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        <dc:contributor>Corden, W. Max</dc:contributor>
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        <dcterms:isPartOf>En: La liberalización del comercio en el Hemisferio Occidental - Washington, DC : BID/CEPAL, 1995 - p. 13-40</dcterms:isPartOf>
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E
I
R
S

E

168

desarrollo productivo

C

rédito bancário no Brasil:
Participação das pequenas
empresas e condições de acesso

José Mauro de Morais

Proyecto Regional sobre “Movilización de los
recursos locales mediante el microcrédito y
oportunidades para la gestión de servicios
urbanos”, CEPAL-Gobierno de Italia
(ITA/02/047)
Brasilia, novembro del 2005

Este documento fue preparado por José Mauro de Morais, consultor del
Proyecto Regional sobre “Movilización de los recursos locales mediante el
microcrédito y oportunidades para la gestión de servicios urbanos”, CEPALGobierno de Italia (ITA/02/047), de la Unidad de Desarrollo Industrial y
Tecnológico de la División de Desarrollo Productivo y Empresarial de la
CEPAL
Las opiniones expresadas en este documento, que no ha sido sometido a
revisión editorial, son de exclusiva responsabilidad del autor y pueden no
coincidir con las de la Organización.

Publicación de las Naciones Unidas
ISSN impreso 1020-5179
ISSN electrónico 1680-8754
ISBN: 92-1-322806-6
LC/L.2422-P
N° de venta: P.05.II.G.169
Copyright © Naciones Unidas, noviembre del 2005. Todos los derechos reservados
Impreso en Naciones Unidas, Santiago de Chile
La autorización para reproducir total o parcialmente esta obra debe solicitarse al
Secretario de la Junta de Publicaciones, Sede de las Naciones Unidas, Nueva York,
N. Y. 10017, Estados Unidos. Los Estados miembros y sus instituciones
gubernamentales pueden reproducir esta obra sin autorización previa. Sólo se les
solicita que mencionen la fuente e informen a las Naciones Unidas de tal reproducción.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Índice

Resumo
........................................................................................7
I. Acesso e participação das pequenas
empresas no crédito bancário ...............................................9
1. Introdução...............................................................................9
2. Conceitos de micro, pequena e média empresa ....................13
2.1 Conceito de porte de pequena empresa
adotado na pesquisa .......................................................15
3. Presença da micro e pequena empresa na
economia brasileira ..............................................................16
3.1 As empresas formais .....................................................16
3.2 Pequenos negócios informais........................................19
4. Estrutura e evolução do crédito bancário no
Brasil ....................................................................................20
4.1 Evolução do crédito bancário no período
1994-2003 ....................................................................20
4.2 Recursos livres e recursos direcionados.......................23
4.3 Taxas de juros, spreads e prazos no
crédito livre ..................................................................24
5. A escassez de crédito e os altos spreads:
avaliações .............................................................................26
5.1 Visões da indústria, do setor financeiro e
do governo....................................................................26
5.2 As dificuldades de acesso ao crédito bancário
na visão dos pequenos empresários..............................30
6. Resultados da pesquisa: condições de acesso
das pequenas empresas ao crédito e participação
no crédito bancário total.......................................................32
6.1 Assimetria de informações .....................................................................................32
3

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

6.2 A disponibilidade de informações, o sistema de análise de risco de
crédito e o uso do credit scoring ............................................................................ 33
6.3 Condições de acesso das MPEs ao crédito ............................................................ 38
6.4 Participação das pequenas empresas no volume global de crédito........................ 45
6.5 As taxas de juros de mercado e as MPEs............................................................... 47
7. Evolução recente do crédito para as pequenas empresas............................................... 49
7.1 Aumento das aplicações bancárias em pequenas empresas ................................... 49
7.2 Os bancos estatais e as pequenas empresas ........................................................... 51
7.3 Bancos privados com plataformas especializadas em pequenas empresas............ 53
8. Sumário, conclusões e sugestões de medidas para o maior acesso de
MPEs ao crédito............................................................................................................. 55
II.
Instrumentos governamentais de apoio ao crédito às MPME:
Crédito direcionado, fundos de aval e fundos de capital de risco ...................... 61
1. Programas de crédito direcionado para MPMEs ............................................................. 61
1.1 BNDES: Financiamentos às MPMEs...................................................................... 64
1.2 Bancos regionais de fomento e crédito à pequena empresa .................................... 70
1.3 Fundos constitucionais de financiamentos do centro-oeste,
do nordeste e do norte: créditos a pequenas empresas ............................................ 72
1.4 Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger).............................................. 76
1.5 Fundos de aval para apoio ao crédito a PMES........................................................ 77
2. Apoio a PMEs sob a Forma de Capital de Risco............................................................. 79
2.1 Instrumentos de Apoio a PMEs com Capital de Risco............................................ 79
2.2 Iniciativas da FINEP no Desenvolvimento do
Capital de Risco para PMES ................................................................................... 80
2.3 Participação do SEBRAE em Fundos de Capital de Risco ..................................... 82
III. Estudos de casos de crédito orientado ...................................................................... 85
1. Programa de crédito “Brasil Empreendedor” 1999-2002................................................ 85
1.1 Objetivos do programa ............................................................................................ 85
1.2 Experiência em crédito direcionado: empréstimos sem risco para o
agente financeiro e orientação gerencial pré e pós empréstimo .............................. 87
1.3 Resultados do Programa Brasil Empreendedor....................................................... 88
2. Programa de crédito orientado no setor privado: O programa de crédito à
exportação para PME do Banco Santander Banespa....................................................... 90
3 Programa de crédito vinculado a Regime Especial de tributação de MPEs
–Geraminas-BDMG ........................................................................................................ 92
Bibliografia ................................................................................................................................... 95
Serie Desarrollo productivo: números publicados............................................................ 97

Índice de tabelas
Tabela 1
Tabela 2
Tabela 3
Tabela 4

4

Critérios de portes de empresa adotados em programas de crédito
em Bancos. Governamentais e em bancos privados ................................................... 14
Número de empresas no Brasil, por Porte e Setor de Atividade – 2001..................... 16
Números de Pessoas Ocupadas, por Porte de Empresa e
Setor de Atividade – 2001 .......................................................................................... 17
Nascimento e Mortalidade de Empresas, por Setor.................................................... 18

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

Tabela 5
Tabela 6
Tabela 7
Tabela 8
Tabela 9
Tabela 10
Tabela 11
Tabela 12
Tabela 13
Tabela 14
Tabela 15
Tabela 16
Tabela 17
Tabela 18
Tabela 19
Tabela 20
Tabela 21
Tabela 22
Tabela 23
Tabela 24
Tabela 25
Tabela 26
Tabela 27
Tabela 28
Tabela 29
Tabela 30
Tabela 31
Tabela 32

N° 168

Taxas médias de mortalidade e natalidade de empresas,
segundo o porte 1997-2001.........................................................................................19
Empreendimentos Informais - Empresas com até 5 empregados,
e por conta própria, segundo o setor de atividade .......................................................19
Evolução dos empréstimos do Sistema Financeiro – 1994-2003................................21
Empréstimos do sistema financeiro recursos direcionados e recursos livres ..............23
Taxas de Juros, spreads e prazos, por modalidade de crédito
Pessoas Jurídicas .........................................................................................................25
Composição dos custos do Spread - taxas de juros pré-fixadas..................................29
Participação das micro e pequenas empresas no crédito bancário
à indústria, comércio e serviços no Brasil – 2003......................................................45
Destinação dos créditos nos bancos estatais: capital de giro e
investimentos - 2003 ...................................................................................................47
Sistema Bancário - Taxas de Juros máximas e mínimas em linhas
de crédito de curto prazo .............................................................................................47
Principais linhas de crédito para MPME em Bancos
Governamentais - 2004 ...............................................................................................62
BNDES – Financiamentos, por setor - indústria, comércio
e serviços. 1998-2002..................................................................................................66
BNDES - Financiamentos, por setor e porte de empresas - 2002 ...............................67
BNDES - Indústria de transformação - participação das micro,
pequenas e médias empresas nos financiamentos totais, por subsetor - 2002.............68
BNDES – Número de contratos de financiamentos, por setor e
porte de empresas – 2002 ............................................................................................69
BNDES - Spreads dos Agentes Financeiros, por porte de empresa - 2002 ................69
BNDES - Prazo médio dos empréstimos concedidos - 2002 ......................................69
Banco da Amazônia - Empréstimos à indústria, comércio e serviços,
por porte de empresas – 2003......................................................................................71
Banco do Nordeste – Empréstimos à indústria, comércio e serviços,
por porte de empresas – 2003......................................................................................72
Fundos Constitucionais - Taxas de Juros nos empréstimos à indústria,
comércio e serviços, por porte da empresa - 2002 ......................................................73
Fundos Constitucionais - Financiamentos a pequenas, médias e
grandes empresas 2002................................................................................................74
Fundos Constitucionais – Participação das pequenas, médias e
grandes empresas nos financiamentos - 2002 .............................................................75
Fundos Constitucionais – Valor médio dos financiamentos – 2002 ...........................75
Proger Urbano – Evolução real dos empréstimos a pequenas
empresas 1998-2002 .........................................................................................................77
FGPC - Quantidade e valor dos financiamentos garantidos........................................78
FUNPROGER – Quantidade e valor dos financiamentos garantidos .........................79
Venture Forum – Resultados das rodadas de negócios de
capital de risco 2000-2003 ..........................................................................................82
Programa Brasil Empreendedor – Empréstimos totais,
por banco participante .................................................................................................90
Programa de Crédito Geraminas – Resultados no período 1998-2002 .......................94

5

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Resumo

Este trabalho tem três partes, estando a parte I dividida una
introdução e mais seis seções. A seção 2 discute os conceitos de porte
de empresas adotados no Brasil. A seção 3 apresenta informações
estatísticas sobre a presença das pequenas empresas (PE) formais na
economia. O crédito à PE é discutido na seção 4, no contexto da
evolução geral do crédito no período 1994-2003. A seção 5 apresenta
diversas interpretações sobre as inadequações do mercado de crédito
bancário. Os resultados da pesquisa são apresentados na seção 6, com a
discussão das atuais normas de classificação de risco de crédito, as
conseqüências da adoção crescente do mecanismo de credit scoring
nas análises de crédito de PE, e as falhas identificadas nas áreas
gerencial e contábil das empresas. A seção 7 discute as tendências
identificadas no mercado de varejo, mostrando que os bancos
começam a ampliar as aplicações de crédito em PE. A seção 8
apresenta um sumário do trabalho e sugestões para a ampliação do
crédito às PE.
A Parte II análisa os mecanismos, fundos e programas especiais
de crédito de fomento às PME, incluindo o BNDES, os Banco da
Amazônia e Banco do Nordeste, os Fundos Constitucionais de
Financiamentos, o Programa de Geração de Emprego e Renda e os
fundos de garantia de crédito. A Parte III apresenta três estudos de caso
de crédito direcionado. O primeiro caso descreve o Programa “Brasil
Emprendedor” (1999 a 2002). O segundo é o programa de crédito à
exportação do Banco Santander Banespa – Programa Exportar (2003).
O terceiro refere-se ao programa de crédito dirigido a PE contribuintes
de regime especial de tributação do ICMS do Estado de Minas Gerais.

7

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

I.

Acesso e participação das
pequenas empresas no crédito
bancário

1.

Introdução

As análises e os debates sobre crédito bancário no Brasil
apontam as diversas disfuncionalidades do sistema de intermediação
financeira, caracterizado por aplicar baixos volumes de recursos nas
atividades produtivas e praticar altos spreads nos empréstimos. Há um
reconhecimento generalizado de que o crédito não atende às
necessidades de investimentos e de capital de giro das empresas,
especialmente dos segmentos de pequeno porte, em razão das altas
taxas de juros, prazos curtos nos empréstimos e exigências de garantias
difíceis de serem atendidas.
Medindo-se os volumes de crédito pela relação crédito/PIB,
verifica-se que os empréstimos globais no Brasil apresentam índice
baixo comparado com outros países: depois de atingir 34,8% do PIB,
em 1995, a relação caiu para nível abaixo de 30% em todos os anos
após 1996, alcançando 23,8% em 2002.1 Os volumes de crédito à
indústria, comércio e serviços, igualmente, não apresentaram evolução

1

A relação crédito/PIB em alguns países mostra os seguintes resultados: Coréia do Sul, 86,2%; Estados Unidos, 73%; Chile, 62,7%,
Argentina, 23,4%, cf. IFC/FMI, citado na Revista Indústria Brasileira, Confederação Nacional da Indústria – CNI, nº 25, abri/2003.
Conforme notou o Banco Central, “o sistema financeiro brasileiro não supre plenamente a demanda por crédito com taxas de juros
razoáveis. O custo dos empréstimos no segmento livre é muito elevado, .... com forte participação de créditos direcionados e repasses
de recursos de bancos oficiais”, cf. Economia Bancária e Crédito – Avaliação de 3 anos do projeto Juros e Spread Bancário, Banco
Central do Brasil, dezembro de 2002.

9

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

positiva nos últimos anos, situando-se entre 14% e 15% do PIB em todo o período 1996-2003,
depois de atingir 16,9%, em média, em 1994/95.
As taxas de juros nos empréstimos às empresas alcançaram, em média, nos últimos três anos,
43,8% (2001), 50,5% (2002) e 42,3% (2003), embutindo spreads elevados, correspondentes a
24,4%, 25% e 26,4%.2 Esses são valores médios, representando as taxas para empresas de todos os
portes, não refletindo as condições, geralmente mais onerosas, no acesso ao crédito das empresas de
pequeno porte. O spread geral, incluindo o crédito para pessoas físicas, é ainda mais elevado, tendo
atingido 41,5% em dezembro de 2003.3
Diversos estudos, como os realizados pelo Banco Central no âmbito de projeto que busca
avaliar as causas dos altos spreads e implementar medidas e ações para a redução dos juros, têm
apresentado análises abrangentes sobre as causas da escassez e alto custo do crédito.4 Um sumário
das causas apontadas abrange questões relacionadas a fatores macroeconômicos e
microeconômicos, tais como, os compulsórios elevados sobre os depósitos bancários, as altas taxas
básicas de juros para a rolagem da dívida pública, elevado número de tributos sobre a intermediação
financeira, ambiente institucional desfavorável que se reflete em um sistema judiciário ineficiente e
caro e em legislação de falências defasada, baixa disponibilidade de informações sobre as empresas
que solicitam crédito, elevadas taxas de lucros dos bancos nos empréstimos, entre diversas outras.5
A situação macroeconômica do País nos últimos anos, com baixas taxas de crescimento e
dívida pública crescente, exigindo elevadas taxas de juros para sua rolagem, expondo a fragilidade
do País às diversas crises internacionais, não favoreceu a criação de ambiente e de cultura favorável
à ampliação do crédito bancário às empresas, dada a insegurança dos agentes econômicos quanto à
evolução dos negócios, em ambiente sujeito à volatividade e intervenções do governo nos controles
monetários.
As situações acima impõem restrições ao crédito com mais intensidade para as pequenas
empresas. Para tentar solucionar as falhas apontadas, há um conjunto de ações em desenvolvimento,
que procura atacar as causas dos altos custos e da escassez do crédito, tanto as de cunho
macroeconômico, como o estabelecimento de condições de equilíbrio fiscal que permitam o
crescimento econômico sustentado, quanto as de caráter microeconômico, com um conjunto bem
formulado de reformas que procuram atacar as falhas regulatórias, como por exemplo, o novo
marco legal sobre as falências de empresas.6
Dada a situação relatada, este trabalho tem por objetivo analisar as condições de acesso das
pequenas empresas ao crédito bancário, com foco nas condições específicas ao segmento, que
dificultam ou impõem barreiras a esse conjunto de empresas. Um segundo propósito é procurar
estimar o percentual do volume total de crédito que o sistema bancário destina àquele segmento de
empresas nos setores da indústria, comércio e serviços.
Essas questões ainda representam uma grande lacuna nos estudos e nos conhecimentos sobre
o crédito no Brasil, especialmente no que se refere às informações e dados sobre a participação das

2

3

4
5

6

10

O spread representa a diferença entre a taxa de juros cobrada do tomador e a taxa de captação do banco. Os dados são destacados da
seção 4.3 deste trabalho.
Esses resultados levam o Brasil a ser apontado como o país com os mais altos spreads do mundo, alcançando 45,1%, em média, em
2003. Para comparações, o segundo país, o Paraguai, apresentou spread médio de 34,5%, a Argentina, 8,9%, o Chile, 3,4% e os
Estados Unidos, 2,97%. Cf.. dados do Fundo Monetário Internacional-FMI citados em CNI Informa – Notas Econômicas, nº 81,
24.06.2004.
Juros e Spread Bancário no Braasil, Banco Central do Brasil, outubro de 1999.
Economia Bancária e Crédito – Avaliação de 4 anos do projeto “Juros e Spread Bancário, Banco Central do Brasil, dez/2003, site:
www.bcb.gov.br.
Encontra-se em processo adiantado de tramitação no Congresso Nacional, em fase de votação pelos parlamentares, projeto de lei
alterando a atual Lei de Falências.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

empresas de pequeno porte no crédito global aplicado naqueles setores.7 E em face do
desconhecimento geral sobre a matéria, fica dificultada a própria formulação de ações e medidas de
políticas públicas.
A falta de estudos e pesquisas na linha indicada é conseqüência da própria indisponibilidade
de dados oficiais e informações consolidadas sobre os volumes globais de crédito concedido às
empresas do segmento.8 Registra-se, ainda, como se observou nos trabalhos de campo nesta
pesquisa, que não há interesse dos bancos em divulgar espontaneamente esse tipo de informação. E
mesmo os bancos públicos, sujeitos à determinação legal de que sejam “amplamente divulgados” os
montantes de crédito concedido e as condições de acesso das empresas, divulgam os dados e
informações para o público de forma ainda bastante restrita.9
Outro aspecto que deve ser levado em conta nas dificuldades de obtenção de dados sobre
volumes de crédito aplicados em pequenas empresas reside na ausência de um critério único oficial
fixando a definição de porte de micro, pequena e média empresas, levando a que cada banco adote
critério próprio, resultando em uma grande variedade de limites de valor para conceituar tamanhos
de empresa, com base no faturamento anual.
Em face da inexistência de dados consolidados de empréstimos às micro e pequenas
empresas, esta pesquisa recorreu ao levantamento das informações primárias requeridas diretamente
junto aos bancos.
Para a obtenção dos dados, foram selecionados os dez maiores bancos em valor global de
operações de crédito no mercado de varejo, sendo três estatais, Banco do Brasil, Caixa Econômica
Federal, Nossa Caixa,10 e sete privados, Bradesco, Itaú, Unibanco, HSBC Bank Brasil, ABN Amro
Real, Santander Banespa e BankBoston. As dez instituições bancárias respondem por 79% do total
de empréstimos do conjunto de bancos com carteira comercial no Brasil. Além desses bancos,
foram analisados os empréstimos de segundo piso repassados por programas e fundos especiais de
crédito aos agentes financeiros, como os geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), que se constitui na mais importante fonte de crédito de
investimentos para pequenas e médias empresas; e ainda dois bancos regionais de fomento, com
tradição em empréstimos à micro e pequenas empresas no Norte e Nordeste, o Banco do Nordeste e
o Banco da Amazônia.11
É importante registrar que a pesquisa ocorreu em meio a um intenso debate nacional,
atualmente em andamento no Brasil, que procura explicações e causas para o baixo
desenvolvimento do mercado de crédito e das altas taxas de juros e spreads prevalecentes, tanto no
7

8

9

10
11

A avaliação das condições de acesso das empresas de pequeno porte ao crédito bancário tem se utilizado de estudos e levantamentos
que tomam como base amostras de empresas, ou focalizam as questões de acesso na área do microcrédito, mas ambos os tipos de
estudos apresentam análises parciais dos problemas relacionados ao acesso ao crédito bancário.
A falta de dados sobre volumes de empréstimos concedidos às empresas, segundo o porte, deixa o Banco Central, e as demais
instituições relacionadas ao crédito e ao desenvolvimento empresarial, sem informações para avaliar a situação do crédito à pequena
empresa no mercado de crédito livre, conforme se observa em estudos e publicações especializas produzidos regularmente, que não
abordam o tema. Exemplificando, o Relatório de Estabilidade Financeira, do Banco Central, de maio/2004, realiza indicações sobre
as recentes tendências de aprofundamento das aplicações dos bancos no mercado de varejo (onde são contratados empréstimos para
pequenas empresas) - motivado por busca de escala e em razão da queda das remunerações provenientes dos títulos públicos nos
últimos meses - mas sem dispor de dados que fundamentem as dimensões daquela tendência. O relatório citado avalia o microcrédito
e as microfinanças, em face dos avanços e aprimoramentos que vêm ocorrendo na regulamentação, e do crescimento do número de
instituições que operam no microcrédito, em linha com a opção governamental pelo maior apoio ao setor de microfinanças, mas cujos
resultados, observe-se, são ainda inexpressivos em termos de volumes de crédito aplicados.
A Lei nº 9.841/99, que instituiu o Estatuto da Micro e Pequena Empresa, determina, no artigo 15, a divulgação semestral pelos
bancos oficiais de relatório detalhado dos recursos de crédito planejados e efetivamente utilizados.
Banco estatal estadual de propriedade do governo de São Paulo.
Os seis bancos estatais enviaram dados sobre seus volumes de empréstimos a pequenas empresas e responderam a questionário ou
concederam entrevistas; dos sete bancos privados, cinco enviaram os dados sobre crédito a MPE e responderam a questionário ou
concederam entrevistas. No processo de levantamento de informações, foram realizadas cerca de vinte entrevistas, com os bancos
selecionados e instituições especializadas em gestão empresarial e contábil de pequenas empresas, para avaliações sobre as condições
de acesso das empresas ao crédito bancário.

11

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

crédito pessoal quanto para pessoas jurídicas. As diversas interpretações do mercado sobre essas
questões, além das medidas em desenvolvimento pelo Banco Central, estão apresentadas na seção 5
deste trabalho.
Este trabalho se desenvolve em três Partes, estando a Parte I dividida nesta Introdução e mais
seis seções:
A seção 2 discute os conceitos de porte de empresas adotados no Brasil, apontando as
dificuldades na obtenção de estimativas sobre participação das pequenas empresas nos empréstimos
globais, em função da inexistência de um critério único de tamanho para a classificação das
empresas.
A seção 3 apresenta informações estatísticas sobre a presença das pequenas empresas formais
na economia brasileira, relativas a emprego gerado, massa de rendimentos, valor da produção e
taxas de mortalidade, e dados sobre as empresas informais.
O crédito à pequena empresa é discutido na seção 4, no contexto da evolução geral do crédito
no Brasil, no período 1994-2003, apresentando a distinção entre crédito livre e crédito direcionado e
o comportamento recente das taxas de juros e dos spreads no mercado bancário.
A seção 5 apresenta diversas visões e interpretações sobre as inadequações do mercado de
crédito bancário no Brasil, especialmente as relacionadas aos baixos volumes de crédito e às altas
taxas de spread, como uma forma de introdução ao debate nacional que atualmente se desenvolve
sobre aqueles temas.
Os resultados da pesquisa são apresentados na seção 6, com a discussão das atuais normas de
classificação de risco de crédito do Banco Central, as conseqüências da adoção crescente do
mecanismo de credit scoring nas análises de crédito de pequenas empresas, e as falhas identificadas
nas áreas gerencial e contábil das empresas, contribuindo para a assimetria de informações entre
bancos e clientes. São apresentados ainda os resultados encontrados sobre a participação das
pequenas empresas no crédito global concedido pelos bancos analisados.
A seção 7 discute as tendências recentes identificadas pela pesquisa no mercado de varejo,
mostrando que os bancos começam a ampliar as aplicações de crédito em pequenas empresas, ao
lado do aumento do crédito às pessoas físicas, como resultado da diminuição das aplicações em
tesouraria, após as quedas nas taxas de remuneração dos títulos públicos, a partir do segundo
semestre de 2003. A seção apresenta alguns bancos que instituíram plataformas especializadas no
atendimento a pequenas empresas.
A seção 8 apresenta um sumário do trabalho e sugestões para a ampliação do crédito às
pequenas empresas, reforçando a necessidade de aprimoramento das práticas contábeis das
empresas como fator de ampliação do acesso ao crédito.
A Parte II do trabalho é dedicada à análise dos mecanismos, fundos e programas especiais de
crédito de fomento às pequenas e médias empresas, o chamando credito direcionado, incluindo o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os bancos regionais de
desenvolvimento Banco da Amazônia e Banco do Nordeste, os Fundos Constitucionais de
Financiamentos, o Programa de Geração de Emprego e Renda-Proger e os fundos de garantia de
crédito. São ainda analisados os programas de apoio às (MPEs) sob a forma de capital de risco,
desenvolvidos pela FINEP e SEBRAE.
A Parte III apresenta três estudos de caso de crédito direcionado.
O primeiro descreve o Programa “Brasil Emprendedor”, que vigorou de 1999 a 2002,
reunindo todos os bancos federais, com o objetivo de ampliação do crédito às micro, pequenas e
médias empresas. O programa apresentou características inovadoras, como a extensão do crédito
a empresas com menos de dois de existência, e a concessão de empréstimos a empresas recém
12

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

abertas, acompanhado de treinamento gerencial e capacitação técnica, tendo concedido no
período mais de cinco milhões de operações de crédito, sob taxas de juros baixas, com spread
médio de cerca de 5,3%.
O segundo caso estudado de crédito orientado foi desenvolvido por banco privado. Trata-se
de programa de crédito à exportação do Banco Santander Banespa – Programa Exportar, instituído
em 2003, para financiamento a pequenas e médias empresas. O banco pertence à instituição
financeira global, permitindo repassar aos clientes informações sobre importadores de produtos
brasileiros. As empresas candidatas a receber crédito são assistidas pelos técnicos do banco, que são
treinados nas especificidades setoriais, realizando o papel de agentes de fomentos de exportação.
O terceiro caso analisado refere-se a programa de crédito dirigido a pequenas empresas
contribuintes de regime especial de tributação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços do Estado de Minas Gerais. O aspecto inovador do programa relaciona-se à integração da
legislação tributária com o programa de crédito, em que a entrada no regime de tributação
possibilita a obtenção de financiamento no fundo bancário formado pelas doações dos próprios
empresários.
Faz-se necessária uma observação a respeito dos diversos conceitos de empresas de pequeno
porte referidos neste trabalho: em decorrência das variadas modalidades de crédito analisadas,
envolvendo o crédito no mercado livre, crédito direcionado com recursos de fundos e programas
governamentais, financiamentos do BNDES e fundos de capital de risco, os conceitos de pequena
empresa citados variam conforme o critério adotado em cada área. Por esse motivo, as siglas que
representam os portes de empresas são citadas de acordo com o contexto, podendo assumir os
seguintes conceitos: MPEs–micro e pequenas empresas, PMEs–pequenas e médias empresas, e
MPMEs –micro, pequenas e médias empresas.

2.

Conceitos de micro, pequena e média empresa

A definição de portes de empresa tem importantes aplicações em políticas públicas, ao
estabelecer os limites abaixo dos quais as empresas classificadas nos limites definidos podem se
habilitar a usufruir de determinados incentivos ou benefícios. Enquadrar-se em uma das categorias
de tamanho, especialmente de micro e pequeno portes, significa ter possibilidades de acesso aos
benefícios previstos, envolvendo, geralmente, as áreas tributária, crédito, exportações, simplificação
burocrática na instalação, entre outras, e que buscam alcançar objetivos de política, como a geração
de emprego e renda, o aumento das exportações, a maior justiça fiscal, a formalização de empresas,
entre outras, ou diminuir desvantagens em relação às empresas de maior porte, decorrentes da
menor escala de produção.12
Há dois indicadores básicos utilizados para definir micro, pequenas e médias empresas no
Brasil: o número de pessoas ocupadas e a receita bruta anual. O primeiro critério é utilizado,
principalmente, em censos econômicos e pesquisas anuais e mensais da indústria, comércio e
serviços, com vistas ao conhecimento e análise dos resultados econômicos das empresas (valor da
produção, número de empregos gerados, valor dos salários pagos, etc), com base nos levantamentos
estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e outros órgãos. O segundo
critério, a receita bruta anual, é utilizado, principalmente, com dois objetivos: na fixação das
condições de enquadramento de micro e pequenas empresas (MPEs) em programas de tributação
simplificada do governo federal e dos Estados, e em linhas de crédito para micro, pequenas e
médias empresas, em bancos privados e públicos e em programas de crédito de fomento.
12

Na área tributária federal, por exemplo, adota-se um amplo programa de pagamento simplificado de tributos (Sistema SIMPLES),
que conta com a adesão de 2,2 milhões de micro e pequenas empresas. Também na maioria dos Estados são adotados sistemas
simplificados de arrecadação tributária do imposto sobre circulação de mercadorias (ICMS) para as empresas de pequeno porte.

13

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Há grande diversidade nos critérios utilizados pelos bancos para classificar micro, pequena e
média empresas, com base na receita anual. Para micro e pequena empresas (MPEs), o limite de
valor mais difundido nos programas especiais de crédito do governo federal é o definido no Estatuto
da Micro e Pequena Empresa.13 Outros limites de valor de MPEs, mais ampliados, são adotados
também em programas de crédito federais, como são os casos das linhas de crédito do Programa de
Geração de Emprego e Renda (Proger/FAT),14 receita anual de até 5 milhões de reales, e BNDES,
receita anual entre 1,2 milhões a 10,5 milhões de reales. Para conceituar médias empresas adotamse, principalmente, dois limites específicos, como o utilizado pelo BNDES e o adotado em linhas de
crédito de segundo piso dos Fundos Constitucionais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, (tabela 1).
Tabela 1

CRITÉRIOS DE PORTES DE EMPRESA ADOTADOS EM PROGRAMAS DE CRÉDITO EM BANCOS.
GOVERNAMENTAIS E EM BANCOS PRIVADOS
(miles de reales)
Portes de Empresa

Programas e Instituições
de crédito

Micro

Pequena

Média

Grande

Estatuto da MPE
- até 31/03/2004

244

244 a 1 200

- a partir de 01/04/2004

433,7

433,7 a 2 133

BNDES (linhas de Crédito
para MPME)

1 200

1 200 a 10 500

10 500 a 60 000

BNDES – Fundo de
Garantia - FGPC

900

900 a 7 875

7 875 a 45 000

Acima de 60 000

Fundos Constitucionais De
Crédito
- Norte e Nordeste

433,7

433,7 a 2 133

2 133 a 35 000

Acima de 35 000

- Centro-Oeste

700 mil

700 a 6 125

6 125 a 35 000

Acima de 35 000

5 000 a 100 000

Acima de 100 000
A partir dos valores
da coluna anterior

Crédito à exportação no
Estatuto da MPE
- Indústria

900

900 a 7 875

- Comércio e serviços

450

450 a 3 375

Banco do Brasil

500

5 000

Caixa Econômica Federal

433,7

5 000

Bancos Privados (valores
mais utilizados)

1 – até 5 000

Até 80 000

2 – até 10 000

Até 150 000

3 – até 15 000

Até 180 000

Fontes: Legislação Federal e normas de empréstimos bancários dos bancos.

Nos bancos privados, os limites de valor utilizados para classificar pequena empresa variam
amplamente, sendo mais comuns os patamares de 5 milhões de reales, 10 milhões de reales ou 15
milhões de reales. Para médias empresas são adotados limites ainda mais diversificados, podendo
assumir valores entre 5 milhões/10 milhões de reales a 100 milhões de reales e entre 15 milhões a
180 milhões de reales (midlle market). A partir desses últimos limites são atendidas as grandes
empresas e grupos econômicos (mercado corporate).
13

14

14

Lei nº 9.841/99 (Estatuto da MPE), que adota como critérios de tamanho os valores de 433.755,14 reales (cerca de US$ 144 mil, à
taxa de câmbio de R$ 3,1/US$ 1, em 07/2004), para microempresa, e 2.133.222,00 reales (US$ 708 mil), para pequena empresa.
Esses valores, corrigidos, substituíram os valores vigentes até 31.03.2004, de 244.000,00 reales, para microempresa, e 1.200.000,00
reales, para pequena empresa.
Os recursos de crédito do Proger/FAT provêm, primariamente, de contribuições sociais dos empregadores privados e públicos,
respectivamente, sobre a folha de salários, para os Programas PIS e PASEP. O Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT é gerido pelo
Fundo de Amparo ao Trabalhador, do Ministério do Trabalho. Na área do crédito, o FAT destina recursos a cargo do BNDES, e
diversas linhas de crédito para geração de emprego e renda nos bancos federais.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

A tabela 1 apresenta os conceitos de porte de empresas adotados em programas federais de
crédito e em bancos privados, utilizados na concessão de crédito a empresas de micro, pequeno e
médio portes, conforme levantamentos para esta pesquisa.

2.1 Conceito de porte de pequena empresa adotado na pesquisa
Esta pesquisa considerou, antes do início dos levantamentos de informações junto aos bancos,
diversas possibilidades de limites de valor para conceituar as empresas de micro, pequeno e médio
portes, de acordo com os valores apresentados na tabela 1. Conforme se observou a respeito da
diversidade de limites de valor utilizados, os levantamentos preliminares da pesquisa indicaram a
inviabilidade da adoção de um limite único de valor para classificação de portes de empresas, dado
que cada instituição bancária adota critério próprio. Em segundo lugar, a peculiaridade do
atendimento bancário às empresas de pequeno porte no varejo, que difere substancialmente do
atendimento concedido às empresas de médio porte, indicou a impropriedade da inclusão desse
último segmento nos levantamentos a serem realizados, conforme se discute a seguir.
Para oferecer produtos, serviços e atendimento segundo as características comuns e o porte
dos clientes, os bancos dividem suas áreas de atendimento em dois segmentos: o mercado de varejo,
para a concessão de créditos às micro e pequenas empresas e às pessoas físicas, e o mercado de
atacado, para o atendimento de empresas de maior porte e das pessoas físicas com alta renda e/ou
alta capacidade de investimento. A característica principal que diferencia as duas áreas é o
atendimento personalizado para as empresas de médio e grande portes (midle market e corporate),
em que as condições de crédito, taxas de juros e serviços em geral são negociados entre a empresa e
o banco. De outro lado, o mercado de varejo se caracteriza por atendimento mais geral, com limites
de crédito, taxas de juros, garantias e demais condições dos empréstimos calculados
automaticamente ou sugeridos pelo credit scoring individual.15 Mais recentemente, os bancos tem
estabelecido em sua estrutura de atendimento uma área específica para o atendimento de médias
empresas, o chamado middle market ou middle corporate, com atendimento individualizado para
esse segmento.16
Conforme a segmentação das áreas dos bancos apresentada acima, as empresas classificadas
como médias encontram-se mais próximas do tipo de atendimento dado no mercado corporativo dos
bancos. Como esse atendimento difere bastante do prestado no varejo, não se justifica a análise
conjunta dos dois segmentos de empresas quanto às condições de acesso ao crédito bancário.17 Após
essa diferenciação, procurou-se definir os limites de porte de pequena empresa mais próximos das
práticas de mercado e que melhor possibilitassem a obtenção de informações junto aos bancos. Esse
limite foi encontrado entre os valores de 5 milhões a 15 milhões de reales de receita bruta anual,
faixa que permitiu acomodar as informações prestadas pela maior parte dos bancos estatais e todos
os bancos privados que forneceram informações. Em termos de valor único, pode-se definir 10
milhões de reales como o mais representativo do conceito de pequena empresa para efeito de
avaliação do crédito bancário, muito próximo do valor adotado pelo BNDES (10,5 milhões de
reales) e do utilizado pelas normas do Mercosul (US$ 3,5 milhões, para empresas do setor
industrial, ou 10,8 milhões de reales).
15

16

17

Observa-se, contudo, que o atendimento impessoal às PMEs no varejo não pode ser interpretado linearmente, como uma regra única.
A competição bancária recente por novos clientes tem levado os bancos a conceder atendimento mais personalizado a clientes de
menor porte, pelo estabelecimento de plataformas de atendimento a essas empresas, e a crescente especialização ou o treinamento de
gerentes em MPEs (ver seção 7 deste trabalho).
Também em bancos estatais se observa essa segmentação: no Banco do Brasil, as médias e grandes empresas e os clientes corporate
são atendidas no mesmo setor, na Carteira de Crédito Comercial, cf, relatório anual Análise de Desempenho 2003, Banco do Brasil,
pg. 27.
Em estudo sobre o uso de informações no mercado de crédito brasileiro e a influência da assimetria de informações e da segmentação
de mercado sobre as taxas de juros, Pinheiro e Moura (2001) mostram as diferenças entre os três mercados (varejo, midlle e
corporate), onde o histórico de relacionamento com as empresas de médio porte permite a obtenção de informações mais seguras
sobre essas empresas, cf. Segmentação e Uso de Informação nos mercados de crédito brasileiros, Textos para discussão 88, BNDES,
fev.2001, pg. 29.

15

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Fazem-se necessárias duas observações quanto ao crédito a microempresas e a médias
empresas. No que se refere a médias empresas, não obstante não estarem incluídas nas estatísticas
do crédito comercial do mercado livre, neste trabalho, os créditos a elas direcionados em programas
de fomento do governo federal e no BNDES estão incluídos em análise especifica dos programas de
crédito direcionado, de segundo piso. Quanto às microempresas, o conceito de crédito refere-se ao
concedido pelos bancos comerciais, ou em programas especiais, não se confundindo com o
microcrédito fornecido por entidades especializadas, com características assistenciais.

3.

Presença da micro e pequena empresa na economia
brasileira
3.1 As empresas formais

A evolução de alguns indicadores sobre as micro e pequenas empresas na economia brasileira
tem apresentando sinais positivos, que contrasta com os resultados e as flutuações verificadas nas
taxas de crescimento econômico nos últimos anos.18 No período entre 1996 a 2001 o número das
MPEs passou de 3,1 milhões para 4,6 milhões, nos setores da indústria, comércio e serviços, com
crescimento acumulado de 46% no período. Em contraste, as médias e grandes empresas
apresentaram crescimento 10,6% no número de unidades, evoluindo de 34 mil, em 1996, para 37,6
mil, em 2001.
As micro e pequenas empresas representam 99,2% do total de 4,63 milhões de empresas
formais na economia brasileira (tabela 1).19 Há uma elevada concentração de microempresas, com
93,9% das firmas classificadas nesse porte. Apenas 0,3% das empresas são de grande porte,
empregando mais de 500 pessoas na indústria ou mais de 100 pessoas nos setores do comércio e
serviços.
A distribuição das firmas por setor indica que o comércio é o que apresenta a mais alta
concentração de microempresas, com 95,5% do total20 e o menor número relativo de empresas de
grande porte, com 0,1% das firmas.21

Tabela 2

NÚMERO DE EMPRESAS NO BRASIL, POR PORTE E SETOR DE ATIVIDADE – 2001
Micro

Pequena

Média

Grande

Total

Setor
Nº
Indústria

18

19

20

21

16

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

535 143

90,8

44 175

7,5

8 102

1,4

1 622

0,3

Nº
589 042

%
100,0

O Produto Interno Bruto-PIB cresceu, em média, 1,71% em 1996-99 e 1,0%, em 2001-2003, apresentando taxa negativa, -0,22% em
2003; a maior taxa no período 1996-2001 ocorreu em 2000, com 4,36%, (IPEADATA, site: www.ipea.gov.br)
O conceito de porte de empresa empregado é o mesmo adotado pelo SEBRAE: Microempresa: na indústria, até 19 empregados; no
comércio e serviços, até 09 empregados; pequena empresa: na indústria, de 20 a 99 empregados; no comércio e serviços, de 10 a 49
empregados; média empresa: na indústria, de 100 a 499 empregados; no comércio e serviços, de 50 a 99 empregados; grande
empresa: na indústria, acima de 500 empregados; no comércio e serviços, acima de 100 empregados.
Esse resultado reflete a predominância de elevado número de micro unidades de vendas a varejo em ramos como: produtos
alimentícios, vestuário, tecidos, bijuterias, material de construção, eletrodomésticos e autopeças, (IBGE, As Micro e Pequenas
Empresas Comerciais e de Serviços no Brasil, site IBGE, Set. 2003).
As firmas de grande porte envolvem, principalmente, os ramos de supermercados, vendas de veículos, eletrodomésticos,
distribuidores de GLP, lojas de departamentos e grandes magazines Cf. IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas, 2001,
www.ibge.gov.br.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Comércio

2 213 328

95,5

97 849

4,2

4 676

0,2

2 776

0,1

2 318 629

100,0

Serviços

1 604 135

92,8

102 905

6,0

10 132

0,6

10 302

0,6

1 727 474

100,0

TOTAL

4 352 606

93,9

244 929

5,3

22 910

0,5

14 700

0,3

4 635 145

100,0

Fonte: IBGE; Elaboração própria.
Obs.: Não incluídos os órgãos governamentais.

