
teses, dissertações e artigos. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 121 
 
2. SAF Cambona 4 e a neutralização de carbono 
Ainda no aspecto da sustentabilidade ambiental, há que se ressaltar a capacidade de sequestro de 
carbono da área plantada pelo projeto. De modo geral, especialistas estimam que cada hectare de 
floresta em desenvolvimento no mundo é capaz de absorver 150 a 200 toneladas de carbono, sendo 
essa a forma mais comum de sequestro de carbono (Super Interessante, 2016). Na fase de crescimento, 
as árvores demandam uma quantidade muito grande de carbono para se desenvolver e, com isso, 
retiram esse elemento do ar. O processo natural ajuda consideravelmente a diminuir a quantidade de 
dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Não à toa, o plantio de árvores para recuperação de áreas é uma 
das prioridades na implantação de sumidouros de GEE da atmosfera. 
A área cultivada pelo SAF tem atualmente 380 mil plantas, o equivalente a cerca de duas mil 
plantas por hectare. Uma pesquisa acadêmica, realizada ainda em 2007, nos primeiros anos de projeto, 
e que teve o acompanhamento da Embrapa, demonstrou um grande potencial de captura de CO2 no 
cultivo da erva-mate (Alegre, Vilcahuamán e Corrêa, 2007). O estudo, intitulado “Geração da Curva 
Alométrica para Avaliar as Reservas de Carbono em Plantios de Erva-Mate, no Sul do Brasil”, indicou 
que o fluxo anual de carbono na biomassa aérea da erva-mate estava estimado em 20 toneladas por 
hectare, tendo como reserva no solo mais de 200 toneladas por hectare. A soma da biomassa total, mais 
o aporte no solo, levantada à época foi de 254 toneladas de CO2 para ervais com 10 anos de idade e de 
até 276,2 toneladas de CO2 para ervais com quatro anos de idade.  
A cultura da erva-mate é, portanto, um eficiente sistema de uso da terra para o estoque de gases 
de efeito estufa. Os cálculos apresentados na pesquisa indicam que 300 hectares de erva-mate em 
Machadinho, ao longo de um ciclo produtivo de 30 anos, têm potencial para armazenar 180 mil 
toneladas de CO2.  
Deve-se lembrar ainda que a parte de biomassa que se consome como chimarrão retorna ao solo 
após o uso e que, no processo de industrialização, não há queima de biomassa, apenas secagem, sendo 
esse mais um fator positivo do ponto de vista da sustentabilidade. O aporte na serapilheira também é 
significativo, devido à grande biomassa (galhos e ramos) restante após cada colheita, contribuindo para 
a reciclagem e a deposição de matéria orgânica no solo.  
Em 2017, o SAF Cambona 4 foi selecionado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) 
para compor o “Projeto Rural Sustentável”, atribuindo à iniciativa o status de tecnologia conservadora do 
meio ambiente. Segundo a avaliação do BID, o sistema melhora as práticas de uso da terra e manejo florestal, 
promove o desenvolvimento rural sustentável, gera renda e incentiva a conservação da biodiversidade. Com 
a indicação, o projeto deixou de ser uma referência apenas no Brasil, para ser reconhecido em âmbito global. 
Além disso, em 2013, o projeto foi certificado pela Fundação Banco do Brasil como Tecnologia Social. 
As ações do SAF se alinham também aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 
2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), em especial ao ODS 2. Ele almeja a promoção da 
agricultura sustentável, elencando como uma de suas metas “até 2030, implementar práticas agrícolas 
resilientes, que aumentem a produtividade e a produção, que ajudem a manter os ecossistemas, que 
fortaleçam a capacidade de adaptação às mudanças climáticas, às condições meteorológicas extremas, 
secas, inundações e outros desastres, e que melhorem progressivamente a qualidade da terra e do solo” 
(ONU, 2015). Há contribuição clara também com o ODS 8, já que o projeto proporciona trabalho 
decente aos envolvidos, e com o ODS 15, por promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres. 
Entre outros benefícios do SAF, destacam-se: 
• as capacitações oferecidas aos envolvidos asseguraram o acesso de pequenos agricultores 
a conhecimento técnico. Com isso, eles podem ampliar sua produtividade e agregar valor a 
ela, ao mesmo tempo em que preservam os ecossistemas com a adoção de manejos 
mais sustentáveis. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 122 
 
• o SAF valoriza o associativismo. Do início até o momento, o projeto permanece liderado 
pela Apromate. A organização comunitária reúne cerca de 450 produtores rurais e os 
princípios do associativismo foram aplicados em todas as fases do programa, em muitos 
casos, em regime de mutirão, atuam de forma conjunta desde o plantio até a colheita, 
incluindo deliberação e decisão participativa, em total consonância com os preceitos de 
engajamento, para validação de propostas e resultados. 
• houve também incentivo à articulação das entidades locais e regionais, no esforço conjunto 
de viabilizar o projeto. A Apromate formou parcerias com instituições de ensino e pesquisa, 
organizações públicas e privadas, além da própria Maesa. As principais entidades que atuam 
ou atuaram na implantação do projeto estão relacionadas a seguir, com os respectivos 
papéis que desempenharam para o sucesso do SAF: 
− Associação dos Produtores de Erva-Mate (Apromate): coordenação do projeto e das ações. 
− Consórcio Machadinho, Machadinho Energética e Engie Brasil Energia: apoio 
financeiro e divulgação do projeto. 
− Cooperativa Agrícola Mista Ourense (Camol): industrialização e comercialização 
da produção. 
− Emater: suporte técnico no melhoramento genético das espécies. Pesquisa e 
Desenvolvimento. 
− Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa): suporte técnico. 
− Instituto Alcoa. 
− Universidade de Passo Fundo (UPF): Pesquisa e Desenvolvimento. Suporte técnico. 
− Universidade Regional Integrada (URI): Pesquisa e Desenvolvimento. Suporte técnico. 
− Prefeitura Municipal de Machadinho: apoio institucional. 
D. SAF Cambona 4 e o Big Push para a Sustentabilidade 
O novo sistema produtivo estabelecido com a Cambona 4 está alinhado aos preceitos que conceituam 
o Big Push para a Sustentabilidade, definido como um conjunto de investimentos que produzam um 
ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de empregos, desenvolvimento de cadeias 
produtivas, diminuição da pegada ambiental e dos impactos ambientais, ao mesmo tempo em que 
recupera a capacidade produtiva do capital natural (CEPAL/FES, 2019). No SAF, esses aspectos se 
conectam da seguinte forma: 
No tocante a um ciclo virtuoso de crescimento econômico, as estimativas da Apromate indicam 
um acréscimo médio de R$ 14 mil à renda anual de cada família envolvida no SAF. As áreas de plantio 
vêm aumentando continuamente, por interesse dos próprios agricultores, e, com isso, aumenta 
também a produção. De 2015 a 2018, o aumento foi de quase 20%. Nesse sentido, cabe destacar o valor 
agregado pela atividade de beneficiamento: a industrialização do produto no município amplia a 
arrecadação de tributos e estende a geração de trabalho e renda à fase industrial. Em 2018, por 
exemplo, o processamento de 146,8 mil arrobas de folhas de erva-mate gerou 778,1 toneladas de 
produto processado, que renderam R$ 3,5 milhões. Sem o beneficiamento, o rendimento teria sido de 
R$ 1,7 milhão.  
Em relação à geração de empregos e desenvolvimento de cadeias produtivas, o SAF promove 
empregabilidade nas fases produtiva e industrial. Há agricultores que não somente atuam em suas 
propriedades, mas também na colheita de terceiros, o que é mais uma alternativa de complementação 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 123 
 
de renda. A agregação de mão de obra nas propriedades abrangidas pelo projeto corresponde 
atualmente a uma indústria de 154 salários mínimos. Também se verificou que o caso reporta 
desenvolvimento da cadeia mais amplamante, desde o plantio até o beneficiamento e a exportação. 
Já com respeito à diminuição da pegada ambiental e dos impactos ambientais, o SAF Cambona 
4 reduziu a pressão sobre os remanescentes florestais de araucária, promoveu a proteção de cerca de 
70 nascentes e mostra-se ainda uma importante fonte de sequestro de carbono. O Big Push, aliás, coloca 
em destaque nas suas diretrizes o desejo por soluções resilientes e de baixo carbono, e esse aspecto é 
plenamente atendido pelo SAF. Com 380 mil ervateiras plantadas, o projeto pode armazenar, em 
30 anos de ciclo, o equivalente a 180 mil toneladas de CO2. O fluxo anual de carbono, somadas a 
biomassa aérea da erva-mate e a reserva no solo, chega a 276 toneladas de CO2 para ervais com quatro 
anos de idade. A cultura da erva-mate é, comprovadamente, um eficiente sistema de uso da terra para 
o estoque de gases de efeito estufa.  
Nesse contexto, fica evidente que a introdução da Cambona 4 na cultura da erva-mate mostrou-
se uma alternativa que contribui para um desenvolvimento socioeconômico permanente, com claras 
aderências à abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade. Não impõe modos de produção 
poluentes ou degradadores dos recursos naturais e ainda eleva a qualidade de vida das famílias 
envolvidas, à medida que aumenta sua renda e fortalece os vínculos familiares e comunitários com a 
fixação do homem no campo. 
O SAF 4 contrapõe-se ao modelo insustentável de produção e consumo que se estabeleceu e que 
hoje traz perspectivas alarmantes para o futuro, seja no cenário de disponibilidade de água, oferta de 
energia e qualidade do ar. Não apenas representa uma fonte potente de sequestro de carbono, como 
gera uma menor pressão sobre os remanescentes florestais de araucária parte da mata Atlântica do Sul 
do Brasil. Como o próprio Big Push prepondera, a transição para matrizes produtivas sustentáveis, 
resilientes e de baixa emissão de carbono pode alavancar um novo estilo de desenvolvimento. O SAF é 
um exemplo real de como a transição de modelos produtivos pode gerar mais eficiência e 
produtividade, minimizando os danos ambientais da atividade e demonstrando que é possível crescer e 
ao mesmo tempo preservar. 
O caso estudado neste capítulo também aponta relações claras com a tripla eficiência norteadora 
do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). A primeira é a eficiência schumpeteriana, 
segundo a qual uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera 
externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. Nota-
se, no caso estudado, que foram promovidas ações nitidamente relacionadas à eficiência 
schumpeteriana, notamente os investimentos realizados em pesquisa e desenvolvimento para gerar 
soluções sustentáveis e investimentos em capacidades produtivas, tecnológicas e inovativas por meio 
do estabelecimento de SAFs, de unidade de beneficiamento etc. A segunda é a eficiência keynesiana, 
que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo da especialização produtiva em bens cuja 
demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos multiplicadores e impactos significativos na 
economia e nos empregos. O rápido crescimento da demanda pela erva-mate proveniente desse 
sistema, inclusive com a conquista de mercados internacionais, é simbólico de uma eficiência 
keynesiana. Por fim, a eficiência da sustentabilidade diz respeito aos três pilares do desenvolvimento 
sustentável (econômico, social e ambiental). O estudo apresentado nesse capítulo traz indicadores 
nessas três dimensões. 
As ações do SAF 4 são plenamente aderentes também aos Objetivos de Desenvolvimento 
Sustentável da ONU, os quais orientam as premissas do Big Push para a Sustentabilidade. Com isso, o 
projeto não apenas está alinhado ao Big Push, mas também contribui para que o Brasil tenha 
participação ativa no cumprimento da Agenda proposta para 2030. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 124 
 
E. Conclusão 
O Sistema Agroflorestal Cambona 4 já é adotado por uma centena de produtores somente no município 
de Machadinho, ocupando uma área de quase 200 hectares. O projeto ainda pode crescer muito. 
A Apromate mostra capacidade de coordenação e empreendedorismo e tem vontade de expandir cada 
vez mais a área de influência da Cambona 4. A indústria absorve toda a matéria-prima que está sendo 
produzida, sendo necessário muitas vezes adquirir erva-mate além da produção para suprir a demanda, 
que soma o mercado interno do Brasil à exportação para o mercado Uruguaio (90% da produção) e, 
mais recentemente, para países da Europa (Alemanha e Polônia). 
Ressalta-se que os ganhos com a atividade não precisam se limitar à expansão industrial e 
produtiva. Com o grande potencial de sequestro de carbono que a cultura oferece, é possível que os 
agricultores recebam pelos serviços ambientais, conforme prevê o Acordo de Paris (CQNUMC, 2015), e 
pelo mercado voluntário de carbono, o que representaria uma fonte adicional de complementação de 
renda, além de toda a importância ambiental que esse aspecto carrega. 
Os maiores desafios do projeto foram, inquestionavelmente, os entraves financeiros para os 
investimentos iniciais. No entanto, facilmente se percebe que a articulação institucional tende a trazer 
soluções e viabilizar as ações pretendidas. A soma de esforços, técnicos e financeiros, foi fundamental 
para o sucesso do programa e também pode ser o caminho para a expansão pretendida e quem sabe 
para novos vieses que agreguem valor à atividade e tragam ainda mais benefícios. 
Ao ocasionar desenvolvimento socioeconômico, por meio de um sistema produtivo sustentável 
e responsável, o SAF Cambona 4 se mostra aderente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da 
Agenda 2030 da ONU e ao Big Push para a Sustentabilidade. O projeto valoriza a agricultura familiar e 
o associativismo, possibilita a permanência do homem no campo com qualidade de vida e estabilidade 
financeira, trazendo maior produtividade e ganho de renda sem acarretar maiores danos ambientais. 
Ao contrário, reduziu a pressão sobre os remanescentes florestais de araucária, protegeu nascentes e 
ainda representa o sequestro de cerca de 200 toneladas de carbono por hectare plantado.  
Nada disso seria possível sem a liderança de uma organização associativa forte e confiante e sem 
o engajamento efetivo dos envolvidos, bem como a articulação entre organizações públicas e privadas, 
que trouxe parcerias decisivas para o sucesso das ações, o que reforça uma das principais 
recomendações da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, que é a relevância da articulação e 
da coordenação para o éxito dos investimentos sustentáveis. O Sistema Agroflorestal Cambona 4 
comprova, assim, que a união de forças em prol da sustentabilidade econômica, social e ambiental 
transforma a realidade2. 
 
  
                                                                      
2  Parte dessa transformação foi registrada e divulgada por veículos de comunicação locais e nacionais, tais como Terra Sul e a TV 
Globo, que podem ser acessados, respectivamente nos seguintes endereços eletrônicos: https://www.youtube.com/watch?v=1OL 
GISPV9lQ e https://www.youtube.com/watch?v=3H03QQjUdSg. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 125 
 
Bibliografia 
Alegre, Julio Cesar, Luciano Javier Montoya Vilcahuaman e Gabriel Correa (2007), “Geração da curva 
alométrica para avaliar as reservas de carbono em plantios de erva-mate, no sul do Brasil”, Boletim de 
Pesquisa e Desenvolvimento, Nº 33, Embrapa Florestas, Colombo. 
CEPAL/FES (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) / (Fundação Friedrich Ebert Stiftung) 
(2019), “Big Push Ambiental: Investimentos coordenados para um estilo de desenvolvimento 
sustentável”, Perspectivas, Nº 20, (LC/BRS/TS.2019/1 e LC/TS.2019/14), São Paulo.  
Correa, Gabriel e outros (2011), “Cambona 4: desenvolvimento de uma progênie biclonal de erva-mate em 
Machadinho (RS)”, Embrapa Florestas Documentos, Nº 224, Colombo/PR. 
Consórcio Machadinho (2007), “Usina Hidrelétrica Machadinho: memória técnica” [online], 
https://docplayer.com.br/5070511-Usina-hidreletrica-machadinho-memoria-tecnica.html [data de 
consulta: 12 de outubro de 2019]. 
  (2012), Relatório de Sustentabilidade 2012, Florianópolis. 
CQNUMC (Convenção-Quadro nas Nações Unidas sobre Mudança do Clima) (2015), Acordo de Paris, Paris. 
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) (2016), “Cidades@” [base de dados online], Rio de 
Janeiro, https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/sao-goncalo-do-amarante/panorama [data de consulta: 
2 de janeiro de 2020]. 
Mosele, Sérgio Henrique, Honorino Roque Rodigheri e Joel Penteado Jr (1998), “Diagnóstico da erva-mate 
na região do Alto Uruguai gaúcho”, Perspectiva, vol. 18, Nº 64, Erechim. 
ONU (Organização das Nações Unidas) (2015), Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o 
Desenvolvimento Sustentável (A/ RES/70/1), Nova Iorque, Publicação das Nações Unidas. 
Super Interessante (2016), “O que é sequestro de carbono?” [online] https://super.abril.com.br/ideias/o-que-
e-sequestro-de-carbono/ [data de consulta: janeiro de 2020]. 
Vilcahuaman, Luciano M. Javier e outros (2009), “O saber local e o SAF erva-mate com a progenie bi-parental 
Cambona 4 como estratégia do desenvolvimento sustentável na agricultura familiar”, documento 
preparado para o VII Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais, Luziânia, junho.  
 
 
 

CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 127 
VIII. Unidade de Cogeração Lages: um exemplo do 
potencial transformador da economia circular 
José Lourival Magri* 
Mario Wilson Cusatis* 
Resumo 
Idealizada como um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), a Unidade de Cogeração Lages 
(UCLA), localizada na Serra Catarinense e pertencente à ENGIE Brasil Energia, tem a redução de 
emissões entre seus principais propósitos, desde o início de suas operações, em 2003. Ao utilizar 
resíduos da indústria madeireira local para gerar energia elétrica e vapor, a Usina deu novo destino a um 
material com grande potencial de emissão de metano —gás de efeito estufa (GEE) até 25 vezes mais 
potente que o dióxido de carbono (CO2). Assim, em uma década, a operação da UCLA evitou a emissão 
de, aproximadamente, 2,5 milhões de toneladas de CO2 equivalentes. Adicionalmente, a Companhia 
buscou ampliar o impacto positivo do empreendimento, destinando as cinzas de biomassa para uso na 
agricultura e, em um projeto experimental, na compostagem de rejeitos orgânicos domésticos. Os 
resultados obtidos confirmam que o investimento em iniciativas de economia circular guarda grande 
potencial transformador em direção ao desenvolvimento sustentável.  
A. Introdução 
A Unidade de Cogeração Lages (UCLA), implantada pela ENGIE Brasil Energia no município de Lages, 
Santa Catarina, utiliza resíduos da indústria madeireira local para gerar energia elétrica e vapor. 
A escolha de Lages para implantação da UCLA se deve ao volume e às características da biomassa na 
                                                                      
*  ENGIE Brasil Energia. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 128 
 
região (Brand e outros, 2001). O estudo “Caracterização da produção e uso de resíduos madeiráveis 
gerados na indústria de base florestal catarinense”, desenvolvido em parceria com a Universidade do 
Planalto Catarinense, demonstrou que a geração de resíduos de madeira da indústria local —uma das 
maiores produtoras de derivados de madeira, papel e celulose do país a partir de Pinus elliotis— era 
suficiente para ser utilizada como combustível para o funcionamento da Unidade. 
Até a implantação da UCLA, que iniciou a operação em dezembro de 2003, os resíduos gerados 
pela atividade madeireira eram, em sua maioria, dispostos a céu aberto, sujeitos à decomposição 
anaeróbica, o que provocava a emissão de metano. O destino inadequado dado a esses resíduos causava 
impactos ambientais negativos e, por isso, entidades como a Associação Comercial e Industrial de Lages 
(ACIL) e o Sindicato das Indústrias Madeireiras (Sindimadeira) buscavam alternativas para seu uso.  
Nesse contexto, a implantação da UCLA tinha os seguintes objetivos: 
• Utilização dos resíduos das madeireiras da região de Lages (SC) para a cogeração de energia 
elétrica e vapor;  
• Redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa com a utilização dos resíduos na 
produção de energia; 
• Eliminação dos antigos depósitos de resíduos de madeira a céu aberto, nos quais ocorria a 
decomposição anaeróbica e a emissão de metano; 
• Adequação do projeto da UCLA aos requisitos do Protocolo de Kyoto para o enquadramento 
no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL); 
• Obtenção do registro MDL, com direito certificado de negociar as Reduções Certificadas de 
Emissões (RCEs), ou créditos de carbono, geradas;  
• Comercialização dos créditos de carbono para empresas de países do Anexo I do Protocolo de 
Kyoto, agregando valor adicional aos acionistas, remunerando o investimento realizado no 
projeto de forma compensadora e demonstrando que o MDL realmente fomenta 
investimentos em tecnologias limpas e sustentáveis. 
Após o êxito da implantação da UCLA, a ENGIE Brasil Energia e a Lages Bioenergética (empresa 
responsável pela fase de implantação) realizaram, entre 2006 e 2007, o enquadramento do Projeto no 
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) previsto no Protocolo de Kyoto. Em abril de 2006, a 
Usina foi registrada na Organização das Nações Unidas como o Projeto MDL 0268, com direito de 
negociar no mercado as Reduções Certificadas de Emissões (RCEs) geradas de 1º de novembro de 2004 
a 31 de outubro de 2014. 
Com a certificação, a UCLA potencializou significativos ganhos ambientais, sociais e econômicos 
à região do Planalto Catarinense, ao dar um destino adequado aos resíduos gerados pela indústria 
madeireira. Desde que a Unidade entrou em operação, foram consumidos cerca de 3,6 milhões de 
toneladas desses resíduos, conforme registros internos. Assim, contribuiu para a preservação do 
planeta, ao reduzir a emissão de gases do efeito estufa (GEE) em um volume que ultrapassa os 2,5 
milhões de toneladas de CO2 equivalentes em 10 anos, conforme registrado no relatório de 
monitoramento do período (MDL/CQNUMC, 2017). 
Atualmente, a UCLA possui uma capacidade instalada para gerar 28 MW, e fornece energia a 
clientes industriais no mercado livre de energia. Além dos benefícios ambientais, a Unidade de 
Cogeração Lages gerou ganhos socioeconômicos para o Planalto Catarinense, com a criação de um 
mercado de biomassa na região e o estabelecimento de diversas empresas destinadas a integrar a 
cadeia produtiva baseada nos preceitos do desenvolvimento sustentável. Desde que a UCLA entrou em 
operação, cerca de R$ 160 milhões foram destinados pela ENGIE Brasil Energia a fornecedores locais de 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 129 
 
biomassa, conforme registros internos da Companhia. Assim, a iniciativa dinamizou a economia local 
por meio da agregação de valor, criando um mercado para a biomassa, até então considerado um 
resíduo sem utilidade. Em complemento, a Companhia buscou potencializar o impacto positivo do 
empreendimento, a partir da destinação adequada de um subproduto da geração de energia na 
Unidade: as cinzas de biomassa —resíduos da queima que ficam nas caldeiras ao final do processo. 
Com base em um estudo desenvolvido pelo pesquisador Jonas Ternes dos Anjos (Anjos, 2007) da 
Universidade Federal de Santa Catarina e com a devida autorização dos órgãos competentes, a 
Companhia passou a doar as cinzas de biomassa a agricultores da região, para aplicação no cultivo de 
alimentos. Essa destinação também contribui para a redução de emissões GEE, especialmente por 
diminuir o uso de insumos agrícolas convencionais, tais como o calcário —cuja extração mineral implica 
em emissões de CO2— e os fertilizantes nitrogenados. 
O objetivo deste capítulo é apresentar um estudo de caso da Unidade de Cogeração Lages 
(UCLA) à luz da abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). Segundo 
CEPAL/FES (2019), para que um investimento promova um grande impulso (Big Push) para a 
sustentabilidade, ele deve ser orientado por três eficiências. A primeira é a eficiência schumpeteriana, 
segundo a qual uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera 
externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. A 
segunda é a eficiência keynesiana, que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo da 
especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. Por fim, a eficiência da 
sustentabilidade diz respeito à típica eficiência do desenvolvimento sustentável, em seu tripé de 
viabilidade econômica, justiça social e sustentabilidade ambiental. O presente estudo de caso será 
analisado sob a ótica desses conceitos no marco da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade. 
B. Descrição do projeto 
Com população estimada em 157 mil pessoas (IBGE, 2016), a cidade de Lages está entre as cinco maiores 
de Santa Catarina, estado que possui 18% das florestas de pinus do Brasil (ACR, 2016). A região é o maior 
polo madeireiro catarinense e possuía, à época da implantação da UCLA, em um raio de 
120 quilômetros, 300 empresas que produziam e exportavam madeira em tábuas, compensado, móveis, 
papel, celulose e outros produtos.  
Até a operação da UCLA, os resíduos da indústria madeireira (tais como cavaco, serragem, casca 
de pinus, costaneira/refilo e destopo) não eram totalmente utilizados e ficavam dispostos a céu aberto, 
sujeitos à decomposição anaeróbica, o que provocava a emissão de metano e, em alguns casos, 
dependendo das condições dos depósitos, ocorria a autocombustão, gerando poluentes atmosféricos 
resultantes da queima descontrolada desses resíduos. Nesse contexto, o uso da biomassa na geração 
de energia contribuiu não apenas para reduzir o impacto ambiental da indústria madeireira, mas 
também para criar um mercado crescente de biomassa na região, estimulando a inserção de outras 
empresas na cadeia produtiva. O desenvolvimento desse mercado é indicativo de que o caso estudo 
contribuiu com a eficiência keynesiana (ver Seção A), já que contribuiu para criação de um novo 
mercado e de demanda nova. 
Ao utilizar como combustível o material dispensado pelas madeireiras, a UCLA evitaria as 
emissões de gases causadores de efeito estufa provenientes dos depósitos de resíduos e, portanto, 
poderia buscar o enquadramento do projeto no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) previsto 
no Protocolo de Kyoto. Esse fator foi determinante para que a ENGIE Brasil Energia iniciasse, em 2003, 
o processo para que a Unidade de Cogeração Lages fosse certificada como um MDL, uma das formas 
reconhecidas pelo Protocolo de Kyoto para a redução da emissão de gases de efeito estufa na 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 130 
 
atmosfera. A redução de emissões de GEE é simbólica do pilar ambiental da eficiência da 
sustentabilidade no marco do Big Push para a Sustentabilidade. 
Em abril de 2006, a UCLA foi registrada na Organização das Nações Unidas —ONU como o 
Projeto MDL 0268, com direito de negociar no mercado as Reduções Certificadas de Emissões (RCEs), 
geradas entre novembro de 2004 e outubro de 2014. Ainda em 2006 a empresa assinou o seu primeiro 
Contrato de Venda de Redução de Emissões com a empresa japonesa The Chugoku Electric Power e, 
no início de 2007, outro contrato foi assinado com o Prototype Carbon Fund, fundo de carbono 
administrado pelo Banco Mundial. 
Conceitualmente, no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, o crédito de carbono é equivalente 
à diferença entre as emissões de GEE no ambiente com e sem o projeto proposto. Tecnicamente, 
determina-se a linha de base, que é o cenário de emissões de gases que ocorreria sem o projeto, durante 
o período de sua vida útil, e compara-se com o novo cenário previsto com o projeto em operação. Ocorre 
redução de emissão quando as emissões de GEE com o projeto são menores que as emissões previstas 
sem o projeto.  
Essa diferença de emissões nos cenários com e sem projeto poderá ser convertida em créditos de 
carbono e comercializada. Para ser elegível ao MDL, o projeto deve atender também ao critério da 
adicionalidade, ou seja, demonstrar que ele não corresponde à linha de ação usual ou mais econômica 
e, por isso, sua implantação enfrenta barreiras que podem ser de ordem tecnológica, econômica, legal, 
entre outras (Frondizi, 2009). 
No caso da UCLA, foi demonstrado, por meio de estudos internos, que as linhas usuais de negócio 
no setor elétrico brasileiro são usinas hidrelétricas, que à época geravam mais de 90% da eletricidade 
consumida no país, e as usinas termelétricas (a gás natural e a carvão) respondiam pela quase totalidade 
do restante. As termelétricas a biomassa contribuíam apenas com cerca de 2%, incluindo-se aí a 
biomassa do bagaço da cana. 
Os estudos determinando a quantidade de toneladas equivalentes de CO2 que o Projeto da UCLA 
pretendia reduzir, as metodologias de cálculo utilizadas e a demonstração da adicionalidade foram 
reunidos no documento Project Design Document (MDL/CQNUMC, 2011), validado por uma auditoria 
independente e submetido para aprovação do Comitê Executivo do MDL da Convenção-Quadro das 
Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CQNUMC), de modo a obter o registro do projeto como um 
MDL que contribui para a redução da emissão de GEE. 
Assim, os créditos obtidos resultaram da diferença entre as emissões de metano (CH4) da 
decomposição anaeróbica do resíduo de madeira depositado a céu aberto e as emissões de CH4 e N2O 
da combustão de resíduos de madeira na UCLA, além de CO2, CH4 e N2O do transporte e movimentação 
dos resíduos de madeira e das cinzas geradas na combustão. A tabela VIII.1 apresenta o histórico de 
emissões de RCEs relativas à iniciativa. Vale destacar que 2% do total de RCEs disponíveis são 
disponibilizados para um fundo de adaptação administrado pela CQNUMC. 
Cabe destacar que, ainda em 2006, a UCLA implantou um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) 
certificado conforme a ISO 14001. A partir do SGA, foram implementados cerca de 20 programas 
ambientais, focados o monitoramento de aspectos diversos, tais como emissões, ruídos, água, resíduos 
e efluentes, entre outros. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 131 
 
Tabela VIII.1 
Histórico das emissões de RCE relativas ao Projeto MDL 0268 
Ano Emissão Período RCEs Geradas (RCEs) 
2% destinados à 
CQNUMC (RCEs) 
RCEs disponíveis 
para venda (RCEs) 
2004 1ª 01/Nov - 31/Dez 35 563 711 34 852 
2005 01/Jan - 31/Dez 161 151 3 223 157 928 
2006 01/Jan - 31/Mai 81 054 1 621 79 433 
2ª 01/Jun - 31/Dez 156 957 3 139 153 818 
2007 01/Jan - 31/Mai 118 001 2 360 115 641 
3ª 01/Jun - 31/Dez 179 500 3 590 175 910 
2008 01/Jan - 31/Mai 68 168 1 363 66 805 
4ª 01/Jun - 31/Dez 89 005 1 780 87 225 
2009 01/Jan - 31/Mai 68 909 1 378 67 531 
5ª 01/Jun - 31/Dez 102 771 2 056 100 715 
2010 01/Jan - 31/Dez 248 413 4 968 243 445 
2011 01/Jan - 31/Mai 92 467 1 849 90 618 
6ª 01/Jun - 31/Dez 102 485 2 049 100 436 
2012 01/Jan - 31/Dez 289 689 5 794 283 895 
2013 7ª 01/Jan - 31/Dez 720 270 14 405 705 865 
2014 01/Jan - 31/Out 
Total   2 514 403 50 286 2 464 117 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Mecanismo de Desenvolvimento Limpo/Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança 
do Clima (MDL/CQNUMC), “Monitoring report” [online], MR-0268-16-01 https://cdm.unfccc.int/Projects/DB/DNV-CUK1140180495.84/ 
iProcess/BVQI1456556817.96/view [data de consulta: janeiro de 2020], 2017. 
 
C. Destinação das cinzas de biomassa  
O processo de geração de energia da UCLA tem como resultado um subproduto: as cinzas de biomassa, 
resíduos da queima que ficam nas caldeiras ao final do processo. Trabalhando a plena carga, a Unidade 
gera, em média, 1.800 toneladas ao mês dessas cinzas —em períodos de geração reduzida, esse número 
cai para cerca de 300 toneladas ao mês, conforme registros internos.  
A fim de assegurar a destinação adequada desse resíduo, no início das operações da UCLA a 
ENGIE transportava cargas de cinzas até o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (CTJL), localizado em 
Capivari de Baixo (SC), a cerca de 225 quilômetros de Lages. Também pertencente à Companhia, o CTJL 
desenvolve, há muitos anos, iniciativas que visam à destinação adequada das cinzas de carvão. Projetos 
de Pesquisa e Desenvolvimento (PD), realizados em parceria com a Universidade Federal de Santa 
Catarina (UFSC), comprovaram sua eficácia em processos construtivos, de modo que esses resíduos 
passaram a ser destinados à indústria cimenteira —ver, por exemplo, Rocha e outros (1999), Lenzi (2001) 
e Siqueira, Souza e Souza (2012). O desenvolvimento de capacidades tecnológicas e inovativas, 
relacionado ao estudo de caso presentemente relatado, indica que houve esforços claramente 
relacionados com a eficiência schumpeteriana no marco do Big Push para a Sustentabilidade (ver Seção 
A). Assim, nos primeiros anos de funcionamento da UCLA, as cinzas de biomassa geradas em Lages 
eram adicionadas às cinzas do CTJL, ganhando a mesma destinação— em um processo totalmente 
controlado pela Companhia e devidamente fiscalizado pelos órgãos ambientais competentes.  
Entre 2006 e 2007, uma nova pesquisa, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de 
Santa Catarina (UFSC), foi dedicada a investigar a eficácia do uso das cinzas de biomassa vegetal na 
agricultura, especialmente para correção de solo. O trabalho, denominado “Uso de cinzas de biomassa 
vegetal em solos: considerações e recomendações”, desenvolvido pelo pesquisador Jonas Ternes dos 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 132 
 
Anjos, constatou que as cinzas poderiam ser utilizadas, principalmente, no controle de pragas e 
doenças, como fornecedoras de nutrientes para as plantas, como corretivo da acidez do solo, como 
substrato para a produção de mudas e também na compostagem (Anjos, 2007). 
De acordo com os resultados dessa pesquisa, as cinzas de biomassa de madeira geradas na UCLA 
poderiam ser aplicadas na atividade agrícola com as seguintes finalidades:  
• Fornecer micronutrientes essenciais às plantas, tais como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio 
magnésio, enxofre, cobre, ferro, zinco, manganês e boro;  
• Auxiliar na correção da acidez do solo —a cinza de biomassa possui um poder de neutralização 
equivalente a 10% do calcário agrícola; 
• Reciclar nutrientes retirados do solo pelas plantas; e 
• Contribuir com a produção de culturas anuais (milho, feijão, trigo, cevada e soja), fruticultura 
(macieira, pessegueiro, pereira e videira), essências florestais (eucalipto, pinus e acácia); 
hortaliças (alface, beterraba, cenoura, repolho e tomate), especialmente aquelas cultivadas 
em hortas orgânicas onde não é permitida a aplicação de adubos minerais industrializados. 
Com base no resultado das pesquisas desenvolvidas em parceria com a UFSC, o Instituto de Meio 
Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) 
autorizaram a UCLA a doar as cinzas de biomassa a agricultores da região. A fim de garantir a total 
conformidade desse processo com a legislação ambiental, a doação exige o cumprimento de uma série 
de requisitos, tais como controle da recepção e do uso das cinzas na agricultura, fruticultura e 
silvicultura. Adicionalmente, relatórios trimestrais encaminhados à Delegacia Regional do Ministério da 
Agricultura de Santa Catarina, informando as quantidades doadas. 
Cumprindo todas as exigências legais, a ENGIE Brasil Energia iniciou, em 2009, a distribuição 
gratuita de 100% das cinzas de biomassa da UCLA para produtores rurais da região de Lages. Entre 2010 
e 2019, foram assinados 575 termos de doação, que, juntos, somam 131.555,80 toneladas de cinzas 
doadas para esse fim. Esse é um indicador de impacto socioeconômico, na medida em que 
indiretamente pode levar a um aumento da renda dos agricultores que se beneficiam da doação das 
cinzas para aumentar sua produtividade, em linha com a eficiência da sustentabilidade (ver Seção F). 
A destinação de cinzas de biomassa para aplicação na agricultura contribui para a redução de 
emissões de gases de efeito estufa (GEE) especialmente por reduzir o uso de insumos agrícolas 
convencionais, tais como o calcário —cuja extração mineral implica em emissões de CO2— e os 
fertilizantes nitrogenados. Quando em excesso, esses últimos podem aumentar a quantidade dos 
óxidos nítrico e nitroso na atmosfera —o óxido nitroso, por exemplo, é considerado um gás com 
potencial de efeito estufa 300 vezes superior ao CO2.  
As repetidas pesquisas, investimento em PD e a busca por melhores soluções denotam que a 
iniciativa UCLA está alinhada com a eficiência schumpeteriana, que se traduz na importância da atuação 
em processos intensivos em conhecimento, inovação e aprendizagem. 
D. Projeto comunitário 
O sucesso do uso das cinzas de biomassa na agricultura repercutiu na região de Lages e, em pouco 
tempo, atraiu novos parceiros para a ENGIE Brasil Energia. Entre eles estavam as instituições 
responsáveis pelo projeto “Lixo Orgânico Zero”, uma iniciativa de extensão da Universidade do Estado 
de Santa Catarina (UDESC). Desenvolvido desde 2013, esse projeto tem como objetivo oferecer uma 
alternativa para destinação dos resíduos orgânicos gerados no município − estimados em 1.100 
toneladas por mês.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 133 
 
A proposta do projeto era estimular a implantação da chamada minicompostagem ecológica de 
resíduo orgânico sólido. Nesse processo, a compostagem é realizada próxima aos locais onde o resíduo 
orgânico foi gerado. O principal alvo do projeto eram escolas públicas de Lages, que passaram a cultivar 
hortas comunitárias a partir do processo de minicompostagem. Apesar dos excelentes resultados obtidos 
nas primeiras escolas participantes, a expansão da iniciativa esbarrava em um problema: encontrar um 
material que auxiliasse na decomposição do lixo orgânico e que estivesse disponível durante todo o ano e 
em grande quantidade, de forma que atendesse o maior número possível de escolas. 
Cedidas pela ENGIE Brasil Energia, as cinzas de biomassa contribuíram para resolver esse 
impasse, pois atuam como catalisadores para a decomposição dos resíduos orgânicos. As 
características físico-químicas das cinzas de biomassa da madeira são consideradas ideais para o 
processo de compostagem, o que justifica o sucesso dos resultados no uso desses resíduos nas hortas 
escolares de Lages. A cinza possui baixa densidade, ou seja, é um material extremamente leve e 
apresenta uma grande porosidade, o que facilita a absorção dos resíduos orgânicos. O contato entre as 
cinzas e os resíduos geram colônias de fungos e bactérias que, muito mais rapidamente, consumirão o 
resíduo orgânico. Comparando o desempenho das cinzas ao de outros materiais já utilizados na 
compostagem, como grama, folhas e serragem, as cinzas apresentam resultados mais satisfatórios, 
especialmente em relação ao tempo necessário à decomposição. Além disso, elas desempenham um 
papel neutralizador de maus odores mais eficaz do que grama e serragem, por apresentarem em sua 
composição química teores de carbono incombusto, que adsorve esses gases. Essa concentração de 
carbono evita a liberação de amônia e enxofre, causadores do mau cheiro. 
A oportunidade de receber de forma gratuita e em grande escala as cinzas propiciou a expansão 
do projeto de minicompostagem para mais de 70% das escolas da rede pública de ensino da cidade de 
Lages. Assim, a Companhia realizou a doação, de forma controlada, de 120 toneladas de cinzas por ano, 
que foram distribuídas para cerca de 16 escolas da região. A fim de formalizar o uso das cinzas no 
ambiente escolar, em total conformidade com a legislação ambiental, o IMA SC emitiu uma licença 
especial para aplicação das cinzas em meio urbano. Além disso, todas doações foram registradas, via 
Termo de Doação, junto à Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR) e à Gerência Regional de 
Educação de Lages (GERED).  
E. Tecnologia para melhor aproveitamento 
Em outra frente, a ENGIE Brasil Energia desenvolveu uma tecnologia para viabilizar a utilização, pela 
UCLA, de cascas oriundas do manejo de toras na floresta, antes depositadas em aterros controlados. 
Essas cascas não podiam ser utilizadas como biomassa devido ao alto teor de terra que apresentavam. 
Conforme experimentos internos, a mistura de terra e areia reduz significativamente seu potencial 
calorífico, o que inviabiliza seu aproveitamento. Assim, esse resíduo era destinado a um aterro 
controlado, gerando custos elevados e passivos ambientais. Diante do grande volume existente desse 
material, a UCLA desenvolveu, em parceria com um fornecedor local, um sistema de processamento 
para o resíduo, que inclui peneiras rotativas e vibratórias, além de um sistema de secagem. O sistema 
permite separar a casca da terra e, dessa forma, utilizá-la para queima na caldeira da UCLA. Além dos 
benefícios ambientais, a tecnologia gerou receita ao fornecedor local, a criação de dezenas de novos 
empregos diretos e uma nova fonte de suprimento de biomassa para a Unidade.  
Assim como as cascas, diversos resíduos intermediários gerados no processo de manejo florestal 
passaram a ser aproveitados. Nas florestas de pinus são realizadas constantes podas e desbastes (cortes 
parciais), gerando grande quantidade de galhos. Por não existir mercado para seu aproveitamento, 
esses galhos ficavam na floresta, ampliando o risco de incêndio, a emissão de metano (gerada pela 
decomposição) e os custos do produtor para a limpeza da floresta antes do replantio. A fim de oferecer 
destinação adequada a esses resíduos, a UCLA adquiriu dois picadores florestais, cedidos em comodato 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 134 
 
a fornecedores de biomassa para aproveitamento desses galhos. Assim, o passivo ambiental foi 
reduzido e os fornecedores ampliaram seus negócios, gerando empregos diretos e indiretos. Esse 
relato, novamente, é coerente com a eficiência da sustentabilidade descrita na Seção A. 
F. Impactos da iniciativa à luz do Big Push para a Sustentabilidade 
Consideradas as características do empreendimento e os resultados obtidos pela UCLA, a iniciativa 
relatada contribui, de forma direta, com o cumprimento das disposições da Política Nacional de 
Resíduos Sólidos (PNRS), em relação à destinação ambientalmente adequada, definida como 
“destinação de resíduos que inclui a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o 
aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos órgãos competentes do Sisnama, do 
SNVS e do Suasa, entre elas a disposição final, observando normas operacionais específicas de modo a 
evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos”1. 
Além disso, tem relação direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), 
propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030 (ONU, 2015), em especial os 
ODS 12 e 13 e as seguintes metas relacionadas:  
• Meta 12.4: Até 2020, alcançar o manejo ambientalmente saudável dos produtos químicos e 
todos os resíduos, ao longo de todo o ciclo de vida destes, de acordo com os marcos 
internacionais acordados, e reduzir significativamente a liberação destes para o ar, água e 
solo, para minimizar seus impactos negativos sobre a saúde humana e o meio ambiente. 
• Meta 12.5: Até 2030, reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, 
redução, reciclagem e reuso. 
• Meta 13.3: Melhorar a educação, aumentar a conscientização e a capacidade humana e 
institucional sobre mitigação, adaptação, redução de impacto e alerta precoce da mudança 
do clima. 
O alinhamento às políticas públicas nacionais, o alinhamento da iniciativa com as três eficiências 
e também à agenda global dedicada ao desenvolvimento sustentável confirma a relação entre a 
experiência da UCLA e a proposta do Big Push para a Sustentabilidade. Isso porque o investimento 
realizado na implantação e operação da Usina se mostrou sinérgico à melhoria das condições de 
competitividade da indústria madeireira —uma vocação econômica local— gerando maior 
produtividade, ao mesmo tempo em que reduziu a emissão de poluentes decorrente da atividade. 
Assim, a implantação da Unidade de Cogeração Lages possibilitou significativos ganhos ambientais, 
sociais e econômicos à região, com efeitos multiplicadores no território, com a criação de um mercado 
de resíduos e a geração de tributos, emprego e renda, bem como o desenvolvimento de novas 
atividades econômicas. Na dimensão ambiental, teve impacto direto na melhoria das condições 
ambientais e de vida da população, com a redução das emissões de GEE —em uma década, o volume 
de emissões evitadas ultrapassou os 2,5 milhões de toneladas de CO2 equivalentes, de acordo com 
MDL/CQNUMC (2017). 
Os ganhos ambientais se estendem, ainda, à destinação adequada dos resíduos da indústria 
madeireira —cavaco, serragem, cascas e outros materiais anteriormente descartados agora são 
utilizados no processo de geração de energia. Em média, a UCLA consome 28 mil toneladas de biomassa 
por mês, conforme registros internos.  
Nesse sentido, cabe destacar o esforço para reduzir o volume de resíduos destinados por essas 
indústrias a aterros controlados, a partir do desenvolvimento de uma tecnologia para viabilizar a 
                                                                      
1  Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 135 
 
utilização, pela UCLA, de cascas oriundas do manejo de toras na floresta. Também passaram a ser 
utilizados na Usina galhos resultantes do processo de manejo florestal e das podas de árvores urbanas, 
que antes ampliavam riscos de incêndio na floresta, emissão de metano (gerada pela decomposição) e 
custos do produtor para a limpeza da área antes do replantio. Seguindo os preceitos da economia 
circular, buscou-se assegurar que os resíduos resultantes do processo de geração de energia também 
fossem utilizados. Assim, as cinzas de biomassa passaram a ser aplicadas por agricultores, fruticultores 
e reflorestadores da região, como fertilizante do solo —evitando, assim, emissões relacionadas ao uso 
de calcário e fertilizantes nitrogenados. Entre 2010 e 2018, foram doadas, pela Companhia, mais de 130 
mil toneladas de cinzas, beneficiando cerca de 500 produtores rurais locais. Em complemento, um 
projeto comunitário desenvolvido em parceria com instituições de pesquisas confirmou o potencial de 
aplicação das cinzas em programas de minicompostagem urbana de resíduos orgânicos.  
A destinação do resíduo de biomassa a outras atividades econômicas guarda mais uma conexão 
da iniciativa com o Big Push para a Sustentabilidade: a inovação verde. Por meio de parcerias com 
universidades locais, a ENGIE Brasil Energia investiu em Pesquisa e Desenvolvimento para reduzir 
externalidades ambientais negativas e potencializar externalidades positivas da atuação da UCLA, 
gerando impactos relevantes na comunidade local —tais como a redução dos custos de produção dos 
agricultores com insumos e a substituição desses insumos por uma alternativa de menor pegada 
ambiental, iniciativa claramente alinhada à eficiência schumpeteriana.  
Na dimensão socioeconômica, a demanda por resíduos gerada pela UCLA criou um mercado 
crescente de biomassa na região, estimulando o estabelecimento de outras empresas na cadeia 
produtiva, notadamente contribuindo para a eficiência keynesiana. Atualmente, a carteira de 
provedores externos da Unidade conta com 41 fornecedores de biomassa, 90% de Lages (e o restante 
de municípios próximos). Esse relacionamento contribui para a dinâmica econômica da região: desde o 
início das operações da Usina, a ENGIE Brasil Energia destinou R$ 160 milhões a fornecedores locais de 
biomassa, fortalecendo a economia regional e potencializando os benefícios da cadeia produtiva no 
território. Somam-se a esses benefícios a geração de tributos, empregos diretos e indiretos e as 
oportunidades criadas para o desenvolvimento de novas atividades na região, além do ganho de 
competitividade da indústria local —visto que a cidade de Lages vem se consolidando como um polo 
madeireiro que trata seus resíduos de forma ambientalmente correta.  
Por fim, cabe destacar a agregação de valor adicional à própria ENGIE Brasil Energia, 
remunerando o investimento realizado no projeto de forma compensadora e comprovando, por meio 
da negociação de RCEs, que o MDL incentiva aportes em tecnologias limpas e sustentáveis. Ao todo, o 
Mecanismo gerou receita aproximada de R$ 17 milhões à Companhia, a partir da venda de créditos de 
carbono. Esses recursos contribuíram para a execução da estratégia de expansão do parque gerador da 
ENGIE Brasil Energia, que tem como base a priorização de fontes renováveis, alinhada ao contexto de 
transição para uma economia de baixo carbono. Esse é um indicador importante, pois sugere que é 
economicamente viável para uma empresa realizar investimentos sustentáveis tais quais a UCLA. 
G. Conclusão 
Com base nos resultados obtidos pela Unidade de Cogeração Lages, pode-se afirmar que o caso da 
UCLA está conectada de forma intrínseca à proposta central do Big Push para a Sustentabilidade, no 
sentido de transformar investimentos ambientais em uma alavanca para um novo estilo de 
desenvolvimento somente mediante o aprendizado e a construção de capacidades tecnológicas, que 
permitam não apenas gerar as soluções técnicas para o desacoplamento entre crescimento econômico 
e emissões de GEE, mas também criar fontes mais sustentáveis de competitividade, baseadas na 
inovação e na agregação de valor.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 136 
 
Além do inquestionável ganho ambiental —pelo fato do projeto evitar emissões equivalentes a 
200 mil ton/ano de CO2 na atmosfera (a partir do uso da biomassa para a geração de energia renovável, 
oriunda da indústria madeireira exclusivamente de reflorestamentos)— os benefícios sociais e 
econômicos decorrentes corroboram o êxito da iniciativa. Os investimentos endereçados pela ENGIE 
Brasil Energia para implantar e operar a Usina de Cogeração Lages, tornando-a um Mecanismo de 
Desenvolvimento Limpo, confirmam o potencial da economia circular para fortalecer territórios, 
alimentando a resiliência da região e reduzindo sua vulnerabilidade e dependência em relação a outros 
mercados. Assim, a experiência construída em Lages demonstra que é possível, conforme preconiza a 
ideia força do Big Push para a Sustentabilidade, promover o desacoplamento entre emissões de GEE e 
o impulso ao crescimento econômico. 
Bibliografia 
ACR (Associação Catarinense de Empresas Florestais) (2016), “Anuário Estatístico de Base Florestal para o 
Estado de Santa Catarina 2016 (Ano base 2015)” [online] http://www.acr.org.br/download/biblioteca/ 
ACR_2016.pdf [data da consulta: 12 de julho, 2019]. 
Anjos, Jonas Ternes (2007), “Uso das cinzas de biomassa vegetal em solos: considerações e recomendações”, 
relatório técnico, inédito. 
Brand, Martha Andreia e Márcio Daian Neves (2005), “Levantamento da disponibilidade dos resíduos 
industriais e florestais de madeira e avaliação da variação de sua qualidade energética em função das 
condições climáticas anuais, na região de Lages – Santa Catarina”, relatório de pesquisa, Lages, 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 137 
IX. O modelo de ação do Polo de Inovação  
Campos dos Goytacazes 
Rogério Atem de Carvalho* 
Resumo 
O presente capítulo estuda o caso do modelo de ação do Polo de Inovação Campos dos Goytacazes 
(PICG), do Instituto Federal Fluminense, dedicado à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação e à Extensão 
Tecnológica e voltado à sustentabilidade com impacto no contexto econômico, social e geográfico de 
sua área de influência. Com 12 anos de existência, o PICG desenvolve capacidades humanas e 
competências tecnológicas e inovativas, como por exemplo tecnologias inovadoras para a Produção 
Mais Limpa junto ao setor produtivo, ao mesmo tempo em que vem construindo uma tradição de 
colaboração com as comunidades locais e regionais na promoção de iniciativas de educação ambiental 
e desenvolvimento sustentável. O estudo discute, à luz da abordagem do Big Push para a 
Sustentabilidade, como é possível coordenar investimentos sustentáveis em inovação ao integrar e 
articular financiamento público e privado, ação local e nacional, e projetos simples e de alta 
complexidade, em um modelo que se baseia na sustentabilidade como meio, fim e objetivo permanente 
a ser atingido. 
 