No setor de serviços, as microempresas e as pequenas empresas operam principalmente nos
ramos de alimentação, transportes de pessoas e mercadorias, manutenção e reparos, representantes
comerciais, informática e, ainda, no extenso ramo de prestação de serviços técnico-profissionais a
pessoas jurídicas, empregando, nesse caso, pessoal qualificado e com alta geração de valor
adicionado.22
a.
Emprego
As empresas formais geraram, em 2001, 25,8 milhões de ocupações na economia formal
urbana do setor privado, excluídos os empregados no setor público, representando cerca de 34% de
toda a população econômica ativa ocupada (tabela 3).
Tabela 3

NÚMEROS DE PESSOAS OCUPADAS, POR PORTE DE EMPRESA E SETOR DE ATIVIDADE – 2001
Micro

Pequena

Média

Grande

TOTAL

Setor
Nº

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

Nº

%

Indústria

1 845 644

24,1

1 755 165

22,9

1 614 144

21,0

2 451 844

32,0

7 666 797

100,0

Comércio

4 337 486

58,6

1 645 363

22,2

314 917

4,3

1 104 928

14,9

7 402 694

100,0

Serviços

2 986 149

27,7

1 932 571

17,9

696 183

6,5

5 172 913

47,9

10 787 816

100,0

TOTAL

9 169 279

35,5

5 333 099

20,6

2 625 244

10,1

8 729 685

33,8

25 857 307

100,0

Fonte: IBGE; Elaboração própria.
Obs: Não incluídos os órgãos governamentais.

O emprego gerado pelas MPEs também apresentou fortes incrementos em relação às
empresas de maior porte: enquanto as primeiras passaram de 10,9 milhões de ocupações, em 1996,
para 14,5 milhões, em 2001, resultando em 32,7% de expansão, as empresas médias e grandes
evoluíram 6,4%, de 10,6 milhões de ocupações, em 1996, para 11,3 milhões em 2001.23
Como conseqüência dos resultados acima, aumentou de forma expressiva a participação
relativa das MPEs na geração do emprego total nos três setores econômicos, passando de 50,6%, em
1996, para 56,1%, em 2001, sendo que o conjunto das médias e grandes empresas reduziu sua
participação, de 49,4% para 43,9%. O maior acréscimo percentual ocorreu na indústria, indicando o
aprofundamento das atividades produtivas das empresas de pequeno porte, em comparação com as
médias e grandes empresas.
b.

22
23

Participação na produção

Conforme analisado em “As Micro e Pequenas Empresas Comerciais e de Serviços no Brasil”, 2001, IBGE.
Conforme dados do IBGE, analisados em Morais, J.M., Micro e pequenas empresas aumentam participação no emprego e renda
gerados na indústria, comércio e serviços, in Revista SEBRAE, nº 12, março/2004.

17

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

As empresas industriais com até 99 empregados participam com cerca de 20% do valor da
produção no setor industrial.24 Resultados mais expressivos são demonstrados pelas micro e
pequenas empresas do setor comércio (com até 49 empregados), que detêm participação de 42,8%
na receita total do setor, percentual alcançado em razão da estrutura setorial, que apresenta maior
quantidade relativa de empresas que se classificam na categoria, 99,7% e maior percentual de
pessoas empregadas.25
c.
Nascimento e encerramento de empresas
Uma condição importante no acesso ao crédito das MPEs encontra-se no tempo mínimo que
os bancos geralmente exigem de funcionamento das empresas, e que decorre, conforme foi indicado
nas entrevistas, das altas taxas de mortalidade das empresas de menor porte. Nas análises cadastrais,
os bancos solicitam a comprovação do faturamento das empresas por determinado período,
geralmente fixado em três anos. No processo de análise de solicitações de crédito há exceções,
como nos casos de empresários que demonstram administração sólida de um novo empreendimento
e podem oferecer garantias reais, ou nas empresas que resultam de licenciamento de franquia
(franchising), que apresentam maior taxa de sobrevivência. Em decorrência daquela exigência de
tempo mínimo, é importante verificar como evolui o conjunto das empresas de micro e pequeno
portes nesse aspecto.
Pode-se avaliar, em primeiro lugar, a dimensão global do processo de encerramento de
empresas no Brasil, sem considerações quanto ao porte, com base nas estatísticas do universo das
empresas. A tabela 4 apresenta a evolução do número total de empresas abertas e fechadas, entre
1997 e 2001.26 Como se verifica, ocorre um intenso processo de nascimento e morte de empresas
todos os anos, que chegou a mais de 600 mil novas empresas abertas por ano e cerca de 375 mil
fechamentos, em média, entre os anos 1997-2001.
Levando-se em consideração o porte das empresas, as taxas anuais de natalidade e de
mortalidade são bastante diferenciadas. Na tabela 6, taxas altas de mortalidade, em torno de 15% do
estoque de empresas existentes ao final do ano anterior, são encontradas na empresas com até 4
pessoas ocupadas. Observe-se que as taxas de mortalidade são superiores às de natalidade para as
empresas com mais de 100 pessoas ocupadas, que pode ser explicado por uma particularidade do
período, caracterizado por concentração econômica, mediante processos de fusões e
incorporações.27

Tabela 4

NASCIMENTO E MORTALIDADE DE EMPRESAS, POR SETOR
Indústria
Anos

24

25
26

27

18

Nascim.

Encerram.

Comércio
Nascim.

Encerram.

Serviços
Nascim.

Encerram.

Total
Nascim.

Encerram.

O resultado de 20% é estimado com base em informações levantadas junto ao IBGE, e na Pesquisa Industrial do IBGE, PIA 2001,
que estima em 15,5% a participação na receita total das empresas com até 99 pessoas ocupadas, excluídas as empresas com até 4
pessoas ocupadas, cuja participação é estimada, grosso modo, em 5%.
Pesquisa Anual do Comércio 2002, IBGE, vol. 14, pg. 41.
As estatísticas são do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), do IBGE, de 2001. Os números anuais de abertura e do fechamento
de empresas são captados pelo IBGE nos registros do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), da Secretaria da Receita Federal
– Ministério da Fazenda, nas declarações das empresas à Relação Anual de Infomações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, e
em pesquisas de campo.
Cf. IBGE, Estatísticas do Cadastro Central de Empresas, 2001.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

1997

71 782

46 491

373 318

242 017

163 797

104 512

608 897

393 020

1998

52 804

50 040

296 353

256 672

142 315

100 345

491 472

407 057

1999

64 205

44 504

363 686

234 203

178 582

98 243

606 473

376 950

2000

59 818

44 484

351 983

238 698

174 056

106 081

585 857

389 263

2001

77 873

34 259

454 194

187 178

218 075

87 139

750 142

308 576

Média

65 296

43 956

367 907

231 754

175 375

99 264

608 578

374 974

1997-01
Fonte: IBGE – Estatísticas do Cadastro Central de Empresas – 2001.

Tabela 5

TAXAS MÉDIAS DE MORTALIDADE E NATALIDADE DE EMPRESAS, SEGUNDO O PORTE
1997-2001
Taxas médias, por porte de empresa (número de pessoas ocupadas) - (%)
Setor
0a4

5 a 19

20 a 99

100 a 499

Acima de 500

Total

Indústria
Natalidade

21,5

8,0

4,6

2,3

1,8

16,7

Mortalidade

14,6

5,1

3,2

2,8

2,8

11,3

Natalidade

21,9

8,2

4,8

2,5

2,0

20,0

Mortalidade

14,0

4,5

3,4

3,0

3,5

12,8

Natalidade

26,6

11,1

8,0

4,8

3,2

23,7

Mortalidade

15,6

6,7

5,7

4,9

3,3

13,9

Comércio

Serviços

Fonte: IBGE – Estatísticas do Cadastro Central de Empresas – 2001.

3.2 Pequenos negócios informais
Os dados e informações apresentados na seção anterior se referem a empresas legalmente
constituídas, registradas no cadastro de pessoas jurídicas do Ministério da Fazenda. Outro conjunto
extenso de “empresas” é o constituído pelos microempreendedores informais. Em termos globais,
estima-se que o setor informal participe com 33,4% do PIB, um número equivalente ao que
apresenta a Federação Russa (34,3%).28 Desenvolvendo suas atividades à margem dos sistemas
legais de tributação e das legislações trabalhista e previdenciária, as empresas informais não
dispõem de acesso a mercados que necessitam de comprovação de regularidade fiscal, como são os
casos do crédito bancário comercial, das compras governamentais e das aquisições das empresas
formais. Esse conjunto de ocupações econômicas representa um indubitável potencial, dado o
expressivo número de pessoas envolvidas, alcançando cerca de 9,6 milhões de microempresários,
conforme a maior pesquisa já realizada no Brasil nesse campo, pelo IBGE (tabela 6).29
Tabela 6

EMPREENDIMENTOS INFORMAIS - EMPRESAS COM ATÉ 5 EMPREGADOS,
E POR CONTA PRÓPRIA, SEGUNDO O SETOR DE ATIVIDADE
28

29

Small and Médium Enterprises acros the Globe: a New Database, A. Meghana, B. Thorsten, D-K.Asli, WB Policy Research Working
Paper, August, 2003.
Filgueiras Jorge, A., Valadão, L. , Setor Informal no Brasil: Metodologias e Principais Resultados, IBGE, 1997.

19

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Ramos de Atividade

Total de

Tipo de Empresa

Empreendimentos

Conta Própria

Empregador

Indústrias de Transformação e Extrativa Mineral

1 136 492

934 975

201 516

Indústrias da Construção

1 481 096

1 317 204

163 893

Comércio de Mercadorias

2 509 623

2 085 498

424 125

Serviços de Alojamento e Alimentação

799 824

663 208

136 616

Serviços de Transporte

639 187

592 606

46 580

Serviços de Reparação, Pessoais, Domiciliares e de
Diversões

1 898 044

1 710 734

187 309

Serviços Técnicos e Auxiliares

1 079 826

861 380

218 445

Outros Serviços

32 518

24 215

8 303

Sem declaração

4 232

788

3 443

9 580 841

8 190 610

1 390 231

Total

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Departamento de Emprego e Rendimento.
Obs: inclui cerca de 103 mil firmas do tipo Sociedade Anônima e que, portanto, não podem ser
caracterizadas como informais (1% do total de firmas).

Os 9,6 milhões de pequenos negócios informais são constituídos por pessoas que prestam
serviços por conta própria, por vendedores estabelecidos ou que trabalham no comércio ambulante,
por fabricantes de produtos caseiros e por microempresários que empregam até cinco empregados,
em diversos setores. Incluindo os empregados, o total de pessoas ocupadas nos 9,6 milhões de
pequenos negócios era de 12,9 milhões (64% homens e 36% mulheres), representando 25% de toda
a população ocupada no meio urbano. Apenas 7% dos trabalhadores desses pequenos negócios
tinham carteira de trabalho assinada.
As atividades econômicas principais dos empreendedores informais localizam-se no comércio
(26%), serviços de reparações, serviços pessoais e domiciliares e serviços de diversões (19,9%),
construção civil (15,6%) e indústrias (11,9%). Outro dado significativo é que 93% das empresas
responderam ser lucrativas, obtendo 629,00 reales anuais de lucro, em média.
Operando com alto grau de informalidade (uma parcela de 13% dispõe de constituição
jurídica, como firma individual ou sociedade, e outros dispõem de registros apenas parciais nos
órgãos públicos, principalmente nos órgãos locais), os microempresários somente são atendidos no
setor bancário privado com linhas especiais de microcrédito e nos bancos federais com linhas
especiais de fomento do governo federal A pesquisa do IBGE verificou que no período de três
meses anteriores ao levantamento junto às empresas, apenas 2% desses empreendedores obtiveram
crédito em bancos e 3% em fontes informais.

4.

Estrutura e evolução do crédito bancário no Brasil
4.1 Evolução do crédito bancário no período 1994-2003

Como referência inicial para a avaliação da participação das MPEs no crédito bancário, esta
seção acompanha a evolução do crédito bancário total e, em particular, dos empréstimos totais à
indústria, comércio e serviços, no período 1994-2003. Não obstante se defrontarem as MPEs, no
20

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

acesso ao crédito, com problemas específicos ao porte, a análise das barreiras encontradas pelo
segmento não pode ser dissociada das condições gerais que determinam a evolução do mercado de
crédito como um todo.
A tabela 7 mostra como se comportaram, no período 1994-2003, os empréstimos totais do
sistema bancário, englobando os diversos setores e níveis de governo em que são classificados, para
efeito de divulgação das estatística de crédito (agricultura, habitação, indústria, comércio, serviços,
pessoas físicas e governos federal, estaduais e municipais). Em coluna à parte encontram-se os
empréstimos à indústria, comércio e serviços, objeto da estimativa de aplicação de recursos às
micro, pequenas e médias empresas deste trabalho.
Tabela 7

EVOLUÇÃO DOS EMPRÉSTIMOS DO SISTEMA FINANCEIRO – 1994-2003
(Valores constantes, em violes de reales de 2003)
Empréstimos à Indústria, Comércio e
Serviços

Empréstimos Totais
Ano

Empréstimos/PIB
(%)

Empréstimos/PIB (%)

1994

366,8

36,4

170,6

16,7

1995

425,4

34,8

209,1

17,1

1996

410,5

31,0

191,7

14,5

1997

401,0

28,7

198,3

14,2

1998

420,0

29,7

215,0

15,2

1999

401,1

26,9

210,8

14,2

2000

423,8

27,7

216,7

14,2

2001

408,9

26,5

240,0

15,5

2002

413,5

23,8

245,1

14,1

2003

409,9

26,4

230,8

14,8

Fonte: elaboração própria, com dados do Banco Central.
Obs: os valores representam saldos de empréstimos em dezembro de cada ano (exceto 1994, que se
refere a julho), corregidos pelo Índice de preços IPCA; as relações empréstimos/PIB foram calculadas
com dados obtidos no site do Banco Central – séries temporais.

O primeiro ano da série, 1994, início do Plano Real de combate à inflação, representou o
início de reformulações profundas no sistema bancário brasileiro, que se estenderiam pelos anos
seguintes, tais como o Programa de Estímulo à Reestruturação e Fortalecimento do Sistema
Financeiro (Proer), a privatização de bancos públicos, a entrada de novos bancos estrangeiros,
incluindo a absorção de grandes e tradicionais instituições bancárias públicas e privadas, a
implementação de medidas de regulamentação e monitoramento prudencial e novas e mais rigorosas
normas na área de classificações de risco de crédito, com base no Acordo de Basiléia.30
A partir daquele ano, foi criada forte expectativa de expansão do crédito em geral, devido à
eliminação das receitas inflacionárias que os bancos obtinham com o floating de recursos dos
depósitos à vista do público, e com o esperado retorno da competição no sistema financeiro.31 Com
30
31

Cf. Rocha, F. A S., Evolução da Concentração Bancária no Brasil (1994-200), Banco Central do Brasil.
A receita inflacionária dos bancos, que representava 4% do PIB, em 1990-93, e 38,5%, em média, do total de suas receitas, foram
zeradas a partir de 1995, cf. dados da ANDIMA/IBGE: Sistema Financeiro – Uma análise a partir das Contas Nacionais 1990-1995,

21

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

a inflação sob controle, esperava-se que o sistema bancário passasse a direcionar parcelas crescentes
de seus recursos para o financiamento das atividades produtivas, aplicando maiores volumes de
crédito nas empresas. O sistema bancário brasileiro apresentava um significativo potencial de
crescimento na oferta de serviços e na intermediação financeira, dada a baixa alavancagem do
mercado de créditos em comparação com outros países.
Um dos efeitos mais esperados era a redução dos spreads bancários, em conseqüência do
aumento da competição entre os banco. Esse resultado constituía o principal fator para o estímulo à
participação do capital estrangeiro no sistema bancário, por meio de fusões e aquisições de bancos
estatais. Esperava-se que os bancos estrangeiros, que tinham passado de 38 instituições, antes da
abertura bancária, para 77, em 1997, contribuíssem para a “melhora da eficiência dos serviços
prestados”, concomitantemente ao processo de redução da presença do setor público nas atividades
financeiras, com a privatização dos bancos estaduais ou a sua transformação em agências de
fomento.32/33
Conforme os dados na tabela 7, no início da série ocorreu o esperado crescimento da oferta de
crédito, tendo alcançado expansão de 16% em termos reais nos dezoito meses (julho 94-dez.95) que
se seguiram à adoção do Plano Real.34 Contudo, em nenhum dos anos posteriores a 1995 o valor
global dos créditos atingiu o patamar daquele ano, apresentando níveis reais praticamente
constantes após 1995. De outro lado, avaliando-se a evolução do crédito global como proporção do
PIB, nota-se que a série apresenta trajetória declinante até 2002, caindo de 36,4%, em 1994, para
23,8% nesse último ano. Ocorre elevação em 2003 como decorrência de efeito estatístico, dada a
queda de 0,2% no PIB.
Analisando o comportamento dos volumes de crédito à indústria, comércio e serviços,
isoladamente, observa-se tendência de crescimento real na maior parte do período.35 Contudo, como
proporção do PIB, em nenhum dos anos da série repetiu-se a relação alcançada em 1994 e 1995, em
torno de 17%, apresentando tendência de uma relação abaixo de 15%.
Os números acima ilustram um dos mais sérios dilemas da economia brasileira nos últimos
anos: a dificuldade de ampliação sustentada dos volumes de crédito ao setor privado, um fator
essencial para a promoção do crescimento econômico. Com a estagnação do crédito à indústria,
comércio e serviços, como proporção do PIB, no longo período de 1994 até 2003, não se pode
esperar que a participação das empresas de micro e pequeno portes tenha encontrado condições
propícias para evoluir favoravelmente, no que se refere ao crédito concedido pelo setor financeiro
privado.
Essa situação tem levado o governo, em diversos momentos da história recente, a promover a
alocação de recursos para a ampliação do crédito às micro e pequenas empresas, e também às
médias empresas, sob taxas de juros mais baixas em relação às observadas no mercado livre, ou
mesmo subsidiadas, por meio de diversos mecanismos institucionais e programas especiais de
crédito, aplicados pelos bancos federais, além de esforços para influir na redução do spread
bancário.36

32
33
34

35

36

22

citado por Mendonça de Barros, J.R. e Almeida Jr., M. F., Análise do Ajuste do Sistema Financeiro Brasileiro, in “Artigos
Publicados no Período de Jan/95 a Mar/98”, Ministério da Fazenda, Secretaria de Política Econômica, (sem data).
Medida Provisória nº 1.514/96, do governo federal.
Relatório Anual do Banco Central , 1996 e 1997.
Em 1994, o PIB expandiu-se 5,9,% e, em 1995, 4,2%. A taxa de desemprego total registrou níveis baixos, de 3,4% em dezembro de
94, e 4,4% em dezembro de 95. O número de novas empresas abertas no primeiro semestre de 1995 superou o número de todo o ano
de 1994, mostrando o forte estímulo às atividades de novos negócios. (DNRC, em Nota SEBRAE/COPEC).
No início da série observa-se crescimento real de 22,5% nos 18 meses que se seguiram ao Plano Real, seguindo-se um forte ajuste em
1996, como resultado dos controles sobre o crédito e a demanda global, em decorrência da forte ampliação da demanda pós Plano Real.
A presença do Estado na alocação de crédito a MPMES é representada por várias medidas: historicamente, pela instituição no Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em 1965, da primeira importante linha de crédito para investimentos em PMES,
a Financiamento à Pequena e Média Empresa (FIPEME); e a obrigatoriedade, estabelecida em 1974 pelo governo federal e encerrada
em 1990, de aplicação, pelos bancos públicos e privados, de parcela equivalente a 12% a 16% dos depósitos à vista em pequenas e

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N° 168

4.2 Recursos livres e recursos direcionados
Os créditos à indústria, comércio e serviços, totalizados na tabela 7, englobam todas as
modalidades de empréstimos, envolvendo linhas de curto, médio e longo prazos, para capital de giro
e investimentos, de origem externa e interna, e recursos provenientes tanto de fontes públicas
quanto privadas. Para uma melhor visualização dos volumes envolvidos e das condições de acesso
das MPEs, torna-se necessária a separação dos créditos e sua análise segundo a origem do funding,
dado que as condições de acesso, as taxas de juros, os prazos e o processo de constituição de
garantias são bastante distintas, dependendo de se tratarem de linhas de crédito com fundos públicos
ou linhas normais de crédito no mercado livre.
Os dados divulgados pelo Banco Central, ao separar o crédito em recursos livres, recursos
direcionados, e os de origem externa, permitem uma melhor aproximação das características
específicas dos mercados de oferta de crédito às MPEs.37
a.
Crédito direcionado
Conforme a tabela 8, os recursos direcionados referem-se ao crédito habitacional, crédito
rural, empréstimos do BNDES e outros créditos direcionados. Os créditos especificamente
destinados às MPEs, não explicitadas no conjunto dos recursos da tabela 8, estão incluídos no
conjunto de empréstimos do BNDES (via repasses aos agentes financeiros) e em outros créditos
direcionados, constituindo empréstimos de segundo piso, em que o risco dos empréstimos é
assumido pelos agentes financeiros que emprestam na ponta.38
Os créditos direcionados têm sua aplicação definida segundo as normas específicas dos
programas de crédito de fomento, em alguns casos com determinação prévia das taxas de juros e
outras condições, tendo como agentes financeiros exclusivos os bancos estatais federais Os créditos
direcionados envolvem recursos aplicados em investimentos de médio e longo prazos, e também em
linhas para capital de giro.
Tabela 8

EMPRÉSTIMOS DO SISTEMA FINANCEIRO RECURSOS
DIRECIONADOS E RECURSOS LIVRES
(bilhões de reales/%)
Modalidades
Recursos Direcionados

Empréstimos Totais
(saldos em dezembro de 2003)
161,7

- Habitação
- Rural

38

91,1

- Outros

37

44,9

- BNDES

39,4

23,1

2,6

médias empresas, cf. Resolução 695 (e outras), do Banco Central. Mais recentemente, foram adotadas as seguintes ações na área do
crédito: i) a criação dos Fundos Constitucionais do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, na Constituição de 1988, cujos créditos às PMEs
estão analisado na parte II deste trabalho; ii) a instituição de diversas linhas de crédito com recursos do PIS/PASEP (Proger) no
âmbito do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do Ministério do Trabalho, analisado na Parte II; iii) a implantação de um
extenso programa de crédito às PMEs, o “Brasil Empreendedor”, de 1999 a 2002, com a ampliação de recursos nas linhas de crédito
dos bancos federais; iv) a criação no BNDES do Programa MPME, em 1966.
A divisão do mercado de crédito entre recursos livres e direcionados reflete a histórica intervenção do Estado brasileiro no
direcionamento de crédito a setores considerados prioritários, entre os quais se incluem as PMEs. A alta participação governamental
na alocação de crédito tem como origem as dificuldades de acesso e as altas taxas de juros prevalecentes no mercado de crédito livre
para alguns setores, ou, em muitos casos, a própria indisponibilidade de crédito.
Os outros créditos direcionados são repassados por fundos e programas do governo aos bancos federais: Caixa Econômica Federal,
Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia, sob os seguintes programas: i) Programa de Geração de Emprego e
Renda-Proger/FAT, aplicando diversas linhas de crédito direcionadas a pequenos produtores; ii) recursos excedentes do Fundo de
Amparo ao Trabalhador (FAT), repassados aos bancos federais para empréstimos de capital de giro (recursos do PIS e PASEP); iii)
linhas de crédito dos Fundos Constitucionais das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, com fontes de recursos determinados pela
Constituição Federal. Esses fundos estão analisados na Parte II, junto com os financiamentos do BNDES.

23

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Recursos Livres

224,2

Empréstimos a empresas

54,7

136,1

- Recursos internos

88,1

- Recursos externos

48,0

- Empréstimos a pessoa físicas

88,1
9,0

2,2

15,0

3,7

409,9

100,0

Leasing
Empréstimos ao Setor Público∗
TOTAL

Fonte: Banco Central do Brasil – Indicadores Econômicos.
∗ administração direta, indireta e atividades empresarias (empresas públicas).

Em função das características especiais que apresentam, o crédito direcionados às empresas
de micro, pequeno e médio portes serão avaliados na Parte II deste trabalho. As linhas de crédito de
programas de crédito de fomento estão discriminadas na tabela 1 da Parte II.

4.3 Taxas de juros, spreads e prazos no crédito livre
Os recursos livres emprestados às empresas, alcançando o total de 136,1 bilhões de reales em
dezembro de 2003, representam as aplicações com recursos de fontes privadas, cujas taxas de juros,
prazos e demais condições são determinadas pelo mercado. São constituídos de linhas de crédito de
bancos privados e estatais, destinados tanto a capital de giro, como para suprir compromissos de
curto prazo das empresas, com prazos mais estreitos, como são os casos das modalidade de
descontos de duplicatas, contas garantidas (limites de crédito automático) e hot money, entre
outras. Uma parcela do crédito livre (6,2% do total, em dez. 2003) é direcionada à aquisição de
bens, financiando principalmente veículos automotores.
Dentre os recursos livres, os de origem externa alcançavam 48,0 bilhões de reales, sob as
seguintes modalidades: repasses de bancos estrangeiros a instituições financeiras no Brasil,
adiantamentos de contratos de câmbio (ACC), export notes e financiamentos às importações. Essas
modalidades de crédito são pouco acessíveis às empresas de pequeno porte, especialmente a partir
de janeiro de 1999, quando a adoção da política de câmbio flutuante aumentou o risco da flutuação
cambial, situação assumida com mais segurança por empresas exportadoras, ou por aquelas que têm
acesso a hedge cambial. As empresas de pequeno porte, com até 99 empregados, exportam apenas
cerca de 2% do valor global das exportações brasileiras, constituindo um mercado reduzido para o
crédito de origem externa.39
Os recursos livres de origem interna alcançaram 88,1 bilhões de reales ao final de 2003.
Dentre as linhas de crédito mais utilizadas por MPEs estão as que adiantam recursos com base no
desconto antecipado de recebíveis. Entre esses, a preferência é pelo desconto de cheques prédatados, emitidos pelos clientes da empresa, em que os cheques não passam pela contabilidade, e
sendo em grande parte emitidos ao portador. Outras modalidades bastante utilizadas são as contas
garantidas, que definem um limite para crédito rotativo pré-aprovado, com juros mais altos,
atendendo aos compromissos de curtíssimo prazo das empresas, e o desconto de duplicatas,
representativas das vendas efetuadas.
As taxas de juros anuais médias nessas linhas alcançavam, em dezembro de 2003, de 22,4% a
69,7% (tabela 9), enquanto o spread médio atingia 26,4%. Dentre as linhas de crédito arroladas, a
menos utilizadas pelas MPEs é exatamente a que apresenta a menor taxa de juros e o menor spread,

39

24

Conforme dados das exportações de 2002, da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior – FUNCEX.

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a modalidade vendor, mais procurada por médias e grandes empresas, em que o banco financia o
comprador de bens pelo valor dos títulos da dívida.40
Tabela 9

TAXAS DE JUROS, SPREADS E PRAZOS, POR MODALIDADE DE CRÉDITO
PESSOAS JURÍDICAS
Modalidades
De crédito

Taxas médias de juros ao ano

Prazo Médio
(dez. 2003)

(em dezembro de cada ano) (%)
2001

2002

2003

Em dias

Capital de Giro

37,7

42,3

35,8

Conta Garantida

63,7

77,3

69,7

22

Aquisição de bens

34,4

43,0

29,3

258

Vendor

25,1

32,9

22,4

70

Hot money

46,1

52,0

53,6

10

Desc. Duplicatas

50,1

56,1

44,1

32

Desc. Promissória

56,1

50,9

55,5

35

43,8

50,5

42,3

Spread

Spread

Spread

Capital de Giro

17,7

14,5

20,1

Conta Garantida

45,1

55,6

54,0

Aquisição de bens

13,3

13,4

13,6

5,5

7,1

6,4

Hot money

27,5

30,3

37,9

Desc. Duplicatas

31,5

31,4

27,9

Desc. Promissória

37,5

29,2

39,2

Spread Médio

24,4

25,0

238

26,4

Taxa média

Vendor

Fonte: Banco Central.
Obs: as taxas de juros e spreads são da modalidade pré-fixadas.

Os prazos das linhas de crédito mais utilizadas pelas MPEs são também mais curtos: 10 dias,
na linha de hot money, 22 dias na conta garantida e 32 dias em desconto de duplicatas. As demais
linhas apresentavam em dezembro de 2003 os seguintes prazos: 70 dias, em vendor, 238 dias na
modalidade capital de giro e 258 dias na modalidade de aquisição de bens.
As taxas médias de juros acima escondem uma ampla dispersão das taxas efetivamente
praticadas por cliente, em cada modalidade ou linha de crédito, que variam conforme o porte da
empresa, o risco percebido, o valor e o prazo do empréstimo, as garantias oferecidas, as
reciprocidades, o histórico de relacionamento com o cliente, entre outras condições. Na seção 6 será
realizada uma aproximação das condições em que o mercado precifica suas operações de crédito, ao se
avaliar as taxas máximas e mínimas dos maiores bancos nas operação no varejo, com pessoas jurídicas.
Como informação adicional, registre-se que alguns bancos não desenvolvem operações de
empréstimos próprias de pessoas jurídicas para empresas cujo faturamento esteja abaixo de
determinado valor. Os tamanhos mínimos de empresa não atendida podem variar de 120 mil
reales/ano41 a 3,0 milhões reales/ano, representando política de cada banco, que pode variar
conforme o número de agências que possui. Conforme explicitou um dos bancos, “não é rentável
para o banco atuar, dado que é alto o custo de análise de crédito de empresas de porte muito
40

41

Nessa modalidade, envolvendo relação tradicional entre uma empresa compradora e uma vendedora, esta última transfere seu crédito
ao banco, recebendo o valor da venda à vista, dada uma taxa de juros de intermediação. O comprador é o financiado, mas quem
assume o risco junto ao banco é o vendedor; cf. Fortuna, E., Mercado Financeiro – Produtos e Serviços, 2001, Qualimark Editora.
Esse valor representa a conceituação de microempresa do sistema de pagamento de tributos federais simplificado – SIMPLES.

25

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

pequeno”, apontando ainda o risco implícito nos empréstimos a empresas de pequeno porte. Outro
motivo encontra-se na maior complexidade no cumprimento, pelo pequeno empresário, das
exigências de informações cadastrais e burocráticas exigidas nos empréstimos.
Na situação acima, é comum o atendimento com linhas de crédito ou produtos financeiros
para pessoas físicas, com taxas de juros mais elevadas. Nos bancos públicos não se detectou
tendência de oferecer linhas de crédito às empresas próprias de pessoas físicas, em decorrência da
disponibilidade de diversas linhas de crédito, com fontes de recursos federais, direcionadas ao micro
e pequeno empresário, inclusive informais, e de uma especial posição dos bancos como agente
público.42

5.

A escassez de crédito e os altos spreads: avaliações

A situação prevalecente de baixos volumes de crédito e dos altos spreads no mercado
financeiro tem provocado um intenso debate nos últimos anos sobre as causas subjacentes a essa
situação, e levado à proposição de medidas com vistas à solucionar aquelas deficiências do mercado
de crédito, como são os casos das ações voltadas ao aumento da concorrência entre os bancos e à
diminuição dos custos que determinam os altos spreads. O Banco Central, como autoridade
monetária e entidade reguladora do mercado, tem se mobilizado na realização de diagnósticos
abrangentes sobre o assunto e na proposição de ações visando corrigir as distorções apontadas.
As diversas interpretações que os diferentes setores diretamente relacionados ao crédito têm
dado aos problemas referidos são apresentados a seguir, de forma a subsidiar as informações
levantadas nesta pesquisa sobre as barreiras de acesso ao crédito para as MPEs. Os setores
envolvidos detêm entendimentos, como se verá, que mais se aproximam do que diferem sobre os
problemas gerais na oferta de crédito e sobre os níveis praticados de taxas de juros e spreads.
Em primeiro lugar, são apresentadas as percepções do setor privado industrial (demanda),
pela maior entidade de classe representativa do setor industrial no Brasil, a Confederação Nacional
da Indústria (CNI). A seguir, a visão do setor privado financeiro (oferta), pela Federação das
Associações Brasileiras de Bancos (Febraban), a maior entidade representativa do sistema bancário
no Brasil. Em continuidade, será discutida a posição do Governo Federal, representada pelos
diagnósticos e ações do Banco Central para a ampliação do crédito e a redução dos spreads.
Prosseguindo, será apresentada a opinião dos pequenos empresários sobre as causas
principais das dificuldades de acesso bancário, com base em duas pesquisas realizadas pelo
SEBRAE, em 1999 e 2004. Será apreciado, ainda que brevemente, na seção 6.1, estudo divulgado
no âmbito do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre as dificuldades de acesso ao
crédito de PMEs em países da América Latina.

5.1 Visões da indústria, do setor financeiro e do governo
a.
Confederação nacional da indústria
Para a entidade de classe Confederação Nacional da Indústria (CNI), o setor financeiro impõe
constrangimentos ao crescimento das empresas em geral, e especialmente às de pequeno porte, em
razão dos empréstimos bancários caros, insuficientes e com prazos curtos, limitando o crescimento
das empresas à sua capacidade de financiamento interno e restringindo a procura por crédito. Outro

42

26

Contudo, em maio deste ano (2004), a Caixa Econômica Federal, o 4º maior banco em operações de crédito, lançou uma linha para
capital de giro de empresas que poderá ser assumida diretamente pelos sócios como pessoas físicas. Nesse caso, os juros cobrados
(18% a 23% ao ano, mais variação da TR - cerca de 4% ao ano) e o prazo (até 60 meses) se inserem no esforço do governo federal de
ampliação da demanda via crédito – Jornal o Estado de S. Paulo, 11.05.2004.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

problema reside na rigidez na gestão de risco de risco de crédito, que torna os empréstimos
bancários muito seletivos, restringindo a oferta de crédito em geral.43
Conforme pesquisa realizada pela CNI e CEPAL, no biênio 1998-99 os recursos próprios das
empresas responderam, em média, por 71% dos investimentos realizados, e os recursos fornecidos
pelos bancos por apenas 28%. Os juros elevados, equivalentes em média a 50,5% aa., em dezembro
de 2002, e os prazos curtos, decorrem de causas conjunturais e estruturais. De um lado, a oferta de
crédito é limitada pelas necessidades de financiamento da dívida pública do governo federal, que
correspondia a 55,9% do PIB, naquela data, concorrendo fortemente com o setor privado pelos
recursos financeiros disponíveis, dada a elevada taxa de juros paga pelos títulos públicos na rolagem
da dívida. De outro lado, o spread bancário, cujo maior peso apontado pela CNI corresponde às
margens de lucro dos bancos, é sensível às condições macroeconômicas do País, havendo
correlação entre o risco-país e o spread fixado pelo agente financeiro. Nessas condições, a CNI
reconhece que a melhoria das condições macroeconômicas representa condição fundamental para a
queda da taxa básica e do spread.
Dado o diagnóstico acima, a CNI aponta as seguintes principais medidas para o aumento do
crédito e redução dos juros e dos spreads: i) preservação da estabilidade macroeconômica, como
condição para a redução da taxa básica de juros; ii) redução dos depósitos compulsórios sobre os
depósitos à vista e a prazo, como medida para a redução dos spreads; iii) redução dos impostos
sobre a intermediação financeira, para a redução dos spreads; iv) redução da razão capital/ativo dos
bancos, dos atuais 11% para 8%, permitindo maior alavancagem na oferta de crédito;44 v) redução
da ponderação de risco dos créditos para pequenas empresas; vi) aumento dos estímulos aos agentes
financeiros do BNDES para aumentarem as operações com as pequenas e médias empresas.
b.
Federação das Associações Brasileiras de Bancos (Febraban)
A Febraban associa os baixos níveis de crédito, os altos spreads e a baixa bancarização aos
desequilíbrios macroeconômicos, alta tributação e falhas na legislação processual do judiciário. A
instituição vem apontando como principais fatores de encarecimento do crédito: as altas taxas de
recolhimento compulsório sobre os bancos (45% sobre depósitos à vista e 15% nos depósitos à
prazo), a elevada tributação da intermediação financeira (com quatro tributos sendo cobrados (IOF,
CPMF, PIS e Cofins) e a obrigatoriedade dos bancos direcionarem parcelas dos depósitos bancários
a setores estabelecidos pelo governo, sob taxas de juros pré-definidas.
Dados as altas taxas de depósitos compulsórios e a obrigatoriedade de aplicação na
agricultura e em microcrédito, nessa última modalidade conforme normas recentes, a Febrabam
considera que sobram apenas 20% da totalidade dos recursos dos bancos para aplicar livremente.45
Outro ponto que a Febraban destaca refere-se às baixas garantias jurídicas prevalecentes no Brasil
para os credores, exemplificando com a Lei de Falência superada, além de morosidade processual
nas ações de recuperação de empréstimos. Para a entidade, “está ocorrendo crescente contestação
judicial a contratos juridicamente perfeitos entre bancos e clientes, desorganizando e trazendo
insegurança ao sistema financeiro”, provocando o descumprimento de contratos e a exigência de
mais garantias nos empréstimos.46
Considera, ainda, a entidade que a instabilidade macroeconômica do País, provocando alta
volatilidade na produção e na demanda global por bens e aumento do desemprego, é fator que
aumenta as taxas de inadimplência, elevando o risco nos empréstimos. Ademais, a elevada dívida
43

44

45

46

Financiamento no Brasil, Desafio ao Crescimento, Revista Indústria Brasileira, nº 25, abril, 2003, Confederação Nacional da
Indústria.
Ver estudo que sugere a diminuição da relação capital-ativo, de 11% para 8%, para o aumento da alavancagem dos bancos nos
empréstimos, em Soares, R.P., Evolução do Crédito de 1994 a 1999: uma Explicação, Texto para Discussão nº 808, IPEA, julho de 2001.
Segundo Roberto Luís Troster, economista chefe da Febraban, “Compulsório aumenta custos, afirma Febraban”, jornal Folha de S.
Paulo, 23.11.2003.
“Febraban propõe pacto para o crescimento”, entrevista do presidente da Federação ao Jornal “O Estado de S. Paulo, 21.03.2004.

27

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

pública provoca o deslocamento da poupança nacional para o financiamento do deficit, diminuindo
os recursos para empréstimos. Para o aumento do crédito e diminuição dos spreads, a Febraban vem
continuamente tomando posição no sentido das reduções do que chama de “cunha fiscal” na
intermediação financeira e das taxas do compulsório bancário.
c.
Banco Central
Em outubro de 1999, o Banco Central iniciou o projeto “Juros e Spread Bancário”, com o
objetivo de “promover ações destinadas a reduzir o custo dos empréstimos bancários no segmento
livre do mercado”,47 em continuação às ações que já vinham sendo desenvolvidas isoladamente.48
O projeto constitui-se de análises e diagnósticos que avaliam a influência de diversos fatores
estruturais e institucionais que provocam a escassez de crédito e os altos spreads, com o propósito
de promover a implementação de medidas para a correção desses desequilíbrios. O projeto
demonstra preocupação com a situação do crédito nas operações de varejo, onde ocorrem os
empréstimos a pessoas físicas e às pequenas empresas, dada a vulnerabilidade desses tomadores no
mercado financeiro, com baixo ou nulo poder de negociação.
Além dos desequilíbrios macroeconômicos que dificultam a redução das taxas de juros e a
ampliação do crédito, a exemplo da elevada taxa básica de juros para rolagem da dívida pública, e
os controles monetários, com a imposição de altas taxas de compulsório bancário, o projeto
identifica diversas distorções e inadequações de caráter institucional e legal que vêm tendo
influência sobre a formação das taxas de juros de mercado e a oferta de crédito. Entre esses, são
apontadas as deficiências na atuação do sistema judiciário, que aumenta os riscos jurídicos na
intermediação financeira, em razão dos custos altos e morosidade nos processos de cobranças de
dívidas em atraso, e leis de falência e de sucessão tributária inadequadas. Outros fatores relacionamse à baixa competição no mercado bancário, dificuldades na obtenção de informações sobre os
solicitantes de crédito, e normas da política de crédito determinando a aplicação obrigatória de
recursos na agricultura e na habitação, sob taxas de juros pré-determinadas, influenciando na
elevação do spread nos empréstimos do mercado livre.
Um dos pontos centrais do Projeto consiste no cálculo dos componentes do spread,
conceituado como a diferença entre as taxas de captação dos bancos no mercado financeiro e as
taxas de juros aplicadas nos empréstimos, calculadas separadamente para pessoas físicas e jurídicas,
e por modalidades de linhas de crédito.
O objetivo das analises da composição do spread e o acompanhamento da sua evolução é a
implementação de medidas administrativas internas e de ações que dependem de decisão legislativa,
para atacar as causas que inflam os custos dos seus componentes. No caso do componente “lucros
bancários” do spread, o Banco Central considera que à medida que os bancos dinamizem suas
carteiras de empréstimos, as margens de lucro tenderão a diminuir, com a redução da taxa média de
lucro por operação.49
A evolução dos componentes de custos do spread médio encontra-se na tabela 10,
apresentando a seguinte distribuição percentual, em agosto de 2003: margem de lucro dos bancos,
representando 37,5%; impostos diretos, 19,1% —Imposto sobre a Renda e Contribuição Social
sobre o Lucro Líquido (CSLL)—; impostos indiretos, 8,2%; despesas administrativas, 16,1%; e
inadimplência nos empréstimos, 19,1%. A evolução dos componentes no período de quatro anos,
47

48

49

28

Avaliação de três anos do Projeto ‘Juros e Spread Bancário no Brasil”, pg. 3, dezembro de 2002, (site do Banco Central:
www.bcb.gov.br).
O projeto teve início com a publicação do estudo “Juros e Spread Bancário no Brasil”, Departamento de Estudos e Pesquisas, Banco
Central do Brasil, outubro de 1999. Desde então, anualmente, vêm sendo realizadas avaliações sobre o desenvolvimento do projeto e
das medidas propostas, e análises sobre crédito, taxas de juros e spread (site do Banco Central: www.bcb.gov.br).
O spread em 1999, na média maio/julho, atingiu 45% ao ano. Dada a taxa de captação dos bancos de 21%, em média, (taxa paga pelo
título de captação Certificado de Depósito Bancário – CDB), as empresas estavam pagando de juros finais 66% ao ano. A taxa paga
pelas pessoas físicas chegava a 95% no crédito pessoal e a 178% nas operações de cheque especial.

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N° 168

entre agosto/1999 a agosto/2003, indica redução dos impostos diretos e indiretos e das despesas
operacionais, e aumento do componente causal inadimplência.
Tabela 10

COMPOSIÇÃO DOS CUSTOS DO SPREAD - TAXAS DE JUROS PRÉ-FIXADAS
Componentes

Composição do Spread (%)
ago/99

ago/00

ago/01

ago/02

ago/03

Margem de lucro

36,1

39,3

37,6

40,10

37,5

Impostos diretos

21,2

20,2

19,3

20,6

19,1

Impostos indiretos

11,9

8,7

8,2

8,1

8,2

Despesas
operacionais

19,6

18,3

19,1

14,2

16,1

Inadimplência

11,2

13,5

15,8

17,0

19,1

Fonte: Banco Central – Avaliação de Quatro Anos do Projeto Juros e Spread Bancário.

O valor do spread difere conforme as linhas de crédito, sendo mais baixo para as linhas que
apresentam garantias reais, como nas operações de vendor (spread de 6,4%) e de aquisição de bens
(13,6%), e mais alto para as linhas com menores garantias, como as de curtíssimo prazo (hot money,
com 37,9%) e conta garantida (54,0%). De um modo geral, respeitadas as diferenças entre as linhas
de crédito, as taxas de spread acompanham, em degraus, a evolução da taxa básica de juros para a
venda de títulos da dívida do governo federal (taxa Selic).50
Desde o lançamento do Programa já foram adotadas diversas medidas para influenciar a
redução dos spreads. Algumas das ações implementadas procuram aumentar a concorrência
bancária, como a obrigatoriedade de divulgação na Internet das taxas de juros cobradas pelas
instituições financeiras, a partir de 1999.
Para reduzir os problemas judiciais no crédito, o Banco Central adotou dois novos
instrumentos: a cédula de crédito bancário (CCB) e a aplicação do instituto da alienação fiduciária
na garantia de direitos.
A cédula de crédito bancário foi instituída para diminuir o risco do credor nos empréstimos,
por ser instrumento que possibilita execução judicial mais rápida da dívida, não exigindo a fase do
reconhecimento da legitimidade do crédito. Esse instrumento ainda não foi adotado de maneira
ampla pelo mercado, representando apenas 0,3% dos saldos das operações de crédito, mas deverá
ter aceitação importante no futuro em razão de seu “trâmite mais simples e rápido no processo de
execução judicial”.51 Um dos bancos entrevistados reconheceu que a CCB agiliza as relações
creditícias, mas “transfere sentimento de insegurança para a sociedade pois estaria desrespeitando a
ação dos tribunais”.
A aplicação do instituto da alienação fiduciária na garantia de direitos, anteriormente aplicada
somente na venda financiada de veículos automotores e de imóveis, a partir de junho de 2001
passou a ser aplicada também na garantia de fungíveis, como os direitos de crédito e outros títulos
financeiros, ampliando a garantia do credor nas operações de empréstimos. Há expectativa de que
esse novo instrumento facilite o aumento da oferta de crédito, pois o credor disporá de um meio
mais seguro e rápido de reaver os seus direitos no caso de inadimplência do devedor (o credor pode
solicitar a busca e apreensão dos bens dados em garantia). Conforme o Banco Central, “as
50

51

A taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia de Títulos Públicos), é a taxa básica de juros fixada pelo Banco Central para
a colocação de títulos da dívida pública no mercado financeiro, constituindo a taxa referencial e mínima a partir da qual as demais
taxas de juros do mercado financeiro são determinadas.
Avaliação de Quatro anos do Projeto ‘Juros e Spread Bancário no Brasil”, pg. 24, dezembro de 2003, Banco Central do Brasil.

29

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

operações de crédito com garantia constituída através de alienação fiduciária, como no caso do
financiamento de veículos, têm apresentado juros e spreads sensivelmente inferiores aos das demais
operações”, sendo a alienação fiduciária vista como “um contrato inquestionável e que conta com
uma garantia física executável”.52 A respeito desse mecanismo, um dos bancos estatais manifestou a
existência de controvérsias, pois ao permitir “a alienação fiduciária de coisas fungíveis, que podem
ser substituídas por outras da mesma espécie, quantidade e qualidade, beneficia extremamente os
bancos, pois transfere a posse direta e indireta ao credor”.
Os dois instrumentos comentados ainda não foram votados no Congresso Nacional, apesar de
disporem de força legal, pois foram introduzidos nas normas legais por meio de Medida Provisória,
com força de lei, porém, os bancos ainda não os aplicam de forma ampla, em decorrência de
insegurança jurídica, até que as medidas provisórias sejam transformadas em lei.
Outra medida procura diminuir os custos de transferência dos clientes de um banco para
outro: as instituições financeiras devem fornecer as informações cadastrais dos últimos dois anos,
quando solicitadas, incluindo todas as operações de empréstimos e de aplicações financeiras.53
d.
Sistema de informações de crédito do Banco Central
Com o objetivo de melhorar a qualidade das informações disponíveis ao sistema financeiro
sobre os débitos dos clientes junto aos bancos, diminuindo o risco sistêmico e melhorando a
supervisão bancária, o Banco Central criou em 1997 a Central de Risco de Crédito.54 Funcionando
também como um bureau de informações de crédito, a CRC ensejou às instituições financeiras
avaliar a situação ex-ante dos clientes com dívidas a partir de 5 mil reales, valor a partir do qual as
operações de crédito devem ser informadas ao sistema. Em julho de 2004, a Central de Risco de
Crédito foi substituída pelo Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), para
ampliar as possibilidades de consultas sobre o crédito concedido no Brasil. O SCR é um banco de
dados com as informações positivas e negativas, possibilitando à instituição que realiza a consulta
conhecer a totalidade das dívidas dos clientes junto ao sistema financeiro, ao final de cada mês, sem
a discriminação dos credores.
O sistema de informações auxiliará a gestão de risco de crédito, pelo conhecimento do valor
total do endividamento, em treze modalidades de empréstimos, e o perfil do vencimento das
dívidas, incluindo as assumidas em moeda estrangeira e a situação das dívidas vencidas. Outras
informações que constarão do sistema são o valor das garantias para créditos acima de 5 milhões de
reales e as taxas de juros das operações maiores que 5 mil reales. Outras informações serão de uso
restrito do Banco Central, como a classificação de risco dos empréstimos e a identificação dos
avalistas da operação de crédito.
Há expectativa de que o novo Sistema de Informações de Crédito contribuirá para o aumento
da concorrência entre os bancos por clientes, levando à redução das taxas de juros, pela ampliação
do conhecimento quanto à pontualidade, endividamento e tempo de relacionamento com o sistema
financeiro. Poderá ainda diminuir os níveis de inadimplência, pela melhoria da avaliação de risco do
cliente. Para consultar os dados do cliente, a instituição financeira deve dispor de sua autorização.55

5.2 As dificuldades de acesso ao crédito bancário na visão dos
pequenos empresários

52

53
54
55

30

Avaliação de três anos do Projeto ‘Juros e Spread Bancário no Brasil”, pg. 30, op. cit.; Avaliação de Quatro anos do Projeto ‘Juros e
Spread Bancário no Brasil, pg. 24, op. cit.
Resolução 2.385/01, do Banco Central.
Resolução 2.390, de 22.05.97, cf. Relatório anual do Banco Central, 1997.
Entrevista com Vânio Aguiar, chefe do Departamento de Supervisão Indireta do Banco Central, e informações no site do Banco
Central.

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N° 168

Nesta seção serão utilizadas como base de informações sobre o acesso das micro e pequenas
empresas ao crédito duas pesquisas realizadas em dois anos diferentes, com a mesma metodologia,
que procuraram identificar as principais formas de financiamento a que recorrem as empresas do
segmento, incluindo a extensão em que recursos próprios são utilizados. A situação geral
encontrada é de que o financiamento bancário é atualmente menos utilizado que no passado, tendo
contribuído para isso, em resumo: as elevadas taxas de juros, as exigências e a burocracia dos
bancos, a aversão a tomar empréstimos por parte dos empresários e a insegurança quanto às
flutuações da política econômica.56
No momento da primeira pesquisa (1999), somente 10% das empresas mantinham
empréstimos em bancos. Outras formas de financiamento utilizadas eram: crédito com fornedores:
64% das empresas; pagamento com cheques pré-datado, 47%; uso de cheque especial e cartão de
crédito: 27%; amigos e parentes: 10%; empréstimos no mercado informal: 3%.
A pesquisa não considerou o uso de linha de crédito com base em desconto de títulos como
empréstimo bancário, mas informa que 14% das empresas utilizavam os bancos para desconto de
duplicatas e outros títulos. Considerando, de acordo com as normas do Banco Central, que o
desconto de títulos constitui uma modalidades de crédito, o percentual das que mantinham créditos
com bancos se eleva para 24%.
A pesquisa procurou averiguar o percentual das empresas que já utilizaram empréstimos
convencionais alguma vez, tendo concluído que 79% delas nunca tinham levantado um empréstimo
(excluídos o desconto de recebíveis ou o uso de cartão de crédito/cheque especial). Foram
apontados como principais motivos para a não obtenção de créditos: a insuficiência de garantias
reais ou a falta de sua comprovação, 36%; a insuficiência de documentos, 23%; e os registros
negativos em centrais de crédito, 11%.
A pesquisa apontou a estreita relação entre o caixa da empresa e as contas pessoais do
empresário: cerca de 55% deles fizeram retiradas de dinheiro do caixa da empresa para pagar contas
pessoais, sendo a maior freqüência a dos que retiravam de 7 a 12 vezes por ano.
A pesquisa avaliou também o percentual de empresas que operam com saldo de caixa
positivo, ou seja, em que o volume de receitas à vista supera o volume de despesas à vista. Cerca de
55% das MPEs operam com saldo de caixa inicial positivo, 28% com saldo negativo e 17% com
saldo nulo. Na interpretação do relatório, as empresas com saldo positivo e nulo têm nas receitas
próprias uma alternativa para o financiamento próprio das operações correntes.
Perguntadas se gostariam de tomar empréstimos em bancos, na condição de crédito fácil e
barato, cerca de 60% das MPEs responderam positivamente.57 Para os 40% de empresas que não
tomariam empréstimos nas condições de juros mais baixas, as seguintes razões foram apontadas
para não o fazer: dificuldade de pagar e/ou falta de perspectivas nos negócios, a aversão à tomada
de empréstimos e a incerteza quanto à condução da política econômica.
Em seguida, a pesquisa avaliou o grau de adesão à tomada de novos empréstimos por parte
dos que levantariam crédito nos bancos sob vários níveis de taxas de juros. A análise dos resultados
mostra uma forte cautela com relação a endividamento junto aos bancos: sob taxas prevalecentes no
mercado (taxa de 3,1% ao mês), apenas 4,6% do total das MPEs estariam dispostas a tomar crédito;
com taxa mais baixa, a 2,1% ao mês, o percentual de empresas interessadas chegaria a 11,1%, ou
seja, um percentual maior, mais ainda baixo de empresas. Reduzindo, hipoteticamente, a taxa para
1,0% ao mês (um nível irreal no Brasil), somente 25,4% levantariam empréstimo nos bancos.
Finalmente, perguntadas sobre o que poderia ser feito para facilitar a tomada de empréstimos, 69%
56

57

A Questão do Financiamento das MPES no Estado de São Paulo, pesquisa de campo realizada em agosto de 1999, com amostra
inicial de 450 empresas da indústria, comércio e serviços – Sebrae de São Paulo e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas –
USP, set/1999.
Um total de 40% responderam que levantariam empréstimos para capital de giro e 30% para investimentos. Quanto ao valor dos
empréstimos pretendidos, 88% das empresas levantariam valores até 50 mil reales.

31

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

das empresas citaram a redução dos juros, 35%, a redução da burocracia, e 14% a ampliação dos
prazos dos empréstimos.
Outra pesquisa idêntica foi realizada quatro anos depois, no início de 2004, com o mesmo
tamanho de amostra. Identificou-se que 61% delas nunca levantaram empréstimos convencionais no
sistema bancário.58 Na data da pesquisa de campo, 22% delas estavam com empréstimo bancário no
sentido convencional (12% em bancos estatais e 10% em bancos privados) e 13% com descontos de
títulos em bancos. As alternativas ao financiamento bancário registradas na pesquisa foram: crédito
de fornecedores (66% das empresas); cheque pré-datado (45%); cheque especial e cartão de crédito
(29%), e outras modalidades em menor percentual, incluindo recursos originários de parentes e do
mercado informal.
As empresas que relataram ter recorrido a bancos e não receberam empréstimos apontaram as
seguintes razões para as negativas: 40% atribuem à falta de garantias reais, 16%, a registros
negativos em centrais de informação de crédito, 12%, à insuficiência de documentação e dificuldade
de atendimento da burocracia bancária, 32%, a diversas razões, entre as quais o tempo de conta no
banco e a manutenção de baixo valor médio de depósitos. A pesquisa mostrou que as dificuldades
encontradas no acesso aos bancos como pessoa jurídica levou parte das empresas (20%) a buscar
acesso aos recursos bancários na condição de pessoa física, e que 89% delas levantaram empréstimos
nessa modalidade, situação em que as exigências burocráticas são menores.
Perguntadas sobre medidas para facilitar o maior acesso ao crédito, a principal demanda das
empresas concentrou-se na redução dos juros, respondido por 53% das empresas. Em segundo
lugar, as empresas demandam a “redução da burocracia nos bancos”, com 29% das respostas.

6.

Resultados da pesquisa: condições de acesso das pequenas
empresas ao crédito e participação no crédito bancário total
6.1 Assimetria de informações

O marco conceitual situa as dificuldades de acesso ao crédito das pequenas empresas no
contexto da assimetria de informações, condição que leva os bancos a cobrar taxas de juros acima
das que prevaleceriam em uma situação de “informação pública prontamente disponível” (Pinheiro
e Moura, 1999).
A assimetria de informações surge da desigualdade de conhecimento sobre o uso do crédito
entre o banco e o cliente, levando a que o banco não conheça as características do projeto da
empresa e não detenha o controle sobre uso dos recursos pelo cliente. O problema da assimetria é
aumentado em razão de não contarem os bancos com unidades especializadas em pequenas e médias
empresas ou com tecnologia de crédito apropriada para esse segmento, sendo menor a capacidade
de avaliar os projetos apresentados por unidades de menor porte, se comparada à de projetos de
empresas de maior porte. É freqüente, ainda, a dificuldade das pequenas empresas de fornecerem as
informações solicitadas pelos bancos.59
Para solucionar parcialmente os problemas da informação assimétrica, são necessárias as
seguintes ações, segundo estudo realizado em alguns países da América Latina (BID-Grupo DFC,
2002): i) uma análise rigorosa das características e qualidade da empresa e do projeto antes da
aprovação do crédito; ii) a exigência de garantias para respaldar o empréstimo; iii) uma supervisão
58

59

32

O Financiamento das MPES no Estado de São Paulo – Sondagem de Opinião com 450 empresas, com até 99 empregados, em
jan/2004, Sebrae-São Paulo.
Alguns parágrafos desta introdução consistem em tradução livre, pelo autor, de partes da seção V do estudo Acceso de de lãs
Pequeñas e Medianas Empresas al Financiamento, Banco Interamericano de Desarollo (BID) – Grupo DFC, Washington, marzo de
2002.

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rigorosa, para evitar comportamentos oportunistas do empresário; iv) a penalização da empresa que
não cumpre as obrigações contratuais. As últimas duas ações diminuem o “risco moral”, ou seja, as
atitudes tomadas pelo cliente que podem aumentar o risco de o banco não ser ressarcido, frente a
situações em que não há penas previstas para o tomador. No entanto, não ocorre diminuição do risco
moral em países em que a execução de garantias é um processo demorado e caro, e as decisões a
favor do credor não estão asseguradas.
Segundo o estudo citado, os maiores obstáculos ao acesso ao crédito para as PMEs em países
da América Latina estão associados aos custos por provisão de perdas devido aos maiores riscos de
crédito com as PMEs, em relação aos custos de emprestar a grandes empresas, e os custos
associados à recuperação de garantias. Nessa situação, os custos com a obtenção de informações e
os custos operacionais com a atividade de emprestar seriam secundários em relação aos primeiros.
Aqueles fatores resultam em menor disposição dos bancos em emprestar a PMEs e em elevação dos
juros, reduzindo a re,ntabilidade dos investimentos e diminuindo a demanda por financiamentos.
A solução estaria na adoção, pelos bancos, de tecnologias creditícias mais adequadas ao segmento, e
áreas próprias para atendimento a PMEs.
Há, adicionalmente (Pinheiro e Moura, 1999), uma forte característica do mercado de crédito
no Brasil, “sua segmentação em diferentes submercados, onde tomadores que oferecem os mesmos
riscos para os bancos recebem diferentes condições de empréstimos, dependendo do seu tamanho e
da natureza de suas relações bancárias”. Como os bancos não possuem informações para distinguir
os tomadores seguros daqueles de risco elevado, tratam todos os devedores como tomadores de
risco, cobrando altas taxas de juros.60
A assimetria de informações existe em todos os mercados de crédito, mas no caso brasileiro,
há a peculiaridade da alta sonegação fiscal, além de péssimas práticas contábeis das empresas,
levando a que somente um banco conheça o verdadeiro fluxo de caixa de determinada firma e de
sua capacidade de levantar crédito.61
A adoção de tecnologias mais avançadas de seleção de tomadores e uma maior
disponibilidade de informações positivas no mercado de varejo podem mudar as condições do
mercado, que se tornaria mais competitivo, forçando a redução das taxas de juros. Finalmente, um
passo importante nesse campo seria o fortalecimento da presença pública na difusão de informações
positivas para melhorar as análises de risco de crédito, por meio da Central de Risco de Crédito do
Banco Central.62
As questões analisadas nos dois estudos comentados acima, diretamente relacionadas aos
levantamentos realizados no presente estudo, foram extensamente abordadas nas entrevistas
realizadas com os bancos e outras entidades. As informações levantadas, comentadas a seguir,
permitiram a obtenção de um quadro geral sobre a situação das MPEs nesse campo, por meio da
identificação de diversos fatores específicos que contribuem para dificultar ou criar barreiras ao
maior acesso ao crédito.

6.2 A disponibilidade de informações, o sistema de análise de
risco de crédito e o uso do credit scoring
6.2.1 uso das normas de classificações de risco de crédito para MPEs
60

61
62

Pinheiro e Moura, in Segmentação e Uso de Informação nos mercados de crédito brasileiros, Textos para discussão 88, BNDES,
fev.2001. Segundo o estudo, há um bom número de bancos procurando introduzir políticas de gestão de crédito, incluindo métodos
de pontuação de crédito (scoring), porém todos os bancos utilizam, como informação preliminar, os dados sobre pessoas e empresas
inadimplentes nas centrais de Informação de crédito, como dado inicial e decisivo para a continuação ou não do processamento dos
empréstimos.
Pinheiro, A. C. e Moura, A., op.cit., pg. 9.
Pinheiro, A. C. e Moura, A., op.cit., pg. 52.

33

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Em termos das condições objetivas em que opera o sistema financeiro, sujeito a normas
obrigatórias de avaliação e classificação de risco dos empréstimos concedidos, a classificação do
cliente quanto ao risco, seu rating, assume papel central nas decisões de concessão de crédito às
MPEs.63
Nas classificações de risco dos créditos, o levantamento de informações assume papel
fundamental nas decisões. Os dados cadastrais e econômico-financeiros da empresa, as informações
sobre débitos e compromissos financeiros e comerciais, e outras informações relevantes permitem
traçar o perfil de risco do cliente, informando sobre sua capacidade, idoneidade e disposição para
honrar o pagamento de dívidas assumidas. A importância da informação é tanto maior quanto
menos o banco conhece o comportamento passado da empresa, no caso de firmas que recorrem ao
banco pela primeira vez ou que apresentam baixo relacionamento bancário.64
Nas atividades de empréstimos, os bancos seguem as normas de classificação de risco do
Banco Central, conforme os padrões do Acordo de Basiléia de supervisão bancária. Todas as
operações de crédito às pessoas físicas e jurídicas devem ser classificadas pelas instituições
financeiras segundo seu risco e atraso, em nove níveis, de AA a H. Os níveis de AA a C são
considerados pelo Banco Central, na divulgação das estatísticas globais de crédito, como risco
normal; de D a G, são classificados como risco 1; e H como risco 2. As instituições financeiras
devem realizar a provisão para créditos de liquidação duvidosa, em percentuais que variam segundo
o nível de risco dos créditos concedidos: de 0,5% para as operações no risco A, 1% para risco B,
3% para risco C, 10% para risco D, 30% para risco E, e chegando a 100% para risco H. A situação
dos empréstimos quanto ao atraso deve ser revista mensalmente, para eventuais reavaliações na
classificação.65
Alguns exemplos, relativos aos procedimentos e regras que os bancos adotam nas análises de
risco a empresas de pequeno porte, ilustram o papel essencial que o monitoramento de risco e a
busca de informações sobre o solicitante de crédito assumem no acesso ao crédito.
Na estrutura hierárquica do maior banco privado do País, em ativos e em valor dos
empréstimos, a área de gestão de riscos, compreendendo um departamento ligado a uma Diretoria
de Gestão de Riscos e Compliance, opera independentemente das áreas operacionais, reportando-se
diretamente à presidência do banco.66 O exame dos critérios aplicados pela instituição na
classificação de risco dos empréstimos indica que, para receber a primeira classificação no banco,
AA, “a empresa ou grupo deve ser de primeira linha, com porte, tradição e liderança no mercado
com excelentes conceito e situação econômico-financeira”. Para classificar-se com rating A, a
empresa “deve pertencer a grupo econômico de porte, com situação econômico-financeira
considerada ótima, atuando em mercados com perspectivas positivas e/ou potencial de expansão”.
A partir do rating B, o banco admite empréstimos a empresas de qualquer porte, com ‘boa
situação econômico-financeira”. No nível C, são classificadas as empresas com situação econômica
e financeira aceitável, “com desempenho sensível às variações conjunturais da economia”. No nível
63

64

65

66

34

Aplicadas a todas as operações de crédito, a partir do ano 2000, as normas atuais de risco de crédito, estabelecidas pela Resolução nº
2.682, de 21.12.99, do Conselho Monetário Nacional, aprimoraram e tornaram mais rigorosos os mecanismos de supervisão bancária
da autoridade monetária, cf. Relatório Anual do Banco Central de 2000, pg.63.
A preocupação com a segurança dos empréstimos bancários está presente em declaração do Presidente do Banco Central, ao final de
2003, ao prever que ocorreria uma aceleração no mercado de crédito no Brasil. Como principal sugestão aos bancos, esses deveriam
aprimorar seus sistemas de análise e gerenciamento de crédito, para atender à nova fase de crescimento do mercado de crédito:
“aqueles que estiverem preparados para emprestar de forma mais segura são os que vão crescer mais. Temos de investir tempo e
recursos em decisão de risco, em técnicas de análise de crédito”. cf. Jornal Valor Econômico, 08.12.2003.
Para realizar a classificação, o banco deve considerar informações relacionadas ao devedor e seus avalistas e em relação à operação
em si. Entre os primeiros estão a situação econômico e financeira, o grau de endividamento, o fluxo de caixa, o setor de atividade da
empresa, a pontualidade nos pagamentos, entre outras. Quanto à operação, são avaliados o valor do crédito, as características da
garantia e finalidade do empréstimo. Após a concessão, a classificação deve ser revista, no mínimo, mensalmente, procedendo-se à
reclassificação se ocorrer atrasos (Resolução nº 2.682).
Relatório de Análise Econômica e Financeira, Bradesco, dezembro 2002, pg. 45; site: www.bradesco.com.br.

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D são classificadas as “empresas com situação econômico-financeira declinante, ou com dados
contábeis não satisfatórios, sob administração de risco”. Nesse nível as empresas são consideradas
apenas regulares. A partir desse nível de risco, depreende-se que os empréstimos não são
recomendados, ou são concedidos somente com garantias suficientes e sob taxas de juros
suficientemente altas para cobrir os riscos e as provisões para créditos de liquidação duvidosa.
O banco mantinha, em dezembro de 2002, 90,9% dos créditos classificados de AA até C, ou
seja, operações de curso normal pelas normas do Banco Central, indicando que mantinha os
critérios de análise de risco sob rigoroso cumprimento. Na classificação D, onde se encontravam
2,7% dos créditos, os empréstimos caracterizam, ainda segundo a definição da empresa,
“administração de risco”, exigindo esforço do banco para aumentar as garantias de maior liquidez.
Os outros 6,4% eram considerados como de risco anormal, “passíveis de perdas parciais após esforços
de recuperação”.67 Existem empresas classificadas em níveis mais elevados de risco, em razão de
reclassificações por atrasos incorridos a que as instituições financeiras devem proceder mensalmente.
O banco estratifica as decisões sobre concessão de crédito e análise de risco em quatro
alçadas, de acordo com o risco da operação e seu valor, “sem perder o propósito de manter níveis de
automaticidade nas decisões”: na primeira, as agências dispõem de um limite de decisão de crédito
vinculada ao próprio porte da agência e, dentro dessa alçada, a concessão do crédito e seu valor
dependem do nível de endividamento do cliente e da sua classificação de risco de crédito; estando o
risco da empresa acima da alçada das agências, a aprovação do crédito passa a ser decidida pelo
Departamento de Crédito, na matriz, responsável pela análise técnica e parecer de todas as propostas
de valor até 6 milhões de reales; acima desse valor, até 20 milhões de reales, as propostas de crédito
não analisadas por Comitê Diário de Crédito; acima desse valor, a proposta é analisada por nível
hierárquico superior, o Comitê Executivo de Crédito.
No Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, o primeiro e o quarto maiores bancos,
respectivamente, no total de empréstimos, os resultados finais das análises de risco dos empréstimos
são centralizadas nas respectivas matrizes, com a utilização do instrumento do credit scoring para as
empresas com faturamento anual de até 5 milhões de reales/ano (MPEs).68 As agências alimentam o
credit scoring de cada cliente, conectado ao sistema central na matriz, e esta devolve à agência o
escore do solicitante de crédito, com o resultado da aprovação ou não e o limite de crédito, de
acordo com a sua capacidade de comprometimento com o banco. No Banco do Brasil, a agência
pode aumentar, em determinado percentual, o limite de crédito dado pelo credit scoring, em função
do conhecimento do gerente sobre as condições da empresa. No caso do cliente solicitar valores
superiores, a decisão cabe a instâncias superiores. Na Caixa Econômica Federal a decisão sobre o
limite de crédito aprovado não pode ser modificada pela agência que concederá o empréstimo, mas
o banco passará a aceitar, a partir deste ano, que o gerente decida sobre o melhor pacote de
empréstimos a ser concedido ao cliente.
Segundo o Banco do Brasil, a adoção do sistema de risco de crédito (e o uso do credit
scoring) representou para a instituição um avanço na confiabilidade da atividade de emprestar.
Antes da adoção das atuais normas de análise de risco, a diretoria não dispunha de condições para
acompanhar e conhecer com segurança o risco envolvido nos empréstimos efetivados, nas diversas
linhas de crédito, e nas diversas regiões do País. Não existiam critérios de padronização nas
avaliações de risco de crédito, e dada as múltiplas atividades de emprestar a variados segmentos
econômicos e pessoas físicas, não havia como avaliar e comparar os empréstimos sob o ponto de
vista do risco implícito.

67
68

Idem, pg. 32.
A partir desse limite de faturamento das empresas, as análises de crédito são customizadas, isto é, além do uso do credit scoring,
recebem tratamento individualizado, adaptado às características, necessidades e relacionamentos do cliente com o banco.

35

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

A adoção do sistema de risco, com as normas do Acordo de Basiléia, tornou homogêneas as
avaliações de risco. Ainda segundo o banco do Brasil, a implantação do sistema de credit scoring
permitiu neutralidade nas decisões de aprovação e dos limites de crédito nas agências. O sistema de
análise automático é centralizado na sede do banco, e as agências não dispõem de acesso às
ponderações ou pesos dados às informações utilizadas para a definição do grau de risco, aceitação
ou não da abertura do crédito e dos valores do portfólio de cada cliente.
Na avaliação de gerente do Banco do Brasil entrevistado, a utilização do credit scoring, além
de manter sob controle e baixo o nível de risco, eliminou os elementos subjetivos da avaliação da
aprovação e do limite de crédito, livrando o responsável pela decisão de emprestar de influências
pessoais que anteriormente podiam pesar na decisão.
Na mesma linha dessa argumentação, o Banco do Brasil, ao informar sua decisão em
aumentar entre 30% a 35% sua carteira de empréstimos em 2004, e em 3,0 bilhões de reales os
empréstimos para investimentos de pequenas empresas, decidiu que somente oferecerá crédito a
empresas classificadas nos riscos A e B, por representarem menor risco de inadimplência para o
banco, garantindo maior segurança nas aplicações, dado o maior prazo envolvido. O banco
informou que a redução nas taxas de juros em 2003 não impediu que o aumento dos lucros,
propiciado pela redução dos custos operacionais e pelo “aperfeiçoamento da análise de risco de
crédito”.69
6.2.2 a disseminação do uso do credit scoring na análise de crédito de MPEs
A necessidade de informações de melhor qualidade sobre o solicitante de crédito aumentou
de importância com a crescente adoção, pelos bancos, do credit scoring (CS), um instrumento
sintético de análise de risco que fornece, automaticamente, o rating do cliente (sua probabilidade de
adimplência nos compromissos com o banco), e a precificação da operação (taxa de juros),
atendendo às necessidades de rapidez e impessoalidade nas decisões sobre empréstimos no mercado
de varejo. O sistema de credit scoring permite ainda, nos casos de bancos que adotam a decisão
centralizada na matriz, definir o pacote de produtos disponíveis para o cliente (créditos para capital
de giro, desconto de recebíveis, crédito de investimento, etc), após o cálculo da capacidade de
comprometimento do solicitante de crédito com as amortizações dos empréstimos.70
Nos casos de bancos que utilizam o sistema de credit scoring centralizado na matriz, as
decisões de crédito ocorrem sob alto grau de impessoalidade, uma vez que os pesos (ponderações)
aplicados sobre as variáveis que compõem o CS são desconhecido dos operadores na agência em
que se realizam os empréstimos, resultando em um processo neutro de decisão sobre a aprovação e
o montante do crédito.
Em bancos onde a decisão sobre a concessão de crédito não é completamente automatizada, o
credit scoring funciona como um indicador de crédito, mostrando a probabilidade de inadimplência
do mutuário, e ficando a decisão final dependente de outras informações obtidas na agência, tais
como o valor das receitas da empresa e as garantias disponíveis, além dos conhecimentos dos
gerentes sobre a empresa. Nesse caso, cabe ao gerente da agência, dentro dos limites de sua alçada,
definir a aprovação final do crédito. Para limites de crédito que excedem o valor calculado no CS,
há necessidade de confirmação em instâncias superiores à agência, ou em comitês na matriz, de
acordo com o valor do crédito. Em um dos bancos entrevistados, a análise é centralizada na sede,
mas o banco adota uma segunda opção para a avaliação final, no caso da não aprovação da
solicitação pelo credit scoring, com comitês decidindo sobre a concessão.

69
70

36

Jornal O Estado de S. Paulo, abril/2004: “BB ampliará crédito em 35%”.
Nos empréstimos a grandes empresas o CS é também calculado, apenas como indicador, em razão de melhores informações
disponíveis, entre as quais os balanços patrimoniais e os demonstrativos financeiros, que espelham com mais fidedignidade a situação
geral da empresa.

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Nas pequenas empresas com baixo histórico de relacionamento com o banco, a prática é o
estabelecimento de valor inicial do crédito em baixos volumes, para o teste de comportamento.
Após um período, o banco tem o escore comportamental do cliente, permitindo ampliar o limite de
crédito. Nas renovações dos empréstimos, a experiência desenvolvida com o cliente é incluída no
escore.71
Para a definição do escore do solicitante de crédito são selecionadas as variáveis que melhor
representem os vários objetivos pretendidos com o mecanismo. Sicsú (2003) aponta as variáveis a
serem levantadas em cinco grupos: dados cadastrais do proponente; experiência do banco com
operações anteriores, informações financeiras, dados de empresas coligadas e dados das operações e
desabonos.72
Entre as informações relatadas pelos bancos para a avaliação do crédito e que mais
influenciam um bom resultado do CS, conforme registrado nas entrevistas, estão: o faturamento
atual e o projetado para os meses seguintes, a proporção de vendas à vista e a prazo, a localização
da empresa (o ponto comercial), o tempo de atividade, medido por meses ou anos de faturamento,
os custos mensais que a empresa incorre para funcionar, os controles de contas a pagar e a receber,
o ramo de atividades, o endividamento geral com o sistema financeiro e com demais credores, o
patrimônio líquido, informações sobre investimentos realizados ou a realizar, a participação (market
share) no setor ou mercado, a participação em associações ou sindicatos, além de quaisquer outras
informações que possam dar indicações sobre a idoneidade do cliente e ajudar a definir sua
capacidade de pagamento. A avaliação é complementada pela análise e informações sobre o
ambiente econômico em que a empresa se encontra, com foco principalmente nas perspectivas de
negócios do setor em que a empresa opera.
No levantamento de informações sobre as empresas e seus avalistas os bancos fazem uso de
fontes externas e internas. As externas incluem fontes formais, como os registros públicos, cartórios
e juntas comerciais, e as centrais de informações de crédito, que informam sobre as situações de
inadimplência do interessado, recorrendo ao chamado cadastro negativo.73 As certidões negativas de
crédito fornecidas por centrais de informação de crédito, como a Serasa, Serviço de Proteção ao
Crédito - SPC, Central de Risco de Crédito do Banco Central, são utilizadas para as decisões iniciais
de concessão de crédito e para a aceitação dos avais e garantias fornecidas por terceiros.74 As
informações internas são as recolhidas diretamente junto aos clientes, como parte das informações
cadastrais que os candidatos devem apresentar na abertura de contas e para solicitações de crédito.
Algumas centrais de informação de crédito também levantam o credit scoring do solicitante de
crédito, para fornecimento aos bancos que utilizam combinações de scores internos e externos. Os
bancos recorrem ainda a diversas outras fontes informais, para a complementação de dados sobre o
comportamento e a situação dos clientes como bons ou maus pagadores, como é o caso das consulta
às referências comerciais dos candidatos, fornecedores e clientes, além de trocas de informações
entre os bancos, realizadas diretamente pelos responsáveis pelas áreas de risco, envolvendo tanto
informações negativas, quanto positivas, relativas ao comportamento dos clientes quanto aos
compromissos passados e dívidas atuais.
Segundo opiniões de alguns bancos entrevistados, o aumento da confiabilidade das
informações do credit scoring, seja calculado pelo próprio banco, ou adquirido de centrais de
71

72
73

74

No desenvolvimento de um sistema de gestão de risco de crédito para segmentos de varejo, Prado (2003) informa que “as
informações históricas de comportamento são muito mais preditivas que as informações pontuais. Desse modo é natural esperar
modelos de behaviour muito mais poderosos”, cf. Prado, E. A, Gestão de risco de crédito em bancos de varejo, in Gestão de Riscos
no Brasil, Duarte Jr., A M., Varga, G., organizadores, Financial Consultoria, 2003.
Sicsú, A. L. , Desenvolvimento de um sistema de credit scoring, in Gestão de Riscos no Brasil, op. cit.
Há relato de obtenção de lista completa dos contribuintes em dia com o fisco do Estado, como forma de identificar futuros clientes
idôneos. Nesse caso, ao procurar atrair novos mutuários, a agência bancária o faz baseado em informação que garante parte da
idoneidade do cliente, não correndo o risco de atrair clientes com problemas fiscais.
Uma análise abrangente das centrais de crédito em atuação no Brasil encontra-se em Pinheiro e Moura, op, cit., especialmente à pg. 38.

37

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

informação de crédito,75 tenderá a substituir as próprias informações cadastrais, em decorrência dos
contínuos aprimoramentos que aquele mecanismo vem recebendo em termos de inclusão de novas
informações (um banco estatal informou que são cerca de duzentas as informações cruzadas no
banco de dados do CS).
Além das atualizações dos dados individuais dos clientes, as informações econômicas gerais
que também compõem as variáveis de decisão do credit scoring são atualizadas, acompanhando as
mudanças conjunturais mais importantes. São os casos, por exemplo, de setores e ramos
econômicos em que as condições apresentam deteriorações, cujo peso é alterado para acusar o
aumento do risco e, conseqüentemente, aumentar as restrições nos empréstimos. Em bancos com
operações em todo o País, são ainda adicionados no sistema informações que levam em conta os
maiores riscos de determinadas regiões, tornando a análise de risco mais rigorosa nesses locais.
Ocorrendo crescimento da inadimplência em qualquer setor ou região, a estratégia imediata é
solicitar a ampliação de garantias nos novos empréstimos ou renovações, aumentar a taxa de juros e
realizar seleção mais aprimorada dos clientes, conforme relatado em entrevistas em bancos estatais e
privados.
Na linha de argumentação acima, um banco privado que resolveu ampliar os negócios com
PMEs desenvolveu novo sistema de credit scoring, permitindo a avaliação mais rápida das
solicitações de crédito dos novos clientes e das renovações, dada a expectativa de atração de novos
clientes do segmento. Nas decisões, utilizará scores combinados: o fornecido por central de
informação de crédito e o interno, esse último levantado a partir das informações da proposta de
crédito e outras obtidas externamente. O limite de crédito no banco é definido para cada cliente na
agência central.
Ainda sobre o tema de disponibilidade de informações, é interessante observar que na
pesquisa Doing Business in 2004, do Banco Mundial (IFC), que investigou as regulamentações em
mais de 130 países que ajudam ou dificultam os negócios, o Brasil posicionou-se, ao lado da
OCDE, em termos do índice de cobertura de serviços privados de proteção ao crédito —devedores
por mil habitantes—, apresentando boa cobertura de serviços privados de informações sobre
pretendentes ao crédito.76
A conclusão mais importante a se tirar do uso do credit scoring em análises de risco de
crédito para pequenas empresas, relatada por vários entrevistados, é a de que um score confiável
reduz drasticamente a taxa de juros cobrada no empréstimo, estando essa condição diretamente
relacionada à disponibilidade de informações confiáveis sobre a empresa pretendente ao crédito.

6.3 Condições de acesso das MPEs ao crédito
As entrevistas realizadas permitem projetar um quadro das deficiências principais, tanto
internas às empresas, quanto decorrentes das características do segmento, que contribuem para as
atuais dificuldades de acesso das empresas ao crédito. Apresenta-se, a seguir, um relato das
informações recolhidas junto aos bancos que participaram desta pesquisa, e ainda de entidades de
apoio na gestão de empresas.
6.3.1 as informações sobre as empresas e os registros contábeis
Segundo as opiniões majoritárias dos entrevistados, as principais dificuldades nas análises de
crédito de MPEs resultam de restrições na obtenção de informações confiáveis fornecidas pelas
empresas e de falhas nos registros contábeis. Os problemas derivam, especialmente, dos dados
irreais das receitas operacionais apresentadas e das dificuldades em se conhecer a real situação
financeira da empresa e dos seus níveis efetivos de endividamento.
75

76

38

A esse respeito, um dos bancos entrevistados informou que o credit score fornecido pela maior central de informações crédito
—a Serasa— apresenta um grau de acerto de 40%.
Doing Business in 2004, Brasil, Perfil de País, Banco Mundial e Oxford University Press, 2004.