  
                                                                      
*  Polo de Inovação Campos dos Goytacazes (PICG), Instituto Federal Fluminense (IFFluminense). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 138 
 
A. Introdução 
Os Polos de Inovação dos Institutos Federais foram concebidos em 20131 e em 2015 o Polo de Inovação 
Campos dos Goytacazes (PICG), junto com os outros quatro primeiros polos, teve seu funcionamento 
regulamentado2. Segundo essa regulamentação, os Polos de Inovação são destinados ao atendimento 
de demandas por Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) das cadeias produtivas e à formação 
profissional para os setores de base tecnológica, devendo exercer atividades de pesquisa aplicada e 
prestação de serviços tecnológicos em consonância com as demandas e necessidades dos setores da 
economia e da sociedade, com vistas ao desenvolvimento regional e nacional. Ou seja, os Polos de 
Inovação surgem como iniciativa de coordenação de esforços das esferas pública (governo federal), 
acadêmica (Institutos Federais) e privada (empresas) em torno de ações de PDI que contribuam para o 
desenvolvimento. Um breve histórico do PICG é apresentado no quadro IX.1. 
O PICG é uma diretoria sistêmica do Instituto Federal Fluminense (IFFluminense), com campus 
próprio dedicado à PDI e à Extensão Tecnológica (ET), que atua em diversas áreas do conhecimento. 
Apesar de ter sua denominação associada ao município em que se encontra, o PICG tem projetos de 
cooperação com empresas e instituições de pesquisa regionais, nacionais e internacionais. Orientado 
pela premissa da sustentabilidade como meio, fim e objetivo permanente a ser atingido, o PICG 
desenvolve projetos com empresas desde startups até companhias de grande porte, bem como junto 
às comunidades regionais e órgãos governamentais de diferentes instâncias, além de ações internas 
ligadas a gestão. Além disso, o PICG é uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação 
Industrial (EMBRAPII), credenciada para desenvolvimento de projetos junto ao setor produtivo voltados 
para tecnologias para Produção Mais Limpa (P+L). O conceito de P+L é compreendido pelo PICG como 
uma iniciativa de proteção ambiental preventiva, adotada nos ciclos produtivos da indústria e 
agroindústria através de tecnologias para minimizar os desperdícios e as emissões de poluentes e 
maximizar a produção. Esse credenciamento na EMBRAPII representa um reconhecimento das 
competências tecnológicas do PICG na área de P+L, conferindo-lhe condições de acessar financiamento 
a projetos de inovação em parceria com empresas nesse campo. Para a EMBRAPII e para o MEC, o PICG 
é considerado uma unidade modelo de gestão, tendo apoiado a criação de diversas outras unidades, 
inclusive de maior porte, de Institutos Federais, Universidades públicas e privadas e Institutos Senai, na 
forma de treinamentos e suporte técnico-operacional. Além desse reconhecimento nacional, em 2019 
o PICG obteve reconhecimento internacional, quando foi selecionado como uma “Promissing Practice” 
pela UNESCO-UNEVOC, iniciativa que identifica e compartilha práticas promissoras em educação e 
capacitação técnica e vocacional (UNESCO-UNEVOC, 2019), tornando-se uma unidade modelo para a 
criação de unidades semelhantes na Europa, Ásia e África. De fato, em 2020 o PICG, dada suas 
experiências exitosas em gestão da inovação para a sustentabilidade e desenvolvimento regional, foi 
escolhido para liderar o projeto de formação em Gestão da Inovação para os Países Africanos de Língua 
Oficial Portuguesa (PALOP) da UNEVOC/UNESCO, aprimorando e implantando a metodologia i-Hubs. 
O objetivo desse estudo é apresentar e discutir o modelo de ação do PICG, na condição de um modelo 
capaz de integrar em sua gestão financiamento público e privado, articular ações locais, regionais, nacionais 
e internacionais, bem como executar projetos em diferentes níveis de complexidade, sob a premissa da 
sustentabilidade como meio, fim e objetivo permanente a ser atingido, à luz da abordagem cepalina do Big 
Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). A coordenação e articulação de uma pluralidade de atores 
(comunidade, pesquisadores de diferentes áreas de especialidade, setor produtivo, governos em vários 
níveis etc.) para realização de investimentos em uma variedade de ações (projetos de PDI, parcerias, 
educação e capacitação, ações para gestão e operação do campus, dentre outras), que têm levado a 
                                                                      
1  Portaria 1.291 de 30 de dezembro de 2013 da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação 
(Setec/MEC). 
2  Portaria 37 de 29 de outubro de 2015 da Setec/MEC. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 139 
 
impactos positivos no tripé da sustentabilidade (social, econômica e ambiental) é analisada como um 
exemplo de Big Push para a Sustentabilidade. A metodologia desse trabalho consiste em revisão de 
bibliografia e de levantamento de informações relevantes à presente análise. A principal fonte das 
informações sobre os projetos e as linhas de ações desenvolvidas são dados produzidos pelo PICG. 
 
Quadro IX.1 
Breve histórico do PICG 
A história do PICG se inicia em 22 de outubro de 2007, quando a Unidade de Pesquisa e Extensão Agroambiental 
(UPEA), foi inaugurada e implantada em uma área com cerca de 6.000 m², situada no município de Campos dos 
Goytacazes, ao norte do estado do Rio de Janeiro. Criada com o objetivo de apoiar o Programa de Pós-Graduação em 
Engenharia Ambiental do IFFluminense, a UPEA realizou atividades no atendimento às demandas regionais, incluindo 
ações voltadas aos segmentos sociais vinculados à agricultura familiar, especialmente as comunidades pesqueiras e 
assentamentos rurais da região, em parceria com as prefeituras e representações comunitárias. Em 2015, após edital 
de seleção, a unidade é aprovada como Polo de Inovação da EMBRAPII em Instituto Federal. Em 2016, visando 
fortalecer sua posição no sistema de inovação nacional, foi incorporada à sua estrutura o Centro de Referência em 
Sistemas Embarcados e Aeroespaciais (CRSEA), que por sua vez foi criado em 12 de dezembro de 2012, sendo o 
primeiro centro de referência da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, servindo de modelo para 
portaria que definiu posteriormente os polos de inovação e centros de referência. Assim, ao pessoal da UPEA, com 
sua inteligência etnográfica desenvolvida na colaboração com as comunidades, forte cooperação com órgãos de 
governo e conhecimentos ambientais teórico-práticos, se somou uma equipe com sólida experiência em colaboração 
nacional e internacional no desenvolvimento de softwares de diferentes tipos e dispositivos eletromecânicos, 
incluindo drones, foguetes e um nanossatélite. Desta forma, amalgamaram-se equipes com larga experiência em 
disciplinas diversas das Engenharias Aeroespacial, Ambiental, de Computação, de Controle e Automação, Elétrica, 
Eletrônica, Mecânica, Química e Telecomunicações. 
 Tais eventos solidificaram o credenciamento do PICG junto à EMBRAPII, tornando-o um Centro Multiusuários 
consolidado, onde são desenvolvidas ações de PDI, ET e ensino, com parceiros que vão de comunidades de 
agricultores e pescadores a empresas pequenas, incubadas, médias e grandes, em diferentes temáticas e 
modalidades de financiamento. Essa diversidade de ações é executada pelos seguintes laboratórios: 
i)  Laboratório de Análise de Águas (LabFoz); 
ii)  Laboratório de Biocombustíveis e Gestão de Resíduos (LeBio); 
iii)  Laboratório de Criação e Prototipagem (CriaLab); 
iv)  Laboratório de Hidrologia Aplicada (LabHidrA); 
v)  Laboratório de Mecânica (LabMec); 
vi)  Laboratório de Energia Fotovoltaica e Eficiência Energética (LabFV). 
E associados ao CRSEA: 
vii)  Laboratório de Computação Científica (LC2); 
viii)  Laboratório de Telecomunicações (LabTele); 
ix)  Laboratório de Eletrônica, Instrumentação e Automação (LEIA); 
x)  Laboratório de Robótica (LabRo). 
 
Fonte: Polo de Inovação Campos dos Goytacazes. 
 
Este capítulo se estrutura da seguinte forma. Na Seção B, é apresentado o modelo de ação do 
PICG, incluindo descrição de suas linhas de ação e análise de como essas diferentes linhas são 
coordenadas e articuladas nesse modelo. A Seção C contém uma discussão sobre como o modelo PICG 
mobiliza e alavanca investimentos para produzir um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável. Na 
Seção D, são apresentados os principais impactos das linhas de ação do PICG nas dimensões econômica, 
ambiental e social. A Seção E compreende uma análise da relação entre o modelo de ação do PICG se a 
abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, bem como a Agenda 2030 e os Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável. Por fim, na Conclusão são discutidas as principais lições aprendidas. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 140 
 
B. O modelo de ação do PICG 
O modelo de ação do PICG é orientado pela premissa da sustentabilidade, compreendida por suas 
dimensões econômica, social e ambiental. Para o PICG, as três dimensões apenas serão atendidas se a 
sustentabilidade for vista como meio, fim e objetivo permanente a ser atingido, ou seja, se permear 
todo o pensar e o fazer da unidade. Assim, a sustentabilidade deve estar presente nas três dimensões 
sob qualquer ponto de vista que se tenha de uma atividade em planejamento ou em execução no PICG, 
seja ela ligada ao ensino, à pesquisa ou à extensão; parte de um projeto com uma empresa, comunidade 
ou governos; ou corriqueira no dia a dia do funcionamento do campus. 
Assim, de maneira a aplicar essa premissa na prática, as três dimensões devem ser abordadas em 
toda e qualquer atividade. Na dimensão econômica, entende-se que a fonte de financiamento deve ser 
segura, a atividade deve ser de custo justo e seu retorno ou impacto financeiro deve ser mensurável e 
razoável sob os diversos pontos de vista (redução ou aumento de custeio, aumento na capacidade de 
realização de projetos e/ou de atendimento à comunidade etc.). Na dimensão social, a fonte de 
financiamento deve ser de origem ética, o número de pessoas beneficiadas na comunidade externa 
deve ser mensurável ou ao menos estimado e deve ser razoável frente ao volume de recursos aplicados. 
Também deve colaborar com a melhoria na formação de recursos humanos qualificados e proporcionar 
benefícios razoavelmente duradouros na vida das pessoas. Na dimensão ambiental, se houver impacto 
ambiental, este deve ser medido e mitigado, o uso dos recursos naturais deve ser otimizado através da 
tecnologia e da educação, o ciclo de vida dos produtos empregados deve ser compreendido e sua 
destinação e uso ambientalmente corretos devem ser preconizados.  
 
Figura IX.1 
Vista aérea do PICG 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Polo de Inovação Campos dos Goytacazes. 
 
A partir dessa visão integrada da sustentabilidade e desses princípios para sua aplicabilidade 
prática, o modelo de ação do PICG estrutura-se em quatro linhas principais, além de ações integrativas, 
apresentadas a seguir. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 141 
 
1. Linha 1: projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) 
O PICG é credenciado em tecnologias para a Produção Mais Limpa (P+L) pela Empresa Brasileira de Pesquisa 
e Inovação Industrial (EMBRAPII). Esse credenciamento permite que o PICG receba financiamento para 
projetos de PDI em P+L no modelo EMBRAPII, segundo o qual o setor produtivo demanda apoio ao PICG 
para resolver algum problema. A partir da demanda, a unidade credenciada (PICG) na competência 
tecnológica correspondente (P+L), a empresa e a EMBRAPII estruturam uma parceria para desenvolver 
soluções tecnológicas, de forma que a EMBRAPII financia até um terço dos recursos (não-reembolsáveis), a 
empresa entra com pelo menos um terço e unidade credenciada com o restante dos recursos. Dessa forma, 
governo, setor produtivo e academia atuam de forma coordenada para realizar investimentos em soluções 
que fortalem a competitividade da indústria nacional por meio de inovação em processos e produtos, da 
construção de capacidades tecnológicas e da cooperação entre esses três atores que permite que gerar um 
processo de acumulação de conhecimento e aprendizado mútuo. Dado o credenciamento do PICG, todas as 
inovações possuem um viés em P+L, ou seja, simultaneamente colaboram para a sustentabilidade no 
processo produtivo destas empresas e de seus clientes. 
Assim, o PICG desenvolve soluções para processos industriais e agroindustriais que visam o uso 
racional de materiais, recursos naturais e energia, bem como da minimização dos impactos ambientais, 
com aplicações em eficiência energética e fontes renováveis de energia; redução, tratamento e 
reaproveitamento de resíduos; e uso racional de recursos hídricos. 
As empresas parceiras, cerca de 40, estão localizadas entre a capital do estado do Rio de Janeiro 
e o Sul do estado do Espírito Santo, de diversos segmentos industriais, agroindustriais e de serviços, e 
cujo tamanho vai desde startups incubadas —na incubadora do IFFluminense e em outras— até grandes 
empresas, passando pelas micro e médias.  
De maneira a tornar os projetos sustentáveis nas três dimensões, o PICG faz uma cuidadosa 
prospecção tecnológica para dar subsídios à empresa parceira quanto às possibilidades mercadológicas 
do novo produto, bem como seu custo de produção ou implantação (para processos) e as questões que 
envolvem transferência de tecnologia, incluindo formação de pessoal —como será visto adiante, posto 
que a maior parte da mão de obra empregada nestes projetos é de alunos bolsistas, dos diferentes níveis 
de ensino, que futuramente poderão atuar nas empresas parceiras ou mesmo criar suas próprias. 
A Dimensão Ambiental está no cerne do próprio credenciamento do PICG. Acrescenta-se ainda que a 
gestão dos projetos de PDI segue dois frameworks em paralelo: 
• Framework de Gestão do Processo: Modelo de Excelência Operacional da EMBRAPII 
(EMBRAPII, 2014), empregado para gerenciar a parte financeira e de gerência de 
prospecção dos projetos, todos os processos de negócio são devidamente modelos e 
documentados, bem como implementados em Sistema Integrado de Gestão. 
• Framework de Gestão do Produto: Processo de Projeto de Produtos Inovadores (P3I; 
Carvalho, 2019), desenvolvido pela própria equipe de gestão do PICG, que inclui técnicas de 
design de produtos e de Gestão da Propriedade Intelectual. 
2. Linha 2: projetos com comunidades e governos 
Outra linha que caracteriza o modelo de ação do PICG são os projetos com comunidades e governos. 
Antes mesmo de se tornar Polo de Inovação, a unidade já realizava trabalhos em apoio às comunidades 
locais e regionais e entidades governamentais (ver Quadro 1). Este trabalho foi mantido e impulsionado 
pela maior densidade tecnológica que a unidade passou a apresentar em seus projetos a partir de sua 
transformação em Polo de Inovação. Os projetos apresentados a seguir ilustram como o PICG gera 
externalidades positivas do aprendizado (spill over) ao construir capacidades, para além de seus projetos 
de PDI, que se permeiam na comunidade e na economia. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 142 
 
Um dos programas permanentes que a unidade mantém são bolsas de Iniciação Científica Júnior 
(ICJ) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com alunos do Ensino 
Médio da Rede Estadual de uma comunidade próxima. Esses alunos recebem treinamento em 
Informática Básica, independentemente da atividade que vão desempenhar no Polo, pois é entendido 
que devem ter um mínimo de conhecimentos para se inserirem na Sociedade em Redes. Os alunos 
recebem também noções de Segurança do Trabalho por um técnico formado e membro da equipe da 
unidade, posto que também se entende que segurança é primordial no desempenho laboral. 
Posteriormente, e de acordo com o perfil identificado durante as instruções básicas, entrevista e 
conversas informais, eles são alocados em projetos que vão desde Horta Orgânica/Viveiro de 
Mudas/Minhocário (figura IX.2), Instalações Elétricas/Redes e Aquicultura. Nestes projetos, os alunos 
são orientados por servidores e terceirizados do PICG e adquirem habilidades e competências que 
poderão aplicar em suas próprias comunidades. Estuda-se no momento avançar as capacidades 
cognitivas desses estudantes através de um projeto de Robótica Educacional, que, embora esteja fora 
da realidade das comunidades, representa um estímulo a estes discentes de baixa renda a se manterem 
na escola e buscarem atitudes e um pensar inovador, independentemente de sua condição atual. 
 
Figura IX.2 
Alunos em atividade sobre mudas de árvores nativas 
 
Fonte: Polo de Inovação Campos dos Goytacazes. 
 
Outra ação, realizada desde a criação da unidade, é o trabalho de análise de águas. O Laboratório 
de Análise de Águas do PICG, conhecido como LabFoz, vem há 12 anos realizando análise da qualidade de 
águas nas regiões norte e noroeste fluminenses, verificando uma série de características físico-químicas e 
microbiológicas das águas de rios, lagoas, canais, poços, aquíferos e ainda de estações de tratamento de 
água. Ao longo desse tempo, foram realizadas mais de 10 mil análises de diferentes parâmetros, em 
diferentes microrregiões, para diferentes aplicações. Tais análises apoiam trabalhos de extensão 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 143 
 
tecnológica e de pesquisa aplicada junto às comunidades das regiões citadas, embasando diagnósticos 
que são então empregados pelo poder público nas esferas municipal e estadual, em processos decisórios 
e de fiscalização, além de órgãos do terceiro setor, como o Comitê do Baixo Paraíba. 
Como nem sempre a comunidade pode ir ao PICG, este vai à comunidade: um dos recursos 
empregados é uma Cozinha Industrial Móvel (CIM) que pode ser rebocada por caminhão de pequeno 
porte, sendo empregada em diversas atividades como cursos de preparação de pescado para 
comunidades de pescadores e de preparação de legumes e frutas para comunidades de agricultores 
locais. Estes cursos permitem que as famílias de produtores de pequenas comunidades sejam 
capacitadas no preparo do alimento que produzem de maneira que este seja preprocessado, agregando 
valor e o melhor adaptando a mercados mais exigentes e urbanos. 
Mais um equipamento que se desloca para atividades em benefício das comunidades é o Britador 
Móvel, equipamento desenvolvido pelo IFFluminense com recursos de projeto de Pesquisa e 
Desenvolvimento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Esta máquina, do porte 
de um caminhão pequeno, é capaz de processar resíduos de produção de rochas ornamentais e Resíduos 
de Construção Civil (RCC) e os transformar em brita, que por sua vez podem ser empregados, por exemplo, 
no calçamento de vias urbanas e rurais, ao invés de serem despejados em aterros sanitários. Tal 
equipamento se encontra atualmente em uso no terceiro município desde que foi projetado e construído, 
colaborando para a destinação correta de resíduos e reduzindo os custos de obras civis públicas. 
Finalmente, de maneira a despertar o interesse pela ciência, pesquisa e inovação, o PICG participa 
de eventos diversos, montando estandes, inclusive em praças públicas, direcionando o conteúdo e 
material apresentado de acordo com o público de forma a otimizar a aproximação com o mesmo. 
3. Linha 3: projetos de pesquisa aplicada e extensão tecnológica 
A pesquisa aplicada alicerça todas as ações do PICG, dando densidade tecnológica aos projetos e 
garantindo o atingimento dos objetivos nas diferentes dimensões da sustentabilidade através da 
tecnologia. A equipe de pesquisadores possui diferentes formações nas Engenharias e Ciências, e atua 
com alunos dos cursos técnicos, engenharias e ciências do IFFluminense. 
No nível pós-graduação, dois mestrados profissionais são integralmente baseados no PICG e um 
terceiro parcialmente. Boa parte das dissertações desenvolvidas nestes programas, bem como 
Trabalhos de Conclusão de Curso, estágios, trabalhos de conclusão de curso, iniciações científicas e 
iniciações tecnológicas são também desenvolvidos nos laboratórios e facilidades do PICG. Alunos do 
nível técnico também figuram como estagiários e bolsistas nos projetos. 
Os projetos de pesquisa aplicada, para serem executados no Polo, devem demonstrar como se 
enquadram na premissa de sustentabilidade, apresentada anteriormente, nas dimensões econômica, 
social e ambiental: 
• Financiamento: através de agência de fomento, ou empregando recursos reutilizados e mão 
de obra voluntária e/ou em projeto final de curso; 
• Impacto social: deve ter impacto para comunidades locais, setor produtivo ou órgãos de governo; 
• Temática: deve ser em P+L ou em tecnologias transversais, que suportem os outros projetos 
do PICG. 
Adicionalmente, os projetos devem ter um roadmap tecnológico estabelecido que mostre que podem 
ter continuidade após o término da fase em questão ou, caso sejam terminais, como serão adotados pela 
sociedade. Este procedimento evita alocar esforço em projetos que não são aplicados na realidade. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 144 
 
Outro aspecto importante é a ênfase na proteção da propriedade intelectual. De forma similar 
aos projetos de PDI no modelo EMBRAPII, os projetos de pesquisa aplicada também devem realizar uma 
prospecção tecnológica de maneira a verificar a possibilidade de depositar patentes que protejam o 
conhecimento desenvolvido, com vistas a facilitar sua industrialização futura, já que esta 
industrialização é o objetivo explícito da pesquisa. Nos últimos três anos, foram depositadas 19 
patentes. Cabe acrescentar que o licenciamento de tecnologias protegidas gera recursos para a 
instituição e, portanto, auxilia no financiamento à pesquisa, dando maior sustentabilidade financeira 
aos projetos. Esta proteção por outro lado também conta na avaliação positiva dos mestrados 
profissionais, o que atrai mais investimento privado e dos órgãos de fomento, criando um ciclo virtuoso. 
As empresas parceiras também se beneficiam, posto que as patentes são compartilhadas com elas, 
integrando seu patrimônio intangível. Esse patrimônio pode obviamente ser empregado na produção, 
bem como ser negociado para terceiros, em conjunto com o PICG, gerando recursos financeiros. 
4. Linha 4: concepção e operação do campus 
Por fim, no PICG a sustentabilidade apresenta-se como linha em seu modelo de ação a também na 
estruturação do espaço físico do Polo, bem como em sua operação. De fato, é no dia a dia que o PICG 
esmiúça suas ações em sustentabilidade, elencadas a seguir. Essa linha de ação é simbólica de como os 
conhecimentos e soluções tecnológicas produzidos no PICG são aplicados no próprio campus, 
tornando-o um laboratório vivo, no qual soluções são não apenas desenvolvidas, mas demonstradas na 
prática para alunos, comunidade, dentre outros, contribuindo para sua escalabilidade. 
a) Espaço físico 
Gestão de recursos naturais 
• Smart Campus: o projeto Integração e Inteligência para a Sustentabilidade (I2S; ver figura IX.3), 
financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), visa tornar o campus ainda mais 
sustentável e transformá-lo em um laboratório como um todo, através da instrumentação dos 
sistemas de geração e consumo de energia e de captação, tratamento, consumo e pós-consumo 
de água e a integração destes com a estação meteorológica digital. Tal sistema permite não 
apenas uma gestão mais inteligente da água e da energia, mas também pesquisas relacionadas. 
Os medidores de geração e consumo de energia e os de fluxo de água foram desenvolvidos e 
são fabricados pelo próprio PICG. O sistema deve integrar também controle inteligente de 
aparelhos de ar condicionado. 
• Energia: Toda a iluminação dos prédios do Polo é de LED e os aparelhos de ar condicionado 
atendem aos melhores padrões de consumo. Os espaços, dentro do possível, são compartilhados 
pelos grupos de usuários de maneira a otimizar o uso de energia. Atualmente, uma micro-usina 
fotovoltaica de 25 kilo-Watt-pico (kWp) e três geradores eólicos somando 4,5 kWp fornecem 
cerca de 40% da energia do campus. Duas unidades fotovoltaicas complementares de 18 kWp 
foram adquiridas, ampliando o uso de energias renováveis para 100%. 
• Água: Toda a água consumida no PICG é captada do rio Paraíba do Sul pela própria unidade, 
que analisa em seu laboratório LabFoz e trata a parte que será empregada para consumo 
humano através de um Estação de Tratamento de Água (ETA) projetada por um aluno do 
Mestrado de Engenharia Ambiental e financiada pelo CNPq, e que está em operação diária 
há 10 anos. Uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), também projetada no mesmo 
curso e igualmente financiada pelo CNPq e por recursos próprios, está sendo concluída. 
Ambas estações são instrumentadas dentro do projeto I2S. 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 145 
 
Figura IX.3 
Módulo de controle de geração e consumo de energia fotovoltaica do I2S 
 
Fonte: Polo de Inovação Campos dos Goytacazes. 
 
Alimentação 
O PICG fornece refeições para seus alunos dentro de seu orçamento de custeio, e parte da 
alimentação é obtida de uma horta orgânica e uma área de plantio de raízes e leguminosas, mantidas 
com auxílio dos próprios alunos. Há ainda uma horta de plantas com propriedades farmacêuticas que 
são empregadas para pequenas intervenções, seguindo manual desenvolvido em projeto de extensão 
da própria unidade. A alimentação dos servidores, custeada através de cotação dos mesmos, é 
adquirida no comércio local, visando estimular o mesmo, bem como colaborar com o estreitamento dos 
laços com a comunidade. Finalmente, os resíduos da alimentação são devidamente separados e os 
orgânicos são destinados à alimentação de suínos da comunidade local.  
Preservação 
Dos cerca de 6.000 m2 de área que o PICG possui, cerca de 1.000 m2 estão na margem do rio 
Paraíba do Sul e foram reflorestados com espécies locais (figura IX.1), maturadas no viveiro de mudas 
da unidade, com cada espécie identificada individualmente por placa, para fins pedagógicos. Nesta 
mesma área, há uma rampa para descida dos barcos para trabalhos no rio. 
b) Operações 
A partir de 2016, quando se iniciaram efetivamente as operações da unidade como Polo de 
Inovação, se iniciou também um trabalho para redução dos custos operacionais da unidade, enquanto 
o número de projetos em andamento e volume financeiro se multiplicou. As ações promoveram uma 
redução de 15% da equipe e de 50% no número de funções gratificadas, na parte de pessoal, além de 
medidas economia de consumo de energia, combustível e forte reuso de material. 
Este último aspecto tem crescido no PICG, pela incorporação dos conceitos de economia circular, 
tornando o reuso de material um ponto forte na unidade. Essa ação vai desde a desmontagem de placas 
de circuito impresso para retirada e classificação para posterior uso de componentes eletrônicos, 
passando por reaproveitamento de material de obras civis de outros campi do IFFluminense, indo até 
veículos e equipamentos de laboratório. Por exemplo, o PICG montou um veículo utilitário dos 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 146 
 
componentes, carroceria e chassis de três semelhantes e inservíveis individualmente, a um custo de 
aproximadamente 25% de um veículo novo. Destaca-se ainda uma fresadora de pequeno porte que foi 
“manufaturada” a partir de uma impressora 3D defeituosa e fora de linha, componentes eletrônicos 
reutilizados e alguns poucos itens adquiridos. Diversos equipamentos laboratoriais, como impressora 
3D, seladora, estação meteorológica e outros, foram também manutenidos pela própria equipe, por 
vezes com componentes reutilizados, outras com componentes commodities, reduzindo 
substancialmente o custeio da unidade.  
Com essas ações, o custo operacional do PICG caiu de cerca de R$ 1.100.000,00/ano em 2016 para 
R$1.000.000,00 em 2019, uma redução de 10%, mesmo frente a repactuações de contratos de 
terceirização e aumento de outros custos devido à inflação de 14% no período. Assim, houve uma 
redução equivalente a 20% no custeio da unidade, mesmo diante da intensificação de suas operações. 
Em 3 anos e meio de operação, o PICG já executou aproximadamente R$ 5,5 milhões em projetos 
com empresas, além de projetos financiados pelo CNPq, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de 
Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e FINEP 
que somaram cerca de R$ 730.000,00. Assim, até o presente momento, os valores agregados foram de 
(a) R$ 3.600.000,00 para custeio, (b) R$ 2.000.000,00 para alocação de contrapartida (pessoal) e 
(c) R$ 6.230.000,00 para captação de projetos. Esses números mostram que, para cada R$ 1,00 alocado 
em custeio e contrapartida pelo IFFluminense, o PICG captou cerca de R$ 1,10 de recursos externos, de 
fontes privadas (88%) e de agências de fomento (12%). Dessa forma, mesmo sendo integrante de uma 
autarquia federal, o PICG, além de gerar conhecimento e soluções inovadoras e sustentáveis para as 
empresas parceiras, é sustentável do ponto de vista financeiro. Cabe acrescentar que os projetos com 
empresas privadas financiam seu Escritório de Projetos (PMO, da sigla em inglês) e a manutenção de 
equipamentos laboratoriais do PICG, além de bolsas para pesquisadores e para alunos nos níveis técnico, 
graduação e pós-graduação. 
Em termos de transparência, o cronograma físico-financeiro dos projetos é montado em 
conjunto com as empresas parceiras, que tem total acesso aos valores detalhados de custos, item a 
item, sabendo exatamente quanto estão investindo em bolsas, material e suporte administrativo. De 
fato, em termos de transparência e accountability, cabe acrescentar que devido às suas características 
operacionais, o PICG é auditado pela Controladoria-Geral da União (CGU), como as outras unidades do 
IFFluminense, pela EMBRAPII, por ser uma de suas unidades, e indiretamente pelo Ministério Público 
Estadual, devido às suas operações financeiras com a Fundação Pró-IFF. Mesmo sendo auditado por 
três órgãos com alto rigor e normas diferentes, não houve até o momento fato relevante negativo 
anotado por estes órgãos em suas operações.  
5. Ações integrativas 
No modelo de ação do PICG, há uma série de ações que são classificadas em mais de uma linha, devido 
à interação natural no dia a dia da unidade entre as linhas. 
 O projeto voltado para o desenvolvimento de aquicultura de precisão é um exemplo de ação 
integrativa. A partir de uma tecnologia desenvolvida em projeto EMBRAPII com uma única pequena 
empresa parceira, gerou-se um convênio com o Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte 
e Noroeste Fluminense (CIDENNF), formado por sete municípios. Este projeto visa, empregando 
conhecimentos desenvolvidos no projeto inicial, desenvolver soluções para pequenos produtores de 
peixe e camarão dos municípios. 
Outra ação integrada é o desenvolvimento da fresadora de pequeno porte. Com a tecnologia 
desenvolvida em projeto EMBRAPII para robô de inspeção de dutos, foi possível desenvolver uma 
fresadora de pequeno porte e baixo custo, inclusive utilizando componentes de reuso, junto com a 
empresa parceira do projeto original. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 147 
 
Ainda, uma planta de dessalinização de pequeno porte e baixo custo está em fase de teste em 
uma propriedade rural da região e em negociação com uma empresa da região para sua industrialização. 
Essa planta teve o apoio do Programa Talentos para a Inovação da CAPES/EMBRAPII, e representa uma 
alternativa de fácil operação, baixo custo, móvel e 100% nacional para comunidades e pequenas 
propriedades que possuem problemas de água com altos nível de salinidade. 
O Sistema Integrado de Gestão Humanitária, fruto de pesquisa aplicada no mestrado Sistemas 
Aplicados à Engenharia e Gestão (SAEG), representa a integração de um sistema de informação para 
geolocalização de equipes de Defesa Civil no campo com um sistema de telecomunicações 
independente e robusto, ambos customizados para o ambiente brasileiro. Atualmente, está em fase de 
operacionalização no município de Madalena, na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Tal 
sistema oferece uma solução completa, totalmente de código aberto e baseada em commodity 
hardware, para a defesa civil no gerenciamento de equipes de emergência durante períodos pré- e pós-
catástrofes climáticas e ambientais, tais como enchentes, rompimentos de barragens, deslizamentos, 
incêndios florestais etc. 
Por fim, formação de pessoal do PICG também é um exemplo de ação integrativa. O PICG 
desenvolve um modelo de Programa de Formação de Recursos Humanos (PFRH), que foi empregado 
pela EMBRAPII como base para avaliar os outros Polos no quesito de formação de pessoal qualificado 
em projetos de PDI. O PFRH vem sendo amadurecido desde 2016 e a versão atual é baseada em Problem 
Based Learning (PBL), uma metodologia ativa de ensino, de acordo com a qual os alunos recebem uma 
formação conceitual básica modularizada e no formato de Ensino a Distância (EAD). Em uma fase 
posterior, os alunos desenvolvem os conceitos na prática em Projetos Integradores, tendo os 
pesquisadores como tutores. A fase EAD possui módulos com complexidade crescente e que são 
cursados pelos alunos de acordo com seu nível de formação. Os projetos integradores são um 
subconjunto de atividades dos projetos de PDI, que os alunos desenvolverão e nas quais serão avaliados 
de maneira multidimensional: por seus tutores, por seus pares e por si próprios.  
6. O PICG como parte de um ecossistema 
Outra característica destacada do modelo de ação do PICG é a compreensão de que este está inseriado em 
um Sistema de Inovação Local, com o qual interage frequentemente, e é formado por diferentes atores, com 
funções complementares. Um Sistema Local de Inovação é uma lupa analítica que enfatiza aspectos 
regionais e locais dos conceitos de aprendizado, interações, competências, complementaridades, seleção, 
path-dependencies, etc. —que são aplicados no campo da economia da inovação (Lastres e outros, 1998). 
Ao se compreender que o PICG faz parte de um sistema maior no qual o processo inovativo ocorre, os papéis 
complementares e interativos dos diversos atores tornam-se evidentes. 
Com a TecCampos, incubadora de base tecnológica gerenciada pelo IFFluminense e pela 
Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o PICG desenvolveu projeto com uma empresa 
incubada, outro está em andamento e mais um em negociação. 
O Fundo de Desenvolvimento de Campos —Modalidade Inovação (Fundecam Inovador), é um 
fundo que oferece microcrédito para empreendedores que desejam desenvolver projetos de PDI com o 
PICG ou mesmo outros Polos de Inovação. Tal modalidade foi construída em conjunto com o PICG e 
envolve também a possibilidade de financiamento para ações em conjunto com o Sebraetec.  
Atualmente, existem dois projetos de PDI em execução por outros Polos de Inovação que 
possuem o PICG como subcontratado, mostrando a capacidade dos Polos de interagirem, mesmo 
distantes, no desenvolvimento de soluções inovadoras para a indústria nacional. Um dos projetos se 
refere a um aplicativo para Ensino à Distância, do Polo do Instituto Federal do Ceará, e outro para 
Monitoramento de Insetos em Lavouras, do Polo do Instituto Federal Goiano. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 148 
 
O PICG mantém relações com entidades de classe, serviços e terceiro setor, realizando ações tais 
como organização conjunta de eventos e promoção de políticas com a Federação das Indústrias do Rio 
de Janeiro (FIRJAN), Sebrae local, Associação Comercial e Industrial de Campos (ACIC) e Comitê do 
Baixo Paraíba do Sul. 
O PICG está representado no Grupo de Trabalho para Energia Solar Fotovoltaica, formado pela 
Setec/MEC com suporte da Cooperação Técnica Alemã (GIZ, da sigla em alemão) , na pessoa de seu 
coordenador do Laboratório de Energia Fotovoltaica. Dessa forma, o PICG colaborou na construção de 
Itinerários Formativos na área de Energias Renováveis, bem como na definição de temas de pesquisa 
em energia fotovoltaica. 
O PICG é um Centro Multiusuário estabelecido, com normas, comitê gestor e comitê de usuários 
desde 2016, permitindo que usuários externos ao IFFluminense façam uso de seus equipamentos desde 
que seguidos agendamento prévio e as normas de uso e segurança. Desta forma, a comunidade de 
pesquisa e inovação da região tem acesso a equipamentos e facilidades de maior complexidade que 
normalmente ficariam restritos ao acesso acadêmico. 
Além desses atores externos com as quais o PICG interage, há uma forte interação interna. Uma 
forma de interação interna são os Mestrados Profissionais e Pós-graduações Latu Sensu. Dentre os 
mestrados do IFFluminense, dois são baseados no PICG, o de Sistema Aplicados à Engenharia e Gestão 
(SAEG) e o mestrado em rede nacional de Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia 
(ProfNIT). O mestrado de Engenharia Ambiental é parcialmente baseado no PICG. Boa parte das 
dissertações realizadas nestes programas são desenvolvidas nos laboratórios e facilidades do PICG. O 
PICG apoia também aulas e trabalhos de campo das pós-graduações em Gestão de Recursos Hídricos e de 
Educação Ambiental. Outra maneira de interagir internamente se dá por meio da Graduação em 
Engenharia Ambiental. A partir de 2020, este curso, realizado no campus Campos Guarús, passa a incluir 
atividades curriculares de Pesquisa e Inovação desenvolvidas no PICG, para todos os alunos do último ano.  
C. O ciclo virtuoso dos investimentos em inovação 
A partir da discussão da Seção B, nota-se que as diferentes linhas do modelo de ação do PICG se 
complementam e se integram, por vezes não havendo fronteiras claras entre as mesmas. Também se 
observa um elemento comum, a sustentabilidade, em suas três dimensões, que é o vetor que define a 
direção estratégica que todas seguem. Conforme também se observou na Seção B, o próprio PICG 
mobilizou mais de R$ 6 milhões em investimentos em projetos de PDI orientados pela sustentabilidade. 
Na presente seção, discute-se como o modelo de ação do PICG contribui para induzir investimentos 
transformadores rumo ao desenvolvimento sustentável não apenas dentro de suas próprias portas, mas 
em termos de um ciclo virtuoso com abrangência mais ampla. 
O modelo de ação do PICG representa uma articulação liderada por uma unidade pública 
especializada em lidar com diferentes segmentos da sociedade e governos, através de PDI. A 
sustentabilidade, nas suas três dimensões, é meta e ferramenta para atingir e manter um ciclo virtuoso 
de investimentos públicos e privados, representado na figura IX.4, que apoiam a produção de 
conhecimento relevante para o país, diretamente aplicado na melhoria do desempenho das empresas 
e na qualidade de vida das comunidades que interagem com o PICG.  
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 149 
 
Figura IX.4 
Ciclo de investimentos  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Polo de Inovação Campos dos Goytacazes. 
 