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Nesse contexto, a análise do desempenho operacional passado e presente da empresa fica
severamente limitada pelas falhas nos registros contábeis, especialmente os relativos aos
movimentos de compras e vendas, compromissos financeiros, contas a pagar, custos em geral e giro
dos estoques. Essa situação dificulta as projeções dos fluxos de caixa, necessários para a correta
avaliação da capacidade de pagamento da empresa.
Conforme reportou um responsável pela área de crédito no varejo de banco privado, “as
empresas não confiam nos bancos para passar as informações necessárias a um correta análise de
crédito.” E segundo entrevista com um banco governamental, “muitas empresas são orientadas
pelos seus contadores a não informar ao banco o valor real das receitas, com receio de que a
informação seja de alguma forma alcançada pelos fiscos federal e estadual, através do banco”.
Dado que o faturamento constitui a principal informação para a análise do fluxo de caixa da
empresa, aquelas que não declaram os valores efetivos aos bancos acabam por receber volume de
recursos aquém das suas necessidades de capital de giro. Para a comprovação dos valores reais ou
mais aproximados das receitas efetivamente realizadas, os bancos solicitam a apresentação de
demonstrativos simplificados, o balanço gerencial do faturamento. De outro lado, a realização da
estimativa da capacidade de pagamento do cliente pela movimentação bancária resulta em valores
de representação da receita que tornam irreais os demonstrativos contábeis da empresa.
A preocupação com a obtenção de valores reais do faturamento decorre, ainda, do risco
implícito para o banco nos empréstimos a empresas que declaram valor fictício das receitas, tendo
em vista a possibilidade de sua autuação pelas autoridades tributárias, ficando sujeita a multas e ao
recolhimento de impostos atrasados, afetando a sua capacidade de pagamento de compromissos
assumidos com o banco. Para avaliar o valor real do faturamento, alguns bancos exigem a
apresentação das guias de pagamento dos impostos relacionados às vendas, como é o caso da
Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins.
Segundo algumas interpretações, o pequeno empenho das empresas e dos seus contadores em
manter práticas contábeis corretas, permitindo maior controle e transparência da situação financeira
das empresas e, conseqüentemente, a disponibilização de informações mais completas e confiáveis,
seria decorrência dos mecanismos de simplificação da arrecadação tributária federal para as
pequenas e médias empresas, que as desobrigam da apresentação de balanços e demonstrativos
completos ao Fisco Federal.77 Vem ocorrendo ainda, com freqüência, o desmembramento de
pequenas empresas em outras unidades empresariais (novas empresas, com novo cadastro de
contribuinte), sempre que a receita bruta anual atinge o limite permitido de enquadramento no
regime simplificado de tributação do governo federal (SIMPLES), reduzindo a capacidade de
levantamento de recursos.78
Para suprir a má qualidade das informações contábeis, os bancos vêm cada vez mais
recorrendo à complementação da análise da capacidade de pagamento da empresa por meio de
visitas locais, para a avaliação e certificação das informações fornecidas pelo solicitante.79
Segundo a visão bancária, o fator principal que diferencia as condições de acesso das grandes
empresas ao crédito, em relação às MPEs, são as questões relacionadas à qualidade dos registros
contábeis, conforme discutido acima. A disponibilidade de balanços patrimoniais completos na
77

78

79

A apresentação de demonstrativos contábeis é realizada de forma simplificada em dois regimes de pagamento de tributos ao Fisco
Federal: para as empresas com receitas anuais de até 1,2 milhões de reales no regime do SIMPLES, e para as empresas com receitas
anuais até 48 milhões de reales, que pagam o Imposto sobre a renda pelo Lucro Presumido.
O SIMPLES constitui um sistema de recolhimento de tributos federais, reunindo seis impostos e contribuições num recolhimento
único, tendo como base de cálculo a receita bruta mensal, sobre a qual é aplicado um percentual, que varia de 3% a 8,6%, conforme a
receita anual da empresa. A menor faixa inclui as empresas com receita anual até 60.000,00 reales. A maior faixa localiza-se entre
receitas de 1.080.000,01 a 1.200.000,00 reales anual.
Esse procedimento é norma no caso de créditos com recursos de programas governamentais (crédito orientado), em que a visita local
à empresa é necessária para a obtenção das informações do projeto de viabilidade econômica, exigido em todos os empréstimos
acima de determinador valor, geralmente fixado em 50 mil reales.

39

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

grande empresa espelharia com mais fidedignidade a situação patrimonial e financeira, permitindo
análises de risco mais confiáveis nesse segmento.
6.3.2 As informações de crédito e as práticas gerenciais
Segundo os relatos, os problemas de inadequadas práticas contábeis e a insuficiência de
informações sobre a condução dos negócios da empresa refletem a falta de habilidades gerenciais
básicas dos pequenos empresários, que se traduzem na baixa importância dada a aspectos essenciais
da gestão empresarial, como a necessidade de controles das finanças do empreendimento. Nessa
situação, os registros contábeis ficam restritos aos procedimentos necessários aos pagamentos de
impostos, com pouca aplicação na gestão e controle dos negócios.
As deficiências administrativas começam na abertura da nova empresa, quando o empresário
não avalia corretamente o capital necessário para as inversões fixas e capital de giro, e para os
compromissos que a empresa terá pela frente até realizar as receitas para a cobertura dos custos fixos e
variáveis do negócio. O empresário que começa os negócios com esse perfil facilmente dependerá de
linhas bancárias e empréstimos sob altas taxas de juros, sendo comuns as situações em que passa a
“rolar” as dívidas com empréstimos em financeiras, em cartões de crédito, empréstimos pessoais e
cheques especiais, comprometendo grande parte do rendimento dos negócios com o pagamento de
juros.
A falta de planejamento financeiro se traduz no descompasso entre o prazo de receita de
vendas de bens ou serviços e as despesas necessárias ao negócio, levando à falta de capital de giro
para suportar os períodos de desencaixe.80 Conforme um banco informou, na falta de crédito de
longo prazo as empresas acabam tomando recursos de curto prazo para a realização de
investimentos, e se esses apresentam prazo longo de maturação a empresa não consegue saldar os
compromissos assumidos.
É, ainda, muito comum nas pequenas empresas confundir as contas da pessoa física do
proprietário e o caixa da empresa, provocando a redução das disponibilidades de capital de giro.
Segundo pesquisa, 38% dos empresários utilizaram o caixa da empresa para pagar despesas
pessoais.81
Uma avaliação recente sobre empreendedorismo no Brasil apresenta uma visão realista sobre
a cultura gerencial no Brasil na abertura de empresas.82 O estudo levantou críticas sobre a
competência dos empreendedores brasileiros, referindo-se mesmo a uma “falta de competência” na
abertura e na condução dos negócios. Foi ressaltada a falta de planejamento na abertura de
empresas, inviabilizando a estruturação de um negócio que seja plausível: “o brasileiro quando
decide empreender não busca informações confiáveis sobre o negócio, não realiza pesquisas de
mercado e confia plenamente em informações informais, como a opinião de familiares”.83
6.3.3 Altas taxas de mortalidade
Diversos bancos apontaram as altas taxas de mortalidade de pequenas empresas como um
dado real que interfere na predisposição dos bancos em emprestar ao segmento. A atitude de cautela
em emprestar se traduz na exigência de número mínimo de anos de funcionamento para a empresa
se candidatar a empréstimos, que deve ser demonstrado com a apresentação de prova de
faturamento no período exigido, que pode variar de um ano, no mínimo —conforme ocorre na
Caixa Econômica Federal— até cerca de três a quatro anos.
80

81

82
83

40

Esse problema é acentuado no período de dezembro a março, em razão dos compromissos trabalhistas (13º salário e horas extras) e
diminuição sazonal das vendas após o final do ano. A falta de capital de giro leva as empresas de pequeno porte com mais freqüência
aos bancos nesse período para o levantamento de empréstimos para o pagamento dos compromissos de final de ano.
Cf., A Questão do Financiamento das MPES no Estado de São Paulo, pesquisa de campo realizada em agosto de 1999 e atualizada
em janeiro de 2004 —coordenação do Sebrae de São Paulo e Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas— USP.
Empreendedorismo no Brasil – 2003 – Global Entrepreneuship Monitor, Relatório Nacional, 2004, site: ibqp.org.br.
Empreendedorismo no Brasil, op. cit. pg. 66.

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Vários bancos associam a alta mortalidade das empresas de pequeno porte ao despreparo do
empresário ao abrir o empreendimento, como o desconhecimento do mercado em que vai atuar, a
abertura da firma em situação de alta concorrência local próxima, a subestimação das necessidades
de capital de giro e endividamento com altas taxas de juros em linhas de crédito para pessoas
físicas. Conforme se posicionou um dos bancos, “a ainda alta taxa de mortalidade das empresas
dificulta trabalhar com projeções acerca do desempenho futuro da empresa”.
A elevada taxa de fechamento de empresas nos primeiros anos de vida encontra-se bem
documentada em pesquisas sobre o assunto. Uma pesquisa realizada no Estado de São Paulo, em
2000, com 1.750 empresas constituídas entre 1995-99, concluiu que 32% delas encerraram suas
atividades no primeiro ano de atividade. No quinto ano de abertura das empresas pesquisadas, 71%
tinham deixado fechado as portas. Na análise da pesquisa, os principais fatores que afetam a
mortalidade são: i) a qualidade do planejamento antes da abertura; ii) a dedicação à empresa no
primeiro ano do negócio; iii) a administração do fluxo de caixa; iv) necessidades de melhores
aperfeiçoamentos/adequação do produto ou serviço às necessidades do mercado.84 Os juros altos,
combinados com baixa atividade econômica, são outros fatores indicados como principais
causadores das altas taxas de mortalidade de MPEs.
No aspecto jurídico, o atual sistema falimentar, regido pela Lei de Falências, de 1944,
constitui um sistema ultrapassado que não facilita a recuperação de empresas em dificuldade, via a
reestruturação de dívidas e/ou de apoio financeiro dos credores, para manter a empresa em
funcionamento. “Os processos falimentares no Brasil são excessivamente demorados e sem
adequada participação e fiscalização pelos credores interessados, resultando no sucateamento dos
ativos da empresa e grandes prejuízos aos credores”.85 O atual sistema judiciário de falências não
facilita a solução dos processos falimentares, um instrumento típico usado pelas empresas de
pequeno porte.
Em processos falimentares, as dificuldades no recebimento das dívidas cobertas com
garantias reais têm sido apontadas como um dos fatores causadores dos altos spreads, uma vez que
as garantias passam a fazer parte da massa falida, ficando os créditos garantidos em terceiro lugar na
ordem de preferência, atrás dos créditos trabalhistas e tributários. “Isso faz com que em raras
ocasiões as garantias tenham valor na falência”.86 A propósito, encontra-se no Congresso Nacional
uma nova lei de falências, tendo por um dos objetivos pretendidos o de conferir prioridade, após os
débitos trabalhistas, no recebimento dos empréstimos concedidos com garantias reais, dando mais
certeza ao sistema financeiro do recebimento dos empréstimos. Outro objetivo da nova lei é a
substituição da atual concordata por um plano de recuperação judicial ou extrajudicial da empresa
em dificuldades, em que os processos deverão ser resolvidos em um prazo máximo de seis meses.87
6.3.4 Informalidade
As empresas em situação de informalidade, não dispondo de registros nos órgãos públicos
para o cumprimento das diversas obrigações legais, tributárias, previdenciárias e trabalhistas, entre
outras, encontram-se excluídas do mercado normal de crédito, sendo atendidos somente em
programas de crédito de fomento do governo federal, caso em que a pessoa física do empreendedor
assume o compromisso com o banco. O grau de informalidade varia, podendo a empresa dispor de
licença para funcionar em órgãos de registro e fiscalização local, nível municipal, mas não estar
regularizada nos órgãos fiscais estaduais ou federais - sendo o registro principal o efetivado no
Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), do Ministério da Fazenda – impossibilitando a
apresentação da documentação exigida nas contratações de empréstimos.
84
85

86
87

Sobrevivência e Mortalidade de Empresas Paulistas de 1 a 5 anos.; Sebrae São Paulo, outubro 2001.
Lundberg, E., Reforma da Lei de Falências, in Avaliação de três anos do Projeto Juros e Spread Bancário, dez. 2002, Banco Central
do Brasil.
“Sem garantia o spread não cai.”, Sérgio Verlang, Banco Itaú, jornal Valor Econômico, 16.06.2003.
Essa nova versão, por ter sido alterada no Senado Federal, deverá voltar à Câmara dos Deputados para fase final de votação.

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Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Conforme foi relatado na Seção 3, cerca de 9,6 milhões de empreendedores por conta própria
e pequenos empregadores encontram-se na informalidade. As razões para a manutenção do
empreendedor na informalidade têm sido amplamente estudadas, sendo as principais: o custo dos
impostos; a burocracia e o custo da preparação da documentação exigida; o dispêndio de tempo para
idas aos órgãos de registro. As reduzidas receitas do negócio informal também têm sido destacadas
como um dos fatores para a não efetivação da legalização, pois não cobrem os custos envolvidos
nos registros e os impostos.
Mesmo no caso de empresas legalmente constituídas, muitas têm dificuldades na
apresentação das documentações exigidas nas contratações de crédito, incluindo as relativas à
atualização da situação jurídica da empresa (contratos sociais), demonstrativos contábeis e
financeiros, comprovações de regularidade fiscal, comprovação de bens, entre diversas outras
exigências, incluindo as extensas informações cadastrais iniciais, que contribuem para o
afastamento das empresa de pequeno porte do mercado bancário. Como a entrega das
documentações atende a exigências legais do Banco Central, e/ou às necessidades de informações
para as análises de risco de crédito, desenvolve-se uma barreira legal importante no relacionamento
bancário, que explica em parte a baixa bancarização e as freqüentes acusações das pequenas
empresas sobre o excesso de burocracia nos bancos.
Observa-se, finalmente, conforme foi lembrado por um gerente de banco estatal, que um
aspecto bastante positivo da maior bancarização reside na indução ao empresário em formalizar a
empresa, como condição para a solicitação de empréstimos bancários.
6.3.5 Morosidade e custos dos processos judiciais de cobrança
Conforme tem sido analisado em diversos trabalhos, as deficiências do sistema judiciário no
Brasil, caracterizado por lentidão nas decisões referentes à execução judicial das garantias e alto
custo das cobranças judiciais, têm contribuído para a elevação dos riscos e dos spreads nos
empréstimos bancários.
Em análise tratando das ineficiências do judiciário sobre os spreads bancários, Pinheiro
(2004) informa que as leis brasileiras de proteção ao credor são baseadas em leis similares às que
regulamentam o crédito em países latino-americanos e europeus, que adotam o sistema francês de
civil law. Contudo, conforme entrevistas que aquele autor realizou junto a bancos, o problema
reside na legislação processual, “percebida como muito favorável aos devedores, e especialmente a
sua aplicação pelo judiciário, que eles responsabilizam pela fraca proteção ao credor no Brasil”.
Segundo a análise, a morosidade da justiça prejudica os mercados de crédito de três formas:
primeiro, torna “a perspectiva de uma ação na justiça muito menos ameaçadora do ponto de vista do
devedor”, levando alguns devedores a preferirem que a cobrança da dívida seja realizada na justiça,
pelo alongamento do prazo de cobrança;88 segundo, a morosidade reduz o valor das garantias como
proteção contra a inadimplência; terceiro, a falta de agilidade incentiva os devedores a utilizar o
judiciário como uma forma de postegar o pagamento da dívida.89
Outro trabalho, “Sistema Judicial e Mercado de Crédito no Brasil”,90 associa o alto custo do
crédito para o tomador à elevada taxa de inadimplência, à insuficiência das garantias oferecidas e à
“morosidade e alto custo da recuperação por meios judiciais” dos empréstimos, que eleva os custos
embutidos no spread, ocasionando o aumento do prêmio de risco para toda a sociedade. São
apresentados os resultados de pesquisa desenvolvida pelo Banco Central com 93 instituições
financeiras, em setembro de 2001, sobre prazos e custos da recuperação judicial de créditos em
88

89

90

42

Em entrevista ao Jornal “O Estado de S. Paulo”, de 18.06.2003, o presidente do BankBoston, Geraldo Carbone, afirma sobre a
lentidão e o favorecimento do judiciário ao devedor, que “há advogados que procuram vender serviços sobre como dar calote nos
bancos”.
Pinheiro, A Castelar, O Componente Judicial nos Spreads Bancários, in Economia Bancária e Crédito – Avaliação de 4 anos do
projeto Juros e Spread Bancário, op. cit.. pg. 34.
Facchada, P., Figueiredo, L.F., Lundberg, E., O Sistema Judicial e o Mercado de Crédito no Brasil, Banco Central do Brasil, 2002.

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atraso. A recuperação toma 20 meses, em média, no caso de garantia fiduciária e até 37 meses para
as garantias fidejussórias (aval e fiança).
Foram levantadas as expectativas de recuperação de capitais emprestados, segundo três fases
de cobrança, conforme o tempo que cada fase costuma tomar. O resultado final pode redundar em
perdas equivalentes a 17% (para um ano de duração da cobrança judicial), 46% (para processos de
duração de dois anos) ou 76% (três anos), incluídos os juros, arbitrados em 20% ao ano pelo estudo.
A morosidade do judiciário provoca um custo adicional no crédito, que eleva o spread bancário
para toda a sociedade, ou seja, para os bons e os maus pagadores.
Conforme entrevistas realizadas nesta pesquisa, a percebida baixa eficiência e eficácia na
execução das cobranças de empréstimos em atraso tem o efeito de aumentar as precauções dos
bancos nos empréstimos a clientes que ainda não apresentam histórico de relacionamentos com a
instituição. As inadequações do judiciário não podem ser medidas e individualizadas em termos de
risco objetivo para cada empresa, mas o resultado da insegurança nessa área é a elevação do custo
dos empréstimos, via aumento do spread.
Um dos bancos expressou que este constitui o segundo problema em importância - após a
baixa transparência das informações contábeis e financeiras - na atitude de cautela do banco nos
empréstimos a pequenas empresas, enfatizando sobre a necessidade do estabelecimento de regras
mais claras e de procedimentos legais mais rápidos nas cobranças de créditos em atraso.
A opinião manifestada por um banco que empreende um programa de expansão de crédito às
MPEs é de que as próprias garantias reais apresentam pouca efetividade em proporcionar o retorno
do capital aplicado, dada a propensão dos juízes em decidir a favor do empresário. Conforme
exemplo dado por um banco, “o penhor dos estoques não tem valor jurídico nenhum pela
jurisprudência uma vez que, na interpretação do juiz, o comerciante precisa da mercadoria para
trabalhar, não podendo o banco proceder ao arresto dos bens”. Outro exemplo foi dado no caso de
empréstimos com a alienação fiduciária de máquinas, situação em que “em razão da lentidão dos
processos judiciais, dificilmente os bancos conseguem retomar o bem a tempo de ser revendido e
permitir o ressarcimento do capital”. Em outro exemplo, a experiência mostra que nos empréstimos
com desconto de duplicatas há casos de emissão de duplicatas “frias”, situação em que o banco não
aciona a justiça devido aos altos custos judiciais, demoras da decisão e baixa expectativa de que
ganhará na justiça. Mesmo o financiamento de veículos, em que o instituto da alienação fiduciária
permite a redução do spread bancário, em razão do veículo permanecer em nome do credor até a
quitação, tem sido visto como problemático pelos bancos, em razão da demora da justiça em
autorizar o leilão do veículo apreendido, havendo preferência pela negociação com o cliente para a
recuperação de parte do crédito.91
Conforme um banco entrevistado, “todas as falhas de informações e de demoras na justiça
são jogadas para o spread”. E concluindo, a respeito do efeito desse sistema de precificação dos
empréstimos, “os bons clientes pagam pelos clientes que não honram os compromissos”.
6.3.6 As garantias reais
O valor e as garantias exigidas pelos bancos nas concessões de empréstimos, sejam
fidejussórias ou reais, decorrem das condições próprias definidas em cada linha de crédito e da
classificação de risco da operação de empréstimo (probabilidade de inadimplência do tomador).
Dado o maior risco percebido pelos bancos nas empresas de pequeno porte, além de menor
disponibilidade de bens patrimoniais, é relativamente mais complexa para elas a apresentação de
garantias bancárias.
As entrevistas realizadas permitem as seguintes observações sobre o acesso ao crédito das
MPEs, sob a perspectiva das garantias exigidas:
91

Cf. reportagem no jornal Folha de S. Paulo, “Bancos viram depósito de 100 mil carros”, 24.08.2003.

43

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

i) no caso dos empréstimos nos bancos federais que utilizam como fontes de recursos os
programas especiais de crédito (BNDES, Proger/FAT, Fundos Constitucionais) os bancos dispõem
de diversos fundos de aval que facilitam a aprovação dos créditos, complementando as garantias
apresentadas pelo mutuário. São os casos do Fundo de Garantia do BNDES (FGPC), e do
FUNPROGER, do Banco do Brasil, que contam com recursos do Tesouro Nacional para a cobertura
de eventuais inadimplências, e ainda do Fundo de Aval do Sebrae e do seguro de crédito próprio da
Caixa Econômica Federal.
ii) nos empréstimos para capital de giro no crédito livre, os bancos dão preferência para
empresas que dispõem de créditos a receber de clientes, como duplicatas, vendas em cartão de
crédito e cheques pré-datados, que constituem parcela das próprias garantias, além das demais
garantias fidejussórias exigidas.
iii) nas análises de risco de crédito, os bancos avaliam as informações disponíveis,
envolvendo diversos fatores, tais como a idoneidade do cliente em saldar compromissos, o seu
histórico do relacionamento com o banco, a capacidade do projeto em gerar resultados positivos, as
perspectivas do mercado em que a empresa se insere, entre outras informações. Após essas análises,
são avaliadas as garantias necessárias em cada caso, em função do valor do empréstimo (exigindose garantias reais a partir de determinado valor), do risco do cliente (calculado no seu credit
scoring), e da modalidade da linha de crédito. Se o nível de risco aumenta, aumentam as garantias
exigidas, assim como as taxas de juros. Se o projeto não apresentar viabilidade econômicofinanceira, as garantias não decidem por si só a concessão de crédito, uma vez que o resultado
provável seria ter que acionar a justiça para a recuperação judicial de créditos não pagos,
representando um processo caro e demorado que os bancos evitam ter que recorrer.92
iv) no caso de empresas iniciantes, a apresentação de garantias reais é uma barreira crítica
pois o banco não conhece o potencial da empresa e o comportamento do empresário e não há
informações seguras sobre a empresa. Segundo entrevistas nos bancos, a barreira das garantias é
crítica no caso de empresas com baixo grau de formalização, pois não conseguem levantar avais de
terceiros e não dispõem de bens reais para a garantia de crédito.
É interessante observar que em um banco federal, a Caixa Econômica Federal (CEF), após as
negociações iniciais com o cliente nas agências, o problema de garantias insuficientes não ocorre
para mais do que 2% dos processos de crédito, nos resultados totais das análises de crédit scoring,
conforme foi confirmado pela matriz. A CEF utiliza com mais freqüência a garantia do aval dos
sócios e seguro de crédito próprio. Esse resultado, evidentemente, não espelha as recusas para os
clientes que não chegam a ter condições de apresentar as garantias exigidas. Igualmente, no Banco
do Brasil, conforme informações colhidas em uma grande agência, após as negociações com os
clientes somente cerca de 2% não conseguem preencher as condições de garantia, nas análises de
credit scoring.
Essa última informação mostra a importância da bancarização como processo facilitador do
acesso de MPEs ao crédito. Nesse caso, as empresas com maiores dificuldades de acesso seriam
aquelas que não desenvolvem relacionamento bancário normal. Nesse aspecto, as pesquisas que
informam sobre o alto percentual de empresas que nunca acessaram o crédito bancário deveriam
avaliar, necessariamente, o grau de relacionamento bancário que as empresas mantêm, para verificar
como esse fator interfere no acesso ao crédito.

92

44

Conforme analisam Pinheiro e Cabral (1998), em trabalho sobre as vinculações entre as ineficiências do sistema judiciário e o
desenvolvimento dos mercados de crédito no Brasil, os bancos recorrem à cobrança extrajudicial antes de se recorrer ao judiciário,
por não envolver custos de advogados e dos tribunais, além de evitar maiores conflitos com os clientes, sendo realizada por meio do
departamento de cobrança do próprio banco, cf. Pinheiro, A.C. e Cabral, C. , Mercado de Crédito no Brasil: o Papel do Judiciário e
de Outras Instituições, pg. 28, Ensaio BNDES nº 9, dez. 1998.

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6.4 Participação das pequenas empresas no volume global de
crédito
Conforme foi informado na Introdução deste trabalho, em face da inexistência de dados
consolidados de empréstimos às micro e pequenas empresas no Banco Central, esta pesquisa
recorreu ao levantamento das informações requeridas diretamente junto aos bancos, num processo
de obtenção de informações complexo e de alcance limitado, em razão dos seguintes fatores
principais: ausência de critérios uniformes de porte para a classificação de pequenas empresas nos
empréstimos bancários e falta de informações detalhadas nos bancos sobre o crédito aplicado, como,
por exemplo, por setores econômicos e por modalidades de capital de giro e investimento, sendo
essa última discriminação obtida somente para os bancos estatais .
Os seis bancos estatais consultados, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Nossa Caixa,
BNDES, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia, forneceram os dados de suas aplicações. As
informações dos três primeiros bancos, cujas aplicações constituem-se de crédito direcionado e de
crédito livre, sendo a maior parcela dessa última modalidade, serão incluídas na estimativa da
participação das MPEs no crédito global à industria, comércio e serviços, junto com os dados dos
bancos privados. Os dados das aplicações dos três últimos bancos federais, constituindo recursos
direcionados em programas especiais de crédito, serão analisados na Parte II.
Dos sete bancos privados consultados, cinco deles forneceram os dados de empréstimos a MPEs
para esta pesquisa. Somados aos três bancos federais, os oito bancos representam participação no
mercado de crédito equivalente a 73% dos empréstimos totais do sistema bancário em 2003.93
Sua participação é ainda maior no mercado de varejo, onde ocorrem os empréstimos às empresas de
pequeno porte, uma vez que no denominador dos empréstimos totais estão incluídos bancos que
somente atuam no mer 511 cado de atacado, em empréstimos a empresas médias e grandes.
A tabela 11 apresenta as informações obtidas junto aos oito bancos, permitindo uma
estimativa representativa do sistema bancário como um todo, dada a alta participação dos bancos
que forneceram dados no total do sistema bancário. Os dados estão separados por bancos
governamentais e bancos privados, sendo os valores desses últimos apresentados de forma
agregada, conforme os entendimentos mantidos nas solicitações de dados. As informações
levantadas permitem calcular que a participação dos bancos estatais alcança, em média,
40,3% dos seus créditos totais às MPEs, na indústria, comércio e serviços. Os bancos privados
destinam 13,6% às empresas do segmento. A aplicação média global em MPEs é de 20,1%.94
Tabela 11

PARTICIPAÇÃO DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS
NO CRÉDITO BANCÁRIO À INDÚSTRIA,
COMÉRCIO E SERVIÇOS NO BRASIL – 2003
(Saldos em milhões de reales)
Bancos
Banco do Brasil

Empréstimos

Empréstimos

Totais (A)

A MPEs (B)

B/A ( %)
32,8

3 439

3 301

95,6

Nossa Caixa

94

9 800

Caixa Econômica Federal

93

29 900

1 088

782

71,8

Banco Central do Brasil, Os 50 Maiores Bancos e o Consolidado do Sistema Financeiro Nacional, dezembro 2003.
A propósito das diferença de conceituação de porte de empresas, os valores, de 5 milhões de reales nos bancos estatais e de 5 milhões
de reales, 10 milhões de reales, e 15 milhões de reales nos bancos privados, conduzem à uma média próxima dos 10 milhões de
reales, conforme definido neste trabalho.

45

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Total Bancos Estatais

34 427

13 883

40,3

Total Bancos Privados

108 243

14 775

13,6

Bancos Estatais e
Privados

142 670

28 658

20,1

Fonte: Banco do Brasil, CEF e Nossa Caixa. Bancos privados: Bradesco, Itaú,
Unibanco, ABN Amro Real, HSBC Bank Brasil.

Nos bancos privados, a participação das MPEs nos empréstimos totais realizados pelos cinco
bancos variou do percentual mínimo de 7%, passando por 9%, 13%, 16,6%, até 18,9%. Observe-se
que os empréstimos dos bancos privados incluem recursos de crédito direcionado, repassados pelo
BNDES, para investimentos, não sendo possível obter-se a separação desses créditos.
Nos bancos federais, os montantes de crédito aplicados englobam recursos provenientes tanto
do mercado livre de crédito, em maior proporção, quanto de fundos e programas governamentais,
fator que explica a maior destinação de crédito às MPEs por parte daqueles bancos. Outro motivo
reside em sua condição de agente público, condição que alinha esses bancos às políticas
governamentais de maior direcionamento de crédito a setores com maiores dificuldades de acesso,
como é o caso das empresas de micro e pequeno portes.
Esse segundo fator explica a alta participação das pequenas empresas nos empréstimos totais do
banco Nossa Caixa, banco oficial do governo do Estado de São Paulo, caracterizado por desenvolver
política de aplicações orientada para projetos sociais, ao lado das atividades de banco comercial. As
MPEs com receita anual até 4 milhões de reales participaram com 71,8% do total aplicado na indústria,
comércio e serviços; as médias empresas, com receita anual entre 4 milhões a 50 milhões de reales,
receberam 20% dos créditos do banco em 2003, ficando as grandes empresas com 8,2%.
O Banco do Brasil lidera, tradicionalmente, em termos de volume global, as aplicações de
crédito em empresas de micro e pequeno porte no Brasil. Nos últimos anos, desde a implementação
do Programa “Brasil Empreendedor”, em 1999, o banco tem incrementado os volumes de crédito
aplicados em MPEs, sendo de se destacar a participação nos esforços recentes do governo federal
para a ampliação dos créditos ao segmento, ao lado da Caixa Econômica Federal. Os saldos
emprestados pelo Banco do Brasil, englobando capital de giro e investimentos, aumentaram 51% no
ano de 2003, abrangendo mais de quinhentos mil clientes daquele porte.
Quanto à Caixa Econômica Federal, representa, caracteristicamente, um banco de micro e
pequenas empresas, pois apenas 4% do saldo total de empréstimos (2003) é aplicado em empresas
de médio e grande portes, e sendo o valor médio dos empréstimos de 9,8 mil reales (2002), valor
inferior ao máximo normalmente considerado para o limite de microcrédito.
Em 2003 e 2004 foram aumentados os recursos disponíveis nos dois bancos estatais para
aplicações em pequenas empresas, provenientes de fundos federais, com a decisão do governo de
aumentar de 50% para 70% a parcela dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (programas
de geração de emprego e renda), para compor linhas de crédito para capital de giro daqueles bancos,
permitindo a redução da taxa de juros, de cerca de 3,5% ao mês, para 2,5%.95
6.4.1 Distribuição dos créditos em capital de giro e investimentos nos bancos
estatais
A tabela 12 apresenta a distribuição dos créditos totais dos três maiores bancos estatais,
Banco do Brasil, CEF e Nossa Caixa, em investimentos e capital de giro. O percentual de créditos
na modalidade de investimentos, no conjunto de recursos dos três bancos alcança 19,6%, sendo
95

46

Documento de divulgação das medidas do governo federal: Microfinanças: Desenvolvimento e Inclusão, 2003.

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pouco representativa essa modalidade no banco Nossa Caixa. No Banco do Brasil e na Caixa
Econômica Federal, os recursos para empréstimos de investimentos provêem, principalmente, de
três fontes e fundos governamentais: BNDES, Fundo Constitucional do Centro-Oeste e Programa de
Geração de Emprego e Renda-Proger/FAT, cujas condições de repasses viabilizam aplicações de
médio e longo prazos. Outras informações sobre as aplicações dos bancos estatais são apresentadas
na seção 7.2, refletindo uma nova estratégia desses bancos de ampliação dos créditos a MPEs.
Tabela 12

DESTINAÇÃO DOS CRÉDITOS NOS BANCOS ESTATAIS:
CAPITAL DE GIRO E INVESTIMENTOS - 2003
(Valores em reales violes)
Capital de Giro

Investimentos

Total

Banco
Valor

%

Valor

%

Valor

%

Banco do Brasil

7 800

79,6

2 000

20,4

9 800

100,0

Caixa Econômica Federal

2 599

78,7

702

21,3

3 301

100,0

768

98,2

14

1,8

782

100,0

11 167

80,4

2 716

19,6

13 883

100,0

Nossa Caixa
Total

Fonte: Banco do Brasil, CEF e Nossa Caixa. Bancos privados: Bradesco, Itaú, Unibanco, ABN Amor Real,
HSBC Bank Brasil.

6.5 As taxas de juros de mercado e as MPEs
Não há informações disponíveis permitindo discriminar taxas de juros no mercado livre de
crédito segundo o porte de empresas ou segundo o valor do empréstimo. O Banco Central divulga,
para cada banco, com o propósito de tornar mais transparentes as taxas de mercado, as taxas de
juros taxas máximas e mínimas em cada modalidade de crédito, e as taxas médias ponderadas pelas
concessões de crédito.96
São apresentadas na tabela 13 as médias das taxas máximas e mínimas dos bancos, nos
empréstimos às pessoas jurídicas, em cinco modalidades de crédito de curto prazo, discriminadas
para bancos federais e bancos privados.97 Chama a atenção na tabela a amplitude nas taxas de juros
praticadas, que pode chegar, em média, a 6 pontos percentuais ao mês, como no caso da modalidade
de crédito conta garantida. A diferença máxima e mínima, por banco, alcança valores que podem
chegar a cerca de 12 pontos percentuais ao mês, no caso da linha de crédito conta garantida.
Tabela 13

SISTEMA BANCÁRIO - TAXAS DE JUROS MÁXIMAS E
MÍNIMAS EM LINHAS DE CRÉDITO DE CURTO PRAZO
Bancos

96

97

Modalidade de crédito e taxas de juros ao mês (%)
(médias das taxas mínimas e máximas)

No caso dos bancos federais foram obtidas informações sobre taxas de juros em linhas de crédito para capital de giro e investimento,
especialmente as que utilizam como funding recursos de fundos federais (crédito de segundo piso), como também linhas direcionadas
ao mercado livre, algumas das quais utilizando uma parcela de recursos de fundos federais como funding. A tabela 1, na Parte II
deste trabalho, que analisa o crédito de programas governamentais para micro, pequenas e médias empresas, mostra as linhas de
crédito referidas e taxas de juros.
Os bancos federais e privados são os selecionados para esta pesquisa. Os valores dos juros representam as taxas máximas e mínimas
verificadas em cinco dias úteis, no período entre 26/05 a 01/06/ 2004, conforme divulgação semanal no site do Banco Central,
www.bcb.gov. br/?INDECO.

47

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Hot Money

Desc. Duplic.

Capital de Giro

Conta
Garantida

Vendor

Min

Máx

Min

Máx

Min

Máx

Min

Máx

Min

Máx

Bancos Federais

2,73

4,51

2,26

4,40

1,66

4,96

1,85

5,23

1,42

4,12

Bancos privados

2,07

5,73

2,23

5,53

1,81

5,45

1,81

7,70

1,44

3,94

Fonte: Banco Central do Brasil; taxas de juros no período de 26/05 a 01/06/ 2004.
Obs: Bancos Federais incluídos: Banco do Brasil, CEF, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia; Bancos
privados: Bradesco, Itaú, Unibanco, HSBC Bank Brasil, ABN Amro Real, Santander Banespa e BankBoston.

Na tabela estão separados os bancos governamentais federais dos bancos privados,
possibilitando verificar eventuais diferenças entre as políticas dos dois grupos de bancos quanto às
taxas de juros. Os bancos federais podem, em princípio, praticar taxas menores de juros, em razão
de disporem de recursos governamentais provenientes de programas e fundos, realizando
composições (mix de recursos) entre essas fontes e os recursos próprios, em linhas de capital de giro
direcionadas a pequenas empresas, aplicadas no mercado de crédito livre. Verificam-se taxas
máximas menores nos bancos estatais em três linhas, hot money, desconto de duplicatas e capital de
giro, e taxa mínima menor em capital de giro.
Na interpretação das grandes diferenças nas taxas, cujos níveis não representam as mais
comumente aplicadas, pode-se inferir que: i) as taxas mínimas representam os empréstimos de
maior valor, levantados por clientes preferenciais, com histórico de relacionamento com o banco, e
fazendo uso de outros produtos e serviços oferecidos pela instituição. As grandes empresas
representariam, com mais freqüência, os clientes que conseguem aquelas taxas menores, em razão,
ainda, de operações de empréstimos melhor estruturadas, melhores análises de risco e por
conseguirem barganhar as taxas.98 ii) as taxas maiores representam as operações de menor valor,
com custo operacional mais alto, realizadas com mutuários que apresentam maior taxa de risco, e
menor grau de relacionamento bancário (clientes não tradicionais).99 No intervalo das duas taxas,
máxima e mínima, dentro de cada modalidade, os juros definidos para cada cliente variam conforme
as condições citadas e a taxa de risco, que leva em conta todas as informações disponíveis sobre a
empresa, incluindo o tempo de funcionamento e de relacionamento com o banco, o valor do
empréstimo e outras variáveis.
A apresentação das taxas máximas na tabela 13 não pretende indicar níveis de juros
praticados pelos bancos no segmento de pequenas empresas, mas apenas fornecer indicações, dada a
grande amplitude entre máximas e mínimas, dos níveis que podem alcançar as taxas de juros nos
empréstimos a empresas do segmento, inclusive para estudos posteriores.100/101
98

99

100

101

48

A esse respeito, observe-se a declaração do presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, em debate público sobre os altos spreads
bancários, “nós cobramos spread de até de 2% ao ano, dependendo do tamanho da empresa”, e que os bancos não podem baixar o
spread, lembrando que a cunha fiscal “é de 50%”, cf, jornal o Estado de S. Paulo, de 28.05.2003.
Os bancos não deixam de emprestar a empresas cujo score aponta níveis mais elevados de risco, como aquelas com risco D, no qual a
provisão para créditos de liquidação duvidosa alcança 10% do valor do empréstimo, pelas normas legais. Realizada sob taxas de juros
mais elevadas, a condição para receber empréstimos nesse nível de risco é a apresentação de garantias de melhor qualidade, conforme
foi relatado nas entrevistas.
Para o presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Empresas do Estado de S. Paulo – SIMPI, a propósito da taxa básica de juros do
Banco Central, “falar em juros de 24,5% ao ano é uma visão errada do quadro nacional. Não conheço nenhum micro ou pequeno
empresário que paga isso. Os nossos juros começam em 60% ao ano e vão até 350% ao ano”, cf. jornal o Estado de S.Paulo,
27.07.2003. A propósito, na análise da lucratividade dos três maiores bancos privados, no primeiro trimestre de 2004, foram os
créditos para pessoas físicas e pequenas empresas que garantiram receita aos bancos, “porque embutem spreads maiores”, diante do
fraco desempenho do crédito às pessoas jurídicas como um todo; cf. Valor Econômico, 17.05.2004.
Conforme observado por Pinheiro e Moura (2001), a segmentação do mercado (varejo, midlle e corporate) beneficia os tomadores
nos mercados corporativo e médio, em comparação aos tomadores de risco e aos tomadores seguros de pequeno porte, “que são
penalizados com taxas de juros muito altas”, cf. Pinheiro, A.C. e Moura, ª, Segmentação e Uso de Informações nos Mercados de
Crédito Brasileiros, BNDES, Texto para Discussão nº 88, fev/2001.

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As taxas mais baixas de juros ocorrem na modalidade de crédito vendor, cujos mutuários
mais freqüentes são empresas médias e grandes, em razão dos maiores volumes de negócios e de
relações tradicionais entre elas, sendo uma compradora e outra vendedora de bens e serviços. As
taxas mínimas de juros nessa modalidade, em média, 1,44% nos bancos privados, as mais baixas
registradas na estrutura de taxa praticadas no Brasil, refletem a qualidade das garantias apresentadas
nessa modalidade de empréstimo.102
As taxas mais altas, e as maiores diferenças entre máximos e mínimos, ocorrem na
modalidade conta garantida, que assegura recursos até um determinado limite de valor para cada
cliente, movimentada pelos cheques emitidos, e que garante liquidez imediata para gastos
emergenciais das empresas.103 A conta exige, como garantias: fidejussórias, reais, penhor de direitos
creditórios e aplicações financeiras do cliente, variando de acordo com cada banco.
Contrariamente às grandes empresas, que se valem de sua capacidade de movimentação de
altos recursos para obter melhores condições de empréstimos, e operam ao mesmo tempo com
vários bancos, as empresas de pequeno porte não dispõem de capacidade de negociação das taxas de
juros, aceitando pagar taxas mais elevadas, especialmente nas necessidades urgentes de recursos
para a cobertura de despesas e deficiências de caixa.

7.

Evolução recente do crédito para as pequenas empresas

Nesta seção, analisam-se tendências de incremento das disponibilidades de crédito para
aplicações no varejo, e nas pequenas empresas, com base nos resultados obtidos nas entrevistas com
os bancos, e em informações levantadas no mercado financeiro. Em período muito recente, podem
ser identificadas alterações no padrão de aplicações de recursos dos bancos, indicando tendência de
passagem das aplicações seguras de tesouraria (títulos públicos e privados), para a ampliação das
aplicações no varejo, incluindo o incremento dos empréstimos para pequenas empresas.

7.1 Aumento das aplicações bancárias em pequenas empresas
A alteração comentada começa a se delinear no primeiro semestre de 2003, em função das
expectativas de queda da taxa básica de juros do Banco Central. A partir de junho de 2003, as
expectativas de queda começam a se confirmar, levando à diminuição continuada da taxa Selic,
alcançando redução de 10,5 pontos percentuais, do nível de 26,5%, em junho de 2003, para 16%,
em abril de 2004.104 A queda reflete-se sobre os ganhos dos bancos com aplicações em títulos
públicos, dada a alta participação dessas aplicações nos ativos bancários. A partir de julho de 2003,
o mercado financeiro começa a anunciar o interesse dos bancos por aplicações em pequenas e
médias empresas.105
Os antecedentes imediatos da mudança para a qual se chama a atenção podem ser vistos nas
análises referentes aos resultados dos bancos em 2002 e no semestre imediatamente antecedente ao
início da trajetória de queda da taxa Selic.
102

103

104

105

Nessa modalidade, envolvendo relação tradicional entre uma empresa compradora e uma vendedora, esta última transfere seus títulos
de crédito ao banco, recebendo o valor da venda à vista, dada uma taxa de juros de intermediação; o financiamento é dado ao
comprador é o risco é assumido pelo vendedor junto ao banco; cf. Fortuna, E., Mercado Financeiro – Produtos e Serviços, Qualimark
Editora, ed. 2001.
Para operacionalizar essa linha, o banco deve manter recursos de suas reservas bancárias em stand by, sem remuneração,

para atender a necessidades não determinadas a priori pelos clientes. Há contas garantidas mantidas separadas das
contas de movimento, exigindo dos clientes a comunicação dos valores a serem sacados, razão pela qual cobram juros
menores, cf., cf. Fortuna, 2001, op. cit.
A taxa começou a se elevar quando se encontrava em 18%, em outubro de 2002, em pleno processo eleitoral para escolha do
presidente da república.
Cf. Valor Econômico, “Bancos cortejam companhias de pequeno e médio portes”, 21.07.2004, citando os bancos Itaú, Unibanco,
HSBC, BankBoston e ABN Amro Real.

49

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

No ano de 2002, foi registrado aumento dos lucros dos dez maiores bancos em 45,6%,
elevando-se a rentabilidade sobre o patrimônio líquido de 21,2%, em 2001, para 26,4%, em 2002.
Na analise desses resultados, foram apontadas como principais fontes de receitas as operações de
tesouraria com títulos públicos, que se beneficiaram das altas taxas básicas de juros naquele ano,
seguida de sua elevação, de 18%, em outubro de 2002, para 25% ao final de 2002. Também
propiciaram a elevação da rentabilidade as receitas com títulos com correção cambial, ano em que a
taxa de câmbio elevou-se em 52,3%. A segunda fonte importante foi representada pelos altos
spreads nas operações de empréstimos, especialmente para pessoas físicas, cujo spread médio
chegou a 56% ao ano.106
No primeiro trimestre de 2003, os resultados dos lucros dos bancos indicaram a mesma
situação anterior. A análise de quatro grandes bancos (Bradesco, Itaú, Unibanco e Banespa) mostrou
aumento de 35% nos seus lucros, em situação de baixa demanda por crédito e ocorrências de perdas
com a desvalorização do dólar. As receitas obtidas com títulos e valores mobiliários aumentaram
51,6% e com serviços 15,4%, enquanto as provenientes das aplicações de crédito cresciam apenas
8,9%.107
Um ano depois (primeiro trimestre de 2004), ocorre uma alteração substancial nos resultados
dos balanços dos bancos, refletindo mudanças de estratégia de aplicação de recursos desde o final
do primeiro semestre de 2003, imediatamente anterior ao início das reduções na taxa básica Selic,
como se mostra a seguir.
Conforme dados do Banco Central para os cinqüenta maiores bancos, os resultados do setor
financeiro no primeiro trimestre de 2004, em relação ao mesmo período de 2003, indicaram queda
de 29% nas receitas decorrentes de aplicações em títulos públicos, ao mesmo tempo que se
elevaram as receitas provenientes de operações de crédito, em 4,8%, e das receitas de serviços, em
22%. A queda da receita com aplicações de tesouraria está associada à redução na taxa Selic, de
26%, em junho de 2003, para 16,0% em abril de 2004. A análise realizada com os dados do Banco
Central chama a atenção para o fato de que os resultados diferiram entre bancos de varejo e bancos
com operações de atacado, com uma parte desses últimos apresentando perdas significativas.108
Em outra análise para o mesmo período (primeiro trimestre de 2004), com os resultados dos
três maiores bancos privados (Bradesco, Itaú e Unibanco), foi mostrado que as receitas com títulos,
em relação à receita total, caíram de 34%, no primeiro trimeste de 2003, para 23,5%, no primeiro
trimestre de 2004, acompanhando o resultado geral do sistema financeiro. A carteira de crédito
desses bancos evoluiu globalmente em apenas 5%, mas o crédito para pessoas físicas e pequenas
empresas apresentou percentuais substancialmente maiores, “garantindo receita aos bancos porque
embutem spreads maiores”. O volume de crédito para pequenas empresas aumentou 8% no Itaú,
9,4% no Unibanco e 12,2% no Bradesco. No Itaú, foi registrado crescimento da carteira geral de
crédito em apenas 0,4%, mas como o crescimento do crédito para PMEs foi superior, a participação
109
do segmento no total do crédito aumentou 11,7%. No Unibanco, enquanto o crédito para pessoas
jurídicas em geral aumentou apenas 0,7%, os empréstimos para PMEs aumentaram 9,4%.110

106

107
108
109
110

50

Cf a Consultoria Austin Assis, em “Lucro de 50 bancos cresceu 89,5% em 2002”, o Estado de S. Paulo, 12.03.2003, analisando um
dos maiores bancos, o maior lucro individual foi apresentado pelo Banco Itaú, em decorrência de ganhos com altos spreads nas
operações de crédito. Ainda em relação à aquele banco, é interessante observar que, nas projeções para 2003, o presidente do banco
esperava crescimento maior nas operações de crédito com grandes empresas, e via com “reservas as perspectivas para as pequenas e
médias empresas, que devem ter crescimento moderado”, cf. o Estado de São Paulo, 12.03.2003 (as aspas correspondem ao texto do
jornalista que assinou a matéria).
Cf. Valor Econômico, “Bancos lucram com título público”, 13.05.2003.
Cf. Maria Chistina Carvalho, Valor Econômico, “Lucro do setor financeiro cresce 17%”, 16.06.2004.
O Estado de S. Paulo, 05.05.2004.
O fato foi destacado pelo banco como positivo para a elevação dos lucros, pois geram spreads mais elevados. Cf. Valor Econômico,
17.05.2004.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

No caso do maior banco estatal, o Banco do Brasil, a análise dos seus lucros, no primeiro
trimestre de 2004, mostra a mesma tendência: aumento dos lucros em 28,5%, decorrente da
ampliação das operações no varejo, e queda na remuneração com títulos públicos.111 O crescimento
do número de operações de crédito tem ainda o objetivo de aumentar a lucratividade decorrente dos
empréstimos, de forma a compensar a queda do spread obtido pela instituição, que passou de 7,5%,
em 2002, para 7,4%, em 2003, em decorrência da queda das taxas de juros que se seguiu à redução
da taxa básica Selic.112
Contribuiu, também, para dar ânimo ao mercado de crédito, mas sem o peso da redução da
taxa Selic, a diminuição do depósito compulsório sobre depósitos à vista, em agosto de 2003, de
60% para 45%, que levou os bancos a reduzirem as taxas de juros de linhas de crédito.113
Por fim, as tendências estão sendo reforçadas pela ocorrência de mudanças positivas no
panorama macroeconômico do País, delineando uma consolidação da estabilidade do crescimento,
como a esperada redução da relação dívida/PIB, que já se projeta comece a ocorrer a partir de 2004,
e que, ao diminuir das necessidades de financiamentos do governo federal, abre espaços para a
continuação das expectativas de redução da taxa básica de juros do Banco Central.114 A manutenção
da política macroeconômica nessas bases provoca dois efeitos sobre a estratégia de aplicação de
recursos dos bancos: de um lado, diminui os ganhos de tesouraria, levando os bancos a procurar
alternativas para as aplicações dos recursos disponíveis em atividades de empréstimos.115 De outro,
consolida a perspectiva de uma retomada do crescimento econômico em bases sustentáveis,
melhorando as possibilidades de negócios das empresas e ampliando a demanda por crédito.
Além dos motivos macroeconômicos e de política monetária que favorecem a ampliação dos
empréstimos às empresas de pequeno porte, foram levantadas junto aos bancos as seguintes
motivações para o aprofundamento das aplicações de crédito no segmento:
• a baixa bancarização das empresas de pequeno porte, constituindo um mercado amplo a
ser explorado;
• a ampliação das contas bancárias, com a incorporação dos participantes das folhas de
pagamento das pequenas empresas;
• taxas de juros maiores obtidas nos empréstimos para pequenas empresas (maior spread),
proporcionando aumento da rentabilidade para o banco;
• a maior fidelização das pequenas empresas ao banco, em relação às empresas de maior
porte, possibilitando vendas cruzadas de produtos e serviços;
• obtenção de maior escala nas operações, diminuindo os custos operacionais médios.

7.2 Os bancos estatais e as pequenas empresas
Ocorre atualmente uma agressiva atuação de bancos estatais na ampliação dos volumes de
crédito destinados ao varejo, incluindo medidas para a expansão do crédito popular, incentivos para
a abertura de contas simplificadas para a população excluída dos bancos, ampliação do microcrédito
111
112

113

114

115

O Estado de S. Paulo, 18.05.2004.
De acordo com o Vice-presidente de Finanças, Luiz Eduardo Franco de Abreu, jornal O Estado de S. Paulo, “BB ampliará crédito em
35%”, maio de 2004.
Logo após a redução do compulsório, os bancos Bradesco, Itaú e Unibanco anunciaram cortes em linhas de crédito para pessoas
jurídicas e físicas, cf. o jornal o Estado de S. Paulo, 09.08.2003.
A dívida líquida do setor público consolidada subiu de 52,6%, em dez.2001, para 58,2%, em jan/2004, cf. Relatório de Inflação,
março/2004, Banco Central. Estimativas de redução por A..C.Pastore e Associados, Conjuntura, junho/2004, “O Aumento do
Otimismo”, pg. 19; e Otávio de Barros, economista-chefe do Bradesco, jornal O Estado de S. Paulo, “Dívida pública volta a cair após
dez anos”, 06.06.2004.
Não somente os bancos, mas as demais instituições que aplicam em títulos públicos começam a rever sua estratégia de aplicações,
devido à redução da taxa Selic, em direção a aplicações de maior risco e rentabilidade, cf. Jornal Valor, “Baixa do juro pode mudar
portfólio”, 11.06.2004; e “Fundações se voltam para o crédito”, 14.06.2004.

51

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

e do crédito para pequenas empresas.116 As medidas são mais visíveis na expansão que se verifica
nas atividades de empréstimos do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, nesse
último em créditos de investimento para MPMEs. A estratégia implica também a conquista de
novos clientes, como forma de ampliar as receitas decorrentes de operações de empréstimos no
varejo.117
Uma das primeiras medidas consistiu na ampliação de recursos novos repassados aos dois
bancos comerciais federais, a partir de 2003, para a ampliação dos empréstimos para capital de giro,
com funding no Fundo de Amparo ao Trabalhador, no valor total de 1,1 bilhão de reales.118 Esses
recursos estão sendo aplicados junto com fontes próprias dos dois bancos, mas sendo a parcela do
fundo federal aumentada de 50% para 70%. Como o custo de captação para os dois bancos desses
recursos é menor que a taxa de captação no mercado, correspondendo atualmente a 9,75% ao ano
(Taxa de Juros de Longo Prazo-TJLP), o custo final dos empréstimos foi reduzido, segundo
estimativa do governo, de 3,5% para 2,5% ao mês.119
A adoção da estratégia comentada pode ser observada nos resultados das aplicações em
crédito daqueles três bancos.
Os saldos dos empréstimos totais contratados pelo Banco do Brasil às empresas com receita
anual até 5 milhões de reales, nos setores da indústria, comércio e serviços, tiveram incremento de
51% em 2003, passando de 6,5 bilhões de reales, em dezembro de 2002, para 9,8 bilhões de reales,
em dezembro de 2003. Na principal linha de crédito de capital de giro para micro e pequenas
empresas, o saldo das aplicações passou de 1,54 bilhões de reales, em 2002, para 2,73 bilhões de
reales, em 2003, com expansão de 77%, atendendo a 535 mil contratos, com valor médio de 5 mil
reales.120
A CEF ampliou o saldo dos empréstimos para pessoas jurídicas, em 2003, em 300,7%,
passando de 2,62 milhões de reales para 10,5 milhões de reales, salto permitido pelo grande
potencial de clientes pessoas jurídicas cadastrados, no total de 800 mil, dos quais somente 200 mil
tomavam crédito em 2002. A CEF opera em mais de 95% com pequenas empresas. O número total
de contas correntes passou de 4 milhões para 5,1 milhões, ao final de 2003.121
O BNDES ampliou em 37% o valor dos empréstimos concedidos em 2003 para MPMEs, nos
setores da indústria, comércio e serviços, e em 47% o número de contratos aprovados. A ampliação
é significativa, sabendo-se que, no ano de 2003, aquele Banco reduziu os empréstimos globais em
12%, tomando-se as empresas de todos os portes, implicando que as empresas de micro, pequeno e
116

117

118

119
120
121

52

A decisão governamental nesse sentido foi deflagrada em 20 de fevereiro de 2003, em reunião ministerial, na qual o Presidente da
República determinou ao Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, “particular atenção para o financiamento da pequena
e média empresa”....., cf. o porta-voz da Presidência, Jornal Valor Econômico, 21.02.2003. A partir de então, diversas medidas foram
implementas na área do crédito popular, com vistas à dinamização do consumo global, como a criação do Banco Popular do Brasil,
no Banco do Brasil, para operar na área de microfinanças e microcrédito, a abertura de cerca de 1,5 milhão de contas bancárias por
parte da população de baixa renda, a flexibilização das normas para a abertura de cooperativas de crédito, a ampliação do número das
sociedades de crédito ao microempreendedor-SCM, entre outras medidas para a ampliação do crédito para pessoas físicas e
microempresários. Outra medida, que alcançou os bancos públicos e privados, foi a instituição da obrigatoriedade de aplicação de 2%
dos depósitos à vista em microcrédito, para financiamentos ao consumo da população de baixa renda e a microempresários
(Resolução 3.109/2003, Banco Central), mas cujos resultados encontram-se muito abaixo das metas estabelecidas, registrando-se,
cerca de um ano após o lançamento da medida, saldos das aplicações inferiores a 18% da meta de 2% dos depósitos à vista, ou seja,
212 bilhões de reales aplicados, ante meta de 1,2 bilhões de reales, cf. O Estado de S. Paulo, 30.06.2004.
Valor Econômico, 22.09.2003, artigo de Fernando Nogueira da Costa, vice-presidente da CEF: “Os bancos brasileiros são bodes
expiatórios?”.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT é gerido pelo Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador – CODEFAT,
no Ministério do Trabalho. Na área do crédito, administra programas de desenvolvimento econômico, a cargo do BNDES, e de
geração de emprego e renda. Os recursos do FAT (extra-orçamentários) são depositados junto às instituições oficiais federais que
funcionam como agentes financeiros dos programas de crédito (Banco do Brasil S/A, Banco do Nordeste S/A, Caixa Econômica
Federal e BNDES).
Documento de divulgação das medidas do governo federal: Microfinanças: Desenvolvimento e Inclusão, 2003.
Banco do Brasil, Análise do Desempenho 2003 e informações obtidas em entrevistas com o banco.
Ver nota 87.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

médio portes ampliaram a sua participação nos empréstimos totais do banco. Em 2004, continua a
aceleração dos financiamentos para as MPMEs, com os desembolsos na indústria crescendo 81% no
primeiro quadrimestre, em relação ao mesmo período do ano anterior.122
Ao final de 2003, diante dos fracos resultados do crescimento econômico do País, com o PIB
apresentando retração de 0,2% no ano, o Banco do Brasil continuou a estratégia de ampliação do
crédito, instituindo o Programa Financiamento de Investimentos, anunciando a seleção de 183 mil
empresas para serem procuradas com oferta de crédito, e ainda visando aumentar a “fidelização
desse tipo de cliente”. Para simplificar o acesso ao crédito, o banco automatizou processos de
análise, com a atribuição automática de limites de empréstimos, e a dispensa de apresentação de
proposta e cálculo de capacidade formal de pagamento para empresas com crédito de até 25 mil
reales. As empresas estão sendo procuradas por gerentes de contas, com o propósito de identificar
projetos de investimento, com previsão de créditos totais no valor de 3,8 bilhões de reales. As linhas
de crédito do programa de investimentos apresentam como funding os fundos e programas de
crédito federais (ver tabela 1, da Parte II deste trabalho).123
Mais recentemente, o Banco do Brasil ampliou aquela meta, anunciando o total de 370 mil
potenciais tomadores de crédito de micro e pequeno portes em 2004, e ampliação do crédito de
investimentos entre 30 a 35%. Diante do aumento das operações de crédito com o segmento, e
dispondo de 600 mil clientes de micro e pequeno porte cadastrados, em maio de 2004 o Banco do
Brasil instituiu em sua estrutura uma nova Diretoria, específica para micro e pequenas empresas.
Em relação à Caixa Econômica Federal, a projeção para 2004 prevê crescimento de 50% na
carteira de crédito comercial, ampliando a participação das pessoas jurídicas na carteira de crédito
do banco de 18%, em 2003, para 30%, em 2004, basicamente constituídas de empresas com
faturamento anual de até 5 milhões de reales.124
A estratégia de ampliação das aplicações no varejo dos bancos estatais já se manifesta no
aumento da participação desses bancos nas estatísticas de crédito global do Banco Central, que se
elevou de 31,9%, em junho de 2003, para 33,4%, em dezembro do mesmo ano, concomitantemente
à queda na participação dos bancos com controle estrangeiro, de 26,5% para 23,3%. Os bancos
nacionais privados também ampliaram a participação, de 31,2% para 33,2%.125

7.3 Bancos privados com plataformas especializadas em
pequenas empresas
Uma das inadequações apontadas no atendimento bancário, constituindo fator que
desestimula o acesso das MPEs ao crédito, refere-se à falta de unidades ou áreas nos bancos
especializadas nessas empresas, além de pessoal com expertise para avaliar as solicitações de
crédito das empresas, incluindo tecnologias mais apropriadas de seleção de tomadores, conforme foi
discutido na seção 6. Nesse campo, esta pesquisa identificou alterações recentes nas estratégias de
atendimento dos bancos, onde sobressai a implantação de plataformas ou áreas específicas para o
contato inicial, o acompanhamento das solicitações e liberações de crédito. Registra-se, ainda, o
lançamento de linhas de crédito específicas para as MPEs e a oferta de serviços antes disponíveis
apenas para as grandes empresas. As informações que se seguem foram obtidas diretamente junto
aos bancos nas entrevistas com seu corpo técnico ou em matéria publicada na imprensa
especializada. A efetividade dessa nova estratégia, em termos de facilitar o acesso às empresas de
pequeno porte, ainda necessita de maiores avaliações. Registre-se que a não citação de outros
bancos, não incluídos nos relatos abaixo, não significa que não estejam desenvolvendo também a
mesma estratégia.
122
123
124
125

BNDES, Boletim MPME, maio de 2004; e jornal o Estado de S. Paulo, 13.05.2004.
Cf. artigo “Um Brasil de Oportunidades”, Alessandro Soares, Revista”BB com Você”, nº 6, maio/junho 2004.
Jornal Valor Econômico, 20.05.2004.
Banco Central do Brasil, Relatório de Estabilidade Financeira, maio/2004.

53

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

SANTANDER – o banco definiu como um dos seus objetivos estratégicos no Brasil dedicarse com mais intensidade aos empréstimos a pequenas e médias empresas. O Banco Santander
Banespa faz a crítica do sistema financeiro, segundo a qual “os bancos olham só o retrovisor, vendo
se a empresa apresenta liquidez, não realizando projeções de mais longo prazo”; nessa visão de
curto prazo dos bancos, os limites de crédito estabelecidos são muito baixos. Na análise prévia
sobre a situação das empresas de pequeno porte no Brasil, o banco constatou que as empresas são
dispersas, em termos associativos. O acesso bancário é reduzido, em razão das situações de
informalidade prevalecentes, reduzida transparência dos dados econômico-financeiros das
empresas, baixa qualificação gerencial-administrativa dos pequenos empresários e alta mortalidade
das empresas, dada pela estatística de que cerca de 70% das firmas desaparecem em cinco anos.
Para o banco, conforme entrevista realizada em 2003, “mais competição vai ocorrer nesse
segmento”. Para isso, trouxe da matriz espanhola a visão estratégica de que é rentável investir em
PMEs, assim consideradas as empresas em dois estratos de faturamento: até 10 milhões de reales, e
de 10 milhões a 100 milhões de reales.
O primeiro movimento estratégico em direção às PMEs consistiu na adoção do “Programa
Exportar”. No diagnóstico realizado, as dificuldades das empresas no acesso ao crédito estão
relacionadas à baixa escala de exportação, desconhecimento das linhas de crédito disponíveis,
dificuldades de apresentação de garantais reais, extensa documentação requerida, e exigências de
reciprocidades ou colaterais pelos bancos.
O Santander Banespa lançou o “Programa Exportar” baseado no entendimento de que deve
atuar de forma diferente dos demais bancos para a ampliação dos negócios com o segmento das
PMEs, conhecendo a situação das empresas e identificando a exportação como uma atividade que
deve crescer cada dia mais. O programa constitui, ainda, uma forma de atrair maior número de
firmas de pequeno e médio porte para o banco, e com isso expandir os negócios corporativos.
Firmas que exportam regularmente apresentam mercados mais diversificados, absorvem tecnologia
adequada aos padrões internacionais, desenvolvem estruturas gerenciais adaptadas ao maior
dinamismo de seus negócios, constituindo empresas mais fortalecidas e em melhores condições de
ampliação dos negócios. Na avaliação do Santander Banespa, há forte potencial de crescimento das
exportações brasileiras, dado que a participação do Brasil é de cerca de 1% do comércio
internacional. Mais ainda, para os produtos com maior valor agregado, a participação brasileira não
passa de 0,5%.
BankBoston – o banco sempre atuou no nicho de clientes de alta renda e de empresas de
maior porte. A partir de 1998, passou a atuar com mais intensidade no varejo e no mercado de
pequenas e médias empresas, na expectativa de que mudanças futuras na política monetária, com
quedas na taxa básica de juros e dos depósitos compulsórios, abririam espaço para o maior
crescimento das atividades de empréstimos a empresas.126 Nessa estratégia, as operações com
PMEs, com faturamento até 30 milhões de reales (área Boston Business), são as que mais cresceram
nos últimos cinco anos. Para a ampliação do atendimento, o banco está implantando plataformas
especializadas, fora das agências, para a ampliação da oferta de produtos e serviços às empresas,
tais como linhas de investimentos, administração de caixa, cobranças, além de outros produtos
normalmente mais acessíveis às grandes empresas, como operações de câmbio e emissão de
commercial papers. O banco desenvolveu novo sistema de credit scoring, permitindo a avaliação
mais rápida das solicitações de crédito dos novos clientes e das renovações, dada a expectativa de
expansão dos negócios para mais 30 mil PMEs. O crescimento nos volumes de crédito emprestados
às MPEs, com a nova estratégia, alcança cerca de 30% ao ano, em 2003 e 2004.
ITAÚ – o banco criou, em 2001, unidade específica para atendimento de pequenas empresas,
denominada Unidade de Pessoa Jurídica, para empresas com faturamento entre 500 mil a 10
126

54

Jornal “O Estado de S. Paulo”, 27.06.2003.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

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milhões de reales. As firmas são atendidas em plataformas específicas para MPEs, por gerentes e
atendentes de crédito especializados em empresas de pequeno porte. As firmas de porte médio, com
faturamento entre 10 milhões a 100 milhões de reales, são atendidas pela Área de Empresas e,
acima desse valor, pelo banco de atacado do grupo, o Itaú BBA. Para 2004, o banco definiu como
uma das estratégias a ampliação em 25% do valor do crédito para micro, pequenas e médias
empresas, frente à expectativa de crescimento de 5% a 8% no montante de crédito aplicado em
grandes empresas. O banco começa a atuar este ano no segmento da população de baixa renda, com
uma nova marca, Financeira Taí, com a expectativa de retorno financeiro somente em três anos.127
HSBC Bank Brasil – O banco é voltado para o atendimento de PMEs desde o início de suas
operações no Brasil, pois no mercado mundial esse segmento representa, tradicionalmente, um terço
dos resultados mundiais do grupo. Na Inglaterra, o HSBC dispõe de 800 mil clientes PMEs. No
Brasil, o número alcança 220 mil clientes, com produtos como leasing do BNDES, desconto de
recebíveis, financiamento do comércio exterior, administração de pagamentos e de recebimentos. O
varejo, incluindo pequenas empresas, é fonte da maior parte dos lucros do banco. Na área de PMEs,
o objetivo do banco em 2003 consistia em ganhar escala e volume de operações, como forma de
compensar a queda da taxa básica de juros que começava a ocorrer.128 Em 2004, o banco trabalha
com a expectativa de aumentar a participação dos clientes de pequeno porte nos créditos
concedidos. O banco está especializando os gerentes em desenvolver relacionamento próprio com
as pequenas empresas, com o cuidado de “não empurrá-las para tomar crédito como pessoa física,
pois as linhas não são adequadas ao perfil e isto não é bom para o cliente e para o banco”, conforme
relatado em entrevista. Na estratégia de ampliar o número de clientes de pequeno porte, o HSBC
adotou o instrumento Consumer Relationship Manager (CRM), que procura atender o cliente
conforme suas necessidades e o perfil de sua demanda. Após a abertura de contas de novas
empresas, há um gerente de relacionamento para manter o diálogo com o novo cliente para avaliar
suas demandas e necessidades de aplicações. Os gerentes têm o apoio de consultores de pessoas
jurídicas. O banco promove a rodada da carteira, segundo a ordem de importância do cliente em
suas operações com o banco, com o objetivo de ampliar o relacionamento: a cada dois meses o
gerente deve comunicar-se com o cliente, ou visitar a empresa. A base de ampliação do limite de
crédito é a avaliação do cliente no relacionamento com o banco, via behavior scoring. O banco
utiliza o credit scoring para a determinação do limite e concede limites de crédito sem garantias
reais se a análise demonstrar a boa capacidade de pagamento do cliente.

Unibanco – para ampliar o relacionamento com PMEs, o banco lançou, em 2003, um
programa de descontos progressivos de tarifas, como forma de aumentar em 140 mil o número de
PMEs atendidas, passando de 460 mil para 600 mil clientes, com faturamento anual até 40 milhões
de reales. Os negócios com pequenas e médias empresas representam 26% dos lucros do banco no
varejo. Com a expansão da carteira de PMEs, o banco espera aumentar o número de clientes pessoas
físicas em mais de um milhão, representados pelas folhas de pagamentos das empresas.129

8.

Sumário, conclusões e sugestões de medidas para o maior
acesso de MPEs ao crédito

A avaliação das condições de acesso das pequenas empresas ao crédito, conforme discutido
na seção 6, mostrou a importância da disponibilidade de informações nos processos de análise e
aprovação de crédito pelos bancos. Os dados sobre a situação econômica e financeira, os registros
contábeis, as informações relativas aos compromissos nas relações comerciais e no mercado

127
128
129

Valor Econômico, 21.07.2003 e Jornal O Estado de S. Paulo, 25.05.2004.
Valor Econômico, 21.07.2003 e 09.09.2003.
Valor Econômico, 21.07.2003.

55

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

financeiro, entre diversas outras, ajudam a definir o perfil de risco da empresa e a avaliação da
capacidade de pagamento dos créditos solicitados.
Foi observado nas análises da seção 6 que, na avaliação da capacidade da empresa de assumir
compromissos financeiros, a utilização do credit scoring é considerada pelos bancos um
instrumento auxiliar importante para a análise caso a caso do risco de crédito das MPEs,
substituindo os registros contábeis e demonstrativos financeiros, que se apresentam deficientes na
pequena empresa.
Os procedimentos de análise de crédito seguem as normas oficiais de classificação de risco do
Banco Central, com critérios rígidos na definição do rating dos empréstimos, de acordo com nove
níveis de risco, de AA a H. Definido o risco, para níveis acima do rating AA devem ser
provisionados recursos para a cobertura de créditos de liquidação duvidosa, em percentuais
crescentes, de acordo com o risco avaliado da operação de crédito.
Dadas as condições de operação do mercado financeiro, segundo os parâmetros e
procedimentos resumidos acima, a pesquisa procurou avaliar a situação das empresas no aspecto das
assimetrias de informações que dificultam e criam barreiras ao crédito, procurando identificar e
especificar os principais fatores que dificultam o acesso das MPEs.
Esses fatores podem ser classificados em três grupos: os decorrentes de inadequada condução
gerencial, que resultam em práticas contábeis e baixa qualidade em geral das informações
disponíveis; os decorrentes das características presentes fortemente no segmento, ou seja, altas taxas
de mortalidade e alta informalidade; e questões regulatórias, sendo a principal a insegurança jurídica
nos empréstimos a MPEs, em decorrência das deficiências dos processos judiciais de cobrança de
créditos em atraso.
A inadequada condução gerencial nas MPEs traduz-se na reduzida importância dada pelo
empresário a aspectos essenciais da gestão empresarial, como os controles e acompanhamento dos
compromissos financeiros do empreendimento. Nessa situação, os registros contábeis ficam restritos
aos procedimentos necessários aos pagamentos de impostos, com pouca aplicação na gestão e
controle dos negócios, refletindo uma deficiente gestão financeira.
As falhas contábeis são provenientes, principalmente, de dados irreais das receitas
operacionais apresentadas para a análise bancária, e das dificuldades em se conhecer a real situação
financeira da empresa e dos seus níveis efetivos de endividamento. Nessa situação, a análise do
desempenho operacional da empresa fica prejudicada, dificultando as projeções dos fluxos de caixa,
necessários para a correta avaliação da capacidade de pagamento da empresa. Além disso, não
obstante a empresa dispor de registro legal nos órgãos tributários, opera muitas vezes sem condições
de apresentar os necessários documentos ao cadastro bancário para o levantamento de empréstimos.
Os bancos entrevistados, privados e estatais, apontaram, ainda, o problema da alta
mortalidade das empresas no Brasil como fator que interfere no acesso ao crédito, levando os
bancos a exigir número mínimo de anos de funcionamento para a empresa se candidatar a
empréstimos, normalmente até cerca de três a quatro anos. Segundo a visão de um especialista,
“grande parte dessas empresas fracassam no Brasil porque não desenvolveram um bom plano de
negócios, uma contabilidade adequada, precisa e moderna. A maioria delas não sabe planejar, fazer
contas, controlar e avaliar os números que geram e quando se dão conta, já perderam o controle”.130
Contribui para a insegurança nesse campo a atual legislação de falências, que não oferece
mecanismos para a recuperação de empresas em dificuldades financeiras. Nesse aspecto, a nova Lei
de Falências, que se encontra em processo de votação final no Congresso, deverá contribuir para a
maior segurança nos empréstimos bancários.
130

56

Conforme Pedro Fabri, Flaumar Assessoria Empresarial, “Contabilista pode reduzir mortalidade de pequenas e médias empresas”,
site: www.alfapres.com.br.

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N° 168

Os fatores acima são entendidos como causadores de maior risco no mercado de crédito para
PMEs, confrontado com o mercado de empréstimos para as empresas do middle market e corporate,
onde a existência de melhores práticas contábeis e a maior disponibilidade de informações reduzem
o risco implícito nos empréstimos.
O resultado das falhas apontadas é a elevação das taxas de spread nas operações bancárias
com MPEs, conforme relataram as entrevistas, em função do maior risco percebido pelos bancos, e
da expectativa de ocorrência de maiores taxas de inadimplência, em razão das baixas habilidades
gerenciais na condução dos negócios e nos controles financeiros.
Observe-se que esta pesquisa não detectou que as empresas de pequeno porte apresentam
maiores taxas de atraso nos compromissos com os bancos, ou que isto significa um problema grave
nas operações bancárias. Isso pode ser interpretado como resultado dos processos utilizados nas
análises cadastrais e de crédito, sujeitos a normas rígidas de classificação de risco, auxiliado pelos
resultados do credit scoring, que definem os melhores projetos em condições de receber os créditos,
resultando na seleção de empresas de pequeno porte em condições de cumprir as exigências
bancárias, porém pagando taxas mais altas de spread. A seleção de bons projetos é demonstrada
pelos resultados apresentados pelo Banco do Brasil (uma agência de grande porte) e Caixa
Econômica Federal (todo o banco), em que a recusa em conceder empréstimos após as negociações
na agência e a análise do credit scoring é de apenas 2% (seção 6.3.6).
Os problemas relatados permitem concluir que um extenso número de empresas continuará
fora do mercado de crédito, incapazes que estão de apresentar as informações requeridas pelos
bancos sobre sua situação legal e tributária, e demonstrativos contábeis que espelhem com maior
realidade sua situação econômico-financeira e dados reais sobre suas receitas operacionais, em face
das práticas de sonegação fiscal.
Essa situação —exclusão de grande parcela de MPEs do mercado bancário— deve ser
confrontada com as tendências recentes que foram detectadas no mercado de créditos a pequenas
empresas, com dois pontos que chamaram a atenção, conforme foi analisado na seção 7. Em
primeiro lugar, os bancos entrevistados confirmaram o aumento das aplicações no mercado de
varejo e em pequenas empresas, a partir de meados de 2003, em função das previsões de queda na
taxa básica de juros Selic. A redução verificada de 10,5 pontos na taxa básica de juros, no período
entre junho de 2003 a abril de 2004, levou à queda acentuada dos lucros dos maiores bancos com
aplicações em títulos públicos, conforme confirmaram os balanços divulgados, respondendo os
bancos com a ampliação dos empréstimos no varejo.
Outra tendência, mostrada na seção anterior, consiste no desenvolvimento, por alguns bancos
entrevistados, de plataformas ou áreas para o atendimento das MPEs, e o treinamento de gerentes
para o atendimento mais especializado das empresas de pequeno porte, preparando-se para a
ampliação das aplicações de crédito no segmento.
As tendências acima indicam aumento da competição no mercado bancário, podendo resultar
em paulatina diminuição dos spreads, reforçando os resultados esperados das medidas
macroeconômicas e microeconômicas em andamento, conforme foi apontado nas seções 5 (medidas
do Banco Central) e 7 (aumento das aplicações bancárias em pequenas empresas).
Registra-se, por conseguinte, situação que se apresenta favorável à ampliação do crédito para
as empresas de pequeno porte, por parte do sistema bancário, com aumento da disponibilidade de
recursos, motivado por fatores de mercado, ou seja, maior competição pela ampliação da base de
clientes e obtenção de maior lucratividade nos empréstimos, e por decisões de políticas públicas,
como o forte incremento dos volumes de empréstimos dos bancos estatais (seção 7.2). De outro
lado, continuará fora do mercado de crédito uma massa de empresas de micro e pequeno portes,
com problemas de acesso derivados das condições discutidas nesse trabalho, além das demais
barreiras comentadas, como os juros altos e ineficiências no judiciário, entre outras.
57

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

A solução para a ampliação do acesso daquelas empresas ao crédito passa pela
implementação de ações de políticas públicas específicas, direcionadas diretamente aos pontos
comentados, não sendo recomendável medidas interventivas do governo, como as alocações
forçadas de crédito.
Entre as medidas que podem ser apontadas para a correção das falhas apontadas nas empresas
de pequeno porte, ou seja, gerenciais, contábeis, alta informalidade e altas taxas de mortalidade,
com vistas a contribuir para o maior acesso do segmento ao crédito, citam-se as seguintes:
Criação de Regime de Registro Único, reunindo todos os procedimentos de abertura de
empresa em um só ato, envolvendo todos os órgãos dos governos federal e Estaduais e as Juntas
Comerciais. O Registro Único de pequenas empresas estimulará a formalização das empresas que
operam em condição informal, em função das maiores facilidades, menor burocracia e diminuição
de custos de registro, viabilizando a abertura de empresas em prazo reduzido. O acesso ao crédito
seria facilitado pela possibilidade de comprovação de faturamento e emissão de nota fiscal.
Instituição de regime tributário para microempresas, como decorrência da criação de
regime de registro único, prevendo a isenção de tributos federais, ou um recolhimento fixo de valor
mínimo, para empresas com faturamento de até um determinado valor, de acordo com as primeiras
faixas de receita anual do atual regime de tributação SIMPLES.131
Criação de um regime tributário unificado nacional, reunindo os impostos dos governos
federal, estadual e municipal num único recolhimento, ampliando o atual sistema de tributação
SIMPLES, conforme mecanismo já aprovado na Reforma Tributária - parágrafo único do artigo 146
da Constituição Federal. Na mesma medida, ampliação do limite máximo para a inclusão de
pequenas empresas no regime SIMPLES, atualmente fixado em 1,2 milhão de reales, como forma
de evitar que as empresas que atingem aquele limite se subdividam em novas empresas, apenas para
efeito de continuação nos limites de receita do regime simplificado.
Além das medidas acima, que já se encontram em processo de discussão ou de formulação,
pelas entidades de apoio às MPEs, sugere-se:
Ampliação de programa de modernização contábil das MPEs – de acordo com o novo
Código Civil, que entrou em vigor em janeiro de 2004, todas as empresas são obrigadas a dispor de
um sistema de contabilidade e apresentar o Balanço Patrimonial anualmente. No Livro Diário
devem ser lançadas todas as operações relativas às atividades da empresa, com a caracterização do
documento que deu origem ao movimento respectivo. O Balanço Patrimonial deve ser firmado pelo
empresário e pelo responsável pela contabilidade. Segundo o Conselho Federal de Contabilidade,
“não existe mais dúvida da obrigatoriedade de todos os empresários e sociedade empresárias de
manterem sua escrituração contábil regular”, atendendo aos normativos do artigo 1.078 do novo
Código Civil.132 Assim, com a nova legislação instituída pelo Código Civil, encontram-se
estabelecidas as condições legais para a adoção, por todas as empresas, de escrituração contábil
mais estruturada.
A adoção de práticas contábeis racionais pode conduzir, conforme foi analisado neste
trabalho, à ampliação da bancarização de pequenas empresas e à melhoria importante do acesso ao
crédito, superando uma forte barreira presente no relacionamento bancário, que vem contribuindo
para a assimetria de informações no mercado de crédito às MPEs.
Já existe um programa de aprimoramento contábil das pequenas empresas, por meio da
capacitação dos contabilistas na aquisição de conhecimentos específicos sobre a gestão das
empresas, implementado em todo o Brasil, proporcionando aos contabilistas as ferramentas
131
132

58

Ver nota 78.
A argumentação nesse parágrafo foi retirada do site “contabilizando o sucesso”, mantido pelo Sebrae e pelo Conselho Federal de
Contabilidade: www.contabilizando.com.br,

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

necessárias ao assessoramento das micro e pequenas empresas em contabilidade gerencial, gestão de
negócios, aperfeiçoamentos na administração, entre outros conhecimentos para atender às demandas
específicas das MPEs.133
A ampliação do programa acima, com enfoque no aprimoramento dos aspectos gerenciais e
contábeis das pequenas empresas com vistas ao acesso bancário, pode constituir um importante
passo na facilitação do acesso ao crédito das pequenas empresas.

133

Trata-se do programa “Contabilizando o Sucesso”, desenvolvido pelo SEBRAE e Conselho Federal de Contabilidade a partir de
2003.

59

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

II. Instrumentos governamentais
de apoio ao crédito às MPME:
Crédito direcionado, fundos de
aval e fundos de capital de risco

1.