Em termos econômicos, o ciclo se inicia com investimento em pesquisa aplicada, que gera 
conhecimento aplicado. Este, somado ao investimento em PDI, vai resultar em inovação na indústria. 
As inovações, ao agregar novas tecnologias e diferenciais competitivos, melhoram a produtividade das 
empresas, aumentando sua receita e consequentemente fazendo com que elas paguem mais impostos. 
Novas tecnologias agregadas demandam trabalhadores mais bem treinados e consequentemente mais 
bem remunerados, o que também gera mais impostos. Parte desses impostos retorna para o sistema 
de inovação na forma de novos financiamentos para pesquisa aplicada e PDI, como consequência dos 
bons resultados. O combustível para este ciclo virtuoso econômico é a inovação tecnológica para a 
sustentabilidade, que promove a redução dos impactos ambientais enquanto gera novos 
conhecimentos. A coparticipação da EMBRAPII no financiamento do desenvolvimento de soluções P+L 
reduz os custos e riscos de desenvolvimento, estimulando as empresas a investir em inovação, 
acelerando o ciclo. Algumas evidências que ilustram essa argumentação são apresentadas na Seção D. 
D. Impactos econômicos, sociais e ambientais 
Conforme foi discutido na Seção B, as ações do PICG são multidimensionais. Por essa razão e também 
pela discussão exposta na Seção C, investimentos em uma única ação podem (e devem) apresentar 
impactos em mais de uma dimensão do tripé da sustentabilidade (social, econômica e ambiental). Nesta 
seção são discutidas algumas ações que ilustram esse argumento. 
1. Dimensão econômica  
O PICG já executou aproximadamente R$ 6 milhões em projetos de PDI em parceria com empresas. 
Essas parcerias, além de gerarem conhecimentos, soluções inovadoras e sustentáveis para o setor 
produtivo, foram viáveis do ponto de vista financeiro. Os projetos também financiam o escritório de 
projeto e a manutenção de equipamentos laboratorial do PICG, contribuindo para a ampliação de 
capacidades da instituição. 
Destaca-se que, em meio à criação e expansão dos laboratórios e a implementações de vários 
projetos, o PICG reduziu em 10% seus gastos de custeio de 2016 para 2019. Além disso, por meio dos 
projetos de P+L, o PICG contribuir para redução de custos das empresas parceiras e para o aumento de 
postos de trabalho. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 150 
 
O Projeto Robô de Inspeção de Dutos, sob coordenação do PICG, ilustra impactos em termos de 
criação de novos postos de trabalho e construção de capacidades tecnológicas e inovadoras. Do ponto 
de vista do empreendedor, observou-se que o mesmo é egresso do curso de Engenharia de Controle e 
Automação do IFFluminense e seu Trabalho de Conclusão de Curso foi desenvolvido no PICG; é aluno 
do Mestrado ProfNIT; e recebeu bolsa empreendedorismo para analisar a incubação de sua empresa. Já 
com relação à empresa, destaca-se que esta é incubada da TecCampos; tomou empréstimo no 
Fundecam Inovador; é parceira de projeto com a EMBRAPII; desenvolveu outros dois projetos de 
extensão com o PICG, sendo um deles de Economia Circular (Fresadora de Pequeno Porte), o qual gerou 
a contratação de quatro egressos do curso Técnico em Automação do IFFluminense; e está 
industrializando o robô, o que é uma substituição de importação. Além disso, em apenas dois meses de 
operação do robô, a empresa fechou contratos para 24 meses de serviços, cujos impostos que serão 
pagos já são equivalentes aos valores investidos pela EMBRAPII no projeto, demonstrando o que foi 
apresentado na Seção C. Em quatro meses do projeto concluído, a empresa contratou cinco egressos 
do Curso Técnico em Automação do IFF. Finalmente, o produto do projeto já é empregado atualmente 
para inspecionar galerias de águas fluviais e pluviais de três municípios da Região Norte Fluminense, em 
menos de seis meses de conclusão do projeto. 
Assim, do ponto de vista econômico, os investimentos realizados pelo PICG aumentam a 
eficiência e a competitividade na indústria, atraem mais investimentos para a região, geram 
conhecimento e inovação e contribuem para o desenvolvimento econômico. 
2. Dimensão ambiental 
Devido à própria temática do PICG, todos seus projetos trazem impactos ambientais positivos, seja em 
termos de redução das emissões de gases de efeito de estufa, ou de melhoria da eficiência no uso de 
recursos naturais, do aprimoramento da gestão de resíduos sólidos da produção industrial ou da 
promoção de fontes renováveis de energia elétrica. Por exemplo, o Projeto Eficiência Energética em 
Fornos Industriais (projeto em modelo EMBRAPII) permitiu uma redução de 30% no consumo de energia 
(gás) ao projetar e implementar uma trocador de calor instrumentado, que permite que a saída de um 
forno funcione como entrada de outro. Um aluno que trabalhou no projeto foi contratado pela empresa 
e um projeto de extensão foi desenvolvido em associação com o mesmo, para desenvolver um sistema 
de Planejamento e Controle da Produção que sincronizasse a programação dos fornos da fábrica.  
Já os projetos EMBRAPII Software Controlador de Gerador Biogás e Dispositivo para Controle 
Remoto de Gerador Biogás foram encadeados com a mesma empresa, onde o primeiro projeto 
representou uma substituição de importação que permitiu também refinar a parametrização do 
equipamento e torná-lo mais eficiente. No segundo projeto, não só foi possível reduzir o footprint de 
carbono ao promover a operação remota dos equipamentos, como também permitiu a criação de um 
novo negócio para a empresa, que é o de serviços de operação —antes realizada pelos compradores do 
equipamento apenas. O serviço remoto, realizado por técnicos do fabricante, também otimiza o 
funcionamento dos geradores, aumentando sua eficiência energética. 
Ainda nesta dimensão, o projeto EMBRAPII Sensor para Monitoramento de Barragens foi 
desenvolvido para monitorar barragens de rejeitos de mineração, como as que romperam em Mariana 
e Brumadinho, operando em rede sem fio de longa distância, com luz solar e baterias, sendo capaz de 
detectar água percolando a 30 metros de profundidade. Seu custo de aquisição é uma fração do custo 
dos similares importados atualmente em uso no Brasil, desenvolvido para uma pequena empresa, 
egressa da TecCampos.  
Ademais, o PICG implementou uma miniusina fotovoltaica, unidade de análise e tratamento de 
água e uma horta orgânica. Esses exemplos ilustram como o modelo de ação do PICG para utiliza sua 
capacidade de pesquisa e seu capital físico e humano como ferramentas para construção de soluções 
em direção a um estilo de desenvolvimento que tem a sustentabilidade como norte. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 151 
 
3. Dimensão social 
Na dimensão social, o modelo de ação do PICG contribui diretamente para impactos positivos, já que 
uma das principais atividades da instituição é a educação —área chave para inclusão produtiva, redução 
da pobreza e diminuição de desigualdades. Muitos dos investimentos do PICG têm parte de seus 
recursos destinados para bolsas de pós-graduação e bolsas de iniciação científicas, aspecto importante 
para diminuição da evasão escolar, em especial, de alunos de baixa renda. Por seu papel destacado na 
educação, treinamento e formação de seus alunos, o PICG contribui para aumento dos salários e renda 
e acesso maior a mercado de trabalho formal e à educação. Com efeito, o PICG é reconhecido como 
uma “Promissing Practice” pela UNESCO-UNEVOC. Segundo UNESCO-UNEVOC (2019): 
“O acesso ao ensino técnico e superior, juntamente com programas de desenvolvimento 
de habilidades, se tornaram ferramentas importantes para combater a pobreza no Brasil. 
Ao reconhecer que a inovação ocorre na vanguarda da aprendizagem, o PICG permite que 
seus alunos desenvolvam soluções práticas criativas utilizando ciência e tecnologia. Os 
projetos liderados por estudantes vão desde parcerias com comunidades de baixa renda 
até o desenvolvimento de projetos de inovação com empresas de engenharia. A 
tecnologia que os estudantes desenvolvem com empresas do setor privado permite a 
aplicação de soluções de baixo custo que beneficiam as comunidades rurais.”.  
Outro aspecto importante é a melhoria dos serviços promovidos pelas inovações geradas no 
campus, pois viabilizam o acesso e a melhor qualidade de serviços tais como água potável, destinação 
adequada de resíduos e alimentação saudável, que são fundamentais para melhoria da condição de 
saúde da população, em espacial, a mais pobre. 
E. A atuação do PICG à luz do Big Push para a Sustentabilidade  
e da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável 
O Big Push para a Sustentabilidade é uma abordagem desenvolvida pela Comissão Econômica para a 
América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas, segundo a qual os investimentos em soluções 
resilientes, de baixo carbono e sustentáveis podem ser um big push (ou grande impulso) para um novo ciclo 
virtuoso de crescimento econômico, gerador de emprego e renda, redutor de desigualdades e brechas 
estruturais e promotor de sustentabilidade no Brasil (CEPAL/FES, 2019). Esses investimentos sustentáveis 
somente ocorrerão se houver uma articulação e coordenação de políticas (públicas e privadas, nacionais e 
subnacionais, de ciência, tecnologia e inovação, de planejamento etc.) que criem um ambiente propício 
para que esses investimentos possam ser mobilizados. A coordenação é um ponto de contato claro do 
estudo de caso analisado com o Big Push para a Sustentabilidade. Nota-se a importância da coordenação, 
que se dá em torno da premissa da sustentabilidade como meio, fim e objetivo permanente a ser atingido. 
A coordenação se dá não apenas entre as distintas linhas do modelo de ação, mas também entre 
pesquisadores de variados campos, entre docentes, discentes e a comunidade local, entre academia, setor 
produtivo e governo etc., para a realização dos investimentos reportados. 
A abordagem do Big Push para a Sustentabilidade é orientada pela tripla eficiência: keynesiana, 
schumpeteriana e da sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). A eficiência schumpeteriana enfatiza que 
uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera externalidades 
positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. O modelo de ação 
do PICG ilustra um caso típico de eficiência schumpeteriana, já que suas ações são diretamente voltadas 
para construção de capacidades tecnológicas, competências inovativas e desenvolvimento de soluções. 
O PICG gera conhecimento e aprendizado, desenvolve soluções para a indústria, forma pessoal 
qualificado, produz spill overs tecnológicos para a região e contribui para agregação de valor e aumento 
de competitividade na indústria, redução da dependência externa de produtos de alta intensidade 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 152 
 
tecnológica e aumento da produtividade. A eficiência keynesiana diz respeito aos ganhos crescentes de 
escala e de escopo da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, 
gerando efeitos multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. Ao contribuir 
para o aumento da competividade da indústria através da inovação, o PICG contribui para que a 
indústria se insira nos mercados globais em acelerada expansão, que são os mercados de produtos 
intensivos em tecnologia. Além disso, as parcerias com empresas e startups levam à criação de novos 
postos de trabalho e de novas empresas, que consequentemente geram empregos e renda. A eficiencia 
da sustentabilidade, entendida como a clássica eficiência da sustentabilidade nos três pilares 
(econômico, social e ambiental) está presente no caso estudado, o que é analisado na Seção D. 
Nota-se, com base em Gramkow e Anger-Kraavi (2019), que é possível identificar que o PICG 
aborda a praticamente todos os itens listados como “verdes”: eficiência energética, reciclagem e 
economia de materiais, substituição de combustíveis fósseis por gás natural e por energias renováveis 
e substituição de lenha e carvão por biomassa sustentável e tecnologias de cogeração. Para cada uma 
dessas áreas, há pelo menos um projeto já desenvolvido pela unidade, em parceria com empresas. 
Desta forma, o PICG colabora com a descarbonização da indústria brasileira. Segundo o estudo, os 
estímulos verdes (i.e., estímulos fiscais para investimentos sustentáveis) podem contribuir para reduzir 
a histórica restrição externa estrutural ao crescimento econômico de longo prazo do Brasil, ao mesmo 
tempo em que reduz impactos ambientais. O estudo ressalta que os resultados mostram a importância 
de envolver o setor industrial no intuito de construir um novo estilo de desenvolvimento no país. 
Adicionalmente, destaca ainda a questão do lock-in tecnológico, quando o paradigma tecnológico 
vigente torna muito caro ou impossível introduzir tecnologias verdes. Mais uma vez as tecnologias 
desenvolvidas no PICG sobressaem, posto que, através de soluções Inovadoras, desenvolvidas nas 
fronteiras entre as áreas do conhecimento, a unidade consegue destravar (unlock) o ciclo produtivo das 
empresas parceiras na direção de uma produção mais sustentável. 
Nesse contexto, ressalta-se o modelo EMBRAPII, que, com seu financiamento tripartite (setor 
produtivo, academia e setor público) facilita a participação da indústria no esforço inovativo para a 
sustentabilidade, ao compartilhar custos e riscos no desenvolvimento de processos e produtos 
inovadores. O PICG não apenas emprega este modelo, como também o potencializa, integrando-o com 
outros instrumentos de fomento tais como a Lei do Bem3. Assim, modelos sustentáveis do ponto de 
vista econômico são empregados para desenvolver processos e produtos inovadores e sustentáveis, 
fechando um ciclo virtuoso multidimensional. E o conhecimento gerado é empregado também na 
consecução de ações com comunidades, diretamente ou através dos governos locais. Essas ações 
auxiliam na geração de trabalho e renda nessas comunidades, melhorando a qualidade de vida dos 
cidadãos e evitando deslocamentos para centros urbanos. 
Finalmente, destaca0se que os projetos do PICG contribuem para alcançar os Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados à Agenda 2030 (ONU, 2015), particularmente: 
Educação de Qualidade (ODS 4); Água Potável e Saneamento (ODS 6);Energia Acessível e Limpa 
(ODS 7); Trabalho Decente e Crescimento Econômico (ODS 8); Indústria, Inovação e Infraestrutura 
(ODS 9); Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11); Consumo e Produção Responsáveis (ODS 12); 
Ação Contra Mudança Global do Clima (ODS 13); Vida na Água (ODS 14); Vida Terrestre (ODS 15); e 
Parcerias e Meios de Implementação. (ODS 17). 
  
                                                                      
3  Lei 11.196/05. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 153 
 
F. Conclusões 
A principal lição aprendida, e incorporada no dia a dia do PICG, é que a sustentabilidade deve ser 
compreendida nas suas três dimensões (social, econômica e ambiental). Caso contrário, em algum 
momento futuro, a dimensão que não foi atendida vai ocasionar algum problema que tornará a solução 
inviável. Assim, não é possível ter soluções corretas do ponto de vista socioambiental se elas não se 
mantêm financeiramente e vice-versa. O grande desafio é, portanto, encontrar soluções que atendam 
às três dimensões. E nesse ponto, o PICG emprega a inovação como motor para atingir a 
sustentabilidade de forma plena, multidimensional, conforme foi apresentado. 
Apesar de operar com números relativamente pequenos para um país continental como o Brasil, 
compreende-se que, justamente por ser de pequeno porte e por estar fora dos grandes aglomerados 
populacionais, é que permite que esse modelo tenha o potencial de ser multiplicado para o interior do 
país, contribuindo para a redução de desigualdades regionais. E esse pequeno porte permite também 
uma melhor aproximação das pequenas empresas, que são as grandes empregadoras do país, e das 
comunidades, onde as pessoas vivem e por onde elas podem ser mais bem influenciadas e educadas.  
Para tanto, busca-se uma visão holística da sustentabilidade, nas suas três dimensões e também 
como meio, fim e instrumento de ação. É na junção do conhecimento comunitário com a alta tecnologia 
que o PICG busca trabalhar e contribuir para o desenvolvimento sustentável. Na abordagem do Big Push 
para Sustentabilidade, é crítico identificar aqueles investimentos complementares, que conjuntamente 
levem à uma transformação da estrutura produtiva sustentável no tripé econômico, social e ambiental. 
Os investimentos aplicados pelo PICG ilustram a importância dos investimentos em inovação e 
capacidades tecnológicas. Iniciativas tais como essa, se ampliadas e coordenadas, são um componente 
fundamental de um conjunto de investimentos complementares que possam dar um grande impulso ao 
desenvolvimento sustentável no Brasil. 
Bibliografia 
Carvalho, Rogerio A. (2019), “Processo de Projeto de Produtos Inovadores (P3I)”, documento desenvolvido 
como relatório técnico interno, Campo dos Goytazaces, Polo de Inovação Campos dos Goytacazes, 
Universidade Federal Fluminense. 
CEPAL/FES (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe)/(Fundação Friedrich Ebert Stiftung) 
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sustentável”, Perspectivas, Nº 20, (LC/BRS/TS.2019/1 e LC/TS.2019/14), São Paulo. 
EMBRAPII (2014), Sistema de Excelência Operacional EMBRAPII, Brasília. 
Lastres, Helena e outros (1998), “Globalização e inovação localizada: experiências e sistemas locais no 
âmbito do Mercosul e proposições de políticas de CT”, Projeto Globalização e Inovação Localizada, 
Rio de Janeiro, Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Gramkow, Camila e Annela Anger-Kraavi (2019), “Developing Green: the case of the Brazilian manufacturing 
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Desenvolvimento Sustentável (A/ RES/70/1), Nova Iorque, Publicação das Nações Unidas. 
UNESCO-UNEVOC (United Nations Education Scientific and Cultural Organization – International Centre for 
Technical and Vocational Education and Training) (2019), “Promising Practice: Campos dos 
Goytacazes Innovation Hub (PICG)” [online] https://unevoc.unesco.org/go.php?q=PP_PICG [data de 
consulta: 10 de dezembro de 2019]. 
 
 

CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 155 
X. Tecnologias sociais como impulso para o acesso à 
água e o desenvolvimento sustentável no meio rural 
brasileiro: a experiência do Programa Cisternas 
Vitor Leal Santana* 
Lilian dos Santos Rahal* 
Resumo 
O objetivo desse estudo é analisar e discutir os resultados de uma das ações do governo brasileiro para 
garantir o acesso à água no meio rural e sua relação com a abordagem desenvolvida pela CEPAL 
Big Push para a Sustentabilidade. Há quase duas décadas vem sendo apoiada a implementação de 
tecnologias sociais como alternativa para o abastecimento de água de populações rurais pobres 
localizadas em regiões afetadas pela seca ou pela dificuldade de acesso à água, materializada no 
Programa Cisternas. As tecnologias têm como foco a captação e armazenamento de água de chuva, 
buscando garantir o acesso à água para consumo humano e a produção de alimentos. Já foram 
beneficiadas mais de 1 milhão de famílias e quase 7 mil escolas, localizados em sua maior parte na região 
semiárida brasileira. Os resultados e impactos observados até o momento apontam para a importância 
dos investimentos nessa ação para o enfrentamento da pobreza, para a melhoria da saúde e da 
segurança alimentar, bem como para a processos adaptativos de populações em situação de 
vulnerabilidade socioeconômica e climática. 
  
                                                                      
*  Ministério da Cidadania. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 156 
 
A. Introdução 
A água constitui elemento central para o desenvolvimento econômico e social e possui incidência direta 
sobre o bem-estar, a saúde e os meios de subsistência pessoal. Apesar de direito humano básico, o 
acesso adequado à água potável é uma realidade distante para mais de 660 milhões de pessoas no 
mundo, das quais 522 milhões vivem em áreas rurais, conforme recente relatório divulgado pela 
WaterAid (WaterAid, 2017). Variações climáticas que afetam a disponibilidade de água, a poluição de 
fontes hídricas disponíveis, conjugadas com uma reduzida oferta da rede pública de abastecimento de 
água na zona rural são apenas alguns dos fatores que explicam esse cenário. Não por acaso, a água tem 
sido considerada necessária para alcançar boa parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 
(ODS) da Agenda 2030 (ONU, 2015)1. 
No Brasil, as desigualdades de renda se refletem também no acesso adequado à água. Enquanto 
85% da população brasileira como um todo possui acesso à rede pública de abastecimento, apenas 73% 
dos domicílios com renda de até 1 salário mínimo possuem o mesmo acesso. No meio rural, 31% dos 
domicílios estão ligados à rede geral com canalização interna, mas para aqueles com renda até 1 salário 
mínimo esse acesso está limitado a 20% da população (IBGE, 2016). Da mesma forma, as desigualdades 
regionais também se refletem no acesso à água, uma vez que na região Sudeste 92% da população 
possui acesso à água por meio da rede geral de abastecimento, enquanto nas regiões Norte e Nordeste 
esse acesso se restringe a 59% e 78% da população, respectivamente. 
Outro aspecto importante a ser mencionado diz respeito à própria solução de abastecimento que 
muitas vezes é considerada a mais adequada. Para o contexto urbano, há vantagens evidentes de se 
instalar um sistema que interligue os domicílios, promovendo ganhos de escala que tornam essa solução 
muito mais eficiente do que processos individualizados. No meio rural, sobretudo em regiões com baixa 
densidade demográfica e com problemas de escassez de fontes superficiais e subterrâneas, a instalação 
de estruturas coletivas de abastecimento de água muitas vezes é inviável econômicamente (Moura 
Raid, 2017), não havendo incentivos para o investimento público ou privado. Mesmo em áreas rurais 
onde é possível a instalação de sistemas coletivos, muitas vezes são necessárias soluções adaptadas às 
condições socioeconômicas da comunidade, como forma de se garantir sua sustentabilidade no tempo. 
Existem dimensões complexas a serem consideradas, para as quais muitas vezes são exigidas 
soluções tratadas como não convencionais. Como política de saneamento básico, é evidente o enorme 
déficit de atendimento da população localizada na zona rural, déficit esse que é praticamente inviável 
de ser eliminado apenas com a concepção utilizada de sistema de abastecimento de água, com a 
infraestrutura necessária para tanto. Sob o ponto de vista da política de segurança alimentar e da saúde, 
por outro lado, a perspectiva seria garantir pelo menos um acesso básico à água de qualidade, como 
elemento para a garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável e à sobrevivência em 
condições dignas, buscando romper com as assimetrias tecnológicas e socioeconômicas entre o campo 
e a cidade. 
Ressalta-se que mesmo regiões com elevada disponibilidade hídrica no Brasil, como é o caso da 
Amazônia, enfrentam dificuldades diversas, associadas principalmente à potabilidade da água (Giatti, 
2007; Bordalo, 2017). 
Ademais, entende-se que a garantia da segurança hídrica, além de impactar diretamente na 
qualidade de vida, tem potencial para tornar as comunidades mais resilientes a situações extremas de 
clima e mais capazes de desenvolver atividades produtivas que agreguem valor ao seu trabalho, 
contribuindo para a redução das brechas estruturais do desenvolvimento, tais como a desigualdade e a 
                                                                      
1  Discurso de Karin Lexén, diretor da World Water Week, em evento realizado entre os dias 27 de agosto e 1º de setembro de 2016 
em Estocolmo, na Suécia. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 157 
 
heterogeneidade estrutural (ou seja, as marcadas e persistentes diferenças de produtividade entre 
setores da economia considerados primitivos e modernos) (CEPAL, 2016). Aqueles que vivem em áreas 
rurais e que dependem da agricultura para viver, especialmente agricultores familiares pobres, estão 
entre os mais afetados pelas alterações climáticas, considerando que a elevação das temperaturas 
tende a desertificar áreas de produção, tornando difícil o cultivo, bem como a alimentação dos animais, 
com forte impacto na segurança alimentar (Andrade, Silva e Souza, 2014). 
É nesse contexto que atua o Programa Nacional de Apoio à Captação de Água de Chuva e Outras 
Tecnologias Sociais —Programa Cisternas, política pública instituída por meio da Lei nº 12.873/2013, 
regulamentada atualmente pelo Decreto nº 9.606/2018, e que tem por objetivo a promoção do acesso 
à água para consumo humano e para a produção de alimentos às famílias pobres e escolas públicas 
localizadas no meio rural e atingidas pela seca ou falta regular de água no Brasil. A proposta é apoiar a 
implementação de tecnologias sociais, sendo essas intervenções simples e de baixo custo, adaptadas a 
contextos de vulnerabilidade social e ambiental e que buscam oferecer soluções efetivas para que 
famílias e comunidades isoladas possam acessar água de qualidade e em quantidade adequadas. 
A implantação dessas tecnologias, em especial as cisternas, tem sido apoiada como ação do governo 
brasileiro pelo menos desde 2002, sendo que a partir de 2004 ela é inserida como parte da estratégia para 
superação da pobreza, garantia da segurança alimentar e convivência/adaptação climática. 
Nesse contexto, o método para a apresentação do estudo de caso se baseia na descrição do contexto 
e da metodologia de implementação do programa, com informações sobre os resultados obtidos e as 
evidências sobre os impactos econômicos, sociais e ambientais desta intervenção governamental ao longo 
dos anos, com insights sobre sua importância no âmbito do Big Push para a Sustentabilidade. 
B. Programa Cisternas: contexto, resultados e impactos 
Equipamentos e sistemas descentralizados para a captação e o armazenamento de água tem amplo 
potencial para o atendimento da demanda por água em regiões com grande escassez hídrica, 
principalmente para o consumo humano, sendo que muitas vezes a única alternativa viável são 
tecnologias sociais que permitam a captação de águas pluviais. 
A importância da utilização dessas tecnologias tem sido reforçada em algumas edições do Fórum 
Mundial da Água. Na 3º edição desse Fórum, realizada em Quioto em 2003, o Diretor do Centro de 
Tecnologias Ambientais do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Steve Hall, 
já declarava que, apesar de a captação e armazenamento de água de chuva não ser uma inovação ou 
uma ideia tão atraente como grandes projetos de abastecimento de água, “se introduzida em larga 
escala pode aumentar o abastecimento a um custo relativamente baixo e passar para as comunidades 
a responsabilidade de gerenciar seu próprio abastecimento de água” (Hall, 2003).  
Em evento paralelo à III Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para Combate 
à Desertificação (COP 3), realizada em 1999 em Recife (PE), organizações da sociedade civil se reuniram 
e fundaram a Articulação do Semiárido (ASA), contando com a participação de organizações populares, 
entre elas organizações não governamentais, sindicatos, cooperativas, associações e igrejas. 
O movimento organizado em torno desse evento foi o ponto de partida para a elaboração, pela 
sociedade civil, do Programa Um Milhão de Cisternas —P1MC, proposto para ser executado de maneira 
descentralizada, sob o paradigma da convivência com o semiárido, respeitando os saberes e a cultura 
locais das populações residentes nas áreas rurais do bioma caatinga. Esse programa foi a primeira 
iniciativa para inserir na agenda pública a ideia da convivência com a região semiárida e suas 
características, por meio de soluções estruturantes para um problema presente na realidade 
socioeconômica e climática da região, contrariando as soluções paliativas de combate à seca vigentes 
na região até então. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 158 
 
Tendo em vista a experiência positiva das primeiras ações desenvolvidas a partir dessa articulação, 
em 2004 o governo federal destaca orçamento específico para a construção de reservatórios para captação 
e armazenamento de água da chuva. Tal ação tem desde então contado com significativos aportes de 
recursos, na perspectiva de garantir o acesso à água potável para populações rurais pobres. Sob a 
denominação de Programa Cisternas, o mesmo tem sido implementado a partir de um arranjo que envolve 
principalmente a parceria do governo federal com governos estaduais, municipais, consórcios públicos de 
municípios e com organizações da sociedade civil, utilizando o Cadastro Único para Programas Sociais do 
Governo Federal —CadÚnico para sua focalização. 
O processo para a implementação das tecnologias do Programa integra, além da construção de 
uma estrutura de captação e armazenamento de água, atividades de mobilização social e capacitações 
para o manejo e a gestão da água e da própria tecnologia. Essas atividades complementares constituem 
elementos definidores do projeto, parte integrante do processo que caracteriza as referidas tecnologias 
não como obra de engenharia, mas como tecnologias sociais, passíveis de serem implantadas a partir 
de ação direta das famílias ou comunidades a serem atendidas. 
De uma forma geral, são soluções simples, de baixo custo e de fácil apropriação, resultado de um 
processo social de aprendizado sobre os meios de convivência climática. 
 
Tabela X.1 
Linhas de ação do Programa Cisternas 
Objetivo Tecnologia 
Acesso à água para 
consumo humano 
Principal tecnologia é a cisterna de placas de 16 mil litros, composta por um reservatório de placas 
de alvenaria, interligado a um sistema de calhas para a captação da água de chuva do telhado do 
domicílio. Outros tipos de tecnologias também já têm sido apoiadas, a exemplo dos sistemas 
pluviais multiuso, adaptados para a realidade da Amazônia, e das cisternas de 52 mil litros para 
escolas rurais. 
Acesso à água para 
produção de alimentos e 
dessedentação animal 
São diversas tecnologias apoiadas, sendo a mais comum a cisterna de 52 mil litros, cuja água de 
chuva armazenada no reservatório pode ser captada a partir de uma área concretada próxima 
(calçadão) ou do próprio solo a partir de um leito de enxurrada. O procedimento de instalação é 
similar ao da tecnologia de água para consumo, sendo que o reservatório atende principalmente a 
produção familiar de quintal, em geral hortaliças e frutas, e a criação de pequenos animais. Dentre 
outras tecnologias apoiadas estão a barragem subterrânea e o barreiro trincheira. 
Fonte: Brasil, “Sistema de Informações Gerenciais do Programa Cisternas” [online], Ministério da Cidadania aplicacoes.mds.gov.br/ 
programaicsternas [data de consulta: 21 de maio de 2019], 2019.  
 
A importância da utilização desse tipo de tecnologia, tanto para oferecer água para consumo 
humano, em uma perspectiva de direito básico, quanto para estruturar cadeias produtivas ambiental e 
socioeconomicamente sustentáveis, dentro de uma lógica de emancipação, geração de renda e 
agregação de valor, tem sido reforçada pelo governo brasileiro ao longo dos anos.  
No período de 2003 a 2018 foram investidos mais de R$ 3,6 bilhões (cerca de US$ 900 milhões), 
beneficiando diretamente mais de 1,2 milhão de famílias, sendo 1 milhão com tecnologias voltadas para 
a captação e armazenamento de água para consumo humano, principalmente as cisternas de placas de 
16 mil litros, cerca de 200 mil com tecnologias que viabilizam a produção de alimentos e a criação de 
pequenos animais, além de 6,8 mil escolas públicas rurais (Brasil, 2019b). 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 159 
 
Figura X.1 
Principais tipos de tecnologias implantadas 
Cisterna de placas de 16 mil litros Cisterna calçadão de 52 mil litros 
 
Cisterna de enxurradas de 52 mil litros Barragem subterrânea 
Barreiro trincheira Cisterna escolar 
Fonte: Brasil, “Portal do Desenvolvimento Social” [base de dados online], http://www.desenvolvimentosocial.gov.br [data de consulta: 21 de 
maio de 2019], 2019. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 160 
 
Concentrada no território do semiárido (majoritariamente ocupado pela vegetação característica 
do bioma Caatinga), que abrange atualmente 1.262 municípios de 10 estados brasileiros, a partir de 
2012 houve um movimento de expansão da ação para outras regiões, cuja população rural pobre 
também enfrenta dificuldades diversas de acesso à água, associadas muitas vezes à potabilidade da 
água. Para essa realidade, foram pensados outros formatos de tecnologias, ancorados também em 
estruturas descentralizadas de abastecimento de água com participação social.  
Atualmente, são apoiados 27 tipos de tecnologias, adaptadas a diversos biomas, condições de 
solo e tamanho da propriedade. A perspectiva é garantir que as soluções adotadas sejam adaptadas a 
cada condição ambiental e climática e que as próprias comunidades se apropriem e promovam a 
sustentabilidade dessas tecnologias, ampliando de forma mais eficaz e efetiva o direito de acesso à água 
com custos relativamente reduzidos de implantação e de manutenção, incluindo captação, reservação 
e distribuição, garantindo, consequentemente, os ganhos sociais e econômicos que estão associados 
(Brasil, 2019a). 
Nesse contexto, no período de 2003 a 2018 já são 1.352 municípios atendidos, dos quais 
1.113 integram a região delimitada como semiárido, conforme ilustrado na Mapa X.1 (Brasil, 2019b). 
 
Mapa X.1 
Distribuição territorial das tecnologias apoiadas no âmbito do Programa Cisternas 
 
Fonte: Elaboração própria a partir de dados disponibilizados pelo Ministério da Cidadania do Brasil. 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 161 
 
A importância da caracterização da cisterna como tecnologia social de acesso à água se reflete na 
definição legal do conceito a partir do Decreto nº 8.038/2013 (substituído pelo Decreto nº 9.606/2018). 
A partir desse normativo, e com base no acúmulo prático e teórico sobre o processo, definiu-se que a 
implementação desse tipo de tecnologia deve necessariamente envolver um conjunto de técnicas e 
métodos aplicados para captação, uso e gestão da água, desenvolvidos a partir da interação entre 
conhecimento local e técnico, apropriados e implementados com a participação da comunidade. 
Ao se caracterizar a cisterna como tecnologia social, e não como obra de engenharia civil, atribui-
se protagonismo aos processos participativos e aos atores sociais. Essa caracterização foi crucial para 
que o Programa Cisternas alcançasse escala, com eficácia, efetividade e eficiência, e com resultados 
positivos comprovados junto um público isolado e com pouco acesso a recursos de maneira geral, 
especialmente às políticas públicas. Os resultados mensurados impactam diretamente na qualidade de 
vida, com melhoria de indicadores socioeconômicos e na capacidade adaptativa às mudanças do clima 
dos beneficiários e comunidade atendidas. 
A partir da oferta de uma água de melhor qualidade para consumo, existem evidências que 
atestam que as tecnologias reduzem a ocorrência de doenças de veiculação hídrica e de mortalidade 
infantil decorrente destas. Alguns estudos demonstram que a ocorrência de diarreia, incluindo 
episódios e duração da doença, foram consistentemente menores entre os residentes de domicílios com 
cisternas, sendo fator de proteção ainda maior para crianças, mais vulneráveis para esse tipo de 
ocorrência (Joventino e outros, 2010; Luna, 2011; Fonseca, 2012). Ainda em relação aos benefícios para 
a saúde, Silva (2015) demonstrou a redução no médio prazo de até 69% na taxa de mortalidade infantil 
em decorrência de diarreia em municípios atendidos por cisternas.  
Outros trabalhos verificaram ainda o impacto positivo da cisterna sobre a autonomia do 
beneficiário, que estaria menos sujeito ao clientelismo político (Bobonis e outros, 2019), a partir de uma 
troca direta do voto por água, como historicamente foi marcada a política na região do semiárido 
brasileiro. O processo de educação e implantação participativa das tecnologias promove também o 
empoderamento dos beneficiários, com maior envolvimento e engajamento na busca por novas 
conquistas (Pontes, 2012), além do questionamento e reivindicação por novas oportunidades 
(Nascimento, 2016). Com isso, promove-se a cidadania no sentido de reforçar direitos civis e sociais que 
muitas vezes não são de conhecimento de populações mais vulneráveis. 
Há evidências que apontam, ainda, para a redução no tempo gasto para buscar água em até 90% 
(Gertler e Navarro, 2015; Gomes e Heller, 2016), aumentando consequentemente o tempo para lazer e 
educação de mulheres e crianças, a quem a tarefa de buscar água é tradicionalmente atribuída no 
semiárido rural (Pontes, 2012). De acordo com estudo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban, 
2007), observa-se o aumento de 7,5% da frequência escolar de crianças apenas com a implantação da 
cisterna no domicílio, o que implica ainda em uma taxa de retorno econômico do investimento estimado 
em pelo menos 4,8% ao ano. 
No caso do atendimento de escolas, a partir da oferta de uma água de melhor qualidade para 
consumo de alunos e professores, essas tecnologias contribuem para o adequado funcionamento das 
unidades, permitindo o preparo da merenda e oferta de alimentação durante o ano letivo, também com 
potencial incidência positiva na frequência escolar. 
A água armazenada nas cisternas permite ainda o desenvolvimento de subsistemas produtivos 
até então limitados pela escassez hídrica, proporcionando condições objetivas para ampliação da 
produção agroalimentar. O volume de água captado e armazenado potencializa o quintal produtivo dos 
beneficiários, com maior diversificação dos alimentos produzidos, proporcionando, assim, o acesso 
regular e permanente a alimentos saudáveis, a geração de renda adicional (monetária e não monetária) 
e a melhoria na qualidade de vida (Borges Filho, 2015; Souza e outros, 2016), inclusive com potencial 
redução na migração das famílias do campo para as cidades. Análise econômica realizada pelo Instituto 
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Nacional do Semiárido (INSA) em 2016 apontou para uma ampliação da renda de 82% quando 
comparadas famílias com cisternas com aquelas que não haviam sido atendidas (INSA, 2016). 
A valiações realizadas pelo Tribunal de Contas da União (órgão de controle externo no Brasil), em 
2006 e 2007 (TCU, 2006 e 2007), e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária —Embrapa, em 
2009 (Embrapa, 2009), corroboram parte desses resultados e a importância que as tecnologias 
assumem, que se reflete no alto grau de satisfação das famílias com o programa. 
Na dimensão econômica, um aspecto importante da implementação do Programa é que todo 
recurso repassado pelo governo federal é aplicado no município atendido, gerando demanda crescente 
por produtos e serviços em nível local. Com isso, resultado indireto decorre da própria execução, que 
está orientada a causar efeitos de otimização das potencialidades locais, seja na compra dos materiais, 
que representa 70% do valor total, ou na contratação da mão-de-obra para a construção. Além disso, 
parte dos recursos aplicados são direcionados para a contratação de técnicos de campo para a execução 
das atividades de mobilização, capacitações ou acompanhamento das famílias.  
Esse resultado se torna evidente quando se constata que a maioria dos municípios atendidos são 
de pequeno porte (menos de 20 mil habitantes), dependentes quase que exclusivamente do repasse de 
recursos da União, por meio do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), com baixo dinamismo 
econômico, que se reflete na alta participação da administração pública no Produto Interno Bruto —PIB 
local, e nos menores índices de desenvolvimento humano do país (Atlas Brasil, 2013). Além disso, 
mesmo sendo localidades predominantemente rurais, observa-se uma pequena participação da 
agricultura no PIB, sobressaindo uma agricultura familiar de baixo rendimento. 
 
Tabela X.2 
Comparativo entre médias de indicadores populacionais e socioeconômicos 
Dados Municípios atendidos pelo Programa Cisternas Municípios brasileiros 
Número de municípios 1 352 5 570 
População 24 471 34 191 
% População rural 47,1 37,5 
% População em situação de pobreza ou extrema pobreza 65,7 44,1 
IDH 0,594 0,659 
Renda per capita 281,56 491,46 
PIB (R$ 1.000) R$ 252 633,83 R$ 1 125 171,45 
% Participação da administração pública no PIB 50,5 33,1 
% Participação da agricultura no PIB 11,5 20,8 
Fonte: Atlas Brasil, “Atlas dos Municípios Brasileiros” [online], http://atlasbrasil.org.br/2013/pt/download/ [data de consulta: 21 de maio de 
2019], 2013. 
 
Importante destacar que o investimento do Programa por família chega a R$ 276,50, o que 
representa aproximadamente a renda per capita média mensal nos municípios atendidos pelo 
Programa, conforme informação apresentada na tabela X.2. Em alguns municípios, o investimento 
realizado ao longo dos últimos anos alcança mais de cinco vezes a renda per capita média mensal em 
um ano, o que oferece uma dimensão do potencial efeito multiplicador dos recursos do Programa sobre 
o produto interno bruto dessas localidades.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 163 
 
Além disso, os cursos de formação da mão-de-obra para a construção das cisternas, promovidos 
também com recursos do Programa, têm gerado uma nova força de trabalho nessas localidades. São 
agricultores familiares das próprias comunidades que passam por um processo de treinamento teórico 
e prático. Ao longo de todo o período de implementação do Programa, foram pelo menos 20 mil pessoas 
capacitadas para a construção dos equipamentos (Brasil, 2019b). Boa parte deles continua construindo 
cisternas e outra parte importante é incorporada a outros projetos públicos ou privados de construção 
civil, ampliando suas perspectivas de trabalho e complementando a renda da família. 
Destaca-se que a ampliação gradual das ações do Programa, fruto de uma interação dinâmica 
entre o poder público e a sociedade civil, tem resultado ainda na construção de capacidades 
tecnológicas e inovadoras, que se reflete no aperfeiçoamento contínuo e no desenho de novas soluções 
a serem disponibilizadas. Trata-se de um processo bottom-up na essência, visto que as melhorias 
tecnológicas resultam em sua maior parte da prática das organizações locais ou de pesquisas 
desenvolvidas em institutos ou universidades no território. Para se ter uma ideia dessa interação, 
levantamento recente apontava para a existência de pelo menos 60 estudos de avaliação qualitativa ou 
quantitativa do Programa. 
Por fim, diversas pesquisas têm buscado associar sistemas de captação e armazenamento de 
água de chuva, tais como as cisternas e outras tecnologias sociais, aos processos de adaptação climática 
(Kahinda e outros, 2010; Ventura e outros, 2013; Gnadlinger, 2014; Angelotti, Fernandes Jr e Bezerra de 
Sá, 2015; Lindoso e outros, 2018). Nesse contexto, Andrade e outros (2015) apresentam as cisternas, 
tecnologias adaptadas à realidade local, como um elemento de gestão de risco da escassez hídrica e de 
crise de abastecimento, contribuindo de forma inquestionável para a redução da vulnerabilidade social 
e como medida de adaptação às mudanças climáticas. 
Do ponto de vista ambiental, ressalta-se ainda a potencial redução na pressão sobre recursos naturais, 
uma vez que o armazenamento e uso de água de chuva limita a necessidade de captação de outras fontes 
para o abastecimento emergencial. Aqui, mais uma vez, a contraposição da cisterna com o carro pipa é 
importante, uma vez que em tempos de estiagem prolongada, o volume possível de ser armazenado no 
reservatório da cisterna (16 mil litros) reduz a demanda imediata de uso intensivo desse tipo de solução 
(Brasil, 2019a). Ao otimizar o uso da água com a captação da água da chuva, promove-se a redução da 
demanda de água de mananciais superficiais e subterrâneos, fontes a partir das quais o carro pipa distribui 
água, ampliando o capital natural de territórios em estágio avançado de degradação ambiental.  
Ademais, avalia-se que as trocas de experiências entre os beneficiários e seu aprendizado nos 
cursos de capacitação também possuem importante papel para a melhoria da eficiência no uso de 
insumos e recursos naturais no território. Esses cursos são parte do processo de implementação das 
tecnologias, e representam um momento no qual as famílias atendidas refletem sobre estratégias e 
técnicas de manuseio e gestão da água, além de serem orientadas sobre técnicas de produção 
agroecológica (incluindo adubos orgânicos, compostagem e uso de defensivos naturais) e de 
conservação do solo, sobre planejamento integrado da produção e uso das tabelas de consumo de água 
pelas diferentes atividades desenvolvidas, o uso e montagem de tecnologias sociais de produção 
(canteiros econômicos, canteiros elevados, cobertura seca, sombreamento), além da prática de 
irrigação simplificada, sobretudo a partir do uso de gotejamento. 
Não por acaso, em 2017 o Programa foi eleito uma das melhores políticas de combate à 
desertificação do mundo, prêmio concedido pelo Comitê de Combate à Desertificação da ONU, em 
parceria com o World Future Council, no âmbito do Future Policy Award. 
 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 164 
 
Tabela X.3 
Impactos do Programa Cisternas nas dimensões econômica, social e ambiental 
Dimensão Impactos 
Econômica Potencial efeito multiplicador sobre o PIB, possível de ser captado na relação entre o investimento e a renda 
per capita média 
Criação de novos empregos (ampliação no número de pedreiros, sendo 20 mil treinados até o momento, 
técnicos de campo e instrutores de cursos) e ampliação da capacidade de produção de alimentos, 
especialmente por meio da introdução de práticas agroecológicas 
Inovações tecnológicas que são resultado da interação com a sociedade civil, institutos de pesquisas 
e universidades no território 
Social Geração de renda (monetária e não monetária) para os beneficiários, com ampliação de 82% após 
o atendimento com as tecnologias. 
Maior quantidade e diversificação de alimentos produzidos e consumidos 
Melhoria nas condições de saúde, com redução na incidência de doenças, principalmente as de veiculação 
hídrica, sendo de até 69% no caso de mortalidade infantil  
Ampliação da cidadania e da autonomia dos indivíduos, resultado da redução na troca clientelista  
(água por voto) 
Redução no tempo para buscar água em até 90%, especialmente por parte das mulheres,  
que é redirecionado para maior lazer, educação e/ou trabalho. 
Ambiental Melhoria da disponibilidade e qualidade da água, com impacto positivo para adaptação climática 
Melhoria da eficiência no uso da água, com redução de pressão decorrente da captação de outras fontes 
(sobretudo por caminhões pipa) 
Recuperação e melhor gestão da vegetação nativa, de solos e pastagens a partir da limitação do uso de 
defensivos agrícolas e práticas de manejo adequado decorrentes de técnicas agroecológicas de produção 
Fonte: Elaboração própria com base em Paul Gertler e Marco Gonzales Navarro, Avaliação de impacto de cisternas pluviais residenciais no 
semiárido brasileiro, Agencia Espanhola de Cooperación Internacional para el Desarollo – AECID, 2015; Uende Aparecida Figueiredo Gomes e Léo 
Heller, “Acesso à água proporcionado pelo Programa de Formação e Mobilização Social para Convivência com o Semiárido: Um Milhão de 
Cisternas Rurais: combate à seca ou ruptura da vulnerabilidade?”, Engenharia Sanitária Ambiental, vol. 21, Nº 3, 2016; Instituto Nacional do 
Semiárido (INSA), Sistemas agrícolas familiares resilientes a eventos ambientais extremos no contexto do Semiárido brasileiro: alternativas para 
enfrentamento aos processos de desertificação e mudanças climáticas, Campina Grande, 2016; Jacqueline Evangelista Fonseca, “Implantação de 
cisternas para armazenamento de água de chuva e seus impactos na saúde infantil: um estudo de coorte em Berilo e Chapada do Norte”, 
dissertação de mestrado, Belo Horizonte, Programa de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Universidade 
Federal de Minas Gerais, 2012; Emanuella Silva Joventino e outros, “Comportamento da diarreia infantil antes e após consumo de água pluvial 
em município do semiárido Brasileiro”, Texto Contexto Enfermagem, vol. 19, Nº 4, Florianópolis, 2010; Gustavo Bobonis e outros, “Vulnerability 
and clientelism”, NBER Working Paper, Nº 23589, National Bureau of Economic Research, 2019; Brasil, “Sistema de Informações Gerenciais do 
Programa Cisternas” [online], Ministério da Cidadania aplicacoes.mds.gov.br/programaicsternas [data de consulta: 21 de maio de 2019], 2019; 
Lucas Emanuel Silva, “O impacto de cisternas rurais sobre a saúde infantil: uma avaliação do Programa 1 Milhão de Cisternas, 2000-2010”, 
dissertação de mestrado, Recife, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Pernambuco, 2015; Carlos Feitosa Luna, 
“Avaliação do impacto do Programa Um Milhão de Cisternas Rurais (P1MC) na saúde: ocorrência de diarreia no Agreste Central de Pernambuco”, 
tese de doutorado, Recife, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz, 2011. 
 
Destaca-se que, além das evidências e dos impactos mensurados, o Programa também obteve 
reconhecimento institucional em outras esferas. Em 2005, a iniciativa recebeu o Prêmio ODM, organizado 
pelo governo federal, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil) e pelo 
Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade. Em 2006, o Programa foi reconhecido em Prêmio da 
Agência Nacional de Águas, na categoria Uso Racional de Recursos Hídricos. Em 2008, também foi 
concedido o Prêmio Josué de Castro de Boas Práticas em Gestão de Projetos de Segurança Alimentar e 
Nutricional para a Associação Programa Um Milhão de Cisternas, principal parceira do governo federal na 
execução do Programa. No âmbito internacional, o Programa ganhou o Prêmio Sementes 2009, da 
Organização das Nações Unidas (ONU), concedido a projetos de países em desenvolvimento feitos em 
parceria entre organizações não-governamentais, comunidades e governos. Em 2011 o Programa Cisternas 
recebeu o Prêmio Água e Saneamento, patrocinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) 
e pela entidade Fomento Econômico Mexicano (Femsa). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 165 
 
Em 2015 o Programa Cisternas integrou a lista de vencedores do 20º Concurso Inovação na 
Gestão Pública, realizado pela Escola de Administração Pública do Brasil, pela inovação nas regras e nos 
processos para implementação das tecnologias e atendimento de populações em nível extremo de 
vulnerabilidade. Importante destacar também que, para além dessas premiações, o Programa Cisternas 
também foi recentemente mencionado pela FAO/ONU entre os programas sociais de maior 
importância para superação da fome e da pobreza no Brasil, conforme destacado no relatório “O Estado 
da Alimentação e Agricultura 2015” (FAO, 2015). 
Tendo em vista essas múltiplas dimensões do processo de implementação das cisternas, 
observa-se uma relação direta dos impactos observados com o Big Push para a Sustentabilidade. 
Conforme discutido acima e resumido na tabela X.3, os investimentos no Programa resultam direta e 
indiretamente em um ciclo virtuoso de desenvolvimento social e econômico em escala territorial, 
associado ainda à redução na pressão sobre os recursos naturais e à redução de impactos ambientais 
decorrentes da má utilização da água e do solo, principalmente. 
As ações desenvolvidas no âmbito do Programa Cisternas representam hoje um importante 
exemplo de como é possível promover o acesso à água, incidindo direta ou indiretamente sobre outros 
objetivos de desenvolvimento sustentável, sendo estratégia para reduzir a pobreza, alcançar a 
segurança alimentar, promover o bem-estar da população e reforçar a resiliência e capacidade de 
adaptação a riscos relacionados ao clima e combater a desertificação. Além disso, busca-se um diálogo 
próximo com a promoção da recuperação, conservação e preservação do meio ambiente e com a 
garantia de outros direitos difusos e coletivos, em especial a proteção e inclusão de pessoas em situação 
de vulnerabilidade social. 
Conforme demonstram os resultados apresentados, existe uma interação direta com a Agenda 
2030 (ONU, 2015) e boa parte de seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma vez que 
o Programa Cisternas tem contribuído diretamente para o alcance do ODS 6, que aborda a 
disponibilidade e gestão sustentável da água para todos, mas possui incidência também sobre o 
enfrentamento da pobreza em uma perspectiva multidimensional (ODS 1) e das desigualdades 
(ODS 10), sobre o enfrentamento da fome, na perspectiva de alcançar a segurança alimentar e a 
melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável (ODS 2), além de combater as mudanças 
climáticas (ODS 13), reforçando a resiliência e a capacidade de adaptação de populações em situação 
de risco climático. 
C. Relação do caso estudo com o Big Push para a Sustentabilidade 
O caso estudado no presente capítulo pode ser analisado à luz da abordagem cepalina do Big Push para 
a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). Em termos simples, o Big Push para a Sustentabilidade 
representa um arcabouço conceitual para analisar a articulação e coordenação de políticas (públicas, 
corporativas e comunitárias, nacionais, regionais e locais, setoriais, tributárias, regulatórias, fiscais, de 
financiamento, de planejamento, de inovação, de capacitação, etc.) que alavanquem investimentos 
(nacionais e estrangeiros) para produzir um ciclo virtuoso de crescimento econômico, gerador de 
emprego e renda, redutor de desigualdades e de brechas estruturais e promotor da sustentabilidade 
ambiental, social e econômica. No presente estudo, fica nítido que os recursos alocados ao Programa 
Cisternas foram efetivos em difundir essa tecnologia social, gerando um ciclo virtuoso de resultados 
socioeconômicos e ambientais positivos na região do semiárido brasileiro. 
A abordagem do Big Push se orienta por três eficiências. A primeira é a eficiência schumpeteriana, 
segundo a qual uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera 
externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. 
O caso estudado demonstra uma clara articulação com a eficiência schumpeteriana ao se basear em 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 166 
 
uma inovação desenvolvida a partir de tecnologias sociais, as cisternas. Todo ou a maior parte do capital 
gerado decorre de aprendizados ou inovações desenvolvidas em nível comunitário ou pela sociedade 
civil, em interação constante com o setor público. O Programa se baseia fortemente na construção de 
capacidades tecnológicas, inovativas, produtivas e humanas, o que simboliza sua contribuição para um 
estilo de desenvolvimento intensivo em aprendizado e conhecimentos.  
A segunda é a eficiência keynesiana, que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo 
da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. O Programa Cisternas é um 
exemplo típico de eficiência keynesiana, na medida em que a população e o Estado identificaram um 
investimento sustentável com grande potencial de benefício público a um custo relativamente baixo e, 
assim, o Estado criou políticas que gerassem demanda por esses investimentos, particularmente 
investimentos diretamente financiados e aplicados à escala com financiamento público. Ou seja, o 
Estado teve o papel fundamental de criar a demanda através do Programa Cisternas, de forma que os 
investimentos associados à implementação das tecnologias viabilizaram a expansão de um conjunto de 
serviços, com impacto direto e indireto no desenvolvimento econômico local, o que não teria ocorrido 
na sua ausência. Esse caso destaca a centralidade do papel do Estado com respeito à eficiência 
keynesiana, particularmente no contexto de investimentos sustentáveis cuja demanda não ocorre 
espontaneamente no mercado. 
Por fim, a terceira e última eficiência é a da sustentabilidade, que diz respeito à eficiência no 
marco do clássico tripé do desenvolvimento sustentável (social, econômico e ambiental). A tabela X.3 
resume os impactos do Programa Cisternas nessas três dimensões. 
A análise do caso estudo permite concluir que o Programa Cisternas é um exemplo de um Big Push para 
a Sustentabilidade no seminárido brasileiro, pois os investimentos sustentáveis promovidos pelo Programa 
efetivamente contribuíram para transformar o estilo de desenvolvimento local rumo à sustentabilidade. 
D. Considerações finais 
O Programa Cisternas se consolidou ao longo dos últimos anos como uma das principais políticas públicas 
para o desenvolvimento rural sustentável no Brasil, com impactos sociais, econômicos e ambientais que 
vão muito além de seu objetivo central de garantir o acesso à água para população rural de baixa renda. 
O entendimento de seu alcance proporciona lições importantes para casos de aplicação da abordagem do 
Big Push para a Sustentabilidade, uma vez que essa intervenção tem sido capaz de articular um conjunto 
de políticas voltadas a populações vulneráveis no Brasil, mobilizando investimentos significativos para 
promover mobilização e aprendizado sociais, além de impulsos significativos para o desenvolvimento 
socioeconômico e para a capacidade de adaptação climática em nível local. 
Apesar de estar inserida no âmbito da estratégia brasileira para superação da pobreza e da 
extrema pobreza no meio rural, o Programa Cisternas tem sido o fio condutor de um processo de 
inclusão social e produtiva rural, que passa por políticas de transferência de renda, a exemplo do Bolsa 
Família, e envolve ainda crédito subsidiado e recursos não reembolsáveis para o fomento produtivo, 
assistência técnica, além de mecanismos para compra de produtos da agricultura familiar, 
potencializados a partir do Programa de Aquisição de Alimentos. 
Em regiões com elevado estresse hídrico, como é o caso do semiárido brasileiro, a articulação 
dessas políticas em torno do Programa Cisternas se torna ainda mais relevante, tendo em vista que a 
inclusão produtiva no meio rural, em geral, exige o acesso adequado à água em quantidade e qualidade 
suficientes para o desenvolvimento de atividades econômicas. Essa integração de políticas públicas para 
a superação da pobreza foi conduzida inicialmente no âmbito do Plano Brasil Sem Miséria, e de certa 
forma permanece como eixo condutor das políticas sociais para o campo no Brasil nos últimos anos. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 167 
 
Ao mesmo tempo em que o semiárido tem se deparado ano após ano com os efeitos da crise 
climática, a disponibilidade de água viabilizada a partir do Programa tem sido capaz de manter a 
resiliência das pulações rurais beneficiadas, ou mesmo desenvolver novas práticas agrícolas adequadas 
ao semiárido e à realidade das próprias famílias, sendo fundamental para aliviar a pobreza e garantir a 
segurança alimentar.  
A disseminação das tecnologias sociais apoiadas no âmbito do Programa Cisternas gerou 
oportunidades de se pensar em um modelo mais inclusivo de desenvolvimento social, ao envolver os 
beneficiários em praticamente todas as etapas de implementação e gerar resultados significativos em 
diversos aspectos sociais, econômicos e ambientais. Além disso, a atuação governamental tem se dado 
em um contexto de ampla parceria com a sociedade civil, parceria essa institucionalizada no modelo de 
execução da política, o que constitui um dos elementos de maior importância para os resultados 
alcançados. Assim, 0 Programa Cisternas busca romper com assimetrias tecnológicas e brechas 
socioeconômicas estruturais, desde a redução da desigualdade de renda (monetária e não monetária) e 
de acesso à infraestrutura hídrica entre o campo e a cidade e entre regiões até a diminuição da 
vulnerabilidade à crescente escassez de água devido ao aquecimento global e a uma gestão mais 
eficiente e equitativa dos recursos hídricos.Com isso, a atuação do Estado brasileiro no enfrentamento 
da pobreza e das desigualdades, na garantia da saúde e da segurança alimentar, na promoção da 
cidadania e nos processos de adaptação climática, em especial no meio rural, encontra no Programa 
Cisternas um dos mecanismos mais efetivos.  
No entanto, o contexto de restrição fiscal do Estado brasileiro tem colocado barreiras para a 
continuidade do processo de expansão da ação tanto no semiárido como em outras regiões vulneráveis. 
A enorme demanda potencial ainda existente, sendo apenas no semiárido estimada atualmente em 600 
mil famílias (Brasil, 2019a), e os impactos e resultados já mensurados, constituem elementos 
importantes para viabilizar uma coordenação mais ampla de atores públicos e privados, em um esforço 
para ampliar os investimentos e consolidar essa política como parte de um processo de mudança 
estrutural rumo a um estilo de desenvolvimento sustentável no meio rural brasileiro. 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 171 
XI. Programa de Restauração Ambiental da Suzano: 
lições aprendidas para investimentos em recuperação  
de pastagens degradadas no Brasil 
Sarita Severien* 
Tathiane Sarcinelli* 
Yugo Matsuda* 
Resumo 
O presente estudo de caso tem por objetivo analisar as diversas ações que vêm sendo realizadas pela 
Suzano no âmbito do Programa de Restauração Ambiental à luz da abordagem teórica do Big Push para 
a Sustentabilidade desenvolvida pela CEPAL. Líder mundial na produção de celulose de eucalipto e líder 
da América Latina no mercado de papel, a Suzano apresenta uma das estratégias de conservação da 
biodiversidade e de restauração ambiental de maior envergadura do Brasil, consolidando uma cadeia 
produtiva inovadora, com transferência de conhecimento e geração de renda para parceiros e 
comunidades locais. A empresa detém 925 mil hectares de áreas protegidas, que correspondem a 37% 
de sua área total. Com o emprego de técnicas e metodologias customizadas, em 10 anos, 10,7 milhões 
de mudas nativas foram plantadas, em 37.000 hectares de áreas degradadas, em três biomas brasileiros: 
Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado. Atualmente, a cada dois minutos a Suzano planta uma nova árvore 
nativa. Além de antecipar-se aos compromissos assumidos com órgãos ambientais, as ações 
potencializam a geração de serviços ecossistêmicos fundamentais para o bom desempenho dos nossos 
cultivos de eucalipto, para as comunidades no entorno, o meio ambiente e a sociedade como um todo.  
  
                                                                      
*  Suzano. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 172 
 
A. Introdução 
Em um cenário marcado pela crise climática e pelo risco inerente de esgotamento de recursos naturais 
vitais, as iniciativas para reverter os danos ambientais são uma prioridade na agenda social e ambiental 
da Suzano. Alinhada à Agenda 2030 da ONU (ONU, 2015), ao Acordo de Paris (CQNUMC, 2015) e à 
Contribuição Nacionalmente Determinada do Brasil (que prevê redução de 37% das emissões de gases 
de efeito estufa até 2025, em relação aos níveis de 2005; Brasil, 2015), a Suzano estruturou uma 
estratégia ampla e de complexidade pioneira para conservar e recuperar áreas florestais, incluindo 
iniciativas para proteger as áreas de mata nativa, combater o desmatamento ilegal, recompor a 
vegetação, monitorar a biodiversidade e compartilhar benefícios com as comunidades locais. Os 
benefícios gerados pelo Programa de Restauração Ambiental contemplam alvos específicos dos 
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), conforme se discute na Seção C. 
O modelo produtivo da Suzano é essencialmente pautado no equilíbrio do ecossistema e dos 
serviços por ele prestados, o que garante a manutenção dos ciclos produtivos e a não exaustão dos 
recursos naturais, provendo uma matéria prima renovável, de qualidade, por mais de décadas. O atual 
Programa de Restauração Ambiental da Suzano foi estruturado a partir de 2010 e se alicerça em dois 
grandes objetivos gerais: i. A recuperação, aumento, conexão e maior resiliência dos ativos naturais que 
detemos e ii. A replicabilidade e inovação. 
O primeiro objetivo diz respeito à estratégia de restauração da Suzano, que está pautada em 
potencializar os ganhos ambientais a partir da restauração. Nesse sentido, as ações se desdobram nos 
seguintes objetivos específicos: regenerar ou recuperar áreas degradadas para aumento da biodiversidade 
local (fauna e flora); propiciar a conexão de contínuos ou fragmentos naturais já existentes (corredores 
ecológicos na paisagem); promover o fluxo gênico de espécies de fauna e flora; proteger os solos e nascentes 
de água; potencializar a capacidade de resiliência e equilíbrio ecossistêmico contra pragas e doenças no 
mosaico de florestas plantadas de eucalipto e áreas naturais; aumentar significativamente o sequestro de 
gases do efeito estufa (GEE). Como consequência do alcance desses objetivos específicos, a Suzano tem a 
convicção de que seu Programa de Restauração Ambiental contribui significativamente para o aumento da 
capacidade de resposta aos desafios ambientais. 
O segundo objetivo, a replicabilidade e inovação, parte do propósito da Suzano de desenvolver 
soluções boas para si e para o mundo, concomitantemente. Nesse sentido, a Suzano, através do seu 
Programa de Restauração Ambiental, visa inovar, replicar e compartilhar suas boas práticas buscando 
atingir os seguintes objetivos específicos: priorizar as relações e parcerias em sua cadeia de restauração 
com atores comunitários e pequenos, médios e grandes parceiros operacionais (desde o viveiro onde se 
compra mudas nativas, até a mão de obra do campo); compartilhar e aprender com Organizações Não-
Governamentais (ONGs), governos em diversos níveis, organizações privadas e partes interessadas 
regionais; disseminar o conhecimento produzido através das ações em fóruns e publicações, de maneira 
a possibilitar a replicação e difusão do modelo de ação. Essa maneira de atuar dialoga diretamente com 
benefícios no tripé da sustentabilidade (social, econômica e ambiental) ao produzir um ciclo virtuoso de 
investimentos sustentáveis, conforme proposto na abordagem cepalina do Big Push para a 
Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019), relação que exploraremos ao longo deste estudo (Seção C). 
As diferentes técnicas de restauração (Quadro XI.1) adotadas pela Suzano fazem parte de um 
processo que requer constantes pesquisas e parcerias com especialistas e fornecedores especializados 
a fim de avaliar e aprimorar a eficiência das metodologias empregadas. Coordenar os esforços e 
investimentos sustentáveis com outros agentes, bem como gerar e disseminar conhecimentos e 
tecnologias que impulsionam os retornos sociais, econômicos e ambientais desses investimentos são 
aspectos chave do Programa de Restauração Ambiental que se se alinham com a abordagem do 
Big Push para a Sustentabilidade. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 173 
 
Quadro XI.1 
Técnicas aplicadas à restauração 
A Suzano utiliza diferentes técnicas no processo de restauração ambiental e uma delas é o plantio manual de 
mudas em áreas categorizadas com baixa cobertura vegetal, onde a regeneração natural é insatisfatória. Geralmente, 
são utilizadas mudas de espécies com alta taxa de sobrevivência, crescimento rápido e boa cobertura de copa, 
proporcionando o rápido fechamento da área plantada. Outra técnica empregada é a condução da regeneração 
natural, com a realização de atividades de restauração como capinas e controle de formiga em locais onde a sucessão 
ecológica já está acontecendo. São áreas que já contam com um número suficiente de espécies nativas da flora, 
incluindo uma quantidade satisfatória de espécies categorizadas como regenerantes que auxiliam no processo de 
enriquecimento e proteção para as espécies mais sensíveis. A empresa realiza, ainda, o controle de espécies exóticas 
e invasoras em áreas naturais com invasão biológica, controlando a dispersão de árvores que não são nativas da região 
e se comportam como invasoras, comprometendo a biodiversidade regional. Por fim, também é utilizada a prática de 
isolamento, técnica que consiste na restauração por meio da sucessão ecológica, sem necessidade de emprego de 
métodos de condução da regeneração, mas investindo na eliminação de fatores de degradação como o fogo e o 
pisoteio de animais (equinos e bovinos) de áreas vizinhas. 
 
Fonte: Suzano. 
 
Esse estudo tem por objetivo analisar o modelo de restauração ambiental especializada 
desenvolvido pela Suzano no território nacional, de acordo com premissas estabelecidas, enquanto um 
modelo de negócios que promove investimentos coordenados em ações que geram impactos positivos 
nas três esferas da sustentabilidade: social, econômica e ambiental. Ao longo do estudo, são 
apresentadas as ações desenvolvidas no Programa de Restauração Ambiental da Suzano, discutindo 
como cada uma dessas ações é pensada para produzir impactos positivos replicáveis com estratégia e 
respeito a cada um dos contextos sociais e ambientais onde há atuação. As iniciativas relatadas neste 
estudo são ilustrativas de um modelo de negócios que pode agregar valor ao rico capital natural do país 
sem gerar esgotamento de seus recursos, contribuindo para um estilo de desenvolvimento capaz de 
manter e recuper a base de capital florestal. 
Ao analisar o Programa de Restauração da Suzano à luz do Big Push para a Sustentabilidade, 
desenvolvido pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) das Nações Unidas 
enquanto eixo ordenador rumo a um estilo de desenvolvimento sustentável, buscamos enfatizar como 
o conjunto dos investimentos realizados podem, de forma coordenada, impulsionar um ciclo virtuoso 
de crescimento econômico, geração de empregos, desenvolvimento de cadeias produtivas, diminuição 
da pegada ambiental e dos impactos ambientais, concomitantemente à recuperação da capacidade 
produtiva do capital natural (CEPAL/FES, 2019). As informações e os dados relatados neste estudo 
provêm principalmente da empresa Suzano.  
B. Estruturação de investimentos no âmbito da estratégia de conservação 
e do Programa de Restauração Ambiental da Suzano  
Realizado em três biomas brasileiros (Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado), o Programa de Restauração 
Ambiental da Suzano investiu aproximadamente R$ 36 milhões para recuperar mais de 1.500 hectares 
em 2019. Em dez anos, mais de 11 milhões de mudas nativas foram plantadas, contribuindo para a 
manutenção da biodiversidade, preservação de nascentes e da qualidade dos ciclos naturais. Um dos 
principais objetivos do programa é regenerar áreas degradadas, recuperando o ecossistema local. 
Alinhadas às metas da Agenda 2030 (ONU, 2015) e do Acordo de Paris (CQNUMC, 2015), a Suzano S.A. 
almeja a conservação de importantes habitats, proporcionando aumento da cobertura vegetal e da 
biodiversidade, proteção dos solos e de nascentes e o aumento do sequestro e estoque de GEE. 
Alinhado à ideia da sustentabilidade enquanto uma frente social e econômica, não apenas ambiental, 
construímos o programa de forma que uma frente importante fosse o desenvolvimento de iniciativas 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 174 
 
com comunidades rurais vulneráveis para a produção de mudas nativas e de educação ambiental para 
restauração de nascentes em comunidades vizinhas.  
A estratégia de conduta socioambiental está inserida em seus modelos de negócios e, entre 
outras contribuições, ajuda a combater os efeitos das mudanças climáticas por meio do plantio de 
eucalipto e da preservação de áreas de mata nativa, que potencializam o sequestro e estoque de 
carbono. Atualmente, a Suzano conta com 925,6 mil hectares de áreas destinadas à conservação, 
atingindo a marca expressiva de mais de 37% de sua área total voltada para esse fim (Suzano, 2019). 
Além disso, o sistema de plantio, em mosaicos —que intercala as áreas naturais com plantios de 
eucalipto—, viabiliza a manutenção e o desenvolvimento de espécies da fauna e da flora por meio de 
corredores ecológicos e promove a qualidade e manutenção dos ciclos naturais. 
O programa de restauração da Suzano leva em conta algumas premissas e diretrizes que guiam 
suas ações, visando a conservação ambiental aliada à responsabilidade social e à eficiência econômica. 
São elas: i. métodos customizados para cada região do Brasil; ii. gestão eficiente, que contempla 
planejamento, execução, acompanhamento, monitoramento e adequações, e parcerias; iii. capacidade 
de replicabilidade a partes interessadas ou realidades distintas; e iv. processos inovadores em 
financiamento, gestão e conhecimento, com uso de tecnologias avançadas. Essas premissas, descritas 
em maior detalhe a seguir, norteiam os investimentos realizados.  
1. Métodos customizados 
Investimentos em métodos customizados de restauração podem, de forma coordenada, gerar maior 
eficiência e retornos econômicos, sociais e ambientais positivos e representar, para além de um 
compromisso de responsabilidade social e ambiental da empresa, também uma estratégia de negócios 
que lhe permita usufruir dos recursos naturais de maneira que não se esgotem, garantindo a 
sustentabilidade de sua atividade produtiva a longo prazo. Cada localidade do Brasil, a depender do 
bioma presente nas áreas de atuação do programa (Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado), recebe uma 
abordagem customizada dentro do Programa de Restauração Ambiental e da estratégia de 
conservação da empresa. A elaboração da abordagem leva em conta o tipo de solo, clima e terreno, 
bem como as externalidades de cada localidade. Essas externalidades são analisadas de acordo com 
uma série de fatores que culminam em manejos diferenciados e específicos para cada localidade. 
A seguir, apresentam-se alguns exemplos que ilustram esses métodos customizados. 
a) Consórcio eucalipto e espécies nativas para recuperação ambiental 
A Suzano está sempre buscando modelos alternativos de restauração florestal que possam ser 
replicados e fomentados por outros proprietários rurais, uma vez que os elevados custos da restauração 
florestal podem desestimular e até inviabilizar investimentos por produtores rurais que buscam 
recuperar suas áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (RL). Como parte da iniciativa 
de buscar tornar restauração ambiental um investimento sustentável e atrativo, apresenta-se, por 
exemplo, o modelo de plantios consorciados de espécies arbóreas nativas intercaladas com eucalipto 
em áreas de Reserva Legal. Segundo o Código Florestal Brasileiro1, é permitido que sejam utilizadas 
espécies exóticas em, no máximo, 50% da área de RL a ser recuperada.  
Além de benefícios como geração de serviços ambientais, capacidade de replicação, estoque de 
carbono, produção de madeira e geração de receita, estima-se que esse modelo permita uma redução 
de 55% do custo da implantação e manutenção em comparação a plantios puros de restauração. Esse 
modelo de restauração pode ser facilmente replicado por produtores e proprietários e se apresenta para 
esses agentes como um modelo de investimento atrativo, pois ao mesmo tempo em que reparar danos 
                                                                      
1  Lei Federal Nº 12.651/2012. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 175 
 
ambientais, oferece um investimento com retorno econômico e custos reduzidos, mitigando um dos 
principais obstáculos que se apresentam ao objetivo de restauração ambiental. 
A Suzano foi pioneira no estado do Espírito Santo na apresentação de plano de manejo para a 
realização dos plantios consorciados com eucalipto, e vem divulgando a prática mediante 
apresentações em congressos, workshops e outros eventos, tais como visitas de clientes, ONGs, 
universidades e outras partes interessadas. 
b) Fortalecimento da polinização natural 
A polinização é um dos grandes e complexos processos naturais que fortalecem e multiplicam o poder 
da restauração. Nesse sentido, a Suzano desenvolve junto com comunidades locais o Programa Colmeias, 
que fortalece a atividade apícola nos estados de São Paulo, de Mato Grosso do Sul, do Espírito Santo e da 
Bahia. Com o investimento que fomenta essa iniciativa, além do benefício de polinização, gera-se emprego 
e renda a partir do aperfeiçoamento da cadeia produtiva do mel de eucalipto e de mata nativa. O programa 
oferece apoio à implementação de novas tecnologias e à construção de capacidades em noções estratégicas 
sobre manejo, gestão e comercialização do produto, proporcionando o fomento e a valorização da atividade. 
O projeto se iniciou quando florestas nativas recuperadas pela empresa começaram a fornecer uma 
abundância significativa de néctar, abrindo caminho para a polinização por abelhas. Assim, desde 2013, 
como resultado, pequenos produtores de mel ampliaram os investimentos no cultivo de abelhas. Já em 2019, 
foram beneficiados mais de 1.000 produtores de 42 associações de apicultores. A produção de mel nas áreas 
da empresa em 2018 foi de 296 toneladas, aproximadamente 24,7 quilos de mel por colmeia. O volume de 
vendas gerado no período de 2018 foi de R$ 13.766.822. 
c) Áreas de alto valor de conservação como fonte de diversidade genética, propágulos  
e matrizes 
As áreas de alto valor de conservação são fundamentais para o sucesso da estratégia de 
restauração da Suzano. Com mais de 40 mil hectares nas 50 Áreas de Alto Valor de Conservação (AAVC) 
estabelecidas dentro de suas áreas, as AAVC são áreas com remanescentes nativos, ecossistemas, 
fauna e flora raros ou ameaçados de extinção e áreas de especial valor para populações locais com 
identidade cultural e tradicional. As AAVC são estabelecidas segundo critérios definidos pelo Forest 
Stewardship Council (FSC, 2015) e, para a identificação dessas áreas, a empresa realiza consultas às 
comunidades locais e às partes interessadas e leva em consideração os resultados dos estudos 
ambientais realizados periodicamente. Até o momento, o monitoramento de fauna e flora detectou 
1.984 espécies de plantas, 68 espécies de aves e 78 espécies de mamíferos nas 50 AAVC e demais áreas 
de conservação da Suzano, dentre elas, 6 Reservas do Patrimônio Natural (RPPN). Nesses 
monitoramentos, foram detectados uma série de espécies com alto grau de ameaça, sendo 20 espécies 
de plantas, 39 de aves e 24 de mamíferos, além da identificação inédita de fauna em regiões antes nunca 
avistadas e o descobrimento de novas espécies de flora. Essa ação está alinhada com a metas 1 e 3 do 
ODS 15 (ONU, 2015), respectivamente, 15.1 Até 2020, assegurar a conservação, recuperação e uso 
sustentável de ecossistemas terrestres e de água doce interiores e seus serviços, em especial florestas, 
zonas úmidas, montanhas e terras áridas, em conformidade com as obrigações decorrentes dos acordos 
internacionais e 15.3 Até 2030, combater a desertificação, restaurar a terra e o solo degradado, incluindo 
terrenos afetados pela desertificação, secas e inundações, e lutar para alcançar um mundo neutro em 
termos de degradação do solo. 
Toda essa diversidade e riqueza, confere às áreas de restauração um ecossistema local com 
multiplicidade genética e estabilidade (menor grau de distúrbio) que contribui em alto grau para o 
desenvolvimento de novas áreas de restauração recém implantadas. Não obstante, são áreas com 
potencial de fornecimento de sementes com diversidade genética para produção de mudas nativas, que 
ajudam a enriquecer as áreas em restauração. Faz-se importante destacar que toda essa diversidade 
beneficia também os cultivos de eucalipto planejados em mosaico nas bacias hidrográficas, visto que 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 176 
 
abrigam pragas, e fornecem recursos e serviços ecossistêmicos indispensáveis para a manutenção e 
produtividade dos cultivos. Nesse sentido, para o pleno desenvolvimento da restauração com nativas e 
a existência do cultivo de eucalipto, as AAVCs exercem papel fundamental para o desenvolvimento do 
ativo ambiental recém implantado e das florestas plantadas de eucalipto. 
d) Nascentes d’água e seu valor socioambiental 
Um solo degradado e sem cobertura vegetal se torna praticamente impermeável e propenso à erosão 
(Martins e outros, 2003). Durante as épocas de chuvas intensas, é frequente a ocorrência de inundações, que 
escoam a água diretamente para os rios, deixando de abastecer os lençóis freáticos. Esse escoamento 
superficial é responsável por carregar uma grande quantidade de sedimentos para os corpos d’água 
(lixiviação), deixando-os mais propensos a transbordar, e prejudicando também a fertilidade do solo (ibid.). 
Com a restauração, as árvores passam a interceptar parte das chuvas por suas copas e tronco, 
reduzindo o impacto do escoamento de água no solo e proporcionando uma maior infiltração de água 
(ibid). Essa redução de danos ocorre principalmente pela existência de raízes e da porosidade do solo, 
que permitem o abastecimento do lençol freático, mantendo o nível dos rios mais estáveis durante as 
estações secas, e garantindo uma regularidade no fornecimento de água, tanto para os cultivos da 
Suzano como para todas as comunidades que vivem à jusante de nossas operações. 
Com isso, a recuperação de áreas degradadas não deve deter em seu planejamento somente 
ações técnicas de cunho ambiental. Ao desenvolver uma iniciativa e estratégia de restauração 
customizada para cada localidade, é imprescindível considerar as questões sociais e econômicas 
pertinentes ao seu contexto. O esforço pela conservação deve considerar necessariamente a atuação 
social para que possam ser alcançados impactos positivos sobre o tripé da sustentabilidade (social, 
econômica e ambiental) fornecer o impulso rumo a um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável.  
Ainda, com a ocorrência de eventos extremos, tais como o El Niño, a escassez de água passou a ser 
realidade em muitas localidades brasileiras (Marengo, 2008), inclusive naquelas de atuação da Suzano. 
Focados especificamente nessas duas vertentes (água e sociedade) para a promoção da conservação e 
restauração, inicia-se em 2017, o projeto Nascentes do Mucuri como elemento fundamental para 
sustentação do Programa de Restauração da Suzano. O projeto conta com o apoio de ONGs, órgãos de 
governo, setor privado, pessoas físicas e parceiros (institucionais e financeiros), dentre eles The Nature 
Conservancy (TNC), Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (MG), Banco ABN-AMRO, Casa do 
Estudante, Casa da Floresta, Instituto Ecofuturo, Sonoco, APA Alto do Mucuri e Instituto Terra, com o 
objetivo de recuperar e estimular a preservação de nascentes da Bacia do Rio Mucuri.  
A região foi escolhida para esta iniciativa por possuir vegetação remanescente da Mata Atlântica, 
um dos biomas mais biodiversos e um dos mais ameaçados do planeta (ICMBio, 2017), e abrigar um 
ativo do qual diversas comunidades e atividades econômicas locais dependem. O rio nasce no nordeste 
de Minas Gerais e deságua no sul da Bahia, percorrendo 446 km em uma área com cerca de 15.400 km² 
e 537 mil habitantes (CEMIG, 2018). Nos últimos anos, a região vem sofrendo com a redução da vazão 
do rio, resultado do desmatamento e da consequente degradação dos recursos hídricos e naturais, com 
assoreamento de brejos, das nascentes, dos cursos d’água e perda de vegetação (Martins e outros, 
2003). A seca atingiu a região de forma rápida e comprometeu o abastecimento de água para a 
população, impactando diretamente na renda de produtores de gado e pescadores locais. 
A partir desse cenário, a iniciativa Nascentes do Mucuri visa promover esforços em educação 
ambiental e qualificação dos produtores locais para consolidação de uma cultura de preservação, 
fomentando o desenho e a consolidação de políticas públicas e parcerias estratégicas para estímulo de 
toda a cadeia envolvida no processo, além da restauração propriamente dita de cerca de 
2500 nascentes. As ações carregam grande impacto socioambiental e são desenvolvidas em Minas 
Gerais, nas cidades de Poté, Ladainha e Malacacheta —onde está localizada a maioria das nascentes— 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 177 
 
e no extremo sul da Bahia, na cidade de Mucuri, onde ocorre o encontro do rio com o mar. Até o 
momento, o projeto iniciou o processo de restauração em mais de 400 nascentes, ultrapassando a 
marca de 50 mil mudas plantadas e mobilizando mais de 11 mil pessoas, envolvendo comunidades, 
produtores rurais, escolas e colaboradores da empresa. 
Todo o movimento social promovido por esta iniciativa é de extrema importância para a Suzano, 
uma vez que parte de suas operações estão localizadas na referida bacia, para a sociedade, que se 
capacita e se mobiliza para apresentar maior e melhor produtividade com baixo impacto ambiental, e 
para a biodiversidade local, uma vez que se reduz a pressão por degradação dos remanescentes de 
vegetação ou aqueles implantados por restauração de áreas degradadas. 
2. Gestão eficiente e parcerias 
A empresa também se guia pelas premissas de gestão eficiente e parcerias para realização de 
investimentos sustentáveis. Para assegurar uma gestão cuidadosa e eficiente, a empresa utiliza 
diferentes abordagens para os processos de conservação e restauração. A Suzano participa de uma 
iniciativa denominada Mosaicos Florestais Sustentáveis (IMFS), liderada pelo Diálogo Florestal (2019), 
que procura integrar o planejamento e a implantação de atividades de uso do solo e de conservação em 
conjunto com ONGs e outras empresas do setor. Visa ainda inserir elementos de conservação nos 
programas de fomento florestal (incentivos, crédito e assistência técnica privados para apoio à 
silvicultura realizada por outros proprietários rurais). Partindo das ações que já vêm sendo implantadas 
pelas empresas e pelas organizações, constantemente debatidas e aperfeiçoadas, por exemplo, no 
Fórum Florestal do Sul e Extremo Sul da Bahia (instância local do Diálogo Florestal), a IMFS visa 
incrementar a efetividade dos esforços de conservação da biodiversidade nos mosaicos florestais que 
combinam remanescentes nativos e florestas plantadas. 
No que concerne ao Programa de Restauração, a IMFS determinou áreas prioritárias para atuação do 
programa, de modo a formar conexões entre importantes áreas naturais, como Unidades de Conservação e 
fragmentos florestais grandes e bem preservados. As áreas a serem recuperadas são avaliadas em uma etapa 
de diagnóstico, que inclui a análise de imagens aéreas e campanhas de campo. Com base nesse laudo de 
caracterização, identificamos o nível atual de degradação e as condições necessárias para a recuperação de 
cada área, informações que subsidiam o planejamento das atividades de recuperação. 
Práticas de manutenção são realizadas periodicamente de acordo com uma série de indicadores-
chave de desempenho (KPIs da sigla em inglês) consolidados e análises frequentes para monitorar a 
qualidade do programa e consequentes necessidades de manejo para correção ou manutenção do 
desenvolvimento pós implantação. A execução do trabalho envolve prestadores de serviços 
contratados pela Suzano e equipes de técnicos e supervisores de campo da própria empresa, que usam 
tecnologias tais como drones e aplicativos de navegação para o planejamento das metodologias de 
restauração e o monitoramento das áreas, determinando a intervenção necessária para cada local. As 
boas práticas implementadas e os conhecimentos gerados são amplamente compartilhados com 
stakeholders da cadeia de restauração, como comunidades locais, ONGs e universidades.  
Todas as áreas de conservação, incluindo aquelas em processo de restauração, são monitoradas 
para mensurar a proteção contra ameaças, como monitoramento de espécies invasoras, riscos de 
incêndios e pragas. Além de manter áreas de preservação previstas em lei, a Suzano voluntariamente 
conservou áreas nas quais pôde reconhecer atributos socioambientais importantes, tais como 
biodiversidade (ocorrência de espécies ameaçadas, raras e endêmicas, etc.), extensão de fragmentos 
de floresta bem conservados e de ecossistemas raros e/ou ameaçados, prestação de serviços ambientais 
(como conservação de água e controle de erosão), entre outros. A Suzano reconhece, ao fim de 2018, 
69 AAVCs, que abrangem um território de 62.864 hectares (Suzano, 2019). Também promovemos 
periodicamente monitoramentos de fauna e flora nas AAVCs (ver seção 1c), como forma de se verificar 
a manutenção dos atributos presentes que cooperam com as áreas em restauração adjacentes, 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 178 
 
utilizando basicamente duas modalidades: avaliação ecológica rápida e campanhas completas de 
identificação de espécies, realizada por especialistas. 
Com o Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal e o Laboratório de Silvicultura Tropical, 
ambos da Universidade de São Paulo, situados em Piracicaba (SP), a empresa estabeleceu parceria 
técnica desde o início de seu Programa de Restauração, na década de 1990, procurando aprimorar os 
métodos, a consultoria na seleção de espécies e outras questões. 
O trabalho conjunto com outras entidades, ONGs, Diálogo Florestal e Universidades são parte 
essencial desse processo. Com estas parcerias, novas metodologias para restauração, proteção, 
conservação e monitoramento são criadas, analisadas e testadas visando melhorar a eficiência, reduzir 
impactos, gerar novas oportunidades de trabalho e compartilhar conhecimentos. Os conhecimentos 
produzidos por essas parcerias e investimentos aumentam a produtividade dos programas de 
restauração, com potencial de derramamento (spill overs) do conhecimento e das externalidades 
associadas a essas inovações para outros atores nacionais e internacionais em programas de 
restauração ambiental, acelerando processos de recuperação de habitats e reduzindo emissões de GEE. 
A assinatura, em 2009, do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que prevê a recuperação de 
15 milhões de hectares de florestas no país até 2050, é outro exemplo da disposição da Suzano de 
estabelecer parcerias sólidas. Mais de cem instituições e empresas fazem parte dessa iniciativa, que visa 
articular instituições públicas e privadas, governos, empresas, comunidade científica e proprietários de 
terras para integrar seus esforços e recursos na restauração e contribuir para a restauração de uma 
parcela importante da cobertura vegetal nativa. 
Com a adesão ao Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, a Suzano colocou em prática um teste 
de campo em uma área de 11,3 hectares de sua propriedade, em Aracruz (Espírito Santo – ES), na qual 
40 espécies nativas da Mata Atlântica e eucalipto foram plantados em junho de 2011. Esse experimento 
busca desenvolver e testar oito modelos de plantios com espécies nativas, inclusive o uso de eucalipto como 
espécie pioneira para garantia do rendimento econômico em áreas de Reserva Legal (RL) e zonas com baixo 
potencial agrícola no norte do ES e sul da Bahia. A iniciativa contribui para a meta 5 do ODS 9 (ONU, 2015), 
que visa fortalecer a pesquisa científica, melhorar as capacidades tecnológicas de setores industriais em 
todos os países, particularmente os países em desenvolvimento, até 2030, incentivando a inovação e 
aumentando substancialmente o número de trabalhadores de pesquisa e desenvolvimento por milhão de 
pessoas e os gastos público e privado em pesquisa e desenvolvimento. 
A empresa realiza parceria também com a The Nature Conservancy —TNC. Com duração de 
12 anos, a iniciativa consiste na implementação de monitoramento ecológico nas áreas de restauração. 
Tal parceria já fornece amplo banco de dados para a análise da eficiência dos métodos e das técnicas de 
restauração e para o intercâmbio de tecnologia2. 
Parceria também fundamental para a promoção do desenvolvimento territorial regional são 
iniciativas com comunidades rurais vulneráveis, para a produção de mudas nativas utilizadas no 
programa, e a realização de atividades operacionais para implantação e manutenção de áreas de 
restauração. As mudas são adquiridas de viveiros comerciais e comunitários, como, por exemplo, o 
viveiro social Meninos da Terra, em Linhares (ES) e viveiro comunitário do programa Arboretum, 
localização na Floresta Nacional do Rio Preto. 
                                                                      
2  Após dois anos de trabalho, em 2018 a TNC finalizou o projeto “Probio – incorporando a sustentabilidade ambiental na cadeia 
produtiva da celulose no Espírito Santo: floresta renovável aliada à conservação da biodiversidade”, em parceria com o Fundo 
Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e a Suzano. O projeto trouxe diversas contribuições para o estado do Espírito Santo, entre 
elas o apoio à publicação do Atlas da Mata Atlântica, trazendo uma análise completa da cobertura florestal do estado e o 
aprimoramento do Portal Reflorestar. Também contribuiu para um rico estudo econômico sobre impactos do programa Reflorestar 
no estado e um estudo de mercado sobre espécies florestais nativas da Mata Atlântica no estado do Espírito Santo (TNC, s/d). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 179 
 
3. Capacidade de replicabilidade 
Outra premissa que norteia as ações da Suzano é construir capacidades que permitam a replicabilidade 
de boas práticas sustentáveis. A implantação de ações específicas voltadas à restauração de áreas 
degradadas em cada bioma, considerando suas características únicas, bem como estudos gerados ao 
longo de uma década de trabalho intensivo, possibilitam que a empresa compartilhe este conhecimento 
para ser aplicado em todo o Brasil e outros países. 
Sistemas de informação sobre métodos alternativos de restauração foram desenvolvidos para 
vários níveis de degradação, incluindo áreas utilizadas para pastagem, com uma definição detalhada de 
fatores prejudiciais, tais como o acesso do gado à área, a ocorrência de incêndios e extração ilegal de 
madeira, de acordo com as condições de cada ambiente. O controle de espécies arbóreas invasoras 
também foi aprimorado para adaptá-lo às diferentes espécies invasoras. O plantio de mudas segue a 
mesma estratégia. Os critérios utilizados para a escolha de espécies são definidos após uma análise da 
biodiversidade local. 
O aprendizado obtido ao longo de anos de estudos e implementação de projetos específicos de 
conservação em regiões como São Paulo, Bahia, Maranhão e Minas Gerais levou a uma variedade de 
metodologias e flexibilidade para enfrentar os desafios ecológicos que afetam todas as regiões brasileiras. 
Esse tipo de abordagem proporciona um ótimo custo-benefício, já que cada projeto é cuidadosamente 
avaliado e preparado de acordo com as possibilidades e necessidades de cada área. O uso de novas 
tecnologias e estratégias financeiras inovadoras, como a emissão de títulos verdes, garante a 
sustentabilidade de projetos amplamente alinhados com os parâmetros internacionais mais avançados. 
4. Processos inovadores em financiamento, gestão e tecnologia 
Finalmente, a busca contínua por processos inovadores de financiamento, gestão e tecnologia também 
pauta os investimentos sustentáveis da empresa. A Suzano foi a segunda empresa da América Latina a 
lançar títulos verdes em dólar e é recordista brasileira nesse tipo de emissão (Climate Bonds Iniciative, 
2018), atingindo US$ 1,4 bilhão captados. Estes recursos financiam programas de restauração e 
monitoramento de áreas protegidas e trata-se de um jeito inovador de buscar recursos para o 
investimento em programas ambientais. 
A captação dos green bonds está de acordo com os Green Bond Principles editados pela 
Associação Internacional de Mercado de Capitais (ICMA, da sigla em inglês). A aderência aos Green 
Bond Principles sinaliza aos investidores e demais agentes de mercado que seguimos padrões elevados 
de desempenho em sustentabilidade e transparência. A empresa também financiou parte de seu 
Programa de Restauração Ambiental por meio da linha de financiamento BNDES Florestal no valor de 
168 milhões de reais (US$ 43 milhões), destinada à recuperação de 21.000 hectares de Mata Atlântica 
na Bahia, no Espírito Santo e em Minas Gerais. Tal empréstimo foi concedido sob condições normais de 
mercado, com base no risco de crédito geral da Suzano. A linha de financiamento BNDES Florestal tem 
por meta o reflorestamento, a conservação e a recuperação florestal de áreas degradadas, bem como o 
uso sustentável de áreas nativas por meio do manejo florestal. 
A Suzano foi pioneira na utilização da tecnologia LIDAR (da sigla inglesa Light Detection And 
Ranging, em português Detecção de Luz e Alcance) no setor florestal brasileiro para fins de 
levantamento e monitoramento de áreas de conservação e restauração. Essa tecnologia consiste em 
um laser acoplado a um avião de pequeno porte que gera uma visão tridimensional da floresta. Junto 
com o LIDAR, são utilizados drones, câmeras de monitoramento e aplicativos para a coleta de dados, 
tornando as análises mais ágeis e servindo de insumo para planejar atividades de restauração com mais 
assertividade, gerar respostas mais rápidas em áreas que não estão tendo um avanço satisfatório e para 
minimizar riscos relacionados às diversas ameaças que as áreas sofrem. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 180 
 