Programas de crédito direcionado para
MPMEs

A divisão do mercado de crédito no Brasil em recursos livres e
recursos direcionados reflete a histórica intervenção do governo na
alocação de crédito a determinadas setores, motivado pela inexistência
de um mercado de crédito privado em condições de conceder
empréstimos de longo prazo, sob prazos e taxas de juros compatíveis
com o retorno dos capitais ou com o risco das atividades financiadas.
Do total de 409,9 bilhões de reales de crédito aplicado no País, em
dezembro de 2003, cerca de 40% constituíam recursos direcionados,
investidos na habitação, agricultura, infra-estrutura econômica,
projetos industriais e em micro, pequenas e médias empresas. Para os
setores da indústria, comércio e serviços, a maior fonte dos recursos
direcionados provém do BNDES. Os demais recursos direcionados se
originam em fundos e programas especiais, que destinam parcela
importante dos seus recursos para MPMEs.
Os fundos e programas de crédito repassam recursos para
aplicação exclusiva pelos bancos federais: Caixa Econômica Federal,
Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia, e são os
seguintes: i) Programa de Geração de Emprego e Renda-Proger, com
61

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) (PIS/PASEP); ii) recursos excedentes do
Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), repassados aos bancos federais para empréstimos de
capital de giro; iii) linhas de crédito dos Fundos Constitucionais das Regiões Centro-Oeste, Norte e
Nordeste, com fontes de recursos determinados pela Constituição Federal. Esses fundos serão
analisados nessa parte do trabalho, junto com os financiamentos do BNDES.
O direcionamento de crédito de fundos e programas para micro, pequenas e médias empresas
é particularmente importante no crédito para investimentos, representando as únicas fontes de
recursos disponíveis para aplicações de médio e longo prazos. Os créditos direcionados em
modalidades de capital de giro para MPMEs representam também as únicas fontes com prazo
superior a um ano.
Para uma apreciação geral do crédito direcionado aplicado pelos bancos federais, foram
arroladas na tabela 14 as principais linhas de crédito nessa modalidade, junto a linhas normais de
crédito livre de bancos federais. Os critérios de tamanhos de empresas para efeito de enquadramento
nas linhas de crédito estão especificados na coluna “tamanho de empresa”.
As linhas de crédito direcionado são as seguintes: BNDES Automático e Finame, Proger,
FCO Empresarial, as linhas do Banco da Amazônia (com funding do Fundo Constitucional do
Norte), e ainda as linhas para capital de giro do Banco do Brasil e da CEF, com parte do funding
suprida pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) (analisado na seção 1.4).
Tabela 14

PRINCIPAIS LINHAS DE CRÉDITO PARA MPMEs EM BANCOS GOVERNAMENTAIS – 2004
(miles de reales)
Bancos/linhas de
Crédito

Aplicação

Tamanho
de
Empresa
(Receita
Anual)

Valor
Máximo do
Crédito

Taxa de Juros
(% mês/ ou ano)

Prazo
Máximo

Garantias

BNDES
BNDES Automático

Investimentos 60 000

10 000

BNDES Finame

(maq. e
quip)

10 000

60 000

TJLP (9,75%) +
1% + cerca de
5% a 8% ao ano

Variável
(cap. Da
empresa)

FGPC, reais e
Pessoais

60 meses

FGPC, reais e
Pessoais

Banco do Brasil
BB Giro (crédito fixo)

C. de giro

500

TR + 2,67

18 meses

Fiança/aval e real

BB Giro Rápido
(fix/rot.)

C. de g iro

5 000

100

2,8 mês

12 meses

Fiança/aval

BB Giro Automático
(créd.rot)

C. de giro

500

5

2,25 mês

12 meses

Fiança sócio

Desc. de cheques

C. de giro

-

-

2,38 a 4,45

15 meses

Fiança/aval

Desc. Títulos (antec.
Vendas)

C. de giro

-

-

2,85 a 4,45

15 meses

Fiança/aval

Antecip. De crédito
cartão

C. de giro

-

-

2,69 a 4,48

15 meses

Cessão dos
créditos

Conta Garantida

C. de giro

-

4,30 a 5,65

12 meses

Fiança/aval; real

Proger Urbano
Empresarial

Investiment
o/Giro

5 000

400

TJLP+5,33 (ao
ano)

60 meses

Bens finan.,
FAMPE,
FUNPROGER, aval

Proger Turismo

Investimento/
Giro

5 000

400

TJLP+5,33 (ao
ano)

120
meses

Igual linha
anterior

FCO Empresarial

Investimento

4 800

8,75 a 14,0 (ao
ano)

144
meses

Bens financ.; aval;
FAMPE

-

-

Cont.
Tabela 1 (conclusão)
Caixa Econômica

62

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Federal
Giro Caixa (PIS)

C. de giro

MPE

15

TR+10% ano

12 meses

Aval sócio e
outras.

Giro Caixa

C. de g iro

-

100

Mercado

24 meses

Aval sócio e
outras

Giro Caixa
Instantâneo

C. de giro

5 000

Mercado

12 meses

Caução receb.,
aval

Cheque Empresa
Caixa

C. de giro

-

Mercado

12 meses

Aval sócio e
outras.

Desconto de
duplicatas

C. de giro

-

Mercado

04 meses

Caução duplic.,
aval

Desc. cheques prédat.

C. de giro

-

Mercado

05 meses

Caução cheques;
aval

Proger MEP (FAT)

Invest/giro

5 000

400

TJLP+5% ano

48 meses

Aval sócio e
outras.

Crédito Aporte Caixa

C. de giro

400

TR +18/23% ao
ano

60 meses

Imóvel em nome
do Sócio da
empresa

Banco da
Amazônia
Programa de fin. a
MPE

Invest/giro

MPE
(FNO)

200

8,75% - micro
10% - peq.

2
anos/8anos

130%

Programa de fin. a
indústria

Invest/giro

Média e
grande

8400

12%-médio

3
anos/8anos

130%

Turismo

Invest/giro

Média e
grande

8400

12%-médio

3
anos/8anos

130%

Exportação

Invest/giro

Média e
grande

24000

Var. cambial +
libor e 3%.

3
anos/8anos

130%

Comércio e
exportação

Investimento

MPE e
Média e
grande

70 (micro)

8,75% a 14%
ano.

8 anos

130%

500
(pequeno)
1.000
(médio)

Fontes: BNDES; Banco do Brasil; Caixa Econômica Federal; Banco da Amazônia; elaboração do autor.
Obs: As taxas de juros do crédito no mercado livre são sujeitas a alterações, conforme mudanças na Taxa Selic e nas
condições de captação de mercado.

As linhas de crédito que utilizam funding de programas especiais e do BNDES prevêem taxas
de juros baixas em relação às adotadas no mercado livre (como são as linhas dos Fundos
Constitucionais, com taxas anuais fixas, de 8,75% a 14,0% ao ano, variando conforme o porte do
mutuário, analisado na seção 1.3) ou são referenciadas, parcialmente, em taxas reduzidas, como a
Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que se encontra fixada em 9,75% ao ano em 2004 —nos
repasses do BNDES e do FAT— ou a Taxa Referencial (TR), que alcançou 3,9% em 2003, em
média, adotada como fator de correção em linhas de crédito do Banco do Brasil e CEF.
Condições de acesso
No crédito direcionado, as taxas de juros sensivelmente mais baixas, o risco assumido pelo
agente financeiro, e a necessidade de garantir a aplicação dos recursos nas finalidades do crédito,
evitando o desvio de recursos, levam à adoção de procedimentos mais rigorosos e demorados na
análise de crédito. É necessária a apresentação de plano de negócios, contendo a análise do
empreendimento e o plano de aplicação dos recursos, além do acompanhamento e fiscalização, pelo
agente financeiro, da aplicação dos valores nos objetivos propostos.134

134

Exemplificando, para obter financiamento de linhas do Proger e dos Fundos Constitucionais, o empresário deve apresentar um
projeto de viabilidade econômico-financeira, contendo: o faturamento dos últimos trinta e seis meses, a relação dos principais custos
da empresa, a relação dos ativos fixos, o número de empregados, o orçamento da empresa fornecedora dos bens, a análise dos

63

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Um ponto que dificulta o acesso ao crédito, a exigência de garantias reais equivalentes a 1,3
vezes o valor do crédito, tem sido contornado pelos fundos de aval com funding federal. Os mais
utilizados são o FGPC, do BNDES, o FUNPROGER, gerido pelo Banco do Brasil, o fundo de aval
da Caixa Econômica Federal e o fundo do aval do Sebrae (FAMPE).
São analisadas a seguir diversas modalidades de crédito direcionado: os empréstimos do
BNDES e dos seus agentes financeiros às MPMEs, do Banco da Amazônia e do Banco do Nordeste,
do Programa de Geração de Emprego e Renda-Proger e dos Fundos Constitucionais, todos sob a
ótica da participação da pequena empresa nos empréstimos concedidos.

1.1 BNDES: Financiamentos às MPMEs
Desde 1965, com a instituição da linha de crédito Financiamento à Pequena e Média Empresa
(FIPEME), o BNDES vem atuando em financiamentos às empresas de pequeno porte, dada a quase
absoluta presença de grandes empresas nos empréstimos do banco, instituído em 1952 para o apoio
aos grandes projetos industriais e de infra-estrutura econômica. Na década de oitenta, a instituição
foi pioneira no microcrédito com a criação do Programa de Apoio à Microempresa (PROMICRO).
Em 1996, o apoio aos segmentos de pequeno porte foi consolidado no Programa de Apoio à Micro,
Pequena e Média Empresa (PMPE), para a concessão de financiamentos para investimentos e
capital de giro associado, sob condições mais favoráveis em relação às empresas de maior porte,
como forma de ampliar o acesso daqueles segmentos aos recursos do banco.135
O BNDES constitui-se no principal instrumento da política de crédito de investimentos do
País,136 realizando operações de financiamento tanto diretamente, quanto por meio de seus agentes
financeiros. As operações diretas com a instituição são principalmente aquelas de grande porte, ou
tidas como de alto risco, como são os empréstimos à indústria aeronáutica. O valor mínimo para os
empréstimos diretos é 10 milhões de reales, exceto nas regiões onde o BNDES desenvolve
programas regionais, onde o valor mínimo é de 1 milhão de reales.137 Nas operações de
empréstimos com os agentes, o projeto de financiamento é enviado ao BNDES para a aprovação do
crédito, cujo empréstimo correspondente é normalmente adiantado ao cliente pelo banco na ponta,
assumindo o risco de crédito.
O saldo dos empréstimos do banco a todos os setores, em dezembro de 2002, alcançava 84,7
bilhões de reales, eqüivalente a 33% do total de empréstimos do sistema bancário à industria,
comercio, serviços e agricultura. Essa comparação, contudo, não é representativa do papel do
BNDES, em razão das naturezas distintas dos créditos, sendo os empréstimos bancários
preponderantemente de curto prazo, e os do BNDES constituindo empréstimos de médio e longo
prazos, para investimentos e giro associado. Daquele total de 84,7 bilhões de reales mais de 50%,
ou 43,1 bilhões de reales, correspondem ao saldo das aplicações realizadas através dos agentes
financeiros.
As taxas de juros dos financiamentos do BNDES compõem-se de três partes: i) o custo
financeiro de captação dos recursos, que nas operações com recursos internos é expressa pela Taxa
de Juros de Longo Prazo (TJLP), fixada trimestralmente, e que tem variado entre os níveis de 9,25%
a 12% nos últimos quatro anos (2000/2003), encontrando-se, em 2004, em 9,75%; ii) o spread
básico do BNDES, fixado em 2,5% para as grandes empresas e em 1% para PMEs; e, iii) o spread
do agente financeiro.

135
136
137

64

mercados dos fornecedores, dos concorrentes e dos clientes, entre outras informações, cf. Sebrae-DF, Manual de Procedimentos para
a Elaboração de Projetos de Viabilidade Econômico-financeira.
Apoio do Sistema BNDES às Micro, Pequenas e Médias Empresas, BNDES/FINAME/DEREM, 12/04/2000.
Como determina o próprio Estatuto Social do BNDES, instituído pelo Decreto federal 4.418/2002.
Áreas de menor desenvolvimento, incluindo o Nordeste, Espírito Santo, Amazônia, Centro-Oeste e municípios em programas de
desenvolvimento de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cf. site BNDES, Produtos e Serviços.

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N° 168

1.1.1 - Condições de financiamento às PMES
As condições de financiamento, como os prazos dos empréstimos e percentuais de
adiantamento, variam em função da classificação do porte da empresa. Microempresa é definida
pela receita operacional bruta anual de até 1.200 mil reales; a pequena empresa apresenta receita
entre 1.200 mil a 10.500 mil reales; a média empresa, entre 10.500 mil a 60 milhões de reales.
Observe-se que os conceitos empregados pelo BNDES são substancialmente maiores que os
adotados no Estatuto da Pequena Empresa (Lei nº 9.841/99), e eqüivalem aos adotados no
Mercosul.
No estabelecimento das normas para empréstimos, o BNDES definiu, a partir de 1997,
condições para as MPMEs mais flexíveis que as adotadas para as grandes empresas, com o
propósito de melhorar as condições de financiamento a essas empresas. Entre essas condições
encontram-se o maior valor relativo dos empréstimos para capital de giro e maior percentual de
adiantamento em relação às necessidades de capital da empresa, entre outros benefícios.
Além de melhorar as condições de financiamento, as normas do banco, especialmente a partir
de 1999, procuram induzir os agentes financeiros a operar com MPMEs, dada a baixa participação
dessas empresas nos financiamentos com recursos do BNDES, em razão da alegação dos agentes de
maiores riscos e maiores custos operacionais nos financiamentos concedidos ao segmento. Entre
essas condições para a ampliação dos empréstimos dos bancos às MPMEs encontram-se: i)
negociações do BNDES com cada agente, estabelecendo-se uma meta de desempenho nos
empréstimos, a ser alcançada em determinado período, como forma do agente manter seu limite
operacional de repasses do BNDES. Com essa medida, muitos bancos passaram a ampliar seus
créditos às empresas de menor porte.; ii) o agente recebe recursos adicionais para cada 1 milhão de
reales repassado às micro e pequenas empresas, conhecido como Programa de Milhagem (nas linhas
FINAME, BNDES Automático e BNDES-exim pré-embarque); iii) os prazos de carência e de
amortização podem ser fixados por cada banco; iv) o spread de risco aplicado nos financiamentos
às MPMEs foi elevado, em 1999, para taxas de até 4% e, em 2001, foi liberado.
Outra facilidade relatada pelo BNDES refere-se à adoção de menores exigências às MPMEs
nas informações sobre o projeto e a empresa, como forma de facilitar a tramitação das solicitações
de empréstimos no agente e no BNDES.138
Além das condições citadas, outros benefícios maiores para as PMEs são as seguintes,
conforme expresso nas condições de financiamentos do BNDES, segundo as diversas linhas de
financiamento:
• Nos financiamentos do Programa BNDES Automático, destinado a projetos de
implantação, expansão, modernização ou relocalização de empresas, incluindo a
construção e reforma de imóveis e instalações e a aquisição de máquinas e equipamentos
de fabricação nacional, e capital de giro associado, as MPMEs recebem recursos
equivalentes a até 90% do valor total do financiamento e as demais empresas 80%
(equipamentos) ou 60% (demais itens).
• No caso de capital de giro, as microempresas podem receber financiamento de até 100% do
investimento fixo e as pequenas empresas até 50%. As demais empresas têm limite de 30%.
• No caso do programa FINAME, que financia a aquisição de máquinas e equipamentos
novos de fabricação nacional, o nível de financiamento às PMEs pode chegar a 90% (80%
para as demais empresas); nas operações com microempresas, a parcela financiável do

138

Em razão das demoras nas aprovações, o BNDES decidiu estabelecer prazo máximo de 210 dias, ou sete meses, para a decisão sobre
os pedidos de financiamento, fixando prazo para a aprovação de solicitações de financiamentos, distribuído nas fases de
enquadramento do pedido da empresa (30 dias), análise (60 dias), decisão sobre o pedido (60 dias) e contratação e liberação (60
dias), conforme entrevista de Maurício Borges Lemos, Diretor de Planejamento, ao jornal Valor, 30.10.2003.

65

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

capital de giro associado alcança 50% do valor do bem, e 30% nas operações com
pequenas e médias empresas, não havendo previsão para as empresas de maior porte.
• Nas linhas de financiamento à exportação pré-embarque, as MPMEs pagam juros
equivalentes à TJLP e as demais empresas pagam TJLP e um adicional de no mínimo 40%
do custo de captação internacional do BNDES (dado pela Cesta de Moedas do BNDES).
O spread básico para MPMEs é de 1%, sendo de 3% para grandes empresas.
• No caso de máquinas e equipamentos usados, somente é admitido o financiamento para
microempresas, na linha BNDES Automático, junto com outros itens de investimento.
• No setor de prestação de serviços, somente as microempresas podem receber capital de
giro.
Outro benefício disponível consiste na utilização de fundo de aval, o Fundo de Garantia para
a Promoção da Competitividade-FGPC, que começou a operar em 1999, criado para complementar
as garantias exigidas às empresas pelos agentes financeiros do BNDES. O risco coberto pelo FGPC
é de 70% a 80% do financiamento (condições para micro e pequenas empresas e médias empresas
exportadoras). Outro benefício às micro e pequenas empresas consiste na possibilidade de não se
exigir a apresentação de garantias reais nos financiamentos de valor até 500 mil reales, quando a
operação for garantida pelo fundo de aval. Outro fundo de aval é também utilizado nos
financiamentos do BNDES, como resultado de convênio firmado com o SEBRAE, que permite a
utilização do Fundo de Aval FAMPE dessa instituição nos financiamentos concedido pelos agentes
financeiros do BNDES.
1.1.2 Participação das MPMEs nos Financiamentos do BNDES
A avaliação a seguir exclui os financiamentos à agricultura (12% dos empréstimos totais do
banco) e às pessoas físicas (0,2% do total) concentrando-se em sete setores: indústria de
transformação, indústria extrativa, geração e distribuição de eletricidade e gás, captação, tratamento
e distribuição de água, construção, comércio, transportes e serviços. Os dados de empréstimos
foram distribuído segundo o porte das empresas, nos tamanhos micro/pequenas empresas, médias e
grandes empresas.
Entre os anos 1998-2002, os empréstimos totais liberados pelo BNDES aos setores acima
cresceram 86,4% em termos nominais e 33,3% reais.139 (Tabela 15). A indústria de transformação
foi a mais beneficiada com a forte expansão dos financiamentos do banco no período, apresentando
evolução nominal de 135%, com a participação nos financiamentos totais passando de 41,3% para
52,2%. Os ramos da indústria de transformação que receberam maiores volumes de crédito foram:
produção alimentícia, papel e celulose, máquinas e equipamentos, veículos automotores e
equipamentos de transportes. A geração e distribuição de eletricidade, que constitui o grosso dos
recursos do setor (que inclui a produção e distribuição de gás e captação, tratamento e distribuição
de água canalizada) recebeu aumento de 119%, em função da crise de energia de 2001, que exigiu
um grande esforço de financiamentos para a expansão da capacidade de produção de energia. Os
demais setores diminuíram sua participação no crédito global do BNDES, apresentando redução
nominal no valor dos financiamentos recebidos, como foi o caso da indústria extrativa, ou
diminuição em termos reais, como em construção, comércio, transportes e serviços em geral.
Tabela 15

BNDES – FINANCIAMENTOS, POR SETOR - INDÚSTRIA,
COMÉRCIO E SERVIÇOS. 1998-2002
(milhões de reales correntes)
Setores

139

66

1998

2002

Os dados nominais foram deflacionados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo-IPCA, índice utilizado pelo Banco Central na
determinação das metas anuais de inflação.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Valor
Indústria de transformação

%

Valor

%

7 275,9

41,3

17 134,3

52,2

282,2

1,6

250,3

0,8

4 037,3

22,9

8 864,2

27,0

598,5

3,4

761,1

2,3

Comércio

1 042,6

5,9

1 220,7

3,7

Transportes

2 699,6

15,4

2 636,1

8,0

Serviços

1 660,0

9,5

1 955,1

6,0

17 596,1

100,0

32 821,7

100,0

Indústria Extrativa
Eletricidade, gás e água
Construção

Total

Fonte: BNDES.

A seguir, na tabela 16, os financiamentos desembolsados no ano de 2002 são distribuídos
segundo o porte das empresas. A distribuição por porte para o ano de 1998 não permite comparação
com os dados de 2002, em razão da alteração dos conceitos de tamanho de pequena e média
empresas.
Tabela 16

BNDES - FINANCIAMENTOS, POR SETOR E PORTE DE EMPRESAS - 2002
(milhões de reales)
Setor
Indústria de transformação

Pequena
Valor

Média
%

Valor

Grande
%

Valor

%

519,6

3,0

692,8

4,0

15 922,0

92,9

37,8

15,1

15,9

6,3

196,7

78,6

6,2

0,1

498,8

5,6

8 359,3

94,3

Construção

146,0

19,2

108,2

14,2

507,0

66,6

Comércio

369,3

30,3

140,2

11,5

711,2

58,3

Transportes

654,4

24,8

643,7

24,4

1 338,00

50,8

Serviços

325,2

16,6

205,4

10,5

1 424,5

72,9

2 058,3

6,3

2 304,9

7,0

28 458,5

86,7

Indústria Extrativa
Eletricidade, gás e água

Total

Fonte: BNDES.

A participação das MPMEs nos desembolsos totais do BNDES aos setores relacionados
alcança 13,3% em média. A desagregação setorial indica diferenças substanciais entre os setores,
apresentando a construção, comércio, transportes e serviços percentuais de participação
relativamente representativos (essa conclusão, contudo, deve ser feita com cautela, tendo em vista
dois aspectos envolvidos na definição de porte de empresa, que podem distorcer o resultado
apresentado: os conceitos ampliados adotados pelo BNDES para definir MPME e a adoção de
conceito único para indústria, comércio e serviços). Já no caso da indústria de transformação, em
que a pequena empresa participa com 3,0% (sendo 1% para a microempresa) e a média empresa
com 4%, a conclusão sobre a participação nos empréstimos é amplamente desfavorável para a
MPME, dado que a participação das empresas com receita anual de até 60 milhões de reales (limite
de enquadramento do segmento) na produção global do País deve se apresentar substancialmente
superior a 13,3%, indicando que as empresas de micro, pequeno e médio portes encontram-se com
participação nos financiamentos do BNDES bastante inferior à sua contribuição na geração de
emprego e renda no Brasil.

67

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

A seguir, na tabela 17, os empréstimos à indústria de transformação encontram-se
desdobrados por gêneros industriais, permitindo verificar aqueles em que o segmento de MPMEs
encontram-se relativamente bem atendido pelos agentes financeiros do BNDES. Dos 23 subsetores,
a MPME participa com pelo menos 34% dos empréstimos em 10 gêneros (os últimos 10 listados no
quadro). Nos oito primeiros, a participação é inferior à media de 13,1%, mas quatro são
caracterizados por estrutura industrial formada por grandes empresas, a saber, refino de petróleo,
veículos automotores, celulose e papel e material eletrônico e comunicação, aos quais pode-se
acrescentar metalurgia básica. Assim, encontram-se escassamente atendidos os seguintes gêneros:
outros equipamentos de transporte, produtos químicos, produtos alimentícios e bebidas, aos quais se
acrescenta, em razão da baixa participação, couros e artefatos, produtos têxteis, máquinas e
equipamentos e máquinas, aparelhos e material elétrico.
Tabela 17

BNDES - INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO - PARTICIPAÇÃO DAS MICRO,
PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS NOS FINANCIAMENTOS TOTAIS, POR SUBSETOR - 2002
(Porcentagem)
Subsetores

Micro/Pequena

Média

Grande

Outros Equipamentos de Transporte

0,0

0,0

100,0

Material Eletrônico e de Comunicação

0,6

0,6

98,8

Celulose e Papel

0,8

1,0

98,2

Veículos Automotores

0,7

2,2

97,1

Metalurgia Básica

1,4

1,9

96,7

Refino Petróleo, Coque e Álcool

0,7

5,8

93,5

Produtos Químicos

2,8

6,0

91,2

Produtos Alimentícios e Bebidas

4,6

5.6

89,8

Couros e Artefatos

3,3

10,0

86,7

Produtos Têxteis

3,9

9,9

86,2

Máquinas e Equipamentos

5,3

9,0

85,7

Máquinas, Aparelhos e Material Elétrico

3,9

12,5

83,7

Produtos de Metal

12,7

6,4

80,9

Produtos de Madeira

14,3

19,7

66,0

Produto Minerais Não Metálicos

18,3

25,2

56,5

Equip. Médico, Precisão e Autom. Indl.

19,6

28,2

52,1

Artigos de Borracha e Plástico

29,3

27,3

43,4

Editorial e Gráfica

36,6

31,0

32,3

Máquinas de Escritório e Informática

41,3

31,3

27,4

Confecções, Vestuário e Acessórios

61,2

14,7

24,1

Móveis e Indústrias Diversas

42,6

39,7

17,0

Produto do Fumo

68,2

31,8

0,0

Reciclagem

81,8

18,1

0,0

3,0

4,0

92,9

Indústria de Transformação

Fonte: BNDES.

Em termos de número de contratos realizados pelo BNDES e agentes com as empresas, foram
efetivados 31,8 mil operações de empréstimos, sendo 55,7% com pequenas empresas, 17,2% com
médias e 27,1% com grandes, concentrados, nas MPMES, na indústria de transformação,
transportes e comércio, conforme a tabela 18.
Tabela 18

68

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

BNDES – NÚMERO DE CONTRATOS DE FINANCIAMENTOS,
POR SETOR E PORTE DE EMPRESAS – 2002
Setor

Micro/Pequena

Indústria de transformação

Média

Grande

4 546

1 822

4 396

962

430

1 548

33

53

329

Construção

1.174

504

438

Comércio

4 321

710

612

Transportes

5 213

1 551

672

Indústria Extrativa
Eletricidade, gás e água

Serviços

1 434

390

655

17 683

5 460

8 650

55,7

Total

17,2

27,1

Participação nos contratos totais (%)

Fonte: BNDES.

1.1.3 Taxas de juros e prazos nos financiamentos a MPMEs
Restam ser avaliados como se comportam os parâmetros relacionados às condições dos
empréstimos, isto é, taxas de juros, prazos e carências, segundo os portes de empresa. Na Tabela 19
encontram-se as taxas de spread cobradas pelos agentes (acima da TJLP e do spread básico do
BNDES). Observa-se que as taxas se elevam em função do tamanho da empresa, sendo maiores
quanto menor é a empresa. Esse comportamento reflete o fato básico do maior risco percebido pelos
bancos nas operações com empresas de menor porte.
Tabela 19

BNDES - SPREADS DOS AGENTES FINANCEIROS, POR PORTE DE EMPRESA - 2002
(Porcentagem)
Setor

Micro

Pequena

Média

Grande

Indústria

8,15

8,2

6,8

4,7

Comércio/ Serviços

8,14

8,1

6,98

5,56

Total

8,12

8,1

6,86

5,05
Fonte: BNDES.
Tabela 20

BNDES - PRAZO MÉDIO DOS EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS - 2002
(Meses)
Setor

Micro

Pequena

Média

Grande

Indústria

40

41

37

45

Comércio/ Serviços

44

44

41

59

Total

42

42

39

51
Fonte: BNDES.

1.1.4 Perspectivas para os financiamentos a MPMEs no BNDES
A análise acima mostrou que, não obstante o esforço do BNDES no sentido de induzir os
seus agentes financeiros a destinar maiores volumes de crédito às micro e pequenas empresas, os
resultados indicam que a participação do segmento no crédito total não corresponde à sua
importância na economia e na geração de empregos no País.
69

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

As avaliações desta pesquisa com alguns agentes financeiros do BNDES sobre os
procedimentos adotados nas liberações de recursos, especialmente junto a bancos federais, indicam
preocupação com os prazos demorados das aprovações dos projetos de financiamentos remetidos
para a homologação pelo banco, que muitas vezes demoram entre seis meses a um ano. Há posições
divergentes dos dois lados. Para os bancos, “quando um processo vai para o BNDES nunca se sabe
o que pode acontecer, pois não há uma rotina definida”. Nas operações com o fundo de aval FGPC,
“no caso de inadimplência, os bancos precisam aguardar um ano para receber a cobertura”.140 Para o
BNDES, “o acesso é dificultado porque muitas vezes os bancos operam fora das condições
estabelecidas pelo BNDES, o que é ilegal, exigindo contrapartidas, impõem seus próprios
produtos”..... “alguns bancos dificultariam as operações com pequenos tomadores, tendo em vista o
maior risco”.141
Analisando os dados das aplicações do BNDES em 2003, observa-se que o banco ampliou
em 37% o valor dos empréstimos concedidos para MPMEs, nos setores da indústria, comércio e
serviços, e em 47% o número de contratos aprovados. A ampliação é significativa, sabendo-se que
no ano de 2003 o Banco reduziu os empréstimos globais em 12%, tomando-se as empresas de todos
os portes, implicando que as empresas de micro, pequeno e médio portes ampliaram a sua
participação nos empréstimos totais do banco.
Em 2004 continua a aceleração dos financiamentos para as MPMEs, com os desembolsos na
indústria crescendo 81% no primeiro quadrimestre, em relação ao mesmo período do ano anterior,
sendo que as liberações programadas para todos os setores no ano de 2004 alcança 43% de
acréscimo.142 Os financiamentos às empresas de pequeno porte poderão ser dinamizados com o
lançamento de novos produtos direcionados ao segmento, como é o caso do anunciado Modermaq,
em julho deste ano, para facilitar aquisições de máquinas e equipamentos, sob taxa de juros fixa de
14,95%, prazo de até cinco anos e financiamento de até 90% do valor do investimento.

1.2 Bancos regionais de fomento e crédito à pequena empresa
1.2.1 Banco da Amazônia
O Banco da Amazônia constitui-se no agente financeiro do governo federal para a Amazônia
Legal, área geo-econômica que compreende a Região Norte, Estado do Mato Grosso e parte do
Estado do Maranhão, abrangendo 59% do território nacional. Atua como banco de fomento da
região, aplicando recursos de fontes federais orientados para o desenvolvimento de áreas
específicas, como a agricultura, pecuária, heveicultura, turismo, microcrédito, projetos industriais e
outras áreas.
Na área do apoio às MPMEs, o banco aplica recursos de três fontes/fundos federais: o Fundo
Constitucional da Região Norte-FNO, o Fundo de Amparo ao Trabalhador-FAT/Proger e BNDES,
em áreas e setores prioritários para a região, estimulando o uso intensivo de matérias primas locais e
o fortalecimento de associações e cooperativas de produtores.
As linhas de crédito para MPMEs do Banco da Amazônia com funding no Fundo
Constitucional da Região Norte-FNO, a principal em volume, de menor custo e prazos mais longos,
encontram-se na tabela 14. Os prazos de pagamento para micro e pequenas empresas para
empréstimos de investimentos são de até 8 anos e para capital de giro de 2 a 3 anos.
Na tabela 21 encontram-se discriminados os empréstimos para micro, pequenas e médias
empresas, na indústria e comércio/serviços, com base em recursos de fundos e programas federais.
A participação do segmento de micro, pequenas e médias empresas nos créditos concedidos em

140
141
142

70

Artigo “Sobra dinheiro, falta crédito”, revista Observatório da Indústria, Federação das Indústrias do Estado do Paraná, junho 2004.
Carlos Lessa, presidente do BNDES, ver nota 137.
BNDES, Boletim MPME, maio de 2004; e jornal o Estado de S. Paulo, 13.05.2004.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

2003 alcança 31%. As grandes empresas participam com percentual alto, de 69%, por conta do
financiamento de projetos .
Tabela 21

BANCO DA AMAZÔNIA - EMPRÉSTIMOS À INDÚSTRIA,
COMÉRCIO E SERVIÇOS, POR PORTE DE EMPRESAS – 2003
(milhões de reales correntes)
Indústria

Porte
Valor
Micro

Comércio/Serviços
%

Valor

%

Total
Valor

%

1,7

0,5

3,7

6,4

5,4

1,2

Pequena

27,0

7,2

21,5

36,9

48,5

11,2

Média

55,8

14,9

24,6

42,3

80,4

18,6

Grande

289,8

77,4

8,4

14,4

298,2

69,0

Total

374,3

100,0

58,2

100,0

432,6

100,0

Fonte: Banco da Amazônia – Coordenação de Planejamento.
Obs: portes de empresas: microempresas: receita anual até 244 mil reales; empresas de pequeno porte:
receita anual até 1,2 milhões de reales; médio porte: receita entre 1,2 milhões a 35 milhões de reales.

1.2.1 Banco do Nordeste
O Banco do Nordeste é o banco de fomento do governo federal para uma extensa região,
abarcando a Região Nordeste, norte de Minas Gerais e norte do Espírito Santo, no total de cerca de
1.900 municípios. Responde por cerca de 77% dos financiamentos totais da região sob sua ação,
possuindo cerca de 1,4 milhão de clientes.
O Banco do Nordeste desenvolve o maior programa de microcrédito da América do Sul, com
funding do Banco Mundial, BID e Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), com cerca de 165 mil
clientes.143
As fontes de recursos de fomento para a micro, pequena e média empresas consistem no
Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), que responde por 87% do total
aplicado na indústria, BNDES e Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT/Proger). A maior
participação do FNE decorre das condições de financiamentos do fundo, com taxas de juros fixas de
8,75%, 10% e 12% ao ano, para micro, pequenas e médias empresas, respectivamente, mais baixas
que as demais fontes.
No FNE, o limite de financiamento para micro e pequenas empresas alcança 80%, sendo de
70% para médias e grandes empresas. Há indicação seletiva de áreas geográficas, setores e
atividades prioritários na distribuição dos empréstimos, especialmente com tratamento preferencial
às MPEs na região do semi-árido nordestino, pois 50% dos recursos devem ser aplicados nessa
área, conforme determina a Lei que instituiu o FNE.
A participação das micro, pequenas e médias empresas nos financiamentos do Banco do
Nordeste é substancialmente maior nos setores comércio e serviços, conforme os valores das
contratações em 2003 (tabela 22), em que detêm 81% do total. No setor industrial, a participação é
menor, equivalente a de 35,7%, e as grandes empresas, 64,3%, refletindo a política de apoio às
empresas de maior porte, definidas pelo banco como “estruturadoras produtivas do crescimento
econômico”.144
Tabela 22
143
144

O Estado de S. Paulo, 22.11.2003.
Banco do Nordeste, Relatório de Gestão FNE, 2003.

71

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

BANCO DO NORDESTE – EMPRÉSTIMOS À INDÚSTRIA,
COMÉRCIO E SERVIÇOS, POR PORTE DE EMPRESAS – 2003
(milhões de reales correntes)
Indústria
Porte

Valor

Comércio/Serviços
%

Valor

%

Total
Valor

%

Micro

89,3

17,5

22,4

3,4

111,7

9,6

Pequena

28,8

5,7

408,7

62,6

437,5

37,6

Média

63,6

12,5

97,6

15,0

161,2

13,9

Grande

327,7

64,3

124,0

19,0

451,7

38,9

Total

509,4

100,0

652,7

100,0

1.162,1

100,0

Fonte: Banco do Nordeste.
Obs: portes de empresas: microempresas: receita anual até 244 mil reales; empresas de pequeno porte: receita
anual até 1,2 milhões de reales; médio porte: receita entre 1,2 milhões a 35 milhões de reales.

1.3 Fundos constitucionais de financiamentos do centro-oeste,
do nordeste e do norte: créditos a pequenas empresas
Os Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), do Nordeste (FNE) e
do Norte (FNO) foram criados pela Lei 7.827/89, em cumprimento a dispositivo da Constituição de
1988, que determinou o direcionamento de 3% da arrecadação do Imposto sobre a Renda e do
Imposto sobre Produtos Industrializados para a aplicação em programas de financiamento do setor
produtivo das três regiões, por meio das respectivas instituições financeiras regionais.145 Os fundos
financiam atividades produtivas nos setores agropecuário, mineral, industrial, agroindustrial,
turístico, comercial, serviços e infra-estrutura das três regiões, sendo os recursos arrecadados
distribuídos na proporção de 60% para o Nordeste e 20% para cada uma das duas outras regiões.146
O FNE atua nos nove Estados da região Nordeste, no Norte de Minas Gerais e nos Vales do
Jequitinhonha e do Mucuripe do mesmo Estado e no Norte do Espírito Santo. A aplicação dos
recursos prioriza seis mesoregiões de menor desenvolvimento relativo, com cerca de 680
municípios arrolados.
O FCO tem como área de atuação a região Centro-Oeste do Brasil, abrangendo os Estados de
Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e o Distrito Federal.
O FNO atua nos sete Estados do Norte: Pará, Amazonas, Amapá, Roraima, Tocantins, Acre e
Rondônia
Os empréstimos dos Fundos são objeto de análise neste trabalho em razão de constituírem os
créditos a pequenas e médias empresas uma das prioridades nas diretrizes legais e nas programações
anuais de aplicação dos recursos. Os empréstimos e financiamentos são destinados a empresas,
pessoas físicas e cooperativas. No financiamento às empresas de pequeno porte na área urbana e
145

146

72

A arrecadação do imposto sobre a renda e do IPI, em 2002 foi de 85,8 bilhões de reales e 19,8 bilhões de reales, respectivamente,
representando 43,4% de toda a receita administrada pela Secretaria da Receita Federal. Os recursos recolhidos correspondentes aos
3% são repassados pelo Tesouro Nacional ao Ministério da Integração, que os distribui ao Banco da Amazônia, Banco do Brasil e
Banco do Nordeste.
Ao decidir pela adoção desse instrumento de crédito, o Congresso Nacional adota a linha de propostas contidas nas análises e
diagnósticos econômicos que tem sido realizados desde o final da década de cinqüenta sobre as regiões de menor desenvolvimento
no Brasil, com foco especial na região Nordeste: a de que os desequilíbrios entre as regiões devem ser corrigidos pelo
direcionamento obrigatório de recursos federais e de incentivos fiscais para as três regiões menos desenvolvidas, e aplicada sob
condições favorecidas em relação ao resto do País.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

produtores rurais de pequeno porte, são prioritários os setores de turismo, a produção de alimentos e
atividades utilizadoras de matérias-primas e mão-de-obra locais e, a partir de 2001, também as
empresas comerciais e de serviços com atividades correlacionadas às atividades prioritárias. Dado o
peso das atividades agropecuárias nas três regiões, a maior parcela dos empréstimos tem sido
direcionadas a esse setor.147
Os fundos apresentam condições de financiamentos, como taxas de juros e prazos de
pagamentos, amplamente diferenciados em relação ao crédito livre do sistema bancário no Brasil, o
que é possibilitado pelo funding formado por recursos fiscais.148 Em 2000, os juros aplicados nos
empréstimos, representados pela TJLP, então em 10% ao ano, mais spread do banco, foram
transformados em juros fixos de 8,75%, 10%, 12% e 14% ao ano, para empresas industriais,
comerciais e de serviços, de acordo com o porte da empresa, sem demais encargos.149 Nos
financiamentos agrícolas, os juros variam de 6% a 10,75% fixos ao ano, conforme o porte do
produtor.
O risco das operações diferencia-se entre o agente financeiro da Região Centro-Oeste e das
duas outras regiões. Na primeira, cujo agente é o Banco do Brasil, o risco é assumido integralmente
por esse banco. No caso dos Fundos Constitucionais do Norte e do Nordeste, o risco é assumido em
50% pelos próprios Fundos, sendo os restantes 50% de risco assumidos pelos respectivos bancos
regionais.
A tabela 23 apresenta as taxas de juros aplicadas nos financiamentos dos Fundos, conforme o
porte do tomador. Os critérios de tamanho de micro, pequena e média empresas são diferenciados
entre as regiões Centro-Oeste e as duas outras regiões, refletindo realidades econômicas distintas,
em que os estabelecimentos empresariais da primeira região apresentam maior solidez e maior
porte, mas indicando, ao mesmo tempo, benefícios para maior número de empresas que se
classificam como de micro e pequeno portes no Centro-Oeste.
Os juros efetivos são ainda menores que os mostrados na Quadro pois há previsão de
concessão de “bônus de adimplência” (descontos de 15% nas taxas acima, sendo de 25% para os
empréstimos na região do Semi-árido Nordestino) para os mutuários que pagarem a parcela da
dívida até a data do respectivo vencimento. Os bônus decorrem de esforço para tentar diminuir as
altas taxas de inadimplência, especialmente no Norte e Nordeste.

Tabela 23

FUNDOS CONSTITUCIONAIS - TAXAS DE JUROS NOS EMPRÉSTIMOS À INDÚSTRIA,
COMÉRCIO E SERVIÇOS, POR PORTE DA EMPRESA – 2002
(Receita Anual em miles de reales)
Critérios de Porte, por Fundo Constitucional
Porte

Juros ao ano (%)
FNO

147
148
149

FNE

FCO

Programações para 2002 dos Fundos Constitucionais – site do Ministério da Integração Nacional.
Ademais, no plano macroeconômico, ficam a salvo de medidas de restrição monetária conjuntural da Autoridade
Os juros foram reduzidos pela Medida Provisória 1.988-16, de janeiro de 2000 (depois MP 2.035-28, convertida na Lei 10.177, de
12.01.2001). Os juros contratuais serão revistos anualmente sempre que a TJLP apresentar variação igual a 30%, para mais ou para
menos. Os encargos financeiros poderão ser revistos em janeiro de cada ano, limitados à variação percentual da TJLP no período (art.
1º da Lei 10.177). A taxa de remuneração dos bancos da Amazônia e Banco do Nordeste, de 6% do valor dos empréstimos, está
incluída nas taxas fixas.