Além das técnicas tradicionais, a Suzano foi pioneira na implementação de modelos de manejo 
sustentável de espécies exóticas e nativas nas Reservas Legais. Na empresa, o modelo consiste no plantio de 
árvores nativas entremeadas com fileiras temporárias de eucaliptos, visando acelerar a cobertura da área e 
a recuperação do solo, bem como gerar renda mediante utilização da madeira do eucalipto no processo 
industrial. As fileiras de eucalipto ocupam no máximo 50% da área, e serão colhidas após dois ciclos de 
produção. Após a última colheita, a área será monitorada para verificação da necessidade de plantio de 
enriquecimento com árvores nativas. A empresa implementou esse modelo em cerca de 180 hectares de 
Reservas Legais próprias no norte do Espírito Santo. Ele cumpre os requisitos do Código Florestal Brasileiro 
e foi autorizado pelo órgão ambiental estadual. Estima-se que ao longo de 12 anos (i.e., dois ciclos de 
eucaliptos) essa prática reduza de 40% a 60% o custo líquido da restauração. 
C. Os impactos do Programa de Restauração Ambiental no contexto  
do Big Push para a Sustentabilidade e da Agenda 2030 
O Programa de Restauração Ambiental da Suzano contribui para gerar impactos positivos nas três 
dimensões do desenvolvimento sustentável: social, econômica e ambiental. Na dimensão ambiental, 
registra-se que as áreas em restauração mantidas pela Suzano S.A. somaram, em 2018, 30.885 hectares, 
com quase 11 milhões de mudas plantadas em 1.335 fazendas. Em 30 anos, essas áreas devem 
sequestrar cerca de 22 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) da atmosfera, 
exercendo sua contribuição para o reequilíbrio climático do planeta. Há ganhos também em 
biodiversidade: nas áreas em preservação, 1984 espécies de plantas foram localizadas e registradas, 
além de 680 espécies de pássaros e 78 mamíferos. Não obstante, estamos compartilhando valor com 
comunidades locais tradicionais e parceiros comerciais. 
Na semana em que se comemorou o Dia Mundial do Meio Ambiente —celebrado em 5 de junho, 
a Suzano fez um balanço dos resultados do Programa de Restauração Ambiental conduzido desde 2010 
nas unidades de Aracruz (ES) e Mucuri (BA), além de outros 24 municípios nos estados Espírito Santo, 
Bahia e Minas Gerais. Esse programa vem contribuindo para enriquecer a cobertura florestal em 
municípios onde são desenvolvidas suas atividades. Já são mais de 18,7 mil hectares de áreas em 
restauração implantadas e foram plantadas mais de 8,8 milhões de mudas de espécies nativas, além de 
ser realizada a condução da regeneração natural em áreas com potencial de autorregeneração e o 
controle de espécies invasoras em áreas de vegetação nativa com invasão biológica. 
Os esforços mencionados neste capítulo reforçam a tese amplamente debatida e difundida nos 
meios acadêmicos e no âmbito geral da sociedade de que os esforços para reconstituição de florestas 
naturais e a restauração configuram-se como a principal solução para as questões climáticas. De acordo 
com estudo publicado na revista Science (Bastin e outros, 2019) e repercutido na mídia, incluindo o 
tradicional jornal britânico The Guardian (Carrignton, 2019), o plantio de árvores ao redor do mundo é 
o caminho mais efetivo, de acordo com os cientistas, para o enfrentamento da crise climática.  
Na dimensão social, o programa se destaca por seus impactos em aumento da renda, criação de 
novos postos de trabalho e apoio à criação de novos mercados e à educação ambiental, além do 
engajamento e da valorização da comunidade local, produtores, técnicos, parceiros e pesquisadores em 
algumas ações reportadas. O apoio do programa a atividades de capacitação gera oportunidades para 
que os produtores obtenham melhor remuneração e inserção produtiva. São exemplos o Programa 
Colmeias, que promove a polinização das áreas restauradas enquanto cria condições de trabalho e 
geração de renda para 870 apicultores, e o projeto Nascentes do Mucuri, que envolve mais de 11 mil 
indivíduos em ações de capacitação ligadas à conservação ambiental. 
Na dimensão econômica, um dos resultados mais transformadores que o Programa de 
Restauração Ambiental alcançou foi a redução do custo da restauração em 55% com o consórcio de 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 181 
 
eucalipto e espécies nativas, aliviando um dos principais gargalos aos investimentos em restauração. 
Fruto de um processo de aprendizado, construção de capacidades e investimentos em inovação e 
tecnologia, foi possível não apenas reduzir o custo, mas também produzir conhecimentos sobre 
métodos customizados de restauração, que podem ser considerados inovações. A inovação também 
está presente na utilização de softwares, aplicativos e ferramentas, como o GISAgri, LIDAR (Light 
Detection And Ranging) e drones, para apoiar nas atividades de planejamento e monitoramento das 
atividades executadas. Os investimentos em restauração fazem sentido economicamente para a 
empresa, já que seu core business depende criticamente de um capital natural saudável para alcançar 
seus altos índices de produtividade e mantê-los no longo prazo. 
Diante dos impactos e de tudo o que foi mencionado neste caso do Programa de Restauração e 
da estratégia de conservação da Suzano S.A, é possível fazer uma relação direta com a ideia-força que 
é o Big Push (ou Grande Impulso) para a Sustentabilidade. Segundo CEPAL/FES (2019): 
“[O] Big Push Ambiental caracteriza-se por investimentos que levem ao desacoplamento 
entre, de um lado, crescimento econômico e geração de empregos, necessários para 
elevar os padrões de vida da população e reduzir desigualdades e, de outro lado, emissões 
de GEE. Esses investimentos caracterizam-se por (i) complementaridade entre diversos 
tipos de investimento, inclusive em educação e na construção de capacidades 
tecnológicas; (ii) expansão de mercados para bens menos intensivos em carbono ou em 
recursos naturais; e (iii) complementaridade entre investimentos públicos e privados que 
permita sustentar maiores taxas de investimento no longo prazo”. 
O Programa de Restauração Ambiental da Suzano, em linha com o modelo de negócios da empresa 
e as premissas que orientam sua atuação, é um exemplo concreto de como a atividade empresarial pode 
agregar valor aos recursos naturais em escala industrial e gerar empregos, ao mesmo tempo em que é 
altamente competitiva no mercado internacional e produz impactos sociais e ambientais positivos. 
Desse modo, as iniciativas da Suzano alinham-se com boa parte dos elementos conceituais da 
abordagem do Big Push para a Sustentabilidade proposto pela CEPAL: compartilha valor econômico a 
partir da geração de emprego local, compra de materiais e insumos a partir dos processos de 
restauração e conservação ambiental, contribui para a diminuição da emissão de GEE na atmosfera, 
desenvolve novas tecnologias de plantio e monitoramento e propicia parcerias público e privadas com 
instituições de ensino para que a iniciativa se sustente no longo prazo. 
A abordagem do Big Push para a Sustentabilidade se orienta por três eficiências. A primeira é a 
eficiência schumpeteriana, segundo a qual uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva 
em conhecimento gera externalidades positivas de aprendizagem e inovação que se irradiam para toda 
a cadeia de valor. Nota-se que no presente estudo de caso o uso de tecnologias e a adoção de processos 
inovadores, em associação com equipes técnicas, ONGs e universidades, são reconhecidos em diversos 
projetos e parcerias relatados, enquadrando o programa estudado como um promotor da eficiência 
schumpeteriana. A construção das capacidades técnicas e o aprendizado acumulado pela empresa e 
seus parceiros são simbólicos dessa eficiência, sendo obtidos por meio de investimentos em pesquisa, 
monitoramento e inovação e da relação com as comunidades locais. O conhecimento gerado com esse 
processo permitiu gerar mais eficiência em processos de restauração ambiental, de forma a aumentar 
sua captação de GEE e reduzir seus custos, ao mesmo tempo em que gera uma fonte de renda para o 
produtor no campo e mercado para uma atividade empresarial de alto valor agregado. 
A segunda é a eficiência keynesiana, que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo 
da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. Líder mundial na produção de 
celulose de eucalipto e líder da América Latina no mercado de papel, a Suzano tem conseguido se 
posicionar competitivamente em um mercado mundial de grande dimensão. Os investimentos em boas 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 182 
 
práticas sustentáveis indicam que a empresa, ademais, vem buscando inserir-se em um mercado em 
rápida expansão internacionalmente e nacionalmente, vêm sendo cada vez mais explorados, ligado ao 
bem-estar e à sustentabilidade de longo prazo. Os ganhos de escala e seus impactos multiplicadores 
são evidentes não apenas pela escala dos investimentos realizados, mas também pelas ações que atuam 
nos diversos elos da cadeia produtiva florestal. O caso estudado também apresenta relações com 
economia de escopo ao unir a conservação ambiental, a produção de celulose e a apicultura sustentável 
com menor exploração do solo e das florestas.  
A última eficiência, a da sustentabilidade, diz respeito à clássica eficiência do desenvolvimento 
sustentável no seu tripé econômico, social e ambiental. Os indicadores resumidos no início desta seção 
demonstram que o caso estudado também apresenta relação com a eficiência da sustentabilidade. 
Finalmente, outro elemento que se destaca no presente estudo de caso é a coordenação, que é 
um aspecto chave na abordagem do Big Push para a Sustentabilidade. Nota-se o esforço para que as 
ações do Programa de Restauração Ambiental sejam complementares. Por exemplo, as ações que 
promovem educação e construção de capacidades tecnológicas, se dão através de um processo de 
coordenação em diversos níveis e entre variados entes: as ações dos técnicos são coordenadas com as 
ações das ONGs, universidades e instituições de pesquisa, que, por sua vez dialogam diretamente com 
as atividades de monitoramento e demais parcerias estabelecidas no contexto do programa. Assim, os 
esforços são articulados para realização de investimentos sustentáveis coordenados. 
Alinhada à Agenda 2030 e aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS; ONU, 2015), 
a Suzano S. A. está comprometida com essa Agenda e tem o seu Programa de Restauração Ambiental 
e sua estratégia de conservação como uma forte contribuição para o alcance das metas estabelecidas 
nos ODS. Ao analisarmos a iniciativa sob a luz da Agenda 2030 e dos ODS, é possível destacar alguns 
pontos de interseção entre os objetivos estabelecidos para um desenvolvimento global sustentável e as 
iniciativas realizadas e seus efeitos. 
Inseridos na ODS 6, os pontos 6.1 e 6.6 descrevem as metas de alcançar o acesso universal e 
equitativo à água potável e segura para todos e proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a 
água, e são adotados nas iniciativas relatadas nesse caso através dos objetivos das ações desenvolvidas 
para a recuperação, aumento, conexão e maior resiliência dos ativos naturais. São esses objetivos: 
regenerar ou recuperar áreas degradadas para aumento da biodiversidade local (fauna e flora); propiciar 
a conexão de áreas ou fragmentos naturais já existentes (corredores ecológicos na paisagem); promover 
o fluxo gênico de espécies de fauna e flora; proteger os solos e nascentes de agua; potencializar a 
capacidade de resiliência e equilíbrio ecossistêmico contra pragas e doenças no mosaico de florestas 
plantadas de eucalipto e áreas naturais; e aumentar significativamente o sequestro de GEE. 
No ODS 17, as metas 17.7 e 17.16 visam promover o desenvolvimento, a transferência, a 
disseminação e a difusão de tecnologias ambientalmente corretas para os países em desenvolvimento 
e reforçar a parceria global para o desenvolvimento sustentável complementada por parcerias 
multisetoriais, que mobilizem e compartilhem conhecimento, experiência, tecnologia e recursos 
financeiros para apoiar a realização dos objetivos de desenvolvimento sustentável em todos os países, 
particularmente nos países em desenvolvimento. Os objetivos das ações relativas à replicabilidade e à 
inovação atendem a esses pontos ao: deter em sua cadeia de restauração, sempre, atores comunitários 
e pequenos, médios e grandes parceiros operacionais, como exemplo os viveiros comunitários ou 
comerciais de onde se compra mudas nativas até a contratação da mão de obra do campo; e aprender, 
construir e compartilhar com ONGs, Governos, academia, organizações privadas e partes interessadas 
regionais e disseminar o conhecimento em fóruns e publicações. 
Ainda, entre os impactos do programa se encontram o sequestro de 22 milhões de toneladas de 
dióxido de carbono equivalente da atmosfera em 30 anos e mais de 30 mil hectares de áreas em 
restauração implantadas e foram plantadas mais de 10,7 milhões de mudas de espécies nativas, em linha 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 183 
 
com as metas ODS 13.3 (Melhorar a educação, aumentar a conscientização e a capacidade humana e 
institucional sobre mitigação, adaptação, redução de impacto e alerta precoce da mudança do clima) e 
15.2 (Até 2020, promover a implementação da gestão sustentável de todos os tipos de florestas, deter 
o desmatamento, restaurar florestas degradadas e aumentar substancialmente o florestamento e o 
reflorestamento globalmente). 
D. Conclusão 
“Não estamos diante de novos problemas, mas de problemas velhos que têm se tornado 
mais graves” Prebisch (1980). 
O Big Push para a Sustentabilidade pode ser definido como um conjunto de investimentos que 
produzam um ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de empregos, desenvolvimento de 
cadeias produtivas, diminuição da pegada ambiental e dos impactos ambientais, ao mesmo tempo em 
que recupera a capacidade produtiva do capital natural, tudo isso junto ao mesmo tempo (CEPAL/FES, 
2019). Pode, ainda, ser o eixo ordenador da trajetória para um estilo de desenvolvimento sustentável e 
tornar-se motor de um ciclo virtuoso de desenvolvimento. 
A Suzano, empresa que tem cultivado sua trajetória de crescimento baseada em altos níveis de práticas 
de manejo sustentável, está alinhada aos conceitos do Big Push para a Sustentabilidade e busca desenvolver 
um modelo de negócio sustentável. A companhia está comprometida com o objetivo de gerar lucro, ser 
economicamente viável, ao mesmo em que trabalha para a preservação ambiental e para as melhorias das 
condições sociais, principalmente em comunidades onde atua, gerando e compartilhando valor. 
Atualmente, a Suzano detém um dos maiores Programas de Restauração Ambiental e extensão 
de áreas de conservação no setor de papel e celulose globalmente. Ampliar os investimentos no 
monitoramento e na conservação de áreas naturais e de restauração ambiental é parte inerente de seu 
planejamento estratégico de curto, médio e longo prazo. Estimamos nos próximos 20 anos realizar a 
restauração de pelo menos 37 mil hectares adicionais no Brasil. 
As iniciativas relatadas no presente estudo de caso, assim como as inovações já colocadas em 
prática, ressaltam a preocupação da empresa em colaborar para o avanço de técnicas, estudos e 
metodologias que contribuam significativamente para reduzir a degradação dos habitats naturais, para 
enriquecer a biodiversidade e gerar o aumento das áreas com cobertura vegetal nativa no país. Essa 
preocupação faz parte da essência da empresa, que controla sua operação no território e não realiza 
desmatamento de áreas de proteção conforme a legislação brasileira.  
À luz dos novos desafios, como o aumento das emissões de dióxido de carbono no ar, a escassez 
de água e a desertificação do solo em várias partes do planeta, medidas ainda mais urgentes foram 
adotadas para mitigar esses efeitos nocivos e recuperar o capital natural. Entre os muitos desafios e 
lições aprendidas com esse processo, destacam-se os esforços para treinar e preparar profissionais 
especializados em conservação florestal, incentivar para a criação e expansão de viveiros de mudas 
nativas e ampliar da cadeia da restauração. O engajamento da comunidade local também provou ser 
um fator decisivo no sucesso das iniciativas. O cultivo de parcerias com diversos grupos de partes 
interessadas de várias regiões do país também foi um ponto chave na melhoria do processo e na 
construção de externalidades positivas.  
Novas formas de financiamento, tais como títulos verdes, devem trazer resultados ainda mais 
significativos, viabilizando e impulsionando medidas essenciais para o reequilíbrio dos ecossistemas, 
promovendo não só o aumento da cobertura vegetal, mas também aprimoramento das técnicas de 
restauração, que geram redução nos custos e aumento nas taxas de sucesso. Como resultado, essas 
iniciativas poderiam tornar-se facilmente replicáveis em outras regiões do planeta afetadas pelas 
mudanças climáticas e escassez de recursos.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 184 
 
Para a Suzano, preservar a biodiversidade e aumentar a cobertura florestal nativa, mobilizando 
recursos financeiros não são apenas missões fundamentais, mas valores que permeiam todas as suas 
operações —do conselho executivo e seus principais gestores aos profissionais da produção e aos 
agentes de campo. O presente estudo de caso ilustra que investimentos sustentáveis em recuperação 
ambiental, se coordenados e aplicados em escala, podem contribuir para um grande impulso ao 
desenvolvimento sustentável no Brasil no seu tripé social, econômico e ambiental. 
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fevereiro de 2020]. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 185 
XII. Política de conteúdo local e incentivos financeiros  
no mercado de energia eólica no Brasil 
Britta Rennkamp* 
Fernanda Fortes Westin** 
Carolina Grottera** 
Resumo 
Este estudo1 analisa o desenvolvimento da indústria de energia eólica no Brasil, com foco especial em 
Requisitos de Conteúdo Local (RCL). Políticas de conteúdo local são incentivos que visam melhorar o 
desenvolvimento tecnológico e industrial, ao condicionar a entrada em determinado mercado à utilização 
de bens e serviços fabricados nacionalmente. O programa brasileiro criou empregos na fabricação, 
instalação, operação e manutenção de componentes, ao mesmo tempo em que alcançou preços de energia 
muito competitivos por meio de um sistema de leilões. Uma análise de conteúdo qualitativa sobre os dados 
da indústria eólica foi realizada por meio de entrevistas com stakeholders do setor de energia eólica, além de 
documentos e notícias complementares. São discutidos os benefícios ambientais, econômicos e sociais 
proporcionados pelo desenvolvimento do setor eólico no Brasil, notadamente na geração de empregos, 
                                                                      
*  African Climate and Development Initiative, University of Cape Town. 
**  Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (CentroClima), Programa de Planejamento Energético 
do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, Universidade Federal do Rio de Janeiro 
(PPE/COPPE/UFRJ). 
1  Disclaimer: Este artigo deriva de um estudo comparativo entre os mecanismos de incentivo ao desenvolvimento da energia eólica 
no Brasil e na África do Sul, originalmente publicado em Zachmann, Georg e outros (2018), “Report on assessing the technology 
innovation implications of NDCs, technology portfolio choices, and international competitiveness in clean technologies”, Projeto 
COP21 RIPPLES - Results and Implications for Pathways and Policies for Low Emissions European Societies. O projeto COP21 RIPPLES 
recebeu financiamento da Comissão Europeia – Horizon 2020 Research and Innovation Programme (Grant Agreement No 730427). 
Alguns dados foram atualizados para conter informação mais recente quanto possível. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 186 
 
atração de investimentos, desenvolvimento regional, entre outros. As políticas de desenvolvimento do setor 
energia eólica no Brasil são analisadas à luz da abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade, ou 
seja, da possibilidade de que os investimentos no setor tenham contribuído para um grande impulso 
(Big Push) para um ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de empregos e redução dos impactos 
ambientais na produção de energia no Brasil. 
A. Introdução 
A energia eólica tem desempenhado um papel importante na diversificação do mix de eletricidade 
internacionalmente. No Brasil, a crise de fornecimento de eletricidade no início da década passada 
reforçou a necessidade de novas fontes de geração elétrica. Medidas de incentivo e as políticas de 
requisitos de conteúdo local (RCL) tornaram-se parte integrante da formulação de políticas industriais 
de energia renovável em vários mercados emergentes. 
Requisitos de Conteúdo Local (RCLs) são políticas impostas por governos que exigem que 
empresas utilizem produtos de fabricação nacional ou serviços fornecidos internamente para poder 
participar de um determinado mercado (OCDE, 2015). Existem diferentes formas de determinar o 
conteúdo local, que podem ser calculadas como a porcentagem do valor do projeto, o valor do 
equipamento tecnológico, a designação de componentes tecnológicos específicos ou uma 
porcentagem de seu peso. Se os requisitos de conteúdo visarem a produção a partir de processos 
industriais sofisticados, eles geralmente têm como alvo uma porcentagem do valor agregado, em vez 
de unidades físicas (Grossman, 1981). Especificar o conteúdo local é um ato de equilíbrio, já que definir 
um percentual muito alto pode dissuadir investidores e elevar os preços da tecnologia, ao passo que 
definir os requisitos muito baixos pode anular os efeitos desejados em termos de desenvolvimento 
tecnológico e geração de emprego. 
A lógica dos requisitos de conteúdo local reside na tentativa de se extrair todos os benefícios da 
transferência de tecnologia e criação de empregos, podendo contribuir para reduzir a lacuna de 
capacidade tecnológica e oportunidades de mercado existente entre países desenvolvidos e em 
desenvolvimento. Em geral, empresas em países desenvolvidos têm tecnologias maduras, mas lutam 
para ofertá-las em mercados saturados, enquanto os países em desenvolvimento têm tecnologias 
incipientes e oferecem novas oportunidades de mercado. Ademais, permitem aos governos corrigir a 
lacuna entre os custos e benefícios privados e sociais do investimento (Veloso, 2006). Essas lacunas 
podem tornar-se brechas profundas, estruturais de diferenças nos níveis de produtividade entre os 
países mais e aqueles menos desenvolvidos e também entre os setores mais modernos e mais primitivos 
nas economias em desenvolvimento. A coexistência dessas brechas marcadas e persistentes configura 
a heterogeneidade estrutural, que representa a convivência de setores modernos e atrasados, 
dominados por relações formais e informais de trabalho (CEPAL, 2016). Somada à abundante 
disponibilidade da mão-de-obra, a heterogeneidade estrutural conforma o centro nevrálgico de 
assimetrias produtivas a partir do qual outras desigualdades irradiam-se e persistem. 
Políticas de conteúdo nacional criam vencedores e perdedores. A imposição de produção local 
redireciona investimentos estrangeiros para empresas e subsidiárias locais no país receptor, 
potencialmente afetando os ganhos das empresas estrangeiras. Dessa forma, tornam-se um 
instrumento por vezes controverso, que atrai majoritariamente governos dos países em 
desenvolvimento. Por outro lado, vários autores discutem os benefícios das políticas de RCL, sendo os 
principais: (i) aprimoramento tecnológico, especificamente com relação à tecnologia fabricada 
localmente e ao domínio tecnológico das firmas (Qiu e Tao, 2001); (ii) a criação de “campeões 
nacionais”, que se refere às empresas que fabricam localmente e eventualmente produzem para 
exportação (Han e outros, 2009) e iii) criação de empregos locais (Veloso, 2006; Lewis e Wiser, 2007). 
Quando bem desenhadas, as políticas de RCL podem ter um papel importante de reduzir a 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 187 
 
heternogeneidade estrutural, ao desenvolver capacidades produtivas, tecnológicas e inovativas 
endógenas, além de contribuir com a promoção de investimentos sustentáveis. 
Este artigo discute o desenvolvimento da indústria de energia eólica no Brasil, com foco especial 
em RCL e desenvolvimento tecnológico. Uma análise de conteúdo qualitativa sobre os dados da 
indústria eólica foi realizada por meio de 40 entrevistas realizadas com stakeholders do setor de energia 
eólica (ver Anexo): representantes governamentais, fabricantes internacionais de equipamentos 
(OEMs), desenvolvedores e empresas manufatureiras locais. As entrevistas ocorreram durante eventos 
setoriais, como as conferências Wind Power Brasil, AfriWEA e Windaba na África do Sul, bem como 
visitas individuais que foram complementadas com dados secundários de artigos de mídia e outros 
documentos. A evolução do setor de energia eólica no Brasil é discutida, com foco nos benefícios 
ambientais, sociais e econômicos proporcionados, à ótica da abordagem do Big Push para o 
Desenvolvimento Sustentável desenvolvido pela CEPAL (CEPAL/FES, 2019). Alguns dos impactos 
analisados são: maior inserção de fontes renováveis na geração elétrica, redução da tarifa de energia, 
atração de investimentos estrangeiros, geração de empregos, desenvolvimento regional, entre outros. 
Também são apresentadas perspectivas futuras de expansão do mercado, sobretudo na América Latina 
e o papel da fonte eólica para o cumprimento das metas anunciadas na Contribuição Nacionalmente 
Determinada (NDC, da sigla em inglês) do Brasil no âmbito do Acordo de Paris. 
B. Fatores, atores e impactos das políticas de incentivo e conteúdo  
local no mercado de energia eólica no Brasil 
A crise de escassez de energia elétrica ocorrida no Brasil em 2001 levou o governo federal a buscar uma 
maior diversificação de fontes primárias de energia e apoiar sistematicamente o desenvolvimento da 
energia eólica. Ainda assim, a evolução dos sistemas de incentivo de energia eólica no Brasil 
experimentou um início lento, dada a alta dependência do fornecimento de eletricidade em energia 
hidráulica. Os sistemas de incentivo a fontes renováveis tiveram início com a adoção de tarifas feed-in 
(Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica – PROINFA), criando as condições 
para o estabelecimento de um mercado para a energia eólica em um ritmo lento e um preço alto, com 
altos níveis de conteúdo local e lenta burocracia. O programa de incentivo evoluiu posteriormente para 
o programa de leilões competitivos, incluindo um leilão específico para energia eólica em 20092. Este 
movimento coincidiu com a crise econômica mundial e abriu o mercado para uma dúzia de Fabricantes 
de Equipamentos Originais (OEMs). Os requisitos de conteúdo local foram um ingrediente substancial 
do programa brasileiro de energia renovável desde seus primórdios, sob administração do Banco 
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 
1. Requisitos de Conteúdo Local obrigatórios na tarifa feed-in 
Após algumas tentativas malogradas de promover a energia eólica no Brasil (por exemplo, Programa 
Proeólica, de 2001 a 2003), o Programa de Incentivo a Energias Alternativas (PROINFA, lei n ° 10.438, 
de 26 de abril de 20023) entrou em vigor para apoiar a implantação de energia renovável em Brasil na 
forma de uma tarifa feed-in, que definiu um percentual de 60% dos componentes locais necessários nas 
novas instalações eólicas4, visando o desenvolvimento da indústria local. O índice de localização foi 
calculado sobre o valor total do parque, considerando serviços e equipamentos. O principal objetivo 
                                                                      
2  As principais diferenças entre as tarifas feed-in e os sistemas de leilões são a flexibilidade no preço versus o tamanho do mercado. 
As tarifas feed-in estabelecem um valor fixo a ser pago pela energia e deixam a quantidade alocada flexível, enquanto os leilões 
competitivos operam sob um determinado tamanho de mercado, e os licitantes competem em preço. 
3  A lei do Proinfa foi revisada e ajustada pela Lei n. 10.762, de 11.11.2003 e regulamentada por decretos brasileiros n. 4.541, de 2002 
e n. 5.025, de 2004. 
4  O BNDES liberou R$ 5,5 bilhões para o PROINFA para transferências diretas e indiretas. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 188 
 
dessa taxa de localização era “fortalecer a indústria brasileira de geração de energia elétrica, 
desenvolvendo o campo da cadeia de suprimentos” (MME, 2012). 
O PROINFA visava promover 3.300 megawatts (MW) de capacidade de geração, compostos por 
36% de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), 43% de energia eólica e 21% de biomassa térmica. 
A concessionária central da Eletrobrás se comprometeu a comprar eletricidade de produtores de 
energia eólica durante 20 anos a uma tarifa ofertada de R$ 300 (R$ 128) por megawatt-hora (MWh), 
condicionada aos RCL. 
Entretanto, na época, apenas um fabricante de energia eólica possuía capacidade tecnológica 
para produzir equipamentos locais no Brasil, operando desde 1996. A Wobben, subsidiária brasileira da 
alemã Enercon, já havia instalado os primeiros parques eólicos no Brasil, independentemente de 
qualquer política de incentivo5. A empresa conseguiu instalar a maior parte dos parques eólicos através 
do PROINFA, enquanto outras empresas enfrentavam dificuldades para cumprir os requisitos de 
conteúdo6. A demanda recém-criada por turbinas eólicas produzidas localmente foi maior do que aquilo 
que um único fabricante que poderia fornecer7, ocasionando atrasos significativos na instalação e altos 
preços de mercado. Em 2006, mesmo com apenas 6 das 75 turbinas eólicas inicialmente planejadas em 
operação, a capacidade instalada aumentou significativamente. 
Outros fatores contribuíram para o atraso na implementação dos requisitos de conteúdo local, 
tais como entraves burocráticos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais 
Renováveis (IBAMA), lentidão nas avaliações ambientais (processo de licenciamento) e na expansão da 
rede de distribuição (à época, não havia licitações combinadas para projetos de linhas de transmissão 
com usinas eólicas8). Entre 2006 e 2009, foi estabelecida uma supressão temporária das tarifas de 
importação para os componentes das turbinas eólicas, visando mitigar tais atrasos e reduzir os custos 
associados. Apesar dos atrasos, o PROINFA contribuiu para a instalação de 1,4 gigawatt (GW) de 
capacidade eólica no Brasil entre 2008 e 2013 (Eletrobrás, 2006). 
2. RCLs opcionais ligados ao financiamento de energia renovável 
Os atrasos acima descritos durante a implementação do PROINFA dissuadiram alguns investidores 
internacionais e privilegiaram aqueles que já haviam acumulado capacidade tecnológica no Brasil9. Isso 
levou o governo a buscar a modernização do marco regulatório, evoluindo então para o sistema de 
leilões. O Ministério de Minas e Energia introduziu seu programa de licitação competitiva na forma do 
chamado “Leilão de Energia de Reserva” - LER (Decreto 6.353/2008) e outros tipos de leilões. 
Os requisitos de conteúdo local foram formalmente abolidos, permanecendo obrigatórios 
exclusivamente para desenvolvedores que recorriam ao apoio financeiro do BNDES, a agência de 
implementação designada. O banco é responsável pela seleção de licitantes, pelo apoio financeiro e pela 
fiscalização do cumprimento dos requisitos. Ele pode financiar até 80% dos projetos de energia renovável, 
com uma taxa de juros anual de aproximadamente 10% (ou 0,97% ao mês)10, através do Financiamento de 
Máquinas e Equipamentos – FINAME. A partir de 2016, a linha de energia alternativa financia projetos com 
valor superior a 20 milhões de reais (6,3 milhões de dólares), com uma taxa de retorno de 16 anos. 
                                                                      
5  Entrevistas No. 1, 2, 37. 
6  Entrevistas No. 12,13, 21. 
7  Entrevistas No.1, 13. 
8  Entrevistas No. 31, 35, 36. 
9  Entrevistas No. 13, 2. 
10  Taxa de juros de longo prazo (varia de 5 a 7,5%) + remuneração do banco (varia de 0,9 a 3,5%. Atualmente é 1,2%) + taxa de risco 
(até 2,87%), por ano. 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 189 
 
Os mecanismos de apoio financeiro do BNDES criam um incentivo claro para o uso da energia 
eólica, apesar da obrigação de atender aos requisitos de conteúdo local. Na prática, os requisitos de 
conteúdo local permaneceram, visto que todos os projetos de parques eólicos foram desenvolvidos com 
o apoio do banco11. 
Na regra inicial para o financiamento do projeto, os fabricantes deviam atender no mínimo três 
dos quatro critérios (BNDES, 2016): (i) fabricação de torres no Brasil, com pelo menos 70% de chapas de 
aço produzidas no país ou concreto armado de origem nacional; (ii) fabricação de pás no Brasil em 
unidade própria ou de terceiros; (iii) montagem da nacele (parte principal da turbina eólica que abriga a 
caixa de multipicacão, rotor etc.) no Brasil, em unidade própria; e (iv) montagem do cubo (peça do rotor 
onde as pás são fixadas) no Brasil, com material fundido de origem nacional12. 
A partir de 2012, o BNDES alterou a metodologia para avaliar os conteúdos locais para as turbinas 
eólicas visando melhorar o processo de acreditação. O BNDES também começou a oferecer um sistema de 
Credenciamento de Fornecedores Informatizados (CFI), onde os produtores podem consultar os produtos 
nacionais que estão listados no sistema e obter a certificação do índice de nacionalização, o que permite que 
as empresas vendam seus produtos como conteúdo doméstico. O BNDES se concentra no processo de 
produção da empresa e não se responsabiliza pela qualidade; apenas certifica a origem local13, 14. 
C. Capacidade tecnológica nacional e criação de emprego  
nas indústrias de energia eólica no Brasil 
A capacidade tecnológica, o tamanho da demanda, o diferencial salarial e os preços de tecnologia são 
considerados os principais fatores determinantes para a expansão do mercado de energia eólica no Brasil. 
Os entrevistados desta pesquisa mostraram que os preços da eletricidade e o estado da indústria 
global também desempenharam um papel importante. Esta seção apresenta a análise do desenvolvimento 
tecnológico e industrial como uma contribuição dos requisitos de conteúdo local. Também estima impactos 
na criação de empregos, a despeito da falta de dados confiáveis. O sistema de leilões brasileiro não exige 
estimativas para a criação de empregos, como fazem os sistemas de outros países, como a África do Sul, 
onde os licitantes fornecem tais informações através de indicadores de desenvolvimento socioeconômico 
(Rennkamp e Westin, 2013). Portanto, apresentamos as estimativas existentes e nossos próprios dados, 
coletados por meio de entrevistas com especialistas do setor. 
No Brasil, nove empresas de montagem de turbinas eólicas foram instaladas após os programas 
de incentivo, com as seguintes capacidades anuais: WEG (200 MW), Wobben/Enercon (500 MW), 
GE (1.000 MW), Alstom (400 MW), Gamesa (400 MW), Acciona (300 MW) e Vestas (400 MW) (ABDI, 
2014). Suzlon e Siemens não informaram suas capacidades anuais. A Suzlon deixou o mercado brasileiro 
em 2017 por não se enquadrar nas exigências de Conteúdo Local do BNDES (Costa, 2017). De acordo 
com Ferreira (2017), a Impsa entrou em processo de falência em 2014. Diversas alterações mais recentes 
ocorreram no mercado eólico brasileiro: Siemens e Gamesa bem como Acciona e Nordex fundiram suas 
atividades no setor, e novas empresas como Aeris e LM iniciaram atividades no setor de pás em 2013. 
Assim, há 6 fabricantes de aerogeradors credenciados no BNDES atualmente. O mapa XII.1 mostra a 
distribuição regional das montadoras de turbinas eólicas no Brasil. 
                                                                      
11  Correspondências No 31, 33, 34. 
12  Anteriormente ao estabelecimento destas regras, as empresas precisavam provar a origem, valor e peso de cada componente 
(máquinas e equipamentos). As principais peças produzidas sob esses requisitos são a nacele, as torres, as pás e os cubos. Portanto, 
uma torre (geralmente feita de concreto ou aço), que é 100% produzida localmente, poderia atender a 40% da localização de toda 
a turbina (Entrevistas No. 3 e 6). 
13  Correspondências No. 33, 34. 
14  Em 2013, o BNDES retirou temporariamente o credenciamento de cinco OEMs internacionais que falharam em demonstrar conformidade 
com os requisitos de conteúdo local. Este foi um sinal para a indústria de que o governo estava levando a questão a sério. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 190 
 
Mapa XII.1 
Distribuição regional das principais montadoras de turbinas eólicas e principais fabricantes  
de turbinas eólicas no Brasil  
 
Fonte: Adaptado pelos autores a partir de Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mapeamento da Cadeia Produtiva da Industria 
Eólica no Brasil, Brasília, Ministério da Indústria e Comércio Exterior, 2014; e Publicdomainvectors.org, “Domínio Público” [base de dados online], 
Mapa Brasil regiões (2400 px, png) http://publicdomainvectors.org/pt/dominio-publico/ [data de consulta: fevereiro de 2016], s/d. 
 
Embora muitas empresas estejam instaladas nas regiões Sul e Sudeste (especialmente 
fornecedores de insumos para pás), onde a maior parte da infraestrutura industrial do Brasil está 
concentrada, cerca de 40%, investiu em filiais, fábricas ou mesmo sedes no Nordeste, visto que é onde 
a maioria de suas operações estão localizadas15. Atualmente a Wobben possui montadoras também no 
Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul (ABDI, 2017). 
Os fornecedores de subcomponentes para itens como nacele, cubo e torre estão localizados nos 
estados de São Paulo (SP), Bahia (BA), Minas Gerais (MG), Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS). 
Alguns fornecedores estão localizados próximos às montadoras, dependendo do tipo de cadeia de 
suprimentos (por exemplo, metal-mecânica para torres de concreto, muito desenvolvida no estado de 
São Paulo, assim como a cadeia de suprimento de resinas, fibras, fixadores e adesivos para lâminas). 
Segundo MME (2016), existem quatro fabricantes de lâminas com capacidade para produzir 
10.400 unidades/ano e 12 manufaturas com capacidade de 2.340 unidades/ano no Brasil, além de mais 
de 1000 fornecedores de outros componentes (ABDI, 2014). 
O gráfico XII.1 mostra os investimentos crescentes verificados de 2005 até 2014 a respectiva 
capacidade instalada, com destaque para o financiamento realizado pelo BNDES, como principal ator 
viabilizador financeiro da implantação dos parques eólicos no país (financiando de 70,2 a 58% do valor 
total dos parques eólicos no período). De 2015 a 2017 houve lacuna de leilões, mas apesar do declínio 
nos investimentos, o setor eólico brasileiro se mantém como um dos maiores do mundo, sendo 
anunciados novos leilões para os próximos anos. 
  
                                                                      
15  Entrevistas No. 6, 8, 12 e 21. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 191 
 
Gráfico XII.1 
Capacidade instalada, financiamento do BNDES e investimento total setor de energia eólica no Brasil, 2005-2014 
(Em dólares e megawatts) 
 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em ABEEolica/BNEF apud Brasil Energia, “Cenários energia eólica anuário 2014/2016. Avanços na 
indústria eólica brasileira” [online], https://cenarioseolica.editorabrasilenergia.com.br/wp-content/uploads/sites/7/flips/1205/Cenarios 
Eolica2015/14/index.html [data de consulta: outubro de 2019], 2016. 
 
Como resultado desse crescimento da capacidade instalada, os custos médios de equipamentos 
foram reduzidos de 4.800 R$/MW (1515 US$/MW) para cerca de 3.500 R$/MW (1.104 US$/MW) entre 
2009 e 2015, de acordo com informações dos leilões fornecidos pela EPE (2016). No Brasil, os RCL 
contribuíram principalmente para o desenvolvimento de produtos com baixo conteúdo tecnológico 
(produção de materiais e peças e componentes), o que é comum na maioria dos países em 
desenvolvimento, devido à dificuldade de transportar componentes pesados. 
Somente em 2015, o setor eólico movimentou R$ 16,4 bilhões entre as 300 empresas que o 
compõem (Ferreira, 2017). Visto que o Nordeste brasileiro é responsável por 80% da produção de 
energia eólica no país, alguns casos de sucesso são destacados, a exemplo do município agrícola Gentio 
do Ouro (BA), que, com apenas 11,2 mil habitantes, teve seu PIB aumentado de 57,6 milhões para 
R$ 197,6 milhões de 2015 a 2016. No município de João Câmara (RN), o PIB aumentou 90% entre 2008 
e 2012 após o surgimento da atividade eólica, com 305 turbinas eólicas instaladas (IBGE, 2019). Em 
média, um parque eólico gera R$ 1.300,00 mensais pelo arrendamento da terra (pode variar de acordo 
com a produção de energia), representando uma renda importante para diversas famílias rurais (Canal 
Bioenergia, 2019). 
A partir de dados da ABEEólica de produção e do valor da energia eólica gerada, estimou-se o 
valor adicionado de mais de R$ 3,5 bilhões em 2016, representando 0,056% do PIB deste ano 
(Bittencourt e outros 2017). 
  
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M
WU
S$
Capacidade (MW) Financiamento Investimento total
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 192 
 
Figura XII.1 
Produtos da cadeia de suprimento de acordo com o grau de conteúdo tecnológico  
 
Fonte: Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mapeamento da Cadeia Produtiva da Industria Eólica no Brasil, Brasília, 
Ministério da Indústria e Comércio Exterior, 2014. 
 
Desde 1991, 46 patentes de energia eólica foram registradas no Brasil, das quais 34 se referiam a 
conteúdo tecnológico baixo ou médio e 12 a conteúdo tecnológico incorporado alto (gráfico XII.2). 
A predominância de componentes de baixa e média tecnologia é explicada pela necessidade de adaptar 
as turbinas às condições locais (especialmente relacionadas ao projeto de pás), onde os ventos são 
geralmente mais constantes (em velocidade e duração) do que em outros grandes países produtores na 
Europa e na China. Dado que a maior parte dos parques eólicos no Brasil está localizada ao longo da costa, 
faz-se também necessário o desenvolvimento de novos materiais e componentes elétricos capazes de 
suportar umidade, sal e areia, que podem erodir as lâminas e danificar os componentes elétricos. 
A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) estima a criação de 15 empregos por MW 
instalado, totalizando 157,5 mil empregos diretos e indiretos criados entre 2009 e 2017. Aproximadamente 
280.000 empregos são estimados até 2020, correspondendo a 18,6 GW de capacidade eólica 
(ABEEólica, 2015). 
Brown (2011) investigou os impactos do desenvolvimento no estado do Ceará, que hospeda a 
maior concentração de parques eólicos, somando 5,7 GW. O autor estima a criação de 10 a 50 empregos 
temporários durante a construção por projeto no nível local, além do aumento da atividade em negócios 
locais (ex: hotéis e restaurantes). Há estimativa de 0,5 empregos gerados por MW no setor de 
manufatura, e entre 3 e 3,5 empregos no setor de construção, contabilizando mais de 50.000 empregos 
gerados (sendo 85% na construção e manutenção e 15% na manufatura com mão-de-obra qualificada). 
  
Serviços especializados 
Serviços de engenharia: 
Projeto e instalação 
Manutenção, reparação e instalação de 
equipamentos eletrônicos e maquinária: 
Geradores, transformadores, motores, indutores, 
conversores e equipamento de controle 
Conteúdo tecnológico de turbinas eólicas 
Produção de materiais: 
Estruturas de metal, polímeros, 
fibras de vidro, fibras de carbono 
Partes e componentes: 
Fiação elétrica para instalação de 
redes e subestações e outros 
produtos de metal 
Equipamento elétrico e eletrônico 
(componentes mecânicos): 
Turbogeradores de corrente direta  
e alternada, partes e acessórios, 
geradores, transformadores,  
motores elétricos, baterias, 
controladores de carga 
Conteúdo tecnológico baixo e médio: 
Torre, fundação e fixação de pás, cubo, rotor e nacele. 
Conteúdo tecnológico alto: 
Sensor de detecção de vento, controlador de operação 
automático, eixos de alta e baixa velocidade, caixa de 
engrenagem, freios. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 193 
 
Gráfico XII.2 
Patentes registradas relacionadas à energia eólica no Brasil de acordo com o conteúdo tecnológico, 1991-2016 
(Em número de patentes) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em European Patent Office, “PATSTAT Database” [base de dados online], https://www.epo.org/ 
searching-for-patents/business/patstat.html#tab-1. [data de consulta: julho de 2018], 2018. 
 
Gráfico XII.3  
Evolução dos preços dos leilões de energia eólica no Brasil (Proinfa), 2009-2018 
(Em US$/MWh) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Empresa de Pesquisa Energética (EPE), “Leilões” [online] http://www.epe.gov.br/ 
leiloes/Paginas/default.aspx. [data de consulta: agosto de 2019], s/d. 
Nota: Os dados do gráfico acima são referentes à taxa de câmbio de dezembro de 2018. 
 
O déficit de trabalhadores qualificados fomentou ainda o mercado para cerca de uma dúzia de 
empresas especializadas em treinamento de técnicos no local. Atualmente, as empresas oferecem 
cursos de capacitação para diversos níveis (Brasil Energia, 2014). A ausência de laboratórios 
especializados segue como um dos principais gargalos ao desenvolvimento tecnológico, o que requer 
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1991 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 194 
 
maior investimento em PD para universidades e centros de pesquisa em conjunto com empresas para 
fomentar o setor (CGEE, 2012). 
Os preços da eletricidade se mostraram um fator determinante para investimentos em indústrias 
locais no Brasil. O sistema de leilão brasileiro tornou o setor mais dinâmico, levando à acentuada queda 
dos preços ofertados entre 2009, quando ocorreu o primeiro Leilão de Energia de Reserva (LER) e 2018. 
D. Perspectivas futuras para o setor de energia eólica no Brasil 
A recente crise político-econômica e a recessão resultante levaram a uma interrupção na aquisição de 
novos projetos de energia entre 2016 e 2017, impactando negativamente a expansão da energia eólica. 
Diante das perspectivas de menor demanda de energia, o Decreto 9.019, de março de 2017, permitiu a 
revogação dos contratos de energia previamente definidos. Por meio da previsão de um mecanismo 
competitivo operando sob uma lógica semelhante às licitações, um leilão realizado em agosto de 2017 
resultou no cancelamento de 183,2 MW médios (dos quais 16 parques e 9 usinas fotovoltaicas) e o 
reembolso de R$ 105,9 milhões da Conta de Energia de Reserva (CONER) (Costa e Samora, 2017). 
Entretanto, um novo leilão ocorreu em abril de 2018, evidenciando que as perspectivas para a energia 
eólica no Brasil seguem fortes. Novos projetos eólicos somaram 114,4 MW, com tarifa média de 
67,6 R$/MWh, contra 97 R$/MWh em 2017. Esta seção discute futuras perspectivas para a energia eólica 
no Brasil, com foco em possibilidades de financiamento e comércio, desenvolvimento tecnológico e no 
cumprimento das metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira. 
1. Expansão dos mercados eólicos na América Latina 
Atualmente, os fabricantes de componentes de turbinas eólicas que operam no Brasil somam 4 GW de 
capacidade de produção anual (ABDI, 2014). O fornecimento doméstico de eletricidade depende 
principalmente de leilões públicos e a produção nacional excede a demanda, de modo que as 
possibilidades de exportação são fundamentais à sustentabilidade dos negócios. 
Atualmente, o Brasil exporta mais de 15 tipos de componentes, que em 2014 somaram um bilhão de 
reais. Em 2015, US$ 428 milhões em equipamentos eólicos foram exportados para o Canadá, EUA e Europa 
apenas pela Tecsis. A empresa investiu mais de 200 milhões de reais para expandir sua produção anual de 
2.700 para 7.500 lâminas, enquanto a Aeris planeja aumentar sua produção de 1.550 para 1.800 lâminas por ano. 
Além dos mercados tradicionais, o aumento da oferta de energia renovável no Cone Sul cria 
novas possibilidades para a indústria brasileira. A Argentina, o Chile e o Uruguai têm indústrias de 
componentes eólicos pouco desenvolvidas, abrindo novas possibilidades de mercado para a 
consolidada indústria brasileira. A seguir, três principais fatores colocam o Brasil como um proeminente 
exportador para os parceiros do Cone Sul: 
i) o baixo grau (ou mesmo a inexistência) de desenvolvimento de fabricantes eólicos locais 
nesses países; 
ii) a capacidade de produção da indústria eólica brasileira, que supera o mercado interno; 
iii) as condições de financiamento a custos competitivos nos mercados internacionais, sendo o 
BNDES um dos poucos financiadores de longo prazo da América Latina. 
Além de financiar a produção doméstica em condições favoráveis, o BNDES custeia vários 
projetos de infraestrutura na América Latina. Ademais, ele oferece linhas de financiamento à 
exportação específicas para empresas brasileiras, como “Exim Pré-Embarque” (para financiar produção 
destinada a mercados externos) e “Pós-Embarque” (para financiar a comercialização de produtos no 
exterior). No entanto, como aponta Gaylord (2017), mudanças recentes nos esquemas de financiamento 
do BNDES, agora mais próximos das condições de mercado, podem afetar as decisões dos investidores. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 195 
 
É provável que taxas de juros mais altas aumentem os custos de fabricação, especialmente se os RCL 
permanecerem inalterados. Gaylord (2017) defende que essas condições devem contar com mais 
flexibilidade (por exemplo, em peças custosas e obrigatórias), assegurando a competitividade das 
exportações e preços domésticos razoáveis nos leilões de energia. 
2. A energia eólica e a estratégia de desenvolvimento a longo prazo brasileira 
Perspectivas positivas para a energia eólica provavelmente atuarão como um importante fator para o 
cumprimento das metas estabelecidas na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) no âmbito 
do Acordo de Paris, tanto no Brasil quanto em seus parceiros comerciais. A NDC brasileira (Brasil, 2015) 
estabelece um aumento no uso sustentável de fontes renováveis, excluindo a energia hidrelétrica, para 
pelo menos 23% da geração de eletricidade até 2030. 
Estimativas do Plano Decenal de Expansão de Energia 2026 (PDE 2026) da EPE (2017) mostram 
que o desenvolvimento eólico provavelmente superará as metas de NDC, mesmo em um cenário de 
menor atividade econômica. A tabela XII.1 compara as projeções do PDE 2026 com a meta 
intermediária brasileira da NDC para 2025. 
 
Tabela XII.1 
Projeção de geração de energia eólica em 2025 
Tipo NDC Brasileira PDE 2026 
Capacidade instalada 24 GW 
11% do mix de eletricidade 
27 GW 
14% do mix de eletricidade 
Geração de eletricidade 92 TWh 
11% do mix de eletricidade 
104 TWh 
12% do mix de eletricidade 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Brasil, Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada para Consecução do Objetivo da 
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Brasília, República Federativa do Brasil, 2015; e Mauricio T. Tolmasquim 
(coord.), Energia Renovável: Hidráulica, biomassa, eólica, solar e oceânica, Rio de Janeiro, Empresa de Pesquisa Energética, 2016. 
 
Além da política climática, a expansão da energia eólica apresenta inúmeros pontos de contato 
com a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU, 2015), mais especificamente com os 
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os aspectos descritos neste estudo se comunicam 
com vários dos 17 ODS, notadamente: 
• a erradicação da pobreza (ODS 1) e redução das desigualdades (ODS 10), por contribuir para a 
redução das disparidades regionais e a geração de renda em regiões historicamente carentes; 
• saúde e bem-estar (ODS 3) e energia limpa e acessível (ODS 7), por ser uma fonte de geração 
elétrica renovável e que não emite gases de efeito estufa (GEE) nem poluentes atmosféricos locais; 
• indústria, inovação e infraestrutura (ODS 9), por promover a industrialização inclusiva e 
sustentável e fomentar a inovação; 
• ação contra a mudança global do clima (ODS 17), por contribuir para o cumprimento dos 
compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris, como descrito acima. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 196 
 
3. Análise à luz da abordagem do Big Push para a Sustentabilidade 
Nessa seção, faz-se uma análise da política de RCL sob a ótica da abordagem desenvolvida pela CEPAL 
do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). Segundo essa abordagem, a articulação e a 
coordenação de políticas é chave para a promoção de investimentos sustentáveis, os quais podem 
contribuir para um novo ciclo virtuoso de crescimento econômico, geração de empregos, 
desenvolvimento de cadeias produtivas, diminuição da pegada ambiental e dos impactos ambientais, 
ao mesmo tempo em que recupera a capacidade produtiva do capital natural (ibid.). 
Um dos principais conceitos no marco do Big Push para a Sustentabilidade é a chamada tripla 
eficiência. A primeira é a eficiência schumpeteriana, segunda a qual uma matriz produtiva mais 
integrada, complexa e intensiva em conhecimento gera externalidades positivas de aprendizagem e 
inovação que se irradiam para toda a cadeia de valor. Observa-se claramente a relação do caso estudado 
com essa eficiência, na medida em que as políticas de RCL contribuem diretamente para a construção 
de capacidades inovativas e tecnológicas, contribuindo para a difusão de conhecimentos e capacidades 
produtivas ao conjunto da economia, em linha com a eficiência schumpeteriana (CEPAL/FES, 2019). 
Com a expansão da energia eólica e sua cadeia produtiva no Brasil, houve necessariamente 
grande investimento em capacitação da mão de obra, expansão da indústria nacional, assim como dos 
serviços no setor eólico, com a criação de clusters setoriais regionais. Atualmente, são 77 itens 
produzidos na cadeia de energia eólica, abrangendo 131 fabricantes no Brasil.  
A segunda é a eficiência keynesiana, que destaca que há ganhos crescentes de escala e de escopo 
da especialização produtiva em bens cuja demanda cresce relativamente mais, gerando efeitos 
multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos (CEPAL/FES, 2019).  
Estima-se que mais de 4.000 famílias recebam mais de R$ 1o milhões em arrendamentos de terra, 
sem contar os investimentos de 0,5 a 1,0% do valor do projeto na região de implantação de um novo 
empreendimento de acordo com a ABEEólica (2018). Essa eficiência também é abordada no presente 
estudo, uma vez que os leilões representaram uma típica política de fomento à demanda, de forma a 
desenvolver um mercado para o setor, gerar escala mínima para a indústria nascente e desenvolver o 
setor de energia eólica. A coordenação entre políticas de oferta (de RCL) e de demanda (de leilões) 
ilustra como as políticas públicas podem se articular para promover o desenvolvimento integral de um 
setor, ou seja, das capacidades produtivas e tecnológicas industriais à sua aplicação em maior escala, 
em praticamente uma década. A empresa WEG, de origem nacional, por exemplo já amplia suas 
atividades para fora do país (unidade indiana fornecerá equipamentos com capacidade de 
250 MW/ano), de acordo com a ABDI (2018), atendendo à demanda por expansão das atividades 
brasileiras no setor.  
Por fim, a eficiência da sustentabilidade diz respeito aos clássicos três pilares do desenvolvimento 
sustentável, quais sejam: viabilidade econômica (a economia em escala proporcionada pelas políticas 
de conteúdo local permite o barateamento do preço da energia eólica), justiça social (geração de 
empregos e receitas) e sustentabilidade ambiental (em 2017, houve redução de emissões de Gases de 
Efeito Estufa na geração de energia limpa, com cerca de 21 milhões de CO2 evitados (ABEEólica, 2018)). 
Essas três dimensões também são claramente relacionadas com o caso estudado. 
Concomitante a isso, vale ressaltar também que em 2018 o Brasil foi o segundo maior emisor de 
Certificados Internacionais de Energia Renovável (I-RECs) no mundo, detendo o maior número de usinas 
eólicas certificadas (102 usinas), (Brasil Energia, 2019). Esses certificados demonstram o alto valor 
agregado de sustentabilidade, visto que possibilitam a comprovação do consumo de energia elétrica 
advindas de fontes limpas e renováveis por parte de empresas que estão cada vez mais preocupadas 
com as questões ambientais. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 197 
 
E. Conclusão 
A despeito das controvérsias em torno dos Requisitos de Conteúdo Local (ver OCDE, 2015), estes têm 
atuado como um importante instrumento, sobretudo em países em desenvolvimento. A opção por RCL 
permite que, ao menos no curto prazo, governos combinem diversos objetivos que englobam política 
industrial, geração de empregos, desenvolvimento tecnológico, entre outros. 
Durante as últimas décadas, o setor de energia eólica no Brasil se desenvolveu vigorosamente a 
partir de diversos esforços governamentais. A garantia de demanda ocasionada pela adoção de uma 
tarifa feed-in, apesar do alto preço da tarifa, foi importante para consolidar o mercado nacional e 
permitir que a indústria se desenvolvesse, levando à imediata redução de custos da geração por energia 
eólica nos anos subsequentes. 
Destaca-se a relevância da coordenação de investimentos e políticas, que é um dos elementos 
centrais do Big Push para a Sustentabilidade, uma vez que foi instituído um forte mandato centralizado 
ao BNDES, responsável pelo financiamento condicionado aos RCL, pela certificação e aprovação dos 
projetos, a dinamização do mercado proporcionada pela transição para o sistema de leilões ficou a cargo 
da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Ministério de Minas e Energia (MME). Leilões específicos 
de energia renovável e até exclusivamente de energia eólica ocorreram entre 2009 e 2011. 
Para além da evidente contribuição para a redução das emissões de GEE e menor intensidade de 
carbono da economia, o crescimento da fonte eólica no Brasil trouxe diversos outros benefícios 
econômicos e sociais. A atração de empresas estrangeiras fomentou a atividade de Pesquisa e 
Desenvolvimento, especialmente em função da necessidade de adaptar a tecnologia existente às 
condições específicas do Brasil. Visto que muitas destas empresas se instalaram na região Nordeste, 
onde se encontra o maior potencial eólico do país, é inegável a contribuição do setor eólico para o 
desenvolvimento regional. O Nordeste abriga muitos dos municípios mais carentes e de menor Índice 
de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. A geração de emprego e receitas por meio do 
arrendamento de terras sem dúvida contribuiu para a redução das disparidades regionais no país. 
A inclusão social é um dos maiores potenciais no que se refere ao potencial dinamismo da economia, 
por isso a adoção da energia eólica em regiões carentes gera mudanças não apenas sustentáveis, como 
também no sentido de um desenvolvimento socioeconômico da região. 
Em 2018, o Brasil foi classificado como o sexto país no ranking mundial de capacidade eólica onshore 
instalada elaborado pelo Global Wind Energy Council (GWEC) e quinto em volume de novos investimentos 
(GWEC, 2018). Muito embora a fabricação de componentes foque naqueles de baixa e média tecnologia, o 
mercado brasileiro já é considerado maduro e um importante player, com perspectivas de exportações para 
novos mercados e grande potencial para incentivar a integração regional na América Latina. 
O caso estudado é simbólico do Big Push para a Sustentabilidade, pois ilustra um exemplo 
concreto de como a articulação de políticas pode acelerar os investimentos sustentáveis (nesse caso, 
em energia eólica), gerando resultados socioeconômicos e ambientais positivos simultaneamente. 
Como lições aprendidas, destaca-se que, apesar das dificuldades da implantação dos requisitos 
de conteúdo local, os ajustes realizados (como a evolução gradual da nacionalização dos equipamentos) 
a partir da consulta às empresas envolvidas se fez relevante. Esses ajustes são fundamentais, pois 
demonstram a capacidade de aprendizado e de flexibilidade dos próprios atores que estão conduzindo 
a política pública, frente, entre outros, às mudanças de conjuntura que determinaram esse período. 
Junto aos incentivos fiscais, os RCL propiciaram o desenvolvimento da tecnologia nacional, 
promovendo um adensamento da cadeia de fornecedores do setor eólico especialmente no Nordeste e 
Sul do país. Foram atraídas cerca de 300 empresas, o custo médio dos equipamentos foi reduzido em 
27% e foram criados cerca de 158 mil empregos de 2009 a 2017. Além do fomento a uma cadeia de 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 198 
 
produção de maior conteúdo tecnológico e mão-de-obra especializada, o desafio atual é manter a 
expansão do setor em um momento de economia desaquecida, situação que levou à fusão de algumas 
empresas do setor na tentativa de superar a crise brasileira. Nesse sentido, os leilões de energia se 
fazem um importante instrumento para o planejamento e sustentação do setor eólico. 
Este estudo analisou como a coordenação de políticas de diferentes naturezas foi capaz de fomentar 
com sucesso a expansão da energia eólica no Brasil. Na esfera governamental, a conciliação de aspectos de 
diferentes naturezas, como fiscal regulatória, de financiamento e industrial, foi capaz de atrair investimentos 
em capacidade instalada para geração de energia. Ademais, contribuiu para promover a inovação e gerar 
economias de escala e escopo no setor manufatureiro que permitiram uma substancial redução no preço da 
tarifa de energia eólica. Isto contribuiu, por sua vez, para que os princípios norteadores do setor elétrico 
fossem respeitados e reforçados, quais sejam modicidade tarifária, acesso universal e garantia do 
suprimento. A cadeia de valor do setor eólico tem relativo alto grau de conhecimento específico, além de 
estar instalada majoritariamente em regiões mais desfavorecidas, nas quais a geração de renda e emprego 
tem efeito multiplicador notável. Os investimentos no setor também permitiram que o Brasil desenvolvesse 
uma série de vantagens competitivas que se traduzem em oportunidades de exportação, sobretudo para os 
parceiros comerciais na América Latina, gerando um ciclo virtuoso de inovação e crescimento no Brasil e na 
região, promovendo o desenvolvimento sustentável de longo prazo, como orientam os princípios do Big 
Push para a Sustentabilidade. 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 200 
 
Anexo XII.1 
Tabela XII.2 
Lista de entrevistados/representantes das empresas do setor de energia eólica 
Correspondência No. Entrevistado/Correspondente Organização 
1 Ex-funcionário Wobben, Enercon 
2 Diretor Wobben Brasil 
3 Representante Alstom Brasil 
4 Representante Siemens Brasil 
5 Representante Siemens South Africa 
6 Diretor Acciona Brasil 
7 Representante Acciona 
8 Representante IMPSA Brasil 
9 Representante WEG 
10 Representante GE 
11 Representante ABB 
12 Representante Vestas 
13 Representante Gamesa 
14 Representante Sinovel 
15 Representante Sinovel 
16 Representante Sinovel 
17 Representante Goldwind 
18 Representante Iberdrola 
19 Representante Conco 
20 Representante LM Windpower 
21 Representante Suzlon Brasil 
22 Representante Suzlon South Africa 
23 Representante Darling Windfarm 
24 Representante Nordex 
25 Diretor – Indústrias de Energias Renováveis Department of Trade and Industry, SA 
26 Diretor - Localização de Tecnologia Department of Science and Technology, SA 
27 Diretor Geral Adjunto Department of Energy, SA 
28 Pesquisador Council for Scientific and Industrial Research 
29 Representante DTI TIPS 
30 Diretor South African Wind Energy Association 
31 Diretor ABEEólica 
32 Diretor Global Wind Energy Council 
33 Representante BNDES 
34 Representante BNDES 
35 Representante Energy Research Enterprise 
36 Pesquisador COPPE/UFRJ 
37 Pesquisador UFRJ 
38 Representante Green Cape 
39 Representante German International Cooperation Brazil 
40 Representante German International Cooperation SA 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em entrevistas realizadas pessoalmente ou por telefone. 
 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 201 
XIII. Da subsistência ao desenvolvimento: o processo de 
construção da Associação de Catadores de Materiais 
Recicláveis de Lavras – MG 
Eliane Oliveira Moreira* 
Jucilaine Neves Sousa Wivaldo** 
Resumo 
Este estudo apresenta alguns processos iniciais da construção da Associação de Catadores e Materiais 
Recicláveis (ACAMAR), localizada no município de Lavras em Minas Gerais. Houve uma construção 
conjunta da comunidade local com a Fundação Pró-Defesa Ambiental para superar problemas 
ambientais, sociais e econômicos. Por meio de técnicas participativas e projetos, partindo da horta 
comunitária, foram realizados espaços de diálogo de onde emergiu a estruturação da atividade de 
coleta de materiais recicláveis, juntamente com a ACAMAR. Observa-se que o processo de 
desenvolvimento da ACAMAR e as ações introduzidas permitiram que a associação fosse capaz de 
remunerar e emancipar os sujeitos, os quais possuem a força de trabalho como grande potencial de 
investimento. Práticas extensionistas dialógicas podem ser promotoras de grandes impulsos ao 
desenvolvimento. Considera-se que soluções ao Big Push para a Sustentabilidade podem surgir das 
demandas sociais locais e ser construídas por diferentes atores, como as organizações sociais, setor 
público e universidades, que atuando com e para a sociedade podem causar transbordamentos. 
 
                                                                      
*  Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Extensão pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). 
**  Secretaria Municipal de Assistência Social do município de Perdões, Minas Gerais. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 202 
 
A. Introdução 
Alcançar o desenvolvimento, em especial o desenvolvimento sustentável, tem sido objetivo de diversas 
esferas governamentais e instituições pelo mundo. Porém, a complexidade e as variáveis para o seu 
alcance limitam sua amplitude e o colocam distante para algumas regiões do globo. Além disso, é 
agravado pela concepção de desenvolvimento, que muitas vezes se confunde com interesses 
específicos e não correspondem às demandas reais da sociedade. 
Neste sentido, diversos estudos buscam compreender uma forma de alcançar o 
desenvolvimento, como o processo de industrialização do Brasil na primeira metade do século XX que, 
embora tenha alavancado um fator de crescimento econômico, não foi capaz de acabar com as mazelas 
do subdesenvolvimento presentes até nos dias atuais, como a concentração de renda, o desemprego e 
a fome. O modelo de industrialização implantado também não é sustentável ao longo do tempo, 
apresentando sérios problemas ambientais e sociais. 
No final da década de 1990, com um elevado grau de desemprego e as novas dinâmicas sociais, 
principalmente da cadeia de consumo, emergem em diferentes pontos movimentos de catadores de 
materiais recicláveis. É nesse cenário que se manifesta a construção da Associação de Catadores de 
Materiais Recicláveis de Lavras (ACAMAR), no município de Lavras em Minas Gerais. 
A Fundação Pró-Defesa Ambiental (FPDA), baseada em projetos de educação ambiental, 
mantinha desde 1992 uma horta comunitária em Lavras numa região com certo grau de vulnerabilidade 
social, onde era produzida a compostagem para adubação orgânica e cultivadas as hortaliças. A partir 
da horta, a fundação percebeu que muitas dessas famílias careciam de uma fonte de renda, pois tinham 
como fonte de alimento aquilo que era ali cultivado. Surgem daí as aspirações que constituíram a 
ACAMAR, que possibilitou a integração de muitas famílias da comunidade em uma atividade 
socioeconômica e da questão ambiental, partindo da subsistência para um desenvolvimento. 
Compreender o processo de construção da ACAMAR é, portanto, a motivação desse trabalho que 
procurou analisar e descrever como esse processo envolveu a comunidade, buscando elementos no 
histórico de criação da associação e as primeiras iniciativas da FPDA, para entender como o 
envolvimento da comunidade, as necessidades e a organização social contribuíram no que se constitui 
atualmente como ACAMAR. Com esse levantamento, também se pretendeu refletir o Big Push para a 
Sustentabilidade, proposto pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), e as 
possibilidades de práticas associativas para um desenvolvimento sustentável.  
Essa investigação se justifica pela necessidade de realizar um levantamento de forma a valorizar 
e encontrar na memória da ACAMAR e da FPDA aspectos que possam apresentar como ocorrem os 
processos de construção participativa e demonstrar suas diferentes maneiras de manifestação e de 
promoção de investimentos sustentáveis. Tal construção pode revelar especificidades e caminhos para 
o desenvolvimento local. 
Para compreender como se deu a construção da ACAMAR, foi realizada uma pesquisa qualitativa 
por meio de levantamento bibliográfico e documental com abordagem analítica e descritiva, além de 
relatos e memória de atores envolvidos com a ACAMAR e a FPDA. 
Para apresentação do presente estudo inicialmente foi traçado um breve histórico do cenário 
brasileiro no final da década de 1990, que contextualizou a criação da associação (Seção B). A Seção C 
apresenta alguns aspectos do processo histórico de criação da ACAMAR em conjunto com a FPDA e 
expõe elementos importantes para a análise. Em seguida, na Seção D, se expõem uma perspectiva ao 
desenvolvimento sustentável e relações entre o modelo da ACAMAR e o Big Push para a 
Sustentabilidade. Por fim, são feitas as considerações finais, dentre as quais se apreende que as práticas 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 203 
 
para a criação da ACAMAR podem servir de estímulo ao Big Push para a Sustentabilidade, para o qual 
as universidades, o setor público e as organizações sociais podem promover grandes impulsos. 
B. O material reciclável e o contexto brasileiro  
da década de 1990: breve histórico 
O Brasil na década de 1990, além dos espaços para debate das questões sociais agravadas no período 
ditatorial, teve como uma de suas características a forte globalização, que marcou profundamente o 
país com as diretrizes governamentais e a maior abertura da economia brasileira. 
A partir de 1993, houve no Brasil uma grave recessão, intensificada em 1994. Esse processo se 
reverteu e a economia cresceu até 1997. Porém, esse crescimento foi interrompido com a crise 
financeira internacional em meados de 1998, provocando forte impacto no mercado de trabalho (Neri, 
Camargo e Reis, 2000). 
A mudança tecnológica e a não especialização da força de trabalho apresentam no final da 
década de 1990 uma massa de desempregados que não conseguiram recolocação no mercado, o que 
aumentou o número de pessoas absorvidas pelo subemprego. 
Em 1999, surge o Movimento Nacional de Catadores de Material Reciclável (MNCR) com o 1º 
Encontro Nacional de Catadores de Papel (MNCR, 2018). Entretanto, apesar desse período ter marcado 
forte expansão dos catadores de materiais recicláveis, Sant’Ana e Maetello (2016) lembram que desde 
1960 já existiam experiências de catadores no Brasil. Já Bosi (2008) aponta que houve crescimento dessa 
força de trabalho na década de 1980 e que se generalizaram na década de 1990. 
Nesse período, presenciamos também uma nova ascensão do modelo de consumo capitalista, a 
alimentação passa cada vez mais pela indústria e, para a comercialização, os produtos são 
acondicionados em diferentes embalagens, o que aumentou o volume de materiais descartados. O uso 
cada vez mais intensivo de plástico gera mais um problema ao tratamento de resíduos sólidos. Estudos 
apontam que cerca de 8,9 bilhões de toneladas de plásticos, entre primários (fabricação nova) e 
secundários (oriundos da reciclagem), tenham sido produzidos em escala mundial desde 1950, quando 
se iniciou a produção industrial do material, o qual apresenta aproximadamente 2,6 bilhões de 
toneladas ainda em uso e 6,3 bilhões de toneladas transformadas em lixo, este último dividindo-se em 
600 milhões de toneladas reciclados, 800 milhões incinerados e 4,9 bilhões acumulados em aterros 
sanitários e na natureza (Vasconcelos, 2019). 
Vem à tona a necessidade de amenizar a insustentabilidade desse modelo, de modo que a reciclagem 
dos materiais passa a ter maior espaço e se torna essencial, auxiliando no tratamento de resíduos (vertente 
ambiental), o setor industrial no reaproveitamento dos materiais (vertente econômica) e proporciona uma 
renda, mesmo que ínfima, para as pessoas que não conseguiram se recolocar no mercado de trabalho ou 
tinham a necessidade de complementação da renda (vertente social). 
Sem uma reflexão poderíamos entender que a coleta de material reciclável e essa emergente 
categoria de trabalho seria um spillover1 da industrialização e consumo no Brasil. Porém, é necessário 
cautela, pois essa categoria tem ganhado espaço lentamente e por muito tempo se manteve como uma 
categoria invisível e desprestigiada. Ressalta-se que, em sua origem, a coleta de materiais descartados 
(lixo) era desvinculada da indústria, uma vez que os coletores realizavam a coleta de forma autônoma 
depois que os materiais eram descartados e considerados inservíveis. Inclusive, por um longo período 
                                                                      
1 Spillover, compreendido também como efeitos de transbordamento, se caracteriza pela forma de disseminação de determinado 
investimento, com capacidade de gerar espaço e absorver atividades complementares, possibilitando novos investimentos para 
atender um ciclo produtivo. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 204 
 
observou-se a existência de catadores em lixões. Não havia, portanto, uma cooperação da indústria para 
com os catadores, já que estes que assumiam a coleta de materiais recicláveis pela extrema necessidade 
e muitas vezes por falta de opção.  
Analisando atentamente, podemos entender a coleta seletiva como uma manifestação 
decorrente da forma como o capitalismo se expandiu no Brasil, o movimento surge da falta de 
integração social, necessidade e resistência. No período estudado a fome era evidente no país. 
Esse pilar com a categoria para o trabalho, apesar de parecer uma solução aos problemas, vai 
delinear um novo segmento que tem enfrentado grandes obstáculos. É nesse contexto que em 1998 
começa o processo de construção da ACAMAR. 
C. Uma construção social dialogada: o processo histórico  
inicial da ACAMAR e a FPDA 
A história da ACAMAR está intimamente ligada com a FPDA. Portanto, para compreensão do processo 
de criação da ACAMAR é necessário entender um pouco da fundação. A FPDA teve seus primeiros 
passos em 1992 e dentre seus objetivos estavam: a preservação ambiental, promoção social e 
construção de cidadania no meio urbano e rural. As ações tinham como critério principal o envolvimento 
popular (FPDA, 2001a e 2001b). 
Grandes atores da FPDA eram estudantes da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e faziam 
parte do grupo Yebá Ervas  Matos, este último criado por professores e estudantes da UFLA, onde 
mantém sua sede e realiza pesquisas e projetos em agroecologia até os dias atuais. No Yebá, 
trabalhava-se com diferentes subgrupos, tais como Alimentação Natural, Sistema Agroflorestais (SAFs) 
e Educação Ambiental nas escolas. Um dos primeiros projetos da FPDA e do Yebá com a comunidade 
foi a Horticultura Orgânica em Comunidades Carentes, iniciado em 1992, o qual visava à 
conscientização ambiental e a formação profissional, o ensino do plantio e alimentação saudável, 
aproveitando partes dos alimentos que eram descartados e que apresentavam grande valor nutricional, 
como folhas e cascas. Eram mantidas hortas orgânicas em creches e escolas nas quais as crianças e 
adolescentes atuavam nas diferentes etapas da produção de hortaliças e posteriormente dividiam os 
alimentos cultivados entre si (FPDA, 2001a e 2001b). 
A partir das hortas, o grupo iniciou a compostagem, que visava tratar da questão do lixo e 
trabalhar um ciclo que se inicia no plantio dos alimentos, consumo, descarte e reaproveitamento para 
novos plantios. Sendo assim, o lixo orgânico oriundo da cozinha escolar era transformado em um 
composto que servia de adubo para as hortaliças. Além das hortas nas escolas, havia uma horta que era 
localizada em um terreno cedido por um docente da UFLA, em um bairro que apresentava 
vulnerabilidade socioeconômica no município de Lavras, na região denominada Corredor. A horta 
contava com a participação da comunidade que a cultivava e recebia cestas com a partilha dos 
alimentos. Eram mantidos mutirões realizados aos sábados, nos quais participavam aproximadamente 
11 pessoas. Junto com a horta também se mantinha o preparo e a distribuição do “Sopão”. 
Com os mutirões e o Sopão eram realizadas reuniões. Os objetivos de tal atividade estão contidos 
na descrição do Sopão pela FPDA (1995):  
“Sopão: preparo de sopa de legumes com missô, em conjunto com a comunidade, 
conversa sobre os problemas que os afligem como: fome, falta de moradia decente, 
higiene, problemas sociais (racismo), saúde, educação, problemas ambientais, cidadania 
e etc. Juntos propor e buscar soluções necessárias”.  
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 205 
 
Dessa mobilização e diálogos surge a demanda por uma atividade que proporcionasse renda, 
tendo em vista o cenário brasileiro e a elevada taxa de desemprego daquela comunidade. Com a união 
dos objetivos da FPDA e da necessidade da comunidade, a proposta construída foi a coleta de materiais 
reciclados, já realizada por pessoas isoladamente. Assim, foram criados programas de apoio à 
organização comunitária. 
Utilizando a técnica do Diagnóstico Rápido Participativo (DRP), em março de 1998, foi 
direcionado o planejamento das ações necessárias para organizar a comunidade na atividade de coleta 
de materiais recicláveis para gerar renda. Dentre as intenções do DRP aplicado foi descrita a 
desmistificação do assistencialismo e a garantia da participação ativa da comunidade do Corredor 
(FPDA, 2001a e 2001b). 
O DRP é uma metodologia que se baseia no levantamento de informações e conhecimentos da 
realidade da comunidade ou de instituições, realizada por seus próprios membros. A mobilização dos 
envolvidos é estimulada a partir de reflexões sobre a realidade, perspectivas, desafios e avanços para 
visualizar o cenário envolvido e elaborar um programa de ação. Tal método reforça a construção dialógica e 
coletiva do conhecimento. O conceito de participação, para os diagnósticos e planejamentos participativos, 
fundamenta-se na divisão de poder no processo decisório, passando pelo controle das partes sobre a 
execução e a avaliação dos resultados pretendidos (Gomes, Souza e Carvalho, 2001). O associativismo 
incentivado pelo programa de coleta seletiva de material descartado tem papel fundamental em todo o 
processo, pois, além de garantir a participação, ele está ligado à emancipação dos sujeitos. 
Para tanto, o caráter participativo do diagnóstico possibilita ao grupo tomar parte, expressar 
visões, falar e refletir sobre sua própria realidade, experiências, conhecimentos, expectativas, desejos e 
necessidades mais imediatas. Torna-se possível construir um plano de ação mais próximo da realidade 
vivenciada e das necessidades prioritárias, além de propiciar a interação e o intercâmbio de saberes. 
O modo de pensar a coleta, a seleção, separação e comercialização do material reciclável são 
adaptações próprias da rotina dos associados. 
Após a aplicação do DRP, foi criado o Programa de Coleta Seletiva de Lixo, Associativismo e 
Educação Ambiental (FPDA, 2001a e 2001b). O aspecto do associativismo da ACAMAR é de extrema 
importância para entender sua dinâmica, uma vez que ele proporciona a construção de vínculos sociais 
e identidades coletivas, bem como permite que sejam refletidas e construídas estratégias de 
desenvolvimento local em conjunto. O trabalho associado é uma alternativa da economia solidária para 
impulsionar capacidades e criar oportunidades de trabalho digno. Cabe destacar, que promover o 
desenvolvimento local e territorial sustentável, por meio da economia solidária, pode resultar em 
soluções estruturantes para dinamizar cadeias produtivas e arranjos setoriais em redes de cooperação, 
provocando um desenvolvimento endógeno (Singer, Marinho e Schiochet, 2014). 
Em julho de 1998, o programa de coleta seletiva da ACAMAR se inicia com 13 catadores. Já em 1999, 
o número apresentado era de 8 mulheres e 2 homens. Havia muitos interessados, mas, devido à capacidade 
de organização, foi realizada uma seleção, para a qual se priorizaram: mulheres, as que tinham filhos e as 
pessoas que tinham maior necessidade de trabalho e renda. No início, as atividades eram divididas entre 
catadores no lixão, catadores de rua e um grupo que realizava a separação na sede da ACAMAR (FPDA, 
2001a e 2001b). Atualmente, a coleta é realizada na rua e em empresas conveniadas. 
Conforme os relatórios da FDPA (2001a e 2001b), em 1998 a renda líquida mensal era em média 
de 50 reais para cada catador e as despesas eram cobertas pela FPDA e parceiros. Já em 2000, a média 
mensal líquida de cada catador foi 200 reais e a ACAMAR passa a cobrir suas despesas2. No ano de 1998, 
                                                                      
2 Conforme o IPEA (2019), os valores do salário mínimo no Brasil foram: R$120,00 de maio de 1997 a abril de 1998; R$ 130,00 de maio 
de 1998 a abril de 1999; R$ 136,00 de maio de 1999 a março de 2000 e R$ 151,00 de abril de 2000 a março de 2001. Sendo assim, a 
renda média mensal líquida dos catadores da ACAMAR em 2000 foi 24,5% superior em relação ao salário mínimo. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 206 
 
os materiais eram coletados de, aproximadamente, 300 residências do bairro Nova Lavras, realizadas 
de “porta a porta”, somavam cerca de 1,5 toneladas por mês. 
No começo a coleta era realizada apenas com uma carroça. Posteriormente, com o 
reconhecimento e premiações do projeto foi possível adquirir um caminhão, a UFLA também contribuiu 
com a cessão do terreno, onde é mantida a sede da ACAMAR. 
Em 2001, já é possível notar grande expansão da associação conforme os relatórios da FPDA 
(2001a e 2001b), que se estima ter ocorrido pelo aumento da capacidade de coleta proporcionado pela 
aquisição do caminhão e pelo reconhecimento e consolidação da atividade da associação. Nesse 
período, a coleta era realizada em mais de 30 instituições, tanto públicas como privadas, havia 12 Postos 
de Entrega Voluntária (PEV’s), coleta “porta a porta” e “ponto a ponto”. O volume da coleta era de 
25 toneladas por mês. Entretanto, a formalização da ACAMAR ocorreu apenas em 2005.  
Apesar das características autônomas, até o ano de 2016 a coordenação da ACAMAR não era 
exercida por alguém que atuou como catador. Somente a partir de 2016 há um processo de mudança e, 
em 2017, um ex-catador, que havia se capacitado como potencial líder pelo programa Novo Ciclo de 
capacitação dos catadores do Sul de Minas Gerais, da marca Danone, é escolhido pelos associados e 
passa a gerir a ACAMAR. Dessa forma, a ACAMAR é composta em todos os níveis por seus associados 
e atores da comunidade, consolidando a ideia plantada pela FPDA de criar uma associação da 
comunidade de forma autônoma e emancipadora. Cabe ressaltar que, embora tenha ocorrido tal 
capacitação, ela foi realizada por apenas um membro. Tendo em vista a baixa intensidade tecnológica, 
a atividade não demonstra um aumento da renda conforme o aumento da escolaridade. Ainda, o 
modelo associativo pressupõe uma remuneração paritária, com uma divisão da renda de forma 
igualitária entre seus membros. Entretanto, uma capacitação conjunta, seguindo o modelo de 
construção da ACAMAR, pode contribuir para se aprimorar a atividade e suas tecnologias, aumentar o 
potencial produtivo e sua participação no setor, embora o processo ocorra lentamente e restritos à 
atividade da associação. 
Oliveira e outros (2013) apontam que para a constituição da estrutura da ACAMAR existiram 
algumas contribuições importantes de determinados atores, apesar da associação sobreviver com 
recursos próprios. Esses atores podem ser identificados como: a Prefeitura de Lavras, na contratação e 
remuneração da associação pelas toneladas de material reciclado coletado na cidade; a UFLA, que 
concede o terreno onde se localiza o galpão e a sede, além de ter disponibilizado sua infraestrutura para 
realização de palestras e eventos; empresas privadas, que contribuíram com a doação de materiais e 
também com a contratação dos serviços de consultoria e arborização. Porém, com a realização do 
presente estudo podemos identificar que os atores fundamentais na constituição da ACAMAR foram a 
própria comunidade e a FPDA. 
O processo de formação da ACAMAR foi importante para a FPDA, que passou a se formalizar 
com a ascensão da associação e de projetos para a educação ambiental. É depois da mobilização e união 
dos principais atores que surgiram as parcerias, como a coleta seletiva do município de Lavras vinculada 
à Prefeitura Municipal de Lavras e a coleta seletiva dentro de indústrias. Nesse processo, o 
Departamento de Administração e Economia (DAE) e o Departamento de Educação (DED) da UFLA 
contribuíram com orientações para o direcionamento das ações. É possível dizer que o projeto tem 
características de extensão, devido à conexão existente entre a UFLA, os estudantes, a FPDA e a 
comunidade, que segue a proposta de Freire (1983), na qual as práticas de extensão se contrapõem ao 
modelo assistencialista e de difusão de tecnologia. O autor sugere reformular a extensão baseando-se 
na comunicação, havendo diálogo e não uma imposição.  
A emancipação dos sujeitos está relacionada com a dimensão social do trabalho. Na extensão, 
expressa pela realização do trabalho social, deve ser efetivada e desenvolvida por seus participantes a 
busca pela conquista de integração social, em que tenha como perspectiva um processo para a 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 207 
 
formação do cidadão crítico, consciente e transformador, além de ativo, a fim de superar o idealismo 
contemplativo e interpretativo da natureza (Neto, 2004). 
“Havendo a produção do conhecimento pelo trabalho extensionista, e a consequente 
posse do mesmo pelos participantes, resgata-se dessa forma, a dimensão social do 
trabalho. A extensão se estabelece-se como um trabalho social, constituindo-se como 
expressão de um caráter social, porém como caráter universal de todo esse movimento, 
em que a sociedade, ao mesmo tempo que produz o homem, também é produzida por 
ele.” (Neto, 2004, pág. 70). 
Infere-se que a aplicação do DRP e a construção dialogada com a comunidade logrou êxito, uma 
vez que se manteve ao longo do tempo e percorreu um caminho para a autonomia e adaptação de seu 
meio. Tal êxito só pode ser percebido no longo prazo, pela absorção e atuação da comunidade. Ressalta-
se que essa construção é um processo ainda em andamento, pois a associação é um sistema orgânico 
em constante movimento que se ajusta conforme a dinâmica do espaço e tempo e a entrada de novos 
atores e membros. 
D. Desenvolvimento em perspectiva: desenvolvimento sustentável,  
a ACAMAR e o Big Push para a Sustentabilidade 
Partindo da perspectiva heterodoxa, se compreende o desenvolvimento como uma condição que 
provoca mudanças estruturais em determinada região, assegurando à população acesso aos serviços 
básicos, minimização das desigualdades sociais, disseminação do conhecimento e tecnologia, entre 
outros, atrelados à estrutura política. Esse desenvolvimento tem muitas vezes se confundido com o 
simples crescimento e aproximado muito do sistema capitalista, se expressando no acúmulo de capital. 
Ao estudar o processo de construção da ACAMAR, podemos observar que ao longo do tempo a 
associação demonstra traços para um desenvolvimento local. Destaca-se, sobretudo, a capacidade da 
associação em remunerar o trabalho e proporcionar a integração social de um grupo. É possível 
perceber uma ressignificação da coleta de materiais recicláveis à medida que essa atividade 
se institucionaliza. 
Com a atuação da FPDA e o engajamento da fundação na defesa ambiental por meio da educação 
ambiental, há um alinhamento com o desenvolvimento sustentável na construção da ACAMAR, que une 
diferentes pilares da sustentabilidade, como a vertente política, ambiental, social, econômica. Porém, 
o conceito de desenvolvimento sustentável, da forma como é apresentado atualmente à população, 
acaba desvirtuando o que deveria ser o verdadeiro foco do debate atual, que precisa abranger todos os 
aspectos e não apenas o ambiental (Matos e Rovella, 2010). Fica à margem, portanto, a discussão das 
diferenças causadas pela forma de organização social e de produção. Como conclui Matos e Rovella 
(2010), é necessária a reflexão sobre o debate que visa o atendimento das necessidades futuras, tendo 
em vista que na própria atualidade as necessidades já não são atendidas de forma isonômica. 
Devemos, por meio do desenvolvimento sustentável, buscar soluções que acabem com o 
crescimento desenfreado advindo do custo de grandes externalidades negativas, sejam ambientais ou 
sociais. É preciso uma transição que a princípio faça um gerenciamento de crises, uma imediata 
mudança de paradigma, passando de uma lógica financeira externa, para um crescimento baseado na 
mobilização interna de recursos (Sachs, 2008). “[...] carecemos de um paradigma convincente capaz de 
lidar com os dois problemas, desemprego maciço/subemprego e desigualdade crescente” (Sachs, 2008, 
pág.37). 
Ao tratar do subdesenvolvimento, grande obstáculo ao desenvolvimento sustentável, Furtado 
(1983, pág. 77) aponta que: 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 208 
 