73

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Micro

Até 244

Até 244

Até 700

8,75

244 a 1 200

244 a 1 200

700 a 6 125

10,00

1 200 a 35 000

1 200 a 6 000

6 125 a 35 000

12,00

Acima de 35 000

Acima de 6 000

Acima de 35 000

14,00

Pequena
Média
Grande

Fonte: Programações dos Fundos Constitucionais, Ministério da Integração Nacional.
Obs. No Nordeste, o critério de 35 milhões de reales como limite para a média empresa somente foi adotado
a partir de 2003.

1.3.1 Participação das PMEs nos Fundos Constitucionais
Os financiamentos dos fundos constitucionais à indústria, comércio e serviços são destinados
primordialmente a investimento fixo e capital de giro associado, dentro do objetivo de expansão da
capacidade de produção, da ampliação da oferta de bens e serviços ou da modernização dos
equipamentos e instalações das empresas das três regiões. Na tabela 24, os saldos das aplicações em
dezembro de 2002 estão discriminados segundo dois setores, indústria e comércio/serviços. O total
dos saldos de financiamentos alcança 4,2 bilhões de reales (para efeito de avaliação da dimensão
desse valor, observa-se que o montante é maior que o valor de todas as aplicações do sistema
bancário no “financiamentos de bens” no crédito livre às pessoas jurídicas, que alcançou saldo de
3,1 bilhões de reales na mesma data).150
Tabela 24

FUNDOS CONSTITUCIONAIS - FINANCIAMENTOS A PEQUENAS,
MÉDIAS E GRANDES EMPRESAS 2002
(Saldos em milhões de reales)
FCO*
Porte

FNO*

Indústria

Comércio/
Serviços

Micro

22,2

Pequena

FNE

Indústria

Comércio/
Serviços

30,1

3,5

82,8

90,2

Média

148,4

Grande
Total

TOTAL

Indústria

Comércio/
Serviços

Indústria

Comércio/
Serviços

1,1

221,9

4,2

247,6

35,4

34,7

9,4

258,9

1,6

376,4

101,2

79,9

132,6

19,2

544,3

5,3

825,3

104,4

351,7

35,3

523,4

1,7

1 553,9

2,2

2 429,0

39,2

605,1

235,5

694,2

31,4

2 579,0

13,3

3 878,30

280,2

Fonte: Ministério da Integração Nacional
*Obs: no FCO-Indústria estão incluídos infra-estrutura e turismo; no FNO, a distribuição dos saldos totais por porte foi
estimada pelo autor, com base na distribuição percentual observada nos fluxos de financiamentos em 2002.

Conforme a tabela 25, as empresas de micro, pequeno e médio portes apresentam
participação de 37,4% nos créditos totais à indústria e 86,0% em comércio/serviços, para o
somatório dos três fundos. Os financiamentos concedidos às PMEs abrangem investimentos em
máquinas, equipamentos, móveis, veículos de transporte de cargas, execução de obras civis e
instalações, desenvolvimento de pesquisas tecnológicas, construção de pequenas geradoras de
energia elétrica, e, na área de turismo, a construção de restaurantes, lanchonetes e hotéis, a compra
de veículos e embarcações, e demais bens em geral necessários ao desenvolvimento da atividade
turística. Os empréstimos priorizam as cadeias produtivas e as associações de produtores,
150

74

Banco Central, Operações de Crédito – Dados Consolidados, Quadro III.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

especialmente no âmbito de arranjos produtivos locais-APLs, as empresas localizadas em
incubadoras de base tecnológica e em parques tecnológicos (localizados em universidades e
institutos de pesquisas).
Tabela 25

FUNDOS CONSTITUCIONAIS – PARTICIPAÇÃO DAS PEQUENAS, MÉDIAS E GRANDES EMPRESAS
NOS FINANCIAMENTOS - 2002
(Porcentagem)
FCO
Porte

FNO

FNE

TOTAL

Indústria

Comércio/
Serviços

Indústria

Comércio/
Serviços

Indústria

Comércio/
Serviços

Indústria

Comércio/
Serviços

3,7

12,8

0,5

3,5

8,6

31,6

6,4

12,6

Pequena

13,7

38,3

5,0

29,9

10,0

12,0

9,7

36,1

Média

24,5

33,9

19,1

61,1

21,1

39,8

21,3

37,3

Grande

58,1

15,0

75,4

5,4

60,3

16,5

62,6

14,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Micro

Total

Fonte: Ministério da Integração Nacional.

Nos três Fundos há disparidade na participação das grandes empresas entre indústria e
comércio/serviços, com o percentual da indústria seguindo um padrão normal de presença de
grandes empresas, e comércio/serviços apresentando percentual acima do esperado. A causa pode
estar na inadequação dos conceitos de PMEs e grande empresa adotados, uma vez que o mesmo
critério de classificação é utilizado para indústria e comércio/serviços. Nesse caso, os dados
estariam superestimando a participação das PMEs nos financiamentos das três regiões, por conta da
adoção de conceito de porte de empresas que não corresponde à realidade daquelas regiões.
A tabela 26 apresenta o valor médio dos financiamentos nas três regiões. Chama a atenção a
grande diferença do valor médio dos financiamentos à grande indústria na Região Centro-Oeste e as
duas outras regiões, indicando que a primeira dispõe de projetos de porte significativamente mais
elevados. Chama ainda a atenção o baixo valor dos financiamentos à indústria e ao comércio/serviços
na região Nordeste, o que é um indicativo do menor potencial produtivo daquela região.

Tabela 26

FUNDOS CONSTITUCIONAIS – VALOR MÉDIO DOS FINANCIAMENTOS – 2002
(R$ mil)
Fundo Centro-Oeste
Porte
Indústria
Micro
Pequeno

Fundo Norte

Comércio/
Serviços

Indústria

Fundo Nordeste

Comércio/
Serviços

Comércio/

Indústria

Serviços

52,7

50,4

33,7

40,5

-

-

114,8

81,5

150,0

123,2

35,7

20,8

75

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Médio
Grande

660,6

244,8

567,2

411,6

194,8

218,7

7 661,0

1 134,8

557,0

1 061,0

1 365,4

1 482,8

Fonte: Ministério da Integração Nacional.

1.4 Programa de Geração de Emprego e Renda (Proger)
O Programa de Geração de Emprego e Renda-Proger consiste em um conjunto de linhas de
crédito direcionadas a pequenos empreendedores e produtores das áreas urbana e rural (Proger
Urbano, Proger Rural e Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar-Pronaf) instituído no
âmbito do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), um fundo de natureza contábil-financeira,
vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego (TEM), voltado a programas de proteção ao
trabalho e à geração de emprego e rendas.151 152
Os financiamentos com fundos do Proger são direcionados a pequenas empresas dos setores
da indústria, comércio e serviços, e outros segmentos com potencial de geração de empregos, e são
aplicados por meio da linha Proger-Urbano, nos bancos federais Caixa Econômica Federal, Banco
do Brasil e Banco do Nordeste, que assumem o risco de crédito dos empréstimos concedidos.
Para atingir os objetivos propostos de manutenção e geração de emprego e renda nas
empresas e atividades beneficiadas, o Proger-Urbano financia segmentos da economia com
dificuldades de acesso ao crédito bancário, associando o crédito à capacitação gerencial do
empresário, assistência técnica à empresa e acompanhamento do empreendimento, por técnico ou
entidade qualificados.153 São financiados, além de microempresas e empresas de pequeno porte, as
cooperativas e associações de produção, profissionais liberais e empreendimentos informais.
O apoio a empreendimentos informais visa incentivar o registro nos órgãos públicos das
unidades que operam à margem da legislação tributária e de direitos trabalhistas, entre outros, como
é o caso dos pequenos proprietários que trabalham em oficinas caseiras na produção de bens, como
produtos alimentícios, vestuário, mobiliário, artesãos em geral e trabalhadores autônomos.154

151

152

153

154

76

O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) é gerido pelo Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (CODEFAT),
um órgão composto por representantes dos trabalhadores, dos empregadores e do governo, que estabelece diretrizes para a alocação
de recursos do FAT e administra o custeio do Programa do Seguro-Desemprego, o pagamento de Abono Salarial aos trabalhadores e
programas de desenvolvimento econômico, a cargo do BNDES, e de geração de emprego e renda. As principais ações de emprego
financiadas com recursos do FAT estão estruturadas em torno de dois programas: o Programa do Seguro-Desemprego (com as ações
de pagamento do benefício do seguro-desemprego, de qualificação e requalificação profissional e de orientação e intermediação do
emprego) e os Programas de Geração de Emprego e Renda, cujos recursos são alocados por meio dos depósitos especiais criados pela
Lei nº 8.352, de 28 de dezembro de 1991 (envolvendo, entre outros, o Programa de Geração de Emprego e Renda - PROGER, nas
modalidades Urbano e Rural e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF). Os Programas de
Geração de Emprego e Renda - voltados em sua maioria para micro e pequenos empresários, cooperativas e para o setor informal da
economia - associam crédito e capacitação para geração de emprego e renda. Os recursos extra-orçamentários do FAT são
depositados junto às instituições oficiais federais que funcionam como agentes financeiros dos programas (Banco do Brasil S/A,
Banco do Nordeste S/A, Caixa Econômica Federal e BNDES). Pelo menos 40% dos recursos arrecadados são aplicados pelo BNDES
em programas de desenvolvimento econômico.
Os recursos do FAT provêm, primariamente, de contribuições sociais dos empregadores privados e públicos, respectivamente, sobre
a folha de salários, a saber: Programa de Integração Social (PIS), criado por meio da Lei Complementar n° 07, de 07 de setembro de
1970, Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP), instituído pela Lei Complementar nº 08, de 03 de
dezembro de 1970, além dos rendimentos das aplicações dos programas de crédito do FAT nos bancos federais. Em nove anos de
operação, de 1995 a 2002, os programas de fomento ao emprego e renda do FAT, a saber, Proger Urbano, Proger Rural, Programa de
Agricultura Familiar-Pronaf, Proemprego, Protrabalho, Programa de Crédito Produtivo Popular, FAT-Habitação, FAT-Exportação e
Programa da Financiadora de Estudos e Projetos, realizaram 4,9 milhões de operações de empréstimos, no valor total de 34,3 bilhões
de reales (nominais). Em 2002 foram realizados 896,5 mil empréstimos nos nove programas de crédito do FAT, no valor total de 6,9
bilhões de reales (Fonte: relatórios do Proger-Ministério do Trabalho e Emprego).
Passos, A. Ferreira, e Costanzi, R. N., Evolução e Perspectivas dos Programas de Geração de Emprego e Renda, Nota Técnica,
Ministério do Trabalho, 19/11/2002.
Nos financiamentos do Proger Urbano do Banco do Nordeste em 2002, 18,1% dos empreendimentos eram formais, sendo 81,9%
informais (Banco do Nordeste, Relatório de Gestão 2002, pg. 15).

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Os créditos da linha Proger Urbano são direcionados a investimentos fixos e capital de giro
associado ao projeto, incluindo máquinas e equipamentos, obras de construção civil, instalações
elétricas e hidráulicas, móveis e utensílios de escritório, instalações comerciais e veículos
automotores utilizados no negócio, entre outros. As instruções sobre os critério de concessão de
créditos prevêem a aplicação inclusive para empresas em processo de implantação. No caso de
profissional liberal, o crédito visa a promover a sua fixação no local de origem, pela aquisição de
equipamentos de trabalho necessários ao desempenho da atividade profissional.
No Banco do Brasil, os empréstimos do Proger-Urbano são aplicados nas linhas Proger
Urbano Empresarial e Proger Turismo, para MPEs com receita de até 5 milhões de reales/ano. Os
empréstimos são de valor até 400 mil reales, com prazos de até 60 meses e até 120 meses,
respectivamente. O custo dos juros ao ano é representado pela TJLP mais 5,33%. As linhas de
crédito contam com dois fundos de aval para a complementação das garantias oferecidas pelos
mutuários, quando essas não forem suficientes (constituídas pela alienação fiduciária dos bens
financiados e aval dos sócios): fundo de aval FAMPE, do SEBRAE, com cobertura de até 50% do
valor do empréstimo, e Funproger, em até 80% do valor financiado.
Na CEF, as pré condições para a análise de solicitação de crédito nas linhas do Proger são: o
empreendimento deve estar em operação há no mínimo doze meses, a receita bruta anual deve ser
de até 5 milhões de reales, ter o cadastro aprovado e apresentar o plano de negócios de investimento
ou proposta para empréstimo de capital de giro. Os empréstimos para investimentos e giro
associado alcançam o valor de 400 mil reales, com prazo de 48 meses para pagamento. No caso de
empréstimo para capital de giro isolado, o valor máximo financiado é de 70 mil reales. Para
microemprendedores formais e informais o valor do crédito varia de 5 mil a 10 mil reales.
A tabela 27 apresenta a evolução dos empréstimos do Proger-Urbano, em 1998 e 2002. Sendo
uma das fontes de recursos do Programa “Brasil Empreendedor” (1999-2002), uma ação do governo
que procurou ampliar o acesso ao crédito das MPEs, o Proger incrementou a disponibilidade real de
recursos para crédito em 114,9% no período, e as contratações de operações em 119,6%.
Tabela 27

PROGER URBANO – EVOLUÇÃO REAL DOS EMPRÉSTIMOS
A PEQUENAS EMPRESAS 1998-2002
(Valores em milhões de reales de dez.2002)
Itens
Valor Total dos Empréstimos

1998

2002

Variação%
2002/1998

487,9

1 048,90

114,9

Contratações de empréstimos (nº)

41 751

91 692

119,6

Valor Médio

11 686

11 439

- 2,1

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego.

O Proger apresenta características especiais em relação aos demais programas de crédito,
permitindo que empresas com pouco tempo de funcionamento tenham acesso ao crédito, sob taxas de
juros relativamente baixas em relação ao mercado de crédito livre. Ao financiar diversos itens de
investimentos e capital de giro, acompanhado de assistência técnica gerencial, o programa tem
contribuído para a geração de emprego e para a formalização de pequenos empreendimentos que atuam
sem registro formal. A distribuição dos valores emprestados entre setores indica maior participação de
serviços, com 67% dos empréstimos, seguida do comércio, com 23%, e indústria, com 10%.

1.5 Fundos de aval para apoio ao crédito a PMES
Existem quatro fundos de aval de âmbito nacional para complementar as garantias exigidas às
MPMEs nos financiamentos: i) o Fundo de Garantia para a Promoção da Competitividade (FGPC),
77

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

nos financiamentos do BNDES e agentes financeiros; ii) o Fundo de Aval para a Geração de
Emprego e Renda - Funproger, instituído pelo Programa Brasil Empreendedor (1999-2002),
utilizado nas linhas de crédito que utilizam recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), no
Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal; iii) o FAMPE-Fundo de Aval às
Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, do SEBRAE; iv) o fundo de aval da Caixa
Econômica Federal. Nesta seção serão analisados os três primeiros fundos, para os quais foram
obtidas informações sobre as operações de crédito avalisadas.
1.5.1 Fundo de Garantia para a Promoção da Competitividade (FGPC)
O FGPC assegura parte do risco de crédito em financiamentos do BNDES a microempresas e
empresas de pequeno porte e a médias empresas exportadoras.155 O Fundo concede garantia a
empréstimos para investimentos e capital de giro destinados à implantação, expansão, modernização
e relocalização de empresas e à produção para a exportação, com cobertura de risco equivalente a
70% a 80% do valor financiado. O risco máximo admitido é o de nível C, conforme as normas de
classificação de risco do Banco Central (ver seção 6.2.2). O spread do agente financeiro é permitido
até no máximo 4% ao ano. Conforme as normas, nas operações para micro e pequenas empresas
cuja cobertura é superior a 500 mil reales, são exigidas garantias reais de valor equivalente ao valor
do financiamento. Nos empréstimos até 500 mil reales, as garantias reais podem ser dispensadas.
Ocorrendo a falta de pagamento pelo mutuário, o FGPC transfere ao BNDES ou ao agente
financeiro os valores correspondentes às prestações atrasadas acumuladas em doze meses, os juros
da operação e ainda o montante do saldo devedor. Ocorrendo acordo posterior para pagamento dos
atrasados pelo credor, o BNDES repassará ao FGPC os valores pagos.
O FGPC apresenta os seguintes resultados em número de contratações e valor dos
financiamentos que receberam garantia:
Tabela 28

FGPC - QUANTIDADE E VALOR DOS FINANCIAMENTOS GARANTIDOS
(em milhões de reales correntes)
Ano

Número de Contratações

Valor dos Financiamentos
Cobertos com o FGPC

1999

1 095

172

2000

3 407

563

2001

4 445

780

2002

4 302

949

2003 – até agosto

2 403

552
Fonte: BNDES.

Tendo sido contratadas o total de 23.143 operações de financiamento de micro e pequenas
empresas no ano de 2002 pelo BNDES (seção 1.1.2 deste anexo) o fundo de aval permitiu a
cobertura dos riscos de 19% do número de contratos. Há perspectiva de aumento do acesso das
pequenas empresas ao Fundo de Aval, tendo em vista que o BNDES expediu novas instruções
(2003) aos agentes financeiros, no sentido de que sejam selecionadas e beneficiadas as empresas
mais carentes de garantias reais, o que tende a beneficiar as empresas de menor porte.
1.5.2 Fundo de Aval para a Geração de Emprego e Renda (FUNPROGER)
O Fundo de Aval para a Geração de Emprego e Renda (FUNPROGER) foi instituído pelo
Programa Brasil Empreendedor, que vigorou de 1999 a 2002, para cobertura dos riscos dos
financiamentos concedidos pelo Banco do Brasil. Após o término daquele programa, o Fundo
continua em operação, administrado pelo Banco do Brasil, suprindo parcela das garantias exigidas
nas linhas de crédito com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador-FAT, aplicadas pelo Banco
155

78

Instituído pela Lei nº 9.531, em dezembro de 1997, somente viria a operar com a regulamentação aprovada em 1999, pelo Decreto
presidencial nº 3.113. Regulamentação em vigor: Circular 180/03.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

do Brasil, CEF e Banco do Nordeste.156 O nível máximo de risco do Fundo foi estabelecido em 80%
do valor a ser financiado, ficando os restantes 20% por conta do mutuário.157
Tabela 29

FUNPROGER – QUANTIDADE E VALOR DOS FINANCIAMENTOS GARANTIDOS
(em milhões de reales correntes)
Ano

Qtde. Operações
(em unidades)

Valor Financiado

Valor Garantido

Valor Médio
(em miles)

Percentual
Garantido

2000

41 571

178,8

137,6

8,6

76,9%

2001

48 661

357,0

267,8

13,5

75,0%

2002

80 224

581,6

445,1

57,2

76,5%

2003

78 838

814,6

647,2

254,8

79,4%

249 294

1 932,0

1 497,6

334,0

77,5%

TOTAL

Fonte: Banco do Brasil.

1.5.3 Fundo de Aval às Microempresas (FAMPE ) e Empresas de Pequeno
Porte (SEBRAE)
Os recursos do FAMPE destinam-se à cobertura de garantias complementares necessárias à
contratação de financiamentos pela MPEs, enquadradas nos conceitos de tamanho definidos pelo
Estatuto da Micro e Pequena Empresa. São cobertos os financiamentos destinados a investimentos
fixos e mistos, aquisição de tecnologia, desenvolvimento de produtos e processos e diversos outros
itens previstos na legislação do fundo.158 O limite de garantia é de 72 mil reales; nas operações de
financiamento à exportação a garantia alcança empréstimos de até 300 mil reales. O prazo de
garantia é de até 96 meses. Uma taxa de 2% a 6%, variável de acordo com o prazo da garantia, é
cobrada do mutuário pelo agente financeiro e repassada ao fundo. Desde sua criação até julho de
2003 o FAMPE concedeu aval a financiamentos a 18 mil empresas, em bancos públicos e privados,
representando média de 2,2 mil empresas atendidas por ano. Foram pagos avais correspondentes a
2.074 operações de empréstimos, equivalente a 11,5% do total. O FAMPE representa uma iniciativa
que se destaca pelo pioneirismo da medida, incentivando o surgimento de outros fundos com o
mesmo propósito.

2.

Apoio a PMEs sob a Forma de Capital de Risco
2.1 Instrumentos de Apoio a PMEs com Capital de Risco

São recentes as iniciativas no Brasil para a mobilização de recursos às PMEs por meio de
investimentos de risco. A primeira medida foi implementada pelo BNDES, em 1991, com a
subsidiária BNDESPAR, que iniciou o aporte de recursos com participação minoritária no capital
das empresas, sem a exigência de garantias reais.
A adoção de uma legislação geral, regulando os investimentos de risco em pequenas e médias
empresas emergentes, iniciou-se com a Instrução nº 209, de 25.03.94 da Comissão de Valores
Mobiliários, desenvolvida por esse órgão colegiado em colaboração com o BNDES. A Instrução
permite a instituição de Fundo Mútuo de Investimento em Empresas Emergentes (FMIEE), sob a
156

157
158

O Funproger foi instituído pela Lei 9.872, de 23.11.1999. O funding principal provém da diferença entre a taxa básica Selic e a TJLP
- que remunera os recursos do FAT - relativos aos recursos destinados a financiamentos do Proger, e ainda não liberados pelos
bancos. A diferença é paga pelos bancos agentes dos recursos do Proger/FAT.
Lei nº 10.360, de 27.12.2001, que alterou a Lei 9.872/99.
Regulamento de Operações do FAMPE, Sebrae.

79

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

forma de condomínio fechado, destinado a receber recursos de investidores para a aplicação em
carteiras de valores mobiliários de emissão de empresas emergentes, como ações, debêntures e
outros ativos. É destinado a investimentos em companhias fechadas, com limite de faturamento de
100 milhões de reales.159
Duas iniciativas para o fomento de inversões em capital de risco em PMEs encontram-se na
FINEP-Financiadora de Estudos e Projetos160 e no SEBRAE, procurando criar condições para a
atração de investidores institucionais, como os fundos de pensão de entidades estatais e investidores
privados, para aplicações em empresas de pequeno e médio portes emergentes.

2.2 Iniciativas da FINEP no Desenvolvimento do Capital de Risco
para PMES
Conforme define a FINEP no portal Capital de Risco Brasil, “o capital de risco ou venture
capital é um tipo de investimento privado, que compra participação societária em empresas que
apresentem possibilidades de crescimento exponencial. Os investidores participam diretamente dos
riscos e da alavancagem do negócio, agregando valor ainda através de orientação administrativa e
comercial. Após o ciclo de expansão da empresa, o investidor se desfaz de sua participação no
negócio, vendendo-a a outros investidores ou empresas. Com o capital de risco, há uma entrada de
recursos como contrapartida da tomada de posição no capital da empresa, e a rentabilidade dos
investidores depende do sucesso do negócio” 161
A FINEP desenvolveu projeto integrado para estimular o desenvolvimento da cultura de
investimentos em capital de risco dirigida às PMEs, denominado Projeto Inovar, composto de cinco
ações: Incubadora de Fundos Inovar, Fórum Brasil de Inovação, Portal Capital de Risco Brasil,
Rede Inovar de Prospecção e Desenvolvimento de Negócios, e Desenvolvimento de programas de
capacitação e treinamento de agentes de capital de risco.
A ação surgiu da percepção de que o sistema tradicional de empréstimos dos bancos não
constitui alternativa adequada para o desenvolvimento das PMEs de base tecnológica, sendo o
mercado de capitais, e especificamente o capital de risco (venture capital), o meio mais apropriado
para a canalização de recursos para as empresas com planos de inovação em novos produtos e
processo.
O Projeto, iniciado em outubro de 2000, promove a articulação de parcerias para a
arregimentação de capital de risco, por meio de uma rede formada por instituições públicas e
privadas,162 com o objetivo de investir em empresas nascentes e emergentes de base tecnológica,
criando condições para sucesso de empreendimentos que possam desenvolver os resultados
decorrentes de pesquisas, em toda a cadeia do processo de inovação.
Uma das ações do projeto, a Incubadora de Fundos, é voltada à atração de investidores
institucionais, como os fundos de pensão, para a atividade de capital de risco, estimulando o
surgimento de novos fundos voltados para empresas emergentes de base tecnológica. Foi formada
por meio de um consórcio entre FINEP, BID/Fumim, SEBRAE e Petros (o fundo de pensão da
Petrobrás), que investem nos fundos selecionados, que por sua vez investem em empresas nascentes
159

160

161
162

Para empresas de capital aberto a legislação prevê os Fundos de Investimento em Valores Mobiliários. Recentemente, a Instrução
Normativa nº 391, da CVM, de 16.07.2003, introduziu os Fundos de Investimentos em Participação, que permite investimentos dos
fundos tanto em companhias fechadas como abertas, cf Rodolfo de Lara Campos, Private Equity no Brasil: o Fundo de Investimento
em Participação, Pinheiro Neto Advogados, 25.07.2003.
A FINEP é uma empresa pública do Ministério da Ciência e Tecnologia voltada à promoção do desenvolvimento tecnológico de
empresas e instituições de pesquisa em geral (www.capitalderisco.gov.br).
(www.capitalderisco.gov.br).
Entre as principais instituições encontram-se: Fundo Multilateral de Investimento-FUMIN-BID, SEBRAE, Associação Nacional de
Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas (ANPROTEC), Fundo de Pensão da Petrobrás (PETROS),
Sociedade para Promoção da excelência do Software Brasileiro (SOFTEX), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPQ), Instituto Euvaldo Lodi, da Confederação Nacional da Indústria, entre outros.

80

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

e emergentes. A ação é catalizadora, buscando familiarizar os investidores institucionais com a
atividade de capital de risco, para inversões em fundos de risco. Os investidores acima tem como
meta investir, via fundos, 400 milhões de reales em 80 empresas de tecnologia até o final de 2006.
Entre os fundos a serem criados encontram-se os chamados Fundos de Seed Money, voltados ao
apoio a empresas em fase inicial, onde se espera investir em cinco fundos, cada um com
disponibilidades de milhões de reales para aplicar. Para atingir os resultados esperados, a
Incubadora desenvolve atividades de avaliação e auditoria de fundos (due diligence), implementa
um sistema de avaliação para facilitar a decisão de instituições e investidores privados a investirem
em fundos de empresas emergentes e desenvolve metodologia de análise de projetos, entre outras
ações.163 O resultado até agora são investimentos da FINEP no valor de 14,6 milhões de reales em
três fundos de empresas emergentes, e mais um em processo de receber autorização da CVM.
Outro instrumento do Programa Inovar consiste nos Venture Fóruns, rodas de negócios que
promovem encontros entre empresários que demandam capital e os investidores que procuram
oportunidades de negócios para investir, entre os quais os gestores de fundos de capital de risco e de
fundos de pensão, bancos de investimento e investidores corporativos. As empresas são préselecionadas com base nas informações que enviam para o portal Capital de Risco Brasil
(anteriormente, Venture Capital Brasl). Após processo de seleção, as empresas escolhidas recebem
assessoria intensiva por dois meses da FINEP, com informações sobre características do mercado,
estratégias de crescimento, elaboração do plano de negócios e treinamento para a negociação com
investidores. A apresentação dos projetos para os investidores é realizada ao vivo nos Venture
Forum, para uma banca mista, composta por profissionais do mercado e especialistas da FINEP. Em
complementação, a FINEP oferece às PMEs linha de crédito para financiar a abertura do capital.
Os ramos de atividade prioritários para o projeto Inovar são tecnologia de informação,
biotecnologia, saúde, química, energia, meio-ambiente, máquinas e equipamentos e automação. As
empresas devem apresentar elementos inovadores e de diferenciação do produto, do serviço ou da
estratégia de comercialização, que podem ser representados por custo mais baixo de produção e
melhor qualidade, permitindo vantagens explícitas na competição. A perspectiva de alto retorno
financeiro do projeto constitui elemento determinante para a avaliação pelos investidores das
oportunidades futuras de venda da participação com lucratividade.164
O balanço geral das realizações do Projeto Inovar em dois anos e meio de atividades, em oito
rodas de negócios dos Venture Fórum, de outubro de 2000 a maio de 2003, encontra-se resumido na
tabela 30. Os resultados indicam forte interesse despertado em todos os encontros realizados, tanto
por parte das empresas candidatas, que alcançaram o número de 1.563, quanto em relação ao
número de investidores interessados, em média 42 nos oito Fóruns. Do total de 1.563 empresas,
foram selecionadas 85 para apresentação de seus projetos aos investidores. Desse bloco, 13 projetos
concluíram negociações com os investidores, recebendo recursos no valor de 56,1 milhões de reales
(dez/2003), envolvendo empresas nas fases I, venture capital e II, private equity. Continuam em
negociação 34 projetos. Observa-se que a demanda total de recursos das 85 empresas alcançou 654
milhões de reales.
Tabela 30
163

164

Conforme definido no site (www.capitalderisco.gov.br). “o processo de seleção de fundos começa com uma chamada pública,
convidando os fundos de capital de risco voltados para empresas de base tecnológica a apresentarem suas propostas de capitalização
à Incubadora de Fundos Inovar. Após uma pré-seleção das propostas, sob a organização da FINEP, os fundos pré-selecionados são
convocados para realizarem uma apresentação à Banca de Avaliação da Incubadora de Fundos - formada por representantes de cada
um dos parceiros. A seguir, a Banca de Avaliação define o cronograma de análise dos fundos (due diligence), que embasa o processo
de análise coordenada dos fundos, em processo organizado pela unidade gestora. A partir da definição dos fundos priorizados, é dado
início ao processo de due diligence compartilhada, ao final do qual cada parceiro avaliará sua decisão de investimento em cada
fundo”.
O maior risco reside em investimentos em empresas em estágio pré-operacional, via Fundos de Seed Money, mas devido ao potencial
de crescimento os lucros esperados são maiores, cf. textos Incubadoras de Fundos Inovar e Cadastro de Empreendedores, no portal
Capital de Risco Brasil (anteriormente Venture Capital Brasil, site: (www.capitalderisco.gov.br)., da FINEP.

81

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

VENTURE FORUM – RESULTADOS DAS RODADAS DE NEGÓCIOS DE CAPITAL DE RISCO 2000-2003
Rodadas de Negócios dos Venture Forum
1º

2º

3º

4º

5º

6º

7º

8º

Total em

10/2000

12/2000

04/2001

08/2001

10/2001

04/2002

11/2002

05/2003

8 Fóruns

Empresas
Candidatas

69

135

377

116

113

279

292

182

1 563

Empresas
Participantes

14

12

16

8

8

11

6

10

85

Investidores

49

25

69

33

45

25

52

39

Média: 42

Empresas
Investidas

3

3

2

2

1

1

1

0

13

Negociações em
andamento

5

4

6

5

3

6

5

0

34

46,0

3,2

1,5

1,6

0,8

1,5

1,5

0

56,1

Investimentos
Efetivados
(R$ milhões)

Fonte: Finep.

A avaliação dos resultados indica forte queda nos investimentos, a partir do 2º Fórum.
Conforme interpretação que pode ser dada, o resultado inicial favorável no 1º Fórum pode estar
associado à expansão dos investimentos nas empresas de software e de tecnologia da informação,
que ocorreu na segunda metade da década passada e que apresentou fortes tendências de baixa a
partir de 2001, ano a partir do qual os investidores passaram a se comportar com extrema cautela
nas decisões sobre inversões de capital em empresas emergentes.
A FINEP considera que os resultados da iniciativa são expressivos, considerando-se que o
ciclo de decisão de investimento em capital de risco é longo, especialmente no Brasil, onde essa
atividade é ainda recente, com o mercado ainda em processo de conhecimento do mecanismo, e
ainda tendo presentes as turbulências econômicas dos últimos anos. O processo de decisão dos
investidores é intrinsicamente demorado, dado o alto risco das atividades em que novos produtos ou
processos são desenvolvidos. Por esse motivo, é comum a exigência do investidor de participação
na diretoria com um diretor financeiro, para acompanhar parte da gestão dos negócios das empresas
investidas.165 Para o maior apoio ao surgimento de novas empresas, a FINEP desenvolve ações para
a formação de fundos de capital de risco que invistam no segmento de seed-capital, considerado o
de maior risco para investidores.
A FINEP destaca que outro benefício decorrente dos Fóruns, mesmo no caso de não obtenção
de capital, decorre do impacto gerado pelo treinamento para a participação nas rodadas de negócios,
com as empresas passando a ter um melhor entendimento de seus planos de negócios e, em alguns
casos, capacitando-se a reformular suas estratégias. Além disso, “por participarem do Venture
Forum, as empresas são expostas na mídia e estabelecem inúmeros contatos, gerando benefícios
imediatos, tanto em termos de imagem quanto na possibilidade de concretização de novos
negócios”.166

2.3 Participação do SEBRAE em Fundos de Capital de Risco
O SEBRAE iniciou atividades de fomento aos fundos mútuos de investimento em empresas
emergentes (FMIEE) em 1999, quando recebeu autorização legal para a aplicação de recursos
165

166

82

Segundo a experiência nos Estados Unidos, de 10 empresas que recebem aporte de capital, 2 vão em algum momento fechar as
portas, 4 vão crescer às mesmas taxas do mercado, em média, e duas vão deslanchar, a taxas superiores ao do crescimento
econômico, proporcionando retornos mais que proporcionais; conforme informações de Margaret Müller, FINEP, Área de
Investimento em Inovação e Incubadora de Fundos INOVAR.
(www.capitalderisco.gov.br).

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

próprios em fundos em que os demais investidores destinem pelo menos a parcela aplicada pelo
SEBRAE.167
O programa de capital de risco do SEBRAE é direcionado a empreendimentos com grande
potencial de crescimento, especialmente empresas de base tecnológica e exportadoras, em
participação com investidores nacionais e internacionais, entre os quais o BNDESPAR, FINEP,
Fundos de Pensão, BID/Fumin e BIRD/IFC. Os SEBRAE estaduais também participam como
quotistas de Fundos FMIEE. Além de fornecer capital, que deve ser totalmente aplicado em MPEs,
o Programa visa a induzir a melhoria de gestão das empresas.
A participação na gestão dos Fundos se efetiva pela inclusão do SEBRAE em Assembléias de
Quotistas dos fundos ou EM Conselhos de Administração dos FMIEE e na indicação de membros
para os Comitês de Investimentos, participando das decisões de investimento e desinvestimento
propostas pelos gestores dos Fundos.
Os fundos de investimento formados com a entrada do SEBRAE são em número de oito, com
recursos alocados (subscrição) no valor de 147,3 milhões de reales, dos quais 39 milhões de reales
forma aportados pelo SEBRAE. Foram selecionadas até o momento 47 empresas para receberem
aportes de capital, no valor médio de 3,1 milhões de reales. A maioria dos fundos destina os
recursos para Estados específicos, como são os casos de seis dos fundos que aplicam em empresas
localizadas nos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais,
Rio de Janeiro e Região Nordeste. O critério de tamanho de empresas para enquadramento varia de
9 milhões a 20 milhões de reales de receita líquida anual.
A análise do perfil das empresas indica a predominância de empresas fornecedoras de
soluções tecnológicas diversas e softwares, em áreas como gestão empresarial e financeira,
tecnologia da informação, automação financeira e industrial, médico-hospitalar e comércio
eletrônico. As empresas escolhidas para receber os investimentos apresentam perfis que as
qualificaram para receber os aportes de capital de risco, oferecendo produtos diferenciados, com
soluções tecnológicas novas, ou destinados a atender a determinados nichos de mercado.
Apresentam, por esses motivos, potencial inovador e condições de crescimento rápido.

167

Medida Provisória nº 1958-38.

83

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

III. Estudos de casos de crédito
orientado

1.

Programa de crédito “Brasil
Empreendedor” 1999-2002
1.1 Objetivos do programa

O programa Brasil Empreendedor constituiu-se numa ampla
ação de crédito dirigido às micro, pequenas e médias empresas,
lançado pelo governo federal no dia 05 de outubro de 1999, no mesmo
dia em que foi sancionado pelo Presidente da República o Estatuto da
Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.
O objetivo inicial do programa era fornecer recursos de crédito,
no valor total de oito bilhões de reais, acompanhado de treinamento
gerencial e capacitação técnica, a 1,15 milhões de empreendedores, no
período de doze meses, entre outubro/99 a setembro/2000, com vistas à
criação ou manutenção de três milhões de postos de trabalho.168
Terminado o primeiro ano, foi decidida a prorrogação do programa,
que foi estendido por mais dois períodos, de outubro/2000 a
setembro/2001 e de outubro 2001 a dezembro 2002, cada um
correspondendo a relançamentos das metas e agregação de novas ações
e instrumentos de apoio às MPMEs.
Além de crédito orientado, outras ações de apoio às MPMEs
foram adotadas, entre as quais: a instituição de um programa de
168

Cf. folheto “Programa Brasil Empreendedor”, publicado pelo Governo Federal, sem data.

85

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

regularização e alongamento de dívidas fiscais e previdenciárias das empresas em geral com a
União, o Programa de Recuperação Fiscal-REFIS, a criação de um fundo de aval, denominado
Funproger, para a cobertura de risco dos empréstimos do Banco do Brasil, a instalação do Fórum
Permanente das Micro e Pequenas Empresas, o lançamento, pela empresa Correios, do Programa
Exporta Fácil, simplificando os procedimentos de exportações de pequeno valor, entre outras
medidas para o fortalecimento e melhoria do ambiente legal e econômico para as MPMEs.
A lógica econômica subjacente ao lançamento do programa foi a de colocar sob uma mesma
ação (Programa Brasil Empreendedor) diversas linhas de crédito já em operação nos bancos federais
(BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia),
aumentando as dotações das linhas.169 Foi dada orientação geral na condução do Programa, por um
Grupo de Gerenciamento na Presidência da República, proporcionando unicidade à ação federal na
área do apoio creditício à pequena empresa,170 e proporcionando maior visibilidade ao esforço de
alocação de créditos do governo nos bancos estatais federais. Não obstante reunidos sob uma única
ação, os agentes financeiros mantiveram a independência em sua forma de operar o crédito. As
ações eram articuladas para se atingir os objetivos de ampliação do acesso ao crédito procurado pelo
governo. Para dar celeridade e efetividade ao programa, a coordenação estabeleceu que os
empréstimos deveriam ser aprovados no prazo máximo de 21 dias, a contar do recebimento do
Plano de Negócios das empresas.
A concessão de crédito foi conjugada à capacitação gerencial, face à baixa capacidade de
gestão característica da maioria das pequenas empresas, acompanhada de esforço para a maior
especialização em crédito às pequenas e médias empresas dos agentes financeiros envolvidos, além
de metas para a ampliação do microcrédito, como meio para o incentivo à formalização de pequenos
empreendedores. As operações envolvendo créditos de investimento deveriam receber
acompanhamento mais estrito,171 para propiciar efetividade ao potencial do crédito como gerador de
emprego, garantindo que os recursos fossem aplicados efetivamente no aumento da capacidade
produtiva, o principal objetivo do programa.172
Outro importante objetivo foi incentivar o surgimento de novas pequenas empresas, que se
pretendia conseguir via concessão de crédito e por um extensa ação de oferta de cursos de
empreendedorismo em todo o território nacional, por parte do SEBRAE e Ministério do Trabalho,
iniciando os interessados com informações e capacitação mínima necessárias à abertura de um novo
negócio. Outros objetivos consistiram no apoio às exportações,173 aquisição de computadores pelas
empresas e o desenvolvimento de pólos de produção locais, caracterizados por cadeias produtivas
formadas principalmente por pequenas empresas.174
As fontes de recursos do Programa consistiram nas linhas de crédito do Proger/FAT, dos
Fundos Constitucionais das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, do BNDES e recursos
169

170

171
172

173

174

86

Discurso do Presidente da República, Fernando H. Cardoso, em 23/07/2002, no anúncio do aumento dos recursos do Proger e outros
programas do FAT.
Exemplificando, o Banco do Brasil colocou sob o Programa as seguintes linhas de crédito: capital de giro: BB Giro Rápido, para
empresas com receita bruta anual de até 3 milhões de reales, e linha para o financiamento do 13% salário; investimentos: Programa
Proger Urbano Empresarial, com empréstimos até 100 mil reales, com encargos de TJLP e mais 5,33% de juros ao ano; FCO
Empresarial, com recursos e condições de empréstimos do Fundo Constitucional do Nordeste - FNE; linhas de crédito do BNDES,
como o FINAME e BNDES Automático, e linha de arrendamento mercantil; pessoas físicas/profissionais liberais: linha ProgerSetor Informal (para montagem de pequenos negócios, com garantia do fundo de aval Funproger), Proger- Profissional Liberal; e
linha para compra de computadores e outros bens para professores (cf. site do Banco do Brasil, em fevereiro de 2003).
Cf. o relatório “Programa Brasil Empreendedor”, do Grupo de Gerenciamento do Programa, 20.12.2002.
Em face dos altos índices de desemprego e baixo crescimento econômico (o PIB apresentou variação próximo de zero em 1998 e de
0,8% em 1999), o governo instituiu o programa Brasil Empreendedor, para a dinamização da oferta de trabalho no segmento de
PMEs, e dessa forma incrementar a taxa de ocupação na economia.
Num dos programas, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos instituiu o Programa Exporta Fácil, que consiste na simplificação
do processo de exportação, com a utilização de um único documento e acompanhamento até a entrega da mercadoria ao importador,
para bens de valor até US$ 10 mil.
O Programa registra o apoio a 15 pólos produtivos e o atendimento com crédito a 1.441 empresas, com financiamento médio de 17,3
mil reales.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

captados pelos bancos. Nas linhas com recursos próprios dos bancos, as taxas de juros seguiam os
critérios próprios já aplicados pelas instituições, e nas com recursos de fundos e programas seguiam
os níveis determinados para cada linha, cujas taxas são consideradas baixas para os padrões que
vigoram no Brasil no crédito convencional no mercado livre.175
Tendo em conta que um dos principais problemas de acesso ao crédito reside na dificuldade
na apresentação de garantias aos bancos, o programa acionou diversos fundos de aval para a
complementação das garantias, como o FGPC (BNDES), Seguro de Crédito da CEF,
FAMPE/Sebrae, e a criação de um fundo de aval específico para as operações do Banco do Brasil, o
Fundo de Aval para a Geração de Emprego e Renda-FUPROGER, depois estendido a outros bancos
federais. Os quatro fundos concederam garantia a 1,15 milhões de operações de crédito (22% do
total de empréstimos), proporcionando financiamentos totais de 17 bilhões de reales (49% do
total).176
O programa tinha como um dos objetivos facilitar o acesso ao crédito aos empresários não
clientes tradicionais dos bancos, especialmente as empresas com menos de um ano de existência,
por meio de assistência técnica para a definição do Plano de Negócios, que constitui a proposta de
crédito (formulada pelo SEBRAE e outras instituições), e cursos de empreendedorismo aos
pretendentes a iniciar uma atividade empresarial. No entanto, a lógica da segurança bancária nas
análises de risco de crédito foi um fator que dificultou a obtenção de resultados esperados, isto é, o
acesso ampliado a empresas não clientes dos bancos, com as instituições financeiras preferindo
continuar a emprestar aos clientes com os quais já mantinham relações bancárias e conhecimento
sobre a situação da empresa.