“Uma abordagem mesmo superficial da história moderna põe em evidência que 
formações sociais assinaladas por grande heterogeneidade tecnológica, marcadas 
desigualdades na produtividade do trabalho entre áreas rurais e urbanas, uma proporção 
relativamente estável da população vivendo do nível de subsistência, crescente 
subemprego urbano, isto é, as chamadas economias subdesenvolvidas estão intimamente 
ligadas à forma como o capitalismo industrial cresceu e se difundiu desde o seu começo.” 
A difusão do capitalismo industrial, tecnologias determinantes e a criação de relações de 
dependência evidenciam as relações assimétricas que se constituem nas relações de trabalho, em que 
a abordagem da construção de tecnologias sociais tem sido praticamente nula. O padrão tecnológico e 
de produção, muitas vezes oriundos de países centrais, não se modificou conforme as especificidades 
regionais de seus diferentes destinos, tampouco era idealizado para atender as camadas mais baixas. 
Recentemente a CEPAL, baseada nas concepções de Rosenstein-Rodan, apresentou o Big Push 
para a Sustentabilidade como uma ideia-força, caracterizada por visualizar investimentos capazes de 
distinguir o crescimento e a geração de emprego da emissão de gases do efeito estufa. Para tal ideia, 
uma propulsão ao desenvolvimento viria de investimentos coordenados com foco na sustentabilidade, 
a partir do seu tripé econômico, social e ambiental (CEPAL/FES, 2019). Dessa forma, pretende-se pensar 
soluções alternativas para os problemas do desenvolvimento atual. Entretanto, tal alternativa nos exige 
grande esforço para que os investimentos sustentáveis em países subdesenvolvidos não acentuem os 
desequilíbrios e desigualdades da divisão internacional do trabalho. 
Ao analisar o caso da ACAMAR, notam-se aspectos importantes para repensar uma construção 
que caminhe rumo ao desenvolvimento sustentável. Grande estímulo surgiu da FPDA, que tinha como 
objetivo a educação ambiental e se apoiava na extensão dialógica de Freire. Sendo assim, o grande 
impulso tem sua origem baseada na educação ambiental, atuação social, uma extensão emancipadora 
e na resistência da comunidade. A presença da universidade pública também tem papel fundamental, 
tendo em vista que a UFLA contribuiu com orientações à FPDA. Considera-se que a UFLA e a ACAMAR 
tem uma relação colaborativa. 
Com a análise desse estudo pode-se perceber uma complexidade de seus investimentos. No caso 
temos a economia solidária, que tem uma dinâmica diferenciada. Além disso, a própria atividade da 
ACAMAR pressupõe um investimento inicial mínimo, que foi suprido pela força de trabalho dos 
catadores e a separação do material para comercialização, o que não exige complexidade técnica e 
grandes vultos de capital. A matéria-prima é oriunda de descarte e não apresenta custos de aquisição. 
Inicialmente, os investimentos são expressos pela carroça para a coleta, terreno emprestado pela UFLA 
e mutirões voluntários para a construção do galpão. O nível de escolarização também é baixo e os 
espaços de diálogo e planejamento para a construção da ACAMAR não tiveram como fim a 
especialização técnica dos catadores, mas promover trocas de experiências e saberes, inclusive com a 
FPDA, capazes de mobilizar e realizar uma ação transformadora, solidificada na emancipação dos 
sujeitos. Vale lembrar que a associação priorizou pessoas com menor nível de instrução e com menos 
absorção no mercado de trabalho.  
Observa-se que o apoio de projetos e premiações da associação com a FPDA foram importantes 
fontes de captação de recursos. O apoio aos projetos representa um estímulo que pode surgir de iniciativas 
alinhadas com a abordagem do Big Push para a Sustentabilidade. Os investimentos realizados na UFLA 
também podem ser destacados, tendo em vista que a FPDA advém do ensino e extensão da universidade, o 
que culminou na ACAMAR, representando um transbordamento. Posteriormente, com o crescimento da 
associação e parcerias entre diferentes instituições, além da Prefeitura de Lavras, foi possível reverter parte 
dos ganhos em investimentos para ampliação de sua estrutura. 
As instituições, com destaque às universidades, organizações sociais e o setor público, podem 
provocar efeitos de transbordamentos, sendo atores fundamentais ao Big Push para a Sustentabilidade 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 209 
 
em países como o Brasil. A pesquisa e o desenvolvimento fomentados por instituições públicas são 
cruciais à competitividade e desenvolvimento local, considerando que as condições econômicas e a 
desigualdade não favorecem investimentos individuais de forma a quebrar a hegemonia de 
determinados grupos. Em um desenvolvimento endógeno, é possível reverter ganhos para a 
comunidade e também aprender com ela. 
A economia solidária, por sua vez, corresponde a um processo social em que é preciso conhecer 
os símbolos que compõem a identidade da privação material e de direitos. Estão abarcados os processos 
sociais complexos de transformações da identidade e da exclusão social para uma identidade portadora 
de direitos de inclusão produtiva como a reciclagem e a logística reversa. As práticas sociais que tiveram 
êxito na organização de economia solidária e autogerida de catadores de materiais recicláveis 
apresentam uma combinação da positivação da identidade dos sujeitos e do pertencimento ao coletivo 
(Stroh, 2016). 
Como aborda Singer (2004), a pobreza como condição social obriga soluções conjuntas, a fim de 
minimizar os custos. A prática da ajuda mútua se torna indispensável à sobrevivência. Por isso, para 
combater a pobreza é necessário o desenvolvimento econômico nas comunidades pobres em seu 
conjunto, o qual pode ser induzido por agentes externos, como o terceiro setor, mobilizando a 
comunidade e possibilitando a formulação e realização de projetos. O autor também lembra que os 
projetos organizados pelas comunidades tendem a assumir a forma de economia solidária, inclusive por 
nenhum membro ter capital para assumir o papel de capitalista e assalariar os demais. Ainda, a ajuda 
mútua é fundamental para a melhora econômica e social dos desprovidos de capital. 
“O desenvolvimento que combate à pobreza é solidário e isso já vem sendo comprovado na prática em 
diversos lugares” (Singer, 2004, pág. 5). 
É interessante notar que o investimento realizado na ACAMAR está baseado na força de trabalho 
que cada ator poderia oferecer, sendo capaz de organizar e remunerar o trabalho, mantendo diferentes 
atores que se inserem na cadeia produtiva pela logística reversa. Sua prática de coleta seletiva auxilia 
no ciclo produtivo de modo sustentável, como o alumínio, que volta para a linha de produção. 
A associação se mostra como uma alternativa dentro do modelo capitalista, que talvez possa não 
representar a melhor forma de investimento ou expressar o ápice do potencial da comunidade, mas foi 
o modo possível para sua emancipação e superação naquele momento e naquelas condições. 
Pode-se, ainda, identificar a relação do caso estudado com duas eficiências norteadoras do 
Big Push para a Sustentabilidade. A primeira eficiência, a keynesiana, ressalta a importância de atuação 
em mercados que apresentam rápida expansão doméstica, conduzindo à aceleração da economia e 
multiplicação de empregos (CEPAL/FES, 2019). Tal eficiência está relacionada ao potencial de 
crescimento da demanda com efeitos positivos na produção, emprego e renda, aumentando a 
capacidade produtiva além dos limites da balança de pagamentos (Torezani e Piper, 2014). A reciclagem 
faz parte de um mercado com crescente demanda, sobretudo em uma ascensão de economia circular. 
O crescimento da demanda pelo resíduo recolhido, a capacidade de produção e geração de emprego e 
renda da associação de materiais recicláveis demonstra a eficiência keynesiana. 
A segunda eficiência, a da sustentabilidade, refere-se à típica eficiência nos três pilares do 
desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental), os quais estão claramente representados 
nas etapas do processo de construção da ACAMAR. Nesse sentido, são identificados alguns indicadores 
associados ao Big Push para a Sustentabilidade, divididos em três dimensões: econômica, social e 
ambiental. Numa dimensão econômica denotam-se como indicadores a ampliação de empregos e a 
geração de renda e criação de novos postos de trabalho. Na dimensão social vemos a redução da 
desigualdade de renda por fatores de discriminação ou demais brechas estruturais, como a de gênero e 
escolarização, uma vez que a ACAMAR priorizou mulheres, pessoas com baixa escolarização e as que 
tinham maior dificuldade para obter emprego; melhoria nas condições de trabalho, retirando pessoas 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 210 
 
do lixão para atuarem na associação, além de prezar a harmonia e democracia entre seus membros; 
redução da pobreza e pobreza extrema. Já na dimensão ambiental, têm-se o indicador que se refere a 
um melhor gerenciamento de resíduos sólidos e economia circular. Nesse ponto, especificamente, 
nota-se uma grande contribuição da ACAMAR, auxiliando para o tratamento adequado de resíduos no 
município, diminuição da poluição pelo descarte indevido desses resíduos e reinserção dos materiais no 
setor produtivo, contribuindo para a diminuição de retirada dessas matérias-primas da natureza. 
Além disso, esse caso mostra uma consonância com a Agenda 2030 e seus Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável (ODS) apresentados pelas Nações Unidas (ONU, 2015), que traça um 
plano de ação em escala global, o qual tem grande relevância ao se tratar do Big Push para a 
Sustentabilidade. Considerando as contribuições do presente estudo, dentre os ODS podemos 
ressaltar: o objetivo 8 que via a promoção do crescimento econômico sustentado, inclusivo e 
sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos, que em seu subitem 8.3 
pretende alcançar o emprego e trabalho decente para todos, sobretudo, mulheres e pessoas com menos 
absorção no mercado de trabalho, assim como foi observado na ACAMAR; o objetivo número 10 para a 
redução das desigualdades dentro do país e entre eles, destacando o subitem 10.2 que aponta o 
empoderamento e promoção da inclusão social, econômica e política de todos, o que pode ser 
observado no caso estudado pela emancipação dos sujeitos; o objetivo 11, tornar as cidades e os 
assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis, que visa a redução de impactos 
ambientais negativos e a gestão de resíduos ambientais, os quais são atividades centrais da ACAMAR. 
Porém, devemos salientar que há questões estruturais e, devido a sua complexidade e 
permanência, devem ser tratadas considerando um tempo de longa duração e uma ampla perspectiva 
a fim de se obter maior acurácia. Ainda, deve-se considerar a emancipação dos sujeitos e dos países, 
com a cautela para a não acentuação das desigualdades existentes. 
E. Considerações finais 
Do projeto mantido pela FPDA, chama a atenção o modo como a partir de uma prática para a 
subsistência, a horta comunitária, nasce um projeto de alto alcance e impacto na comunidade e 
reconhecido pelo município. As características iniciais da horta até a associação nos dias atuais 
demonstram que por meio de uma ação conjunta da comunidade em um país como o Brasil é possível 
alcançar índices de desenvolvimento em setores que não se caracterizam pelo uso intensivo de 
tecnologias dominantes, mas que são capazes de garantir emprego e renda. 
O tripé fundamental do desenvolvimento sustentável (social, ambiental e econômico), essenciais 
ao Big Push para a Sustentabilidade, é facilmente identificado na atividade de coleta seletiva, 
atendendo a proposta da CEPAL por investimentos que possam gerar emprego e renda com a 
diminuição da poluição. O modo como a FPDA exerceu e conduziu as atividades junto com a 
comunidade mostra que a concepção de extensão de Paulo Freire foi fundamental para que a associação 
se mantivesse até os dias atuais. Apesar dos obstáculos e limitações, depois de 20 anos a ACAMAR se 
fortifica com atuação e gestão predominantemente por atores da comunidade. É de extrema 
importância compreender que o processo histórico que envolve a associação está em constante 
movimento e ela está suscetível às mudanças. 
A universidade tem potencial de transbordamento para ações transformadoras na sociedade. O 
processo de construção de conhecimentos se intensifica com a prática e participação social. Desse 
modo, os projetos de pesquisa e extensão são capazes de receber e identificar as demandas da 
comunidade contribuindo para o desenvolvimento nas diferentes áreas. 
As parcerias com diferentes instituições, aliados à educação ambiental, extensão dialógica e 
atuação social em demandas da sociedade podem ser essenciais ao Big Push para a Sustentabilidade. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 211 
 
Gerando uma construção conforme cada realidade. Salienta-se, que nos dias atuais os desafios têm uma 
nova dinâmica, a desindustrialização e a acentuação da financeirização, com elevado grau especulativo, 
nos obriga a buscar soluções alternativas em que a necessidade inicial de grande vulto de capital não 
seja o principal fator. 
É possível impulsionar o desenvolvimento por meio da atuação da comunidade local, pretendendo-
se corrigir distorções capitalistas. Ocorre que muitas ações têm caráter filantrópico, no qual se insere uma 
ideia de ajuda tendo o fim em publicidade, assistencialismo e, até mesmo, domesticação. Esse tipo de ação 
não desencadeia melhorias e muito menos condições para o desenvolvimento. Como vimos no caso da 
ACAMAR, é preciso um impulso à revelação de atores sociais, que por meio da criatividade e capacidade 
causem uma ação transformadora. É importante salientar que o protagonismo deve ser desses atores e não 
de marcas que buscam se apropriar da força de trabalho. 
A interação e coordenação dos atores é fundamental e nos revela a possibilidade de práticas 
dialogadas com a emancipação dos sujeitos como formas de investimentos ao modelo do Big Push para 
a Sustentabilidade. A construção tecnológica, onde ocorre o desenvolvimento de habilidades, auxilia os 
integrantes a reconhecer suas demandas e buscar soluções adequadas ao seu contexto. Essas ações 
constituem processos de educação em que seus participantes constroem sua autonomia, seu potencial 
de reflexão sobre a problemática, bem como criar alternativas para uma solução, seja o 
desenvolvimento/adaptação de um artefato tecnológico ou mudança na forma de se organizar. Nesse 
sentido, investimentos que visem a tecnologia social podem gerar grandes resultados. 
A memória é um elemento que precisa ser estimulado na ACAMAR, resgatando os atores sociais 
e a comunidade como autônoma, haja vista que sua experiência deve ser difundida para outros locais e 
também dentro da própria associação para contribuir com a afirmação do grupo. Entende-se que esta 
história tem muito a revelar e necessita de mais investigações. Espera-se que esse trabalho possa 
motivar outros que deem voz aos atores da ACAMAR e da FPDA, além de acrescentar observações sobre 
o tema e a associação, podendo ser um modelo de reflexão e a ser aplicado em outras localidades. 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 213 
XIV. Projeto Tipitamba: transformando paisagens  
e compartilhando conhecimento na Amazônia 
Osvaldo Ryohei Kato* 
Anna Christina M. Roffé Borges* 
Célia Maria B. Calandrini de Azevedo* 
Debora Veiga Aragão* 
Grimoaldo Bandeira de Matos* 
Lucilda Maria Sousa de Matos* 
Maurício Kadooka Shimizu* 
Steel Silva Vasconcelos* 
Tatiana Deane de Abreu Sá* 
Resumo 
Na Região Amazônica, a agricultura familiar pratica tradicionalmente o sistema de derruba-e-queima, 
uma prática questionada pelas perdas em nutrientes, emissões de gases nocivos à atmosfera, riscos de 
incêndios e avanço do desmatamento. Assim, os níveis de sustentabilidade decrescem na medida em 
que as queimadas se repetem e o tempo de pousio é reduzido. A tecnologia desenvolvida pela Embrapa 
Amazônia Oriental (Sistema Tipitamba) propõe substituição deste método tradicional pelo sistema de 
corte-e-trituração. A tecnologia influencia favoravelmente as propriedades físicas, químicas e 
biológicas do solo, além do que a adoção permite também usufruir os serviços ambientais associados à 
presença da vegetação secundária em pousio (capoeira) que inclui melhoria no balanço e captura de 
carbono, transporte de água para a atmosfera, proteção à lixiviação e restauração ecológica. O preparo 
de área sem o uso do fogo, associado ao enriquecimento de capoeira e a sistemas agroflorestais, resgata 
                                                                      
*  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 214 
 
a sustentabilidade econômica, social e ecológica da produção na unidade familiar rural amazônica. O 
presente estudo analisa o caso dos investimentos no Sistema Tipitamba à luz da abordagem cepalina 
do Big Push para a Sustentabilidade. 
A. Introdução 
As queimadas são comuns na Amazônia na época de plantio para a limpeza da área e por disponibilizar 
nutrientes para a fase de cultivo. Este sistema necessita de pousios longos para ser sustentável, 
entretanto, a demanda por alimentos exerce pressão para redução deste período, comprometendo a 
capacidade de regeneração da vegetação (Sá e outros, 2007). Além disso, a modernização da agricultura 
contribui para a expansão de monoculturas na região, aumento da dependência de insumos externos, 
redução do nível de emprego rural e aumento do êxodo de agricultores para as cidades, agravando as 
desigualdades sociais e as típicas brechas estruturais entre setores econômicos modernos e primitivos, 
que se traduzem, entre outras, em profundas e persistentes diferenças de produtividade (CEPAL, 2016). 
Os agricultores da Amazônia usam o fogo por não terem acesso a alternativas viáveis de trabalhar 
com o solo e necessitam implantar suas roças para garantir a própria sobrevivência. Dessa forma, a 
agricultura familiar corre risco de não sobreviver, pois áreas intensamente exploradas não conseguirão 
produzir alimentos por mais gerações (Sá e outros, 2007).  
Em 1991, a Embrapa Amazônia Oriental iniciou uma cooperação técnico-cientifica com a 
Alemanha (Universidade de Göttingen e Universidade de Bonn) por meio do programa Studies of 
Human Impact on Forest and Floodplains in the Tropics – SHIFT, para realizar estudos que viabilizassem 
um futuro sustentável à agricultura familiar na Amazônia, focando no manejo sustentável da capoeira, 
no preparo da área para plantio e no pousio. Assim surgiu o Projeto “Tipitamba”, palavra que significa 
“capoeira” na língua dos índios Tyriós (Shimizu e outros, 2014). 
O objetivo principal do Projeto Tipitamba é propor uma alternativa tecnológica, socioeconômica 
e ambientalmente sustentável para a agricultura familiar visando a redução dos desmatamentos e 
queimadas e, uso eficiente dos recursos naturais e insumos agrícolas para o desenvolvimento dos 
sistemas de produção na Amazônia. 
As ações de pesquisa participativa deste projeto, além de serem direcionadas para reduzir o uso 
do fogo na agricultura amazônica, o desmatamento e o avanço da fronteira agrícola, abrangem a 
recuperação de áreas alteradas, redução do uso de agrotóxicos, transição produtiva agroecológica, 
aumento da qualidade do alimento produzido para segurança e soberania alimentar, diversificação da 
produção agrícola, melhoraria da renda de agricultores familiares, mitigação dos impactos ambientais 
e compartilhamento de conhecimento e troca de saberes com as famílias e escolas das comunidades 
rurais amazônicas. 
O presente estudo tem como objetivo analisar o caso do Sistema Tipitamba como uma 
alternativa sustentável para a prática da queimada na Amazônia, considerando-se o tripé do 
desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental). A presente análise guia-se pela 
abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). 
B. O Projeto Tipitamba 
A agricultura familiar na Amazônia é caracterizada pela prática da agricultura rotacional que intercala 
períodos de cultivo com períodos de pousio, em que a vegetação secundária (capoeira) acumula 
bioelementos a serem disponibilizados aos cultivos subsequentes, predominantemente via o preparo 
de área através da prática de derruba-e-queima (Salomão e outros, 2012). Sendo assim, as queimadas 
são cenas comuns na zona rural da Amazônia na época de preparo de área para plantio. O fogo é 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 215 
 
utilizado por facilitar a limpeza da área e por tornar os nutrientes da vegetação secundária prontamente 
disponíveis para a fase de cultivo através das cinzas. Este sistema de cultivo necessita de pousios longos 
(pelo menos 10 anos) para ser sustentável.  
O crescimento populacional e, consequentemente, o aumento da densidade demográfica 
exercem pressão para redução do período de pousio para menos de 10 anos, reduzindo a capacidade de 
regeneração da capoeira (Nepstad, Moreira e Alencar, 1999). Esse fato, aliado aos efeitos negativos 
exercidos pelo fogo no preparo de área para plantio, em face das perdas de nutrientes, risco de incêndio, 
emissões à atmosfera, tem comprometido a sustentabilidade do sistema.  
O acelerado aumento de desmatamento das florestas tropicais e o surgimento de enormes áreas 
de capoeira tem promovido uma mudança na paisagem da região e o avanço da fronteira agrícola. 
Entretanto, estas áreas ainda têm grande importância ecológica, em termos de crescimento florestal, 
acúmulo de biomassa, benefícios hidrológicos e manutenção da biodiversidade, pois são capazes de 
promover o bombeamento de nutrientes de camadas profundas, absorver e fixar dióxido de carbono 
(CO2) atmosférico, restaurar parcialmente as funções hidrológicas das florestas primárias, controlar a 
erosão, lixiviação e espécies vegetais invasoras, fornecer madeira, além de servir como corredor ou área 
de expansão da vida selvagem (Shimizu e outros, 2014). 
Há viabilidade no manejo destas áreas, desde que sejam conhecidas suas potencialidades. Assim, 
o Sistema Tipitamba baseia-se no manejo sustentável da capoeira como uma alternativa para recuperar 
áreas alteradas e antropizadas, evitar queimadas, expansão da fronteira agrícola e aumentar a fonte de 
renda do agricultor.  
Inicialmente, para melhorar a produção de alimentos na região, é possível enriquecer a capoeira 
com árvores leguminosas dentro do roçado. O plantio de árvores na fase agrícola tem por objetivo 
melhorar os acúmulos de biomassa e nutrientes e, no final do pousio, a biomassa acumulada pode ser 
triturada, espalhada como cobertura morta sobre o solo para que, após a decomposição, libere 
nutrientes para o roçado seguinte. A repetição desse ciclo ao longo dos anos melhora a incorporação da 
matéria orgânica ao solo e, consequentemente, suas propriedades químicas, físicas e biológicas 
(Shimizu e outros, 2014). É importante ressaltar também que neste sistema nenhum tipo de agrotóxico 
é utilizado durante o preparo de área e o cultivo. O preparo da área e plantio sem uso do fogo (Sistema 
Tipitamba) é mostrado na figura XIV.1 e também está disponível em vídeo em plataforma digital1. 
A tecnologia desenvolvida indica três possibilidades de sequência que irão nortear a implantação 
de sistemas de produção sustentáveis. A base é o preparo de área sem o uso fogo, seguido dos cultivos 
anuais por duas vezes na mesma área: após essa fase, a área pode seguir três opções: 
• Deixar a área em pousio natural por 4 a 7 anos; 
• Enriquecer capoeira com leguminosas de rápido crescimento com pousio de apenas 2 anos;  
• Introduzir fruteiras tropicais e espécies florestais transformando em sistemas agroflorestais. 
O preparo de área sem uso fogo pode ser realizado mediante diferentes ferramentas ou 
equipamentos e, dependendo do grau de desenvolvimento da vegetação, pode ser manual (facões e 
terçados), com ensiladeira ou mecanizado (fresador florestal) de acordo com a quantidade de biomassa 
de capoeira por unidade de área. 
 
  
                                                                      
1  Endereço eletrônico para acesso ao vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=iPlnyaGD4kw 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 216 
 
Figura XIV.1 
Trituração da biomassa, cobertura morta, plantio direto e sistema de produção  
sem uso do fogo e opções de continuidade (sentido horário) 
  
 
 
 
Fonte: Projeto Tipitamba – Acervo Embrapa Amazônia Oriental. 
 
O Projeto Tipitamba atravessou várias fases ao longo de sua existência para atingir o atual 
estágio de amadurecimento. Nos primeiros anos, foram desenvolvidas pesquisas básicas com objetivo 
de entender o uso do fogo na Amazônia brasileira e suas consequências. Após esse período exploratório, 
seguiu-se uma fase de pesquisa aplicada e focada em soluções permitiram a proposição de alternativas 
ao preparo de área tradicional, com o uso de ferramentas, máquinas e equipamentos agrícolas e 
compreensão do sistema de produção sem o uso do fogo. A partir deste momento, foi compreendido 
que a mudança de paisagem só seria possível com envolvimento de seu principal ator —o agricultor 
familiar. Assim, iniciou-se a fase de pesquisa-ação com o envolvimento das comunidades rurais. 
Atualmente, a adoção da tecnologia se faz presente em 35 famílias de pequenos produtores rurais, 
distribuídas nas comunidades de Nova Olinda, São João, Novo Brasil, Arsênio, Nossa Senhora Aparecida 
e Nossa Senhora do Rosário, nos municípios de Igarapé-Açu e Marapanim no Estado do Pará. 
Portanto, o referido projeto é na verdade um conjunto de projetos integrados e complementares 
(também chamada de estrutura “Guarda-Chuva”) dentro do sistema Embrapa, executando ações e 
envolvendo equipes entre outras cinco unidades da Embrapa na Região Amazônica —Acre, Amapá, 
Amazonas, Maranhão e Roraima. Há também projetos de fontes externas, tais como Conselho Nacional 
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Instituto de Desenvolvimento Florestal e da 
Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor), com diversos prazos de execução e duração visando garantir 
seu caráter de longo prazo.  
Opções: 
1°: Pousio natural por 4 a 7 anos;  
2°: Enriquecimento da capoeira (pousio de 2 anos);  
3°: Sistemas agroflorestais 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 217 
 
Ressalta-se a importante contribuição de parceiros públicos e privados ao longo de todos esses anos 
de pesquisa, sendo algumas parcerias formalizadas por meio de projetos e outras por cooperação na 
execução de atividades. Dentre estas, estão o governo alemão, prefeituras, associações e cooperativas de 
agricultores, universidades, bancos e órgãos financiadores, fornecedores de máquinas e implementos, etc. 
O projeto adota atualmente a metodologia de pesquisa participativa, ajustando a tecnologia sob 
a lógica dos agricultores, pois identificar e/ou prever os impactos e interferências sobre os sistemas de 
produção é de fundamental importância para que o processo de apropriação da tecnologia pelos 
agricultores seja efetivado. Nesse sentido, um amplo esforço de validação e adaptação tecnológica 
junto aos agricultores vem sendo realizado, para que possam gerar resultados que sejam utilizados na 
elaboração de políticas públicas e que permitam à adoção desta tecnologia por outros agricultores 
familiares para a recomposição da paisagem amazônica. 
O compartilhamento do conhecimento é baseado nas demandas da agricultura familiar, visando uma 
transição agroecológica por meio da adoção de práticas e tecnologias sustentáveis, respeitando os saberes 
locais. Por exemplo, foi identificado como inovação dos agricultores o uso dos quintais agroflorestais como 
uma alternativa para diversificação da produção de alimentos para consumo familiar e comercialização dos 
excedentes na geração de renda para suprir outras demandas. Com a valorização dos produtos da 
biodiversidade regional, esse processo ganhou mais importância e os agricultores passaram a expandir seus 
quintais para dentro dos cultivos da mandioca com introdução de espécies frutíferas, arbóreas e florestais.  
A identificação e sistematização das experiências de práticas e tecnologias sustentáveis de 
interesse dos agricultores têm sido realizadas pela pesquisa participativa e, assim, dando visibilidade e 
valorização dessas experiências que estão passando por um processo de validação científica. Esses tipos 
de sistemas de cultivos levaram ao desenvolvimento de sistemas diversificados de produção de forma 
simultânea, imitando as florestas naturais e sendo denominados de sistemas agroflorestais multitratos 
(Kato e outros, 2007). 
Os sistemas agroflorestais permitem ter produção a cada ano de implantação e, pela diversidade 
de associar espécies que produzem durante períodos diferentes do ano, possibilitam ter produção 
durante todos os meses do ano, garantindo segurança alimentar e renda com menor risco de ocorrência 
de pragas, doenças e fragilidade pela oscilação dos preços dos produtos no mercado (Moraes, 2017). 
Além disso, é economicamente viável, com ganhos ambientais, acúmulo de carbono, melhoria da 
qualidade do solo e socialmente adaptado às famílias, pois, devido a sua origem e criação, são baseadas 
em conhecimentos empíricos dos agricultores. 
Neste contexto, o projeto tem promovido ações de diálogo de saberes na construção 
participativa do conhecimento agroecológico em comunidades rurais amazônicas, promovendo 
capacitações e intercâmbios (figura XIV.2) entre agricultores e adotando também como espaço de 
transformação para as futuras gerações, as escolas do meio rural, envolvendo homens, mulheres, jovens 
e crianças no processo de diálogo com a comunidade. 
Para o envolvimento das escolas do meio rural, a Minibiblioteca da Embrapa é uma ferramenta 
usada para garantir o direito à informação e ampliar o acesso ao conhecimento técnico-cientifico, 
estimulando a leitura para estudantes, professores, técnicos e agricultores familiares e contribuir para 
uma produção de alimentos mais segura e de maior qualidade. Um total de 12 minibibliotecas foram 
entregues em escolas rurais localizadas nas comunidades onde o Projeto Tipitamba já desenvolve ações 
de pesquisa, promovendo a aproximação de pesquisadores, técnicos e agricultores com os professores 
e alunos em ambiente escolar para a troca de saberes (figura XIV.3). 
Atualmente, o acervo das Minibibliotecas é composto por um kit de 120 títulos impressos (com 
2 exemplares de cada), 8 DVDs com 80 vídeos do programa televiso da Embrapa, Dia de Campo na TV e 8 
CDs com 160 áudios do programa de rádio Prosa Rural. São conteúdos de interesse dos usuários organizados 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 218 
 
de acordo com coleções editadas pela Embrapa, as quais enfocam temas como preservação e educação 
ambiental; cidadania e cooperativismo; cultivo de hortas e quintais; criação de animais; produção de 
alimentos de qualidade; manejo do solo e da água e como iniciar uma pequena agroindústria de alimentos. 
 
Figura XIV.2 
Ações de capacitação e intercâmbio de agricultores 
 
Fonte: Projeto Tipitamba – Acervo Embrapa Amazônia Oriental. 
 
Figura XIV.3 
Minibibliotecas da Embrapa 
 
Fonte: Projeto Tipitamba – Acervo Embrapa Amazônia Oriental. 
 
C. O potencial transformador dos investimentos no Sistema Tipitamba  
O Sistema Tipitamba de corte-e-trituração mecanizado da capoeira desenvolvido pela Embrapa 
Amazônia Oriental no preparo de área se reveste de um pioneirismo em âmbito local, regional, nacional 
e internacional e tem sido validado em todos os Estados da Região Norte (Kato e outros, 1999; Denich 
e outros, 2002; Shimizu e outros,2014). 
O interesse pela tecnologia devido às informações científicas geradas no projeto tem tomado 
uma dimensão nacional com a formação da rede e com o interesse vindo de outros estados, como 
mostra o artigo publicado pela Revista USP (Sá e outros, 2007). Da mesma forma, a tecnologia está 
disponibilizada na página do Centro Mundial Agroflorestal (ICRAF) no programa de Alternativas para 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 219 
 
Agricultura de Derruba-e-Queima, além de ter recebido o Prêmio CREA-PA de Meio Ambiente e 
Recursos Hídricos em 2008 (Modalidade Meio Ambiente Rural) e certificado pela Fundação Banco do 
Brasil com tecnologia social em 2013.  
A adoção ampla do corte-e-trituração poderá contribuir em escalas local e regional para a 
redução na emissão de gases do efeito estufa, garantindo a manutenção da produtividade ao longo do 
tempo, constituindo-se assim em uma estratégia de “ganho-ganho”, que tem a vantagem em obter-se 
maior produtividade com maior conservação do ambiente (Ferreira, 2012). Destaca-se ainda o potencial 
para uso da tecnologia em todos os países Amazônicos e nos países da África que apresentam 
características ambientais semelhantes à Amazônia brasileira. 
No estudo feito por Rêgo (2016), no sistema tradicional de cultivo de derruba-e-queima, são 
necessários, em média, 25 dias/homens/hectare para a atividade de preparo de área para plantio (broca, 
derruba, queima, coivara). Com o sistema de corte-e-trituração motomecanizada, se gasta em média 
5 horas/hectare, liberando assim 25 homens dessa estressante atividade para outras atividades na 
propriedade como, por exemplo, a fabricação da farinha, a qual demandará mais mão de obra devido 
ao aumento da produção do cultivo, permitindo também a fabricação de outros subprodutos.  
Para a implantação de uma unidade do Sistema Tipitamba são necessários insumos e 
implementos agrícolas, combustível e mão-de-obra. O projeto não envolve agricultores individuais, 
estimula o trabalho comunitário e o associativismo nas comunidades rurais familiares visando a melhor 
otimização do uso dos recursos. 
Para o levantamento de custos de uma unidade da tecnologia neste estudo acima citado, é 
considerado uma área referencial tradicional de um hectare (ha) com produção do cultivo de mandioca 
consorciada com feijão-caupi —base da alimentação dos agricultores na região amazônica. A mandioca 
é cultivada em espaçamento de 1,0 x 1,0 metro e o feijão-caupi em 0,5 x 0,3 metro. No cultivo do feijão-
caupi é realizada uma adubação com NPK 10-28-20 ou NPK 18-18-18, em quantidade de 5 a 10 gramas 
por cova de feijão. O investimento inicial necessário é de R$ 2.616,10 para o primeiro ano considerando 
uma área de 0,33 ha, adotando com referência uma área total de 1 ha, dividido em 3 unidades de 
produção e com o cultivo rotacionado (uma área implantada e duas em pousio). 
É importante ressaltar que o estabelecimento de alianças estratégicas com parceiros é de 
fundamental importância para a implantação do sistema. Por este motivo, o projeto estimula a 
formação de uma rede atores rurais com objetivo de articular e integrar um conjunto de instituições 
para promover uma transição agroecológica e transformação social nas comunidades rurais. 
Entretanto, é de extrema importância a criação de políticas públicas que impulsionem a transição 
produtiva de forma mais abrangente na região. 
D. Os impactos econômicos, sociais e ambientais  
do Projeto Tipitamba  
Implantar ações que visem à redução do desmatamento e das queimadas na região Amazônia é um 
processo complexo e que envolve muitas quebras de paradigmas. A transferência de tecnologia em um 
modelo linear não é suficiente para a mudança de práticas agrícolas milenares, pois considerar os 
resultados da pesquisa como uma mercadoria a ser entregue aos agricultores não assegura a este 
público-alvo a garantia de subsistência. 
Por este motivo, o Projeto Tipitamba desenvolveu e adaptou-se à diferentes tipos de pesquisa 
até o amadurecimento para a pesquisa participativa, porque agir interativamente na construção de 
saberes coletivos, em realidades concretamente vividas e concebidas como sistemas territoriais, é a 
forma mais viável de se manter a sustentabilidade, seja na escala da unidade de produção familiar, do 
território ou do planeta. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 220 
 
A inovação em sistema territorial do Projeto Tipitamba permite que o conhecimento científico e 
tecnológico produzido dialogue com os conhecimentos construídos na prática cotidiana e se 
retroalimente. A sustentabilidade do meio ambiente não deve ser restrita a um padrão único de 
tecnologia, e sim, a padrões tecnológicos que sejam ajustados a cada realidade concretamente vivida.  
Além disso, é importante verificar que a construção do conhecimento nesse caso passou por 
etapas. Esse processo iniciou-se com a pesquisa científica básica, com seus trabalhos voltados 
unicamente para a busca de dados e respostas científicas, mas se transformou e evoluiu para conseguir 
contribuir de maneira que atendesse à necessidade dos agricultores familiares. E esses mesmos 
agricultores iniciaram sua própria transição produtiva de forma conjunta e contribuindo para mudar a 
paisagem da região (figura XIV.4). 
 
Figura XIV.4  
Sistema tradicional de derruba-e-queima e preparo de área sem queima do Sistema Tipitamba 
 
Fonte: Projeto Tipitamba – Acervo Embrapa Amazônia Oriental. 
 
Diante deste contexto, dentre os resultados alcançados pela tecnologia em diversos estudos 
realizados ao longo da execução do projeto (Kato e outros, 1999; Denich e outros, 2002; Davidson e 
outros, 2008; Borges e outros, 2011; Shimizu e outros, 2014), é possível mencionar os seguintes 
impactos relacionados às três dimensões do desenvolvimento sustentável, a partir da implementação 
do Sistema Tipitamba. 
Dimensão econômica: 
• Redução de perdas de nutrientes: a cobertura do solo aumenta o teor de matéria orgânica e 
melhora a fertilidade do solo, evitando a erosão e, com isso, reduzindo os custos para a 
recuperação da área; 
• Intensificação do sistema de produção: a tecnologia possibilita a redução do período de 
pousio de 4 para 2 anos e permite duas fases de cultivo consecutivas, enquanto que, o sistema 
tradicional permite apenas uma fase de cultivo. Isso contribui para a redução do tempo de 
produção, crescimento da produtividade e aumento da quantidade de alimentos; 
• Flexibilidade do calendário agrícola: o preparo da área para plantio não depende do período 
seco, pode ser realizado em outras épocas e possibilita oferecer ao mercado alimentos no 
período da entressafra, portanto aumentando a renda e reduzindo a vulnerabilidade 
socioeconômica das famílias, mitigando dessa forma a pobreza; 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 221 
 
• Redução na incidência de plantas espontâneas: a cobertura morta proporciona a inibição da 
germinação das sementes de plantas espontâneas que competem com as plantas cultivadas, 
reduzindo os custos de limpeza de área e capina, gerando maior eficiência no uso do solo; 
• Diversificação da produção: o sistema Tipitamba melhora a produção de importantes culturas 
alimentares, como a mandioca, milho, arroz e feijão-caupi. Além disso, a apropriação do 
conhecimento permite também a diversificação com sistemas agroflorestais multiestratos 
(figura XIV.5), boas práticas agrícolas e incremento na produtividade. 
 
Figura XIV.5 
Implantação de sistemas agroflorestais multiestratos em áreas preparadas e cultivo de plantas  
perenes em áreas preparadas com corte-e-trituração 
  
Fonte: Projeto Tipitamba – Acervo Embrapa Amazônia Oriental. 
 
Dimensão social: 
• Redução da penosidade do trabalho rural: a penosidade da atividade agrícola é um fator 
marcante entre os pequenos agricultores familiares amazônicos, a falta de recursos para 
investimentos em máquina e implementos afastam a futura geração do árduo trabalho no 
campo e aumentam a migração destes jovens para as cidades. Com o envelhecimento dos 
agricultores, algumas unidades de produção familiar não conseguem dar continuidade a 
atividade. A tecnologia do Sistema Tipitamba reduz o esforço físico do preparo de área por 
usar um método moto-mecanizado; 
• Redução de incêndios acidentais: o preparo de área sem queima evita os danos causados pelos 
incêndios acidentais como destruição de lavouras, de vegetação nativa, de casas e instalações 
rurais, morte de animais e perda de biodiversidade; 
• Redução de doenças respiratórias relacionadas à gases nocivos: a inalação da fumaça 
derivada da queima da vegetação promove prejuízos à saúde do homem do campo, pois é 
capaz de desencadear um processo inflamatório sistêmico, com graves consequências para o 
coração e pulmões; 
• Pesquisa participativa: a metodologia de pesquisa adotada permite valorizar e empoderar o 
homem do campo, ele deixa de ser um ator que recebe a tecnologia pronta para um ator que 
a ajusta as suas reais necessidades, retroalimentando as demandas para o meio científico, 
construindo capacidades tecnológicas e inovadoras;  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 222 
 
• Compartilhamento de conhecimento, valorização dos saberes e direito ao acesso à 
informação: o uso das Minibibliotecas como ferramenta de diálogo com as comunidades 
possibilita não somente o acesso às informações técnico-científicas, mas a valorização dos 
saberes locais e experiências de vida, além de promover a aproximação e o envolvimento de 
agricultores, professores e alunos no processo de transformação de paisagem. 
Dimensão ambiental: 
• Ciclagem de nutrientes: as raízes da vegetação atingem grandes profundidades e recuperam 
nutrientes lixiviados ao longo do perfil do solo; 
• Qualidade e gestão do solo: a biomassa é fonte de matéria orgânica e promove melhorias das 
características químicas, físicas e biológicas do solo; 
• Melhor conservação de água e regulação térmica do solo: a cobertura morta evita a incidência 
direta dos raios solares, mantém a temperatura mais baixa e estável, favorece a conservação 
da umidade e evita perdas por evapotranspiração e erosão do solo; 
• Conservação da biodiversidade: na fase de pousio, a vegetação secundária cresce e acumula 
biomassa e nutrientes que servirão para a fase de cultivo agrícola, assegurando a manutenção 
da biodiversidade; 
• Dinâmica de água e nutrientes: a permanência das raízes no solo é responsável pela formação 
de redes protetoras, reduzindo a perda de nutrientes por lixiviação;  
• Sequestro de carbono: o balanço final de sequestro de carbono pelo Sistema Tipitamba é 
maior do que no sistema tradicional devido à ausência de perdas pela queima e o maior 
acúmulo de biomassa pela vegetação de pousio; 
•  Redução da emissão de gases de efeito estufa: a tecnologia libera 5 vezes menos CO2 
equivalente quando comparada ao preparo de área tradicional com o uso do fogo, como 
mostra estudo publicado na revista Global Change Biology “An integrated greenhouse gas 
assessment of an alternative to slash-and-burn agriculture in eastern Amazônia” (Davidson e 
outros, 2008). 
Os resultados alcançados pelo Projeto Tipitamba apresentam aderência aos indicadores 
preconizados pela abordagem do Big Push para a Sustentabilidade, por promover o aumento de 
produtividade, melhoria da qualidade de produtos na unidade de produção familiar (dimensão 
econômica); melhorar as condições de trabalho, saúde e relacionamento com os agricultores, contribuir 
para a segurança alimentar e reduzir a pobreza no meio rural (dimensão social); reduzir a emissão de 
gases de efeito estufa, melhorar a disponibilidade e/ou qualidade da água, recuperar o solo, a vegetação 
e floresta, e, principalmente, melhorar a eficiência no uso de recursos naturais (dimensão ambiental). 
Além disso, estes benefícios que vêm sendo oferecidos por esta iniciativa da Embrapa Amazônia 
Oriental se relacionam com a Agenda 2030 e alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 
(ODS; ONU, 2015), em especial os seguintes: 
• ODS 2: Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover 
a agricultura sustentável. Em particular, via a meta 2.4: Até 2030, garantir sistemas 
sustentáveis de produção de alimentos e implementar práticas agrícolas robustas, que 
aumentem a produtividade e a produção, que ajudem a manter os ecossistemas, que 
fortaleçam a capacidade de adaptação às mudanças do clima, às condições meteorológicas 
extremas, secas, inundações e outros desastres, e que melhorem progressivamente a 
qualidade da terra e do solo; 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 223 
 
• ODS 12: Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis. Em particular, via meta 
12.2: Até 2030, alcançar gestão sustentável e uso eficiente de recursos naturais; 
• ODS 13: Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos, em 
particular quanto à meta 13.1: Reforçar a resiliência e a capacidade de adaptação a riscos 
relacionados ao clima e às catástrofes naturais em todos os países; e 13.3: Melhorar a 
educação, aumentar a conscientização e a capacidade humana e institucional sobre mitigação 
global do clima, adaptação, redução de impacto, e alerta precoce à mudança do clima; 
• ODS 15: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir 
de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação 
da terra e deter a perda de biodiversidade. Em particular, via a meta 15.2: Até 2020, promover 
a implementação da gestão sustentável de todos os tipos de florestas, deter o desmatamento, 
restaurar florestas degradadas e aumentar substancialmente o florestamento e o 
reflorestamento globalmente. 
E. Relação do caso estudado com o Big Push para a Sustentabilidade 
Segundo dados do IBGE/MMA (2004), a Amazônia brasileira ocupa 49,3% do território nacional, tendo 
a maior variedade de espécies animais e vegetais do planeta. Contrastando com essa riqueza natural, 
sua população representa em levantamentos estatísticos as mais baixas expectativas de vida, com os 
municípios de menor Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, menor renda per capita, com graves 
problemas ambientais e muitos conflitos agrários. 
Ao lado de focos de modernidades, como grandes empresas e corporações, resistem 
comunidades campesinas, ribeirinhas, quilombolas e indígenas, com rústicas técnicas de realização de 
trabalho, grandes obstáculos para sobrevivência e distantes do apoio do poder público. O êxodo rural 
como fuga desta difícil realidade e, consequentemente, o inchaço das cidades, promove desemprego, 
aumento da violência e outros problemas sociais. 
A região apresenta importantes particularidades para o planejamento de seu desenvolvimento, 
fazendo jus ao contexto socioespacial em que está inserida. O Censo Agropecuário de 2006 (IBGE, 2009) 
demonstra que as unidades de produção familiar representam 87% do total amazônico, com 413,1 mil 
estabelecimentos que contribuem com 60% da produção na região e lidam com entraves que os tornam 
pouco competitivos individualmente no mercado nacional. Contudo, a adaptabilidade de sistemas 
produtivos às características da paisagem natural e a adoção de práticas e tecnologias sustentáveis são 
importantes estratégias para equacionar os desafios locais. 
O acesso dos agricultores familiares a conhecimentos específicos apresenta um caráter determinante 
para promover o uso sustentável da terra, a redução da dependência de insumos, o aumento da produção, a 
mobilização e valorização dos atributos regionais, a redução dos desmatamentos e queimadas, o aumento 
da qualidade de vida e fixação de pessoas no campo. Buainain, Romeiro e Guanzirou (2003) destacam que a 
potencialidade da agricultura familiar advém da sua própria natureza de produção, com a diversificação de 
produtos como uma estratégia de mitigação de riscos e incertezas, o baixo nível de capitalização e reduzido 
uso de insumos industriais em larga escala.  
Entretanto, Tschiedel e Ferreira (2002) afirmam que a agricultura familiar precisa aumentar sua 
eficiência e tornar-se competitiva, com a adoção de novas práticas e tecnologias que possam atender 
as particularidades dos atores da categoria e de cada região, integrando os saberes já construídos e 
facilitando a relação entre o homem e a natureza, no qual o conhecimento tradicional seja valorizado 
no intuito de promover práticas sustentáveis. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 224 
 
Outro fator importante é a mecanização agrícola, pois otimiza as atividades no campo e é, 
atualmente, uma demanda crescente e importante para o aumento da produtividade e a melhoria de 
vida no meio rural. Segundo IBGE (2009), a participação de trabalhadores rurais no total da força de 
trabalho no Brasil diminuiu para 16% nos últimos dez anos, enquanto que, na década de 50, esta fração 
era de 64%. É possível observar que existe hoje uma menor proporção de pessoas que vivem no campo 
(redução de 28% entre 1970 e 2010) e produzem alimentos para uma crescente população urbana 
(aumento de 204% no mesmo período).  
A sucessão familiar no meio rural também é um grande desafio na região amazônica, onde as 
práticas tradicionais e a experiência dos pais nem sempre são atrativas aos descendentes mais jovens 
que desejam uma atividade menos penosa e com maiores resultados em curto espaço de tempo, 
geralmente amparados por recursos tecnológicos que demandam significativo aporte financeiro.  
Para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2018), as nações 
precisam investir na criação de empregos em zonas rurais, pontos de origem das migrações, além de 
promover a resiliência das famílias, cuja subsistência depende em grande medida da agricultura, 
considerando ainda o desafio das mudanças climáticas.  
Diante deste contexto, a Amazônia não pode estar desvinculada do Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil. É primordial identificar e investir em soluções resilientes, de baixo carbono 
e que reduzam a pegada ambiental para a construção de uma base sustentável para o ciclo de 
desenvolvimento econômico neste bioma. 
O Sistema Tipitamba é uma alternativa que permite a intensificação da produção de alimentos e 
geração de renda na unidade de produção familiar com recuperação de áreas alteradas, permitindo a 
flexibilização do calendário agrícola, evitando a exploração de novas áreas e conflitos de terra, reduzindo a 
penosidade do trabalho rural, contribuindo para fixar o homem no campo e minimizar o fluxo migratório 
para as cidades, além de reduzir o desmatamento e queimadas com suas emissões de gases de efeito estufa. 
Investimentos em tecnologias tais como o Sistema Tipitamba, portanto, podem contribuir para um Big Push 
(ou grande impulso) para a construção de um estilo de desenvolvimento mais sustentável na Amazônia. 
O Sistema Tipitamba relaciona-se com as três eficiências norteadoras da abordagem cepalina do 
Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). A primeira é a eficiência schumpeteriana, que 
ressalta as externalidades positivas do aprendizado e da inovação, que se irradiam para toda a cadeia 
de valor, a partir de uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em tecnologia, 
construído a partir de saberes tradicionais e de conhecimento científico. O caso relatado no presente 
estudo apresenta uma relação clara com a eficiência schumpeteriana, por promover uma inovação que 
representa uma quebra de paradigma no meio rural que é intensiva em conhecimento e aprendizado, 
com grande potencial para irradiar essa mudança tecnológica e inovação por toda a economia rural. 
A segunda é a eficiência keynesiana, a qual sublinha que uma maior especialização produtiva em 
bens cuja demanda cresce relativamente mais gera ganhos crescentes de escala e de escopo, produzindo 
efeitos multiplicadores e impactos significativos na economia e nos empregos. Apesar dos resultados 
positivos já observados nas famílias que adotaram o Sistema Tipitamba, nota-se que há desafios para que 
haja uma demanda em grande escala para essa tecnologia. Contudo, destaca-se que as políticas públicas 
têm o papel central de colocar em lugar incentivos e instrumentos para promover mais investimentos e 
dar escala a esse tipo de tecnologia sustentável, como se argumenta na Conclusão (Seção F). 
Por fim, a eficiência da sustentabilidade nos três pilares (econômico, social e ambiental) foi 
discutida na Seção D. 
Assim, verifica-se que o Sistema Tipitamba pode contribuir para o Big Push para a 
Sustentabilidade, contribuindo para um estilo de desenvolvimento capaz de promover o 
desenvolvimento socioeconômico mantendo e recuperando a base de capital florestal. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 225 
 
Entretanto, para reduzir os gargalos peculiares da agricultura familiar amazônica e assegurar a 
expansão em escala das atividades do projeto, é necessária uma nova geração de políticas para a o 
desenvolvimento sustentável. Assim, o Big Push para a Sustentabilidade é uma iniciativa que possibilitará o 
crescimento econômico com a mitigação da crise climática devido ao seu enfoque estrutural de longo prazo, 
integrado e centrado em estilos de desenvolvimento, considerando a dimensão territorial. 
F. Conclusão 
O Projeto Tipitamba promove a transição de sistemas de produção tradicionais (derruba-e-queima) 
para sistemas sem uso de fogo e de base agroecológica, promovendo impactos positivos nas condições 
sociais e econômicas das unidades de produção familiares, sobretudo com possibilidades de 
remuneração pela prestação de serviços ambientais. 
Indiretamente, o projeto contribui para a conservação dos recursos naturais, visto que, sistemas que 
não usam fogo no preparo de área possibilitam a conservação de água e solo e diminuem, substancialmente, 
os riscos de incêndios acidentais, promovendo, dessa forma, a conservação do ar e da biodiversidade. O uso 
de leguminosas como alternativa para reduzir o uso de adubos de alta solubilidade também contribui para 
mitigar possíveis impactos advindos da contaminação de lençol freático por fertilizantes.  
A tecnologia apresenta grande aderência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da  
Agenda 2030 da ONU, pois, ao proporcionar uma agricultura sustentável, é capaz de proteger, 
recuperar e reverter os impactos negativos dos ecossistemas terrestres na Região Amazônica, 
combatendo o desmatamento, as queimadas, emissões de gases de efeito estufa e a perda da 
biodiversidade. A produção agrícola sustentável sem o uso de agrotóxicos evita também a 
contaminação de rios e igarapés que são muito utilizados pela população local. 
A qualidade dos alimentos e a diversidade da produção oriundos deste sistema contribuem para 
a redução da fome e da pobreza no meio rural e, além de promover a segurança alimentar, influencia 
positivamente o crescimento econômico, a redução das desigualdades e a resiliência da agricultura 
familiar amazônica. E o envolvimento de diversos atores rurais (homens, mulheres, jovens e crianças) e 
a adoção da escola como um ambiente transformador, permite a aprendizagem e a troca de saberes de 
forma inclusiva, equitativa e de qualidade para todos. Sendo, portanto, uma iniciativa promissora e 
desafiadora para atividades em grande escala, que necessita de investimentos e políticas públicas para 
impulsionar o desenvolvimento local e a mudança de paisagem na região amazônica.  
Para que o projeto ganhe escala, é necessário contar com aportes governamentais ou não 
governamentais voltados à oferta e à mecanismos de acesso aos equipamentos e insumos 
componentes dos protocolos técnicos preconizados pela iniciativa, bem como à capacitação quanto aos 
aspectos gerenciais, no âmbito de organizações de agricultores familiares. Como exemplo, para as 
atividades de preparo de área via corte-e-trituração, poderia haver políticas voltadas à oferta de 
conjuntos de equipamentos (trator e triturador) nas patrulhas mecanizadas dos municípios para uso por 
comunidades de agricultores familiares mediante inscrição ou mecanismos de financiamento de 
equipamentos para entidades que congregam agricultores familiares (associações, cooperativas, 
sindicatos) e estes utilizariam no preparo de área no âmbito de sua área de ação, podendo também 
oferecer serviços a outras entidades como geração de renda. Nessa linha, também haveria a 
necessidade de capacitação de membros das entidades que aderirem ao processo, voltadas à 
capacitação de pessoas a serem envolvidas nas etapas administrativas e operacionais da atividade de 
preparo de área via corte-e-trituração. Para a implantação de sistemas agroflorestais, faz-se necessário 
ampliar a oferta de financiamento via bancos estatais compatíveis. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 226 
 
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CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 227 
XV. Desenvolvimento sustentável e geração de impacto 
positivo: caso Natura e Amazônia 
Resumo 
O presente trabalho se baseia no estudo de caso sobre a relação da empresa de cosméticos Natura S.A. 
com o desenvolvimento sustentável da região amazônica, tendo como base a sociobiodiversidade para 
composição dos produtos da companhia e estruturação de programas que contribuem para o manejo 
sustentável da floresta em pé. Em 1999, a companhia deu início a um relacionamento com a região 
amazônica ao lançar a linha Ekos, de produtos com ingredientes de origem vegetal da 
sociobiodiversidade brasileira. Desde então, a empresa expandiu o uso desses ativos para outras linhas 
de produtos e mantém relação com mais de 4,6 mil famílias na região pan-amazônica. Este caso busca 
concluir que, por meio de inovação, é possível pensar em novas formas de organização econômica na 
região, pautando-se pela promoção de bem-estar social, econômico e ambiental, em linha com a 
abordagem cepalina do Big Push para a Sustentabilidade.  
A. Introdução 
No fim dos anos 1990, diante da crescente preocupação com a degradação do meio ambiente pela ação 
do homem, a Natura Cosméticos S.A. tomou a decisão de incorporar ingredientes da biodiversidade 
brasileira na fabricação de seus produtos. Além de contribuir para o desenvolvimento sustentável por 
meio da transformação de desafios socioambientais em oportunidades de negócios, a motivação 
também foi a possibilidade de inovar em tecnologias verdes. Tendo a Amazônia brasileira como coração 
desse projeto, a empresa foi pioneira ao desenvolver um modelo de negócio que busca a valorização da 
economia da floresta em pé a partir da união entre ciência, natureza e conhecimento tradicional. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 228 
 
Depois de alguns anos de estudo em bibliografias, laboratório e campo, os ingredientes da 
biodiversidade brasileira passaram a ser utilizados de fato em 2000, ano de lançamento da marca Ekos. 
Nesse momento, o uso sustentável desses recursos se tornou uma plataforma de inovação de produtos 
da Natura e uma de suas principais linhas de pesquisa. Em 2002, mais uma decisão pioneira foi tomada: 
a Natura assumiu o compromisso de relacionamento e gestão com as comunidades fornecedoras de 
ingredientes da sociobiodiversidade, por meio de cooperativas de agricultores familiares. Isso porque, 
aos poucos, companhia entendeu que o relacionamento com os povos e as comunidades locais era fator 
essencial para manutenção da biodiversidade e do compromisso da empresa com comércio justo, 
repartição de benefícios e transparência na cadeia de abastecimento.  
Por reconhecer a importância do ecossistema amazônico, em 2011, a companhia decidiu 
intensificar suas ações na região. O foco era potencializar as redes de trocas e as conexões entre os 
diversos atores, visando fomentar o enorme potencial da região e promover benefícios socioambientais 
para além das comunidades fornecedoras. Naquele ano, foi lançado o Programa Natura Amazônia 
(PAM), cujo objetivo primordial era tornar a Natura um vetor da criação de negócios sustentáveis e da 
promoção de desenvolvimento local a partir de ciência, inovação e empreendedorismo, com foco na 
valorização da sociobiodiversidade, do conhecimento tradicional e da cultura regional. 
A partir da criação do PAM, foi adotada a estratégia de atuar em Territórios Sustentáveis, 
focando os investimentos em áreas geográficas prioritárias na Amazônia —foram definidas as regiões 
do Médio Juruá, Nordeste Paraense (NEPA), Xingu-Tapajós, Acre-Purus e Manaus Norte-Sul, visando 
transformá-las em polos da sociobiodiversidade, com criação de renda e fortalecimento institucional 
das comunidades agroextrativistas locais. 
O presente estudo tem como objetivo analisar o caso da Natura como uma empresa que faz da 
sustentabilidade um modelo de negócios, a partir da discussão de iniciativas específicas da empresa que 
se articulam com essa visão de negócios sustentáveis. A presente análise guia-se pela abordagem do 
Big Push para a Sustentabilidade. 
B. Modelo de negócio sustentável 
A trajetória da atuação da Natura em sociobiodiversidade está profundamente ligada à criação de Ekos, 
a primeira marca da empresa a utilizar ingredientes da biodiversidade brasileira em seus produtos. Seu 
lançamento, em 2000, materializou o propósito pioneiro da companhia de integrar os ativos à sua 
plataforma de inovação. Tratava-se não só da criação de uma nova linha de cosméticos, mas de um 
novo modelo de negócios pautado pela valorização da floresta em pé e pelo desenvolvimento 
socioeconômico da população local. 
O lançamento da marca foi precedido por uma ampla pesquisa dos diferentes ecossistemas do país 
para identificar potenciais insumos da biodiversidade brasileira. Os primeiros ativos usados na fabricação dos 
cosméticos de Ekos foram a Castanha, a Andiroba, o Cupuaçu e o Guaraná, negociados com fornecedores 
que compravam as matérias-primas dos agricultores locais. Mas a companhia sentiu a necessidade de 
estabelecer uma conexão maior com as comunidades agroextrativistas. Elas tinham —e continuam a ter— 
papel fundamental na conservação da biodiversidade, sendo guardiãs de um conhecimento fundamental 
para o desenvolvimento das pesquisas sobre os ativos. Assim, em 2002, a Natura optou por assumir o 
relacionamento direto com as famílias locais por meio de cooperativas e associações, um compromisso 
importante para um modelo de negócios que visava gerar riqueza compartilhada. 
A marca Ekos, naturalmente, cresceu com essa evolução, expandindo o conceito de produtos 
comprometidos com a sociobiodiversidade brasileira para outras linhas e para a própria identidade da 
Natura. Inicialmente voltada para o banho, Ekos estendeu sua linha para produtos como hidratantes 
corporais, cremes para as mãos e pés, perfumes, desodorantes e óleos trifásicos. Nesse sentido, é 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 229 
 
importante ressaltar que a empresa também pesquisou o patrimônio genético dos ativos para 
desenvolver novas formas de utilizá-lo. O sucesso do lançamento contribuiu fortemente para a 
construção da imagem da Natura. Dois anos após a criação de Ekos, seus produtos já representavam 
cerca de 10% do faturamento anual da empresa, promovendo um aumento de 38% no volume de 
vendas. Além disso, a marca também teve protagonismo no processo de internacionalização da Natura, 
com alta aceitação pelos consumidores, principalmente, na França e nos EUA. 
As transformações trazidas por Ekos provocaram uma reação em cadeia em outras categorias de 
produtos. Em 2004, houve a vegetalização de todas as fórmulas de sabonetes da Natura, que passaram 
a ser 100% livres de gordura animal, incorporando maior concentração de óleos vegetais produzidos na 
Amazônia. Os ativos também deixaram de ser ingredientes exclusivos de Ekos para serem adicionados, 
ao longo dos anos, a cosméticos de outras linhas, como Chronos, Natura Homem, Tododia, itens de 
maquiagem e perfumaria. 
Em sua trajetória, Ekos teve dois relançamentos nos quais buscou aprofundar seu 
posicionamento e oferta. O primeiro foi em 2011, quando levou às prateleiras novos produtos com 
embalagens e rótulos atualizados que davam mais evidência às propriedades naturais e às 
características de cada insumo, expondo informações sobre tecnologia verde e contando histórias e 
tradições que envolvem os ativos e as comunidades parceiras. Em 2016, foram lançados frascos feitos 
de material 100% reciclado pós-consumo, usados em diversas linhas de produtos da companhia. Isso 
significa tirar do meio ambiente treze milhões de garrafas PET de 2 litros descartadas anualmente, 
recuperá-las e reciclá-las, e deixar de emitir 818 toneladas de carbono por ano, considerando as 
operações da Natura no Brasil e na América Latina. Essa tecnologia já havia sido aplicada em 2014, nos 
refis da linha de fragrâncias Natura Ekos Frescores, produzidos com PET 100% reciclado pós-consumo, 
gerando 72% menos emissões de gases do efeito estufa. 
Também em 2016, em sintonia com os 10 Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas – 
ONU (mais tarde ampliados para 17 e rebatizados de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ou ODS – 
ONU, 2015), Ekos assumiu o desafio de promover novas alternativas de produção e consumo para contribuir 
com o desenvolvimento da região amazônica. Em sua atuação com as comunidades agroextrativistas, a 
Natura contribui para preservar a Igualdade de Gênero (ODS 5), para constituir formas de Trabalho Decente 
e Crescimento Econômico (ODS 8) e preservar a Vida sobre a Terra (ODS 15), principalmente.  
A premissa transformadora de Ekos é construir uma história em que toda a cadeia envolvida  
—desde a produção até o consumo final dos produtos— seja beneficiada. As comunidades fornecedoras 
ganham com a renda da extração dos ativos e com a descoberta de novas possibilidades de empreender, 
com R$ 330 milhões investidos nas comunidades em 2018; os processadores das matérias-primas 
ganham com a preparação de novos produtos; as consultoras com a receita gerada pela venda dos 
cosméticos, que aumentou 12% em 2018, na comparação com o ano anterior (Natura, 2019b). 
E, finalmente, ganham os consumidores, que têm à sua disposição artigos de beleza inovadores, com 
benefícios para o cuidado com o corpo e com valores socioambientais agregados. 
1. Estudo de caso Ucuuba 
A Ucuuba é um importante exemplo de como é possível inverter a lógica de produção —do conceito de 
exploração para o de conservação— no bioma amazônico. O nome, que vem da junção das palavras do 
tupi uku (gordura) e uba (árvore), significa “árvore que produz substância gordurosa”. De porte médio, 
essa espécie que enriquece a paisagem de áreas alagadas da Amazônia está seriamente ameaçada de 
extinção. Sua madeira leve e clara, com um cerne que varia de bege-claro a castanho-escuro, é muito 
procurada pelos madeireiros, sobretudo para uso na construção civil e para a produção de cabos de 
vassouras. No entanto, seu verdadeiro valor não está na madeira, e, sim, nas sementes, que se 
desprendem dos frutos quando maduros e boiam na água, formando um tapete vermelho sobre os 
igapós e igarapés. Mais que isso: produzem uma manteiga natural com alto poder de hidratação, 
reparadora da pele e de textura leve. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 230 
 
Tipicamente amazônica, a Ucuuba tem como habitat as várzeas —planícies periodicamente 
cobertas pelas águas dos rios. É comum encontrá-la também nas margens de igarapés, furos e áreas 
que costumam ser atingidas pelas cheias. Na década de 1980, com a produção nacional de 
compensados, a madeira da Ucuuba foi intensamente explorada, chegando a ocupar a terceira posição 
entre as espécies mais exportadas. Isso a colocou na lista vermelha da União Internacional para a 
Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês), como uma das espécies 
que estariam extintas até 2050. 
A Natura identificou o potencial de uso das sementes de Ucuuba em 2004, durante um mapeamento 
para o desenvolvimento de óleos e manteigas a partir de matérias-primas encontradas na Amazônia. E, nove 
anos depois, apresentou sua linha Natura Ekos Ucuuba. Diante do cenário de vulnerabilidade da espécie, a 
Natura desenvolveu um projeto de conservação em parceria com um centro de pesquisa nacional e as quatro 
comunidades fornecedoras de sementes: MMIB, COFRUTA, CAEPIM e CART. O trabalho identificou boa 
diversidade genética nas áreas fornecedoras, mobilizou e sensibilizou os comunitários para o tema e gerou 
o Manual de Boas Práticas de Manejo e Conservação de Ucuuba.  
Foram produzidas e distribuídas 5 mil mudas nas comunidades para promover a conservação on 
farm —plantio de enriquecimento nas áreas de coleta. Por meio de estudos do retorno financeiro do 
comércio da madeira, foi possível estabelecer que a safra anual de uma ucuubeira preservada gera uma 
renda três vezes maior para as comunidades do que a exploração madeireira. Isso porque, no lugar da 
derrubada, que só acontece uma vez e rende somente entre R$ 10 e R$ 20 por árvore, a extração de 
sementes pode ser feita por 10 anos, no mínimo, e rende em média R$ 25 por planta, por ano. Com essas 
ações, as ucuubeiras começaram a ser preservadas nos locais onde a Natura passou a atuar.  
Essa cadeia produtiva, que inclui a Ucuuba e outras espécies usadas na produção de cosméticos 
da empresa, também contribui para a conservação de 1,8 milhão de hectares na Amazônia, área 
equivalente a 12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo (Natura, 2019a). O número considera as áreas 
em que a Natura desenvolve iniciativas que geram impacto positivo para a conservação. A informação, 
com metodologia reformulada, é atualizada anualmente pelo Projeto de Estimativa do 
Desflorestamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/PRODES, s/d), 
responsável por realizar o mapeamento via satélite do desmatamento na Amazônia Legal. 
O valor estabelecido para a compra de Ucuuba foi definido a partir do diálogo aberto com as 
comunidades, seguindo princípios de comércio justo, e é reajustado anualmente. A árvore da Ucuuba 
produz seus frutos no “inverno” amazônico, período chuvoso que vai de dezembro a junho. Quando os 
frutos estão maduros, se rompem e liberam a semente, que apresenta um arilo, uma cobertura carnosa 
de cor vermelha intensa. As sementes caem ao redor da árvore, que muitas vezes se encontra em áreas 
alagadas. Os ribeirinhos costumam coletar as sementes de Ucuuba uma a uma, junto às árvores ou na 
água dos rios, depositando-as em pequenos cestos chamados paneiros. Por meio de uma capacitação feita 
pela Natura, eles foram instruídos a colherem apenas 50% dos frutos, deixando que a outra metade seja 
levada pelo rio e semeada naturalmente em outros locais, garantindo, assim, a preservação da espécie.  
O caso da Ucuuba trouxe à tona a questão da igualdade de gênero —um dos ODS da ONU—, que, 
por heranças culturais, ainda é muito precária na região. Lá, a gestão dos recursos econômicos gerados 
com o trabalho nas áreas rurais e florestais fica mais restrita aos homens, enquanto as mulheres se 
dedicam a atividades domésticas. A Natura contribui para transformar essa realidade com o trabalho 
junto ao Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB), por meio do qual teve acesso ao 
patrimônio genético e ao conhecimento tradicional da Ucuuba. Com a parceria com a empresa, as 
mulheres do MMIB passaram a ter uma nova fonte de renda pelo fornecimento das sementes. Em uma 
região antes sustentada somente pela pesca e pelo turismo, elas ganharam mais autonomia e puderam 
melhorar seu padrão de vida, além de receberem a repartição de benefícios.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 231 
 
Esses recursos permitiram, em 2013, a reforma da sede da associação, que hoje abriga uma 
biblioteca para atender associados e alunos de seis escolas da ilha, contribuindo para a educação de 
crianças, jovens e adultos. Ali também são realizados cursos de capacitação sobre temas como manejo 
do solo e cultivo orgânico, que oferecem subsídios para que a comunidade possa melhorar e diversificar 
a produção, além de agregar valor ao trabalho e aos produtos fornecidos. Outra conquista permitida 
pelo recurso foi a criação do projeto Vida e Companhia, com atendimento médico e atividades para 
qualidade de vida da população idosa da ilha. Além de tudo, a associação pôde se organizar e se 
fortalecer, tornando-se uma referência de empreendedorismo e liderança social na região. 
C. Estruturação de investimentos no âmbito  
do Programa Natura Amazônia  
Em 2011, a Natura lançou o Programa Natura Amazônia (PAM), cujo objetivo é fomentar negócios 
sustentáveis e o desenvolvimento local, sempre com foco na valorização da sociobiodiversidade, do 
conhecimento tradicional e da cultura da região.  
Para atingir esse propósito, porém, era preciso estruturar melhor a presença da empresa na 
Amazônia, até então pautada pela relação com comunidades fornecedoras e pela produção de noodles, 
a massa base para sabonetes, em sua unidade industrial situada em Benevides (PA). Em 2012, foi 
inaugurado o Núcleo de Inovação Natura na Amazônia (NINA), em Manaus, com o objetivo de 
estabelecer uma rede com instituições locais e mundiais voltadas à ciência, à tecnologia e à inovação. 
Já em 2014, a atividade industrial em Benevides foi expandida com a inauguração do Ecoparque, um 
parque industrial cujo propósito é atrair parceiros para impulsionar a geração de negócios sustentáveis 
na Amazônia. Dois anos depois, o NINA foi transferido para lá. A Natura vem atuando também no 
desenvolvimento local no entorno do município paraense, com foco na qualificação da mão-de-obra 
local, na educação básica e no fomento ao empreendedorismo. 
A partir da criação do PAM, a atuação da Natura no relacionamento com as comunidades 
fornecedoras, que se encontrava dispersa pelo Brasil, pôde convergir para a região, potencializando o 
impacto positivo e possibilitando que as iniciativas pudessem ganhar robustez a partir da atuação em rede. 
A empresa adotou a estratégia de atuar em Territórios Sustentáveis, focando os investimentos em áreas 
geográficas prioritárias na Amazônia e respeitando as vocações, recursos e potencialidades locais.  
No Médio Juruá e na Região do Baixo Tocantins (NEPA), a Natura colaborou com a formação de 
redes de parcerias com as populações locais e demais atores, como governos, ONGs, institutos de 
pesquisa e formação, entidades regionais e outras empresas, para identificar seus desafios e prioridades 
e, assim, focar em algumas temáticas para o fortalecimento do desenvolvimento local do território. 
Nessas regiões, a Natura concentra esforços e investimentos para a promoção e a escalabilidade de 
iniciativas e negócios da sociobiodiversidade. 
Os investimentos do PAM são baseados em três pilares:  
i) Ciência, Tecnologia e Inovação: tem como princípio alavancar a pesquisa acadêmica e 
científica sobre os ativos da região e a etnobotânica, buscando novas matérias-primas, 
ingredientes vegetais e outros insumos. E, ainda, aprimorar os processos produtivos e a 
tecnologia sustentável empregada, visando a conservação e a regeneração ambiental e a 
agregação de valor local. 
ii) Fortalecimento Institucional: empoderar as comunidades e articular as redes de 
organizações parceiras a fim de viabilizar ambientes favoráveis ao desenvolvimento local. 
iii) Cadeias Produtivas: estruturar, aprimorar e expandir cadeias produtivas sustentáveis da 
sociobiodiversidade, incrementando e fortalecendo as cooperativas e as famílias envolvidas com 
o fornecimento de insumos para a promoção da inclusão social e o respeito à diversidade pela 
geração de trabalho e renda e o relacionamento com populações agroextrativistas. 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 232 
 
Tabela XV.1 
Principais diretrizes e compromissos do PAM 
 2016 2017 2018 Compromisso da Visão para 2020 
Comunidades com as quais a Natura se relaciona 33 34 37 - 
Famílias beneficiadas na Pan-Amazônia 2 119 4 294 4 636 10 000 
Volume de negócios na região pan-amazônica 
(R$ milhões) 
973 1 222 1 507 1 500 
Fonte: Elaboração própria com base em Natura, “Relatório Anual 2018” [online], São Paulo https://static.rede.natura.net/html/2019/a-
natura/pdf/relatorio_anual_natura_2018.pdf [data de consulta: 24 de outubro de 2019], 2019. 
 
1. Ciência, tecnologia e inovação 
Com o lançamento do Programa Natura Amazônia, a criação do pilar de Ciência, Tecnologia e Inovação 
foi fundamental para otimizar o desenvolvimento de novas matérias-primas e ingredientes vegetais a 
serem aplicados tanto na fabricação de novos produtos, quanto na substituição de insumos de fontes 
não renováveis, sintéticos e de origem animal. Entre as diretrizes da Natura, está priorizar o uso de 
espécies nativas da Amazônia para pesquisa e desenvolvimento de novos ingredientes. 
Para que uma matéria-prima oriunda da sociobiodiversidade seja adotada, são realizados 
estudos que levam em conta a produção desde a ponta da cadeia, no contato com os produtores rurais, 
até a escala industrial. O processo de pesquisa tem alto grau de complexidade e pode durar de três a 
cinco anos. São contempladas diversas etapas, como análise de patentes, regularização do acesso ao 
patrimônio genético e do conhecimento tradicional associado, revisão bibliográfica, pesquisa 
fitotécnica, desenvolvimento de tecnologias, testes de segurança e eficácia, registros nacionais e 
internacionais, desenvolvimento dos processos de escalonamento da produção vegetal e 
escalonamento industrial. As pesquisas em campo contam com o apoio de instituições de pesquisa, 
ONGs, órgãos governamentais e empresas beneficiadoras, além da parceria fundamental com as 
comunidades agroextrativistas. 
O acesso a um novo recurso vegetal é feito prioritariamente em comunidades, grupos de 
agricultores familiares e áreas protegidas com os quais a Natura já se relacione, para potencializar os 
benefícios sociais e ambientais. No processo de inovação, a participação dos produtores rurais é de 
importância crucial para a validação das etapas de produção e das tecnologias adotadas, que precisam 
estar adequadas à realidade local. Pautado pela aprendizagem, cooperação e confiança, o 
relacionamento com as cooperativas e associações começa com a obtenção do consentimento. Por 
meio dele, os atores envolvidos expressam concordar em compartilhar o patrimônio genético com a 
Natura e são estabelecidas as bases da repartição de benefícios. Em seguida, inicia-se a pesquisa e o 
desenvolvimento tecnológico, passando para o fornecimento da matéria-prima ou ingrediente vegetal 
para produção industrial dos cosméticos.  
A matéria-prima vegetal, fresca ou seca, pode ser qualquer parte da planta —flores, frutos, folhas, 
ramos, raízes, sementes— ou mesmo a planta inteira. Já os ingredientes vegetais podem ser extratos, 
manteigas e óleos essenciais obtidos após etapa de processamento. Em muitos casos, o próprio 
fornecedor rural comercializa o produto pré-processado, sendo apoiado pela Natura por meio do 
investimento em capacitação e tecnologia, o que agrega valor ao negócio do pequeno produtor e 
garante vantagens logísticas e maior rastreabilidade do ciclo de vida completo dos produtos. 
Atualmente, 70% dos ingredientes comprados na região amazônica são produzidos em agroindústrias 
locais —um percentual que vem avançando nos últimos anos. 
Além das pesquisas para desenvolvimento de novos ativos vegetais e sua cadeia de produção, 
são realizados estudos para a implementação de sistemas produtivos sustentáveis, priorizando a 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 233 
 
adoção de modelos ecológicos de produção vegetal (manejo florestal e cultivo). Preferencialmente, a 
monocultura deve ser proveniente de fontes sustentáveis que garantam boas práticas de manejo e 
abastecimento. Além disso, a Natura não incentiva pesquisas científicas com Organismos 
Geneticamente Modificados —OGMs na produção das culturas da sociobiodiversidade. 
O pilar de Ciência, Tecnologia e Inovação também é responsável por incorporar, ao desenho dos 
sistemas de produção, tecnologias verdes com foco na conservação da biodiversidade pelo uso eficiente 
dos recursos naturais, reuso de resíduos e baixo carbono; tecnologias sociais que privilegiam a inclusão 
econômica e o uso dos recursos da sociobiodiversidade; e tecnologias responsáveis que promovam o 
trabalho seguro, a integridade e a transparência. 
2. Fortalecimento institucional 
No pilar de Fortalecimento Institucional, a atuação da Natura se dá por meio de parcerias multissetoriais 
para a implementação dos Planos de Desenvolvimento Local. Isso é feito através de investimentos em 
empreendedorismo, educação e cadeias produtivas da sociobiodiversidade, e pelo fomento à formação 
de redes de desenvolvimento local. A companhia também contribui para a formação de lideranças e 
apoia o fortalecimento de associações e cooperativas. Além disso, promove treinamentos técnicos 
voltados ao manejo e à produção agrícola sustentável e investe na agregação de valor local por meio do 
beneficiamento dos ativos pelas comunidades. Para tanto, a companhia conta com um time dedicado 
ao trabalho de campo com as comunidades, a Gerência de Relacionamento e Abastecimento da 
Sociobiodiversidade (GRAS). 
Um caso relevante se dá com o Médio Juruá, região com a qual a empresa mantém 
relacionamento desde 2000. Inicialmente, sua atuação estava baseada na compra de Andiroba e de 
Murumuru, mas, ao longo dos anos, a Natura estreitou o vínculo e ampliou suas iniciativas na região. 
Em 2011, criou o Fundo Médio Juruá (FMJ), que serviu como uma escola de gestão de projetos para as 
pequenas organizações locais, contribuindo para a consolidação do planejamento de cadeias produtivas 
em curso e para o fortalecimento das organizações locais. Em seguida, a companhia conduziu uma 
iniciativa de identificação das prioridades locais, com foco no desenvolvimento territorial, o que 
culminou na criação do Fórum do Território do Médio Juruá (FTMJ), em 2014, com objetivo principal de 
integrar as organizações e instituições que atuam localmente de forma a promover o desenvolvimento 
socioeconômico das comunidades ribeirinhas. 
Historicamente, o processo de desenvolvimento da região ocorreu em torno da cadeia produtiva 
da borracha, marcada por um sistema de trabalho muitas vezes análogo à escravidão (Esterci e 
Schweickardti, 2010; Souza, 2010). Em meio a essas dificuldades, o processo de luta por direitos 
culminou na demarcação das Unidades de Conservação de Uso Sustentável e na organização de 
associações e cooperativas de base comunitária. 
Em 2017, a Sitawi, organização da sociedade civil que mobiliza capital para impacto 
socioambiental positivo, sob a liderança da Natura e da Coca-Cola, coordenou a elaboração de um 
projeto apresentado à United States Agency for International Development – USAID, agência de 
desenvolvimento internacional do governo norte-americano, que resultou no aporte de US$ 2,3 milhões 
no FMJ. Os recursos estão sendo destinados a investimentos em educação, saneamento, infraestrutura, 
acesso à água potável, conservação da biodiversidade —incluindo espécies ameaçadas de extinção, 
como os quelônios e o pirarucu— e estudos sobre as cadeias produtivas da região, como Andiroba, 
Murumuru, Ucuuba e Açaí. 
O projeto apresentado à USAID teve como base as necessidades da região evidenciadas a partir do 
Índice de Progresso Social-Comunidades (IPS), utilizado pela Natura e demais membros do FMJ como 
instrumento de diagnóstico e avaliação de impacto socioambiental na região. Seu uso permite que 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 234 
 
empresas, órgãos governamentais, ONGs e movimentos da sociedade civil alinhem os esforços de 
investimento na região, considerando o que as próprias comunidades apontam como questões prioritárias. 
O IPS é uma metodologia criada pelo economista americano Michael Porter, com base em 
pesquisas de campo, empregado como alternativa aos indicadores baseados exclusivamente em 
quesitos financeiros, como o Produto Interno Bruto (PIB; Porter, Stern e Green, 2015). O IPS permite a 
mensuração da promoção de transformações socioambientais. Aplicado pela Ipsos (financiado pela 
Natura e Coca-Cola) em 2015 e 2017, o levantamento registrou progresso em relação ao acesso à água 
e ao saneamento básico, que avançaram, respectivamente, nove pontos percentuais entre a população 
urbana, e 21 pontos percentuais entre os ribeirinhos (Natura, 2016). Os resultados são fruto do trabalho 
e da mobilização social das organizações do FMJ. A geração de renda das famílias extrativistas também 
avançou no período, com crescimento de 9% entre a população urbana e 5% entre os ribeirinhos. Outro 
aspecto com evolução positiva foi o acesso ao conhecimento básico, que aumentou seis pontos 
percentuais nos dois casos. 
Outra parceria multissetorial da qual a Natura faz parte é a Rede Jirau de Agroecologia, no Baixo 
Tocantins (PA), que tem como missão promover a cooperação interinstitucional para realizar ações 
relacionadas a ensino, pesquisa, inovação e extensão. A Rede Jirau também trabalha para fomentar o 
empreendedorismo e a troca de conhecimentos, com base nos princípios da agroecologia e da 
economia solidária, contribuindo para o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade. 
A parceria inclui ações que promovem formação técnica e tecnológica, impulsionando a pesquisa e a 
inovação na região. Por meio da Rede Jirau, já foram realizadas diversas atividades, como feiras dos 
produtores locais e cursos de especialização voltados ao fomento da agroecologia. 
Entre os temas prioritários identificados em diversos processos de diálogo e consulta realizados 
para o Programa Natura Amazônia, foram identificadas lacunas e necessidades de investimento nos 
campos da educação, empreendedorismo, infraestrutura, políticas públicas, entre outros. Como 
resultado desse mapeamento de desafios, em 2013, a Natura passou a apoiar as Casas Familiares Rurais, 
associações de agricultores que se unem para promover a Pedagogia da Alternância, metodologia de 
ensino que prevê a formação de jovens a partir de ciclos que alternam o aprendizado em sala de aula e 
a prática em campo, nas pequenas propriedades familiares. A ideia é atender às peculiaridades 
geográficas e culturais e aos anseios das populações do campo, buscando driblar a baixa oferta de 
educação no meio rural e proporcionando acesso aos ensinos médio e técnico adequado à realidade 
local. Por meio da metodologia, as novas gerações de agricultores vislumbram possibilidades de se fixar 
no campo e garantir renda para suas famílias de maneira sustentável. 
O apoio oferecido pela Natura, em conjunto com outros parceiros, consiste na estruturação do 
projeto político-pedagógico das escolas, regularização fiscal, capacitação em gestão, contabilidade e 
suporte em projetos e editais. A empresa já viabilizou o acesso de 2.300 jovens de áreas rurais ao ensino 
médio de qualidade e à formação técnica profissionalizante. Também investiu na reforma de duas 
escolas comunitárias rurais do Baixo Tocantins e uma no Médio Juruá, com injeção de recursos em 
infraestrutura, centros digitais e materiais didáticos. Assim, a Natura colabora para conectar os jovens 
às cooperativas fornecedoras de ativos da biodiversidade, em um arranjo traz múltiplos benefícios: de 
um lado, os jovens permanecem nas áreas de floresta com oportunidades de trabalho e vida digna e, do 
outro, as cooperativas garantem capacitação técnica fundamental para sua perenidade e para a 
prosperidade da economia da floresta em pé. 
3. Cadeias produtivas 
Terceiro pilar de estruturação do Programa Natura Amazônia, o desenvolvimento de cadeias produtivas 
sustentáveis é feito em conjunto com parceiros, por meio dos quais a Natura realiza estudos de coeficiente 
de produção e, a partir destes, são estabelecidos preços justos nas cadeias de abastecimento para dignificar 
o trabalho e remunerar a contribuição de cada um de maneira adequada e previamente acordada.  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 235 
 
Em 2000, quando a companhia começou efetivamente a empregar os ativos da sociobiodiversidade 
em suas fórmulas, a compra dos insumos era feita de forma indireta, por meio de fornecedores 
intermediários. A definição do valor das matérias-primas configurava um impasse, visto que até então não 
tinham sido estabelecidos padrões claros para a aplicação industrial daquelas substâncias. Ao optar pelo 
relacionamento direto com cooperativas e associações, a Natura também decidiu adotar a transparência 
nas negociações com os povos locais, remunerando-os com preços acordados coletivamente, a partir da 
estrutura de custos da produção e negociações transparentes entre as partes e que permitem uma 
margem de lucro igualmente justa, pois calcula todas as partes do processo.  
Definidas em reuniões deliberativas com planilhas abertas e reajustadas anualmente, as 
remunerações são baseadas nas estruturas de custo das diferentes cadeias de produção. Os valores são 
definidos a partir da mensuração do tempo que cada trabalhador despende na colheita, cultivo ou 
tratamento pós-colheita. Inclui também todas as despesas, como as referentes às atividades de boas 
práticas de manejo e produção agrícola e de fortalecimento do quadro social. A Natura utiliza a 
rastreabilidade para fazer o controle de notas fiscais de compra e venda de cada fornecedor e a 
mensuração dos ativos comercializados com cada família envolvida. Em 2018, o total investido nas 
comunidades foi de R$ 330 milhões, um aumento de 11,9% em relação ao ano anterior. 
A Natura também incentiva o aperfeiçoamento da estrutura de custos e a competitividade de 
seus parceiros, tendo como referência valores de mercado praticados para os mesmos insumos e as 
práticas sustentáveis de biocomércio. Os contratos de abastecimento firmados consideram os limites 
de produção de cada fornecedor, logística, datas de safra, tempos de organização social e econômica 
para preparação da safra, assim como a sazonalidade das espécies produzidas. Cada novo acordo 
realizado conta com projeção de volumes de compras para três anos, sendo que a empresa é a única 
que opera na região com adiantamento de 30% do pagamento da produção. Além disso, ao contrário 
das práticas comuns na região, a empresa não exige exclusividade de fornecimento, o que dá liberdade 
aos parceiros para negociarem seus eventuais excedentes.  
A produção de matérias-primas nas comunidades é sensível a diversos fatores, como a aceitação 
do produto no mercado e a performance do ingrediente vegetal. Para minimizar os impactos negativos 
diante da possível queda de demanda, a Natura encoraja os parceiros a diversificarem a produção. O 
cuidado com o relacionamento com os parceiros dura por todo o tempo de fornecimento, inclusive ao 
ser interrompido. A eventual descontinuidade na compra de determinada matéria-prima é 
devidamente planejada, atenuando os prejuízos das comunidades. Zelar por relações comerciais 
transparentes e justas com seus parceiros é uma forma de a Natura valorizar o trabalho dos homens e 
mulheres da região. 
Entre os anos de 2007 e 2017, a empresa desenvolveu, em conjunto com a organização Union for 
Ethical Biotrade (UEBT), um processo de certificação das cadeias da sociobiodiversidade e, em 2018, foi 
a primeira empresa a obter o selo de certificação UEBT, renovado em 2019. O selo atesta que todos os 
ingredientes vegetais da formulação dos produtos Ekos passaram por um sistema que avalia princípios 
e práticas que garantem a manutenção dos ecossistemas, repartição justa dos benefícios pelo uso da 
biodiversidade e do conhecimento tradicional associado, respeito pelas condições de trabalho, geração 
de renda e desenvolvimento local, entre outros pontos. 
D. Relação entre o estudo de caso e o Big Push para a Sustentabilidade 
Autores como Nobre e outros (2018) classificam o modelo econômico que gerou a ocupação do 
território amazônico —baseado em desmatamento para promoção da agricultura, pecuária e geração 
de energia por meio de hidrelétricas em grande escala— como não gerador de qualidade de vida e 
riqueza para as populações locais. Apoiar uma agenda de desenvolvimento participativa pode ser a 
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 236 
 
chave para inverter essa lógica e fazer com que um mercado pequeno como o de produtos madeireiros 
não-florestais, que movimentaram cerca de R$ 1,9 bilhão em 2016, possa ser uma alternativa de 
conservação de floresta.  
É a partir da visão de que é possível realizar essa transformação que a Natura estruturou seu modelo 
de negócios. Se o Big Push para a Sustentabilidade representa uma articulação e coordenação de políticas 
públicas e privadas (CEPAL/FES, 2019), é possível descrever o Programa Natura Amazônia como grande 
articulador de tal impulso ambiental dentro da empresa. Ao investir em ciência, fortalecimento institucional 
e desenvolvimento de cadeias sustentáveis de produção, a Natura busca mostrar que é possível conciliar 
lucro e crescimento com desenvolvimento e compartilhamento de riqueza. 
O modelo de negócio desenvolvido pela Natura e apresentado nesse estudo de caso evidencia a 
possibilidade de coexistência do tripé de viabilidade econômica, justiça social e sustentabilidade 
ambiental abordado pelo Big Push para a Sustentabilidade (CEPAL/FES, 2019). Ao realizar 
investimentos em três eixos no âmbito do Programa Amazônia, sendo eles ciência, tecnologia e 
inovação; cadeias produtivas da sociobiodiversidade e fortalecimento institucional, a Natura parte do 
princípio de que externalidades positivas de aprendizagem e inovação se irradiam para toda a cadeia de 
valor a partir de uma matriz produtiva mais integrada, complexa e intensiva em conhecimento.  
O caso relatado no presente estudo também apresenta uma clara relação com Big Push para a 
Sustentabilidade ao abrir o caminho para um modelo de negócio de floresta em pé em escala nacional 
e internacional, atendendo a um mercado em expansão que se preocupa com a sustentabilidade da 
origem dos produtos, através de uma parceria com as populações que pode ser replicada em outras 
comunidades, na Amazônia e por toda a economia, em um modelo que possui retornos de escala e gera 
empregos. Também se verifica a criação de um novo modelo de parceria com as comunidades e de 
agregação de valor aos recursos naturais, intensivo em tecnologia e aprendizado construído a partir de 
saberes tradicionais e de conhecimento científico. As iniciativas relatadas neste estudo são ilustrativas 
de um modelo de negócios que pode agregar valor e inovação de forma sustentável ao rico capital 
natural do país, especialmente na Amazônia, contribuindo para um estilo de desenvolvimento capaz de 
promover o desenvolvimento socioeconômico mantendo e recuperando a base de capital florestal. Por 
fim, a eficiência da sustentabilidade também é observada nesse caso, por meio dos indicadores 
econômicos, sociais e ambientais reportados ao longo do estudo. 
Assim, verifica-se que a Natura vem contribuindo para o Big Push para a Sustentabilidade, ao 
apresentar ações que se alinham diretamente com essa abordagem. Destaca-se que a empresa realiza 
essas ações como parte de seu core business, o que demonstra que investimentos sustentáveis podem 
ser rentáveis do ponto de vista de uma grande indústria nacional. Mais do que isso, a sustentabilidade 
torna-se um diferencial competitivo que contribuiu para que a Natura seja hoje em dia um dos grandes 
players no mercado internacional de beleza. 
Não apenas a Natura emprega recursos próprios, com investimentos de mais de R$ 1,5 bilhão na 
região desde 2011, como mobiliza recursos de organizações não governamentais e de outras 
companhias para estruturar institucionalmente a região. Como parte de sua Visão de Sustentabilidade 
2050 (Natura, 2014), a Natura busca ainda que suas práticas sejam referência e inspiração em 
comportamento empresarial, contribuindo para que a mudança seja sistêmica. Destacam-se, ainda, os 
objetivos de curto e de longo prazo a que a empresa se colocou, como parte de seu compromisso de 
gerar impacto social, econômico e ambiental positivo até 2050.  
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 237 
 
E. Conclusão 
A Natura acredita que uma empresa é um organismo vivo, integrante de um conjunto dinâmico de 
relações. O valor e a longevidade de uma organização estão ligados à sua capacidade de contribuir para 
a promoção do bem-estar e da ética da vida, do desenvolvimento sustentável e da geração de impacto 
positivo. Essa visão se reflete em seu posicionamento em sociobiodiversidade e é também 
materializada no pilar de Fortalecimento Institucional do Programa Natura Amazônia.  
Desde 2000, a Natura fomenta, na região amazônica, a economia por meio do manejo 
sustentável de sistemas agrícolas. O objetivo é criar um modelo socioeconômico a partir do qual a 
floresta deixe de ser exclusivamente fornecedora de matérias-primas e passe a ter sua vocação 
tecnológica e sua cultura reveladas e valorizadas, impulsionando o surgimento de oportunidades que 
tragam benefícios relevantes para a sociedade. Assim, é possível propiciar o desenvolvimento local a 
partir de produtos e serviços da sociobiodiversidade e de iniciativas de inovação e pesquisa de 
ingredientes naturais sustentáveis, com base em redes interdependentes.  
No que diz respeito a desafios, o Programa Natura Amazônia enfrenta, desde sua criação, uma 
série de barreiras para sua plena implantação, como a alta carga tributária sobre produtos florestais 
não-madeireiros, a precariedade da infraestrutura de produção e logística na região e a necessidade de 
equilíbrio entre o respeito à cultura local e as demandas do negócio. Enquanto trabalham para superá-
los, os colaboradores envolvidos, homens e mulheres da floresta e parceiros de diversas instituições, 
seguem atuando no fortalecimento das bases para que o modelo produtivo sustentável se multiplique. 
Mesmo com uma atuação consistente na Amazônia por quase duas décadas, a Natura entende, 
ainda, que a floresta demanda um aprendizado constante —tanto pelas condições que a própria 
natureza impõe quanto pela cultura e pelo modo de vida das comunidades que ali vivem. Sendo assim, 
a companhia acredita que o trabalho na região é uma evolução permanente, com foco em aprimorar as 
práticas sustentáveis e oferecer a melhor condição de vida, educação e trabalho para as pessoas que ali 
habitam. É, ainda, um esforço que precisa ser coletivo para que tenha impactos realmente sistêmicos 
no modo como se estrutura a atividade econômica da região. 
Nesses quase 20 anos de relação estreita, a empresa buscou se aprofundar cada vez mais na 
cultura local, aprendendo, dia a dia, com quem mais entende da floresta: seus moradores. Hoje, a 
Natura mantém relacionamento com mais 4 mil famílias fornecedoras na região. E, com o acesso a esse 
conhecimento tradicional tão fundamental, pôde criar condições para que essas comunidades 
pudessem se desenvolver de forma sustentável, além de promover a conscientização sobre a 
importância da conservação da floresta em pé. Dessa forma, criou-se um ecossistema de inovação que 
abrange todos os pontos do processo —do manejo à comercialização da matéria-prima, passando por 
técnicas de preservação das espécies.  
Este estudo busca concluir que, por meio de inovação, é possível pensar em novas formas de 
organização econômica na região, pautando-se pela promoção de bem-estar social, econômico e 
ambiental, e replicar esse modelo em escala, impulsionando ainda mais o crescimento da própria 
floresta amazônica e inspirando ações de desenvolvimento de outros biomas brasileiros e suas 
comunidades em linha com a proposta do Big Push para a Sustentabilidade. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 238 
 
Bibliografia 
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de 2019], novembro. 
Nobre, Carlos e outros (2016), “Land-Use and Climate Change Risks in the Amazon and the Need of a Novel 
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Juruá, Estudo Técnico, Manaus, Secretaria de Desenvolvimento Territorial, Ministério do 
Desenvolvimento Agrário. 
  
CEPAL Investimentos transformadores para um estilo de desenvolvimento sustentável... 239 
 
Anexo XV.1 
Mapa XV.1 
Famílias fornecedoras da sociobiodiversidade 
 
Fonte: Natura. 
Nota: Órgãos gestores das unidades de conservação: Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacarí (Unidade de Conservação Estadual): 
Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA/Am); Reserva Extrativista Médio Juruá (Unidade de Conservação Federal): 
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); e Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru (Unidade 
de Conservação Estadual): Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amapá (SEMA/AP). 
O mundo no qual nos encontramos requer um novo estilo de 
desenvolvimento, orientado pela visão de que o desenvolvimento econômico 
sustentável depende criticamente de um meio ambiente saudável e de uma 
sociedade construída sobre a base da igualdade. Nesse contexto, a Comissão 
Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) vem desenvolvendo 
o Big Push para a Sustentabilidade, que é uma abordagem renovada para 
apoiar os países da região na construção de estilos de desenvolvimento 
mais sustentáveis, baseada na coordenação de políticas para promover 
investimentos transformadores do estilo de desenvolvimento.
O Escritório da CEPAL em Brasília realizou uma chamada aberta de casos 
de investimentos sustentáveis no Brasil. Esta publicação reúne os 15 casos 
selecionados como mais transformadores dentre os mais de 130 estudos 
recebidos. Unindo teoria e prática, esses casos ilustram as amplas 
possibilidades para a realização de investimentos sustentáveis em várias 
práticas e tecnologias sustentáveis (desde sistemas agroflorestais até o 
desenvolvimento da indústria eólica) e por meio de uma rica pluralidade 
de medidas, políticas, arranjos de governança, fontes de financiamento 
e escalas de atuação. A leitura desta publicação oferece lições aprendidas 
sobre oportunidades, desafios e caminhos para um Big Push para a 
Sustentabilidade no Brasil.

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