1.2 Experiência em crédito direcionado: empréstimos sem risco
para o agente financeiro e orientação gerencial pré e pós
empréstimo
Para tentar corrigir essa dificuldade, diante das reclamações dos empresários de que não
conseguiam acessar as linhas de crédito do Brasil Empreendedor, especialmente aqueles
estabelecidos há menos tempo, a direção do Programa determinou, após o primeiro ano de
atividade, na chamada Etapa II, que se iniciou em outubro/ 2000, duas medidas principais: i) a
ampliação pelos bancos do número de empréstimos contratados com empresas com até 24 meses de
constituição e, ii) adoção de uma nova linha de crédito, denominada Programa de Crédito Orientado
para Novos Empreendedores (Pcone), que visava atender com crédito as empresas recém
constituídas —com até 12 meses de existência— ou novas empresas em processo de abertura.
A nova linha merece uma avaliação mais detida, em razão do ineditismo da medida e das
inovações propostas. Os empresários candidatos ao crédito foram escolhidos por processo seletivo,
que se iniciava com preenchimento de carta consulta para inscrição no Programa no site do
SEBRAE (constituindo-se no primeiro programa de crédito lançado no Brasil com inscrições pela
Internet). Foram realizadas entrevistas com os candidatos para a avaliação da capacidade de
empreender e da consistência do empreendimento. Após a seleção, por meio de entrevista pessoal
pelos SEBRAE Estaduais, ocasião em que se procurava detectar a existência de atributos de
empreendedorismo nos candidatos, os escolhidos passavam por processo de capacitação em curso
de 80 horas, com conteúdo voltado para o desenvolvimento do perfil empreendedor, gestão de
empresas, mercado e finanças.
175

176

Os juros aplicados em algumas linhas foram os seguintes: crédito para giro, no Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal: Taxa
Referencial +10% ao ano, com prazo de 24 meses; crédito para investimentos, a) linha FCO Empresarial: taxas de juros conforme o
tamanho da empresa (microempresa: receita anual até 700 mil reales, taxa fixa de 8,75% ao ano; pequena: receita até 6.125 mil
reales, taxa de 10% aa; média empresa: receita até 35 milhões de reales, taxa de 12% aa; b) Proger Urbano Empresarial: encargos
iguais a Taxa de Juros de Longo Prazo (10% em 2002) mais 5,33% aa.; crédito para investimentos e capital de giro no setor
informal: o Banco do Brasil dispunha da linha Proger-Setor Informal, em que as garantias eram complementadas com o Funproger.
Cf. o relatório nº 15/2002, do Programa Brasil Empreendedor.

87

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Foi estabelecida uma nova linha de crédito (PROGER-Novos Empreendedores), que
apresentava características específicas para empresas recém iniciadas, ou seja, fundada em
avaliações que dessem importância a fatores como potencialidades e idéias inovadoras, “sem
exigência de análises de projetos como as utilizadas normalmente pelos bancos” e direcionada para
empreendedores sem capacidade de oferecer garantias e referências bancárias, conforme relatório
do Programa. A linha de crédito apresentava condições diferenciadas, com seu regulamento
permitindo a cobertura de 100% do risco dos empréstimos, a ser provido pelo Funproger e FAMPE.
Foi fixada a meta de atendimento de 5 mil pequenas empresas (com faturamento anual de até 1,2
milhões de reales) no Banco do Brasil e na CEF, com empréstimo médio de 40 mil reales para
investimento e capital de giro, perfazendo aplicações totais planejadas de 200 milhões de reales na
linha de crédito.
A iniciativa representou uma completa inovação em crédito bancário às PMEs, pois as
instituições financeiras não tinham participação no risco, que seria totalmente coberto pelos fundos
de aval, e complementados pelos bens financiados e o aval ou fiança dos mutuários.177 A linha
financiava até 90% do total necessário no plano de negócios, com limite de 50 mil reales (incluído o
capital de giro), prazo de até 84 meses e carência de até 18 meses.
O apoio de credito vinha precedido, necessariamente, do curso de capacitação de gestão de
empresa citado. Foi instalado um comitê em cada Estado para a aprovação dos planos de negócios,
composto por representante do gestor do Funproger (Banco do Brasil), do SEBRAE e do banco
escolhido para a operação. A nova linha redefinia, portanto, o papel do agente financeiro na
responsabilidade da decisão de crédito, que era compartilhado com o colegiado de crédito. Após a
aprovação do projeto pelo comitê, cabia ao banco a complementação da análise do cadastro de
pretendente ao crédito e os procedimentos para a formalização das garantias e liberação dos
recursos. Foi ainda prevista a assessoria pós crédito por três anos, a ser realizada pelo SEBRAE.
Tendo já sido encerrado o Programa de Crédito Orientado para Novos Empreendedores
(Pcone), seus resultados mostram realização muito aquém do planejado: até dezembro de 2002,
foram selecionados pelo SEBRAE 5.468 empreendedores, tendo sido capacitados 2.931, e
contratados créditos com 861 empresas, que receberam empréstimos totais de 31,2 milhões de
reales, representando 15,5% do total de recursos alocados (R$ 200 milhões). A aplicação de
recursos muito aquém do previsto deveu-se a diversos fatores, entre os quais, atrasos na
implementação do programa nos Estados, decorrentes da falta de trabalho conjunto dos comitês de
crédito, com cada instituição integrante operando de forma individualizada, dificultando as decisões
sobre concessões de crédito. Além disso, no início do programa não foram liberados recursos pelo
Tesouro Nacional, ocasionando situação em que o candidato a empréstimo terminava o curso de
empreendedorismo e não acessava o crédito prometido. Para corrigir esses problemas, foi necessária
a criação, pelo Grupo de Gerenciamento da Presidência da República, de um Comitê Nacional, com
a incumbência de avaliar in loco os problemas em cada Estado e auxiliar os comitês estaduais na
tomada de decisões sobre os pedidos de créditos pendentes. A partir dessa iniciativa as decisões
sobre empréstimos aumentaram, mas não conseguiram imprimir o ritmo necessário à aprovação de
todas as solicitações apresentadas pelos novos empresários (com a mudança de governo, em
01.01.2003, o programa foi paralizado; equipes do nova administração encontram-se preparando o
lançamento de novas versões do programa).

1.3 Resultados do Programa Brasil Empreendedor
O diagnóstico realizado pelo grupo de gerenciamento, antes do lançamento do programa,
detectou dois problemas que dificultam acesso das PMEs ao crédito: deficiências gerenciais e falta
177

88

Medida Provisória nº 07, de 24.10.2001 e Resolução 275, de 21.11.2001, do Condefat.

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

de garantias reais. Dadas essas restrições, o programa não alcançaria os resultados esperados de
expansão dos volumes de crédito e geração de empregos, a menos que fossem previstas medidas
para sua superação logo no início do programa. Para a solução dos problemas de baixa capacidade
de gestão dos empresários adotou-se um maciço programa de capacitação gerencial, que
necessariamente deveria preceder a concessão do crédito. A falta de garantias reais para a cobertura
de risco dos empréstimos seria resolvida pela criação de um fundo de aval específico para o
programa, o Fundo de Aval para a Geração de Emprego e Renda-Funproger, para o aval dos
empréstimos no Banco do Brasil, além de três outros fundos de aval, do BNDES, do SEBRAE e da
Caixa Econômica Federal. A instituição do fundo de aval contornou ainda o problema bancário da
classificação de riscos dos créditos, dado que as empresas de pequeno porte apresentam dificuldade
de obtenção de nível baixo de risco.
Uma das principais características distintivas do Programa, conforme ressaltado pelos bancos
estatais participantes, assenta-se no seu caráter colegiado, reunindo todos os órgãos públicos
envolvidos nas decisões e nos direcionamentos do plano de aplicações de recursos. Dadas as
dimensões das metas, em termos de valor total de crédito e número de empresários a serem
atendidos no primeiro ano de atuação, e depois nos dois anos seguintes em que o programa foi
estendido, a ação coordenada foi essencial para a solução de todos os problemas que surgiram na
implementação das metas de crédito. Os gargalos que se apresentavam podiam ser resolvidos por
ações rápidas do governo, adotando-se medidas legislativas e normativas exigidas, conforme
relataram alguns participantes do programa nos bancos participantes.
O Programa Brasil Empreendedor vigorou de outubro de 1999 a dezembro de 2002, tendo
realizado, somadas as atividades de todos os bancos estatais envolvidos, em três etapas do
Programa, 5,2 milhões de empréstimos, no valor de 34,6 bilhões de reales, em termos nominais, em
três anos e dois meses de vigência. Conforme a tabela 1, foram concedidos créditos nos seguintes
valores totais, conforme as modalidades: capital de giro, 16,6 bilhões de reales; investimentos, 10,9
bilhões de reales; misto, 5,7 bilhões de reales; microcrédito, 1,3 bilhões de reales, esta última por
meio de 1,6 milhões de empréstimos. O prazo médio dos empréstimos foi de dezesseis meses para
giro e de três anos para investimentos de médio prazo.178 O spread bancário, acima do custo de
captação representado pela TJLP, foi de 5,3% ao ano, taxa muito baixa comparada com os spreads
praticados no crédito livre.
Especificamente para novos empresários, assim considerados pelo programa as empresas
abertas nos últimos 24 meses, o programa registra a concessão de 270,3 mil empréstimos, no valor
total de 2,59 bilhões de reales, correspondendo a 7,5% do total.179
Os avais concedidos pelos quatro fundos de aval mobilizados pelo Programa alcançaram 1,15
milhões de operações de crédito (22% do total de empréstimos), proporcionando créditos totais de
17 bilhões de reales (49% do total de créditos).180
Para avaliação das dimensões do programa, a separação dos créditos concedidos por ano
mostra que no último ano do PBE, 2002, foram concedidos empréstimos no valor de 11,67 bilhões
de reales. Cerca de 40% dos empréstimos do PBE foram na modalidade investimentos, com prazos
médios de três a nove anos. Também os empréstimos para capital de giro alcançaram prazos mais
longos que os prevalecentes no mercado livre, ou dezesseis meses.181
Os relatórios do programa indicam que houve superação das metas, tendo sido concedidos
22% a mais de empréstimos que o planejado e 39,8% a mais de crédito, em montantes globais.182
178
179
180
181
182

Cf. o relatório nº 15/2002, do Programa Brasil Empreendedor.
Relatório nº 15/2002.
Relatório do Grupo de Gerenciamento do Programa Brasil Empreendedor, 20.12.2002.
Relatório nº 15/2002.
Brasil Empreendedor, Boletim Mensal de nov. 2002- nº 5 e Relatório do Programa, de dezembro de 2002.

89

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Os cursos de capacitação de candidatos a empréstimos foram coordenados pelo SEBRAE,
Banco do Nordeste e Ministério do Trabalho e Emprego, tendo alcançado 6,07 milhões de pessoas.
Tabela 31

PROGRAMA BRASIL EMPREENDEDOR – EMPRÉSTIMOS TOTAIS, POR BANCO PARTICIPANTE
(milhões de reales correntes)
Investimento

Investimento e Giro

Giro

Microcrédito

Total

Agentes
Valor

%

Valor

%

148,2

1,3

2 133,9

18,6

9 205,4

80,1

-

8 025,6

74,5

2 418,2

22,5

-

-

322,9

CEF

204,1

3,1

929,7

14,1

5 260,3

79,6

BNB

2 577,2

62,9

-

-

791,7

BASA

32,7

1,9

243,2

14,4

Total

10 987,80

31,7

5 725,00

16,5

BB
BNDES

Valor

%

Valor

%

Valor

%

11 487,50

100

3,0

10 766,70

100

212,8

3,2

6 606,90

100

19,3

729,8

17,8

4 098,70

100

1 415,9

83,7

-

--

1 691,80

100

16 673,30

48,1

1 265,5

3,7

34 651,60

100

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

2.

Programa de crédito orientado no setor privado: O programa
de crédito à exportação para PME do Banco Santander
Banespa

Programas de crédito orientado são, normalmente, instituídos por instituições públicas, dadas
as especificidades desse tipo de crédito, caracterizado por definição prévia do público alvo a ser
beneficiado e por objetivos de política a serem obtidos, geralmente relacionados a aumentos da
produção, do emprego, das exportações, entre outros. No crédito orientado, as condições para
empréstimos exigem o acompanhamento ou fiscalização, pelo agente financeiro, da aplicação dos
valores nos objetivos propostos, para garantir que sejam atingidos os propósitos perseguidos e evitar
o desvio do crédito de suas finalidades.
Outra linha de atuação bancária que exige um acompanhamento estrito do emprestador junto
ao financiado encontra-se no microcrédito. O microcrédito envolve a figura do agente de crédito,
encarregado de realizar visitas in loco para a avaliação da viabilidade do empreendimento em seus
vários aspectos. Como as garantias reais são de difícil exigência, pelas próprias características dos
empreendimentos, em grande parte informais, o acompanhamento do agente de crédito contribui
para a diminuição do risco da atividade financiada, junto à adoção de esquemas diferenciados de
garantias, como é o caso do aval solidário de co-tomadores dos empréstimos.
As modalidades de crédito acima foram apresentadas para deixar claras as diferenças entre o
crédito normal e o crédito orientado. Nesse aspecto, um exemplo não usual de crédito orientado,
originado de banco privado, vem sendo aplicado na área do crédito à exportação de pequenas
empresas. O programa apresenta características de crédito orientado, encontrado em programas
públicos, exceto no que se refere às taxas de juros nas linhas de crédito, que são supridas, na maior
parte, por recursos normais do banco, mas contando com linhas de crédito do BNDES.
Trata-se de programa de crédito à exportação do Banco Santander Banespa – Programa
Exportar, instituído em 2003, para financiamento (giro, investimento, produção e comercialização
90

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

das exportações) a pequenas e médias empresas, e facilitado pelo fato do banco fazer parte de
instituição financeira global, com presença em mais de quarenta países, permitindo repassar aos
clientes informações sobre importadores de produtos brasileiros.183
Previamente ao lançamento do programa de crédito, o banco já havia definido como um dos
seus objetivos estratégicos no Brasil dedicar-se com mais intensidade a empréstimos a PMEs,
buscando, com isso, resultados diferenciados em relação à atuação do mercado bancário brasileiro
tradicional. Na análise do Santander Banespa “mais competição vai ocorrer nesse segmento”. Para
isso, trouxe da Matriz espanhola a visão estratégica de que vale a pena investir em PME, assim
consideradas as empresas em dois estratos de faturamento: até 10 milhões de reales, e de 10 milhões
a 100 milhões de reales.
Na análise prévia sobre a situação das empresas de pequeno porte no Brasil, o banco
Santander constatou que as empresas são dispersas, em termos associativos. Elas estão
representadas por associações setoriais e, nem todas, dão uma atenção especial para as de pequeno
porte. No entanto, no caso das exportações, muitas associações criaram um departamento ou
gerência para atender às necessidades das empresas exportadoras (contando inclusive com apoio da
Apex) e, nesse caso, a maioria das empresas são de pequeno e médio portes.
No crédito à exportação, as dificuldades das PME no acesso ao crédito estão relacionadas à
baixa escala de exportação, ao desconhecimento das linhas de crédito disponíveis, à dificuldade de
apresentação de garantais reais, à extensa documentação requerida, e às exigências de
reciprocidades ou colaterais pelos bancos.
O Santander Banespa lançou o “Programa Exportar” baseado no entendimento de que deve
atuar de forma diferente dos demais bancos para a ampliação dos negócios com o segmento das
PMEs, conhecendo a situação das empresas e identificando a exportação como uma atividade que
deve crescer cada dia mais. O programa constitui, ainda, uma forma de atrair maior número de
firmas de pequeno e médio porte para o banco, e com isso expandir os negócios corporativos.
Firmas que exportam regularmente apresentam mercados mais diversificados, absorvem tecnologia
adequada aos padrões internacionais, desenvolvem estruturas gerenciais adaptadas ao maior
dinamismo de seus negócios, constituindo empresas mais fortalecidas e em melhores condições de
ampliação dos negócios. Na avaliação do Santander Banespa, há forte potencial de crescimento das
exportações brasileiras, dado que a participação do Brasil é de pouco mais de 1% do comércio
internacional. Mais ainda, para os produtos com maior valor agregado, a participação brasileira não
passa de 0,5%.
Características do Programa Exportar
O programa teve início em agosto de 2003 com núcleos em cinco municípios no Estado de
São Paulo e três no Rio Grande do Sul. Novos núcleos são criados com o crescimento da carteira de
empresas atendidas, como é o caso de mais um núcleo em São Paulo e outro no Rio Grande do Sul,
a partir de maio de 2004. Em junho de 2004 o Programa Exportar foi iniciado nos Estados de Santa
Catarina e Paraná, com um núcleo em cada estado.
As empresas candidatas a receber crédito são assistidas pelos técnicos do banco que são
treinamento nas especificidades setoriais, podendo realizar o papel de agentes de fomentos de
exportação, transmitindo às empresas ou encaminhando-as para as instituições que podem dar
informações sobre a atividade de exportação, como normas governamentais, acesso a mercados
externos, participação em feiras, etc.

183

O Programa Exportar do Santander foi planejado e é acompanhado por Dorothea Werneck, ex Ministra do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior e ex Diretora da Agência de Promoção de Exportações – APEX.

91

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

Na preparação prévia das empresas, o gerente realiza a visita local, analisa os planos na
exportação que inclui, por exemplo, a participação em feiras, remessa de amostras e as exportações
programadas. O banco também assessora com informações sobre o importador.
Após a avaliação do potencial exportador da empresa (capacidade gerencial, tecnológica e
outras) e das necessidades de crédito, o gerente do Programa Exportar elabora com a empresa um
plano de financiamento, em função das necessidades identificadas, definindo os produtos e serviços
a serem utilizados e o valor do crédito. O plano de financiamento é apresentado a um Comitê
Estratégico de Exportação e Negócios, para aprovação, do qual participam a área de análise de
riscos, o gerente comercial e um especialista da área de comércio exterior do banco. Na análise de
crédito, o potencial de negócios futuros junto ao banco é também analisado e o comitê é assessorado
pela associação da qual a empresa candidata pertence.
O Banco Santander Banespa estabeleceu parcerias com associações empresariais que apóiam
as empresas exportadoras – o banco encaminha as empresas que precisam de orientação e as
associações encaminham as empresas que necessitam financiamento. O treinamento dos gerentes de
exportação também é realizado em parceria com as associações, de forma que os gerentes
conheçam, via associação, as particularidades do setor.
O Banco também trabalha em parceria com entidades que possam apoiar e agregar
conhecimentos sobre as exportações, como o Sebrae, Universidades, institutos de tecnologia (como
o IPT da USP e o ITAL da Unicamp), trading companies e empresas de logística (como o FedEX
que dá desconto de até 50% para as empresas do Programa Exportar).
A avaliação da necessidade de crédito prevê a concessão para atendimento de diversas fases
na exportação, contemplando empresas nas fases iniciais da exportação, as que se preparam para
exportar, e as empresas exportadoras que apresentam planos de expansão das vendas externas. Na
primeira fase (adequação de produtos e processos, adoção de novas tecnologias, adaptação de
produtos a normas internacionais, e ações no exterior, como participação em feiras e missões para a
promoção de produtos, a elaboração de catálogo de vendas e a preparação e remessa de amostras) as
empresas necessitam basicamente de capital de giro. Quando começam a exportar, além do giro, são
atendidas com financiamentos para a produção e comercialização das exportações. Na fase seguinte,
além do giro e do crédito para exportação, inclui-se o financiamento aos investimentos para
expansão da capacidade.
Como o banco está presente em mais de quarenta países, pode oferecer suporte externo para a
obtenção de informações e ofertar créditos para os importadores interessados em comprar do Brasil.

3.

Programa de crédito vinculado a Regime Especial de
tributação de MPEs – Geraminas-BDMG

O programa Geraminas é um programa de crédito lastreado por doações mensais de empresas
ao Fundo de Fomento e Desenvolvimento Sócio-econômico do Estado de Minas Gerais – Fundese,
gerido pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais-BDMG. As empresas doadoras são
contribuintes do regime especial de tributação do ICMS do Estado, denominado MicroGerais, um
regime tributário simplificado para micro e pequenas empresas.

92

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N° 168

O aspecto mais inovador do programa relaciona-se à integração da legislação tributária com o
programa de financiamento aos pequenos empreendedores, em que a entrada no regime de
tributação implica, desde que seguida da contribuição espontânea mensal, a possibilidade de
obtenção de financiamento no fundo bancário formado pelos próprios empresários. Nesse sentido, o
programa apresenta funções educativas de indução ao comportamento contributivo dos empresários,
o que é facilitado pelas suas características que conduzem à formalização/entrada no regime do
imposto, a saber, a carga tributária não excessiva, a simplificação da arrecadação e a possibilidade
de obtenção de empréstimos acoplados a incentivos à modernização da empresa.
A criação do Programa envolveu parcerias do governo estadual com treze entidades, como
associações empresariais, de contabilidade e de apoio a pequenas empresas, possibilitando a criação
da contribuição espontânea para a formação do fundo de empréstimos. Para o desenho do programa
e a identificação da capacidade contributiva e da situação econômica dos pequenos
empreendedores, foi realizada pesquisa de campo com 1.200 empresas, além de avaliação de
programas de apoio às MPEs existentes em vários países. A pesquisa indicou, entre diversas outras
questões, que apenas 20% dos empresários de Minas Gerais utilizavam computadores e somente
2,4% tinham máquinas registradoras para emissão de documentos fiscais.184 Essas informações
serviram para orientar as modalidades de financiamentos a serem contemplados prioritariamente no
programa.
O Fundo começou a operar em 1998, quando tiveram início as doações dos empresários,
concomitantemente aos recolhimentos tributários sob o novo regime simplificado do ICMS
adotado, seguindo-se a instituição da linha de crédito (Geraminas) no BDMG para a concessão dos
empréstimos.
O programa de crédito concede empréstimos de 2 mil reales até 360 mil reales, para
investimentos fixos e mistos, com juros mensais de 1% e prazos de 2 a 3 anos. Para alcançar os
empresários no interior, em face do número limitado de agências do banco e a grande dimensão
territorial do Estado, que dispõe de mais de 800 municípios, foram realizadas parcerias com
associações empresariais e com o SEBRAE, permitindo atingir 70% das cidades de Minas e
propiciar o acesso das MPEs à linha de crédito nas localidades onde o banco não dispõe de agência.
A partir de 2003, as solicitações de crédito têm como opção o acesso pela Internet.
O programa dispõe ainda de linha de microcrédito, em que o BDMG repassa recursos, como
banco de segundo piso, para entidades especializadas nesse tipo de operação, como as organizações
não governamentais (Ongs). São concedidos financiamentos a empreendedores formais e informais,
de valor entre 200 a 10 mil reales, em 240 municípios mineiros. No período 1998-julho de 2003
essa linha atendeu a 5.440 microempresários e realizou 6.785 operações de microcrédito, em valores
crescentes no tempo, nas modalidades capital de giro (58%) e fixo (42%). Há preponderância de
empresárias mulheres entre os mutuários (55%).
Os dados indicam os seguintes resultados globais, conforme a tabela abaixo:
• o programa obteve resultados crescentes desde sua criação, ampliando continuamente o
número de operações, os montantes globais dos financiamentos e as cidades atendidas;
• conforme informações das empresas atendidas, foram mantidos/gerados 24,7 mil
empregos no período;
• nos financiamentos, 77% são de valor até 20 mil reales, indicando o atendimento
preferencial a empresas de porte mais reduzido, mas também indicando que muitas
empresas se encontram em situação de informalidade, uma vez que o valor dos
financiamentos está relacionado ao faturamento fiscal da empresa.
184

Programa de Financiamento ao Desenvolvimento das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte do Estado de Minas Gerais,
Manual Técnico, publicação conjunta da Secretaria de Fazenda de Minas Gerais e do SEBRAE/MG, sem data.

93

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

• a classificação setorial das empresas indica preponderância do comércio, com 79% das
empresas, ficando a indústria com 14% e serviços com 7%;
• a finalidade dos empréstimos indica que apenas 2% dos valores foram aplicados
exclusivamente em investimentos fixos, porém esse tipo de aplicação encontra-se nos
financiamentos mistos (fixo e giro), que representam 57% do total de empréstimos no
período 98-julho/2003.
Tabela 32

PROGRAMA DE CRÉDITO GERAMINAS – RESULTADOS NO PERÍODO 1998-2002
(Valores em miles de reales correntes)
Ano

Número de
Contratos

Valor Total dos
Financiamentos

Valor Médio

Cidades
Atendidas

Empregos

1998

465

3 840

8,3

108

875

1999

2 655

24 497

9,2

306

5 500

2000

7 717

39 572

14,6

280

5 160

2001

3 230

58 960

18,3

328

5 913

2002

4 134

75 506

18,3

391

7 261

Total

13 201

202 375

15,3

510

24 709

Fonte: Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais-BDMG.

O regime especial de tributação permite aos contribuintes descontar até 50% do imposto
mensal devido, correspondentes a despesas realizadas com treinamento gerencial e de pessoal,
contratação de empregados, investimentos em máquinas e equipamentos e aquisição de novas
tecnologias.
A linha de crédito é auto-alimentada pelos novos recursos que entram mensalmente,
provenientes das doações e dos retornos dos juros. As contribuições mensais espontâneas ao
Fundese equivalem a 31,00 reales fixos, no caso dos microempresários, e alíquotas de 0,5% a
10,5%, para pequenos empresários, que incidem sobre 10 faixas de referência, cujos valores são
atualizados monetariamente todo ano. O limite de receita anual para enquadramento das empresas
de pequeno porte é de 1.800 mil reales. Há 300 mil empresas contribuintes do ICMS, sendo 240 mil
de micro e pequeno portes. Desses, cerca de 180 mil são contribuintes para o fundo de empréstimos.
Sendo banco de fomento o BDMG não dispõe de agências, funcionando na sede. Os
empréstimos são realizados por meio de convênios com a rede bancária. Decorridos cinco anos de
atuação do programa, registram-se contratações de empréstimos que alcançaram cerca de 7,3% dos
180 mil empresários que realizaram contribuições para o fundo de crédito.

94

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

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96

CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

Serie

Desarrollo productivo
Números publicados
Algunos títulos de años anteriores se encuentran disponibles
119. La dinámica de oferta y demanda de competencias en un sector basado en el conocimiento en Argentina, Red de
reestructuración y competitividad, (LC/L.1696-P) Nº de venta S.02.II.G.8 (US$10.00) 2002. www
120. Innovación tecnológica y perfeccionamiento de las pequeñas y medianas empresas en la República Federal de
Alemania: Incentivos y financiamiento, Jörg Meyer-Stamer y Frank Wältring, Red de reestructuración y
competitividad (LC/L.1709-P) Nº de venta S.02.II.G.16 (US$10.00) 2002. www
121. Microfinanzas en países pequeños de América Latina: Bolivia, Ecuador y El Salvador, Francesco Bicciato, Laura
Foschi, Elisabetta Bottato y Filippo Ivardi Ganapini, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1710-P) Nº de
venta S.02.II.G.17 (US$10.00) 2002. www
122. Acceso a tecnología después de las reformas estructurales: la experiencia de las pequeñas y medianas empresas en
Brasil, Chile y México, Marco Dini, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1738-P), Nº de venta
S.02.II.G.50 (US$10.00) 2002. www
123. Pequeñas y medianas empresas industriales y política tecnológica: el caso mexicano de las tres últimas década, Mauricio
de Maria y Campos, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1743-P), Nº de venta S.02.II.G.55 (US$10.00)
2002. www
124. Fatores de competitividade e barreiras ao crescimento no pólo de biotecnologia de Belo Horizonte, Pablo
Fajnzylber, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1754-P), Nº de venta S.02.II.G.66 (US$10.00) 2002.
www

125. Adquisición de tecnología, aprendizaje y ambiente institucional en las PYME: el sector de las artes gráficas en México,
Marco Dini, Juan Manuel Corona y Marco A. Jaso Sánchez, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1755-P),
Nº de venta S.02.II.G.67 (US$10.00) 2002. www
126. Las PYME y los sistemas de apoyo a la innovación tecnológica en Chile, Marcelo Monsalves, Red de reestructuración y
competitividad (LC/L.1756-P), Nº de venta S.02.II.G.68 (US$10.00) 2002. www
127. As políticas de apoio à geração e difusão de tecnologias para as pequenas e médias empresas no Brasil, Marisa dos
Reis Botelho y Maurício Mendonça, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.1757-P), Nº de venta S.02.II.G.69
(US$10.00) 2002. www
128. El acceso de los indígenas a la tierra en los ordenamientos jurídicos de América Latina: un estudio de casos, José Aylwin,
Volumen I, Red de desarrollo agropecuario (LC/L.1767-P), S.02.II.G.81 (US$10.00), 2002 y Volumen II, José
Aylwin, Red de desarrollo agropecuario (LC/L.1767/Add.1-P), Nº de venta S.02.II.G.82 (US$10.00) 2002. www
129. Structural reforms, technological gaps and economic development. A Latin American perspective, Mario Cimoli
and Jorge Katz, Restructuring and competitiveness network (LC/L.1775-P), Sales Nº E.02.II.G.89 (US$ 10.00)
2002. www
130. Business development service centres in Italy. An empirical analysis of three regional experiences, Emilia
Romagna, Lombardia and Veneto, Carlo Pietrobelli and Roberta Rabelloti, Restructuring and Competitiveness
Network (LC/L.1781-P), Sales Nº E.02.II.G.96 (US$ 10.00) 2002. www
131. Hacia una educación permanente en Chile, María Etiennette Irigoin, Red de reestructuración y competitividad
(LC/L.1783-P), Nº de venta S.02.II.G.98 (US$10.00) 2002. www
132. Job losses, multinationals and globalization: the anatomy of disempowerment, Beverley Carlson, Restructuring and
Competitiveness Network (LC/L.1807-P), Sales No. E.02.II.G.118 (US$ 100.00) 2002. www
133. Toward a conceptual framework and public policy agenda for the Information Society in Latin America and the
Caribbean, Martin Hilbert and Jorge Katz, Restructuring and Competitiveness Network (LC/L.1801-P), Sales No.
E.02.II.G.114 (US$10.00) 2002. www
134. El conglomerado del azúcar del Valle del Cauca, Colombia, Centro Nacional de Productividad (CNP) Colombia, Red de
Reestructuración y Competitividad (LC/L.1815-P), Nº de venta S.02.II.G.129 (US$ 10.00) 2002. www

97

Crédito bancário no Brasil: Participação das pequenas empresas e condições de acesso

135. Las prácticas de herencia de tierras agrícolas:¿una razón más para el éxodo de la juventud?, Martine Dirven, Red de
desarrollo agropecuario (LC/L.1837-P), Nº de venta S.02.II.G.143 (US$10.00), 2002. www
136. Análisis de la política de fomento a las pequeñas y medianas empresas en Chile, Marco Dini y Giovani Stumpo, Red de
reestructuración y competitividad (LC/L.1838-P), Nº de venta S.02.II.G.144 (US$10.00) 2002. www
137. Estratégias corporativas e de internalização de grandes empresas na América Latina, Germano Mendes de Paula, Red de
reestructuración y competitividad (LC/L.1850-P), Nº de venta P.03.II-G.18 (US$ 10.00) 2003. www
138. Cooperação e competitividade na indústria de software de Blumenau, Néstor Bercovich y Charles Swanke, Red de
reestructuración y competitividad (LC/L.1886-P), Nº de venta P.03.II.G.96 (US$ 10.00) 2003. www
139. La competitividad agroalimentaria de los países de América Central y el Caribe en una perspectiva de liberalización
comercial, Mônica Rodrigues y Miguel Torres, Red de desarrollo agropecuario (LC/L.1867-P), Nº de venta S.03.II.G.37
(US$10.00), 2003. www
140. Políticas para el fomento de los sectores productivos en Centroamérica, Eduardo Alonso, Red de restructuración y
competitividad (LC/L.1926-P), Nº de venta S.03.II.G.83 (US$10.00), 2003.
141. Illusory competitiveness: The Apparel Assembly Model of the Caribbean Basin, Michael Mortimore, Investments and
Corporate Strategies Network (LC/L.1931-P), Sales No. E.03.II.G.89 (US$10.00), 2003. www
142. Política de competencia en América Latina, Marcelo Celani y Leonardo Stanley, Red de reestructuración y
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reestructuración y competitividad (LC/L.2061-P), Nº de venta S.04.II.G.5 (US$10.00), 2004. . www
146. Alcanzando las metas del milenio: una mirada hacia la pobreza rural y agrícola, Martine Dirven, Red de desarrollo
agropecuario (LC/L.2062-P), Nº de venta S.04.II.G.6 (US$10.00), 2004.. www
147. Tratados de libre comercio y desafíos competitivos para Chile: la extensión de la ISO 9000, Alicia Gariazzo, Red de
reestructuración y competitividad (LC/L.2068-P) N° de venta S.04.II.G.11 (US$10.00), 2004. www
148. Observatorio de empleo y dinámica empresarial en Argentina, Victoria Castillo, Sofía Rojo Brizuela, Elisabet Ferlan,
Diego Schleser, Agustín Filippo, Giovanni Stumpo, Ximena Mazorra y Gabriel Yoguel, Red de reestructuración y
competitividad (LC/L.2072-P), Nº de venta S.04.II.G.15 (US$10.00), 2004. www
149. Capacitación laboral para las pyme: una mirada a los programas de formación para jóvenes en Chile, Roberto Poblete
Melis Red de reestructuración y competitividad (LC/L.2076-P), N° de venta S.04.G.19 (US$10.00), 2004. www
150. El microcrédito como componente de una política de desarrollo local: el caso del Centro de Apoyo a la Microempresa
(CAM), en la Ciudad de Buenos Aires, Néstor Bercovich, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.2103-P), Nº de
venta S.04.II.G.41 (US$10.00), 2004. www
151. La inversión extranjera directa en República Dominicana y su impacto sobre la competitividad de sus exportaciones,
Sebastián Vergara, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.2120-P), Nº de venta S.04.II.G.47 (US$10.00),
2004. www
152. Políticas públicas y la agricultura latinoamericana en la década del 2000, Pedro Tejo, Red de desarrollo agropecuario
(LC/L.2121-P), Nº de venta S.04.II.G.50 (US$10.00), 2004. www
153. Salud y seguridad en el trabajo y el papel de la formación en México (con referencia a la industria azucarera),
Leonard Mertens y Mónica Falcón, (LC/L.2130-P), Nº de venta S.04.II.G.58 (US$10.00), 2004. www
154. Créditos a pyme en Argentina: racionamiento crediticio en un contexto de oferta ilimitada de dinero, Agustín Filippo,
Daniel Kostzer y Diego Schleser, Red de reestructuración y competitividad (LC/L.2136 -P), Nº de venta S.04.II.G65
(US$10.00), 2004. www
155. Competitividad del sector agrícola y pobreza rural: el papel del gasto público en América Latina, Mónica Kjöllerström,
Red de desarrollo agropecuario (LC/L.2137-P), Nº de venta S.04.II.G.66 (US$10.00), 2004. www
156. A Chilean wine cluster? Governance and upgrading in the phase of internationalization Evert-Jan Visser, Red de
reestructuración y competitividad (LC/L.2138-P), Nº de venta E.04.II.G.67 (US$10.00), 2004. www
157. Áreas económicas locales y mercado de trabajo en Argentina: estudio de tres casos, Ximena Mazorra, Agustín
Filippo y Diego Schleser, Red de reestructuración y competitividad (LC/L. 2151-P), Nº de venta S.04.II.G.79 (US$
10.00), 2004. www
158. Acuerdos bilaterales de inversión y demandas ante Tribunales Internacionales: la experiencia argentina reciente,
Leonardo E. Stanley, Red Inversiones y Estrategias Empresariales (LC/L.2181-P), Nº de venta S.04.II.G.108 (US$10.00),
2004. www

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CEPAL - SERIE Desarrollo productivo

N° 168

159. Innovación participativa: experiencias con pequeños productores agrícolas en seis países de América Latina, Marcela
Cordoba, Maria Verónica Gottreet, Tito Lopez y Asociados, Alvaro Montes, Liudmila Ortega, y Santiago Perry,
Red de Desarrollo Agropecuario (LC/L. 2203-P), Nº de venta S.04.II.G.128 (US$ 10.00), 2004. www
160. Liberalización comercial agrícola con costos de transporte y transacción elevados: evidencia para América Latina,
Mónica Kjöllerstrom, Red de Desarrollo Agropecuario (LC/L.2232-P), Nº de venta S.04.II.G.152 (US$10.00),
2004. www
161. Macroeconomic policies, sector performance and firm response: the case of Chile’s textile goods market, Beverly
Carlson, Restructuring and Competitiveness Network, (LC/L.2255-P), Sales No. E.05.II.G.12 (US$10.00), 2005.
www

162. Informe sobre la industria automotríz mexicana, Michael Mortimore, Faustino Barron, Red de reestructuración y
competitividad (LC/L.2304-P), Nº de venta S.05.II.G.52 (US$10.00), 2005.www
163. El precio del mercado de la tierra desde la perspectiva económica, Raimundo Soto, (LC/L.2355-P), Nº de venta
S.05.II.G.97 (US$10.00), 2005. www
164. La importancia de la tecnología de la información y la comunicación para las industrias de recursos
naturales, Graciela Moguillansky, (LC/L.2401-P), Nº de venta S.05.II.G.148 (US$10.00), 2005. www
165. Science and technology policies in open economies: The case of Latin America and the Caribbean, Mario Cimoli,
Joao Carlos Ferraz y Annalisa Primi, (LC/L.2404-P), Nº de venta E.05.II.G.151 (US$10.00), 2005. www
166. El (lento) retorno de las políticas industriales en América Latina y el Caribe, Wilson Peres, (LC/L.2419-P), Nº de
venta S.05.II.G.166 (US$10.00), 2005. www
167.

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El lector interesado en números anteriores de esta serie puede solicitarlos dirigiendo su correspondencia a la Unidad Inversiones y
Estrategias Empresariales de la División Desarrollo Productivo y Empresarial, CEPAL, Casilla 179-D, Santiago, Chile. No todos los
títulos están disponibles.
Los títulos a la venta deben ser solicitados a la Unidad de Distribución, CEPAL, Casilla 179-D, Santiago de Chile,
Fax (562) 210 2069, publications@eclac.cl.
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